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segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Morfologizemos - II

    Voltando à Morfologia, na formação de docentes.
   
   Dezanove formandos estão a trabalhar comigo, a partir de hoje e num total de quinze horas de formação. Desta feita na Escola Secundária Dr. Joaquim Ferreira Alves (Valadares), a pedido do Centro de Formação Aurélio Paz dos Reis.
    Vou "morfologizar", pela segunda vez, com o programa formativo proposto há dois anos na Escola Secundária com EB2,3 Dr. Manuel Laranjeira:


Diapositivo de apresentação do curso de formação

       Um curso de formação que visa a aquisição de saberes atualizados, segundo princípios metodológicos e/ou pedagógico-didáticos; o desenvolvimento de conhecimentos e competências numa rentabilização e/ou problematização do objeto de formação segundo os programas de ensino e documentos referenciais reguladores das práticas; a exploração de competências pedagógicas nos professores de Português, do ensino básico e secundário, de modo a integrar saberes e reflexões promotores de transposições e aplicações didáticas; a sensibilização e tomada de conhecimento - implicada, sustentada e fundamentada - de referenciais de trabalho que assentam em contributos das áreas da Linguística, da Literatura, da Didática e da Organização e Desenvolvimento Curricular; a discussão e a consciencialização de áreas ou pontos críticos no domínio linguístico da Morfologia e na sua interrelação com os programas de ensino, as metas de aprendizagem e o discurso pedagógico-didático.



     Mais uma oportunidade de partilhar experiências, saberes, desenvolvendo o espírito crítico que se impõe face a materiais, discursos e práticas muito rotinizadas e reguladas por publicações com muito que se lhe diga.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Para que nada se perca

     Começado o novo ano, convém saber distinguir os verbos dos nomes.

     Entre classes de palavras não devia haver confusão; menos ainda quando a morfologia se articula com elas para marcar a distinção. Ainda, assim, esta nem sempre acontece da melhor forma, como o provam o uso (popular) mais o cartoon seguinte:

Eis senão quando... a perca chega ao funeral.

     O uso, num registo mais popular, do termo "perca" para forma nominal associada ao verbo 'perder' é contrariar o princípio morfológico de derivação do verbo (deverbal) em nome (perder > perda) com manutenção da base derivante (o radical 'perd'). 
     Em termos de norma, é o termo 'perda' que se reconhece como nome resultante de um processo morfológico de derivação não-afixal (isto é, processo de formação que permite a passagem de uma forma verbal a nome, sem acrescento de afixos - apenas com a substituição da vogal temática 'e', em perder, pelo índice temático 'a', em perda).

      Fique-se, portanto, no registo do Português padrão, com a 'perca' para designação de peixe (nome) ou para conjugação verbal de 'perder' no presente do conjuntivo, inclusivamente com o valor suplementar deste último em frases de tipo imperativo. Mais do que isto, por agora, é cómico certo.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Qual é o aspeto?

      Não se trata de uma questão de moda nem de querer saber o estado de qualquer coisa!

     Pode, aliás, ser o estado ou o evento na situação traduzida num enunciado, atendendo a vários elementos linguísticos neste último presentes.
       É precisamente sobre isto que vem a questão seguinte:

     Q: Olá, Vítor. Posso dizer que na frase "Os alunos espirraram na aula" o aspeto é perfetivo porque o verbo se encontra no pretérito perfeito? Quando puderes, confirma-me, por favor.

      R: Olá. Lamento, mas não posso confirmar. Infirmo, mesmo.
      Creio haver um conjunto de pressupostos que precisa de ser reformulado: o da relação pretérito perfeito e valor perfetivo (pois o pretérito perfeito nem sempre configura o aspeto perfetivo nem o aspeto perfetivo se reduz ao uso do pretérito perfeito); o da associação direta entre tempo e aspeto verbal (uma vez que os valores aspetuais não apresentam linearidade ou implicação direta com valores temporais).
       A questão do aspeto, enquanto categoria gramatical que fornece informações acerca da estrutura temporal interna de uma dada situação, implica a consideração de uma combinatória de dados lexicais e gramaticais, os quais se revelam interatuantes na construção dos próprios enunciados.

 Sistematização proposta em Com Textos 11 - Edições ASA, 2011, pág. 185

      Para começar, interessa verificar que o verbo utilizado (espirrar), em termos lexicais e aspetuais, pertence a uma situação eventiva (dinâmica) distinta dos estados (não dinâmicos). Dentro dos eventos, 'espirrar' corresponde a um ponto (ou sucessão deles) que não admite uma situação resultativa final. Neste sentido, já não há razão para se falar de perfetividade.
       O facto de o verbo se encontrar no pretérito perfeito permite a localização da situação no tempo (passado face ao momento de fala) e a indicação de que esta terminou. Para apresentar valor aspetual perfetivo teria de esse mesmo enunciado dar lugar à perspetivação de um estado final consequente (verificável com o teste linguístico seguinte: 'Os alunos resolveram um teste' > o teste ficou / está resolvido; 'O atleta português ganhou a prova' > a prova ficou / está ganha). Ora, não é o que sucede com o exemplo proposto na questão ('Os alunos espirraram na aula' > *Os alunos ficaram / estão espirrados na aula). 
       O pretérito perfeito só tem valor aspetual perfetivo nas frases que admitem a construção de um resultado, ou seja, com verbos associados a culminações (duração muito breve, momentânea ou instantânea) ou a processos culminados (duração mais ou menos longa, com faseamentos intermédios) - a título de exemplo, para as primeiras, 'Os trabalhadores desmaiaram com o calor' (> Os trabalhadores ficaram / estão desmaiados com o calor); para os segundos, 'Pessoa construiu uma obra fantástica' (> a obra fantástica ficou / está construída). 
     A propósito de,por um lado, o pretérito perfeito não estar associado exclusivamente ao valor perfetivo e, por outro, não ser o único tempo a representar o valor perfetivo, considerem-se os seguintes enunciados (na combinatória das formas verbais e das expressões adverbiais utilizadas):

         * "Os alunos leram os textos todos durante duas horas
(pretérito perfeito com valor imperfetivo, dado que, durante duas horas, os livros não estiveram / ficaram lidos)

         * "Os alunos irão ler os textos todos na próxima semana
(futuro com valor perfetivo, dado que, na próxima semana, todos os livros irão estar lidos)

       Enquanto valores aspetuais básicos, o perfetivo e o imperfetivo são perspetivações internas de situações que estão independentes do valor temporal nela representados - o primeiro admitindo resultado consequente; o segundo, não.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Grassa não tem graça

     Podia ser jogo de palavras, mas é mais do que isso. É constatação de vocabulário a dominar.

    Quando dizia hoje, numa aula, que "Grassa nos nossos dias o discurso da desgraça", uma aluna comentava que não percebia a frase; perguntava mesmo qual era a piada. Pedi esclarecimento para a questão formulada e a reação foi imediata: "Não há graça nenhuma na desgraça, pois não?"
     A oralidade tem destas coisas: representar uma palavra a partir do que se ouve e se (re)conhece, mesmo que tal não seja o que alguém diz. Confundir "grassa" com "graça" não é nada engraçado, mas, por vezes, até pode dar para rir. Contudo, o silêncio na turma era geral (fosse pelo reparo ao professor fosse porque ninguém percebia a "piada"). A forma verbal do verbo 'grassar' (alastrar, desenvolver, propagar) não foi sequer entendida, por ser frequentemente desconhecida por quem reduz ao máximo o léxico que usa (tão restrito quanto o verbo 'meter' dar para tudo, mesmo quando tal não é possível).
     Na homofonia dos termos, tornou-se previsível a reação discente, além de se constituir como uma oportunidade para se explicar a diferença das palavras, repondo uma coerência no enunciado dito que não foi (re)construída por quem o escutou.
      São vários os exemplos a que podia aqui recorrer (alguns dos quais foram já mencionados em apontamentos anteriores). O seguinte vem muito a propósito:


     
     A escrita é bem mais facilitadora na distinção; a oralidade convoca uma semelhança sonora a todo o tempo causadora de problemas ortográficos. A falha na leitura é fator impeditivo de boas práticas de escrita e, também, na aquisição de vocabulário, é certo, embora muitos outros possam ser acrescentados. Grassa por aí uma multiplicidade de razões que, não tendo graça, muito tem a ver com a limitação lexical dos nossos jovens. 

     Mais vale cair em graça do que ser engraçado, diz o povo! Talvez o diga porque grassa por aí muita coisa sem graça nenhuma ou sem interesse absolutamente nenhum, mas que muitos julgam mais engraçada ou interessante do que o que realmente é (nada se aprendendo com ela).

domingo, 5 de novembro de 2017

Voltando à(s) coesão(ões)

     O fim de semana permanece como tempo de trabalho para muitos professores.

    Porque há testes ou trabalhos para corrigir, matérias para preparar, fichas para produzir, leituras a fazer,... quando o ritmo da semana é alucinante e insuficiente: não dá para tudo o que cumpre ser feito junto dos alunos (e não só). 
    Vale o facto de este também ser o tempo de reencontro(s) com propósitos formativos.

    Q: Vítor, qual o mecanismo de coesão presente no enunciado "Poesia 2, de J. Sena, estende-se por 900 pp. (...) cuja escrita corresponde ao tempo de publicação dos seus LIVROS, desde "Peregrinação" até "Exorcismos"? O nome "livros", relativamente aos títulos enumerados, é um elemento que garante a coesão lexical - interfrásica - temporal - referencial? Eu digo lexical; porém, há quem aponte para a referencial. Serão as duas? Quando puderes, diz-me o que achas.

     R: Olá. Viva.
    A propósito das questões de coesão, tive já oportunidade de me pronunciar nesta "carruagem", particularmente acerca da noção de coesão referencial e de coesão lexical. Estas últimas concorrem para a construção de uma cadeia de referência num texto / segmento textual, mas só se pode falar de coesão lexical quando o foco do mecanismo linguístico utilizado se circunscreve ao uso do léxico / vocabulário.
   Ora, no caso em concreto, há coerência referencial entre 'livros' e os títulos mencionados, sendo todos estes termos constituintes de uma cadeia de referência, com anáforas de natureza nominal. Que esta última se constrói com base no léxico também não há dúvidas (até pela relação hiperonímica de 'livros' face aos hipónimos assumidos pelos títulos dos livros referidos), por mais que se trate de um caso de correferência não anafórica.
     Portanto, conjuga-se aqui a existência de uma cadeia referencial (coesão referencial) apoiada em léxico (coesão lexical). Só quando a primeira se faz em termos estritamente mais gramaticais (pronomes, determinantes, advérbios, entre outros) é que se fica pela designação de coesão referencial (onde cabe falar de anáforas, catáforas, deíticos, construções elípticas, por exemplo).
      Pensando num exercício de escolha múltipla, não colocaria como hipóteses a selecionar as duas atrás mencionadas, pois ambas são validáveis pelo enunciado em análise, com a segunda (a lexical) a poder estar também implicada na primeira (referencial).

      Neste sentido, pode dizer-se que a coesão referencial é uma das propriedades textuais mais genérica, pela sua natureza léxico-gramatical; a coesão lexical foca- -se, mais especificamente, nas relações lexicais textualmente representadas.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Como?! Assim?!

       Isto de fonética e fonologia tem tudo a ver com SONS.

       Não com letras!
      Os grafemas estão para a escrita. Os sons estão para a oralidade. E se uma letra admite vários sons (veja-se a letra 's' que admite quatro realizações sonoras: [s] em 'sapato', [z] em 'rosa', [ʃ] em 'espinho' ou [Ʒ] em 'as batatas'), quando se faz o estudo da fonética e da fonologia é ao nível sonoro que tudo interessa. Portanto, há que distanciar da escrita e da tirania que esta apresenta quando se fonética e fonologia se trata.

         Q: A passagem de 'assi' para 'assim' pode ser um exemplo de paragoge?

        R: Claramente não. Trata-se de um exemplo perfeito de nasalização.
          Ninguém lê 'assim' como [ɐ'sim], mas sim como [ɐ'sĩ]. Ou seja, não é o som [m] que está em causa, mas sim a nasalização da vogal 'i' (que deixa de ser apenas oral para passar a oral nasal). É a aparência da grafia que parece apontar para o adição final de um som; contudo, não é isso o que acontece. É a vogal final que adquire um traço diferencial (de ressonância nasal) na sua produção.
         A letra 'm' pode ser lida como o som [m] em 'mesa' ou 'acima'. Por sua vez, em 'assim', 'fim' ou 'importar', a escrita não pode confundir o som transmitido - e que é sonora ou foneticamente a representação feita por um til ([ɐ'sĩ], ['fĩ], [ĩpur'tar]), a marcar o traço da nasalidade.

         Mais um caso que mostra que nem tudo o que parece é (não é processo fonológico de adição, mas sim de alteração na natureza da vogal oral que já lá está /estava e que passa / passou a ter um traço novo - o da nasalidade).

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Lá vem a vírgula do vocativo, gente!

    Chamamento, vocativo, apóstrofe... na pontuação dá no mesmo.

    É mesmo isto!
   Cansado de ler "boa tarde / boa noite professor" - quando devia encontrar "boa tarde / boa noite, professor" -, nem me apetece responder quando não sou nem me sinto chamado.
   Quem chama, invoca ou apostrofa deve marcar, na escrita, esse mesmo ato: fá-lo com uma simples vírgula. Dos poucos casos em que a ausência desta constitui erro ou altera substancialmente o significado da frase, um é precisamente o aqui ilustrado:

Do assunto ao destinatário / recetor - uma questão de vírgula

    E se dizem "é só uma vírgula", "esqueci-me", apetece-me responder "OK! Tens sete. Era dezassete, mas só falta um '1'. Esqueci-me".
    É tão mais fácil não ser escravo da ignorância! Claro que não acredito que alguém possa acabar com o trabalho (soa a promessa política que ninguém pode / deve concretizar). Aposto mais na colocação da vírgula para verdadeiramente perceber que o patrão / o político / o responsável ou chefe nos vê como autêntico escravo do trabalho.

    Mais se diga: a diferença entre o assunto (falar ou escrever sobre algo) e o destinatário (falar com alguém / escrever a alguém) é frequentemente assinalada pela simples vírgula, no segundo cenário. Sim, porque uma coisa é falar sobre escravos; outra bem distinta é falar com eles. Percebido, minha gente?

domingo, 26 de março de 2017

Pensamento do dia (com frio e chuva)

     E para hoje,...

     ... nada como passear pelo Facebook e encontrar a imagem seguinte na página "O Sexo e a Idade":


     Concordo com o conteúdo.
     Quanto à forma, resta-me responder à letra:


     Não é embirração, mas a impressão de que, amanhã, vou voltar ao mesmo (isto porque 'água mole em pedra dura muito dá e pouco fura'). 

     Parece que a única coisa que mudou hoje foi mesmo a hora, para tornar a luz dos dias mais longa.

sábado, 25 de março de 2017

A César o que é de César; ao nome o que é do nome.

      Voltando às funções sintáticas, desta feita mais internas.

      Nova dúvida em apontamento antigo (que nem era sobre sintaxe, mas que lá tem depositada a dúvida sobre tal domínio linguístico).

        Q: Boa tarde. 
      Tenho dúvidas se a função sintática do segmento textual "de uma esquadra inglesa", na frase “Ancorado em Alcântara desde a manhã de 22 de dezembro, assiste no dia seguinte à chegada ao Tejo de uma esquadra inglesa que larga ferro a estibordo“ é o complemento do nome ou o complemento oblíquo. Poderia ajudar-me?
         Muito obrigada,

     R: A função sintática do complemento oblíquo está na dependência de um verbo transitivo indireto. Assim, "assiste" seleciona o complemento oblíquo "à chegada ao Tejo de uma esquadra inglesa que larga ferro a estibordo". O foco centrado no verbo "assistir" (que, por sua vez, seleciona a preposição 'a' - ASSISTIR A) permite ver, a um primeiro nível de análise sintática, um verbo principal (transitivo indireto) complementado por um sintagma preposicional expandido (todo ele encarado como complemento oblíquo). 
     No caso do segmento indicado ("de uma esquadra inglesa"), este encontra-se na dependência do nome "chegada", numa expansão desse núcleo nominal; logo, corresponderá ao complemento do nome ("chegada"), enquanto função sintática interna (ou de segundo nível de análise).
       Esquematicamente, teríamos:


    Se é verdade que o verbo 'chegar' implica a estrutura argumental 'Alguém / Algo CHEGA A Algum lugar", o agente associado ao ato de chegar (a funcionar como sujeito sintático) é o que está configurado por 'de uma esquadra inglesa...'. Tratando-se de um argumento selecionado pelo verbo, conclui-se que o nome derivado desse verbo (chegar > 'chegada') também implica a consideração desse mesmo argumento como selecionado pelo próprio nome. Deste modo se justifica a presença de um complemento de nome.
         
      Diferentes níveis de análise, na sequência de uma expansão de segmentos, que não pode fazer esquecer a consideração do todo, mas também das suas partes (de modo a que estas não se confundam com o primeiro).

sexta-feira, 24 de março de 2017

Crenças... muito oblíquas.

     Quando se acredita, acredita-se em alguma coisa.

     Vem isto a propósito de uma dúvida, formulada em apontamento anterior, que se debruça sobre a sintaxe do verbo 'acreditar' (o que também é válido para 'crer'):

      Q: Olá, Vítor!
      Precisava da sua ajuda no esclarecimento de uma dúvida. Na frase "Um em cada 10 portugueses acredita que o amor pode estar escondido atrás do ecrã do computador", que função sintática é desempenhada pela oração completiva? Normalmente, esta oração corresponde ao complemento direto, mas neste caso não me parece possível pronominalizar por "o" - "acredita-o". Diríamos "acredita nisso"; logo, podemos admitir que a oração tenha a função sintática de complemento oblíquo? Obrigada.

       R:  Viva.
      A oração "(em) que o amor pode estar escondido atrás do seu computador" é, de facto, um caso de oração subordinada completiva oblíqua (daí a função sintática de complemento oblíquo) à semelhança de outras construções que também apresentam, como principal, um verbo transitivo indireto (que seleciona preposição) - exemplo: aconselhar a, acreditar em, concordar com, conduzir a, convencer decrer em, discordar de, insistir em, lutar por, preferir a, prevenir de, entre outros.
        A estrutura argumental típica do verbo 'acreditar' é, na verdade, 'Alguém ACREDITA EM Algo / Alguém', pelo que 'em algo / alguém' desempenha a função de complemento oblíquo. O facto de se poder suprimir ou omitir a preposição não invalida a identificação desta função, atendendo aos testes de verificação da mesma (questionação por 'Em que acredita...?' / pronominalização 'acredita nisso' / impossibilidade da passivização, típica nas construções transitivas diretas).


       Vários outros exemplos análogos podem ser considerados, também com a omissão da preposição e a identificação da subordinada completiva oblíqua:

      i) Os alunos insistiam (em) que o teste devia ser adiado.
      ii) Os estudantes confiaram (em) que havia pouca matéria para estudar.
      iii) As vítimas anseiam (por) que seja feita justiça.
      iv) Ninguém se apercebeu (de) que alguém estava a faltar.
      v) Gosto (de) que faças tudo pelo melhor.
      vi) Ele convenceu-se (de) que tinha de salvar o mundo.

      No caso do verbo 'acreditar', a construção sem preposição é seguramente a preferida:

      a) Não acredito que tenhas feito asneira.
      a') ?? Não acredito em que tenhas feito asneira.

   Um caso para demonstração como a estrutura de superfície prefere uma construção típica de queísmo (recurso a construções iniciadas por 'que' pela supressão da preposição em orações subordinadas finitas, em situações aceitáveis para a maioria dos falantes), não obstante os testes e a manipulação da frase apontarem para o que os olhos não dão a ver.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Combinações aspetuais

       Há que combinar bem, a bem do aspeto.

       A pergunta surge, quando a crença apontava para uma só resposta. E ambas estão corretas.

      Q: No enunciado "Temos vindo regularmente a discutir a questão com grupos profissionais de diferentes pontos do país", qual é o valor aspetual configurado?  O imperfetivo ou o habitual?

        R: Não se trata de uma questão de 'ou'. Ambos são admissíveis como resposta correta.
         O contraste perfetivo / imperfetivo relaciona-se com a consideração possível / impossível de um estado consequente, respetivamente, para uma dada situação. Trata-se de uma oposição básica em termos aspetuais, à qual se ajustam outros valores (acrescentados).
     Ora, a situação indicada não admite o estado consequente ou resultativo (> a questão está discutida), pelo que o valor imperfetivo se impõe. A combinatória com o valor (acrescentado) da iteratividade é evidente pelo recurso aos auxiliares 'ter' e 'vir', perspetivando-se um intervalo de tempo alargado com repetição múltipla da situação (discutir a questão) sem delimitação de ocorrências entre a fase inicial e a do ponto de chegada. Uma repetição com a duração do que possa tornar-se hábito até ao momento do ato de fala é, naturalmente, mais evidente quando se focam o advérbio 'regularmente' e a própria leitura de quantificação associada ao grupo nominal expandido "grupos profissionais de diferentes pontos do país". No fundo, a habitualidade resulta da própria possibilidade de manipular o enunciado proposto a ponto de se poder ler 'Temos vindo regularmente a discutir a questão sempre que nos juntamos a grupos profissionais de diferentes pontos do país".
      Conclui-se, portanto, que a imperfetividade concorre e é complementada pelos valores de iteratividade e habitualidade, no caso do enunciado em análise, pelo que não há exclusão dos termos / valores na análise. 

     A consideração do valor aspetual de um enunciado é, por certo, um dado complexo, até pela leitura composicional e de multifocalização que possa ser atribuída (por exemplo, a nível lexical do verbo usado na frase; a nível da frase e das expressões adverbiais usadas; a nível da progressão do próprio texto). À medida que se progride no âmbito do foco, vão sendo introduzidas alterações ao significado de base.
        

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Um tempo de contrastes, se de tempo for...

      No meio de tanta coisa, nem sei por onde começar.

      Esta é a reação que revelo quando há muitos pontos e tantas outras "pontas" para pegar. 
      Tudo começa quando a pergunta surge:

      Q: Colega, gostaria que me desse a sua opinião sobre a frase "Enquanto que o luar é dissuasor para Miguel Forjaz, Matilde de Melo vê-o como sinal de liberdade": a primeira oração tem o valor de uma adverbial temporal?

   
    R: Vejo dificuldade no valor temporal, na medida em que a frase proposta reflete um contraste de entendimentos relativamente ao significado do 'luar' para duas personagens de Felizmente Há Luar! (de Sttau Monteiro).
      Ver 'enquanto' como articulador / conector temporal implicaria a aceitação da substituição dele por 'ao mesmo tempo que / durante o tempo em que' (*Ao mesmo tempo / Durante o tempo em que o luar é dissuasor para Miguel Forjaz, Matilde de Melo vê-o como sinal de liberdade), o que não se prefigura como frase aceitável, até por se estar a referir intervalos de tempo bem distintos, no que à obra mencionada diz respeito.
      O valor de temporalidade é bem evidente em sequências do tipo:
    . Enquanto esperava, lembrava-se dos momentos que haviam passado juntos ou Ouve música enquanto estuda, demonstrativas de intervalos de tempos simultâneos e/ou coincidentes para 'esperar'-'lembrar-se' e 'ouvir'-'estudar' (processos associados a um mesmo sujeito sintático e a uma simultaneidade temporal);
    . Enquanto a crise se agudizava, o desemprego disparou, exemplificativa de como uma situação pontual ('disparar') ocorre no interior de um intervalo de tempo mais lato ('agudizar');
    . Não saio da tua beira enquanto não melhorares, evidenciadora de uma situação durativa sem limites definidos para o futuro e com o conector tomado como sinónimo da expressão 'durante o tempo em que'. Neste último exemplo, é também significativo o valor de condição implicado no enunciado (cf. 'Não saio da tua beira se não melhorares').

       "Enquanto" pode apresentar valor de comparação / contraste acumulado com o de temporalidade, por exemplo, em:

    . Enquanto ela falava ao telefone, eu preparava o jantar, com os sujeitos sintáticos das orações (subordinada / subordinante) a operarem ações distintas ('falar'-'preparar') no mesmo intervalo de tempo.

      Todavia, não é impossível considerar apenas o de contraste:
      . Enquanto D. João IV apoiava Pre. António Vieira, D. Afonso VI não o via com bons olhos.

       Um último dado prende-se com o conector usado na frase proposta: "enquanto que". Seja por analogia com "ao passo que" (no contraste) ou "ao mesmo tempo que" (na temporalidade) seja por interferência do francês ("tandis que" / "pendant que"), está usada uma forma por muitos considerada inadequada à realização padronizada do português, mais conforme à construção "Enquanto o luar é dissuasor para Miguel Forjaz, Matilde de Melo vê-o como sinal de esperança". É certo, porém, que há alguns poucos estudos que vão apontando para o uso deste articulador, encarado no seu valor comparativo / contrastivo (e não temporal), ainda que seja reduzido o número de gramáticas que o consideram - lembro-me apenas de uma, a Gramática do Português, da Fundação Calouste Gulbenkian, de 2013 - vol. II, pág. 2006. Mais uma razão para a leitura contrastiva das orações e do significado do articulador / conector.

      No que toca ao valor, pode dizer-se que 'enquanto' é muito polivalente, pelo «potencial de significado» (na expressão do linguista Michael Halliday) implicado ou decorrente de significados ajustados aos contextos e ao objectivo comunicativo.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Azulejo gramatical

      Há azulejos que dizem tudo...

    Quando alguém pergunta se é possível haver um "que" a caber na coordenação explicativa, a melhor resposta a dar é um azulejo:

Um azulejo muito gramatical, coordenativo e explicativo

     Ora cá está um caso de coordenação explicativa. A possível substituição do "que" por "pois" é a prova maior. Além disso, a permuta das orações com o articulador / conector evidencia uma impossibilidade de construção, dada a agramaticalidade do resultado final (> *Que não a levarás contigo, goza a vida / *Pois não a levarás contigo, goza a vida). Reside aqui um dos indicadores distintivos da natureza coordenativa da composição frásica, conforme já apontado em posts anteriores.

      ... numa sabedoria (de vida) que se faz acompanhar da devida explicação.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Coesão... com alguma confusão

     Quando se trata de organizar a coesão, nem sempre os manuais têm razão.

     A questão coloca-se em termos de coesão frásica:

   Q: Olá, Vítor. No caderno de atividades do manual adotado na minha escola, há um exercício colocado na ficha da 'Coesão Frásica', que consiste em detetar erros de conexão. A frase dada é "Esqueci-me da chave dentro do automóvel, mas estava com pressa" e assume-se que há nela um erro por o conector não ser adequado. É um bom exemplo para coesão frásica? Não sei porquê, mas considerá-lo-ia mais na interfrásica.

     R: Viva. Concordo plenamente. O foco da coesão frásica orienta-se para mecanismos verificáveis ao nível da frase simples, nomeadamente, questões de concordância (no interior dos grupos de palavras ou entre sujeito e predicado, por exemplo), de ordenação sintagmática das palavras e de seleção de complementos pelos núcleos.
      Efetivamente, o que se encontra destacado nesse exemplo é o conector / articulador, na ligação de orações distintas - daí o âmbito interfrásico - e a lógica implicada nessa conexão de frase complexa.
    Acrescento, ainda, que só uma contextualização muito circunscrita desse exemplo inviabiliza ou torna inadequado o conector. Em termos pragmáticos, admitiria sempre a produção de um discurso que aponta para uma primeira oração de tipo constativo ('Esqueci-me da chave dentro do carro') seguida do articulador 'mas' a introduzir uma reação ou um comentário do falante relativizando / minimizando uma conclusão associada ao anteriormente proferido - isto é, 'esquecer a chave dentro do carro' aponta para a conclusão de uma situação impensável; 'ter pressa' admite uma desculpa, um cenário para uma conclusão de algo que não é (tão) impensável. Daí a lógica de contraste ou, melhor, de refutação poder ganhar algum sentido - nesta medida, o erro de conexão não existe perante um enunciado que combina dois atos de fala, a remeter para conclusões distintas, interligados por um conector com uma orientação argumentativa ajustada à contestação, objeção, refutação, .
       Face à tipologia de coesão há, portanto, um exemplo mal concebido e face ao erro indicado tenho algumas reservas, por não conhecer o contexto em que o enunciado foi / está produzido (a ponto de assumir a impossibilidade de um sentido potencial).

    Em síntese, um caso a evitar, tanto pela classificação do tipo de coesão como pela solução apontada.
      

sábado, 29 de outubro de 2016

Novidades... com alguma velhice!

     Fala-se de "novidade", mas só com aspas de distanciamento e não apenas de citação.

     Fica, então, a questão que propõe o novo mais do que relativo.

     Q: Vítor, numa ação de formação ouvir falar de umas subordinadas que, admito, desconheço por completo: "subordinadas proporcionais"! Procurei no Dicionário Terminológico e não vi tal coisa. Só vi as subordinadas habituais e, nestas, as comparativas. Onde é que foram inventar esta, pergunto eu? Já ouviste falar disto?

  R: Meu caro, já ouvi falar e não são invenção. Mesmo não estando no Dicionário Terminológico (que não é, certamente, documento exclusivo do ou para o ensino da gramática), posso referenciar algumas gramáticas que tratam da questão, que consideras nova (ainda que não o seja).
    Desde logo, a Nova Gramática do Português Contemporâneo (Edições João Sá da Costa, 1984, pág. 585), de Celso Cunha e Lindley Cintra, já faz referência a este tipo de subordinadas, ao abordar o que designa-va "conjunções proporcionais". Na Gramática da Língua Portuguesa, coordenada por Mira Mateus (Caminho, 2003, págs. 765-766), tais subordinadas são configuradas através de conectores correlativos como "(Quanto) mais / menos... (tanto) mais/menos..." ou articuladores do tipo "À medida que..." / "Enquanto...", na expressão da proporcionalidade. É o que se pode exemplificar com os sublinhados das subordinadas seguintes:

       i) Quanto menos fazes menos queres fazer.
       ii) (Quanto) Mais te esforças melhor resultado tens.
       iii) Enquanto eles estudam, mais / melhor compreendem a matéria. 
       iv) À medida que o estudo avança, melhor é a compreensão da matéria.

      São construções de graduação que estão em causa (veja-se o sublinhado no segundo termo das frases dadas, ou na subordinante), antecedidas por uma expressão de proporção. 
      Ainda que se trate de uma classificação mais conforme à Nomenclatura Gramatical Brasileira, há gramáticas portuguesas que referem especificamente o caso das comparativas correlativas [encarando-as, portanto, como um subtipo de comparativas, que admite até a inversão dos termos com articulador isolado - cf. iii e iv)]. Testes de clivagem e de inversão oracional com o articulador marcam, contudo, um diferencial significativo face às comparativas, em termos sintáticos, numa aproximação bem mais consistente com a natureza das subordinadas adverbiais.
    Já agora, deixa-me também mencionar as subordinadas conformativas (NGPC, pág. 585 / GLP, págs. 362-365), presente, por exemplo, na última vinheta da tira seguinte:


     "Segundo disse o médico,..." é a subordinada conformativa usada. Também não é propriamente nova e traduz a conformidade face ao explicitado na subordinante. É expressa por articuladores como 'conforme', 'segundo' e 'consoante', ou mesmo um 'como' parafraseável pelas formas indicadas entre parêntesis:

        v) Não concordo contigo; pensa como quiseres (conforme / da maneira que / do modo que quiseres)
       vi) Como se previa (Conforme / Da maneira que / Do modo que / Segundo se previa), a experiência falhou.

      Estes outros dois tipos de subordinadas admitem alguma inversão dos termos (cf. iii, iv e vi), particularmente nos casos com articulador / conector isolado (ou seja, não correlativo), bem distintos dos casos de comparativas com graduação de igualdade, superioridade ou inferioridade.

      Uma outra gramática que aborda estas subordinadas é a Gramática do Português, da Fundação Calouste Gulbenkian (vol. II, 2013, págs.2164-8 e 2159, respetivamente). Sem invenções, com exemplificação e testes distintivos relativamente às subordinadas comparativas, com que geral e criticamente são identificadas.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Nem tudo o que parece é!

     Um caso para considerar na sua excecionalidade.

     Assim se entende o caso proposto na questão.

   Q: Professor, posso dar conta da produtividade do sufixo '-oso' na língua portuguesa com os exemplos 'feioso' e 'rancoroso'? Obrigada pela ajuda.

     R: É verdade que ambos os exemplos indicados correspondem a palavras derivadas por sufixação e podem ser, nesse capítulo, considerados bons. 
      Contudo, a questão da produtividade é bem mais evidente com 'rancoroso', 'jeitoso', delicioso', 'famoso', 'melodioso', 'harmonioso', por exemplo, do que com 'feioso'. Este último termo é excecional, pela pontualidade e assistematicidade do processo formativo: trata-se de um adjetivo formado a partir de um outro adjetivo (feioso < feio), traduzindo alguma avaliação / intensidade de 'feio' . Ora, não se pode dizer que haja regularidade nesta formação. Estou a lembrar-me de mais dois casos (belicoso < bélico, sonoroso < sonoro) e alguns outros, poucos, existirão. 
       Bem mais sistemáticos são os adjetivos construídos a partir de nomes (denominais), que permitem obter 'amoroso < amor', 'brioso < brio', 'carinhoso < carinho', 'chuvoso < chuva', 'deleitoso < deleite', 'guloso < gula', 'harmonioso < harmonia', 'invernoso < inverno', 'numeroso < número', 'oleoso < óleo', 'perigoso < perigo', 'preguiçoso < preguiça', 'respeitoso < respeito', 'saboroso < sabor', 'talentoso < talento', 'venenoso < veneno', 'vicioso < vício', 'zeloso < zelo', entre muitos outros.
      Assim se conclui que a formação de adjetivos com o sufixo '-oso', derivados de nomes, é um processo mais típico, regular, sistemático e produtivo.

      Faria apenas lembrar, por fim, que a paráfrase 'que tem NOME' dos últimos exemplos é  distinta da associada a '-oso' de 'feioso' (* que tem feio), sendo neste último caso preferível dizer-se 'que é muito / pouco ADJETIVO' - casos distintos de realização do sufixo, portanto, com enquadramentos semânticos diversos, para lá da natureza produtiva (ou não) de cada um.

terça-feira, 12 de julho de 2016

Morfologizemos...

       Pode não estar no dicionário, mas é verbo potencial tornado atual.

     Na verdade, conheço um grupo que já está a 'morfologizar' comigo, na sequência de uma ação de formação que está a ser dinamizada no Centro de Formação Aurélio da Paz dos Reis, mais propriamente na sede do Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira (Espinho).
     Quinze horas para abordar vários aspetos da Morfologia na sua articulação com o ensino da gramática, a prática e o discurso pedagógicos, mais a reflexão sobre áreas críticas na abordagem de um domínio que, não sendo novo, tem muitas novidades (desde os estudos que enformaram a construção da Terminologia Linguística para o Ensino Básico e Secundário - TLEBS - ou o Dicionário Terminológico - DT).
       Eis o programa:

(Clicar na imagem para a ver ampliada)

       Hoje foi o primeiro dia - não do resto das nossas vidas (espero!) - para a partilha e um trabalho que marca necessariamente a identidade profissional de docentes empenhados na (re)construção do seu saber para saber fazer / ensinar na área específica do seu exercício profissional.

    Reciclar, formar, aprender, partilhar, discutir, trabalhar... muito verbo implicado em 'morfologizar'.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Isto do norte e do sul tem que se lhe diga.

    Não, não é a questão entre nortenhos e sulistas. É formação de palavras.

    De facto, a formação de palavras não é matéria fácil, ao contrário do que muitos julgam pensar. E eu continuo a dizer que é preciso bem selecionar (os exemplos) para o assunto (melhor) tratar.
    Tudo isto por causa da questão acabadinha de chegar (isto está a ficar com muita rima):

     Q: Gostava de saber a tua opinião sobre a formação da palavra 'norte-americano'. É um caso de composição ou de derivação? A mim, parece-me um composto morfossintático, mas faz sentido que seja uma palavra derivada, também. Diz-me qualquer coisa, por favor. Obrigada.

       R: A dúvida é pertinente e o caso / exemplo não é dos mais fáceis. Por isso, vamos por partes.
      Primeiro, é evidente a consciência de 'norte-americano' como um exemplo de composição, pela constituição do termo (composto) por duas bases ou palavras ('norte' + 'americano'). Contudo, não deixa de estar associado a este composto um processo derivacional típico da construção de adjetivos relacionais (no caso, os gentílicos ou pátrios).
     A questão mais crítica, ainda assim, é a classificação quanto ao processo da composição. 'Norte-americano' - tal como 'sul-americano', 'norte / sul-africano', 'norte / sul-coreano' ou afins - evidencia um caso de composição morfológica. Tal explica-se por se estar perante um radical composto ([norte-americ-]) formado a partir de uma configuração básica que não é diretamente uma expressão sintática ('*Norte América'), mas. sim, indiretamente uma reconstrução (por reordenação) da sequência 'América do Norte'. O mesmo sucede com [sul-afric-] (< não *Sul África, mas África do Sul) ou [norte-core-] (< não *Norte Coreia, mas Coreia do Norte), todos a integrar também sufixos derivacionais.
   Portanto, atendendo aos adjetivos relacionais 'norte-americano', 'sul-africano' ou 'norte-coreano', estes são obtidos por um processo de derivação sufixada adicionado a um composto morfológico (com radical composto) relacionado com um composto sintático reconfigurado ('América do Norte', 'África do sul' ou 'Coreia do Norte'), e deste último independente em termos formais. Resulta daqui a classificação do composto morfológico, conforme o propõe Alina Villalva no seu estudo Estruturas Morfológicas - Unidades e Hierarquias nas palavras do Português (cap. 6 - Estruturas de Composição, pp. 345-389).

       Caso para dizer que se está perante um exemplo sintomático de relação entre composição e afixação, numa complexificação e ampliação das palavras (e sua recursividade na formação), numa integração de processos a que a língua não é seguramente estranha.

domingo, 12 de junho de 2016

Uma questão de SujeitoS

      Quem estuda tem dúvidas; logo, toca a dissipá-las em momento oportuno.

      Pelos vistos, há quem ainda leve o estudo a sério. Como não se pode defraudar tal virtude, aí vai uma resposta para qualquer um que estude.

      Q: No provérbio "Quem tudo quer tudo perde", qual é o sujeito sintático? 'Quem' ou 'Quem tudo quer'? Obrigada.

       R: São os dois, dependendo do nível sintático de análise em que se encontre.
      Em termos de frase-matriz, superordenada, para o predicado 'tudo perde' há um sujeito sintático oracional, na forma de oração subordinada substantiva relativa (sem antecedente) - daí o sujeito ser 'Quem tudo quer'.
       No interior desta oração subordinada (que funciona como sujeito da frase matriz), há também um sujeito e um predicado internos: o primeiro, ´Quem'; o segundo 'tudo quer'.

Níveis de análise sintática (frase-matriz / oração subordinada)

     Portanto, dois sujeitos: um superior, para toda a frase, a cumprir a configuração da estrutura argumental do verbo 'perder' (ALGUÉM perde ALGUMA COISA > Quem tudo quer perde tudo); outro interno à oração subordinada, associada à estrutura argumental do verbo 'querer' (ALGUÉM quer ALGUMA COISA > Quem quer tudo).

       Daí a importância das instruções. Se for para identificar o sujeito da frase, indique-se "Quem tudo quer"; se for para identificar o sujeito da subordinada, responda-se 'Quem'. Pode ainda acontecer que se peça a identificação da função sintática da oração subordinada na frase (responda-se 'sujeito') ou a do pronome relativo na subordinada (também 'sujeito'). Espero que tenha sido esclarecedor.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Uma questão de intenções...

    Depois de um feriado à quinta, a sexta-feira é uma tentação... de más intenções.

    Talvez, por isso, seja bom contrariar as vontades e ficar no plano das boas intenções.

    Q: Olá, Vítor! Mais uma dúvida: como se classifica, quanto ao processo de formação, a palavra 'bem-intencionado'? Obrigada.

   R: A partir da palavra "intencionado" forma-se bem / mal-intencionado, pelo acrescento de um advérbio. A uma palavra (intencionado) junta-se outra (bem). Trata-se, portanto, de um exemplo de composição, quanto ao processo de formação de palavras.

(Clicar na imagem para ampliar)

  Considerando o subprocesso de formação, "bem-intencionado" é um composto morfossintático. conforme se evidencia pela sequencialização compatível com a propriedade de combinação, ordenação e flexão dos constituintes sintáticos (verificável numa sequência frásica do tipo 'Eles mostram-se bem intencionados quanto aos projetos do grupo' / 'Elas estáão bem intencionadas relativamente ao novo emprego').

      Bem ou mal, a verdade é que tinha tenção de fazer uma "ponte"; mas "outro valor mais alto" se levantou.