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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Conversas reais... destes tempos.

        Um cartoon com muito de verdade.

        São estes os tempos "modernos", com valores muito "seletivos" e poucos agradecimentos.


       Parece ser mais fácil e motivador reclamar. Agradecer, elogiar parecem verbos em desuso. Talvez a natureza conflituosa seja mais característica da nossa condição animal do que propriamente o reconhecimento das qualidades e do bem humanos, bem mais afetivo.

        Eu, porque não gosto de filas, vou continuar a agradecer (mesmo que, por vezes, sinta que devia ser também mais agradecido). 

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Publicação com mais de dez anos

     Retomo-a, por vezes, mas hoje revi-a no Facebook.

   Já lá vão mais de dez anos. No tempo, e em coautoria com quem também dava contributos significativos para a área da educação, esta publicação surgia como conjunto de sugestões orientado para o que eram as "aulas de substituição". Mais do que cem guiões destinados a dar algum sentido a uma dinâmica que também se podia cruzar com as áreas da Formação Cívica, do Estudo Acompanhado ou na complementaridade com atividades letivas.
     Lia-se, na "Introdução", que 

   "Desde o ano lectivo 2005-2006, o tempo escolar transformou-se num dos principais problemas que os professores têm de enfrentar. Todos passam entre 24 e 30 horas semanais na escola. Todos realizam actividades para as quais não tiveram condições de se preparar. Todos (ou quase todos) são obrigados a ocupar os alunos na ausência prevista ou imprevista de um professor. Mas não é só uma maior permanência forçada na escola. É também uma intensificação e complexificação desse tempo. Ser imprevistamente obrigado a ir dar uma aula de substituição a uma turma que não se conhece, de uma disciplina que não se domina; ou mesmo cumprir um plano de aula que um colega deixou no conselho executivo; ou ocupar um grupo mais ou menos numeroso de alunos em diferentes contextos são actividades de enorme pressão psicológica, de grande desgaste, nalguns casos até de grande sofrimento.
       O professor tende hoje a ser tratado como um faz-tudo, a ser obrigado a ensinar, a estimular e a socializar - ao fim e ao cabo as três funções verdadeiramente profissionais. Mas, para além da missão profissional, é empurrado para ser tomador de conta, guardador de crianças e jovens, para fazer o papel de auxiliar da acção educativa, de contínuo, de vigilante e de prefeito. Para fazer face a este problema plurifacetado, as escolas foram procurando e encontrando soluções diversas: a nível da organização escolar (estimulando e organizando permutas docentes dentro do mesmo conselho de turma, à semelhança do que sempre se fez no ensino profissional; distribuindo a turma por vários professores, que trabalham com pequenos grupos em diferentes locais ... ); a nível departamental (organizando um sistema de disponibilização de substituições entre os professores do mesmo departamento, disponibilizando baterias de fichas e actividades por níveis de ensino e por competências-chave); a nível individual (tendo sempre à mão vários planos de aula transversais, passíveis de serem executados em qualquer contexto educativo ).
       Mas qualquer que seja o esquema organizacional, é sempre necessário o recurso a conteúdos e estratégias com intuito pedagógico. A conteúdos que dêem sentido à acção que os alunos e os professores vão realizar. A conteúdos e actividades que possam interessar os alunos e que possam fazer deste difícil tempo de encontro forçado factor de satisfação comum. 
      E é neste contexto que surge este livro-ficheiro. Um banco de recursos da mais variada espécie e natureza, em suporte papel e em suporte digital, que será, estamos certos, um auxiliar valiosíssimo para todas as actividades de substituição.
      Acreditamos que esta publicação vai assim ao encontro de uma necessidade premente. E vai, com a inteligência e a sensibilidade dos professores, ser um instrumento ao serviço das aprendizagens dos alunos e da gratificação profissional.
      São estas as nossas convicções e os nossos votos."

     Trago o texto citado da obra em questão; trago a revisitação do Facebook e do blogue do Professor Matias Alves (um dos coautores) - Terrear.
      Pelo índice da publicação, há atividades para muitos gostos e múltiplas funcionalidades: treino da atenção, abordagem da escrita, escrita criativa, indução e gestão de conflitos, observação e visionamento, narração de histórias maravilhosas para encanto e aprendizagem. Assim se pensava e construía o trabalho para alunos do ensino básico e do secundário - cenários ensaiados, testados, implementados. Experiências práticas efetiva(da)s.
      Parece que querem usar a obra em Timor, aplicando algumas das sugestões / propostas.

    Muitas das ideias permanecem válidas, para uma publicação que, hoje, podia ser intitulada Aulas de implicação e construção de aprendizagens. Obra feita!

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

'Amor de Perdição' em versão muda

      Na procura de materiais que se cruzam com a educação literária.

    Abordar Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, em excertos e na escolha de capítulos avulsos é do pior que um programa de ensino possa propor. Ainda assim, permite uma liberdade (relativa) de ação, confinada apenas por uma gestão que se impõe na articulação / planificação de outros conteúdos.
    A noção da globalidade da intriga desta narrativa passional romântica pode ser conseguida através do visionamento de uma versão fílmica, entre as várias que a obra em particular já inspirou - a de 1943, de António Lopes Ribeiro, a preto e branco, ainda consegue provocar alguns (sor)risos à juventude. Depois virão os propósitos da escrita e do estilo, bem como o foco de análise no registo epistolográfico (citado e marcadamente deítico, nas condições do ato de escrita) que tão relevante se torna para a comunicação dos amantes.
    Foi precisamente na busca de uma dessas versões que me cruzei com um pequeno registo de cinema mudo. Não resisti a estes cerca de dois minutos e meio! Os efeitos expressivos, no mínimo, tornam o drama camiliano numa encenação cómica:

Excerto do programa "Os Anos de Ouro do Cinema Português" 
RTP2

   É verdade que o dramalhão romântico se ajusta a alguma comicidade para os espíritos leitores mais contemporâneos. Pode mesmo dizer-se que esta versão cinematográfica atinge o pleno, com a representação das personagens entre o fantasmagórico e o draconiano.
      Imagino o que seria a totalidade desta película.

     "Adeus! Amor de Perdição. Até à eternidade!"

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Vamos ao cartoon...

       Regressado ao trabalho, nada como levar isto com espírito cómico.

      Não se vai a lado nenhum. Apenas se vai tratar / abordar o cartoon enquanto género textual tão propício à crítica, à visão do mundo denunciadora de algumas fragilidades, ao trabalho de aspetos polémicos tão atuais quanto remotos - alguns dos quais com anacronismos evidentes.

Slide 1: Apresentação

Slide 2: Informação genérica (I)

Slide 3: Informação genérica (II)

Slide 4: Instruções de trabalho

Slide 5: Exemplos de dois cartoons

Slide 6: Construções de tópicos a partir das instruções de análise (I)

Slide 7: Construções de tópicos a partir das instruções de análise (II)

     Do grafismo icónico ao texto, planificam-se tópicos (com base na análise feita em interação) e, depois, há sempre a oportunidade de orientar para a produção escrita de apreciações críticas: um parágrafo para se descrever o que se observa objetivamente; outro para interpretar os dados descritos à luz da análise e da intencionalidade crítica; um final para uma tomada de posição apreciativa / depreciativa, fundamentada, face à construção do cartoon. Dado o esquema / plano textual, a partir daqui é só facultar o tempo de textualizar, de interagir pontualmente - atentando na mancha gráfica / no esquema textual, na extensão frásica (que não deverá estender-se por mais de duas linhas), na coesão interfrásica e na seleção / adequação vocabular. Isto para começar. Depois far-se-á o trabalho corretivo mais ao nível da microestrutura (da ortografia e da pontuação). Não se pode ter a pretensão de corrigir tudo de imediato.

        Passo a passo, vai-se construindo uma oficina de escrita, articulada com conteúdos de leitura (programaticamente contemplados na disciplina de Português).
        

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Maria Lionça na senda da ficção e da verdade

   A fronteira do fictício e do real é como a linha do horizonte: ilusão de ótica a todo o tempo renovada, procurando a terra da utopia.

   Tudo a propósito da poesia de Miguel Torga, ainda que Maria Lionça seja nome para uma personagem de um conto com título homónimo publicado em Contos da Montanha (1941). O próprio autor apresenta-a como criação, invenção, imaginação que se torna verdadeira. É como a obra do escritor: quanto mais ficcionada, criada ou mais imaginada, mais real.
     Como força materna, ela resulta numa espécie de caleidoscópio, nas múltiplas variações de luz que uma figura feminina é capaz de dar ao mundo. Neste sentido, Maria Lionça é universal(ista), fonte de energia, e (por isso) encontra-se na origem e nos ciclos renovados da vida. Fiando e tecendo, assim vai compondo a meia, com a linha ou o fio que, dedilhados, a mão já susteve entre a roca e o fuso, numa imagem de continuidade de vida.

Entrevista de Miguel Torga ("Viagem às Terras de Portugal" - Rede Manchete, 1987)

      Na vida literária, a obra também se compõe de energia, luta, força da palavra, da linguagem que traduz a própria criação e invenção. Assim a verdade interior do criador é partilhada com o seu leitor, tal como a mãe dá ao filho o que de melhor tem.
      No feminino da terra, na força telúrica que o poeta dá a ler, também se revela uma Maria Lionça. Mesmo o masculino a reflete, nomeadamente nesse negrilho plasmado em verso (não deixa de ser árvore de grande porte na expressão da criação poética). Qual Anteu, o poeta alimenta-se da força da terra e, dessa forma, dá voz à Poesia. Nesta apresentam-se marcadamente quatro linhas orientadoras: um desespero humanista, configurado no inconformismo, na luta e na revolta de um Orfeu Rebelde face ao(s) poder(es) que transcende(m) o Homem e o deixa(m) preso a uma realidade que não dá nem traz esperança, utopia ou felicidade; o telurismo como expressão da força e da energia que decorrem da vivência e da proximidade à terra; a problemática religiosa, na questionação de um Deus que, não sendo negado, é acusado de não ser humano nem próximo da racionalidade que o poeta quer sublinhada na vida humana;  o drama da criação poética, associado ao esforço, ao trabalho extenuante e contínuo dos que desejam a superação das limitações (nomeadamente os da escrita poética). 
      No cruzamento destas linhas temáticas cabe também falar de Pátria, de Nação, de Alma e Cultura de um povo - e aqui Maria Lionça também é traço de alma de um país e da sua cultura; de terra e de mar abertos ao mundo, na descoberta de caminhos que têm como destino último a Universalidade, esse princípio que nos aproxima de todos os outros, na busca infindável do que nos leva à felicidade, à utopia.
      No reconhecimento do poeta, sigam-se-lhe os trilhos da terra:

Documentário televisivo (Porto Canal) sobre o escritor Miguel Torga
      
     Nas quelhas da vida, também composta de múltiplas ruas, há caminhos a descobrir para lá da aparência e da superficialidade. É na busca do que há de mais profundo, e verdadeiro, que a aproximação ao ideal se constrói. Com esforço e com trabalho.

segunda-feira, 19 de março de 2018

Viajando... de comboio?

     Não é a propósito desta carruagem, nem tão pouco de nenhum comboio. Nela, contudo, fica sem que nele se viaje... porque de tempo (acima de tudo) se trata.

     Em torno de uma narrativa epónima (de um nome apenas para três personagens, feitas de uma só), compõe-se uma viagem no tempo.
    Assim se lê "George", esse conto de Maria Judite de Carvalho que configura as três idades de uma mulher, surgida como adulta aos olhos do leitor, no início e no final da narrativa. É este o ponto de partida (e será o de chegada) para alguém que, regressando à sua aldeia de infância, se reencontra com Gi (George na sua juventude, próxima dos vinte anos). Não se trata de relembrar ou recordar o bem passado; antes um tempo que George quer ver apagado, para que não se sinta presa / condicionada (tudo o que a quarentona de sucesso parece não querer).
      O passado esfumado, qual memória que se vai esgotando, é tempo recuado em mais de vinte anos; é rosto fixado num retrato de uma mala qualquer. É uma jovem que podia ser uma filha da protagonista; porém, surge como esboço, como figura de alguém com disposição para a partida - alguém que levará uma mala velha, de cabedal, para sair do "cu de Judas" (onde fica Carlos, que, ao contrário dela, se deixa prender). A reconstrução da memória é como uma pintura: inicialmente, apenas um rosto vago sem contornos, com o sorriso dos dezoito anos (bem distinto do de Georgina); depois, um reencontro, espelhando e  revendo o que não se quer presentificado.
      O presente é o instante do regresso à vila, para vender uma casa (para que nada prenda a um tempo ou a um espaço), pois George é mulher que não se quer ver agarrada a nada (a não ser, talvez, ao "último dos seus amores"). É o momento da consciência do duplo (ou do múltiplo) e de um percurso de errância, sempre na predisposição de partir, de viajar - até porque a vida é feita de constantes partidas / viagens / percursos. É ainda o tempo de despedida do passado e de uma viagem de comboio, qual metáfora da passagem do tempo. É o agora de uma vivência que se faz em Amesterdão, com um trabalho que agrada e faz da adulta George uma pintora bem sucedida, que adora viajar; que prefere os pensamentos agradáveis (feitos de um gosto materialista e de uma propensão para um controlo do tipo quem tudo pode e tudo quer - porque tudo tem).
       O futuro é encarado no momento em que vai o "comboio a fugir de dantes". Aparece, então, um novo esboço, o de Georgina, uma idosa que se sente só (por causa desse "crime" da velhice), com necessidade de retratos (o da menininha que foi Gi, saída da vila com uma foto no fundo da mala). Vê pior, as mãos enrugadas tremem (nada pior para quem foi uma conceituada pintora) e o "mundo já não lhe pertence", aos setenta anos.
     20, 45, 70 anos - a passagem do sorriso do dia para o da noite. O 'eu' no reencontro, na descentração, com o outro 'eu' (o de outros tempos, sejam passados sejam futuros). Nenhum deles George quer. Só o presente, o instante, o momento que controla, à mesma lógica das emoções que são contidas ("uma simples lágrima no olho direito, o outro, que esquisito, sempre se recusa a chorar. É como se se negasse a compartilhar os seus problemas, não e não" / "Não tive desgosto nenhum, nenhum. Um encontro, um simples encontro...").

       A pretensa liberdade do 'eu'. A adulta que tudo julga controlar (inclusive o tempo). A pintora que expõe, que tem sucesso e acredita poder "fechar os olhos" a tudo o que lhe desagrada. Acredita que a mala cara, leve, de rodinhas não dará lugar a uma "carteira preta, cara, talvez italiana, italiana, sim". Porém, "tudo passa", por mais que a antecipação disso incomode George - título narrativo para um presente que dura (só até chegar o futuro).
      

sexta-feira, 16 de março de 2018

De George a Modigliani, com Souza-Cardoso e Laranjeira pelo meio

     Quando de "George" (que também foi Gi e será Georgina) se passa a Modigliani, a Literatura rima com Pintura.

      É nesta expressão interartística que o conto de Maria Judite de Carvalho se afirma, na expressão e na reflexão sobre a vida e os seus diferentes ciclos (nomeadamente, 'as três idades' da Humanidade).
    Ao escultor e pintor italiano (1884-1920), contemporâneo de nomes como Picasso, Amadeu Souza-Cardoso - e, inclusivamente, Manuel Laranjeira -, associam-se, por norma, os quadros de nus femininos com poses estilizadas, pintadas de sensualidade e mistério, além de demonstrativas de pescoços alongados a sustentar rostos tomados pelo respeito, pela serenidade e pela naturalidade figurativa, em associação a uma estética de declarada vanguarda.

Exibição de quadros de Modigliani (1884-1920)

    No seu percurso plástico, são notórias as influências de Cézanne, Renoir, Matisse, Tolouse-Lautrec, Picasso (seu grande rival) e Edvard Munch, além das estéticas do expressionismo e do simbolismo, combinadas na construção de um estilo pessoal que o fez retratar não só conhecidos, amigos mas também anónimos.
     O retrato do artista foi já cinematograficamente pintado (Modigliani - A Paixão Pela Vida, dirigido por Mick Davis) em 2004, numa soberba interpretação de Andy Garcia e na recriação do que seja a alienação face à vida - eventualmente a mais feminina das seduções e paixões do Homem:

Trailer do filme de Mick Davis (2004) sobre a biografia de Modigliani

    A centralidade feminina de Amedeo Mondigliani é revista no mencionado conto de Maria Judite de Carvalho, além dessa construção feita de inconsciente ou subconsciente próprios da deambulação reflexiva, psicológica, mental acerca do que é a vida. O artista italiano explicitou-o quando assumiu que “Aquilo que procuro não é o real nem o irreal, e sim o inconsciente, o mistério do que há de instintivo na raça humana". Conhecido o destino dentro de um sonho, as palavras do pintor assemelham-se às de George, "pintora já com nome nos marchands das grandes cidades da Europa", que prefere a despedida e o esquecimento do passado, para que o presente não fique preso à memória nem à consciência do porvir (por mais imaginativo que seja). Na tela que a memória e a imaginação também são, há traços, contornos, esfumados, imagens de vida. Por isso...

Maria Judite de Carvalho (1921-1998)
      "George fecha os olhos com força e deixa-se embalar por pensamentos mais agradáveis, bem-vindos: a exposição que vai fazer, aquele quadro que vendeu muito bem o mês passado, a próxima viagem aos Estados Unidos, o dinheiro que pôs no banco. O dinheiro no banco, nos bancos, é uma das suas últimas paixões. Ela pensa - sabe? - que com dinheiro ninguém está totalmente só, ninguém é totalmente abandonado. A velha Georgina já o deve ter esquecido."

      É nesta errância e neste son(h)o de George que o estado adulto vive, sem a velhice próxima, porque desta ainda está ("durante quanto tempo?") George livre.

      Na errância de ir mais além e no son(h)o da liberdade vai a Humanidade fazendo caminho, na certeza de um amanhã sempre sujeito a confirmação.

segunda-feira, 12 de março de 2018

Gi-George-Georgina

    Afinal, (também) Maria Judite de Carvalho.

    Na sequência da abordagem do conto "George", nada como apresentar a autora da narrativa, a partir de um pequeno documentário sobre a vida e obra daquela que, na escrita literária, se (re)viu mulher em diferentes idades e se compôs na solidão.

Documentário da RTPN (2011)

    Um visionamento que prossegue o tratamento de um pequeno texto informativo (para deteção de linhas temáticas, marcas de construção narrativa e registos de inspiração biográfica) e incide sobre uma pré-tarefa a dar continuidade / complemento à recolha de dados relativos ao trabalho anterior.
     Dos muitos dados contemplados, sublinham-se os seguintes:
"As Três Idades do Homem e Três Graças", 
de Hans Baldung Grien, 1539 (Museu do Prado)
a) consciência em movimento (interior da alma) de personagens, dimensionada no âmbito do psicológico;
b) vertente realista de retrato de uma sociedade frustrada, oprimida, isolada, marginal;
c) consciência da velhice e dos idosos (que todos seremos) no ciclo da vida;
d) técnica do monólogo interior (na expressão de uma consciência partilhada do pensamento);
e) exigência da colaboração do leitor (corresponsável na construção de imagens narrativas, por exemplo, a do espelho, no caso de 'George');
f) vivência no estrangeiro (França, Bélgica), tal como George (em Amesterdão);
g) crença mais no talento de pintora (tal como George) do que no de escritora.

      Vamos, então, a "George" (que já foi Gi e será Georgina), narrativa epónima marcada por essa consciencialização do encontro do 'eu' consigo mesmo, pela representação do que foi e do que será, numa espécie de despersonalização, distanciamento, descentração para se poder ver na memória, ao espelho ou n(um)a bola de cristal.

     Uma narrativa tão reflexiva e deambulante quanto o que Bernardo Soares fez com Pessoa (ou o último no primeiro). Porque a consciência da vida é feita de procura, numa viagem que nos faz estar atentos ao que há à volta de todos nós e que nos leva a revermos o percurso já feito e/ou a prevermos o que estará para além de nós a cada instante.

sábado, 3 de março de 2018

"Sempre é uma companhia"

      Citando o título de um conto de Manuel da Fonseca, publicado em O Fogo e as Cinzas (1951) ou o discurso de uma personagem.

      Em qualquer uma das circunstâncias, a referência à telefonia é um dado, para além da pressuposta inexistência dela à data do seu aparecimento. Centra-se neste facto narrativo o núcleo de uma intriga que, uma vez lida no conto mencionado, sempre me fez lembrar um episódio do filme 'O Costa do Castelo' (1943), dirigido por Arthur Duarte. A velhinha película a preto e branco traz, em registo cómico, o que oito anos depois o conto sugere, num contexto mais marcado pela visão neorealista e pelo retrato de uma ambiência de desesperança a evoluir para a expectativa da mudança e para a construção da esperança possível.
  Nesta exploração interartística (cinema e literatura), há coincidências a rever, paralelismos a construir, referências culturais a traduzir para qualquer momento que se reveja como crítico face à ausência de sinais de alegria ou de felicidade no seio dos homens.
       Assim, (re)vê-se o segmento fílmico, tomando como pré-tarefa do visionamento a construção de aproximações entre o conto e o que a tela / monitor dão a perceber:

Excerto fílmico de 'O Costa do Castelo' (versão de 1943)

        Entre os tópicos possíveis de abordagem / aproximação, registam-se os seguintes:

      a) centralidade da telefonia na alteração de comportamento das personagens (a partir do jantar de aniversário familiar a dar lugar ao baile / animação / prazer);
    b) o portador da telefonia como introdutor do fator de mudança (apologista da mudança e da tecnologia), num contacto com o mundo e na sugestão da música como fuga harmoniosa para uma realidade alternativa ao vivido;
     c) o ato explicativo associado ao funcionamento do aparelho;
    d) um contexto persecutório (associado à personagem do jovem masculino) numa aproximação, ainda que por razões diferenciadas, ao contexto de produção de O Fogo e as Cinzas (a fuga de alguém a um controlo equiparável à ditadura de Salazar, tal como no ambiente de desfavorecidos tomados pela desesperança, a dar lugar a uma esperança possível);
    e) a data da realização fílmica e a da publicação de O Fogo e as Cinzas (onde se insere "Sempre é uma companhia") compreendidas numa época associada à ditadura e ao controlo despótico de Salazar;
     f) a leitura sociopolítica do excerto fílmico equiparada à abordagem sociopolítica de uma narrativa neorrealista (com foco na questão social, na procura de uma saída feliz para uma realidade adversa).

        Mais haverá por certo, numa sugestão convocada por sinais que um tempo propõe à luz do que um par de obras dispõe e o leitor / espectador (re)compõe.

     Um caso de como as memórias do passado (vivido) se redefinem a cada momento que a motivação (da leitura e das aulas associadas) se impõe.
    

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Ainda o desassossego

      Desta vez, fico-me pelo Livro do Desassossego (que já teve versão fílmica).

    Trabalhados alguns fragmentos, fica a sensação de um Bernardo Soares que ecoa o ortónimo, bem como os heterónimos, num registo prosaico feito da poesia e do pensamento plasmados em alguns versos familiares aos olhos dos leitores pessoanos.
     Na proximidade com o criador, Bernardo Soares é um semi-heterónimo (no seio de outros dois) que muito contribuiu para a dimensão reflexiva da obra completa do criador poético; um prosador que observa e transfigura a cidade, os ambientes, o quotidiano à semelhança de Cesário; que trabalha e reflete sobre a língua (pois gosta de "palavrar"); que explora o sonho como libertação do sono da vida (ou da "salada coletiva da vida").
     É na dualidade de um Pessoa-Soares ou de um Fernando-Bernardo que o ser-sombra se compõe, como se pode depreender do documentário seguinte (a abordar um livro, que é simultaneamente vida, de desassossego):

Documentário com montagem a partir da série televisiva "Grandes Livros" (RTP-1)

     Mais do que um Vicente Guedes (aristocrata falido que ganha a vida como empregado de escritório) ou o Barão de Teive (com morte anunciada, e que decide escrever antes de se matar), Bernardo Soares é o pensador moderno na reflexão sobre o abismo da alma humana, reportando uma vivência de angústia, numa sociedade feita de desalento e numa época tão crítica quanto criativa. Nesta, a alma do escritor é "uma orquestra oculta", sem saber "que instrumentos tange e range, cordas e harpas, tímbales e tambores"; só se conhece como sinfonia e vê a infância como saudade da emoção desse momento de "grande certeza sinfónica".

       Sem sentimento político ou social, Bernardo Soares assume-se pelo alto sentido patriótico: a sua pátria é a língua portuguesa.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Quase a terminar janeiro e...

      ... vem aí mais do mesmo.

      Quem construiu o programa de 12º ano da disciplina de Português, de facto, ou gosta muito de Pessoa ou contribui definitivamente para alguma saturação: ele é ortónimo - nas construções poéticas curtas e na obra Mensagem -, mais heterónimos; junta-se o semi-heterónimo Bernardo Soares e, para fechar, volta-se, com Saramago, a um universo pessoano com O Ano da Morte do Ricardo Reis. Faltou algum doseamento, num indisfarçável propósito de ver em Pessoa toda uma literatura, porque ele é todo um conjunto de poetas em verso, contista e prosador exímio, dramaturgo de uma peça ou cena com faces / máscaras / caracterizações "em gente".
        A riqueza e diversidade do poeta modernista são enormes, por certo. Falta saber se a adesão à multifacetada obra se consegue com a insistência na leitura de tanto verso, pensamento e (re)construído, criativo universo. Por mais que a multiplicidade se verifique, não deixa de comparecer a unidade: a de um criador que ecoa nas suas criações ou a da convergência de sensibilidades várias e aglutinad(or)as no escrito. É um Pessoa que se exprime, por fingimento artístico, através de várias pessoas e estéticas ou estilos diversos, numa representação feita em um só palco, mas com a fragmentação do ser própria do artista que se confronta com múltiplas verdades.

       Um Fernando Pessoa(s) acompanha os nossos dias, até não sei quando, à espera de uma linha de fronteira que se esbata no jogo do real ficcionado ou da ficção que tem muito de real concentrado num romance.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Conta-me histórias

     Em registo um tanto anacrónico, fez-se a aproximação à Crónica de D. João I.

    Em termos de contexto epocal, falar da crise de 1383-85 e da batalha de Aljubarrota é ponto essencial quando se aborda uma das crónicas de Fernão Lopes: a Crónica de D. João I. Esta obra quatrocentista propõe uma versão legitimadora da ascensão do Mestre de Avis ao trono (após a morte do rei D. Fernando), numa visão parcial dos factos e das personalidades (entre a heroicização de um bastardo e a diabolização de uma rainha-regente e de um amante que estão mais para uma facção indesejada: a que apoia a causa castelhana e a perda da independência nacional).
      "Conta-me Histórias" trata desta questão / época de uma forma ora cómica ora demonstrativa do que foi um período histórico crítico de Portugal:

Excerto do programa televisivo da RTP1: "Conta-me Histórias"

     Num diálogo entre Luís Filipe Borges e Fernando Casqueira, em pouco mais de meia hora, fica a saber-se o que marcou o final do século XIV na História de Portugal, objeto da narrativa lopiana.

     Um exemplo que procura trazer o passado a uns olhos e ouvidos do presente, para que dele façam memória futura.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Para ver e ouvir... Caeiro.

     Depois de tanto procurar, encontra-se o que não se quer e o que não podia ser melhor.

    Procurando Caeiro, circulam pelas redes sociais e no mundo virtual materiais que tanto têm de bom como de péssimo. Já nem falo da ridícula questão de se assumir que Caeiro é um pastor ou camponês, quando se deve tomá-lo como bucólico e pensador, por mais que este, por princípio, procure recusar o pensamento abstrato (por isso, a todo o momento concretizado).
     Pior ainda é dizer-se (e fazer-se ouvir) que recusa a metáfora. Se estivesse numa realização cinematográfica, diria "Corta!", para lembrar que "O rebanho é os meus pensamentos" (in poema IX de "O Guardador de Rebanhos"), afinal, o que o torna um guardador de rebanhos (diga-se, pensador) ou alguém que tem a alma como a de um pastor (também eu, por vezes, tenho a alma como a de um santo, ainda que, realmente, esteja mais para pecador ou para diabo - isto de ser como ou ter como não é o mesmo que ser ou ter, por certo).
    No fundo, mais metáfora não existe do que aquela que faz de Caeiro o mestre, o pensador, o centro da criação pessoana que, quando surge, é encarado como o resultado de um "dia triunfal" (segundo carta de Pessoa a Adolfo Casais Monteiro).
      Mais: afirmar que Caeiro não recorre ao adjetivo é não o ler, em toda uma produção literária que sublinha que "O que é preciso é ser-se natural e calmo" ou que "o poente é belo e é bela a noite" (in poema XXI de "O Guardador de Rebanhos"); que "Sou diferente" (in "Dizes-me: tu és mais alguma cousa" de "Poemas Inconjuntos"); que "fecho os olhos quentes" e que "Sei a verdade e sou feliz" (in poema IX de "O Guardador de Rebanhos"); que "Aquela senhora tem um piano / Que é agradável..." (in poema XI de "O Guardador de Rebanhos") - alguns versos apenas do heterónimo para contraditar o que nunca deveria ser dito / ouvido. Assim se revê a verdade de tanto material educativo, validado por tanto saber superior que a todo o momento cai. E bastava tão somente falar em "O Pastor amoroso" para duvidar da grande verdade! Quase apetece fazer uma tese com uma tipologia dos adjetivos a que Caeiro recorre, para sustentar, ainda mais, o que já aqui se assume nos sublinhados.
     E, assim, cresce o pecador e o criminoso que há em mim: cortando o inútil e combinando o válido com o que é bem feito, chega-se a algo que pode ser visto e ouvido para conhecer melhor. Um material novo, a partir do já feito e que, a bem da verdade literária, tinha de ser expurgado do que não interessa para ninguém.
    Como o objetivo não é obter lucro nem comercializar, fica um material para futuro (acompanhado de uma ficha de trabalho / um teste a propósito), sempre que Caeiro for para ensinar:

Composição de materiais relativos ao estudo de Caeiro, o Mestre pessoano 

     Imagens, pinturas, vídeos, versos, declamação (muito interessante de Pedro Lamares) - uma multiplicidade de suportes para fazer ver e ouvir o Mestre, que tanto adjetiva como metaforiza nessa intermediação que a língua (faz) representa(r) com o pensamento e com a realidade, por mais ou menos literário (ou poético) que seja.

     E tudo isto é Caeiro na suposta simplicidade que o caracteriza, num tempo-natureza a todo o instante novo por mais cíclico e repetitivo que possa revelar-se.
     

terça-feira, 1 de novembro de 2016

"Enterrar os mortos e cuidar dos vivos"

      Citando as palavras do Marquês do Pombal, cumprem-se os tempos.

   O sentido pragmático associado à produção do enunciado setecentista justificava-se pela emergência de medidas a tomar / aplicar, para dar resposta a uma hecatombe que a História faz lembrar e o feriado evoca.
   Passados mais de 250 anos, o Terramoto de 1755 parece um filme trágico, de que alguns documentários mostram evidências relativas ao que ninguém, por certo, gostaria de reviver:

Montagem de dois documentários televisivos (Canal 'Odisseia' e 'História') 
alusivos à efeméride histórica do Terramoto de 1755 (Lisboa)

     A sequência do terramoto-maremoto-incêndio foi demasiado dantesca para uma capital europeia e orgulhosa de sinais de protagonismo vivenciado desde os tempos dos Descobrimentos até à magnanimidade áurea de D. João V e do seu sucessor D. José I. O colapso deu-se e só não foi maior pela presença estadista - ainda que autocrática, despótica - de Sebastião José de Carvalho e Melo, que fez reconstruir a baixa lisboeta à luz do espírito racionalista do tempo. Da ira de Deus à catástrofe natural foi um longo caminho para uma argumentação que hodiernamente tem nesta última o motivo credível e a todo o tempo repetível.
      Em pleno século XXI, a lembrança dos mortos é mais afetiva e próxima de cada um do que da necessidade e do pragmatismo que se impunham ao bem (sanitário) de todos em meados do século XVIII. Cuidar dos vivos mantém-se um imperativo que, atualmente, outras tragédias fazem (re)viver - mais parecendo que, por vezes, se quer enterrar os vivos.

       Um dia para lembrar pelo que foi e pelo que é - até porque há tsunamis na vida que estão bem mais para cá e para lá de Lisboa ou dos tempos (já) vividos.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Prenda de Natal, em poema declamado

    Pediram-me um filme. Dei-lhes poesia em vídeo.

    No final de um período de aulas, antes da última aula e porque estamos a trabalhar Alberto Caeiro, repeti a experiência da partilha do poema VIII de 'O Guardador de Rebanhos' - uma visão do Natal; para mim, do poema mais bonito de Natal:

Declamação do Poema VIII de 'O Guardador de Rebanhos' (Alberto Caeiro), pelo ator Pedro Lamares,
no 'Porto de Encontro', pelos 125 anos do nascimento de Pessoa 
(30 junho de 2013, na Biblioteca Municipal Almeida Garrett)

    Ouviram a declamação, escolheram versos, justificaram-se na escola e disseram se gostaram ou não do poema (porque esta  possibilidade também existe e é bom que surja, desde que fundamentada).
    Foram tantos os versos escolhidos! Alguns comuns; outros singulares. Os motivos da seleção foram tão variados quanto a razão do insólito, da estranheza, da diferença, para uns; da desconstrução dos rituais e dos dogmas para outros; do choque e da falta de decoro, para outros alguns. Tal como se ouve no vídeo, há quem fique chocado; há quem ache lindo.

     A experiência aconteceu. Fico feliz por já não ser possível dizer que os meus alunos desconhecem a existência do "Poema do Menino Jesus" - numa fé e numa religião tão próximas de cada um de nós, tão dessacralizadas que fazem acreditar num menino Jesus de carne e osso, menos boneco, mais real e natural.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Em tempo de "Folhas Caídas"

      É verdade que estamos em pleno outono...

    A polissemia da expressão "Folhas Caídas" pode ser explorada na evocação desta estação; na desorganização de registos em papéis dispersos (espalhados pelo chão); na metáfora e no anúncio do ciclo final de uma vida. De tudo isto se compõe o título da coletânea poética de Almeida Garrett, enquanto obra associada à expressão outoniça, serôdia do sentimento e vivência românticos.

Uma outra forma de ler Folhas Caídas, de Garrett, segundo a (cerc)ARTE

     Perante um "Ignoto Deo" (poema de abertura) a funcionar como prólogo de toda a compilação, prenuncia-se a temática de uma idealidade, de um misticismo e um pendor religioso a todo o tempo pautados pela referência a termos maiusculizados (Deus, Nada, Beleza, Verdade, Essência, Existência > Ignoto Deo), sugerindo a dimensão abstrata, ideal, perfeita. 
    Contrariamente a esta linha, há que considerar a menção à beleza, ao amor e ao prazer (minúsculos e com a adjetivação "real beleza", "puro amor"), a par da referência a um ser marcado por um "espírito agitado", que "Só vive do eterno ardor", a "olho nu", a enganar e a errar. Estes são conceitos-chave para traduzir uma experiência relacional do 'eu' com um 'tu', em tudo semelhante à vivência homem-mulher. Assim, a noção de um amor eterno, moral e idealmente equacionado dá lugar a uma realidade e experiência mais terrenas do que celestiais, naquilo que se resume como uma "combatida / Existência".
    Em síntese, encontra-se aqui a trajetória, o percurso do herói romântico: dramaticamente dilacerado pelos conflitos e pelas oposições entre o céu / a terra, a idealização / a realidade, o tu / o eu, o encontro / a despedida. Ao encontrar um amor, o sujeito romântico vivencia e alimenta a instabilidade, o desequilíbrio que colocam o sentimento na iminência de uma despedida ("Adeus"). Esta é a ironia romântica revista em poemas construídos com a narratividade própria de um "eu" que experiencia situações e sentimentos feitos de estados antitéticos (sonho / ausência de amor; realidade / presença do amor, acompanhados de dor). Leia-se "Quando eu sonhava", "Aquela noite" e "Anjo Caído" - três poemas feitos de uma narratividade que mostra o sujeito poético nessa condição conflituante.
    Surge, então, o ciclo dramático de toda uma sequência de outras composições líricas que sublinham a contínua inquietação do "eu", a mover-se no terreno da contradição, da tensão e da constante procura. E porque no percurso feito há perigo e sedução, fica essa nota com o poema e a canção:


     BARCA BELA

Pescador da barca bela, 
Onde vás pescar com ela? 
      Que é tão bela, 
      Ó pescador!

Não vês que a última estrela 
No céu nublado se vela? 
      Colhe a vela, 
      Ó pescador! 

Deita o lanço com cautela, 
Que a sereia canta bela... 
      Mas cautela, 
      Ó pescador! 

Não se enrede a rede nela, 
Que perdido é remo e vela, 
      Só de vê-la, 
      Ó pescador!

Pescador da barca bela, 
Inda é tempo, foge dela 
      Foge dela 
      Ó pescador!

      Depois da composição romântica, a evocação da memória e da experiência de leitura com as cantigas de amigo é inevitável, numa aproximação ao cenário das barcarolas ou marinhas, à estrutura de refrão e ao gosto romântico pelo imaginário medieval.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Do filme ao livro - à procura de um tesouro

     Há cerca de dois anos foi-me dado a conhecer o trabalho de uma aluna de 8º ano - um tesouro.

    A propósito do lançamento do livro O Tesouro, a autora Maria Clara Miguel foi recebida na Escola Secundária Garcia da Orta (Porto) e brindada com o seguinte trailer:


     A aluna responsável pelo trabalho (Sofia Cunha) divulgava assim, com primor, a aventura que Joana, Pedro e Afonso viviam nas cerca de cem páginas feitas de enigmas, mistério e ação. Conta a autora que, depois da apresentação feita, deu os parabéns à jovem aluna e lhe formulou agradecidamente todo o apreço sentido: ficava à espera do filme. Não é nada difícil perceber-se estas palavras.
     Na contracapa da obra, lê-se:

     "Algures no Norte do país, 
num solar, há uma estante proibida muito bem guardada. Numa manhã de agosto, desaparece um livro que esconde uma mensagem e dá-se, assim, início a uma caça ao tesouro! Conseguirão Joana, Pedro e Afonso 'ser inteligentes e acreditar', descobrindo, desse modo, o mistério?"


     No encalço de pistas muito enigmáticas, no (re)encontro com referências de muitos outros livros e textos da memória coletiva de muitos leitores, na crença de que se está prestes a chegar ao desenlace e à revelação, há um tesouro no final da narrativa. 
       O título não engana nem desilude ninguém. O livro recomenda-se.

      E mais não digo, porque há por aí uns jovens a ler / ouvir a história. No final, ficarão por certo mais ricos. Eu fiquei (apesar de não ser tão jovem quanto eles), tanto pelo que li como pela edição original que (junto com mais alguns poucos amigos) recebi.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Simplesmente a verdade (que nada tem de simples)

    Vem este apontamento a propósito da aula de Literatura Portuguesa de hoje.

   No contexto da leitura da obra de Fernão Lopes, tem sido este escritor objeto de algumas referências nas minhas aulas, pelos seus aspetos biográficos, bibliográficos e estilísticos, para além de uma ou outra relação com outros dominios da saber e outras formas de expressão artística.
    Com o documentário "Fernão Lopes, simplesmente a verdade", do programa "A Alma e a Gente" (da autoria do Professor José Hermano Saraiva), tiveram os alunos de anotar elementos respeitantes aos seguintes tópicos: biografia; obras do cronista em geral; Crónica de Dom João I em particular.

Montagem de imagens alusivas ao escritor Fernão Lopes

     A lição do professor foi visionada e escutada no jeito comunicativo e expressivo com que habituou o auditório dos seus programas televisivos. No fundo, pôde ser experienciada uma exposição com "o sangue da paixão humana", palavras que o estudioso usou para caracterizar o estilo do próprio cronista quatrocentista.
    O documentário consiste numa explanação dos pressupostos histórico-bi(bli)ográficos do autor medieval, bem como de alguns episódios / capítulos que podem ser lidos na já mencionada crónica. É ainda, segundo sugestão do título proposto, uma apresentação coincidente com o propósito prioritário da verdade (tão caro a Fernão Lopes, a ponto de registar no "Prólogo" que "nosso desejo foi em esta obra escrever verdade, sem outra mistura, deixando nos bons aquecimentos todo fingido louvor, e nuamente mostrar ao povo, quaisquer contrárias cousas, da guisa que avieram").
    Num discurso acessível, de vivacidade sugestiva e empenhada numa aproximação do professor ao telespectador, revê-se também o texto lopiano pautado por marcas de uma oralidade comprometida com um leitor-ouvinte e os efeitos oratórios necessários à historiografia e à divulgação de feitos e heróis nacionais da fase final da Idade Média.

     Na próxima aula, ver-se-á o resultado da atividade, nos discursos de um minuto que vão ter de produzir a partir da tomada de notas.

sábado, 28 de dezembro de 2013

Vontade de ser zambeziano

      Estreou quase há um ano, mas só hoje o vi. Mais vale tarde do que nunca.

     Trata-se do filme animado Zambézia, realizado por Wayne Thornley - uma história que tem tanto para crianças como para adultos, pelas aprendizagens e pela moralidade destacadas.


      A intriga foca o percurso de vida de Kai, um jovem falcão que sai do Catungo, onde viveu apenas com o pai (Bravo), antigo protetor e fundador dos furacões que patrulham os céus da Zambézia. Um desastre no passado, que quer esquecido, leva este último a preservar-se e a livrar o filho dos perigos que persistem para lá da fronteira que agora vigia. Chega, porém, a hora em que o jovem afirma a sua vontade e o seu espírito livre, acabando por migrar para aquele que é apresentado como o lugar mais seguro de toda a África - no reino de Madagáscar, junto a uma velha árvore que se impõe no limite da terra e no início das quedas de água.
      Mais do que Kai (o Raio Azul), que arrisca nos voos e se aventura na vida para se tornar um furacão, toda uma comunidade de aves se afirma na história, numa mensagem capaz de mostrar que há bem mais no que a aproxima do que naquilo que a separa. Inclusive para os heróis voadores vale esta lição, ao rever(ter)-se um passado que excluiu da cidade a espécie dos Marabus (por preconceito face à aparência diferente, à rudeza e à impetuosidade). Por esta razão, momentaneamente estes últimos aliaram-se ao mal, tentados que foram para um poder assente no engano, na sevícia e na traição; também eles acabam por, a tempo, reconhecer as suas fragilidades: desfazem o prejuízo provocado com a aliança feita com o vilão e juntam-se aos restantes pássaros na luta contra o mal.
    Constantemente se sublinha a ideia de que em conjunto tudo é mais fácil, numa reação clara aos individualismos que possam surgir. O coletivo sai sempre vencedor, mesmo nas situações de maior perigo, como a que é protagonizada pelo lagarto Brutus, o invasor da cidade das aves, na ânsia de controlar a cidade e encontrar a maior omoleta para a sua gula de poder.
       Não houvesse já aqui razões para se ver esta película, acresce ainda o facto de na tradução e versão portuguesas se encontrar um outro ponto de interesse: linguisticamente, está explorada a variação nas vozes de várias espécies de aves. Do português africano de Nonô, da variedade alentejana dos Marabus ou de Canja, da pronúncia nortenha do chefe dos furacões até à gíria estudantil de Canja ou o registo afetado das passaruchas (que não gostam de passarecos, só de passarões), há toda uma riqueza e versatilidade da língua motivadas para os diálogos das aves mencionadas.

       Um filme a não perder, para trabalhar com os alunos seja pela moralidade seja pelo material com valor linguístico (pela variação), que a versão portuguesa consegue motivada e sugestivamente explorar.