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quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Sinceridade acima de tudo!

     Viva a República!


    É verdade que sou mais adepto do regime republicano do que da monar-quia. Nessa medida, nunca percebi como é que, entre os feriados retirados no ano crítico de 2012 (a bem da suposta produtividade que interessava incre-mentar com o novo Código do Traba-lho), o da implan-tação da república (o do regime em curso, diga-se) figurava como dispensável. Nem tudo o  que é significativo na vida de um povo se configura como feriado, mas o que é de regime é de regime, digo eu!
    A República, proclamada em Lisboa a 5 de outubro de 1910, instituiu um sentido democrático que se vinha a afirmar desde a década de noventa do século XIX, em tentativas goradas que pretendiam pôr fim à monarquia. 
    1891 e 31 de janeiro foram marcos na tentativa de mudança, face a uma realeza degastada e sem resposta para as preocupações de um século que viu o Ultimato minar a honra e a credibilidade de um país. Um novo regime viria a singrar quase duas décadas depois. A História viria a dar relevo ao facto; houve quem invertesse a bandeira republicana numa das mais recentes celebrações; um dos últimos governos acabou por minimizar a efeméride há cerca de quatro anos. O certo é que o dia "grande" acabou em simples "historinha", para o comum dos cidadãos.
  Como diria o Velho do Restelo, numa transposição dos tempos da descoberta do caminho marítimo para a Índia para os da atualidade: "Mísera sorte! Triste condição!"
     Vale a natureza democrática, e a todo o tempo passível de retoma, que a República permite.

     Hoje, mais de cento e cinco anos depois do evento histórico, a ressurreição do feriado é digna de registo e de celebração. A Implantação da República até pode ser o motivo, mas, acima de tudo, o que me sabe bem é (a reimplantação d)o feriado.

domingo, 10 de julho de 2016

História(s) que se repete(m)

     No final do filme, o desconcerto... porque há lutas que parecem inglórias.

    Tudo a propósito de "Estado Livre de Jones", película realizada por Gary Ross e protagonizada por Matthew McConaughey (no papel de Newt Knight).
    O contexto da intriga fílmica é o da guerra civil americana (tão larga e cinefilamente retratada nos últimos tempos), ainda que, com as devidas diferenças, não pareça andar muito longe dos dias de hoje. 

Trailer legendado de "Estado Livre de Jones" (2016)

    Newt Knight surge como uma espécie de Zé do Telhado americano, um "cavaleiro" numa luta épica, digna, humana e socialmente dignificante, enquanto agricultor pobre do Mississipi que deserta do exército dos confederados (por uma causa humanizadora e desafiadora de lideranças hipócritas), encabeça um movimento revolucionário apoiado por pequenos proprietários e escravos do sul, culminando na separação do condado de Jones dos restantes territórios confederados. Daí o título.
    As conquistas conseguidas (um amor liberto de condicionalismos sociais, de cores ou raças; uma sociedade de homens plural e interracial, empenhada no trabalho da terra e em recolher desta o que nela é semeado; uma comunidade de iguais, de partilha sem ricos a tornar os outros cada vez mais pobres; um conjunto de leis ou emendas inspiradoras e simples para a sobrevivência humana) refletem uma utopia a todo o tempo em construção e ameaçada, numa espécie de encruzilhada de dilemas, de poderes e de homens interessados em fazer reverter todo um processo / percurso, que teima regressar ao ponto de partida.
   Intercalando momentos da narrativa nuclear (relativos ao período 1862-76) com os do julgamento de um descendente de Knight no estado do Mississippi (referentes a meados do século XX), abordam-se temas tão estruturantes como o das forças bélicas e dos interesses / traições a elas associados, do regime de escravatura e da libertação racial, dos conflitos originais das ideologias de republicanos e democratas, da manipulação de resultados eleitorais em função de lógicas de poder, da impotência humana relativamente ao rumo a dar aos ideais que mais devem orientar e preservar a (sobre)vivência.
     Inspirado numa situação histórica documentada, o enredo é a prova de que se mudam os tempos, mas mantêm-se algumas vontades e algumas questões críticas - apesar de configurações distintas -, num jogo em que "the free" e "the unfree" parecem ser duas faces para uma mesma moeda.

    Nestes tempos pré-eleitorais americanos, com republicanos a deixarem-se representar por um candidato tão grotescamente prepotente, há certamente um desafio democrata a considerar (um pouco ao contrário do que a história rezou para os tempos da guerra civil e da Secessão), sob pena de também se retroceder na visão mais humana a dar ao mundo.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Dia de Portugal

    Um feriado para um país, um poeta, uma comunidade...

    E bem que se pode multiplicar isto tudo, com um expoente onde caibam muitos outros países que falam a mesma língua, com vários poetas a (re)criá-la e muitos falantes a potenciá-la.
    Dedicado o feriado a Camões (pela suposta data da sua morte, em 1580), hoje vamos para lá deste grande poeta, ao encontro de um outro que, escrevendo sobre o país, também cultivou a língua portuguesa no que ela tem de mais poético. Podia ser Pessoa, mas também não vou ficar por aí.
     Falo de Miguel Torga e de "Portugal":

          PORTUGAL 

Avivo no teu rosto o rosto que me deste, 
E torno mais real o rosto que te dou. 
Mostro aos olhos que não te desfigura 
Quem te desfigurou. 
Criatura da tua criatura, 
Serás sempre o que sou. 

E eu sou a liberdade dum perfil 
Desenhado no mar. 
Ondulo e permaneço. 
Cavo, remo, imagino, 
E descubro na bruma o meu destino 
Que de antemão conheço: 

Teimoso aventureiro da ilusão, 
Surdo às razões do tempo e da fortuna, 
Achar sem nunca achar o que procuro, 
Exilado 
Na gávea do futuro, 
Mais alta ainda do que no passado. 

Miguel Torga, in Diário X

     Um poema sobre o país (que dele tem o título) e sobre o que é ser português, nomeadamente no que às ideias do sujeito poético diz respeito. Afinal, a fronteira entre Portugal e Ser Português é tão ténue e inconstante quanto a linha que separa as águas do rio a desaguar no mar.
    Portugal tem o rosto de todos os que nele vivem ou com ele querem viver, para lá dos seus limites fronteiriços. Portugal é terra, é projeto atlântico, mar intercontinental e imaginário - dir-se-ia, com Pessoa, que há muita inconsciência, ilusão, utopia (a ponto de nele caber um 'Quinto Império').
       Ao longo de três estrofes (no mesmo número das sílabas para designar o país), traçam-se linhas temáticas significativas: a identidade do 'eu' com o 'tu', numa representação de interação do sujeito poético com a pátria (personificada), na sua intemporalidade; a identidade do 'eu' com os rostos que compõem a dimensão pátria, cultural e também universal desse país voltado para o mundo, na sua língua e na relação com as referências e a matriz de uma cultura europeia; o posicionamento do 'eu' face a «as razões do tempo e da fortuna», sem controlo e sem limites; o entendimento do 'eu' sobre o futuro (essa gávea "Mais alta ainda do que no passado" - um verso a fazer ecoar Pessoa e a visão de uma utopia, da felicidade típica do mito do Quinto Império (que Pre. António Vieira idealizou; um futuro típico da inconsciência libertadora face ao mundo consciente, real e demasiado comum). 
      Portugal voltado para o futuro, objeto de procura constante, busca infindável - daí o verso "Achar sem nunca achar o que procuro".

      Assim se cumpre mais um feriado: num país feito de gente(s) que o aviva(m), que o toma(m) na singularidade que enriquece o mundo, ao longo de séculos e gerações e segundo um destino, um fado feito da diáspora conseguida e do que ainda está para vir. Um presente que confirma o passado e anseia por um futuro promissor (quanto mais não seja para se poder libertar da dor).

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Coincidências...

     Isto de o 13 de maio ser a uma sexta-feira resulta estranho, no mínimo.

    Quando se celebra a primeira aparição de Nossa Senhora de Fátima, em 1917, sobre uma azinheira da Cova da Iria, aos pastorinhos (Lúcia dos Santos, Francisco e Jacinta Marto), tudo inspira uma questão de religiosa e respeitosa fé... exceto o facto de, neste ano, o dia coincidir com uma sexta-feira 13.
    Em tempos de tão propagado "milagre do sol" (há fiéis que, há cerca de uma semana, afirmam e descrevem um clarão mais intenso do que o sol, a piscar e girar velozmente, no momento em que a Imagem Peregrina da santa deixa a igreja matriz de Ourém), esta sexta-feira 13 até parece profanação: é a história do milagre português a par de um episódio da Igreja com um Papa e um rei francês (Clemente V e Filipe IV, respetivamente) envolvidos numa maquiavelice e num pacto de contornos muito suspeitos - tanto para eles como para uma ordem religiosa (Templários) que parece ter usado e abusado do poder recebido; é juntar uma santa à bruxaria de Friga (conforme o cristianismo a ditou).
     Estas coincidências parecem sacrílegas. No meio de tanta alvura e intensidade de luz sagrada, o dia também se cumpre com o que de mais pagão e gentio tem a lembrar - como se entre Deus e o Diabo houvesse interseções que escapam à perceção humana, mais preocupada em ver gatos pretos heréticos (tal como Inocêncio VIII, no século XV, os fez constar nas listas do Index inquisitorial) do que felinos de espírito amigável, sociável e identificáveis numa extensão do próprio Homem.
     No discorrer destes pensamentos, outros dois se cruzam:
      - o do autor de Memorial do Convento (1982), entre muitos outros romances;


         - o de uma personagem do mesmo romance, que falou, por certo, como o narrador-autor quis.














 Sábios pensamentos estes, nomeadamente o de Deus que nos visita pelas ações que possamos fazer "cá" - mais do que estarmos preocupados em o ver "lá", nesse campo desconhecido, sem que o melhor seja feito naquele (em) que todos (vi)vemos.

     Fica a hipótese de, para algum azar, hoje poder haver um milagre, como se destas dimensões tão antagonicamente encaradas não resultasse uma complementaridade tão comum quanto a morte e a vida, a tragédia e a comédia, o mal e o bem, o preto e o branco, perder e ganhar. 

quarta-feira, 23 de março de 2016

Versailles

    Começou hoje uma série que promete! E na RTP1!!!

   Falo de Versailles, série anunciada como tendo chocado o público britânico, quando assistiu à representação televisiva do que foi a vida de Luís XIV, o rei-sol francês. 

Trailer oficial da série (primeira temporada) intitulada Versailles

    Numa produção franco-canadiana levada a cabo pelo Canal+, aquele que se designou como "L'État c' est moi" surge aos olhos do telespectador num cenário histórico grandioso, com um guarda-roupa majestoso e com uma perspicácia fora do comum. Estratega, manipulador, de olhar sordidamente penetrante e figura imponente, este monarca seiscentista foi o responsável (contra tudo e contra todos os que o queriam manter em Paris) por aquele que hoje ainda é considerado o palácio mais deslumbrante do mundo: o palácio de Versailles. Razão de esgotamento para inúmeros orçamentos extravagantes, tornou-se o modelo inspirador e o anseio de muitas figuras da realeza europeia - que o diga o nosso D. João V, quando decidiu construir o Palácio de Mafra e o radicou à sua magnânima pessoa real -, tanto por razões arquitetónicas como pela simbologia de um poder encarado como absoluto pelos "representantes de Deus na terra".
    Entre figuras históricas e fictícias, mais um fundo histórico marcado por criatividade e algumas infidelidades à História, as personagens da série acabam por manter relação mais ou menos direta com a corte de Luís XVI, num mundo em que glória e violência estão de mãos dadas para sustento do poder de um monarca (representado por George Blagden), a vida algo dissoluta do irmão mais velho (Alexander Vlahos) e as intrigas palacianas de todos os que deles dependem.
    Nas ousadias de quem tudo quer, pode e manda (para o bem e para o mal), há cenas intensas; personagens e representações fortes; uma intriga que "agarra" o espectador e se impõe como motivação forte para permanecer frente à televisão às quartas-feiras à noite, assistindo à primeira temporada (dez episódios) produzida por Simon Mirren e David Wolstencroft.

    Num reinado com mais de 72 anos (dos maiores, se não for o maior da Europa ocidental), há seguramente fonte inspiradora para muitas temporadas, assim a qualidade do primeiro episódio se mantenha. Boa aposta da RTP, para contrariar tanta telenovela e "reality show" que nem ao Diabo lembra.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Bartolomeu de Gusmão... talvez sim, talvez não.

       Dizem que hoje foi o dia na provável data de morte do "Padre Voador", em 1724.

      Talvez sim. Segundo Memorial do Convento (1982) não é isso certo, chegando a apontar-se o dia dezanove. Também não é indubitável a causa da morte. Verdade é que Bartolomeu Lourenço de Gusmão morreu em Toledo, aos 38 anos, conforme o anuncia o músico Scarlatti ao casal Baltasar Sete-Sóis e Blimunda Sete-Luas:

Baltasar, Blimunda e Bartolomeu (pela Éter-Produção Cultural)
      "Domenico Scarlatti pedira licença ao rei para ir ver as obras do convento. Recebeu-o o visconde em sua casa, não porque fosse excessivo o seu gosto pela música, mas, sendo o italiano mestre da capela real e professor da infanta D. Maria Bárbara, figurava, por assim dizer, uma emanação corpórea do paço. (...)
     Saiu o músico a visitar o convento e viu Blimunda, disfarçou um o outro disfarçou, que em Mafra não haveria morador que não estranhasse, e estranhando não fizesse logo seus juízos muito duvidosos, ver a mulher do Sete-Sóis conversando de igual com o músico que está em casa do visconde, que terá ele vindo cá fazer, ora veio ver as obras do convento, para quê se não é pedreiro nem arquitecto, para organista ainda o órgão nos falta, isso a razão há-de ser outra, Vim-te dizer, e a Baltasar, que o padre Bartolomeu de Gusmão morreu em Toledo, que é em Espanha, para onde tinha fugido, dizem que louco, e como não se falava de ti nem de Baltasar, resolvi vir a Mafra saber se estavam vivos. Blimunda juntou as mãos, não como se rezasse, mas como quem estrangula os próprios dedos, Morreu, Foi essa a notícia que chegou a Lisboa, Na noite em que a máquina caiu na serra, o padre Bartolomeu Lourenço fugiu de nós e nunca mais voltou, E a máquina, Lá continua, que faremos com ela, Defendam-na, cuidem-na, pode ser que um dia volte a voar Quando foi que morreu o padre Bartolomeu Lourenço, Diz-se que foi no dia dezanove de Novembro, por sinal que nessa data houve em Lisboa uma grande tempestade, se o padre Bartolomeu de Gusmão fosse santo seria um sinal do céu, Que é ser santo, senhor Escarlate, Que é ser santo, Blimunda.

    Santo ou não, foi sacerdote secular e cientista português. Nascido no Brasil, é reconhecido como o inventor do primeiro aeróstato operacio-nal (“passarola” – mais conhecida na versão atual como balão de ar quente). O invento, comenta-do na Europa e apresentado em es-tampas fantasiosas como uma barca na forma de pássaro, foi polémico. Das tentativas mal sucedidas com pequenos balões ao grande aparelho que voou sem tripulação, há registos e testemunhos a atestar o acontecimento- tão inovador para a época como causador de intrigas, a ponto de Bartolomeu de Gusmão ter sido vítima da Inquisição, acusado de simpatizar com cristãos-novos. 
    De novo, entre o dizer e o ser há uma distância aqui e ali contrariada. Ora porque abraçou o judaísmo ora porque, à hora da morte, se confessou e recebeu a comunhão católica, este padre nasce e tem os restos mortais no Brasil (desde 2004, encontra-se na Catedral Metropolitana de São Paulo).

    Louco, talvez; mas, como diria Pessoa, o que é o ser humano sem a loucura sadia que o faz evoluir? Mantém-se na vida como cadáver adiado que procria. E isto Bartolomeu Lourenço de Gusmão por certo não foi.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

17-11-1717

     Com dois algarismos apenas (o um e o sete) se compõe uma data tão "magnânima"!

     Não fosse este o cognome do rei D. João V (a par de outros tantos que o povo lhe atribuiu) e a data não seria tão grandiosa, magnificente ou excelsa.
    Há 300 anos não estaríamos, por certo, muito longe do que José Saramago dá a ler em Memorial do Convento (1982), na divisão XII a que vulgarmente se dá a designação de capítulo:

Do autor e da obra
      "... entretanto começou a constar-se em Mafra, e foi confirmado pelo vigário no sermão, que vinha el-rei a inaugurar a obra da raiz dos caboucos para cima, colocando com as suas reais mãos a primeira pedra. Primeiro se anunciou que seria aos tantos de Outubro, mas não houve tempo para cavar os alicerces até à sua conveniente fundura, apesar de serem seiscentos os homens, apesar dos muitos tiros de pólvora que a todas as horas do dia vão atroando os ares, será então em Novembro, meados dele, depois não pode ser, que já seria como de Inverno, andar aí el-rei enterrado na lama até às ligas das pernas. Venha pois sua majestade para que se comecem os dias gloriosos da vila de Mafra, para que os seus moradores levantem as mãos ao céu, eles que com os seus perecíveis olhos vão ver a quanto alcança a grandeza de um rei, monarca sublime, graças a quem podemos gozar estas antecâmaras do paraíso enquanto às celestiais moradas não acedermos, tarde seja, que mais apetece estar vivo que morto (...).
      (...) Benzeu-se a cruz no primeiro dia, enorme pau com cinco metros de altura, que daria para um gigante, Adamastor ou outro, ou para o tamanho natural de Deus, e diante dela se prosternaram todos os presentes, e maximamente el-rei, derramando muito devotas lágrimas, e quando a adoração da cruz acabou, quatro sacerdotes levantaram-na em peso, cada qual seu extremo, e a arvoraram sobre uma pedra, adrede preparada, mas esta não a cortou Álvaro Diogo, com um buraco onde se lhe encaixou o pé, que, mesmo sendo a cruz divino emblema, não se aguenta se não ficar entalada, é o contrário dos homens, que mesmo sem pernas conseguem ficar direitos, a questão é quererem-no. Tocava airoso o órgão, sopravam os músicos, entoavam as vozes dos cantores, e, cá fora, o povo que não coubera ou estava sujo de mais para entrar, o povo que viera da vila e dos arredores, não admitido no sacro interior, contentava-se com os ecos das antífonas e das salmodias, e assim se acabou o primeiro dia. 
      Ai o dia seguinte, (...) ai o dia seguinte, retorne-se a exclamação, dezassete de novembro deste ano da graça de mil setecentos e dezassete, aí se multiplicaram as pompas e as cerimónias no terreiro, logo às sete da manhã, frio de rachar, se achavam reunidos os párocos de todas as freguesias em redor, com os seus clérigos e muito povo, é forte presunção que tenha vindo desta ocasião o dizer, para uso dos séculos e das gazetas. Chegou el-rei pelas oito horas e meia, já tomado o chocolate matinal, serviu-o por suas próprias mãos o visconde, e então se formou a procissão, à frente sessenta e quatro religiosos arrábidos, depois o clero da terra, a cruz patriarcal, seis homens de opas roxas, os músicos, capelães de sobrepelizes, grande cópia de clérigos vários, um espaço livre a preparar o que aí vinha, e eram os cónegos de pluviais de tela branca e outras bordadas, adiante de cada um deles os seus criados nobres, empós, sustentando-lhes as caudas, os caudatórios, e atrás o patriarca com preciosos paramentos e mitra do maior custo, adornada de pedras do Brasil, depois el-rei com a sua corte, juiz e vereadores da terra, corregedor da comarca, e grande número de gente, passante três mil, se não se enganou quem a contou, e tudo isto por causa de uma simples pedra, juntou-se aqui um poder de mundo, clarins e timbales atroando os ares superiores e inferiores, e a tropa de cavalaria e infantaria, mais a guarda alemã, e outra vez o povo, muito povo, tanto povo, nunca a vila de Mafra vira tal ajuntamento, porém, não cabendo todos na igreja, entram os grandes, e dos pequenos só os que cabem e tiveram artes de insinuar-se, antes fizeram os soldados as aclamações da ordenança, era isto ainda pela manhã, serenara de vez o vento forte e o que corria era apenas uma viraçãozinha do mar que fazia fraldejar as bandeiras e as saias das mulheres, ventinho fresco como próprio da estação, mas os corações ardiam de pura fé, exultavam as almas, e se, de extenuadas, já algumas vontades queriam retirar-se dos corpos, vinha Blimunda e não se perdiam nem subiam às estrelas. 
      Foi a pedra principal benzida, a seguir a pedra segunda e a urna de jaspe, que todas três iriam ser enterradas nos alicerces, e depois foi tudo levado em procissão, de andor, dentro da urna os dinheiros do tempo, ouro, prata e cobre, umas medalhas, ouro, prata e cobre, e o pergaminho onde se lavrara o voto, deu a procissão uma volta inteira para mostrar-se ao povo que ajoelhava à passagem, e, tendo constantemente motivos para ajoelhar-se, ora a cruz, ora o patriarca, ora el-rei, ora os frades, ora os cónegos, já nem se levantava, bem poderemos escrever que estava muito povo de joelhos. Enfim se encaminharam el-rei, o patriarca e alguns acólitos para o sítio onde se havia de colocar a pedra e as pedras, descendo por uma espaçosa escada de madeira que tinha trinta degraus, porventura em memória dos trinta dinheiros, e de largura mais de dois metros. Levava o patriarca a pedra principal, ajudado pelos cónegos, e outros destes a pedra segundeira e a urna de jaspe, atrás el-rei e o geral da Sagrada Ordem de S. Bernardo, como esmoler-mor, e que, por o ser, levava o dinheiro. 
       Assim desceu el-rei trinta degraus para o interior da terra, parece uma despedida do mundo, seria uma descida aos infernos se não estivesse tão bem defendido por bênçãos, escapulários e orações, e se aluíssem estas altas paredes que formam o cabouco, ora não tema vossa majestade, repare como as escorámos com a boa madeira do Brasil por maior fortaleza, aqui está um banco coberto de veludo carmesim, é uma cor que usamos muito em cerimónias de estilo e de estado, com o andar dos tempos vê-la-emos em sanefas de teatro, e sobre o banco está um balde de prata cheio de água benta, e também duas vassourinhas de urze verde com os cabos guarnecidos de cordão de seda e prata, e eu, mestre-da-obra, verto um cocho de cal, e vossa majestade, com esta colher de pedreiro de prata, perdão, senhor, de prata de pedreiro, se pedreiros a têm, estende a cal, mas antes a espargiu com a vassourinha molhada na água benta, e agora, ajudem-me aqui, podemos assentar a pedra, porém, sejam as mãos de vossa majestade as últimas a tocar-lhe, pronto, um toque mais para toda a gente ver, pode vossa majestade subir, cuidado não caia, que o resto do convento nós o construiremos, e agora podem ser postas as outras pedras, cada uma em sua cabeceira desta, e tragam os fidalgos mais doze, número de boa fortuna desde os apóstolos, e conchas de cal dentro de cestos de prata, assim ficará mais aconchegada a pedra principal, e o visconde da terra quer fazer como vê aos serventes de pedreiro, leva o cocho à cabeça, assim mostrando maior devoção, já que não foi a tempo de ajudar o Cristo a levar a cruz, despeja a cal que o haverá de comer, não seria mau o efeito de estilo, porém esta cal não está viva, meu senhor, mas apagada, Como as vontades, dirá Blimunda.
      Ao outro dia, depois de el-rei partir para a corte, deitou-se abaixo a igreja sem ajuda do vento, apenas cho-via água que Deus a dava, puseram-se a um lado as tábuas e os mastros para necessidades me-nos reais, andai-mes, por exemplo, ou tarimbas, ou beliches, ou mesa de comer, ou rastos de tamancos, e os panos, tafetás ou damascos, as velas dos navios, cada um tornou ao seu natural, as pratas para o tesouro, os fidalgos para a fidalguice, o órgão para outras solfas, e os cantores, os soldados a luzir semelhantes paradas, só ficaram os arrábidos de olho alerta, e sobre a pedra cavada, cinco metros de pau crucificado, a cruz." 

     A ironia pode ser a de qualquer trabalhador da época, forçado que foi a cumprir os devaneios e as promessas reais; pode ser a de qualquer espírito crítico (de então ou de agora) que vê, nesta megalómana vontade joanina, um exemplo dos poderosos, sempre acima dos que herculeamente têm de trabalhar, pondo mãos à obra mas não ficando na história oficial dos acontecimentos (por mais que sejam os que carregam a cruz e sofrem das cruzes).

   O Palácio-Convento de Mafra, colosso do barroco português setecentista, é promessa arrancada ao rei (para os frades arrábidos): se a rainha concebesse um filho, que tardava a chegar, acolher-se-iam treze frades arrábidos num mosteiro que, no final da construção, acabou por albergar mais de trezentos e também abraçou um palácio real. Iniciado a 17 de novembro de 1717, o monumento só teria a sua sagração no ano de 1730 (no aniversário oficial do rei, claro está! Quem pode pode!).

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Não uma, mas um FACE com História

      Pode ser uma sexta-feira treze, mas hoje houve mais realeza (com a presença de "Sua Alteza" o rei D. Carlos) e excelência do que azar.

    Pelas 10:30, foram assinalados os 120 Anos da Concessão do Alvará Régio à Fábrica de Conservas Brandão, Gomes & C.ª, no edifício onde atualmente se situa o Fórum de Arte e Cultura de Espinho (FACE) - Museu Municipal de Espinho. Aí se encontra uma exposição permanente com evidências da visão progressista e da importância nacional e internacional da antiga fábrica de conservas espinhense, que recebeu um prestigioso alvará nos finais do século XIX (1895). Passados cinco anos do vergonhoso Ultimato britânico imposto a Portugal (inviabilizando o 'Mapa Cor-de-rosa'), Espinho, um lugar da freguesia da Anta à época, dava mostras de um sinal de desenvolvimento do país, da industrialização, do progresso e da aposta na excelência, sob a divisa "Melhorando sempre" e a ponto de os produtos produzidos e exportados desta "Real Fábrica de Conservas Alimentícias" passarem a estar à mesa do rei.
     A efeméride foi ainda abrilhantada por dois eventos:
   . uma dramatização com História, levada a cabo por um par de atores do Teatro Popular de Espinho - "Entrevista a El-Rei D. Carlos":

 
Excerto da dramatização levada a cabo no FACE

  . o lançamento do Jornal "Real Fábrica de Conservas Brandão, Gomes & C.ª", numa edição impressa à escrita da época.

Primeira página do jornal, reproduzindo o Alvará Real
      Do balanço final da atividade, que contou com a presença de alunos e professores da Escola Secundária Dr. Manuel Laranjeira, fica o registo do que eram a jorna (salário do trabalho diário) e o jornaleiro (o trabalhador que recebia a jorna); as condições do trabalho numa fábrica (entre o final do século XIX-início do XX, conforme um painel fotográfico revelador dos que se vestiam na especialidade laboral exercida ou dos que indiferenciada-mente aguardavam pelas necessidades do trabalho diário); o sentido estratégico da visão assumida pelos proprietários (que organizaram a fábrica por secções - conserva de sardinha, de frutas, de legumes, de caça, de doces, entre outros produtos, para além da produção das embalagens e da estampagem publicitária); o exemplo, o testemunho e a reflexão de que, mesmo em tempos críticos, o engenho, a audácia e a parceria constituem fatores primordiais para o desenvolvimento, o sucesso e o prestígio conquistados pelo trabalho.
    Uma ótima iniciativa na oportunidade e na mensagem, não esquecendo a companhia.

      Entre regeneradores e progressistas (tão alternada e ciclicamente revistos na governação do país na segunda metade do século XIX); entre crises nacionais e oportunidades económicas; entre trabalhadores especializados e outros que esperavam a sorte do dia, ficam aqui alguns apontamentos da(s) História(s) que o tempo repete.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Integrar na novidade

   Não é a tomada da Bastilha; quando muito é comida, com sardinha, febrinha e outras coisas tenrinhas e docinhas.

    Esta é data importante para a História Universal: dia da Tomada da Bastilha (evento nuclear da Revolução Francesa, em 1789). Apesar de a fortaleza medieval, na altura prisão, ter só sete prisioneiros, a sua queda é perspetivada como um dos símbolos maiores da revolução e um ícone da República Francesa.
    Hoje, a título pessoal, também aconteceu uma revolução. Não sei se há mudança e regime, mas creio ser grande mudança para um futuro que só o tempo dirá se valeu a pena. Não tenho a alma pequena, mas admito que estou a destempo de alterações significativas na minha vida. Ainda assim, esta aconteceu, com a mudança do meu local de efetivo no trabalho de docência. Para integrar ou enturmar, fui à sardinhada da minha nova escola, a convite da diretora e do meu departamento / grupo disciplinar.
   Novos colegas, nova diretora, novo espaço... Tanta coisa nova ao mesmo tempo. Olho para a frente, tal como sugeria o patrono que dá nome ao estabelecimento. Nem para cima nem para baixo.

Uma oferta do jantar de despedida, com a cor do céu e do mar, a minha sombra
e as palavras de Manuel Laranjeira

     Este é registo de futuro, vindo de um passado tão recente.
    É verdade que fico mais perto do mar, mas sinto-me sombra à espera da luz, qual prisioneiro da caverna a julgar que vejo a realidade. Será esta cópia de algo mais para chegar?

     Não sei! Sempre numa indefinição que só o futuro desvelará. Resta-me olhar em frente.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Sou grego - όχι

     Tempos de resistência, de coragem, de história.

    Quando muitos tentam encontrar justificação para a resposta grega ao referendo, talvez fosse de lembrar o que o passado recente trouxe à Grécia, para não esquecer também que a suposta solidariedade das instituições europeias mais não é do que uma camuflada prepotência sempre que se obriga o solidarizado a agir conforme a ideologia dos dominantes e o sentido neoliberal da(s) economia(s) reinante(s).


    Entre o mal e o mal menor (porque do melhor parece nem ser possível falar), chegou a lição do povo grego: agir em vez de discutir o que decidir; construir consensos em vez de impor diretrizes cegas e surdas, alheias ao poder de milhões que se pronunciaram categoricamente por um 'não' face à ausência de condições para sobreviver com determinação; encontrar soluções (mesmo que difíceis) em vez de se criar mais problemas (ou mais austeridade sem sinais de recuperação ou da viabilidade desta).
    Foi esta a resposta democrática, no sentido helénico e/ou etimológico de 'democracia' - governo (kratos) do povo (demo). Se a democracia pode ser exercida de forma direta (os cidadãos tomam as decisões de poder), indireta (as decisões são tomadas por representantes eleitos em nome dos que os elegeram, na impossibilidade da democracia direta) ou semidireta (chamando os cidadãos a pronunciarem-se sobre questões nas quais os representantes sentem necessidade de maior legitimidade na representação), teve-se no referendo um instrumento para este último sentido de noção e expressão democráticas. Falou / decidiu o povo para os representantes eleitos se sentirem mais apoiados na sua a(tua)ção; devem a Europa e o FMI considerar outras formas de lidar com a situação crítica da Grécia - isto se não quiser adotar a posição típica dos sistemas monárquicos ou oligárquicos (onde o poder está, respetivamente, centrado nas mãos de uma única pessoa, o monarca, ou de um grupo de indivíduos influentes). 
    Ainda que, em Atenas, a democracia se tenha consolidado como uma forma de organização política das cidades-estado gregas (as 'polis') bem longe do sentido literal do termo (havia um reduzidíssimo número de participantes elegíveis da coisa pública - os cidadãos -, onde não cabiam os escravos, as mulheres, as crianças, além dos estrangeiros), atualmente as vozes representadas são em muito maior número. 
  Maior democracia, maior legitimidade na expressão e na luta pela dignidade de um povo, de um país, de uma tradição cultural fundacional da própria Europa.
    Um exemplo a considerar por outros países que também foram porto nas navegações de Ulisses.

    Hélia Correia, vencedora do prémio Camões 2015, numa sessão pública intitulada “A crise europeia à luz da Grécia” (realizada no dia 2 de julho, no Fórum Lisboa), assumiu (como filelena) que a dignidade demonstrada ultimamente pelo povo grego nos faz ainda sentir herdeiros do passado; daí todos querermos ser gregos - no que foram há cerca de dois mil e quinhentos anos e no que são hoje, nomeadamente nesse grito de luta contra o incerto, mas onde cabe a hipótese matizada pela força certa do "morremos, mas morremos de pé".

sexta-feira, 5 de junho de 2015

O captain, my captain...

     Palavras de alunos: ficção ou realidade?

    Inicialmente, a expressão faz parte da metáfora construída por Walt Whitman para, num dos seus poemas ("O Captain! My captain!", 1865), se referir à morte do presidente Abraham Lincoln, no contexto da Guerra Civil americana (essa 'trip', viagem por que os EUA tiveram de passar na sua história):


    Este mesmo poema é citado no filme Clube dos Poetas Mortos (1989), realizado por Peter Weir, particularmente quando o professor de inglês John Keating (interpretado por Robin Williams) diz aos seus alunos que estes o podem tratar por "O Captain! My Captain!", sempre que se sentirem ousadamente inspirados. Se assim o disse no início da relação, assim o recebeu no final: demitido por desafiar os princípios da prestigiada academia onde lecionava, Keating vê os seus alunos revelarem o apoio e a admiração que sentem, ao subirem para os tampos das respetivas carteiras e ao declamarem / dedicarem a expressão whitmaniana a quem os ensinou a aproveitar o dia e a sugar o "tutano da vida" (carpe diem).
    Se qualquer semelhança entre a ficção e a realidade for uma mera coincidência, a verdade é que hoje vivi estas palavras literárias / fílmicas como reais. Ao fim de dois anos e na última aula (oficial) de Literatura Portuguesa, nos minutos derradeiros de um discurso meu interrompido sobre A Sibila (de Agustina Bessa-Luís), vejo uma aluna subir para a carteira citando-me os famosos versos; e logo todos os restantes elementos da turma a repetirem o ato, numa recriação do episódio cinematográfico:

Cena final do filme Clube dos Poetas Mortos, de Peter Weir (1989)

    Entre a incredulidade e a emoção, o sorriso da cena reconhecida e a contenção que se impunha (para não chorar no momento da despedida), estrategicamente comecei por reagir qual Mr. Nolan, o diretor da Academia Welton, com o incisivo "Sit down"; ainda cheguei ao "You hear me, sit down", dada a desobediência estudantil; porém, não pude assumir o "This is my final warning! How dare you!". Sensibilizado, só pude responder de uma forma: subir para o tampo da minha secretária e, colocando-me ao nível da turma, agradecer por me ter deixado viver momentos e experiências felizes de leitura, de comentário, de análise e de reflexão. Fomos cúmplices no trabalho, no espírito e nas relações que se construíram.

      Ficção e realidade. Se alguém, no corredor, tivesse olhado pelo vidro da porta e visse o que se passava na sala de aula, pensaria que não era possível estar a ver bem! E foi tanta a realidade!

sábado, 25 de abril de 2015

Um feriado sem sabor...

    Assim acontece sempre que o feriado coincide com um fim de semana.

    Por mais importante que o seja (e é-o!), este é o Dia da Liberdade.
   Celebrá-lo a um sábado sabe a pouco: já nos sentimos libertos (pelo menos, todos aqueles que, por norma, gozam o fim de semana ao sábado e ao domingo). Ainda bem que assim é: sentimento tão ajustado à libertação de um fim de uma semana de trabalho como à de um regime democrático conquistado às mãos de um despotismo que se quer passado (infelizmente, e por vezes, com sinais de presente).
    Num dia em que o país se cobriu de cravos, a flor que adornou a arma da revolução, talvez não fosse de esperar que, passado quarenta e um anos, o descrédito e a desilusão se instalassem, perante uma realidade política que não deixa reabrir a caixa de Pandora (esta só existiu para o mal, sem que lhe seja permitida a revisão narrativa, pela tónica da esperança). E, assim, o desânimo vinga, numa data que tudo teve de contrário. Hoje, o "Nevoeiro" pessoano revive-se. 
    25 de abril começa a dizer pouco, não pelo que se conquistou (que deve manter-se válido e exemplo do caminho a seguir), mas pelo que se fez da democracia.
    Por isso, fazem sentido os versos de Maria Teresa Horta, aqui transcritos a partir do que é dado a ler na sua página oficial do Facebook:

VINTE E CINCO DE ABRIL

Este é um poema
com saudade da festa

Dias de vermelho
de damasco e de riso

Das horas de alegria
e de bandeiras, de cravos
rubros postos no vestido

Este é um poema
feito de memória

Da pressa incontida
no passo corrido

De fala crescida
de prisões abertas, de escrita
liberta descobrindo o sentido

Este é um poema recordando
a mudança, da esperança
e do sonho acontecido

Com palavras 
do corpo e de lembrança

Exigindo o futuro
a promessa e o grito

Este é um poema
cantando 
a liberdade

De lágrimas costuradas
suturando o sorriso

Ousando dizer da ambiguidade
da estranheza do novo
misturado ao antigo

Este é um poema
torneando o avesso

Da luz da madrugada
de uma noz de vidro

Do voo das gaivotas
junto à pele das águas
fazendo do Tejo o seu precipício

Este é um poema
de visitar a História

Da revolução 
o ganho
e também o perdido

Da viagem e do mar
da língua portuguesa
onde na paixão me encontro comigo

Maria Teresa Horta, inédito

     De facto, este é o poema que dá a ler o dia que se quer (re)vivido; esta é a poesia que, de mão dada com a História, faz do passado mensagem de futuro, para nos libertar de um presente que mais parece o "avesso" a tornear.

     Lá virá o dia (já esteve mais longe). Assim haja força, vontade e coragem para a união dos que, em tempo de escolha, saibam novo rumo encontrar (não apenas nos que, na paixão, se encontrem consigo próprios, mas que também ao outro se consigam dar). 

domingo, 25 de janeiro de 2015

De novo, com os olhos e ouvidos nas origens.

    Hoje gostava de estar em Atenas a gritar SYRIZA.

     Espero que amanhã, num tempo mais alargado do que o dia, o grito ecoe para cada medida ou decisão feitas da honestidade e do dever cumprido para o prometido. Basta de sufoco, a bem de alguma esperança. Por maior que tenha sido o erro do passado, para que haja presente com sentido há que abrir a caixa de Pandora.
     Assim se construirá verdade, confiança, referência, ao contrário de muitos que continuamente desdisseram o que os levou ao poder. 
    Assim se alimentará tempo novo, com uma outra forma de fazer as coisas, mais atenta ao Homem e menos ao capitalismo sufocante e castrador em que as instituições de crédito financeiro se tornaram.
    Curioso (ou talvez nem tanto) que tudo esteja a acontecer na Grécia, nesse berço do pensamento democrático original. Se foram muitos os erros anteriores, se ainda há quem não cumpra o que é necessário para o bem comum grego (e, por consequência, europeu), tudo tem que ser feito para responsabilizar os que prevaricam; mas também há que criar vontades, novas vozes, novas caras e dinâmicas de futuro, apostadas na mudança (não no 'statu quo' ou no 'dejá vu').
    Em tempo de novo protagonismo, de um pioneirismo que se quer exemplar para a Europa - continente que muito lhe deve o nome -, gera-se uma causa de dimensão nacional com sentidos e efeitos muito para além da fronteira grega; revê-se o próprio continente, aquele que da Grécia recebeu toda uma civilização (a qual esteve na origem de tudo), segundo rezam a História e os mitos.
"O rapto da Europa", de Peter Paul Rubens (1628-9)
   Nesses tempos dos primórdios, dos deuses da anti- guidade clássica, uma princesa fení- cia se impôs pela beleza, chamando a atenção e as paixões do poderoso deus grego: Zeus. Disso não gostou Hera, a ciumenta mulher do deus principal da mitologia grega. Daí este ter-se transformado num touro, para se apro- ximar da princesa, que, maravilhada, coroou o animal com uma grinalda de flores e acabou por saltar para o seu dorso. Ao senti-la nas suas costas, o taurino e supremo morador do Olimpo desatou a correr em direção ao mar, só parando quando chegou a uma pequena ilha: Creta. Aí, à sombra de um plátano, revelou-se na sua verdadeira forma. Acabaram ambos por dar vida a três crianças: Minos (futuro rei de Creta e um dos juízes do inferno, que ouvia as confissões dos mortos), Radamanto (rei das Cíclades, conhecido pela sabedoria e justiça) e Sarpedão (príncipe da Lícia).
      Hoje, em tempos de crescentes individualismos, fala-se na necessidade de um espírito gregário, de uma natureza associativa (pretendida e nem sempre alcançada) para ultrapassar problemas e crises comuns, numa inspiração apoiada no modelo das ágoras e das ligas que instituíam a união de esforços. Os tempos são efetivamente outros, à espera mais de Radamantos do que de grupos que não pugnam pela felicidade comum.
       Talvez aqui a Grécia ainda tenha uma palavra a dizer. Eu gostava que fosse SYRIZA, pelo que esta coligação possa representar de exemplo para uma saída humanizada e feliz para a austeridade; para a afirmação de uma nacionalidade mais interessada no seu povo do que nas prioridades especulativas de grupos mais focados nas próprias bolsas (e nos respetivos bolsos), em detrimento do bem social comum.

    Num país que tanto deu à Europa (cultural e linguisticamente), talvez ainda esteja a ser preparada (mais) uma lição. Que assim seja, a bem dos homens que nela moram e para que os mesmos, ou outros ainda, saibam que há uma forma diferente de fazer as coisas (sem ter de se cair em igualitarismos duvidosos nem em controlos ameaçadores, perversos e desumanos).

domingo, 5 de outubro de 2014

Historinha para um dia grande

   Em dia de celebração republicana, falta o feriado, roubado pelo fim de semana (e não só!).

   "Eu nasci na República"... e não sei se sou mais feliz (mas reconheço que "assim penso tudo aquilo que sempre quis"). É que o povo anda muito desesperançado.
    Esta é a minha reação ao filme de animação de Emília Mimi (Primeiro episódio Mix República), datado de 2010 e exibido no "Monstra" - Festival de Animação de Lisboa. Fica a história para lembrar como a vida faz frequentemente esquecer o passado, nem sempre melhor do que o presente (por pior que este último seja):


   Implantada a República e erguida a nova bandeira, faz hoje 104 anos que nos despedimos da Monarquia enquanto regime político oficial nacional. Talvez tenhamos substituído alguns problemas por outros tantos (às vezes parecendo os mesmos), mas sempre fica a possibilidade de podermos chamar a nós o poder de escolha, de voto naqueles que vão ter a legitimidade de os (vir a) resolver.

     Vou apanhar sol e acreditar que "tudo vale a pena, quando a alma não é pequena" (só para citar o poeta).

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Um aniversário discutível...

     Hoje acordei com as notícias a darem conta da festividade criada em torno dos 800 anos da língua portuguesa. Isto se esta não for mais velha.

    Considerando o aniversário da nossa língua situado nesta data, ter-se-á em linha de conta que o documento mais antigo do português é o testamento do rei D. Afonso II, datado de 27 de Junho de 1214. Trata-se, de facto, do primeiro documento real (entenda-se, da realeza) que se sabe ter sido datado e escrito para garantir a paz da família e do reino, caso sucedesse a morte prematura do monarca. Tomadas as providências para a sucessão pelo filho varão ou, na falta deste, pela filha mais velha, são ainda considerados outros cenários hipotéticos:

Mitra de Braga, caixa 1, documento 48, 240x495mm
       "Em nome de Deus. Eu, rei D. Afonso, pela graça de Deus, rei de Portugal estando são e salvo, temendo o dia da minha morte, para a salvação da minha alma e para proveito de minha mulher D. Urraca e de meus filhos e de meus vassalos e de todo o meu reino, fiz meu testamento para que depois de minha morte, minha mulher e meus filhos e meu reino e meus vassalos e todas aquelas coisas que Deus me deu para governar estejam em paz e em tranquilidade. Primeiramente mando que o um filho, infante D. Sancho, que tenho da Rainha D. Urraca assuma o meu reino inteiramente e em paz. E se este morrer sem deixar descendentes, o filho mais velho que houver da rainha D. Urraca tenha o meu reino inteiramente e em paz. E se não tivermos filho homem, a filha mais velha que tivermos, assuma o reino. E se no tempo da minha morte, meu filho ou minha filha que deve reinar não tiver idade, esteja o reino em poder da rainha, sua mãe. E meu reino siga em poder da rainha e de meus vassalos até quando cheguem à idade. E se eu morrer, rogo ao Papa, como padre e senhor e beijo a terra ante seus pés para que ele receba sob sua guarda e sob sua proteção a rainha e meus filhos e meu reino. E se eu e a rainha morrermos, rogo e peço que meus filhos e o reino sigam sob sua proteção." 
(Texto adaptado em português contemporâneo)

       Todavia, estudos mais recentes (dos finais do século XX) têm apontado para documentos anteriores, de foro menos real e mais legal, já com indicadores que remontam a registos notariais onde o português sobressai face à língua dos romanos (sem a desinência casual acusativa; com nomes configurados com a terminação típica do que vem a ser o português [o, a, os, as]; com marcas de um sistema preposicional que substitui o sistema casual latino; com uma ordem frásica que se distancia da latina). Exemplo disso é a Notícia de Fiadores, descoberta pela professora Ana Maria Martins - um pequeno fragmento que exibe a data de 1175 que fazia parte do espólio do mosteiro de São Cristóvão de Rio Tinto. Nele se lê uma lista de fiadores de Paio Soares Romeu (elemento da família dos senhores de Paiva e irmão do autor de um sirventês galaico-português: João Soares de Paiva):

"Noticia fecit pelagio romeu de fiadores 
Stephano pelaiz .xxi. solidos 
lecton .xxi. Soldos 
pelaio garcia .xxi. soldos. 
Gudisaluo Menendici .xxi soldos 
Egeas anriquici xxxta soldos. 
petro cõlaco .x. soldos. 
Gudisaluo anriquici .xxxxta 
Egeas Monííci .xxti. soldos 
Ihoane suarici .xxx.ta soldos 
Menendo garcia .xxti soldos. 
petro suarici .xxti. soldos 
ERa Ma. CCaa xiiitia 
Istos fiadores atan .v. annos que se partia de isto male que li avem"

(Mosteiro de S. Cristóvão de Rio Tinto, maço 2, documento 10: publ. por Ana Maria Martins: 'Ainda «os mais antigos textos escritos em português»', in Lindley Cintra, Homenagem ao Homem, ao Mestre e ao Cidadão, Lisboa, 1999, 517)

      Em suma: a não ter 800 anos, a língua portuguesa tem um documento, com coordenadas identificadas para os lados do concelho gondomarense, que a atesta já com cerca de 840 anos, para o caso de não aparecerem ainda outros, mais recuados no tempo, com a expressão romance (do galaico-português) suficientemente distanciada das produções reais ou dos registos dominantemente latinos.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Dia da Consciência

   Hoje é o 'Dia da Consciência' - iniciativa promovida por um português residente em Nova Iorque para marcar 70 anos passados de uma desobediência que evitou um sofrimento maior de milhares.

    Está anunciado que, neste dia, Aristides de Sousa Mendes vai ser homenageado em igrejas e sinagogas de todo o mundo, como forma de lembrar os esforços por ele conduzidos para salvar milhares de perseguidos pelo regime nazi.


   Parece coincidência toda esta movimentação em prol do diplomata português, depois da recente deslocação feita a Cabanas de Viriato e à Casa do Passal, há três dias. Mais uma prova de que as motivações para a escolha do local fizeram e fazem todo o sentido. 
     Hoje evoca-se o dia em que o cônsul de Bordéus conscientemente contrariou o conteúdo da Circular 14 (de 1940), aquela na qual Salazar impedia a passagem de vistos a qualquer estrangeiro de nacionalidade indefinida, contestada ou litigiosa; aos apátridas, aos judeus.

      Data de relevo para a Humanidade, não pelo nascimento nem pela morte, mas por ser o dia a partir do qual um Homem optou por estar “Antes com Deus contra os homens que com os homens contra Deus”.

sábado, 14 de junho de 2014

Rumo a Cabanas de Viriato

     O dia foi do Departamento de Línguas (Estrangeira e Materna), para aqueles que aderiram à iniciativa que vai fazendo tradição: o passeio de professores.

      Depois de, no ano passado, termos andado pelas Terras do Demo, desta feita a escolha recaiu sobre Cabanas de Viriato. Tanto se falou de Aristides de Sousa Mendes que fomos ao encontro da casa que nos dá a memória do que injustamente lhe fizeram. Felizmente, há sinais de que a recuperação está para acontecer.

Prospeto e fotos da Casa do Passal (cimo), mais depoimento de Aristides de Sousa Mendes (baixo direita)


      E, tal como a Casa do Passal, é desejável que venha a recuperação da figura, do Homem considerado "Um Justo entre as Nações". Pela ação benemérita que tanto o heroicizou (junto do vulgo) como o destruiu (junto do poder do tempo), é lamentável que o diplomata português ainda permaneça no plano das celebrações e das homenagens nacionais veladas. Têm os estrangeiros (os herdeiros dos sobreviventes ao genocídio nazi) que o destacar, que o homenagear, que o honrar - muitas vezes deslocando-se à terra natal e plantando árvores em memória daquele a quem devem a vida.
      Num breve depoimento de Aristides de Sousa Mendes, é curioso constatar como a vida de um homem se faz de sonho, tomado este último também como pesadelo antecipado. Disto teve consciência o cônsul de Bordéus, num contexto adverso à Humanidade e que ele quis, de algum modo, enfrentar, para minorar a injustiça atroz que se vinha impondo. A luta de um homem pelo bem dos seus semelhantes nem sempre é entendida por quem governa (ou, no caso, desgoverna) - prova de que os motivos da decisão política nem sempre são equacionados à luz de quem ela devia servir. Há "moços" que desiludem (cf. depoimento à direita), por certo, e comprometem os princípios de grandes homens. Foi o caso daquele já considerado como o 'terceiro Grande Português' (programa "Grandes Portugueses", da RTP 1, difundido em 2007) e que, ironicamente, viu no primeiro lugar quem não deixou de o desonrar em vida.
     Em Cabanas de Viriato, visitámos a terra que o viu nascer; ficámos a conhecer histórias de quem o conheceu e com ele chegou a conviver já na fase em que as dívidas eram demasiadas e a sobrevivência acontecia enquanto homem só; encontrámos sinais que interessa divulgar, para projetar o Homem cuja ação altruísta merece o reconhecimento dos tempos.

      Seja esta uma iniciativa inspiradora, para se multiplicar por outras que deem a conhecer quem nunca deve (devia) ser (ter sido) encoberto. Na falta de referências do tempo presente, o passado próximo ainda tem algumas para sublinhar, no que foram de maior.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

E foi este o dia...

     Há quarenta anos, chegou a liberdade e os versos da 'poeta'.

     Celebra-se o fim de um regime ditatorial, que teve em Salazar e Marcello Caetano as caras da opressão e repressão; festeja-se a democracia conquistada pelo Movimento das Forças Armadas (MFA), para um povo sedento de justiça, de oportunidade e de tempo - todos mascarados, estagnados algures desde as primeiras décadas do século XX.
     E os versos surgiram, para anunciar a mudança. O título fez-se com uma simples data, o de um dia do calendário ("25 de Abril").

A palavra poética de Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Nome das Coisas, 1974
(Fotografia da exposição 40 anos do 25 de Abril, na Escola Secundária de Gondomar)

    Comemorada a revolução dos cravos (aquela em que uma mulher, na manhã desse dia, ofertou cravos a um e outro soldado, na direção do Largo Carmo, e viu essas rubras flores depositadas nos canos das armas), ficam na memória os exemplos a seguir, além dos males sofridos, indesejados - alguns teimosamente coincidentes com aquilo que se queria já bem longe dos nossos dias. Assim não é.

     Valeu a pena! Teve e tem de valer a pena, para que o azedo e a agrura dos tempos passados não se traduzam em sufoco e angústia de um povo que, na ânsia de direitos e liberdades (e da confiança e da esperança), espera (ainda) por melhores dias, depois de lhe terem comprometido algum do futuro.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

A cantiga que esteve para ser arma

      A cantiga é uma arma - assim se diz das que estão comprometidas com atos revolucionários.

    Em contexto de véspera do 25 de abril, muito se fala de "E depois do adeus" (cantada por Paulo de Carvalho), "Tourada" (por Fernando Tordo), "Grândola Vila Morena" (por Zeca Afonso). Muitas outras poderiam ser mencionadas, entre as que soaram ora nos dias anteriores ora nos que sucederam à revolução que fez vingar a democracia, pondo fim a uma ditadura de quase cinquenta anos.
     Documentado com os registos (de há quarenta anos) para memória futura, o radialista Manuel Tomás evocou-os hoje em entrevista televisiva (no Jornal 2). Tornados presente, neles se relembra como a canção "Grândola Vila Morena" esteve para ser "Venham mais cinco". A primeira, que foi a senha para a saída das forças armadas dos quartéis, só o foi pelo exercício de censura previsível sobre esta última.


         VENHAM MAIS CINCO

Venham mais cinco
Duma assentada
Que eu pago já
Do branco ou tinto
Se o velho estica
Eu fico por cá

Se tem má pinta
Dá-lhe um apito
E põe-no a andar
De espada à cinta
Já crê que é rei
D'àquém e D'àlém Mar

Não me obriguem
A vir para a rua
Gritar
Que é já tempo
D'embalar a trouxa
E zarpar

A gente ajuda
Havemos de ser mais
Eu bem sei
Mas há quem queira
Deitar abaixo
O que eu levantei

A bucha é dura
Mais dura é a razão
Que a sustem
Só nesta rusga
Não há lugar
Pr'ós filhos da mãe

Bem me diziam
Bem me avisavam
Como era a lei
Na minha terra
Quem trepa
No coqueiro
É o rei

     De um passado de que nos libertaram, seria bom que o presente não revivesse sinais dele, para bem de um futuro com esperança. 

      Começa na noite de hoje a manifestação popular em memória dos 40 anos do 25 de abril. A associação homónima, dos militares que lideraram o MFA (Movimento das Forças Armadas), fará amanhã uma cerimónia pública no histórico Largo do Carmo, homenageando Salgueiro Maia. Com eles é que o povo deveria estar, deixando orgulhosamente sós aqueles que vão mutilando o exemplo e o modelo de liberdade conquistados (pois, como diz a canção, "...há quem queira / Deitar abaixo / O que eu levantei") e que gostam da retórica que já nada significa para os governados.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

40 anos do 25 de Abril na ESG

      Depois de ontem ter sido oficialmente inaugurada...

     Chegou a vez de levar os alunos à exposição dos 40 anos do 25 de Abril (que propositadamente escrevo com a maiúscula do relevo a dar a um tempo histórico que devia ser inspirador para a atualidade que se vive). A atividade, da responsabilidade do Departamento de Ciências Sociais e Humanas da Escola Secundária com EB3 de Gondomar, conta com um programa que abrange colóquios, debates, participação em eventos dinamizados com a edilidade gondomarense, sarau cultural, entre outras iniciativas.
     De particular interesse em toda a exposição, os vários pormenores marcantes de uma época (moda, utensílios domésticos, louça, brinquedos, música, revistas, moedas e notas) e, em especial, a reprodução de uma sala de aula, mais uma mostra de fotografias do pessoal docente e não docente da ESG.
      Destas duas últimas, impõe-se a referência a todos os sinais de uma sala de aula que os alunos viram, na qual sentaram e contactaram com manuais únicos da então chamada escola primária; com as famigeradas provas de passagem, em folhas de papel almaço pautado; com os retratos de Marcello Caetano e Américo Tomás, mais a cruz de Cristo, na parede por cima do quadro negro; com as palmatórias, para lembrar castigos físicos. Talvez tenham achado demasiado estranho, mas todos tiveram que passar pela minha frente, junto à secretária docente, e dizer-me individualmente 'bom dia', depois de apanharem umas "reguadas", só porque tinham pensado que podiam sentar-se onde e com quem queriam; começaram a aula comigo, de pé (a ideia era cantar o hino, mas alguns estarreceram...), à espera da minha autorização para sentarem. Só faltou a cana para que pudesse apontar para o quadro ou atingir a cabeça ou a orelha de alguém mal comportado.

Depois das reguadas, todos sentadinhos e alinhados nas carteiras da escola primária

      Foram poucos os minutos de aula, para saberem que o conformismo era a regra de ouro, para os valores que sublinhavam a importância de Deus, Família e Pátria; que a educação assentava nestes valores, também presentes em conteúdos e áreas de conhecimento praticamente ensinados à mesma hora por todo o país; que a homogeneidade era princípio respeitado nas próprias turmas e escolas (só femininas ou só masculinas); que os erros, os esquecimentos e as distrações eram fatores de castigo severo; que as formas de castigo eram tão visíveis quanto as "orelhas de burro" e a observação das paredes ou recantos das salas, além de frequentemente sentidos quanto as mãos ficarem a ferver pelas "reguadas" aplicadas; que o controlo era tão assumido quanto o desejo de casar de uma professora primária depender da autorização do próprio Ministério; que o respeito era um fim em si mesmo, nos silêncios forçados e no não direito a qualquer reclamação face à figura de poder.
       Com alguma incredulidade nos olhos e nos comentários feitos, prosseguiu-se com a viagem no tempo.
   Top de preferências para jovens e mais crescidos foi sempre o conjunto de fotos, com a imagem de professores, pessoal administrativo e auxiliares de ação educativa, todos com menos quarenta anos. Ver alguns dos docentes ainda nos bancos de escola, procurar descobrir no passado traços de um presente que o tempo tem vindo a moldar de forma por vezes tão distinta; encontrar o habitual preto e branco (já amarelado e com sombras) das imagens, mais os recorrentes cavalinhos das festas e feiras, as roupas de cerimónia ou das festas de comunhão, os registos de rosto ou de corpo inteiro em poses tão estáticas e marcadas quanto os fotógrafos assim o ditavam são marcas já distantes para o ato festivo, quase singular do que era, nessa época, tirar uma foto. Hoje, no tempo das 'selfies' e do 'photoshop', parece que se está perante achados do século passado (e sem dúvida que o são), apesar de nem meio século distar do tempo retratado.

        ... o reconhecimento impõe-se, por toda a dedicação prestada e todo o trabalho concretizado. O espaço do palco e do antigo pavilhão gímnico foram animados, abertos ao público e a uma iniciativa que tem tudo para marcar a vida da escola ao longo dos próximos dias. A palavra de apreço pelo que foi feito e a quem tanto se empenhou na dinamização do evento é o mínimo que este registo pode e deve traduzir.