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quinta-feira, 7 de março de 2019

O empréstimo e o imposto (ou vice-versa)

      Assim que revejo a minissérie Os Maias, de João Botelho (2014), lembro o presente.

     Talvez fosse de lembrar o passado. Porém, este tem características tão comuns com o presente que das duas uma: ou Eça era um visionário (antecipando no século XIX os vindouros) ou a realidade atual não consegue escapar ao que o outrora já ditou. E um pouco das duas também não é hipótese a descurar:

Excerto do 'Hotel Central' na minissérie Os Maias
de João Botelho (2014)

     Entre o empréstimo e o imposto se constrói a conversa ficcionada do Hotel Central, onde Cohen (político) é um dos mascarados e ridicularizados queirosianos; entre um e outro tem ainda e factualmente vivido muito português (se não for de dizer todo um país). Talvez desde sempre e por certo a continuar. É o que se me afigura pensar quando ouço um ministro dizer que o empréstimo feito por um banco da nossa praça não será pago com um cêntimo dos contribuintes; que serão os juros e dividendos da banca a fazê-lo daqui a trinta anos, também graças a um fundo de resolução bancária que mais parece um remédio milagreiro capaz de multiplicar milhões.
    Não sei se cá estarei para o ver nessa altura, mas creio que, muito antes, haverá um novo imposto ou uma outra forma sinónima de "contribuir" para este empréstimo bancário. Não dá para acreditar nas certezas ou afirmações de alguns governantes, quando o (des)governo se evidencia, por exemplo, no apagamento de tempo na carreira de profissionais (refiro-me, claro, a nove anos, quatro meses e dois dias - no mínimo; ao tempo de serviço docente que, por ter existido, não se quer ver como tal, a pretexto de uma dádiva de dois anos, nove meses e dezoito dias ou sob o argumento de que outros congelaram o que, agora, os "benfeitores" repõem, em versão compacta).
     O descrédito na palavra e nos atos é uma evidência presente, quanto mais no que venha a suceder daqui a três décadas (talvez não pelos mesmos, mas por outros afins na cor política ou na falta da verdade que, manifesta e retoricamente, é manipulada em detrimento de quem efetivamente trabalha e se vê espoliado de um tempo trabalhado, pago, descontado e que parece ser tratado como se virtual ou ficcionado fosse). 

     Triste de um país que se vê (des)governado assim - não há seguramente crédito no que se diz nem no que se faz (fez e se fará).

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Tudo uma questão de muros

     Anda tanta gente a falar do muro do Trump (eu também já falei, escrevi...)

     E, pelos vistos, continuo.
   Desta feita, apetece-me dizer que não percebo quem tanto critica a questão. Eu sou a favor do muro:

Foto colhida do Facebook: 'O muro do Trump'

    Pronto, eu sei. Não é o muro que Trump quer como fronteira dos Estados Unidos da América. Contudo, é o muro do Trump.
     Até acho que andam por aí uns políticos (?!) que precisam de ser emparedados, murados, para que ganhem, talvez, uma visão maior das coisas. Pensam apenas em preto e branco, como se na vida não houvesse cinzentos (e não falo do cinzentismo estagnador e de paz podre) em diferentes graus e tonalidades. 
    Só porque se é preto, o branco não serve. Se é branco, não pode conceder ao que de bom o preto dá. Lamentável!

    Quando há questões estruturantes e estruturadoras para o bem comum, a política (a boa política) devia impor-se. Soubessem isto alguns políticos e o país (no todo e nas suas realidades locais) agradeceria. 

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Do citador ao citado... qual o prestígio da citação?!

      Está no Facebook (na página do 'Acorda Portugal'), aos olhos de quem quiser ler.

      Já nem me pronuncio por quem é citado ou por quem cita. Fico-me pelo que é citado:

in https://www.facebook.com/AcordanossoPortugal/

    Não há prestígio efetivo que aguente com tanta falta de qualidade no português utilizado: "Alguns poucos deputados PÕE...". Põe-se verdadeiramente em causa a qualidade do escrito e de quem escreveu a 'coisa' (por não ter ou não querer, por agora e aqui, usar termo mais indecoroso). 
     Quanto aos deputados e ao parlamento, nas próximas eleições, há que fazer melhores escolhas, por certo. No que toca ao português, seria bom que fosse mais legitimador da crítica pretendida, sob pena de se ridicularizar mais a forma de expressão do que o suposto fundo de verdade da mensagem.
     
   Um verdadeiro caso de violação da coesão frásica, no que à concordância do sujeito-predicado (particularmente no núcleo verbal) diz respeito. Caso para dizer "Fecha os olhos, Portugal!"

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Brexit: a conversar é que a gente se desentende

    Acordo a chegar e o reino de Sua Majestade a desvairar...

    Lá virá o tempo em que a insularidade terá mar e céu a mais. Nem a "Union Jack" se salva:


    Conversa sintomática para a confusão que o Brexit ajudou a (re)instalar. Caso para dizer que a conversar é que a gente se desentende.

    Veremos quem ficará a ganhar (talvez a Ásia)!

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

TREAT!

     Mediante a disjunção, só tenho uma opção.

    A máxima do "Trick or treat!" (traduzida como "Doçuras ou travessuras") deixa-me, por vezes, confuso e indeciso na escolha, seja porque gosto de doces seja porque uma travessura também sabe bem.
    Em dia de Halloween, cruzo-me com a imagem de uma abóbora (que não é menina):

Uma "pumpkin"..., ou melhor, "trumpkin

      E na ordem da nova máxima, só me resta uma escolha:
    

    Não há "trumpalhada" que resulte doce. É azeda, amarga, áspera. Nem com o espírito do Halloween é suportável. É bruxedo a mais! Não há "treat"! Contudo, se o que resta é "trump",...

     ... venha o "treat", apesar de apetecer ser travesso ("tricky"). Porque "Trump" não é alternativa para coisa nenhuma.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Porque sou Haddad

       Tudo por causa de princípios.

   Sou Haddad, porque não posso ser a favor de quem pense com base no preconceito, na desconsideração das minorias ou na diferenciação assumidamente sexista, religiosa, rácica, xenófoba, quanto mais quando alguém os explicita e defende publicamente.
    Sou Haddad, porque não é pela falta de referências e pela descrença na ação dissimulada e hipócrita de alguns políticos que se pode legitimar tudo, mesmo os que, tendo palavras bem distintas da política perversa que nos tem dominado, caem no erro do fundamentalismo, do extremismo, da marginalização, da repressão e de um 'one best way' (que não é para todos, garantidamente) para se responder ou sair de algumas adversidades.
    Sou Haddad, porque a corrupção reinante (de hoje e de tempos remotos) não pode destituir ou corromper o pensamento da busca de um ideal, de uma utopia ou de princípios mais humanistas, inclusivos, tolerantes, respeitadores da dignidade de todo e qualquer ser humano que pretende ser feliz e atingir o bem comum. Lutar contra a degração moral e social não pode ser sinónimo de agrilhoar a felicidade e a liberdade humanas.
    Sou Haddad, porque nenhum(a) país, sociedade, partido ou grupo pode ser avaliado(a) na base da generalização de que algumas das suas negações são espelho de que tudo falha ou de que tudo obrigatoriamente faz parte de uma só farinha no mesmo saco.
    Sou Haddad, porque, apesar de não ser brasileiro, sou falante de uma língua que já teve outros que declaradamente a usaram para deixar passar mensagens de intolerância, hipocrisia, desrespeito, prepotência, cegueira, promovendo mais desvalidos e revoltados do que protegidos e estimados no que, pela sua singularidade, de bom e de bem podem dar à sociedade.
    Sou Haddad, porque esta pode ser a alternativa a tudo o que de mais consabido há nas posições e nos discursos assumidos por quem com ele diretamente concorre.
    Sou Haddad, porque a História me ensinou que os democraticamente eleitos em situações críticas e com discursos marcados pela defesa nacionalista e pela afirmação de superioridade de alguns relativamente a outros acabam por sustentar e utilizar o poder em favor próprio, com tiranias e sinais de despotismo, típicos de regimes ditatoriais que só guerras, revoluções, resistências, vítimas, mártires e mortes permitiram a muito custo ultrapassar.   
     Apartado pelo azul de um oceano que brilha sob as estrelas, revejo-me na terra desse verde (da esperança) e amarelo (de acautelado otimismo); da Ordem e do Progresso, a firmar-se para lá da bandeira; do grito do Ipiranga, que reconfigura 'Independência ou Morte' em 'Liberdade democrática ou Jugo autoritário'.

      Quanto aos fins, que sejam os da crença na humanidade e na escolha sensata que se impõe, por mais inspiradas que sejam numa fé que as transcende.

sábado, 13 de janeiro de 2018

A História do Porquinho

        Não se trata da história dos três porquinhos para a hora de deitar...

      É antes uma narrativa para acordar e lembrar “A Hora Mais Negra”, com um Porquinho só, como familiar e afetivamente a esposa o tratava. É também assim que Winston Churchill surge aos olhos e ouvidos do espectador cinéfilo, tudo porque um filme dirigido por Joe Wright tanto mostra a personalidade deste líder histórico do século XX como expõe as fragilidades desse homem forte, porque imperfeito, e poderoso, porque soube ser só.

Trailer do filme "A Hora Mais Negra", de Joe Wright (2017)

      É com estes atributos – força, imperfeição, poder, solidão – que o primeiro-ministro inglês de Jorge VI nos é dado a conhecer no contexto da II Guerra Mundial, enfrentando um Hitler e um Mussolini, mais todos aqueles que, no seu país (Reino Unido), o viam como indesejado, irrefletido e tempestuosamente irascível. Além disto, tinha apenas para oferecer sangue, trabalho, lágrimas e suor (o que, seguramente, muitos não queriam), quando um caminho mais fácil (por aparente e enganador que fosse) era percebido como menos penoso.
  Na interpretação de Gary Oldman (recentemente galar-doado com um Globo de Ouro pelo papel desempenhado), a personagem Churchill é secundada por Lily James (a secretária Elizabeth Layton) e Kristin Scott Thomas (no papel da esposa Clementine – Clemmie -, que aceita a figura pública que o marido sempre quis ser), também relevantes na solidificação dos pilares e dos princípios de um homem que se torna uma referência do século XX. Nomeadamente, foi-o para a História enquanto figura de liderança que adotou princípios, defendeu convicções válidas e se revelou grande na ação, estando ao lado e do lado das mudanças que afasta(ra)m o despotismo, o poder autocrático, a tirania e tudo o que desvia a Humanidade de um caminho integrador, inclusivo e tolerante. Em suma, um exemplo para alguns dos que contemporaneamente se encontram no poder.
     Há imperfeições que são menores face à grandiosidade dos valores e princípios por que se luta. Neste sentido, a frase “Quando a juventude nos falha que a sabedoria nos valha” acompanha bem uma personagem que se revela sábia, mesmo quando o medo se impõe ou quando poucos apoios tem para o que há a fazer. Assim se cumpriram os tempos; assim se revê um homem que mudou, porque só os que não mudam é que não fazem nem trazem mudanças.
    Este é um filme largamente argumentativo (até pelos exemplos retóricos de Cícero e Horácio que inspiravam Churchill); persuasivo na construção de identidades e de condução de mentalidades. 

     Um filme educativo, a explorar e com lições de vida merecedoras de discussão - na consciência de que há movimentos de força conjuntos, impositivos, que nem sempre fazem sentido perante o que mais deve dignificar o Homem; na constatação de que um homem pode fazer a diferença por aquilo em que acredita e que, mais cedo ou mais tarde, sai legitimado.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Pela democracia por que se bateu

      Em vida de democracia chega a notícia da morte (já) esperada.

Retrato oficial de Mário Soares (pintado por Júlio Pomar) 
no Museu da Presidência da República
       Faleceu Mário Soares.
   Importante que foi, suscitou adesões e contestações públicas, como todos os grandes que não foram conformistas e que se bateram por aquilo em que acreditavam.
     Estadista (que não quis ser e no que disse não se rever) com lugar na história política portuguesa, manteve-se fiel a uma ideologia independentemente de esta, em vários momentos, ter sido mais ou menos consensual. Na governação e na presidência da república portuguesa, esteve nos momentos mais relevantes do país nos últimos cinquenta anos, sem ter deixado de, anteriormente, intervir ativa e resistentemente contra uma ditadura que o levou à prisão e ao exílio antes de 1974; sem ter desistido de imprimir um cunho libertador de totalitarismos na jovem democracia, desde então.
     O seu protagonismo (que recusou, por princípio) está indissociavelmente ligado ao combate vitorioso da democracia e da liberdade - facto que o coloca, no final dos seus 92 anos, no lado devido da História e numa posição de referência nacional e internacional reconhecidas, pelo socialismo que defendeu e ajudou a fundar em Portugal; pela sociedade democrática e pluripartidária que representou; pela integração europeia plena a que destinou o país.
     O socialista, republicano e laico que assumiu ser submeteu-se ao plebiscito popular, algumas vezes ganhando outras perdendo. Reconheceu que "Só é vencido quem deixa de lutar". Disto não pode, por certo, ser acusado. Por isto ficará na História; do mais, muitas outras histórias se contam e contarão, que não apagam o que foi o seu papel e a sua visão para o país.
   
     Herdeiros que somos do regime por que lutou, resta agradecê-lo a uma das figuras maiores, se não tiver sido a maior de todas na democracia portuguesa.

sábado, 26 de novembro de 2016

Dizem...

     É o que se ouve o dia todo! É a notícia, o tema , o assunto: a morte de Fidel Castro.

    Que foi figurante marcante; que era muito cordial e muito inteligente; que foi um líder e uma referência do século XX; que é um exemplo na História e da História; um homem de fé que conseguiu que o mundo estivesse à beira da III Guerra Mundial (grande feito!).
    Nem sei que diga, perante tanto dis-curso encomiasta. Pouco falta para ser um herói.
   Não sei bem porquê (ou talvez saiba), não o vejo como tal. Como pessoa, à semelhan-ça de qualquer ou-tra, será sempre digno de respeito na hora da última viagem - naquela  em que qualquer ser humano se vê confrontado com os seus derradeiros limites. Como político, não tem o meu apreço, por maior que seja a sua capacidade de argumentação (tão elogiada que ela também hoje foi). "Pátria ou Morte" ou "Até à Vitória Sempre" nunca deixaram de me parecer enunciados demasiado definitivos, extremados e pouco consistentes com a consciência da legitimidade da ação política. Não resultam para mim, mesmo em contexto de propaganda, pela imagem que dão de prepotência, de autoritarismo, de atos ditatoriais a justificarem qualquer fim em si mesmo. A ausência de liberdade nunca poderá ser razão ou necessidade para a luta contra desigualdades sociais - o que se revelou propósito mais retórico e seletivo do que prática para um bem coletivo comum - ou para a definição de políticas que até possam vir a tornar um país grande.
      Hoje não se ouviu falar de outra coisa. Pouco de Cuba e de como se viveu sob a alçada de alguém que, por mais carismático que fosse, fez do poder força contra os que não pensavam como ele ou como o partido único, nacional (se) impôs - nessa posição típica do orgulhosamente sós e/ou às costas de quem, longe, se faz fria e ameaçadoramente perto.

      "El comandante" morreu aos noventa anos; o seu pensamento e o seu regime não - como ele o disse "Os homens passam, os povos ficam; os homens passam, as ideias ficam." O tempo o dirá por quanto tempo perdurará tal regime, depois de muros e regimes terem caído.

sábado, 19 de novembro de 2016

Política(s) e político(s) no mundo

     Como estamos de política no mundo? Mal, cada vez pior! Ainda mal!

     O problema maior parece ser mesmo o de alguns políticos que, no mundo, não veem nem ouvem o que (algum d)o povo ainda lhes quer mostrar: denúncia do exercício de um poder que só eles pensam ter, a título de controlo de um sentido de democracia a todo o tempo vaiado, sentenciado, sentido como ameaçado.
    Vaidosamente, e depois do golpe levado a cabo para a destituição da presidente Dilma Roussef, os Jogos Olímpicos e os Paralímpicos 2016, no Brasil, são declarados abertos pelo presidente em exercício, Michel Temer, entre alguns aplausos e intensas, ruidosas vaias olímpicas:

Políticos apupados no contexto do Desporto (montagem)

     Arrogantemente, o recém-eleito Donald Trump exige desculpas ao elenco de "Hamilton” -musical da Broadway a representar  a aspiração dos colonos à construção de um país -, depois de os atores, em palco, se terem dirigido ao próximo vice-presidente, Mike Pence (que assistia ao espetáculo), apelando a que a recentemente eleita presidência republicana trabalhe para o bem de todos os americanos, na sua diversidade e totalidade de cores e de crenças. O apelo é inspirador (antecedido do agradecimento pela presença e orientado para as expectativas de quem pretende ver consolidados os valores, nomeadamente fundacionais, e os direitos inalienáveis do povo da América); Trump sente-se incomodado. Assim aconteceu, com os aplausos do público espectador:

Um musical com um apelo final, para o bem da democracia

     Quando a arte (teatro) e o desporto (jogos olímpicos) denunciam os desgovernos de dois grandes do mundo (Brasil e Estados Unidos da América), talvez fosse de equacionar quais os perigos gerados por aqueles que dão ou são a cara da (suposta) democracia, para não se cair nas malhas de um crescente populismo (também decorrente do descrédito que grassa no mundo).

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Que TRUMPalhada!

      Não se ouve falar de outra coisa; por isso, eu escrevo, para ser diferente.

Hillary Clinton e Donald Trump sem cor
   O dia abre com a notícia do dito: Trump venceu as presidenciais norte-americanas. Alguém comentava há dias que a escolha entre Donald Trump e Hillary Clinton era sinónima de consi-deração do mal menor. Reconheço que, ainda assim, a opção não é fácil, pois entre o mal de ambos não sei o que seja menor: se a cara de pau e a presunção extremista, populista, autocrática de um ou o sorriso estratégico e pretensamente consensual da outra. Há razões, para qualquer um dos lados, que não dão confiança nem vontade de os ver à frente de um dos países que comandam o mundo.
   Fazer história e colocar uma mulher na presidência dos EUA não são razões suficientes para ignorar aquele que foi todo um percurso feito em nome de uma constante sede - quase exclusiva e, por vezes, incompreensível - de poder (desde os tempos de juventude aos de primeira dama, ou mesmo aos de democrata que enfrentou Obama). Ver um self made man a ascender ruidosamente ao topo e lembrar os ditos e feitos que lhe mancham a imagem pública são motivos de descrença no que possa existir de bom.
    O mediatismo dos Obama não chegou para que os americanos entendessem oito anos de uma promissed land que não foi vislumbrada e que Hillary não deu a (re)ver nos debates em que participou. A alternância democrática regressou, ironicamente para os republicanos e em todas as frentes (por mais divididos que estejam face à figura que os lidera).
   As sondagens falham (e há quem teimosamente insista em as validar, de alguma forma); os humanos também e ainda mais quando as hipóteses com que deparam não representam bom exemplo para ninguém. 
     Parece restar a firme vontade de mudança, por mais irracional que esta possa parecer ou por maior que seja o pesadelo de quem a possa trazer.

    Assim, no dia em que se celebra a queda do muro de Berlim, um outro pode vir a crescer (já lá se encontrando na fronteira com o México, entre Tijuana e San Diego) nas alturas, a julgar pelo que Trump anunciou, depois negou e talvez esteja para reeditar lá para os lados do México.
       

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Sinceridade acima de tudo!

     Viva a República!


    É verdade que sou mais adepto do regime republicano do que da monar-quia. Nessa medida, nunca percebi como é que, entre os feriados retirados no ano crítico de 2012 (a bem da suposta produtividade que interessava incre-mentar com o novo Código do Traba-lho), o da implan-tação da república (o do regime em curso, diga-se) figurava como dispensável. Nem tudo o  que é significativo na vida de um povo se configura como feriado, mas o que é de regime é de regime, digo eu!
    A República, proclamada em Lisboa a 5 de outubro de 1910, instituiu um sentido democrático que se vinha a afirmar desde a década de noventa do século XIX, em tentativas goradas que pretendiam pôr fim à monarquia. 
    1891 e 31 de janeiro foram marcos na tentativa de mudança, face a uma realeza degastada e sem resposta para as preocupações de um século que viu o Ultimato minar a honra e a credibilidade de um país. Um novo regime viria a singrar quase duas décadas depois. A História viria a dar relevo ao facto; houve quem invertesse a bandeira republicana numa das mais recentes celebrações; um dos últimos governos acabou por minimizar a efeméride há cerca de quatro anos. O certo é que o dia "grande" acabou em simples "historinha", para o comum dos cidadãos.
  Como diria o Velho do Restelo, numa transposição dos tempos da descoberta do caminho marítimo para a Índia para os da atualidade: "Mísera sorte! Triste condição!"
     Vale a natureza democrática, e a todo o tempo passível de retoma, que a República permite.

     Hoje, mais de cento e cinco anos depois do evento histórico, a ressurreição do feriado é digna de registo e de celebração. A Implantação da República até pode ser o motivo, mas, acima de tudo, o que me sabe bem é (a reimplantação d)o feriado.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Brexit - uma amálgama tornada salgalhada política

    É mesmo 'exit', ainda que seja mais para a Inglaterra (England) e Gales (Wales) do que para o Reino Unido (com a Escócia e a Irlanda do Norte a demarcarem-se).

    O dia acorda com a notícia de que o Reino Unido (mais desmantelado do que unido) se decidiu pelo sim, pela saída da União Europeia, com cerca de 52% dos votos. É a maioria, de facto, para um ainda grande registo de 'nãos' (48%). Mais do que convicção, lê-se desunião.
Cartoon de Ben Garrison, no The Telegraph
     Os representantes das instituições eu-ropeias mostram-se dececionados, pesa-rosos, angustiados com um resultado que parece ser en-tendido mais como traição do que lição. Por mais que a insularidade e o "mais vale só" bri-tânicos sejam dados a considerar no re-sultado deste refe-rendo, é verdade que não é menor o "orgulhosamente nós" com que a "Great Britain" sempre se deu a ver na sua posição eurocética, dividindo para reinar, nessa atitude de realeza muito ligada ainda à herança de uma época imperial (se não anterior) revisitada num modo de estar "snobish" e tipicamente "british". Se os mais moderados ainda buscaram compromissos ou ainda viram nas diferenças uma hipótese de reconstrução daquilo que mais os unia (David Cameron assim o parece ter tentado), o espaço dos extremistas, dos mais radicais e nacionalistas acabou por se impor, vincando o que os separa, pelo desgaste de não se verem significativamente unidos ou representados nos princípios de uma estrutura / instituição que não tem dado respostas às debilidades surgidas a afetar muitos países (a bem de um mercado que não traz ninguém feliz, feito de desemprego, de impostos, de austeridade sem recuperação); que tem desrespeitado orientações e políticas nacionais, sobrepondo as estas últimas uma ideologia e um conjunto de interesses que trucidam a sobrevivência dos mais desfavorecidos e de todos aqueles que se mostram crescente e socialmente desesperançados.
    A par de tudo isto, e não menos relevante, estão os discursos, as tomadas de decisão e a visão centralizadora de uma União Europeia que tem vindo a produzir publicamente mais dissensos do que consensos, em nada ajudando no caminho a fazer a vinte e oito - a partir de hoje vinte sete. Entre burocratas e tecnocratas mais preocupados com o universo financeiro do que com a dimensão humana (culturalmente rica, diversa e solidariamente comprometida), a realidade hoje vivida não deixa de ser uma reação e uma posição expectáveis, para não dizer ameaçadoramente alastráveis.
    Entre os muitos cenários que se antecipam (desvalorização da libra, desintegração do Reino Unido, independência da Escócia, integração da Irlanda do Norte na república do 'Eire', entre outros), fosse esta a oportunidade de a Europa se rever na sua união, no seu projeto, no foco a dar à dimensão humanista e humanizadora dos princípios que presidiram à sua constituição. A não ser assim, uma ideia e um projeto europeu caem definitivamente.

      Se "o que não nos mata nos torna mais fortes" é o pensamento orientador do presidente do conselho europeu, Donald Tusk, só espero que a força e a determinação europeias não criem situações análogas à hoje vivida. A Europa, acima de tudo, faz-se com as pessoas que querem ver respeitada a sua identidade cultural, social, de soberania nacional, numa representação que não se veja invadida por jogos e interesses e iniquidades só a privilegiar ou a desculpabilizar os "maiores" - e entre estes há sempre um ou outro que gosta de se mostrar "superior" e que até pode desafiar qualquer "suprema" instituição (quanto mais não seja por ser uma das maiores economias europeias e/ou do mundo).

sábado, 7 de maio de 2016

Nódoa(s)!

      Nem sei se será o melhor pano, mas a nódoa está lá.

    Na discussão atual do financiamento dos colégios e das escolas particulares pelo Estado, os partidos da oposição têm vindo a reagir, de diversas formas, com os argumentos mais impensáveis (sempre orientados para a preservação de uma situação que já foi mais do que alertada e publicamente apontada como dúbia, polémica e adversa). Há mesmo os que "exigem" o respeito dos contratos de associação. Se exigissem respeito por todos e não apenas por alguns, o mundo seria bem melhor, com igualdades menos injustas e com associações mais felizes ao serviço público, sem necessidade de contratos injustos. Pagar com dinheiro público a sobrevivência ou manutenção do ensino privado é, no mínimo, perverso, inclusive na adução, a todo o custo, de um direito de liberdade que só pode ser entendido na radicalidade do seu uso minoritário, seletivo e excessivo. 
     Daí que sejam mais do que oportunos os jogos de palavras a espelhar uma realidade bem iníqua:


     Não quero com isto dizer que sou contra o ensino privado (nalguns casos, muito pontuais, a constituir a única oferta educativa disponível de algumas localidades) ou, como alguém já o defendeu, que, graças a ele, os ricos conseguem entrar nas universidades públicas, enquanto os pobres andam na escola pública para serem empurrados para as universidades privadas - felizmente, a escola pública tem representantes de todas as condições sociais, algo bem típico da heterogeneidade social que a vida dá a (vi)ver; as competências destes são avaliadas e reconhecidas pelo ensino superior público como de maior preparação para a prossecução de estudos académicos (a julgar por algumas notícias lidas nos jornais), e algumas vezes contrariando determinismos sociológicos que teimam em perdurar; muitos ainda são os estudantes que entram na universidade pública e que do ensino público são oriundos, por princípio, sem práticas assumidas de evidente exclusão ou seleção. Por isto, sou dos que se revê na(s) qualidade(s) da escola pública, não obstante alguma que o privado também possa ter. E se a tem, que seja pago por isso e por quem o quer; não pelo Estado, que, desde há muitos anos, vem financiando turmas de alunos que bem podem caber numa escola pública, para não falar da concessão de algumas autonomias na gestão de recursos que o Estado impede ou dificulta ao sistema público - contrariamente ao privado que as tem asseguradas e delas faz bandeira. Assim, este último que se faça pagar, a bem da categorização adjetiva que tem e da liberdade daqueles que nela queiram investir com o dinheiro que a escola pública não tem.
    Nesta medida, muito me espanta que ainda haja quem, a todo o custo e como princípio geral, dê a cara pelo indefensável. Pior ainda quando o moreno da figura feminina não condiz com a preocupação social, argumentada do modo mais infeliz: primeiro, porque uma maior procura da escola pública não deixaria de representar maior necessidade de recursos, com oportunidades de emprego mais ajustadas às condições contratuais do serviço público (pode não dar para o ouro, para as pérolas ou para o solário, mas também não se pecará por alguns ou outros excessos); segundo, porque, contrariamente ao escrito, o que pode estar em causa nunca serão as pessoas, as profissões por elas exercidas ou o estatuto em que se encontram (por mais retórica que a formulação seja, para referir implicitamente os postos de trabalho ou a quantidade de matrículas), até porque todas elas têm de valer bem mais do que qualquer número (que, por sua vez, nada diz sobre o que o caracteriza ou sobre as condições concretas da sua existência); terceiro - e apetece-me dizê-lo à moda inglesa "the last but not the least"-, porque se usa uma só vírgula a separar o sujeito do predicado da frase, bem reveladora do desconhecimento quanto ao emprego deste sinal de pontuação (na variação que o uso de vírgula possa ter, está em evidência uma das poucas incorreções da língua, grave no que à pontuação diz respeito).

     Coisa(s) tão escusada(s)! Se no melhor (?) pano cai a nódoa, é bom que os serviços de limpeza atuem de forma eficaz (se é que me entendem)! Assim espero.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Politiquices...

      Depois de Cristo ter tido dois pais, eis que chega a questão do dia: o cartão de cidadão / cidadania.

    Comenta-se o projeto apresentado, na Assembleia da República, pelo Bloco de Esquerda (BE), para modificar a designação do 'Cartão de Cidadão', que se quer 'Cartão de Cidadania'. A argumentação parece residir no facto de não se respeitar a "identidade de género de mais de metade da população portuguesa”. Portanto, defende-se que a denominação masculina está desajustada à taxa populacional maioritariamente feminina (depreende-se) ou, então, pretende-se que ela seja preterida face a uma outra mais neutra e mais próxima de uma igualdade de direitos entre homens e mulheres.
   Isto de confundir o género linguístico (gramatical) com o género biológico (sexual) é, no mínimo, risível! Enfim... noções tão distintas que bastaria saber um pouquinho sobre 
- nomes comuns de dois - como a designação o indica, com dois valores de género, sem consequências morfológicas (a palavra mantém-se inalterada independentemente do género), mas com consequências sintáticas (desencadeando concordâncias), como é o caso de 'o/a jornalista' ou 'o/a intérprete'; 
- nomes sobrecomuns, sem contraste de género e sem marcação morfológica ou sintática (apesar de referir entidades de um e outro sexo), como 'a pessoa, a criança ou o indivíduo, a testemunha'; 
- nomes epicenos - na designação de animais, apenas com um género gramatical, embora referindo ambos os sexos, como 'a cobra, o elefante, a águia, a foca' (expansíveis com o restritor «macho» ou «fêmea»).
   No meio disto tudo, antevejo já um problema sério: quando o BE descobrir que, na língua portuguesa, o género marcado, linguisticamente, é o masculino, vai ser um Deus nos acuda! Já ouço quão injusto é, no meio de tanto feminino, um só masculino se impor! Onde já se viu! Nem o genérico Homem, para designar a Humanidade, vai ser permitido!
  Preparemo-nos, porque as polémicas mudanças do Acordo Ortográfico serão pormenores de somenos importância face à revolucionária mudança que o Português vai ter de sofrer, em nome de uma língua mais promotora da "igualdade de género".

    A não ser despiciendo o projeto, diria que a prioridade da iniciativa é, no mínimo, bastante discutível. No meio disto, só falta pensar que alguns milhares já terão sido, por certo, gastos no pagamento de tanto estudo, tanta hora de discussão e pouca oportunidade de ação comprometida com o desenvolvimento do país e a melhoria de condições de quem trabalha, independentemente do género e a bem de todos os que labutam seriamente.

sábado, 14 de novembro de 2015

Afinal, sempre foi dia de azar... (bem pior do que isso!)

      Refiro-me ao dia de ontem - uma sexta-feira treze (de terror) que deu num sábado catorze (com dor).

    Vitimada pelo terrorismo, Paris acordou com a dor de uma noite sofridamente vivida e atrozmente marcada com mais de uma centena de mortos, na sequência de vários ataques a tiro e de bombistas-suicidas. O dia de azar deu em noite de terror. Entre reféns, feridos e mortos, o estado de emergência impôs-se no país que deu a conhecer ao mundo os valores da Liberdade - Igualdade - Fraternidade e que (re)descobriu o terror perpetrado pelo Estado Islâmico com sete ataques violentos em diferentes zonas da capital francesa.
     Discutem-se os motivos desta barbárie, pergunta-se em nome de quê toda esta tragédia, canta-se o hino francês (mais a parecer um grito de guerra já anunciado), marcha-se em homenagem aos que pagaram com a vida inocente (eternos desconhecidos, subitamente lembrados como mártires dos grandes valores e das grandes causas políticas), ouvem-se os discursos solidários dos que se dizem condoído (ainda que apenas pelo politicamente correto). Tanto assunto, tanta conversa para tão pouca ação!
    Aponta-se a diferença religiosa como a causa da catástrofe, esquecendo que qualquer crença, contrariamente a alguns homens (de tão diferentes credos), coloca o bem da vida acima de tudo:

     
      Comenta-se com facilidade aquilo que não é sentido nem vivido, salientando o medo que gera mais medo, numa irracionalidade em que só falar e nada fazer parecem ser as soluções para tudo (manter como está, para o bem de alguns poucos):


      Procura-se o que ninguém parece saber onde encontrar ou como lá chegar:

  
     E no meio de tudo isto sempre o Homem, dominando: o seu poder, a sua visão, os seus interesses e um sentido de vida que soa (cada vez) mais a destruição do que a realização.

      Por isso, no momento, só me apetece lembrar John Lennon e Imagine, no desejo de que o mundo "will live as one" - de novo a música como alternativa ao mundo infernal que vivemos (pena que seja só imaginação!)

domingo, 4 de outubro de 2015

Sem cor..., mas sem ser nêspera

      A propósito de uma pequena narrativa de Mário-Henrique Leiria, com tanto de atualidade e num dia que se quer sem nêsperas (ou magnórios, num registo mais nortenho).

      Hoje é dia de grande decisão para os próximos tempos (que se anunciam algo conturbados).
     Bom seria que todos contribuíssem para o melhor do país, saindo da comodidade que os faz ficar em casa, protegidos do mau tempo que hoje se vai fazendo sentir. A abstenção é "um partido" cuja participação favorece a percentagem de um vencedor que, eventualmente, não interessa ver governar.
      Não vá o diabo tecê-las e ainda aparece uma Velha...

A NÊSPERA

Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia

chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a

é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece

                                Mário-Henrique Leiria,
                               in Novos Contos do Gin (1974)

       Porque não quero a Velha (do tempo mal passado), não vou fazer de nêspera: nem fico deitado nem calado, "a esperar o que acontece". Para ficar de consciência tranquila, vou votar, na convicção de que não o farei em quem me roubou nos últimos anos nem em quem, antes, (também) tinha deixado o país na pior das condições (legitimando que os que se seguiram aplicassem uma austeridade cega, com vantagens mais do que duvidosas para o comum dos cidadãos). Posso andar sem cor política, porque as certezas que tinha neste campo tornaram-se desilusões. Voto sem ilusão e sem cor, mas com o inconformismo que o olhar matreiro e a voz de Mário Viegas trouxeram à escrita do texto de um outro Mário.

      Depois de tanta sondagem e tanto discurso inconsistente ao longo dos últimos tempos, era bom que o final deste dia desse em árvore de fruto feita de verdadeira alternativa e com a cor da esperança (tão arredada da maioria dos que trabalham séria, honrada e responsavelmente neste país, contando os parcos euros que não chegam para as contas do mês, enquanto outros se lambuzam com os milhões que não deviam ter nas mãos).

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Sou grego - όχι

     Tempos de resistência, de coragem, de história.

    Quando muitos tentam encontrar justificação para a resposta grega ao referendo, talvez fosse de lembrar o que o passado recente trouxe à Grécia, para não esquecer também que a suposta solidariedade das instituições europeias mais não é do que uma camuflada prepotência sempre que se obriga o solidarizado a agir conforme a ideologia dos dominantes e o sentido neoliberal da(s) economia(s) reinante(s).


    Entre o mal e o mal menor (porque do melhor parece nem ser possível falar), chegou a lição do povo grego: agir em vez de discutir o que decidir; construir consensos em vez de impor diretrizes cegas e surdas, alheias ao poder de milhões que se pronunciaram categoricamente por um 'não' face à ausência de condições para sobreviver com determinação; encontrar soluções (mesmo que difíceis) em vez de se criar mais problemas (ou mais austeridade sem sinais de recuperação ou da viabilidade desta).
    Foi esta a resposta democrática, no sentido helénico e/ou etimológico de 'democracia' - governo (kratos) do povo (demo). Se a democracia pode ser exercida de forma direta (os cidadãos tomam as decisões de poder), indireta (as decisões são tomadas por representantes eleitos em nome dos que os elegeram, na impossibilidade da democracia direta) ou semidireta (chamando os cidadãos a pronunciarem-se sobre questões nas quais os representantes sentem necessidade de maior legitimidade na representação), teve-se no referendo um instrumento para este último sentido de noção e expressão democráticas. Falou / decidiu o povo para os representantes eleitos se sentirem mais apoiados na sua a(tua)ção; devem a Europa e o FMI considerar outras formas de lidar com a situação crítica da Grécia - isto se não quiser adotar a posição típica dos sistemas monárquicos ou oligárquicos (onde o poder está, respetivamente, centrado nas mãos de uma única pessoa, o monarca, ou de um grupo de indivíduos influentes). 
    Ainda que, em Atenas, a democracia se tenha consolidado como uma forma de organização política das cidades-estado gregas (as 'polis') bem longe do sentido literal do termo (havia um reduzidíssimo número de participantes elegíveis da coisa pública - os cidadãos -, onde não cabiam os escravos, as mulheres, as crianças, além dos estrangeiros), atualmente as vozes representadas são em muito maior número. 
  Maior democracia, maior legitimidade na expressão e na luta pela dignidade de um povo, de um país, de uma tradição cultural fundacional da própria Europa.
    Um exemplo a considerar por outros países que também foram porto nas navegações de Ulisses.

    Hélia Correia, vencedora do prémio Camões 2015, numa sessão pública intitulada “A crise europeia à luz da Grécia” (realizada no dia 2 de julho, no Fórum Lisboa), assumiu (como filelena) que a dignidade demonstrada ultimamente pelo povo grego nos faz ainda sentir herdeiros do passado; daí todos querermos ser gregos - no que foram há cerca de dois mil e quinhentos anos e no que são hoje, nomeadamente nesse grito de luta contra o incerto, mas onde cabe a hipótese matizada pela força certa do "morremos, mas morremos de pé".

domingo, 25 de janeiro de 2015

De novo, com os olhos e ouvidos nas origens.

    Hoje gostava de estar em Atenas a gritar SYRIZA.

     Espero que amanhã, num tempo mais alargado do que o dia, o grito ecoe para cada medida ou decisão feitas da honestidade e do dever cumprido para o prometido. Basta de sufoco, a bem de alguma esperança. Por maior que tenha sido o erro do passado, para que haja presente com sentido há que abrir a caixa de Pandora.
     Assim se construirá verdade, confiança, referência, ao contrário de muitos que continuamente desdisseram o que os levou ao poder. 
    Assim se alimentará tempo novo, com uma outra forma de fazer as coisas, mais atenta ao Homem e menos ao capitalismo sufocante e castrador em que as instituições de crédito financeiro se tornaram.
    Curioso (ou talvez nem tanto) que tudo esteja a acontecer na Grécia, nesse berço do pensamento democrático original. Se foram muitos os erros anteriores, se ainda há quem não cumpra o que é necessário para o bem comum grego (e, por consequência, europeu), tudo tem que ser feito para responsabilizar os que prevaricam; mas também há que criar vontades, novas vozes, novas caras e dinâmicas de futuro, apostadas na mudança (não no 'statu quo' ou no 'dejá vu').
    Em tempo de novo protagonismo, de um pioneirismo que se quer exemplar para a Europa - continente que muito lhe deve o nome -, gera-se uma causa de dimensão nacional com sentidos e efeitos muito para além da fronteira grega; revê-se o próprio continente, aquele que da Grécia recebeu toda uma civilização (a qual esteve na origem de tudo), segundo rezam a História e os mitos.
"O rapto da Europa", de Peter Paul Rubens (1628-9)
   Nesses tempos dos primórdios, dos deuses da anti- guidade clássica, uma princesa fení- cia se impôs pela beleza, chamando a atenção e as paixões do poderoso deus grego: Zeus. Disso não gostou Hera, a ciumenta mulher do deus principal da mitologia grega. Daí este ter-se transformado num touro, para se apro- ximar da princesa, que, maravilhada, coroou o animal com uma grinalda de flores e acabou por saltar para o seu dorso. Ao senti-la nas suas costas, o taurino e supremo morador do Olimpo desatou a correr em direção ao mar, só parando quando chegou a uma pequena ilha: Creta. Aí, à sombra de um plátano, revelou-se na sua verdadeira forma. Acabaram ambos por dar vida a três crianças: Minos (futuro rei de Creta e um dos juízes do inferno, que ouvia as confissões dos mortos), Radamanto (rei das Cíclades, conhecido pela sabedoria e justiça) e Sarpedão (príncipe da Lícia).
      Hoje, em tempos de crescentes individualismos, fala-se na necessidade de um espírito gregário, de uma natureza associativa (pretendida e nem sempre alcançada) para ultrapassar problemas e crises comuns, numa inspiração apoiada no modelo das ágoras e das ligas que instituíam a união de esforços. Os tempos são efetivamente outros, à espera mais de Radamantos do que de grupos que não pugnam pela felicidade comum.
       Talvez aqui a Grécia ainda tenha uma palavra a dizer. Eu gostava que fosse SYRIZA, pelo que esta coligação possa representar de exemplo para uma saída humanizada e feliz para a austeridade; para a afirmação de uma nacionalidade mais interessada no seu povo do que nas prioridades especulativas de grupos mais focados nas próprias bolsas (e nos respetivos bolsos), em detrimento do bem social comum.

    Num país que tanto deu à Europa (cultural e linguisticamente), talvez ainda esteja a ser preparada (mais) uma lição. Que assim seja, a bem dos homens que nela moram e para que os mesmos, ou outros ainda, saibam que há uma forma diferente de fazer as coisas (sem ter de se cair em igualitarismos duvidosos nem em controlos ameaçadores, perversos e desumanos).

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Fala tão bem!

      Não basta o facto de o tema já ser repugnante, de tanto nele se centrar a televisão.

    Todo o tempo se fala de BES; daqueles que não sabiam nem quiseram saber (ainda que estivessem sempre prontos para receber); dos que usaram e abusaram da confiança, do dinheiro de muitos; dos que ainda puderam comprar a sua liberdade e andam a pavonear-se num país que lhes dá sustento.
      E, no meio de tudo, chegam as "pérolas":


    Começa bem o deputado José Magalhães, construindo adequadamente o verbo 'interVIR' no gerúndio (interVINDO); mal fica Manuel Fernando Espírito Santo, ao desconhecer - entre várias coisas relativas ao BES e ao grupo Rioforte a que presidia - a conjugação do mesmo verbo no pretérito perfeito. 
     'InterVIM' era o que se devia ouvir, quando o próprio fala na primeira pessoa; 'interVEIO' era o que se devia dizer a propósito da sociedade Escom.
     Caso para pensar que se alguém interVIESSE com correção na língua talvez recebesse maior crédito no dito (porque, com o mal já feito, as suspeitas estão mais do que instaladas).
    No meio de tanto erro, apetece dizer que os milhões "desaparecidos" teriam sido melhor empregues numas aulas de português.

       Há pessoas que não deviam sequer abrir a boca, porque desta só sai asneira e afeta os melhores dos ouvidos.