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terça-feira, 31 de outubro de 2017

Num fim de verão em dias de outono

       Agora que se anuncia o fim do verão em pleno outono...

      ... há um fogo no céu que não cheira ao queimado da terra nem faz arder mais o pouco que esta já tem. É o calor a cobrir o oceano, num pôr-do-sol que o céu vai enegrecendo em pinceladas de noite esfumada ao final de uma tarde.

Fogo de verão outoniço - (Foto VO)

       Tudo acaba para que tudo recomece, cedo ou tarde (para não dizer 'assim que anoitece').

      Lá, na linha do horizonte, está a fronteira: nem o fogo tem o azul do mar nem as ondas se deixam queimar. Só as estações (dos tempos) se (con)fundem.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Cor de Ouro

        "O Sol dourava o céu."

        Assim o escreveu Cesário Verde no seu "Num bairro moderno", onde encontrou uma vendedeira toda regateira em pleno ambiente burguês citadino. A partir daí, o poeta transfigurador viu numa giga pedaços de vida humana como extensão da que decorre da natureza vegetal.
        Mal ele sabia que esse mesmo sol também dourava o mar, cobrindo-o das cores de um areal que o espera, num ir e vir a todo o tempo repetido.

Sol: esse intenso dourador (Foto VO)

        Um fim de tarde que pouco tem de outono, por mais que a ele pertença, fez lembrar o verão que se foi apenas como estação. É ainda este que se faz sentir no calor que nos aquece ou na luz que nos acompanha até ao adiantado da hora do pôr-do-sol.

      Bem razão tinham os alquimistas, que viam o dourado como símbolo de acesso ao coração de um ser. Com uma imagem destas, ao vivo, revitalizam-se a mente, as energias e a noite acaba menos escura, menos melancólica.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Pedra-mar

       Não é um quadro nem uma janela de pedra.

      Ao longo do caminho, há um muro de pedra onde muitos se sentam para ver o mar, respirar a maresia, olhar o céu pintalgado de várias cores e ver o sol esconder-se lá para a linha do horizonte.
      Ao nível dos tornozelos e dos pés, ficam uns mirantes tão baixos que alguns olhos não veem, de tão altivos e sobranceiros que estão para o que o chão lhes oferece.
        Baixo-me, deito-me e capto a paisagem:

Um retângulo de horizonte, céu e mar (Foto VO)
        
     Parece um quadro, uma moldura de pedra envolvendo um leito oceânico ondulante, que vem a terra e deixa o céu entregue às cores quentes de um sol que ninguém já vê.

        A pedra encaixilha os sulcos do mar, o céu alilazado e um horizonte dourado pelo sol posto.

domingo, 25 de dezembro de 2016

Parece cada vez menos natal!

     É inverno, é domingo e brilha o sol.

    Pelos vistos, a tradição já não é o que era, no que ao clima diz respeito. Quanto à época festiva, parece-se cada vez mais com o que não devia ser - fruto dos tempos, que talvez possam mudar quando se der menos importância ao que nada vale. As corridas desenfreadas, as compras que nem sempre trazem felicidade e os excessos que dão em indisposições... Desencantos persistentes.
      Desejo o regresso às origens e ao (re)nascimento de um tempo mais virtuoso, tal como o poeta:

Presépio exterior, frente à Capela da Nossa Senhora da Ajuda - Espinho
(Clicar na imagem para ler o poema, de Miguel Torga) - Foto VO

      Com paz, sossego, descanso e com sol, assim recomendo este dia de natal: mais primaveril, de luz e azul (porque junto ao mar). Um natal mais natural e menos desigual.

      E relembro a canção: "A todos um bom natal..."

sábado, 24 de dezembro de 2016

É Natal... sem Compal!

    Permitam a rima, que nem saiu mal.

    Vai uma pessoa tomar café, para aquecer a manhã deste dia de noite natalícia, e depara com o que não quer. 

Exemplo de publicidade indesejada (Foto VO)

      Começo a pensar que é kharma. Ainda por cima, ler que Compal é mesmo natural chega a ser tão grave quanto o erro de acentuação.
   O acento grave marca a contração da preposição 'a' com o determinante artigo 'a(s)' e o determinante demonstrativo 'aquele/a(s)', ou o pronome demonstrativo 'aquilo'. 
      Com o verbo ser não se contrai nada, senhores! Tristeza de publicitários, gráficos e empresas que divulgam o erro. Apetece dizer que É um erro beber Compal.

     É Natal! Ninguém leva a mal, mesmo que não seja Carnaval! Não É? (Lembro-me de uma professora que dizia "Ninguém escreve 'é' com acento grave", quando deparava com tamanho erro! Mal ela sabe que o 'ninguém' está a revelar-se e a propagar-se).

terça-feira, 14 de junho de 2016

Véspera de exame

     Amanhã é o dia para o exame de Português de 12º ano.

    Hoje foi o dia para receber uma fotografia de uma aluna, a registar o evento que marcou o fim de semana cá na cidade, mais a mensagem "Pessoa a marcar presença no encontro de estátuas vivas, em Espinho."


























Apontamento fotográfico do evento espinhense "Estátuas Vivas" (foto: Eunice Aguiar)


      Evocando a obra épico-lírica Mensagem, na parte de 'O Encoberto' (subparte 'Os Avisos', com o primeiro de todos - O Bandarra), a estátua viva veio mais do que a propósito, num tempo em que se mostra um pequeno passo para a enorme caminhada do estudo a cumprir para o exame. Entre mensagens recebidas e respostas facultadas a algumas dúvidas que foram sendo colocadas por quem estudou, resta formular o desejo de que tudo corra pelo melhor (nessa mistura de sorte, leitura atenta, encontro feliz e trabalho consistente).

     De tudo isto se faz um exame. Eu acredito mais no trabalho ("Trabalho, trabalho e mais trabalho!"), mas não nego que as outras condicionantes também cumprem o seu papel. Por isso, boa sorte a todos! E muito obrigado à Eunice, pela lembrança.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Lembrança(s)...

     Seja um exercício mental seja um ato ou gesto de dádiva.

     É, por certo, um registo de memória, por dois anos que foram de trabalho, de cumplicidades e de momentos também de convívio que o tempo não apagará. Dizem alguns que foi período de transformação: dos medos provocados nos primeiros dias às experiências comuns dentro e fora da escola; às leituras que foram sendo desveladas; às partilhas de saber, que foram libertando o sentir; às alegrias e ousadias que fizeram dos tampos das secretárias o palco (de evocação cinéfila) para o reconhecimento, para o agradecimento mútuo pelo bem que soubemos fazer (par)a todos.
      É, ainda, depois de um ano afastados, a prova de que algures, no imaginário conjunto, há lugar para as proximidades que a afetividade faz perdurar. O que foi ensinado ficou seguramente matizado pela compreensão e pelo colorido dos sorrisos, muitas vezes surgidos no meio do cansaço, do sono e da vontade de buscar o sol (que as palavras, as frases, os longos parágrafos e as páginas dos livros nem sempre deixavam brilhar). O que se aprendeu, o tempo dirá para que servirá.
   É o sinal repetido da generosidade que sempre existiu, porque também alguém a soube alimentar, para que se tornasse marcante nas pessoas que estes jovens têm sido.
    É a oferta desinteressada de um grupo de alunos que, entusiasticamente, recebeu um professor e o fez sentir brilhante, numa noite e num espaço que o fizeram sentir-se em casa (como se nunca a tivesse deixado).

      Ao 12º 8, meu no 10º e no 11º anos. Mais uma turma especial para o meu currículo dos afetos. Muito obrigado pela companhia, pelos abraços e pela(s) lembrança(s) - também coloridos com o azul das "letras", tão próprio às humanidades, às línguas e literaturas.
     

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Eu não digo! Chamou, virgulou.

    Estou sempre a dizer isto, na chamada de atenção para a correção escrita em termos de pontuação.

    Entre os poucos sítios em que a vírgula se impõe, o do vocativo é fundamental.
  Bem digo aos alunos: "Chamou, virgulou". Ainda assim, também pode ser "Virgulou, chamou" ou "Virgulou, chamou, virgulou" - tudo dependente do sítio onde se encontra a sequência do chamamento (no início, no final ou no meio de um enunciado).
    Desconsiderar isto pode representar a afirmação da prática de canibalismo:


     Pode também significar o uso desnaturado da língua escrita ou a razão para eu não dar atenção aos vizinhos, que me possam estar a chamar - depois de saudar -, sem eu dar por isso (é que falta a vírgula, entre 'olá' e 'vizinho', ora pois então!):

Anúncio e cumprimento na abertura do Continente em Espinho (foto VO)

    Isto para não falar no clássico erro do serviço público televisivo da RTP1, com as notícias da manhã. Muda-se a imagem do canal e do programa, mas mantém-se o lamentável erro de há anos:

Imagem de abertura do programa noticioso da manhã na RTP1
 
    Custa colocar uma vírgula, depois da saudação e antes de 'Portugal'?! O que não custará contribuir para a generalização da ignorância! 

    Já era tempo de aprender que, no escrito, a vírgula é uma das marcas do vocativo.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Regressões, regressos e algo mais.

     Praticamente a fechar o período letivo, tudo acontece.

     A motivação foi dada por uma turma de artes que deixou o seu registo no quadro, entusiasmada com a pausa que se anuncia. Ocupada a esquerda do quadro duplo branco, os alunos de humanidades não quiseram ficar atrás. Preencheram então a direita com a inspiração do momento, um tanto ou quanto influenciada pela sensibilidade que a leitura de um Ricardo Reis impôs.
     No final, ficou a fotografia para memória futura:

Era uma vez um quadro branco... (foto VO)

   O gozo de escrevinhar e desenhar, quais meninos a marcar a sua presença no quadro, surgiu tão instintivamente que, por momentos, nem dava para acreditar que a sala era ocupada por finalistas ou pré-universitários. Eram, por certo, seres feitos de vontade, (re)nascidos num momento libertador colorido de verdade e de realidade.
    Captado o breve instante (quatro minutos), ...

                                                                                                       Aos alunos do 12ºF

     Vi um foco de luz num embrião.
     Anuncia o nascimento. Razão
     Para neste mundo vivo lembrar
     Que a volátil vida, ao passar,

     Urde passado e presente num fio
     com amanhã de um mar feito de rio.

     Depois disto, a aula (porque o lema é "trabalho, trabalho e mais trabalho"), até ao toque da campainha.

    Assim se regressou, por momentos, ao tempo de infância (numa nostalgia que lembrou Pessoa ortónimo). Até pode ser uma regressão, mas foi uma forma de libertar sorrisos e caminhar para uma  atenção feita de inconsciência, de um ideal renovado, de uma utopia com um toque de recreação e (re)criação.

sábado, 5 de dezembro de 2015

Do rio para o mar: no caminho dos modernos

     Por várias vezes me cruzei com ele, mais propriamente com o que escreveu, para não falar da estátua-homenagem que, na Foz, vê o casamento do rio e do mar.
Monumento na Foz do Douro a Raul Brandão,
de Henrique Moreira e Rogério Azevedo (pelo centenário do nascimento) -  Foto VO
       Assim o li ou revi noutras formas de expressão artís-tica nele inspiradas.
   Há oitenta e cinco anos morria Raul Germano Brandão. Quase ninguém dele fala, até por causa dos oitenta anos de um outro contem-porâneo do autor de Húmus (1917) ou O Pobre de Pedir (1931) - refiro-me, naturalmente, a um Fernando Pessoa, que não apaga os demais, mas se impõe pela grandiosidade que deles também colheu.
     Do prosador, dramaturgo e pintor nascido na Foz do Douro (a 12 de março de 1867) ficaram soberbas páginas plenas de uma paisagem geográfica, física e humana que respeita e resiste ao mar (ou não fosse ele descendente de quem com este conviveu). Subscritor do manifesto "Nefelibatas" (que sai no Porto, no findar de 1891), "andou nas nuvens" pela idealização e reflexão construídas, numa alternativa a um contexto finissecular e a uma sensibilidade pessimista e decadente que se impunham no período da sua existência.
     Num pensamento focado sobre a condição humana, o sofrimento, a angústia, o mistério e a morte, várias são as personagens traçadas pelo negrume dos ofendidos e humilhados, de uns miseráveis que (de humildes e espezinhados) se revelam num grito de sensibilidade ferida pelo espetáculo degradante do mundo; pelo gosto literário novo da apreensão dos matizes da vida psicológica, na sua complexidade e evanescência.
      Aproximando a escrita poética e filosófica, muita da prosa brandoniana coloca em causa os modos de representação do real, sublinhando, preferencialmente, uma meditação sobre a metafísica da dor, o absurdo da condição humana. As categorias narrativas do tempo, do espaço, da ação / intriga e das personagens esboçam simbolicamente um universo mais abstrato do que concreto, como pano de fundo para o drama secular da luta do homem entre o sonho e a desgraça. Assim a vila / vida de Húmus se apresenta; a árvore, enquanto símbolo simultâneo de prisão terrena e ascensão celestial, se mostra sustentada de desgraça ("As suas raízes alimentaram-se deste húmus - a vida dos pobres, das prostitutas, dos gebos", in Os Pobres, de 1906); o discurso fragmentado se compõe e recompõe, refletindo o reconhecimento da densidade psicológica, divagante e divagadora no(s) tema(s) pensado(s); o pluricódigo literário, artístico se afirma, numa combinação de reflexão, sensibilidade e produção escrita orientadas para um discurso coerentemente sincopado, fragmentado, típico de uma existência (e por que razão não já dizer de um existencialismo avant la lettre) em crise, para um gosto estético do tempo.

      Na sua obra poética, Verlaine escreveu "Il pleure dans mon coeur / comme il pleut sur la ville
"; na vila / vida de Raul Brandão, "O Homem é tanto melhor quanto maior quinhão de sonho lhe coube em sorte. De dor também". Eis uma visão e conceção modernas, prenunciadas num tempo ligeiramente anterior ao Primeiro Modernismo português.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Dos frutos de ferro às árvores-fábrica

    Tudo a propósito da 'Ode Triunfal' de Álvaro de Campos.

Interpretação icónica por Catarina Cruz 
(in http://dcvcatarinacruz.blogspot.pt/2011/04/segunda-proposta-de-trabalho-alvaro-de.html)
     Entre tudo o que o poema possa ser, nas múltiplas inter-pretações dele feitas, a leitura de uma ode aos sinais dos tempos modernos (feitos de sensações de diferentes tem-pos) impõe-se quando o heteró-nimo pessoano se questiona sobre tudo o que ante-riormente abordou (desde a exaltação da fábrica e das máquinas à consideração de espaços e de tipos sociais pautados pelo dinamismo e pela vitalidade sociais e civilizacionais).
   Serve a interrogação para a progressão textual que introduz um novo dado significativo:


                               " (...) 
Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto
Ao fúlgido e rubro ruído contemporâneo,
Ao ruído cruel e delicioso da civilização de hoje?
Tudo isso apaga tudo, salvo o Momento,
O Momento de tronco nu e quente como um fogueiro,
O Momento estridentemente ruidoso e mecânico,
O Momento dinâmico passagem de todas as bacantes
Do ferro e do bronze e da bebedeira dos metais.

Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar,
Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos,
Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar,
Engenhos, brocas, máquinas rotativas!

Eia! eia! eia!
Eia electricidade, nervos doentes da Matéria!
Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do Inconsciente!
Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez!
Eia todo o passado dentro do presente!
Eia todo o futuro já dentro de nós! eia!
Eia! eia! eia!
Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita! 

                                      (...)"

     Afirma-se, então, o relevo do tempo, do "Momento" maiusculizado e repetidamente retomado, sempre feito de presente, a par das sensações a ele associados.
      Num texto de exaltação aos tempos modernos - nos quais a máquina, o motor, a fábrica, o calor, os óleos, a eletricidade e a voracidade se afirmam -, novos símbolos poéticos surgem. É o caso dos "frutos de ferro" e das "árvores-fábrica". A lógica integrativa dos primeiros nas segundas (seja pelos frutos das árvores seja pelo ferro que se revê nas fábricas) não deixa de resultar estranha aos olhos e ouvidos de alguns jovens, que julgam demasiadamente ousada e irreverente a construção destes novos conceitos artísticos.
    Não o achariam tanto se tivessem em mente a floresta de betão que algumas cidades têm, nomea-damente Roterdão, com as casas cúbicas - as Kijk-Kubus, em blocos de amarelo e cinza projetados original-mente pelo arquiteto holandês Piet Blom, nos anos setenta do século XX - no coração da urbe. São 38 habitações no total, com uma inclinação de 45º e pousadas sobre colunas hexagonais. Trata-se de um ícone arquitetónico construído acima do nível da estrada, com ruas e carros a passar por baixo, num sinal da modernidade e da reconstrução que a cidade tem vindo cumulativamente a sofrer desde os tempos da II Guerra Mundial.

      Uma ode ou canto poético lírico - em tom elevado e sublime - para um assunto de relevo e interesse para a humanidade. Assim acontece quando se fala do tempo, dessa categoria que na duração ou no instante acompanha a vida, a existência humana, por mais clássica ou modernista que seja.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

A tradição já não é o que era

     A criatividade publicitária, por vezes, ganha contornos muito inusitados.

    Circula pelo Facebook uma foto relativa a um cartaz promocional de produtos alimentícios à venda num rede de supermercados. Ei-la (a fotografia, claro, com a devida apresentação da empresa):


     Isto de chamar ao mamífero lagomorfo uma ave é indubitavelmente coisa de somenos importância para o comum dos clientes, habituado que está a ver o coelho junto dos patos, dos frangos ou das codornizes na secção de talho ou nas arcas frigoríficas. 
     O que interessa é vender as aves frescas, e com desconto. Colocar a mera hipótese de os coelhos serem considerados no grupo de "todas as aves frescas" (ou melhor, de não o serem, destacada a exceção) só deve justificar-se pelo simples facto de..., sei lá..., não serem frescos (sendo definitivamente, para o autor do cartaz, aves, conforme se sugere no uso do quantificador 'todas')! 

   O Continente tem deveras produtos fantásticos: coelhinhos voadores muito valiosos, e talvez mortos ou fora de prazo. Ainda assim, sem direito a promoções nem descontos. Santa ignorância, a grassar na publicidade comercial!

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Está grave, mas é agudo (II)

       Mesmo com desconto(s), não compro.

   Isto de anunciar uma promoção / um desconto até metade do preço requer conhecimentos gramaticais. Vê-se a necessidade disso mesmo na foto seguinte:


   Por mais pequeno que seja o acento gráfico (face a letras ou a números substancial e percentualmente convincentes), a bem da qualidade publicitária, tudo deve estar em conformidade com as regras de acentuação gráfica: "Até" é palavra aguda (fonicamente acentuada na última sílaba) e deve ser escrita com acento gráfico agudo (não grave, já que este último é usado em contextos específicos).

        Se precisasse do produto, reclamava da qualidade do anúncio. E já não seria a primeira vez.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Obra(s) de / para ficar por casa

   Depois do painel dedicado ao mar, vem o da terra.

  Na combinação de umas obras de artista dedicada às plantas com a pintura de umas tábuas e a colagem de umas pedras, assim surgiu o painel da terra.
    Além das estrelinhas que me guiam (do painel do mar), tenho ainda as folhas que o vento não levou.








   À semelhança do painel do mar, o da terra também fica cá por casa, logo na parede da entrada. 
  Quem não tem dinheiro para Van Gogh ou Picasso fica com o que pode ter... ou o que faz.


    Na próxima vou para feira vender o resultado da obra "artística".

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Nascer para morrer

    A novidade não é nenhuma, mas há quem nasça para morrer mais cedo.


Escultura de Manuel Laranjeira (foto VO)
       Assim foi com Manuel Laranjeira.
    Hoje evoca-se a data de nascimento, ocorrida há 139 anos (no mesmo ano em Teixeira de Pascoaes também nasceu), em Mozelos, no concelho de Santa Maria da Feira.
    É, contudo, em Espinho que, a partir dos 21 anos, cumpre um percurso de vida que o aproxima da medicina; da intervenção cívica, social e artística local; da criação literária e da escrita que o fazem produzir crónicas, cartas, poemas, textos dramáticos. 
   Na busca da idealização, da luz, da possibilidade da realização e da criação, aspira à obtenção de um sentido de vida que continuamente colide com uma realidade que o atrofia, o enleia numa vivência de profunda tristeza e tédio.
   Da arte, na ânsia e na expectativa de atingir o nível do criação e do criador, diz-se cultor ou semeador, numa espécie de parábola para o que acha ser o seu papel na vida e no que o mundo pode deixar germinar:

Montagem de foto com pensamentos do autor

    Entre as ideias e os ideais de um homem, dão-se a ver as primeiras no mundo; dos segundos nem sempre é fácil falar, particularmente quando estão além do que realmente circunda um ser que a muito aspirou, nos mistérios libertos de um caminho que quis desvelar e (re)criar, sem condições de caminhar.

     Qual Sísifo (e)levando a "pedra" ao cume do altar artístico, Laranjeira revelou-se um permanente insatisfeito, um idealista sempre à espera de atingir os mistérios da luz da criação (que alimenta a alma e a liberta da vida breve).  

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Oliveirinha... do mar

    Oliveiras em casa (porque as do Porto são da cidade).

    Mudados os canteiros da varanda, deu-se lugar às oliveiras. Chegaram a Espinho e, em vez do "oliveirinha da serra" da cantiga tradicional, passam a ser as oliveirinhas do mar. Ficam ambas à varanda, do outro lado das ondas, viradas ao sol da manhã, de costas para o horizonte.
      

    Por ora, o vento não lhes leva a flor, porque, no lugar desta, há já umas pequenas azeitonas nascidas, num verde de esperança para a sobrevivência desejada.

      Ficam as árvores a marcar o território de quem nele mora. Vejamos o que o tempo lhes trará.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Em dia de São João...

     Não cumpre muito a tradição esta figura de S. João, com cordeiro e livro na mão.
Foto da escultura de São João, 
exposta no Museu Nacional Machado de Castro, 
em Coimbra (VO)
   Para lembrar o dia, é reconhecido o facto de este se relacionar com a celebração católica do nascimento do profeta João Baptista (para não mencionar as festas pagãs do solstício de junho, realizadas na noite mais longa do ano). O cruzamento religioso e pagão faz-se na figura bíblica que, no rio Jordão, batizou gentios e judeus e também Cristo, apresentado como o Messias e o "cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo". 
    A representação comum de João com um cajado e vestes de pastor cumpre o requisito biográfico do homem que, após a morte do pai, teve a mãe (Isabel, prima de Maria) a seu cargo e viveu, por opção, como asceta. Invulgar é a que se dá ver numa escultura que encontrei há dias, aquando da visita ao Museu Nacional Machado de Castro (Coimbra): São João com um carneiro e um livro na mão.
  Como profeta que foi e filho do sacerdote Zacarias, terá João Baptista contactado mais diretamente com o saber do seu tempo (metaforizado no livro) - ora ministrado pelo pai e pela mãe ora transmitido pelos mestres da educação dos nazireus, ou seja, dos seguidores da Torá hebraica - livro, instrução, lei seguida pelos fiéis à tradição judaica, também designado como Lei de Moisés.

    Fica, assim e neste dia sanjoanino, uma aproximação à leitura da escultura. Quanto à festa, talvez ela já reflita as feições do que Fernão Lopes, no século XIV, deixou escrito em crónica como uma grande festa vivida pelas gentes do Porto (para não dizer que até a moirama, segundo uma cantiga da época, se rendeu à festa do santo católico, numa expressão clara da união sem qualquer tipo de preconceito).

domingo, 14 de junho de 2015

Produto novo?

     Tenho sérias dúvidas quanto ao novo produto.

     Primeiro, porque já é sobejamente conhecido, não obstante o empréstimo (proveniente do italiano lasagna) já entrado na grafia da nossa língua.
     Segundo, porque o produto tem defeito, a julgar pela publicidade que lhe está associada:


    É tão comum e antigo o erro que já não há paciência para lembrar que, entre outras, a técnica da negativa pode contribuir para a sua eliminação da escrita: 'provas-te' > não te provas (o pronome 'te' muda de posição, pelo que na afirmativa ele deve ser grafado separado do verbo por um hífen); 'provaste' > não provaste (os sons finais lidos em 'te' fazem parte da terminação verbal associada à conjugação na segunda pessoa do singular, com a configuração 'ste', sem qualquer alteração na posição pela aplicação da negativa - razão pela qual não pode haver separação da terminação face à respetiva forma verbal).
    Como a publicidade ultimamente tem usado e abusado de tal incorreção, grassa por aí um mal geral que não tem igual: partilhar o que não se deve, isto é, o péssimo uso da língua (porque errado).

      As lasanhas podem ser novas, mas o erro é velho. E, assim sendo, não compro as lasanhas do Continente. "Já provaste?" Não, nem quero. Em lugar do Continente, prefiro a ilha.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Só corpo...

      Ao passar os olhos pelo escaparate das revistas, no supermercado, tive de tirar fotografia.

      O verdadeiro caso de que nem sempre um corpo são se faz acompanhar de mente sã ficou à vista, numa revista que devia fazer revisão daquilo que dá a ler. Dedicada ao treino do corpo, falha na escrita:

Fotografia do escaparate da imprensa: tanto treino para capa tão fraquinha!

      Músculo é palavra esdrúxula e, como tal, a acentuação gráfica faz-se na antepenúltima sílaba (não na penúltima, que, por norma da regularidade gramatical, não é acentuada, dada a tendência grave da língua portuguesa).

      Estou em crer que um programazito de fitness gramatical resolveria o problema, a bem da Saúde do Homem (Men'sHealth).

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Alma(s) tão pequena(s)

        Os últimos tempos têm sido tão maus que estou a precisar de um pastel.

    Cá vai, então, a variação poética pessoana (inspirada no "Mar Português" do autor da Mensagem ou mais precisamente nos versos "Valeu a pena? Tudo vale a pena / Se a alma não é pequena"), orientada para registo publicitário do tão necessitado pastel:

Fotografia a um porta-guardanapos muito "poético" ou pessoano.

     Mesmo com a fome a não ser grande e depois de me ter cruzado com almas tão pequenas, tudo vale a pena para combater sinais deste mundo (por vezes tão familiares), como a hipocrisia, a acidez e tomadas de decisão que estarão sempre na orientação contrária ao pretensamente desejado (se é que alguma vez o foi). Decididamente há quem goste de destruir, em vez de construir, nesta vida.
    Felizmente, há outros exemplos, talvez não tão próximos (ou talvez mais ainda), mas bem melhores: procuram manter os laços, oferecem / dedicam músicas, fazem sentir que precisam de mais alguém e muito se esforçam para que os tempos ainda sejam de convívio salutar; sorrisos sérios, credíveis e afáveis. Em suma, almas grandes que lembram o que deve ser valorizado e que merecem mais ser ouvidas do que as outras... as pequenas.
   Nada como estes bons exemplos ou a ficção literária / poética - ou ainda a publicidade nela inspirada - para fazer esquecer as incomodidades criadas para e numa realidade cada vez mais intolerável.

    Toca a comer o pastel, para compensar o(s) tempo(s) perdido(s), para não pensar no(s) que estará(ão) ainda para mais se perder.