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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Conversas reais... destes tempos.

        Um cartoon com muito de verdade.

        São estes os tempos "modernos", com valores muito "seletivos" e poucos agradecimentos.


       Parece ser mais fácil e motivador reclamar. Agradecer, elogiar parecem verbos em desuso. Talvez a natureza conflituosa seja mais característica da nossa condição animal do que propriamente o reconhecimento das qualidades e do bem humanos, bem mais afetivo.

        Eu, porque não gosto de filas, vou continuar a agradecer (mesmo que, por vezes, sinta que devia ser também mais agradecido). 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

'Amor de Perdição' em versão muda

      Na procura de materiais que se cruzam com a educação literária.

    Abordar Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, em excertos e na escolha de capítulos avulsos é do pior que um programa de ensino possa propor. Ainda assim, permite uma liberdade (relativa) de ação, confinada apenas por uma gestão que se impõe na articulação / planificação de outros conteúdos.
    A noção da globalidade da intriga desta narrativa passional romântica pode ser conseguida através do visionamento de uma versão fílmica, entre as várias que a obra em particular já inspirou - a de 1943, de António Lopes Ribeiro, a preto e branco, ainda consegue provocar alguns (sor)risos à juventude. Depois virão os propósitos da escrita e do estilo, bem como o foco de análise no registo epistolográfico (citado e marcadamente deítico, nas condições do ato de escrita) que tão relevante se torna para a comunicação dos amantes.
    Foi precisamente na busca de uma dessas versões que me cruzei com um pequeno registo de cinema mudo. Não resisti a estes cerca de dois minutos e meio! Os efeitos expressivos, no mínimo, tornam o drama camiliano numa encenação cómica:

Excerto do programa "Os Anos de Ouro do Cinema Português" 
RTP2

   É verdade que o dramalhão romântico se ajusta a alguma comicidade para os espíritos leitores mais contemporâneos. Pode mesmo dizer-se que esta versão cinematográfica atinge o pleno, com a representação das personagens entre o fantasmagórico e o draconiano.
      Imagino o que seria a totalidade desta película.

     "Adeus! Amor de Perdição. Até à eternidade!"

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Vamos ao cartoon...

       Regressado ao trabalho, nada como levar isto com espírito cómico.

      Não se vai a lado nenhum. Apenas se vai tratar / abordar o cartoon enquanto género textual tão propício à crítica, à visão do mundo denunciadora de algumas fragilidades, ao trabalho de aspetos polémicos tão atuais quanto remotos - alguns dos quais com anacronismos evidentes.

Slide 1: Apresentação

Slide 2: Informação genérica (I)

Slide 3: Informação genérica (II)

Slide 4: Instruções de trabalho

Slide 5: Exemplos de dois cartoons

Slide 6: Construções de tópicos a partir das instruções de análise (I)

Slide 7: Construções de tópicos a partir das instruções de análise (II)

     Do grafismo icónico ao texto, planificam-se tópicos (com base na análise feita em interação) e, depois, há sempre a oportunidade de orientar para a produção escrita de apreciações críticas: um parágrafo para se descrever o que se observa objetivamente; outro para interpretar os dados descritos à luz da análise e da intencionalidade crítica; um final para uma tomada de posição apreciativa / depreciativa, fundamentada, face à construção do cartoon. Dado o esquema / plano textual, a partir daqui é só facultar o tempo de textualizar, de interagir pontualmente - atentando na mancha gráfica / no esquema textual, na extensão frásica (que não deverá estender-se por mais de duas linhas), na coesão interfrásica e na seleção / adequação vocabular. Isto para começar. Depois far-se-á o trabalho corretivo mais ao nível da microestrutura (da ortografia e da pontuação). Não se pode ter a pretensão de corrigir tudo de imediato.

        Passo a passo, vai-se construindo uma oficina de escrita, articulada com conteúdos de leitura (programaticamente contemplados na disciplina de Português).
        

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Maria Lionça na senda da ficção e da verdade

   A fronteira do fictício e do real é como a linha do horizonte: ilusão de ótica a todo o tempo renovada, procurando a terra da utopia.

   Tudo a propósito da poesia de Miguel Torga, ainda que Maria Lionça seja nome para uma personagem de um conto com título homónimo publicado em Contos da Montanha (1941). O próprio autor apresenta-a como criação, invenção, imaginação que se torna verdadeira. É como a obra do escritor: quanto mais ficcionada, criada ou mais imaginada, mais real.
     Como força materna, ela resulta numa espécie de caleidoscópio, nas múltiplas variações de luz que uma figura feminina é capaz de dar ao mundo. Neste sentido, Maria Lionça é universal(ista), fonte de energia, e (por isso) encontra-se na origem e nos ciclos renovados da vida. Fiando e tecendo, assim vai compondo a meia, com a linha ou o fio que, dedilhados, a mão já susteve entre a roca e o fuso, numa imagem de continuidade de vida.

Entrevista de Miguel Torga ("Viagem às Terras de Portugal" - Rede Manchete, 1987)

      Na vida literária, a obra também se compõe de energia, luta, força da palavra, da linguagem que traduz a própria criação e invenção. Assim a verdade interior do criador é partilhada com o seu leitor, tal como a mãe dá ao filho o que de melhor tem.
      No feminino da terra, na força telúrica que o poeta dá a ler, também se revela uma Maria Lionça. Mesmo o masculino a reflete, nomeadamente nesse negrilho plasmado em verso (não deixa de ser árvore de grande porte na expressão da criação poética). Qual Anteu, o poeta alimenta-se da força da terra e, dessa forma, dá voz à Poesia. Nesta apresentam-se marcadamente quatro linhas orientadoras: um desespero humanista, configurado no inconformismo, na luta e na revolta de um Orfeu Rebelde face ao(s) poder(es) que transcende(m) o Homem e o deixa(m) preso a uma realidade que não dá nem traz esperança, utopia ou felicidade; o telurismo como expressão da força e da energia que decorrem da vivência e da proximidade à terra; a problemática religiosa, na questionação de um Deus que, não sendo negado, é acusado de não ser humano nem próximo da racionalidade que o poeta quer sublinhada na vida humana;  o drama da criação poética, associado ao esforço, ao trabalho extenuante e contínuo dos que desejam a superação das limitações (nomeadamente os da escrita poética). 
      No cruzamento destas linhas temáticas cabe também falar de Pátria, de Nação, de Alma e Cultura de um povo - e aqui Maria Lionça também é traço de alma de um país e da sua cultura; de terra e de mar abertos ao mundo, na descoberta de caminhos que têm como destino último a Universalidade, esse princípio que nos aproxima de todos os outros, na busca infindável do que nos leva à felicidade, à utopia.
      No reconhecimento do poeta, sigam-se-lhe os trilhos da terra:

Documentário televisivo (Porto Canal) sobre o escritor Miguel Torga
      
     Nas quelhas da vida, também composta de múltiplas ruas, há caminhos a descobrir para lá da aparência e da superficialidade. É na busca do que há de mais profundo, e verdadeiro, que a aproximação ao ideal se constrói. Com esforço e com trabalho.

segunda-feira, 19 de março de 2018

Viajando... de comboio?

     Não é a propósito desta carruagem, nem tão pouco de nenhum comboio. Nela, contudo, fica sem que nele se viaje... porque de tempo (acima de tudo) se trata.

     Em torno de uma narrativa epónima (de um nome apenas para três personagens, feitas de uma só), compõe-se uma viagem no tempo.
    Assim se lê "George", esse conto de Maria Judite de Carvalho que configura as três idades de uma mulher, surgida como adulta aos olhos do leitor, no início e no final da narrativa. É este o ponto de partida (e será o de chegada) para alguém que, regressando à sua aldeia de infância, se reencontra com Gi (George na sua juventude, próxima dos vinte anos). Não se trata de relembrar ou recordar o bem passado; antes um tempo que George quer ver apagado, para que não se sinta presa / condicionada (tudo o que a quarentona de sucesso parece não querer).
      O passado esfumado, qual memória que se vai esgotando, é tempo recuado em mais de vinte anos; é rosto fixado num retrato de uma mala qualquer. É uma jovem que podia ser uma filha da protagonista; porém, surge como esboço, como figura de alguém com disposição para a partida - alguém que levará uma mala velha, de cabedal, para sair do "cu de Judas" (onde fica Carlos, que, ao contrário dela, se deixa prender). A reconstrução da memória é como uma pintura: inicialmente, apenas um rosto vago sem contornos, com o sorriso dos dezoito anos (bem distinto do de Georgina); depois, um reencontro, espelhando e  revendo o que não se quer presentificado.
      O presente é o instante do regresso à vila, para vender uma casa (para que nada prenda a um tempo ou a um espaço), pois George é mulher que não se quer ver agarrada a nada (a não ser, talvez, ao "último dos seus amores"). É o momento da consciência do duplo (ou do múltiplo) e de um percurso de errância, sempre na predisposição de partir, de viajar - até porque a vida é feita de constantes partidas / viagens / percursos. É ainda o tempo de despedida do passado e de uma viagem de comboio, qual metáfora da passagem do tempo. É o agora de uma vivência que se faz em Amesterdão, com um trabalho que agrada e faz da adulta George uma pintora bem sucedida, que adora viajar; que prefere os pensamentos agradáveis (feitos de um gosto materialista e de uma propensão para um controlo do tipo quem tudo pode e tudo quer - porque tudo tem).
       O futuro é encarado no momento em que vai o "comboio a fugir de dantes". Aparece, então, um novo esboço, o de Georgina, uma idosa que se sente só (por causa desse "crime" da velhice), com necessidade de retratos (o da menininha que foi Gi, saída da vila com uma foto no fundo da mala). Vê pior, as mãos enrugadas tremem (nada pior para quem foi uma conceituada pintora) e o "mundo já não lhe pertence", aos setenta anos.
     20, 45, 70 anos - a passagem do sorriso do dia para o da noite. O 'eu' no reencontro, na descentração, com o outro 'eu' (o de outros tempos, sejam passados sejam futuros). Nenhum deles George quer. Só o presente, o instante, o momento que controla, à mesma lógica das emoções que são contidas ("uma simples lágrima no olho direito, o outro, que esquisito, sempre se recusa a chorar. É como se se negasse a compartilhar os seus problemas, não e não" / "Não tive desgosto nenhum, nenhum. Um encontro, um simples encontro...").

       A pretensa liberdade do 'eu'. A adulta que tudo julga controlar (inclusive o tempo). A pintora que expõe, que tem sucesso e acredita poder "fechar os olhos" a tudo o que lhe desagrada. Acredita que a mala cara, leve, de rodinhas não dará lugar a uma "carteira preta, cara, talvez italiana, italiana, sim". Porém, "tudo passa", por mais que a antecipação disso incomode George - título narrativo para um presente que dura (só até chegar o futuro).
      

sexta-feira, 16 de março de 2018

De George a Modigliani, com Souza-Cardoso e Laranjeira pelo meio

     Quando de "George" (que também foi Gi e será Georgina) se passa a Modigliani, a Literatura rima com Pintura.

      É nesta expressão interartística que o conto de Maria Judite de Carvalho se afirma, na expressão e na reflexão sobre a vida e os seus diferentes ciclos (nomeadamente, 'as três idades' da Humanidade).
    Ao escultor e pintor italiano (1884-1920), contemporâneo de nomes como Picasso, Amadeu Souza-Cardoso - e, inclusivamente, Manuel Laranjeira -, associam-se, por norma, os quadros de nus femininos com poses estilizadas, pintadas de sensualidade e mistério, além de demonstrativas de pescoços alongados a sustentar rostos tomados pelo respeito, pela serenidade e pela naturalidade figurativa, em associação a uma estética de declarada vanguarda.

Exibição de quadros de Modigliani (1884-1920)

    No seu percurso plástico, são notórias as influências de Cézanne, Renoir, Matisse, Tolouse-Lautrec, Picasso (seu grande rival) e Edvard Munch, além das estéticas do expressionismo e do simbolismo, combinadas na construção de um estilo pessoal que o fez retratar não só conhecidos, amigos mas também anónimos.
     O retrato do artista foi já cinematograficamente pintado (Modigliani - A Paixão Pela Vida, dirigido por Mick Davis) em 2004, numa soberba interpretação de Andy Garcia e na recriação do que seja a alienação face à vida - eventualmente a mais feminina das seduções e paixões do Homem:

Trailer do filme de Mick Davis (2004) sobre a biografia de Modigliani

    A centralidade feminina de Amedeo Mondigliani é revista no mencionado conto de Maria Judite de Carvalho, além dessa construção feita de inconsciente ou subconsciente próprios da deambulação reflexiva, psicológica, mental acerca do que é a vida. O artista italiano explicitou-o quando assumiu que “Aquilo que procuro não é o real nem o irreal, e sim o inconsciente, o mistério do que há de instintivo na raça humana". Conhecido o destino dentro de um sonho, as palavras do pintor assemelham-se às de George, "pintora já com nome nos marchands das grandes cidades da Europa", que prefere a despedida e o esquecimento do passado, para que o presente não fique preso à memória nem à consciência do porvir (por mais imaginativo que seja). Na tela que a memória e a imaginação também são, há traços, contornos, esfumados, imagens de vida. Por isso...

Maria Judite de Carvalho (1921-1998)
      "George fecha os olhos com força e deixa-se embalar por pensamentos mais agradáveis, bem-vindos: a exposição que vai fazer, aquele quadro que vendeu muito bem o mês passado, a próxima viagem aos Estados Unidos, o dinheiro que pôs no banco. O dinheiro no banco, nos bancos, é uma das suas últimas paixões. Ela pensa - sabe? - que com dinheiro ninguém está totalmente só, ninguém é totalmente abandonado. A velha Georgina já o deve ter esquecido."

      É nesta errância e neste son(h)o de George que o estado adulto vive, sem a velhice próxima, porque desta ainda está ("durante quanto tempo?") George livre.

      Na errância de ir mais além e no son(h)o da liberdade vai a Humanidade fazendo caminho, na certeza de um amanhã sempre sujeito a confirmação.

segunda-feira, 12 de março de 2018

Gi-George-Georgina

    Afinal, (também) Maria Judite de Carvalho.

    Na sequência da abordagem do conto "George", nada como apresentar a autora da narrativa, a partir de um pequeno documentário sobre a vida e obra daquela que, na escrita literária, se (re)viu mulher em diferentes idades e se compôs na solidão.

Documentário da RTPN (2011)

    Um visionamento que prossegue o tratamento de um pequeno texto informativo (para deteção de linhas temáticas, marcas de construção narrativa e registos de inspiração biográfica) e incide sobre uma pré-tarefa a dar continuidade / complemento à recolha de dados relativos ao trabalho anterior.
     Dos muitos dados contemplados, sublinham-se os seguintes:
"As Três Idades do Homem e Três Graças", 
de Hans Baldung Grien, 1539 (Museu do Prado)
a) consciência em movimento (interior da alma) de personagens, dimensionada no âmbito do psicológico;
b) vertente realista de retrato de uma sociedade frustrada, oprimida, isolada, marginal;
c) consciência da velhice e dos idosos (que todos seremos) no ciclo da vida;
d) técnica do monólogo interior (na expressão de uma consciência partilhada do pensamento);
e) exigência da colaboração do leitor (corresponsável na construção de imagens narrativas, por exemplo, a do espelho, no caso de 'George');
f) vivência no estrangeiro (França, Bélgica), tal como George (em Amesterdão);
g) crença mais no talento de pintora (tal como George) do que no de escritora.

      Vamos, então, a "George" (que já foi Gi e será Georgina), narrativa epónima marcada por essa consciencialização do encontro do 'eu' consigo mesmo, pela representação do que foi e do que será, numa espécie de despersonalização, distanciamento, descentração para se poder ver na memória, ao espelho ou n(um)a bola de cristal.

     Uma narrativa tão reflexiva e deambulante quanto o que Bernardo Soares fez com Pessoa (ou o último no primeiro). Porque a consciência da vida é feita de procura, numa viagem que nos faz estar atentos ao que há à volta de todos nós e que nos leva a revermos o percurso já feito e/ou a prevermos o que estará para além de nós a cada instante.

sábado, 3 de março de 2018

"Sempre é uma companhia"

      Citando o título de um conto de Manuel da Fonseca, publicado em O Fogo e as Cinzas (1951) ou o discurso de uma personagem.

      Em qualquer uma das circunstâncias, a referência à telefonia é um dado, para além da pressuposta inexistência dela à data do seu aparecimento. Centra-se neste facto narrativo o núcleo de uma intriga que, uma vez lida no conto mencionado, sempre me fez lembrar um episódio do filme 'O Costa do Castelo' (1943), dirigido por Arthur Duarte. A velhinha película a preto e branco traz, em registo cómico, o que oito anos depois o conto sugere, num contexto mais marcado pela visão neorealista e pelo retrato de uma ambiência de desesperança a evoluir para a expectativa da mudança e para a construção da esperança possível.
  Nesta exploração interartística (cinema e literatura), há coincidências a rever, paralelismos a construir, referências culturais a traduzir para qualquer momento que se reveja como crítico face à ausência de sinais de alegria ou de felicidade no seio dos homens.
       Assim, (re)vê-se o segmento fílmico, tomando como pré-tarefa do visionamento a construção de aproximações entre o conto e o que a tela / monitor dão a perceber:

Excerto fílmico de 'O Costa do Castelo' (versão de 1943)

        Entre os tópicos possíveis de abordagem / aproximação, registam-se os seguintes:

      a) centralidade da telefonia na alteração de comportamento das personagens (a partir do jantar de aniversário familiar a dar lugar ao baile / animação / prazer);
    b) o portador da telefonia como introdutor do fator de mudança (apologista da mudança e da tecnologia), num contacto com o mundo e na sugestão da música como fuga harmoniosa para uma realidade alternativa ao vivido;
     c) o ato explicativo associado ao funcionamento do aparelho;
    d) um contexto persecutório (associado à personagem do jovem masculino) numa aproximação, ainda que por razões diferenciadas, ao contexto de produção de O Fogo e as Cinzas (a fuga de alguém a um controlo equiparável à ditadura de Salazar, tal como no ambiente de desfavorecidos tomados pela desesperança, a dar lugar a uma esperança possível);
    e) a data da realização fílmica e a da publicação de O Fogo e as Cinzas (onde se insere "Sempre é uma companhia") compreendidas numa época associada à ditadura e ao controlo despótico de Salazar;
     f) a leitura sociopolítica do excerto fílmico equiparada à abordagem sociopolítica de uma narrativa neorrealista (com foco na questão social, na procura de uma saída feliz para uma realidade adversa).

        Mais haverá por certo, numa sugestão convocada por sinais que um tempo propõe à luz do que um par de obras dispõe e o leitor / espectador (re)compõe.

     Um caso de como as memórias do passado (vivido) se redefinem a cada momento que a motivação (da leitura e das aulas associadas) se impõe.
    

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Quase a terminar janeiro e...

      ... vem aí mais do mesmo.

      Quem construiu o programa de 12º ano da disciplina de Português, de facto, ou gosta muito de Pessoa ou contribui definitivamente para alguma saturação: ele é ortónimo - nas construções poéticas curtas e na obra Mensagem -, mais heterónimos; junta-se o semi-heterónimo Bernardo Soares e, para fechar, volta-se, com Saramago, a um universo pessoano com O Ano da Morte do Ricardo Reis. Faltou algum doseamento, num indisfarçável propósito de ver em Pessoa toda uma literatura, porque ele é todo um conjunto de poetas em verso, contista e prosador exímio, dramaturgo de uma peça ou cena com faces / máscaras / caracterizações "em gente".
        A riqueza e diversidade do poeta modernista são enormes, por certo. Falta saber se a adesão à multifacetada obra se consegue com a insistência na leitura de tanto verso, pensamento e (re)construído, criativo universo. Por mais que a multiplicidade se verifique, não deixa de comparecer a unidade: a de um criador que ecoa nas suas criações ou a da convergência de sensibilidades várias e aglutinad(or)as no escrito. É um Pessoa que se exprime, por fingimento artístico, através de várias pessoas e estéticas ou estilos diversos, numa representação feita em um só palco, mas com a fragmentação do ser própria do artista que se confronta com múltiplas verdades.

       Um Fernando Pessoa(s) acompanha os nossos dias, até não sei quando, à espera de uma linha de fronteira que se esbata no jogo do real ficcionado ou da ficção que tem muito de real concentrado num romance.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Conta-me histórias

     Em registo um tanto anacrónico, fez-se a aproximação à Crónica de D. João I.

    Em termos de contexto epocal, falar da crise de 1383-85 e da batalha de Aljubarrota é ponto essencial quando se aborda uma das crónicas de Fernão Lopes: a Crónica de D. João I. Esta obra quatrocentista propõe uma versão legitimadora da ascensão do Mestre de Avis ao trono (após a morte do rei D. Fernando), numa visão parcial dos factos e das personalidades (entre a heroicização de um bastardo e a diabolização de uma rainha-regente e de um amante que estão mais para uma facção indesejada: a que apoia a causa castelhana e a perda da independência nacional).
      "Conta-me Histórias" trata desta questão / época de uma forma ora cómica ora demonstrativa do que foi um período histórico crítico de Portugal:

Excerto do programa televisivo da RTP1: "Conta-me Histórias"

     Num diálogo entre Luís Filipe Borges e Fernando Casqueira, em pouco mais de meia hora, fica a saber-se o que marcou o final do século XIV na História de Portugal, objeto da narrativa lopiana.

     Um exemplo que procura trazer o passado a uns olhos e ouvidos do presente, para que dele façam memória futura.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Para ver e ouvir... Caeiro.

     Depois de tanto procurar, encontra-se o que não se quer e o que não podia ser melhor.

    Procurando Caeiro, circulam pelas redes sociais e no mundo virtual materiais que tanto têm de bom como de péssimo. Já nem falo da ridícula questão de se assumir que Caeiro é um pastor ou camponês, quando se deve tomá-lo como bucólico e pensador, por mais que este, por princípio, procure recusar o pensamento abstrato (por isso, a todo o momento concretizado).
     Pior ainda é dizer-se (e fazer-se ouvir) que recusa a metáfora. Se estivesse numa realização cinematográfica, diria "Corta!", para lembrar que "O rebanho é os meus pensamentos" (in poema IX de "O Guardador de Rebanhos"), afinal, o que o torna um guardador de rebanhos (diga-se, pensador) ou alguém que tem a alma como a de um pastor (também eu, por vezes, tenho a alma como a de um santo, ainda que, realmente, esteja mais para pecador ou para diabo - isto de ser como ou ter como não é o mesmo que ser ou ter, por certo).
    No fundo, mais metáfora não existe do que aquela que faz de Caeiro o mestre, o pensador, o centro da criação pessoana que, quando surge, é encarado como o resultado de um "dia triunfal" (segundo carta de Pessoa a Adolfo Casais Monteiro).
      Mais: afirmar que Caeiro não recorre ao adjetivo é não o ler, em toda uma produção literária que sublinha que "O que é preciso é ser-se natural e calmo" ou que "o poente é belo e é bela a noite" (in poema XXI de "O Guardador de Rebanhos"); que "Sou diferente" (in "Dizes-me: tu és mais alguma cousa" de "Poemas Inconjuntos"); que "fecho os olhos quentes" e que "Sei a verdade e sou feliz" (in poema IX de "O Guardador de Rebanhos"); que "Aquela senhora tem um piano / Que é agradável..." (in poema XI de "O Guardador de Rebanhos") - alguns versos apenas do heterónimo para contraditar o que nunca deveria ser dito / ouvido. Assim se revê a verdade de tanto material educativo, validado por tanto saber superior que a todo o momento cai. E bastava tão somente falar em "O Pastor amoroso" para duvidar da grande verdade! Quase apetece fazer uma tese com uma tipologia dos adjetivos a que Caeiro recorre, para sustentar, ainda mais, o que já aqui se assume nos sublinhados.
     E, assim, cresce o pecador e o criminoso que há em mim: cortando o inútil e combinando o válido com o que é bem feito, chega-se a algo que pode ser visto e ouvido para conhecer melhor. Um material novo, a partir do já feito e que, a bem da verdade literária, tinha de ser expurgado do que não interessa para ninguém.
    Como o objetivo não é obter lucro nem comercializar, fica um material para futuro (acompanhado de uma ficha de trabalho / um teste a propósito), sempre que Caeiro for para ensinar:

Composição de materiais relativos ao estudo de Caeiro, o Mestre pessoano 

     Imagens, pinturas, vídeos, versos, declamação (muito interessante de Pedro Lamares) - uma multiplicidade de suportes para fazer ver e ouvir o Mestre, que tanto adjetiva como metaforiza nessa intermediação que a língua (faz) representa(r) com o pensamento e com a realidade, por mais ou menos literário (ou poético) que seja.

     E tudo isto é Caeiro na suposta simplicidade que o caracteriza, num tempo-natureza a todo o instante novo por mais cíclico e repetitivo que possa revelar-se.
     

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Lá vem a vírgula do vocativo, gente!

    Chamamento, vocativo, apóstrofe... na pontuação dá no mesmo.

    É mesmo isto!
   Cansado de ler "boa tarde / boa noite professor" - quando devia encontrar "boa tarde / boa noite, professor" -, nem me apetece responder quando não sou nem me sinto chamado.
   Quem chama, invoca ou apostrofa deve marcar, na escrita, esse mesmo ato: fá-lo com uma simples vírgula. Dos poucos casos em que a ausência desta constitui erro ou altera substancialmente o significado da frase, um é precisamente o aqui ilustrado:

Do assunto ao destinatário / recetor - uma questão de vírgula

    E se dizem "é só uma vírgula", "esqueci-me", apetece-me responder "OK! Tens sete. Era dezassete, mas só falta um '1'. Esqueci-me".
    É tão mais fácil não ser escravo da ignorância! Claro que não acredito que alguém possa acabar com o trabalho (soa a promessa política que ninguém pode / deve concretizar). Aposto mais na colocação da vírgula para verdadeiramente perceber que o patrão / o político / o responsável ou chefe nos vê como autêntico escravo do trabalho.

    Mais se diga: a diferença entre o assunto (falar ou escrever sobre algo) e o destinatário (falar com alguém / escrever a alguém) é frequentemente assinalada pela simples vírgula, no segundo cenário. Sim, porque uma coisa é falar sobre escravos; outra bem distinta é falar com eles. Percebido, minha gente?

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Embirrações

    Reconheço que faço birra com algumas palavras ou expressões. E não são poucas as embirrações!

    Os meus alunos sabem que não suporto o verbo 'meter', particularmente quando não há condições para o utilizar (por exemplo, quando dizem para 'meter no quadro' ou para 'meter no papel' fico com cara de surpreso, ou franzo o sobrolho, por desconhecer como se pode 'meter' em superfícies planas). Eles "metem" vírgulas, "metem" respostas, "metem, metem, metem" espantosamente o que não pode ser metido e muitas vezes em locais inapropriados. Conclusão: embirrei com o verbo 'meter'.
    E quando o texto diz ou fala, por maior que seja a personificação, volto a embirrar. E o "tá (a)qui"?! Eu bem lhes pergunto se estão a falar do depilatório (Taky), mas mais me valia estar calado (porque tenho de lhes explicar a piada e fazê-los saber que há um produto homófono ao que dizem. Era tão melhor dizerem 'está aqui'! Não é por nada, mas sempre haveria a hipótese de não me aparecer o verbo 'tar'.
     Depois é a vez do '(um) bocado'. Eles ficam "um bocado tristes" (dizem) por os chamar à atenção, mas é só por o "bocado" não lhes sair da boca nem da cabeça. Pelos vistos, não só a eles.
    A propósito do início do "Comic con", há pouco tempo lia-se o seguinte, num apontamento do Porto Canal que circulou no Facebook:

'Post' do Facebook que tem "um bocado" que se lhe diga!

    Isto de mostrar "um bocado" é caso para perguntar se é coisa que se coma e / ou quantidade acompanhada de qualidade. Duvido. É triste que um meio de comunicação social (se) divulgue com o pior exemplo, em porções, pedaços. É, no mínimo, indigesto!
     Há quem sofra "um bocado"; eu prefiro sofrer pouco ou muito (menos, se for possível). Há quem ache "um bocado" feio, triste ou nojento. Eu acho execrável! Há quem chegue "um bocado" antes do tempo; eu prefiro chegar à hora, mas pode acontecer que seja um pouco antes ou depois, se ninguém ficar algo (e não "um bocado") aborrecido ou incomodado.

   Pergunto: não haverá por aí um herói ou uma heroína que nos livre destas banalidades tão indesejavelmente comuns? Só para eu não embirrar tanto.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Lembrança(s)...

     Seja um exercício mental seja um ato ou gesto de dádiva.

     É, por certo, um registo de memória, por dois anos que foram de trabalho, de cumplicidades e de momentos também de convívio que o tempo não apagará. Dizem alguns que foi período de transformação: dos medos provocados nos primeiros dias às experiências comuns dentro e fora da escola; às leituras que foram sendo desveladas; às partilhas de saber, que foram libertando o sentir; às alegrias e ousadias que fizeram dos tampos das secretárias o palco (de evocação cinéfila) para o reconhecimento, para o agradecimento mútuo pelo bem que soubemos fazer (par)a todos.
      É, ainda, depois de um ano afastados, a prova de que algures, no imaginário conjunto, há lugar para as proximidades que a afetividade faz perdurar. O que foi ensinado ficou seguramente matizado pela compreensão e pelo colorido dos sorrisos, muitas vezes surgidos no meio do cansaço, do sono e da vontade de buscar o sol (que as palavras, as frases, os longos parágrafos e as páginas dos livros nem sempre deixavam brilhar). O que se aprendeu, o tempo dirá para que servirá.
   É o sinal repetido da generosidade que sempre existiu, porque também alguém a soube alimentar, para que se tornasse marcante nas pessoas que estes jovens têm sido.
    É a oferta desinteressada de um grupo de alunos que, entusiasticamente, recebeu um professor e o fez sentir brilhante, numa noite e num espaço que o fizeram sentir-se em casa (como se nunca a tivesse deixado).

      Ao 12º 8, meu no 10º e no 11º anos. Mais uma turma especial para o meu currículo dos afetos. Muito obrigado pela companhia, pelos abraços e pela(s) lembrança(s) - também coloridos com o azul das "letras", tão próprio às humanidades, às línguas e literaturas.
     

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Regressões, regressos e algo mais.

     Praticamente a fechar o período letivo, tudo acontece.

     A motivação foi dada por uma turma de artes que deixou o seu registo no quadro, entusiasmada com a pausa que se anuncia. Ocupada a esquerda do quadro duplo branco, os alunos de humanidades não quiseram ficar atrás. Preencheram então a direita com a inspiração do momento, um tanto ou quanto influenciada pela sensibilidade que a leitura de um Ricardo Reis impôs.
     No final, ficou a fotografia para memória futura:

Era uma vez um quadro branco... (foto VO)

   O gozo de escrevinhar e desenhar, quais meninos a marcar a sua presença no quadro, surgiu tão instintivamente que, por momentos, nem dava para acreditar que a sala era ocupada por finalistas ou pré-universitários. Eram, por certo, seres feitos de vontade, (re)nascidos num momento libertador colorido de verdade e de realidade.
    Captado o breve instante (quatro minutos), ...

                                                                                                       Aos alunos do 12ºF

     Vi um foco de luz num embrião.
     Anuncia o nascimento. Razão
     Para neste mundo vivo lembrar
     Que a volátil vida, ao passar,

     Urde passado e presente num fio
     com amanhã de um mar feito de rio.

     Depois disto, a aula (porque o lema é "trabalho, trabalho e mais trabalho"), até ao toque da campainha.

    Assim se regressou, por momentos, ao tempo de infância (numa nostalgia que lembrou Pessoa ortónimo). Até pode ser uma regressão, mas foi uma forma de libertar sorrisos e caminhar para uma  atenção feita de inconsciência, de um ideal renovado, de uma utopia com um toque de recreação e (re)criação.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Escolher é preciso!

      Já o indiquei por várias vezes. Volto a dizê-lo. E não cansarei de o repetir.

      Tudo surge na sequência de um pedido de esclarecimento.

     Q: Na frase "Leu a mensagem inscrita nos vitrais da igreja", qual é a função do sublinhado? Complemento ou Modificador? Obrigada.

       R: Antes de responder diretamente, começo por um pequeno alerta: a resposta a dar vai estar ao nível de uma função sintática interna e não de um primeiro nível de análise.
          A um primeiro nível há um sujeito nulo subentendido (Ele), um predicado ("Leu a mensagem inscrita nos vitrais da igreja") e um complemento direto ("a mensagem inscrita nos vitrais da igreja"). Este último encontra-se expandido por um modificador restritivo do nome ("inscrita nos vitrais da igreja"). Portanto, "nos vitrais da igreja" não é um modificador do grupo verbal / predicado nem se situa ao nível de análise implicado no processo de 'leu'.
          Considerando apenas o modificador restritivo do nome, verifica-se que este é configurado por um adjetivo ('inscrita'). Só que este adjetivo advém do verbo 'inscrever' (pela forma de um particípio passado), o qual seleciona complementos para saturar o seu significado, na estrutura argumental. Nesta medida, tal como o verbo selecionaria um complemento, o mesmo faz o adjetivo a ele associado, pelo que 'nos vitrais da igreja' é um complemento do adjetivo - função sintática interna, a um nível de análise já bem distante das funções nucleares (do sujeito, do predicado e respetivo complemento direto).


         Em suma, o sublinhado é um complemento, mas não de um verbo - sim, de um adjetivo.

       A complexidade na classificação do sublinhado assenta numa lógica de dependências (resultante da expansão dos grupos de palavras representados, entre os superordenados e os neles radicados). Espero que a consideração do complemento do adjetivo seja inclusivamente entendida segu(i)ndo a analogia que se estabelece com o verbo que lhe subjaz. Por certo, trata-se de um exemplo de análise para níveis de ensino mais complexos. Há que escolher bem os casos a trabalhar em aula.

      

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Dos frutos de ferro às árvores-fábrica

    Tudo a propósito da 'Ode Triunfal' de Álvaro de Campos.

Interpretação icónica por Catarina Cruz 
(in http://dcvcatarinacruz.blogspot.pt/2011/04/segunda-proposta-de-trabalho-alvaro-de.html)
     Entre tudo o que o poema possa ser, nas múltiplas inter-pretações dele feitas, a leitura de uma ode aos sinais dos tempos modernos (feitos de sensações de diferentes tem-pos) impõe-se quando o heteró-nimo pessoano se questiona sobre tudo o que ante-riormente abordou (desde a exaltação da fábrica e das máquinas à consideração de espaços e de tipos sociais pautados pelo dinamismo e pela vitalidade sociais e civilizacionais).
   Serve a interrogação para a progressão textual que introduz um novo dado significativo:


                               " (...) 
Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto
Ao fúlgido e rubro ruído contemporâneo,
Ao ruído cruel e delicioso da civilização de hoje?
Tudo isso apaga tudo, salvo o Momento,
O Momento de tronco nu e quente como um fogueiro,
O Momento estridentemente ruidoso e mecânico,
O Momento dinâmico passagem de todas as bacantes
Do ferro e do bronze e da bebedeira dos metais.

Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar,
Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos,
Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar,
Engenhos, brocas, máquinas rotativas!

Eia! eia! eia!
Eia electricidade, nervos doentes da Matéria!
Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do Inconsciente!
Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez!
Eia todo o passado dentro do presente!
Eia todo o futuro já dentro de nós! eia!
Eia! eia! eia!
Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita! 

                                      (...)"

     Afirma-se, então, o relevo do tempo, do "Momento" maiusculizado e repetidamente retomado, sempre feito de presente, a par das sensações a ele associados.
      Num texto de exaltação aos tempos modernos - nos quais a máquina, o motor, a fábrica, o calor, os óleos, a eletricidade e a voracidade se afirmam -, novos símbolos poéticos surgem. É o caso dos "frutos de ferro" e das "árvores-fábrica". A lógica integrativa dos primeiros nas segundas (seja pelos frutos das árvores seja pelo ferro que se revê nas fábricas) não deixa de resultar estranha aos olhos e ouvidos de alguns jovens, que julgam demasiadamente ousada e irreverente a construção destes novos conceitos artísticos.
    Não o achariam tanto se tivessem em mente a floresta de betão que algumas cidades têm, nomea-damente Roterdão, com as casas cúbicas - as Kijk-Kubus, em blocos de amarelo e cinza projetados original-mente pelo arquiteto holandês Piet Blom, nos anos setenta do século XX - no coração da urbe. São 38 habitações no total, com uma inclinação de 45º e pousadas sobre colunas hexagonais. Trata-se de um ícone arquitetónico construído acima do nível da estrada, com ruas e carros a passar por baixo, num sinal da modernidade e da reconstrução que a cidade tem vindo cumulativamente a sofrer desde os tempos da II Guerra Mundial.

      Uma ode ou canto poético lírico - em tom elevado e sublime - para um assunto de relevo e interesse para a humanidade. Assim acontece quando se fala do tempo, dessa categoria que na duração ou no instante acompanha a vida, a existência humana, por mais clássica ou modernista que seja.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Não uma, mas um FACE com História

      Pode ser uma sexta-feira treze, mas hoje houve mais realeza (com a presença de "Sua Alteza" o rei D. Carlos) e excelência do que azar.

    Pelas 10:30, foram assinalados os 120 Anos da Concessão do Alvará Régio à Fábrica de Conservas Brandão, Gomes & C.ª, no edifício onde atualmente se situa o Fórum de Arte e Cultura de Espinho (FACE) - Museu Municipal de Espinho. Aí se encontra uma exposição permanente com evidências da visão progressista e da importância nacional e internacional da antiga fábrica de conservas espinhense, que recebeu um prestigioso alvará nos finais do século XIX (1895). Passados cinco anos do vergonhoso Ultimato britânico imposto a Portugal (inviabilizando o 'Mapa Cor-de-rosa'), Espinho, um lugar da freguesia da Anta à época, dava mostras de um sinal de desenvolvimento do país, da industrialização, do progresso e da aposta na excelência, sob a divisa "Melhorando sempre" e a ponto de os produtos produzidos e exportados desta "Real Fábrica de Conservas Alimentícias" passarem a estar à mesa do rei.
     A efeméride foi ainda abrilhantada por dois eventos:
   . uma dramatização com História, levada a cabo por um par de atores do Teatro Popular de Espinho - "Entrevista a El-Rei D. Carlos":

 
Excerto da dramatização levada a cabo no FACE

  . o lançamento do Jornal "Real Fábrica de Conservas Brandão, Gomes & C.ª", numa edição impressa à escrita da época.

Primeira página do jornal, reproduzindo o Alvará Real
      Do balanço final da atividade, que contou com a presença de alunos e professores da Escola Secundária Dr. Manuel Laranjeira, fica o registo do que eram a jorna (salário do trabalho diário) e o jornaleiro (o trabalhador que recebia a jorna); as condições do trabalho numa fábrica (entre o final do século XIX-início do XX, conforme um painel fotográfico revelador dos que se vestiam na especialidade laboral exercida ou dos que indiferenciada-mente aguardavam pelas necessidades do trabalho diário); o sentido estratégico da visão assumida pelos proprietários (que organizaram a fábrica por secções - conserva de sardinha, de frutas, de legumes, de caça, de doces, entre outros produtos, para além da produção das embalagens e da estampagem publicitária); o exemplo, o testemunho e a reflexão de que, mesmo em tempos críticos, o engenho, a audácia e a parceria constituem fatores primordiais para o desenvolvimento, o sucesso e o prestígio conquistados pelo trabalho.
    Uma ótima iniciativa na oportunidade e na mensagem, não esquecendo a companhia.

      Entre regeneradores e progressistas (tão alternada e ciclicamente revistos na governação do país na segunda metade do século XIX); entre crises nacionais e oportunidades económicas; entre trabalhadores especializados e outros que esperavam a sorte do dia, ficam aqui alguns apontamentos da(s) História(s) que o tempo repete.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Toca a andar. Não para!!!!!!

       Pergunta-me um aluno por que motivo "para" deixou de ter acento.

       Não! Não é o "para" preposição ou conjunção (que nunca teve acento gráfico).
   É o verbo "parar" mesmo, na sua forma conjugada do presente do indicativo (terceira pessoa do singular) ou na do imperativo (segunda pessoa do singular). Para não se confundir com as configurações anteriores, antes tinha acento gráfico; com o Acordo Ortográfico (AO), deixa de o ter. Diz-se que, pelo contexto, serão feitas as devidas distinções. Mesmo assim, em termos de processamento de leitura, não será uma questão tão pacífica - conforme já o indiquei em apontamento anterior -, por concorrer com outras palavras graficamente afins.
   Uma razão na base do desaparecimento do acento está associada ao facto de "para" ser uma palavra grave. Tipicamente, tais palavras não são graficamente acentuadas na língua portuguesa, pois partilham com ela a propriedade fónica de base (a tonicidade grave).
     E, se mais não houvesse, uma razão maior (?!) assiste a toda a mudança: a decisão política para um normativo que alguém disse ser importante para a projeção internacional da língua, para a economia de meios e para a estabilização do relevo que o idioma tem já no mundo.

     Entre o ser e o dizer, a distância é grande. Assim, mais vale ficar pelo motivo linguístico mais consistente (porque as razões políticas são, no mínimo, mais do que dúbias).
        

sexta-feira, 5 de junho de 2015

O captain, my captain...

     Palavras de alunos: ficção ou realidade?

    Inicialmente, a expressão faz parte da metáfora construída por Walt Whitman para, num dos seus poemas ("O Captain! My captain!", 1865), se referir à morte do presidente Abraham Lincoln, no contexto da Guerra Civil americana (essa 'trip', viagem por que os EUA tiveram de passar na sua história):


    Este mesmo poema é citado no filme Clube dos Poetas Mortos (1989), realizado por Peter Weir, particularmente quando o professor de inglês John Keating (interpretado por Robin Williams) diz aos seus alunos que estes o podem tratar por "O Captain! My Captain!", sempre que se sentirem ousadamente inspirados. Se assim o disse no início da relação, assim o recebeu no final: demitido por desafiar os princípios da prestigiada academia onde lecionava, Keating vê os seus alunos revelarem o apoio e a admiração que sentem, ao subirem para os tampos das respetivas carteiras e ao declamarem / dedicarem a expressão whitmaniana a quem os ensinou a aproveitar o dia e a sugar o "tutano da vida" (carpe diem).
    Se qualquer semelhança entre a ficção e a realidade for uma mera coincidência, a verdade é que hoje vivi estas palavras literárias / fílmicas como reais. Ao fim de dois anos e na última aula (oficial) de Literatura Portuguesa, nos minutos derradeiros de um discurso meu interrompido sobre A Sibila (de Agustina Bessa-Luís), vejo uma aluna subir para a carteira citando-me os famosos versos; e logo todos os restantes elementos da turma a repetirem o ato, numa recriação do episódio cinematográfico:

Cena final do filme Clube dos Poetas Mortos, de Peter Weir (1989)

    Entre a incredulidade e a emoção, o sorriso da cena reconhecida e a contenção que se impunha (para não chorar no momento da despedida), estrategicamente comecei por reagir qual Mr. Nolan, o diretor da Academia Welton, com o incisivo "Sit down"; ainda cheguei ao "You hear me, sit down", dada a desobediência estudantil; porém, não pude assumir o "This is my final warning! How dare you!". Sensibilizado, só pude responder de uma forma: subir para o tampo da minha secretária e, colocando-me ao nível da turma, agradecer por me ter deixado viver momentos e experiências felizes de leitura, de comentário, de análise e de reflexão. Fomos cúmplices no trabalho, no espírito e nas relações que se construíram.

      Ficção e realidade. Se alguém, no corredor, tivesse olhado pelo vidro da porta e visse o que se passava na sala de aula, pensaria que não era possível estar a ver bem! E foi tanta a realidade!