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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Sem Eco (ou para / até sempre Eco)

     O final do dia trouxe o fim de uma vida, que deixou muita obra.

    Umberto Eco - reconhecido escritor, semiólogo, filósofo, ensaísta - é nome notável para uma obra multifacetada no âmbito das ciências sociais e humanas.
    O meu encontro com alguma da sua obra começou pelos tempos da faculdade, citado que era, como estudioso de referência, ora pelo seu pensamento literário ora pela contribuição dada no domínio da Semiótica (também chamada de Semiologia).
     A morte do autor de O Nome da Rosa abalou não só a Itália como o mundo das Humanidades, que vê 84 anos interrompidos ainda em pleno labor intelectual, conforme o provam as palavras do seu editor (ao anunciar um livro inédito intitulado Papé Satan Alleppe, para maio, no qual se aborda a identidade do Papa Francisco, personalidade admirada por Eco).
  Num espírito sistematicamente desconcertante, muitos foram os pensamentos (críticos) que partilhou com os seus leitores. Em Número Zero (2015), na crítica ao mau jornalismo, à mentira e à manipulação da história, apontou para um universo convulso, em tudo tão coincidente com o dos nossos dias; numa entrevista recente, refletindo sobre o papel das novas tecnologias na difusão de informação, assumiu que as redes sociais proporcionam a uma "legião de imbecis" o direito à palavra, numa escala bem mais preocupante do que a de tempos mais recuados, quando, num "bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade", outros já também imbecis acabavam por ser silenciados. Hoje, o poder da palavra desses é tão ou mais acessível e projetado do que o de grandes intelectuais, nomeadamente os prémios Nobel.
    Na leitura que fazia do seu papel, enquanto intelectual, Eco reconhecia ter formas de protestar, ainda que não tivesse o poder de mudar o mundo. Cultivava, assim, o que chamava de "política da empatia", por forma a criar a rede daqueles cujas estratégias de sobrevivência e defesa da virtude não andariam longe do que deu a ler:

Romance editado em 1994
- Vede, caro Roberto, o senhor de Salazar não diz que o sensato deve simular. Sugere-vos, se bem entendi, que deve aprender a dissimular. Simula-se o que não se é, dissimula-se o que se é. Se vos gabardes do que não fizestes, sois um simulador. Mas se evitardes, sem fazê-lo notar, mostrar em pleno o que fizestes, então dissimulais. É virtude acima de todas as virtudes dissimular a virtude. O senhor de Salazar está a ensinar-vos um modo prudente de ser virtuoso, ou de ser virtuoso de acordo com a prudência. Desde que o primeiro homem abriu os olhos e soube que estava nu, procurou cobrir-se até à vista do seu Fazedor: assim a diligência no esconder quase nasceu com o próprio mundo. Dissimular é estender um véu composto de trevas honestas, do qual não se forma o falso mas sim dá algum repouso ao verdadeiro. 
    A rosa parece bela porque à primeira vista dissimula ser coisa tão caduca, e embora da beleza mortal costume dizer-se que não parece coisa terrena, ela não é mais do que um cadáver dissimulado pelo favor da idade. Nesta vida nem sempre se deve ser de coração aberto, e as verdades que mais nos importam dizem-se sempre até meio. A dissimulação não é uma fraude. É uma indústria de não mostrar as coisas como são. E é indústria difícil: para nela ser excelente é preciso que os outros não reconheçam a nossa excelência. Se alguém ficasse célebre pela sua capacidade de camuflar-se, como os actores, todos saberiam que ele não é o que finge ser. Mas dos excelentes dissimuladores, que existiram e existem, não se tem notícia alguma. 
     - E notai - acrescentou o senhor de Salazar -, que convidando a dissimular não vos convidamos a permanecer mudo como um parvo. Pelo contrário. Deveis aprender a fazer com a palavra arguta o que não podeis fazer com a palavra aberta; a mover-vos num mundo que privilegia a aparência, com todos os desembaraços da eloquência, a ser tecelão de palavras de seda. Se as flechas perfuram o corpo, as palavras podem trespassar a alma. 

     Poder de palavra já clássico: o de movere (a par de docere e delectare).
     E nisto não deixa de estar o pensamento que Eco tão bem traduziu:


     Moral ou lição de vida? A virtude de dissimular a virtude, ou a virtude de quem partilha um saber que nem sempre se revela fácil de cumprir, por mais que até seja simples de compreender. Basta estar atento à vida (também ela feita de morte, ou não formulássemos frequentemente o lamento desta com um simples "É a vida!").

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Chegado ao centenário.

     Na data de nascimento, para uma vida que deixou qualidade de escrita e pensamento.

    Talvez o de hoje não seja o melhor ou o mais positivo. Ainda assim, é certeiro e muito coincidente com o que vivo nos últimos tempos:


    É difícil não sentir o transcrito, particularmente quando se vê que, nestes tempos, ainda há quem goste de comprar e fazer guerras que não fazem bem a ninguém - não aos próprios e muito menos àqueles com quem mais diretamente vivem e dos quais se esquecem de que, de uma forma ou outra, dependem.
     E perde-se tanto tempo com coisas inúteis, inconsistentes, mascaradas de solução para não se sabe bem o quê (talvez para iludir, fazer de conta, mostrar serviço ou se acreditar que levar ao limite é prova de esforço e qualidade).

      De novo, um escritor a dar a lição que o(s) leitor(es) queira(m) aprender para a vida (para que o desgaste não seja tão desgastante). Há cem anos nasceu quem a pensou.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Bartolomeu de Gusmão... talvez sim, talvez não.

       Dizem que hoje foi o dia na provável data de morte do "Padre Voador", em 1724.

      Talvez sim. Segundo Memorial do Convento (1982) não é isso certo, chegando a apontar-se o dia dezanove. Também não é indubitável a causa da morte. Verdade é que Bartolomeu Lourenço de Gusmão morreu em Toledo, aos 38 anos, conforme o anuncia o músico Scarlatti ao casal Baltasar Sete-Sóis e Blimunda Sete-Luas:

Baltasar, Blimunda e Bartolomeu (pela Éter-Produção Cultural)
      "Domenico Scarlatti pedira licença ao rei para ir ver as obras do convento. Recebeu-o o visconde em sua casa, não porque fosse excessivo o seu gosto pela música, mas, sendo o italiano mestre da capela real e professor da infanta D. Maria Bárbara, figurava, por assim dizer, uma emanação corpórea do paço. (...)
     Saiu o músico a visitar o convento e viu Blimunda, disfarçou um o outro disfarçou, que em Mafra não haveria morador que não estranhasse, e estranhando não fizesse logo seus juízos muito duvidosos, ver a mulher do Sete-Sóis conversando de igual com o músico que está em casa do visconde, que terá ele vindo cá fazer, ora veio ver as obras do convento, para quê se não é pedreiro nem arquitecto, para organista ainda o órgão nos falta, isso a razão há-de ser outra, Vim-te dizer, e a Baltasar, que o padre Bartolomeu de Gusmão morreu em Toledo, que é em Espanha, para onde tinha fugido, dizem que louco, e como não se falava de ti nem de Baltasar, resolvi vir a Mafra saber se estavam vivos. Blimunda juntou as mãos, não como se rezasse, mas como quem estrangula os próprios dedos, Morreu, Foi essa a notícia que chegou a Lisboa, Na noite em que a máquina caiu na serra, o padre Bartolomeu Lourenço fugiu de nós e nunca mais voltou, E a máquina, Lá continua, que faremos com ela, Defendam-na, cuidem-na, pode ser que um dia volte a voar Quando foi que morreu o padre Bartolomeu Lourenço, Diz-se que foi no dia dezanove de Novembro, por sinal que nessa data houve em Lisboa uma grande tempestade, se o padre Bartolomeu de Gusmão fosse santo seria um sinal do céu, Que é ser santo, senhor Escarlate, Que é ser santo, Blimunda.

    Santo ou não, foi sacerdote secular e cientista português. Nascido no Brasil, é reconhecido como o inventor do primeiro aeróstato operacio-nal (“passarola” – mais conhecida na versão atual como balão de ar quente). O invento, comenta-do na Europa e apresentado em es-tampas fantasiosas como uma barca na forma de pássaro, foi polémico. Das tentativas mal sucedidas com pequenos balões ao grande aparelho que voou sem tripulação, há registos e testemunhos a atestar o acontecimento- tão inovador para a época como causador de intrigas, a ponto de Bartolomeu de Gusmão ter sido vítima da Inquisição, acusado de simpatizar com cristãos-novos. 
    De novo, entre o dizer e o ser há uma distância aqui e ali contrariada. Ora porque abraçou o judaísmo ora porque, à hora da morte, se confessou e recebeu a comunhão católica, este padre nasce e tem os restos mortais no Brasil (desde 2004, encontra-se na Catedral Metropolitana de São Paulo).

    Louco, talvez; mas, como diria Pessoa, o que é o ser humano sem a loucura sadia que o faz evoluir? Mantém-se na vida como cadáver adiado que procria. E isto Bartolomeu Lourenço de Gusmão por certo não foi.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

17-11-1717

     Com dois algarismos apenas (o um e o sete) se compõe uma data tão "magnânima"!

     Não fosse este o cognome do rei D. João V (a par de outros tantos que o povo lhe atribuiu) e a data não seria tão grandiosa, magnificente ou excelsa.
    Há 300 anos não estaríamos, por certo, muito longe do que José Saramago dá a ler em Memorial do Convento (1982), na divisão XII a que vulgarmente se dá a designação de capítulo:

Do autor e da obra
      "... entretanto começou a constar-se em Mafra, e foi confirmado pelo vigário no sermão, que vinha el-rei a inaugurar a obra da raiz dos caboucos para cima, colocando com as suas reais mãos a primeira pedra. Primeiro se anunciou que seria aos tantos de Outubro, mas não houve tempo para cavar os alicerces até à sua conveniente fundura, apesar de serem seiscentos os homens, apesar dos muitos tiros de pólvora que a todas as horas do dia vão atroando os ares, será então em Novembro, meados dele, depois não pode ser, que já seria como de Inverno, andar aí el-rei enterrado na lama até às ligas das pernas. Venha pois sua majestade para que se comecem os dias gloriosos da vila de Mafra, para que os seus moradores levantem as mãos ao céu, eles que com os seus perecíveis olhos vão ver a quanto alcança a grandeza de um rei, monarca sublime, graças a quem podemos gozar estas antecâmaras do paraíso enquanto às celestiais moradas não acedermos, tarde seja, que mais apetece estar vivo que morto (...).
      (...) Benzeu-se a cruz no primeiro dia, enorme pau com cinco metros de altura, que daria para um gigante, Adamastor ou outro, ou para o tamanho natural de Deus, e diante dela se prosternaram todos os presentes, e maximamente el-rei, derramando muito devotas lágrimas, e quando a adoração da cruz acabou, quatro sacerdotes levantaram-na em peso, cada qual seu extremo, e a arvoraram sobre uma pedra, adrede preparada, mas esta não a cortou Álvaro Diogo, com um buraco onde se lhe encaixou o pé, que, mesmo sendo a cruz divino emblema, não se aguenta se não ficar entalada, é o contrário dos homens, que mesmo sem pernas conseguem ficar direitos, a questão é quererem-no. Tocava airoso o órgão, sopravam os músicos, entoavam as vozes dos cantores, e, cá fora, o povo que não coubera ou estava sujo de mais para entrar, o povo que viera da vila e dos arredores, não admitido no sacro interior, contentava-se com os ecos das antífonas e das salmodias, e assim se acabou o primeiro dia. 
      Ai o dia seguinte, (...) ai o dia seguinte, retorne-se a exclamação, dezassete de novembro deste ano da graça de mil setecentos e dezassete, aí se multiplicaram as pompas e as cerimónias no terreiro, logo às sete da manhã, frio de rachar, se achavam reunidos os párocos de todas as freguesias em redor, com os seus clérigos e muito povo, é forte presunção que tenha vindo desta ocasião o dizer, para uso dos séculos e das gazetas. Chegou el-rei pelas oito horas e meia, já tomado o chocolate matinal, serviu-o por suas próprias mãos o visconde, e então se formou a procissão, à frente sessenta e quatro religiosos arrábidos, depois o clero da terra, a cruz patriarcal, seis homens de opas roxas, os músicos, capelães de sobrepelizes, grande cópia de clérigos vários, um espaço livre a preparar o que aí vinha, e eram os cónegos de pluviais de tela branca e outras bordadas, adiante de cada um deles os seus criados nobres, empós, sustentando-lhes as caudas, os caudatórios, e atrás o patriarca com preciosos paramentos e mitra do maior custo, adornada de pedras do Brasil, depois el-rei com a sua corte, juiz e vereadores da terra, corregedor da comarca, e grande número de gente, passante três mil, se não se enganou quem a contou, e tudo isto por causa de uma simples pedra, juntou-se aqui um poder de mundo, clarins e timbales atroando os ares superiores e inferiores, e a tropa de cavalaria e infantaria, mais a guarda alemã, e outra vez o povo, muito povo, tanto povo, nunca a vila de Mafra vira tal ajuntamento, porém, não cabendo todos na igreja, entram os grandes, e dos pequenos só os que cabem e tiveram artes de insinuar-se, antes fizeram os soldados as aclamações da ordenança, era isto ainda pela manhã, serenara de vez o vento forte e o que corria era apenas uma viraçãozinha do mar que fazia fraldejar as bandeiras e as saias das mulheres, ventinho fresco como próprio da estação, mas os corações ardiam de pura fé, exultavam as almas, e se, de extenuadas, já algumas vontades queriam retirar-se dos corpos, vinha Blimunda e não se perdiam nem subiam às estrelas. 
      Foi a pedra principal benzida, a seguir a pedra segunda e a urna de jaspe, que todas três iriam ser enterradas nos alicerces, e depois foi tudo levado em procissão, de andor, dentro da urna os dinheiros do tempo, ouro, prata e cobre, umas medalhas, ouro, prata e cobre, e o pergaminho onde se lavrara o voto, deu a procissão uma volta inteira para mostrar-se ao povo que ajoelhava à passagem, e, tendo constantemente motivos para ajoelhar-se, ora a cruz, ora o patriarca, ora el-rei, ora os frades, ora os cónegos, já nem se levantava, bem poderemos escrever que estava muito povo de joelhos. Enfim se encaminharam el-rei, o patriarca e alguns acólitos para o sítio onde se havia de colocar a pedra e as pedras, descendo por uma espaçosa escada de madeira que tinha trinta degraus, porventura em memória dos trinta dinheiros, e de largura mais de dois metros. Levava o patriarca a pedra principal, ajudado pelos cónegos, e outros destes a pedra segundeira e a urna de jaspe, atrás el-rei e o geral da Sagrada Ordem de S. Bernardo, como esmoler-mor, e que, por o ser, levava o dinheiro. 
       Assim desceu el-rei trinta degraus para o interior da terra, parece uma despedida do mundo, seria uma descida aos infernos se não estivesse tão bem defendido por bênçãos, escapulários e orações, e se aluíssem estas altas paredes que formam o cabouco, ora não tema vossa majestade, repare como as escorámos com a boa madeira do Brasil por maior fortaleza, aqui está um banco coberto de veludo carmesim, é uma cor que usamos muito em cerimónias de estilo e de estado, com o andar dos tempos vê-la-emos em sanefas de teatro, e sobre o banco está um balde de prata cheio de água benta, e também duas vassourinhas de urze verde com os cabos guarnecidos de cordão de seda e prata, e eu, mestre-da-obra, verto um cocho de cal, e vossa majestade, com esta colher de pedreiro de prata, perdão, senhor, de prata de pedreiro, se pedreiros a têm, estende a cal, mas antes a espargiu com a vassourinha molhada na água benta, e agora, ajudem-me aqui, podemos assentar a pedra, porém, sejam as mãos de vossa majestade as últimas a tocar-lhe, pronto, um toque mais para toda a gente ver, pode vossa majestade subir, cuidado não caia, que o resto do convento nós o construiremos, e agora podem ser postas as outras pedras, cada uma em sua cabeceira desta, e tragam os fidalgos mais doze, número de boa fortuna desde os apóstolos, e conchas de cal dentro de cestos de prata, assim ficará mais aconchegada a pedra principal, e o visconde da terra quer fazer como vê aos serventes de pedreiro, leva o cocho à cabeça, assim mostrando maior devoção, já que não foi a tempo de ajudar o Cristo a levar a cruz, despeja a cal que o haverá de comer, não seria mau o efeito de estilo, porém esta cal não está viva, meu senhor, mas apagada, Como as vontades, dirá Blimunda.
      Ao outro dia, depois de el-rei partir para a corte, deitou-se abaixo a igreja sem ajuda do vento, apenas cho-via água que Deus a dava, puseram-se a um lado as tábuas e os mastros para necessidades me-nos reais, andai-mes, por exemplo, ou tarimbas, ou beliches, ou mesa de comer, ou rastos de tamancos, e os panos, tafetás ou damascos, as velas dos navios, cada um tornou ao seu natural, as pratas para o tesouro, os fidalgos para a fidalguice, o órgão para outras solfas, e os cantores, os soldados a luzir semelhantes paradas, só ficaram os arrábidos de olho alerta, e sobre a pedra cavada, cinco metros de pau crucificado, a cruz." 

     A ironia pode ser a de qualquer trabalhador da época, forçado que foi a cumprir os devaneios e as promessas reais; pode ser a de qualquer espírito crítico (de então ou de agora) que vê, nesta megalómana vontade joanina, um exemplo dos poderosos, sempre acima dos que herculeamente têm de trabalhar, pondo mãos à obra mas não ficando na história oficial dos acontecimentos (por mais que sejam os que carregam a cruz e sofrem das cruzes).

   O Palácio-Convento de Mafra, colosso do barroco português setecentista, é promessa arrancada ao rei (para os frades arrábidos): se a rainha concebesse um filho, que tardava a chegar, acolher-se-iam treze frades arrábidos num mosteiro que, no final da construção, acabou por albergar mais de trezentos e também abraçou um palácio real. Iniciado a 17 de novembro de 1717, o monumento só teria a sua sagração no ano de 1730 (no aniversário oficial do rei, claro está! Quem pode pode!).

domingo, 15 de novembro de 2015

Imagine...

     Já que falei na canção no apontamento anterior...

    ... aqui fica não o original, mas uma versão de um espetáculo acústico dos Coldplay no Teatro Belasco (Los Angeles), num tributo a Paris e às vítimas do massacre de sexta-feira passada (dia treze, de horror, não de simples azar).

"Imagine", de John Lennon, num tributo dos Coldplay 

   Esta, sim, seria a canção a cantar por e para todos os que sofrem num mundo feito de injustiças, desigualdades e afronta à própria dignidade humana. Melhor do que qualquer hino nacional, por certo (porque mais universal).

     Que a universalidade e a harmonia musicais apazigúem o que alguns homens quiseram destruir.

sábado, 14 de novembro de 2015

Afinal, sempre foi dia de azar... (bem pior do que isso!)

      Refiro-me ao dia de ontem - uma sexta-feira treze (de terror) que deu num sábado catorze (com dor).

    Vitimada pelo terrorismo, Paris acordou com a dor de uma noite sofridamente vivida e atrozmente marcada com mais de uma centena de mortos, na sequência de vários ataques a tiro e de bombistas-suicidas. O dia de azar deu em noite de terror. Entre reféns, feridos e mortos, o estado de emergência impôs-se no país que deu a conhecer ao mundo os valores da Liberdade - Igualdade - Fraternidade e que (re)descobriu o terror perpetrado pelo Estado Islâmico com sete ataques violentos em diferentes zonas da capital francesa.
     Discutem-se os motivos desta barbárie, pergunta-se em nome de quê toda esta tragédia, canta-se o hino francês (mais a parecer um grito de guerra já anunciado), marcha-se em homenagem aos que pagaram com a vida inocente (eternos desconhecidos, subitamente lembrados como mártires dos grandes valores e das grandes causas políticas), ouvem-se os discursos solidários dos que se dizem condoído (ainda que apenas pelo politicamente correto). Tanto assunto, tanta conversa para tão pouca ação!
    Aponta-se a diferença religiosa como a causa da catástrofe, esquecendo que qualquer crença, contrariamente a alguns homens (de tão diferentes credos), coloca o bem da vida acima de tudo:

     
      Comenta-se com facilidade aquilo que não é sentido nem vivido, salientando o medo que gera mais medo, numa irracionalidade em que só falar e nada fazer parecem ser as soluções para tudo (manter como está, para o bem de alguns poucos):


      Procura-se o que ninguém parece saber onde encontrar ou como lá chegar:

  
     E no meio de tudo isto sempre o Homem, dominando: o seu poder, a sua visão, os seus interesses e um sentido de vida que soa (cada vez) mais a destruição do que a realização.

      Por isso, no momento, só me apetece lembrar John Lennon e Imagine, no desejo de que o mundo "will live as one" - de novo a música como alternativa ao mundo infernal que vivemos (pena que seja só imaginação!)

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Nascer para morrer

    A novidade não é nenhuma, mas há quem nasça para morrer mais cedo.


Escultura de Manuel Laranjeira (foto VO)
       Assim foi com Manuel Laranjeira.
    Hoje evoca-se a data de nascimento, ocorrida há 139 anos (no mesmo ano em Teixeira de Pascoaes também nasceu), em Mozelos, no concelho de Santa Maria da Feira.
    É, contudo, em Espinho que, a partir dos 21 anos, cumpre um percurso de vida que o aproxima da medicina; da intervenção cívica, social e artística local; da criação literária e da escrita que o fazem produzir crónicas, cartas, poemas, textos dramáticos. 
   Na busca da idealização, da luz, da possibilidade da realização e da criação, aspira à obtenção de um sentido de vida que continuamente colide com uma realidade que o atrofia, o enleia numa vivência de profunda tristeza e tédio.
   Da arte, na ânsia e na expectativa de atingir o nível do criação e do criador, diz-se cultor ou semeador, numa espécie de parábola para o que acha ser o seu papel na vida e no que o mundo pode deixar germinar:

Montagem de foto com pensamentos do autor

    Entre as ideias e os ideais de um homem, dão-se a ver as primeiras no mundo; dos segundos nem sempre é fácil falar, particularmente quando estão além do que realmente circunda um ser que a muito aspirou, nos mistérios libertos de um caminho que quis desvelar e (re)criar, sem condições de caminhar.

     Qual Sísifo (e)levando a "pedra" ao cume do altar artístico, Laranjeira revelou-se um permanente insatisfeito, um idealista sempre à espera de atingir os mistérios da luz da criação (que alimenta a alma e a liberta da vida breve).  

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Um ano depois (de 'Aladdin' a Robin Williams)

     Há um ano, a notícia chegava: Robin Williams punha fim ao papel da vida.

     Porque ontem, num canal da TVCine (TVC3) foi exibido o filme da Walt Disney Aladdin (na sua versão original de 1992), realizado por Ron Clements e John Musker, reencontrei-me com a voz de Robin Williams. É ela que se faz notar na personagem do narrador-vendedor-viajante do mundo que abre o musical animado; é também ela que, na sequência fílmica, verbaliza os pensamentos e as desconcertantes réplicas cómicas do próprio Génio da Lâmpada.
     Mais do que a tradicional história inspirada no conto árabe "Aladim e a Lâmpada Maravilhosa", inserido em As Mil e uma Noites, foi a memória de um ator de eleição que me fez produzir esta nota.
      Os amores do jovem de rua Aladdin e da princesa Jasmine, as artimanhas e intrigas do poderoso e maléfico grão-vizir Jafar (coadjuvado pelo papagaio Iago) podem constituir-se como núcleos fundamentais da ação narrativa; contudo, é o Génio que acaba por se impor em toda a trama por variadas razões. Primeiro, porque é ele que tem o poder de satisfazer os desejos (tanto os de Aladdin como os de Jafar); segundo, porque é um dos mais produtivos fatores de cómico na película, nomeadamente com a apresentação de uma versatilidade de tons e de vozes fora de série; terceiro, porque mantém com Aladdin uma relação de cumplicidade e amizade, salvando este último de diversos perigos; quarto, porque é o benfeitor que sai recompensado com o que é ficcionalmente assumido como o maior dom da vida - a liberdade.

 
O Génio de "Aladdin" (1992), a cantar o tema "Friend like me"

      Se o tratamento temático da ambição desmedida (protagonizada por Jafar e o papagaio Iago), da satisfação dos desejos (de Aladdin, de Jafar e do próprio Génio), da diferenciação social no cruzamento com o amor se evidencia num filme que ainda coloca em discussão o facto de se poder ser alguém que se não é (quer Aladdin quer Jasmine vivenciam situações perigosas, fingindo ser pessoas distintas do que à partida são), não menos relevante é o tópico da prisão ou da falta de liberdade da maioria das personagens: o par amoroso diz-se preso aos seus estilos de vida e, por razões / vivências diferentes, ambos se sentem encurralados (ele, por nada ter; ela, por não poder escolher à vontade); o sultão de Agrabah age em conformidade com a tradição ou a força hipnótica de Jafar, até se libertar de ambos; este último está dominado pela contínua e ameaçadora sede de poder; o Génio lamenta-se por viver no interior da minúscula lâmpada, até que o amo / dono o faça sair para cumprir os três desejos a que tem direito. 
     É nesta precisa condição que se destaca o terceiro desejo de Aladdin: depois de desejar ser príncipe (para conquistar Jasmine) e de querer ser salvo da morte no mar (a que Jafar o votara, para poder casar com a princesa), cumpre-se a promessa feita ao Génio - a de o libertar da sua limitação (o que, curiosamente, sucede quando Jafar é feito prisioneiro na própria lâmpada que sempre quis possuir).
       O final feliz da história acaba por ser a concretização de "a whole new world" - título musical principal do filme - para os bons da fita. E, entre eles, está o Génio. Para além do virtuoso e generoso Aladdin, é ele o louco bom; o cómico que traduz alguma da seriedade da mensagem; o pateta alegre que reflete sobre a condição triste em que vive e sai recompensado por se colocar do lado dos justos.

       Na genialidade da personagem encontra-se o génio vocal de um ator que se destacou em vários filmes, particularmente Good Morning, Vietnam (1987), O Clube dos Poetas Mortos (1989), Despertares (1990), O Bom Rebelde (1997), entre muitos outros. Também ele procurou libertar-se de um drama (bem mais real) que o limitava. Pena que o tenha feito da forma mais extrema, sofrida e contrária à própria existência.

terça-feira, 24 de março de 2015

A morte já tem mestre

      Se o título "A Morte Sem Mestre" (2014) era verdade poética, agora é realidade negada.

       Desde ontem, a morte ganhou um mestre de renome - mais nome do que cara pública, mesmo quando esta podia cruzar-se nos e com os olhares deste mundo. Como lei da metamorfose, a passagem faz-se; a mudança acontece; a viagem cumpre-se, para um destino que a distância e o tempo farão, por certo, maior, num espaço de memória com "Os Passos em Volta" (1963), "Ofício Cantante" (2009) ou "Poemacto" (1961).
     Como que numa teorização literária sobre a poesia e a criação poética, fica o tratado, o pensamento em verso:

Poema de Herberto Hélder, dito pelo jornalista Fernando Alves.

"Um quarto dos poemas é imitação literária,
outro quarto é ainda imitação mas já irónica e colérica,
outro quarto é das labaredas da inquisição à volta,
outro quarto, o quarto, o que falta, é por causa da
magnificência do mundo
o quinto quarto absurdo é o das quatro patas cortadas,
e o último é ele que olha da montanha onde abriu na 
pedra o seu nome inabalável,
e voltava ao primeiro como se fosse orvalho,
como se fosse tão frio que cortasse até ao osso,
o imo do próprio nome assim metido na pedra,
tanto que ninguém sabia de quem era,
porque ficou todo dentro e não se via de fora:
nem o suor nem o sangue nem o sopro"
in Servidões (2013)

      Assim o construiu Herberto Hélder (1930-2015); mas mais do que o autor ou o poeta, fica essa voz sibilina que "queria fechar-se inteiro num poema":


Montagem de um poema de Herberto Hélder com uma imagem de Alexandra Antunes
(in 
http://www.alexandraantunes.com/2012/11/herberto-helders-typographic-portrait.html)

     O poema que o fez "feliz e trágico" fica como a morada eterna, o local no qual se deita para o(s) (re)encontro(s) que o leitor quiser marcar. 

sábado, 10 de janeiro de 2015

Fanatismo, desunião e violência

      Três dias depois, o pesadelo começa a receber a resposta que devia ter sempre existido.

     O atentado - terrorista no ato, se não o for na dimensão ideológico-político-religiosa (a ver vamos quem o reclamará) - ao jornal Charlie Hebdo é traumático pelas vítimas provocadas; lamentável e perturbador pelos princípios que o possam ter motivado; ofensivo e crítico pelo desrespeito dos ideais atacados, tão marcantes para a história e cultura francesas como para o ocidente europeu (e não só). Os proclamados defensores dos valores de cidadania, de inclusão e integração, aceitação e multiculturalidade, liberdade, igualdade e fraternidade sentiram-se violentados, vitimizados.

Estátua do ardina, na cidade do Porto,
junto à Praça da Liberdade.

      O "Je suis Charlie" surge em todo o local e com qualquer pessoa de bem, numa identidade emotiva e virtuosa não só com a liberdade de expressão mas também com os valores mais universais do ser humano. Falta saber quanto tempo durará esta marca, para não falar de todos os dirigentes políticos que vão embandeirar-se com tal identificação, mesmo sendo capazes de originar outras formas de terrorismo. Valha o facto de se deixarem também consciencializar pelo que possa representar este triste e trágico momento. Era bom que a causa fosse mais persistente, consistente, abrangente. 
   Para amanhã anuncia-se um grande movimento solidário em Paris. Lá estarão os governantes, os partidários dos valores que nos unem, encabeçando uma iniciativa que devia alargar-se ao combate de toda e qualquer forma de terrorismo, nomeadamente a que mais se faz sentir quase todos os dias, afetando a dignidade humana (por decisões excessivas, mais do que contestadas, nos planos político, económico e social).

      Não é livre quem é fanático; não é igual aquele que, na diferença e diversidade, não busca o que nos faça ou possa unir; não é fraterno quem responde a lápis, canetas, palavras e ilustrações humorísticas com armas letais, atos violentos e mortes injustas. Onde estais vós, liberdade, igualdade e fraternidade?

         

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Quando o papel da vida chega ao fim

    Foram muitos os papéis desempenhados em filmes, séries, teatro...

    Chegou ao fim o papel da vida. 
   É sempre triste a notícia da partida daqueles que artisticamente fazem parte de uma geração. A da minha juventude tem, por certo, Robin Williams como um dos grandes da Sétima Arte. Os traços do seu sorriso sempre desenharam o empático e contagiante registo da comédia, mesmo nos enredos cuja profundidade temática tinha tudo menos razões para fazer rir.
   Good Morning, Vietnam  (1987) e Clube dos Poetas Mortos (1989) são títulos que o assumem como protagonista de narrativas cinematográficas ímpares. O segundo muito mais diretamente me diz, pelo papel de professor de Literatura que o ator representou (John Keating) e que a mim me fascinou - talvez por, nesse ano, estar já eu a perspetivar o tipo de docente que gostaria de ser.
      No meio do enredo, ficava uma de várias mensagens:

     Imagem do filme Clube dos Poetas Mortos (Dead Poets Society)

     Parece que, hoje, a depressão e o desespero puseram fim ao romance, à poesia, à beleza, ao amor... à vida. 

    Na suspeição de um suicídio, aos sessenta e três anos, Robin Williams deixa o legado de um artista oscarizado (em 1998, com Good Will Hunting - ou, em Português, O Bom Rebelde -, na categoria de Melhor Ator Secundário), de uma carreira galardoada com grammys, emmys e globos de ouro diversos; o sinal de que a ficção pode mascarar ou iludir realidades insuportavelmente duras e graves.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Uma poeta no Panteão

     Por etimologia, Panteão é o templo dedicado aos deuses greco-romanos. Sophia lá está, a partir de hoje, na Igreja de Santa Engrácia (Lisboa) - a mesma cujas obras de restauro outrora nunca mais terminavam e deram lugar à expressão "obras de Santa Engrácia".

    Passados dez anos da sua morte, os restos mortais de Sophia de Mello Breyner Andresen deram entrada  no que é atualmente identificado como monumento da memória coletiva de cidadãos ilustres nacionais.
     A autora de muita prosa - A Menina do Mar e A Fada Oriana (1958), Noite de Natal (1959), Contos Exemplares (1962), O Cavaleiro da Dinamarca (1964), O Rapaz de Bronze (1965), A Floresta (1968), A árvore (1976), Histórias da Terra e do Mar (1984), O Bojador (2000) - e muito verso irá estar junto de outros escritores - Luís de Camões, Almeida Garrett, Guerra Junqueiro, Aquilino Ribeiro - e várias outras personalidades portuguesas também reconhecidas. Entre as mais recentes Amália Rodrigues e o General Humberto Delgado. É na mesma sala deste lutador contra o fascismo ditatorial que estará a criadora dos versos anunciadores da liberdade democrática do 25 de abril.
    Na luta que empreendeu pela causa pública, vários foram os poemas que a espelharam. Na obra Mar Novo (1958) encontra-se "Porque", um dos mais significativos na defesa da justiça e da verdade - valores assumidos como instrumento de denúncia da adversidade, de uma sociedade que, nas suas palavras, não se responsabiliza pelos mais fracos ou mais vulneráveis.


     No ideal de uma sociedade em que todos não ganhassem mais dinheiro, mas em que todos precisassem menos dele, Sophia compôs um universo poético com coordenadas muito solidárias, humanistas. Na compilação da Obra Poética, editada pela Editora Caminho (2010), há feixes de luz clássica; o perfume, os sons e a cor do mar; o grito de liberdade e a busca atenta do que o mundo oferece de esplendor e dor. A escrita poética materializa a sua observação, participação e convivência com a realidade; o encontro com vozes, personagens e imagens que tão generosamente deu a ler com a palavra "alada impessoal / Que reconheço por não ser já minha" (Epidauro 62, in Ilhas, 1989).
   Da escritora nascida no Porto (1919), que cria na poesia pré-existente na natureza (sendo apenas necessário saber ouvi-la) e nela pensava como forma de construção e transformação do mundo, fica a memória eterna na capital, no Panteão Nacional.
   
    Entende-se o reconhecimento de uma figura cimeira da literatura portuguesa, ainda que o maior deles nunca seja a alocação num espaço de pedra nem nos discursos dos políticos e governantes que, tal como enaltecem a escritora, também ignoram a obra, ao legitimarem programas de ensino (como o novo programa de Português do Ensino Secundário) que não a contemplam entre os autores do século XX. Ironia da educação destes tempos, em que a aparente "luz que nos rodeia é como grades". Felizmente, há formas de desfazer ironias e grades muito enferrujadas.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Dia da Consciência

   Hoje é o 'Dia da Consciência' - iniciativa promovida por um português residente em Nova Iorque para marcar 70 anos passados de uma desobediência que evitou um sofrimento maior de milhares.

    Está anunciado que, neste dia, Aristides de Sousa Mendes vai ser homenageado em igrejas e sinagogas de todo o mundo, como forma de lembrar os esforços por ele conduzidos para salvar milhares de perseguidos pelo regime nazi.


   Parece coincidência toda esta movimentação em prol do diplomata português, depois da recente deslocação feita a Cabanas de Viriato e à Casa do Passal, há três dias. Mais uma prova de que as motivações para a escolha do local fizeram e fazem todo o sentido. 
     Hoje evoca-se o dia em que o cônsul de Bordéus conscientemente contrariou o conteúdo da Circular 14 (de 1940), aquela na qual Salazar impedia a passagem de vistos a qualquer estrangeiro de nacionalidade indefinida, contestada ou litigiosa; aos apátridas, aos judeus.

      Data de relevo para a Humanidade, não pelo nascimento nem pela morte, mas por ser o dia a partir do qual um Homem optou por estar “Antes com Deus contra os homens que com os homens contra Deus”.

domingo, 27 de abril de 2014

Aqui vive um poeta (e não só)

    A um homem das Letras, formado em Direito e com bastante história na cultura e na política deste país.

    Ao fim de 72 anos, que tenha sido assim a entrada nessa experiência que, por um lado, anula a existência; por outro, ganha (a morte) aquele que a vive (na passagem). 

soneto do amor e da morte

quando eu morrer murmura esta canção 
que escrevo para ti. quando eu morrer 
fica junto de mim, não queiras ver 
as aves pardas do anoitecer 
a revoar na minha solidão. 
O poeta que (se) lê
quando eu morrer segura a minha mão, 
põe os olhos nos meus se puder ser, 
se inda neles a luz esmorecer, 
e diz do nosso amor como se não 

tivesse de acabar, sempre a doer, 
sempre a doer de tanta perfeição 
que ao deixar de bater-me o coração 
fique por nós o teu inda a bater, 
quando eu morrer segura a minha mão. 

 in Antologia dos Sessenta Anos (2002)

     Em registo e tom completamente diferentes (mais risível, mais irónico, menos sentimental ou pungente), uma outra "morte" surge em novo soneto, escrito a pedido de Francisco José Viegas. Nele um sujeito poético coloca-se discursivamente diante de uma alma moribunda, numa coloquialidade capaz de desdramatizar e desconstruir o que possa ser trágico (qual ser que, à procura de entender o desconhecido, brinca estrategicamente com este último e o sentido que a própria vida lhe dá) e em jeito de evidente intertexto camoniano:
Retrato de Vasco Graça Moura, por Bottelho.
      mudinha e quietinha

pé ante pé há-de chegar a morte:
alminha vagabunda, enquanto ofegas
são as gotas da vida cabras cegas
na hora escapulida que te exporte.

alguém dirá que ao criador te entregas, 
terás um atavio em lenho forte
e um necrológio do melhor recorte:
azar, lampejos, erros teus, refregas.

se da outra vida algum contacto póstumo
acaso se consente então a sós tu mo
dirás depois e se gostaste ou não.

mas se não for assim não ficas mal
mudinha e quietinha. por sinal,
há gente bem pior no panteão.
in Poesia reunida , vol. I (2012)

        Entre a caracterização de culto, de poeta da renascença contemporânea (tanto pelo que estudou como pelo que escreveu ou traduziu) e os sinais da modernidade (também questionadora da tradição e da convenção canónicas), o galardoado com o Prémio Pessoa (1995) entregou-se à arte de Apolo e de Febo, da forma mais clássica, erudita e disciplinada à mais descondicionada e motivada no que a vida e a língua de hoje nos oferecem.

        Fica o registo de dois poemas inspirados nessa hora que se abre (que se lhe abriu) ao tempo sem conta nem vitalidade.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

E foi este o dia...

     Há quarenta anos, chegou a liberdade e os versos da 'poeta'.

     Celebra-se o fim de um regime ditatorial, que teve em Salazar e Marcello Caetano as caras da opressão e repressão; festeja-se a democracia conquistada pelo Movimento das Forças Armadas (MFA), para um povo sedento de justiça, de oportunidade e de tempo - todos mascarados, estagnados algures desde as primeiras décadas do século XX.
     E os versos surgiram, para anunciar a mudança. O título fez-se com uma simples data, o de um dia do calendário ("25 de Abril").

A palavra poética de Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Nome das Coisas, 1974
(Fotografia da exposição 40 anos do 25 de Abril, na Escola Secundária de Gondomar)

    Comemorada a revolução dos cravos (aquela em que uma mulher, na manhã desse dia, ofertou cravos a um e outro soldado, na direção do Largo Carmo, e viu essas rubras flores depositadas nos canos das armas), ficam na memória os exemplos a seguir, além dos males sofridos, indesejados - alguns teimosamente coincidentes com aquilo que se queria já bem longe dos nossos dias. Assim não é.

     Valeu a pena! Teve e tem de valer a pena, para que o azedo e a agrura dos tempos passados não se traduzam em sufoco e angústia de um povo que, na ânsia de direitos e liberdades (e da confiança e da esperança), espera (ainda) por melhores dias, depois de lhe terem comprometido algum do futuro.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

A cantiga que esteve para ser arma

      A cantiga é uma arma - assim se diz das que estão comprometidas com atos revolucionários.

    Em contexto de véspera do 25 de abril, muito se fala de "E depois do adeus" (cantada por Paulo de Carvalho), "Tourada" (por Fernando Tordo), "Grândola Vila Morena" (por Zeca Afonso). Muitas outras poderiam ser mencionadas, entre as que soaram ora nos dias anteriores ora nos que sucederam à revolução que fez vingar a democracia, pondo fim a uma ditadura de quase cinquenta anos.
     Documentado com os registos (de há quarenta anos) para memória futura, o radialista Manuel Tomás evocou-os hoje em entrevista televisiva (no Jornal 2). Tornados presente, neles se relembra como a canção "Grândola Vila Morena" esteve para ser "Venham mais cinco". A primeira, que foi a senha para a saída das forças armadas dos quartéis, só o foi pelo exercício de censura previsível sobre esta última.


         VENHAM MAIS CINCO

Venham mais cinco
Duma assentada
Que eu pago já
Do branco ou tinto
Se o velho estica
Eu fico por cá

Se tem má pinta
Dá-lhe um apito
E põe-no a andar
De espada à cinta
Já crê que é rei
D'àquém e D'àlém Mar

Não me obriguem
A vir para a rua
Gritar
Que é já tempo
D'embalar a trouxa
E zarpar

A gente ajuda
Havemos de ser mais
Eu bem sei
Mas há quem queira
Deitar abaixo
O que eu levantei

A bucha é dura
Mais dura é a razão
Que a sustem
Só nesta rusga
Não há lugar
Pr'ós filhos da mãe

Bem me diziam
Bem me avisavam
Como era a lei
Na minha terra
Quem trepa
No coqueiro
É o rei

     De um passado de que nos libertaram, seria bom que o presente não revivesse sinais dele, para bem de um futuro com esperança. 

      Começa na noite de hoje a manifestação popular em memória dos 40 anos do 25 de abril. A associação homónima, dos militares que lideraram o MFA (Movimento das Forças Armadas), fará amanhã uma cerimónia pública no histórico Largo do Carmo, homenageando Salgueiro Maia. Com eles é que o povo deveria estar, deixando orgulhosamente sós aqueles que vão mutilando o exemplo e o modelo de liberdade conquistados (pois, como diz a canção, "...há quem queira / Deitar abaixo / O que eu levantei") e que gostam da retórica que já nada significa para os governados.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

40 anos do 25 de Abril na ESG

      Depois de ontem ter sido oficialmente inaugurada...

     Chegou a vez de levar os alunos à exposição dos 40 anos do 25 de Abril (que propositadamente escrevo com a maiúscula do relevo a dar a um tempo histórico que devia ser inspirador para a atualidade que se vive). A atividade, da responsabilidade do Departamento de Ciências Sociais e Humanas da Escola Secundária com EB3 de Gondomar, conta com um programa que abrange colóquios, debates, participação em eventos dinamizados com a edilidade gondomarense, sarau cultural, entre outras iniciativas.
     De particular interesse em toda a exposição, os vários pormenores marcantes de uma época (moda, utensílios domésticos, louça, brinquedos, música, revistas, moedas e notas) e, em especial, a reprodução de uma sala de aula, mais uma mostra de fotografias do pessoal docente e não docente da ESG.
      Destas duas últimas, impõe-se a referência a todos os sinais de uma sala de aula que os alunos viram, na qual sentaram e contactaram com manuais únicos da então chamada escola primária; com as famigeradas provas de passagem, em folhas de papel almaço pautado; com os retratos de Marcello Caetano e Américo Tomás, mais a cruz de Cristo, na parede por cima do quadro negro; com as palmatórias, para lembrar castigos físicos. Talvez tenham achado demasiado estranho, mas todos tiveram que passar pela minha frente, junto à secretária docente, e dizer-me individualmente 'bom dia', depois de apanharem umas "reguadas", só porque tinham pensado que podiam sentar-se onde e com quem queriam; começaram a aula comigo, de pé (a ideia era cantar o hino, mas alguns estarreceram...), à espera da minha autorização para sentarem. Só faltou a cana para que pudesse apontar para o quadro ou atingir a cabeça ou a orelha de alguém mal comportado.

Depois das reguadas, todos sentadinhos e alinhados nas carteiras da escola primária

      Foram poucos os minutos de aula, para saberem que o conformismo era a regra de ouro, para os valores que sublinhavam a importância de Deus, Família e Pátria; que a educação assentava nestes valores, também presentes em conteúdos e áreas de conhecimento praticamente ensinados à mesma hora por todo o país; que a homogeneidade era princípio respeitado nas próprias turmas e escolas (só femininas ou só masculinas); que os erros, os esquecimentos e as distrações eram fatores de castigo severo; que as formas de castigo eram tão visíveis quanto as "orelhas de burro" e a observação das paredes ou recantos das salas, além de frequentemente sentidos quanto as mãos ficarem a ferver pelas "reguadas" aplicadas; que o controlo era tão assumido quanto o desejo de casar de uma professora primária depender da autorização do próprio Ministério; que o respeito era um fim em si mesmo, nos silêncios forçados e no não direito a qualquer reclamação face à figura de poder.
       Com alguma incredulidade nos olhos e nos comentários feitos, prosseguiu-se com a viagem no tempo.
   Top de preferências para jovens e mais crescidos foi sempre o conjunto de fotos, com a imagem de professores, pessoal administrativo e auxiliares de ação educativa, todos com menos quarenta anos. Ver alguns dos docentes ainda nos bancos de escola, procurar descobrir no passado traços de um presente que o tempo tem vindo a moldar de forma por vezes tão distinta; encontrar o habitual preto e branco (já amarelado e com sombras) das imagens, mais os recorrentes cavalinhos das festas e feiras, as roupas de cerimónia ou das festas de comunhão, os registos de rosto ou de corpo inteiro em poses tão estáticas e marcadas quanto os fotógrafos assim o ditavam são marcas já distantes para o ato festivo, quase singular do que era, nessa época, tirar uma foto. Hoje, no tempo das 'selfies' e do 'photoshop', parece que se está perante achados do século passado (e sem dúvida que o são), apesar de nem meio século distar do tempo retratado.

        ... o reconhecimento impõe-se, por toda a dedicação prestada e todo o trabalho concretizado. O espaço do palco e do antigo pavilhão gímnico foram animados, abertos ao público e a uma iniciativa que tem tudo para marcar a vida da escola ao longo dos próximos dias. A palavra de apreço pelo que foi feito e a quem tanto se empenhou na dinamização do evento é o mínimo que este registo pode e deve traduzir.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Despedida de Gabo

     Noticiada ao final do dia, a despedida que há muito se anunciava.

     Para o conhecido autor de narrativas que foi o colombiano Gabriel García Márquez, Nobel da Literatura em 1982, quase se pode dizer que hoje foi o dia da Crónica de Uma Morte Anunciada (1981) - não a do assassinato da personagem Santiago Nasar, mas a que naturalmente foi chegada aos 87 anos de vida do próprio escritor. Teminou, assim, a última página vivida, porque das lidas muitos outros poderão dar contínuos e intemporais desenlaces como se aquela se mantivesse como narrativa aberta.
     Muito falado é o realismo mágico da escrita de Gabo ou Gabito, dessa fusão entre realidade e fantástico que se lê em "Surpresas de Agosto" (na coletânea Doze Contos Peregrinos, de 1992). Tudo parece passar pelo exemplo que a narrativa nos dá: refletir sobre a vida, não pelo que dela se vive, mas pelo que dela se recorda e pela forma como essa recordação é contada. Neste sentido, o autor de Cem anos de Solidão (1967) ou de O Amor nos Tempos de Cólera (1985) foi alguém que se entregou dominantemente à narrativa, da mais ficcionada àquela que nada tem de ficção (como, por exemplo, a jornalística ou periodista). É desta última que Portugal faz parte dos seus escritos, particularmente os que deram origem a três textos (duas reportagens e um ensaio) sobre o processo revolucionário de abril e o período do verão quente de 1975.
    Sobre o ofício da escrita dos contos, dizia Gabo que "é tão intenso como o de começar um romance. Porque no primeiro parágrafo de um romance tem de se definir tudo: estrutura, tom, ritmo, extensão, e por vezes até mesmo o carácter de uma ou outra personagem. (...) o conto, em contrapartida, não tem princípio nem fim: pega ou não pega." (in Doze Contos Peregrinos).
     Lembro que, pelos finais da década de oitenta do século XX, me "pegou" a história de um pequeno livro que tive a oportunidade de reler há cerca de três / quatro anos:

   "Caminhou mais de cem metros para dar a volta completa à casa e entrar pela porta da cozinha. Teve ainda a lucidez bastante para não ir pela rua, que era o trajeto mais longo, entrando na casa contígua. Poncho Lanao, a mulher e os cinco filhos não tinham dado pelo que acabava de acontecer a vinte passos da sua porta. "Ouvimos a gritaria", disse-me a mulher, "mas pensamos que era a festa do bispo." Começavam a tomar o pequeno-almoço, quando viram entrar Santiago Nasar encharcado em sangue e segurando nas mãos o cacho das suas entranhas. Poncho Lano disse-me: "O que eu nunca pude esquecer foi aquele fedor a merda." Mas Argénida Lanao, a filha mais velha, contou que Santiago Nasar caminhava com a altivez de sempre, medindo bem os passos, e que o seu rosto de sarraceno com os caracóis revoltos era mais belo do que nunca. Ao passar em frente da mesa sorriu para eles, e continuou através dos quartos até à porta de trás. "Ficamos paralisados de susto", disse-me Argénida Lanao. Minha tia Wenefrida Márquez estava a escamar um sável no quintal da sua casa, do outro lado do rio, e viu-o descer a escadaria do cais antigo, procurando com passo firme o caminho para sua casa. 
     - Santiago, meu filho - gritou -, que tens tu? 
     Santiago Nasar reconheceu-a. 
     - Mataram-me, menina Wene - disse ele. 
     Tropeçou no último degrau, mas levantou-se logo. "Teve mesmo o cuidado de sacudir com a mão a terra que tinha nas tripas", disse-me minha tia Wene. Depois, entrou em casa pela porta de trás, que estava aberta desde as seis, e desabou de bruços na cozinha."

      Eis o epílogo de uma narrativa que já no seu início anunciava estas últimas linhas de intenso mistério no trágico destino de uma personagem; mas, mais do que esta, era o facto, a ação narrada que constituía o núcleo central para todo o percurso de um narrador que quis fazer (uma) crónica e colheu as informações necessárias para o narrado. E tudo sendo sabido por antecipação, nada impediu que existisse e persistisse a fatalidade.   
   
      Entre o tanto que ainda tenho para ler (dele), houve várias experiências que pegaram e bem: nos contos, "A Sesta de terça-feira" (in Os funerais da mamã grande) e "Surpresas de Agosto" (in Doze Contos Peregrinos); nas narrativas mais extensas, Crónica de uma morte anunciadaCem anos de solidão e O Amor em tempos de cólera. Vejamos se o tempo me dará a oportunidade de cruzar com mais alguns dos seus escritos.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Bem que podia ter ganhado...

     Não se ouviu o que era merecido: "And the Oscar goes to U2 and Ordinary Love".

   Por mais comum ("ordinary") que seja, o amor merece melhor. E quando é cantado pelos U2, o sentimento ganha outra harmonia e cor. 

     

      ORDINARY LOVE

The sea wants to kiss the golden shore 
The sunlight warms your skin 
All the beauty that's been lost before wants to find us again 

I can't fight you any more, it's you I'm fighting for 
The sea throws rock together but time leaves us polished stones 

We can't fall any further 
If we can't feel ordinary love 
And we cannot reach any higher, 
If we can't deal with ordinary love 

Birds fly high in the summer sky and rest on the breeze. 
The same wind will take care of you and I. 
We'll build our house in the trees. 

Your heart is on my sleeve 
Did you put it there with a magic marker? 
For years I would believe that the would couldn't wash it away 

'Cause 

We can't fall any further 
If we can't feel ordinary love 
And we cannot reach any higher 
If we can't deal with ordinary love.

Are we tough enough for ordinary love? 

      A canção não ganhou o "Oscar", mas o momento da cerimónia foi um dos vencedores, também pela evocação natural da figura de Madiba:


      Entretanto, no programa americano 'Tonight Show', apresentado por Jimmy Fallon, a música foi apresentada ao vivo, numa versão acústica, em ondas de efusiva aproximação à 'Ordinary People':


      Sem arranjos ou aplicações que subvertessem a qualidade do momento, ficou o registo do que se faz bem.
     Também na vida nem sempre vencem os melhores. O tempo faz com que estes vinguem pela qualidade do que fizeram / fazem. É uma questão clássica.

      Da banda sonora do filme "Mandela: um longo caminho para a liberdade", esta canção foi lançada pouco antes do falecimento do político sul-africano - fonte de inspiração para a banda que dedicou a música ao amigo de longos anos; fonte de inspiração também para a humanidade " 'cause can't reach any higher if we can't feel / deal with ordinary love".

quarta-feira, 5 de março de 2014

Versão romantizada de uma tragédia

       Dos tempos que já lá vão, só memórias e bem longe da realidade.

       A realidade trágica está bem distante (ainda bem!); os vestígios dela são hoje programa turístico.
     "Pompeia", para além de evocar uma cidade desaparecida, é ainda título para um filme (dirigido por Paul W. S. Anderson) que procura, a par de uma intriga romantizada e algum ingrediente da vingança, traçar a cor local e epocal típica dos filmes de enquadramento histórico.
      Para iniciar, o clima de horror é sugerido desde logo por uma citação do historiador Plínio, o Jovem, numa referência aos gritos dos homens, aos lamentos das crianças e ao desespero das mulheres.
 
Fotografias das ruas antigas empedradas e das ruínas de palácios em Pompeia (VO)

     As imagens seguintes são as de um modo de vida, as de uma realidade que ainda pode ser aproximadamente antevista nos sinais e nas ruínas da atual cidade, recuperada das escavações feitas no século XVI e aprofundadas dois séculos depois. As estátuas de pedra humana encontradas testemunham algumas das vítimas da catástrofe natural - a do casal de pé a beijar-se (abrindo e fechando a película) é criação fílmica, a concorrer com as conhecidas de uma mãe a amamentar o filho, a de um cão preso a correntes, a de todos os corpos expostos ao público turista naquele que era o espaço do mercado da cidade.
    No primeiro século do primeiro milénio, a destruição da cidade pela erupção do Vesúvio é o pano de fundo para a epopeia de Milo (o "Celta", protagonizado por Kit Harrington), uma vítima e um sobrevivente do exército romano, nas terras britânicas, transformado em gladiador vencedor na arena pompiana. Aí cumpre o seu grito de vingança, acompanhado por Átticus (representado por Adewale Akinnuoye-Agbaje).


    Na senda da liberdade, as forças da natureza vencem, tudo destruindo (inclusive os que se julgam detentores de um poder manipulador e insuperável). Cercados ora pelo fogo da lava vulcânica ora pelas gigantes ondas do maremoto que fez submergir a cidade, os habitantes de Pompeia não têm salvação. O mesmo sucede ao vilão, senador de Roma (Corvus, interpretado por Kiefer Sutherland).
       Petrifica-se, ainda, o amor e a nobreza de carácter dos heróis, pois a sobrevivência não tem hipótese na história trágica recontada. 

    Resta a mensagem de que, mesmo no seio da catástrofe inevitável e da morte arrasadora, é possível agarrarmo-nos ao que é ou se torna importante aos nossos olhos (mesmo que o essencial esteja para lá deles).