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terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Dúvida-desafio linguístico (outro): modificadores

     De novo a sintaxe... e cada uma mais difícil!

    Q: Nas funções sintácticas, não é fácil perceber a diferença entre as que modificam toda a frase (por exemplo, as condicionais) e as que modificam apenas o predicado (por exemplo, as causais). Além disso, não se encontra em lado nenhum a função sintáctica das consecutivas nem das comparativas. Parece que estas últimas não podem ser consideradas modificadores, mas sim complementos; mas de que tipo?

     R: A distinção entre modificadores da frase e modificadores do predicado (ou do grupo verbal) pode ser verificada através dos seguintes testes:
   . os primeiros não admitem o teste de interrogação (com estrutura clivada do tipo 'é que') nem o da negação, pela própria natureza disjuntiva do advérbio ou da expressão adverbial (exteriores ao predicado):
Ex.: Felizmente, tive boa nota no teste.
(a) *Foi felizmente que tive boa nota?
(b) *Não felizmente tive boa nota no teste.
   . os segundos admitem-nos, pela própria natureza adjunta do advérbio / da expressão adverbial (integram o predicado):
Ex.: Comprei um carro novo, no ano passado / No ano passado, comprei um carro novo.
(a) Foi no ano passado que comprei um carro novo?
(b) Não no ano passado mas na semana passada, comprei um carro novo.
     . os primeiros andam mais relacionados com questões de modalidade (posicionamento do sujeito locutor relativamente ao enunciado / ao conteúdo proferido) enquanto os segundo associam-se tipicamente às circunstâncias em que o predicado ocorre (de tempo, modo, lugar).

     Alguns casos podem ser portadores de ambiguidade, mas há diferenças evidentes: na frase "Ele morreu naturalmente", o modificador do grupo verbal respeita os testes anteriores; já em "Naturalmente, ele morreu", o modificador é frásico (e obedece à lógica dos testes inicialmente expostos), revelador da atitude do locutor face ao enunciado proferido.
     Por estas mesmas razões, consideram-se as subordinadas adverbiais condicionais modificadores da frase (disjuntos, exteriores ao predicado), enquanto as causais assumem um comportamento mais semelhante aos modificadores do grupo verbal (adjuntos, internos ao predicado):

Ex. Sub. Adv. Condicional: 'Se tiveres bom resultado, dou-te uma prenda'
a) * É se tiveres bom resultado que te dou uma prenda?
b) * Não se tiveres bom resultado, dou-te uma prenda.

Ex. Sub. Adv. Causal: 'Não tiveste bom resultado porque não estudaste o suficiente'
c) É porque não estudaste o suficiente que não tiveste bom resultado?
d) Não tiveste bom resultado não porque não estudaste o suficiente, mas porque não interpretaste bem as questões.

      Quanto às comparativas e consecutivas, a dependência face à subordinante (até pela própria falta de mobilidade) é uma evidência que requer a consideração da construção sintáctica dessas subordinadas como estando mais próximas de formas de complementação. Estas devem ser entendidas enquanto fenómeno de complementação interna.. Tal como um grupo nominal admite modificadores ou complementos internos (modificador / complemento do nome) também as subordinadas comparativas/consecutivas acabam por apresentar uma forma de complementação interna aos grupos adjectivais / adverbiais (conforme os casos) por elas configuradas. São uma forma de expansão seleccionada pelo adjectivo / advérbio (enquanto núcleo que surge complementado por um grupo frásico explícita ou elipticamente contemplado).

Ex.: Ela é tão simpática que não há ninguém que não a estime. (Subordinada consecutiva)
Ex.: Ela é mais / menos simpática do que muita gente que eu conheço.
    Ela é tão simpática como muita gente que eu conheço. (Subordinadas comparativas)

     Não é por acaso que estes dois tipos de construção se integram no que se designa por construções subordinadas de graduação (admitindo que os adjectivos e os advérbios são as classes que especificamente admitem a variação em grau).

      Por aqui se vê ainda algumas das limitações do que se foi aprendendo com a gramática tradicional: não podem pertencer a uma mesma categoria sintáctica mecanismos com características tão diferenciadas (relembre-se que, na gramática tradicional, as comparativas e as consecutivas estão integradas nas subordinadas adverbiais, tal como as condicionais, as temporais e outras mais).

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Consultório aberto com vontade de fechar para obras

     De volta à questão dos modificadores e sua integração no predicado.

Q: Na frase "Logo que anoiteceu, os pescadores saíram para o mar", qual é o predicado? E 'logo que anoiteceu' que função sintáctica tem?

R: Retomando apontamentos já produzidos, digo que, nesta frase, o predicado é 'Logo que anoiteceu, saíram para o mar' (entendido este último - o predicado, não o mar - como o grupo verbal constituído pelo núcleo mais os complementos por este requeridos, além dos respectivos modificadores).
    Esquematicamente, daria conta das funções sintácticas presentes na frase do seguinte modo:
   
    SUJEITO (simples): Os pescadores

    PREDICADO:  a) Núcleo verbal: saíram
                        b) Complemento oblíquo: para o mar
                        c) Modificador: Logo que anoiteceu

     A subordinada adverbial temporal é, portanto, um adjunto do predicado.
    Ressalvaria o facto de nem todos os modificadores (nomeadamente, os que se situam ao nível da frase, não do predicado) integrarem o predicado. É o caso dos que revelam o posicionamento do enunciador face àquilo que é enunciado (portanto, mais relacionado com questões de modalidade).
     No caso do enunciado que propõe, o modificador integra o predicado, independentemente da posição que tenha na frase (princípio, meio ou final). O que isto revela é apenas o factor de mobilidade. Entre os testes que revelam essa integração estão os seguintes:

1) a possibilidade de integrar a resposta focalizada na acção representada pelo verbo 'sair':
    - O que fizeram os pescadores?
    - Saíram para o mar logo que anoiteceu.

2) a possibilidade de integrar uma questão cuja resposta focalize o sujeito sintáctico:
    - Quem é que saiu para o mar logo que amanheceu?
    - Os pescadores.

3) a possibilidade de integrar uma questão do tipo sim / não, podendo a resposta negativa dar lugar a reformulação:
    - Foi logo que amanheceu que os pescadores saíram para o mar?
    - Sim, foi. / Não, foi mais tarde.
                      Não, foi assim que todos os pescadores chegaram.
                      Não, foi muito antes.

     Acerca dos modificadores ao nível da frase e dos que se situam ao nível do predicado, diria que já muito foi escrito. Com eles já deu a "carruagem muitas voltinhas" (espero que não descarrile). Qualquer dia, vai ter de se preparar para novos apeadeiros ou, como dizem os nossos irmãos brasileiros, para novas paradas.

sábado, 20 de junho de 2009

Sintaxe... de novo... da mais oblíqua!

     Coloquemos os pontos nos is e os acentos devidos quando de 'oblíquo' se trata... cruzando com posts já aqui apresentados.

     Q: Afinal, o que é um complemento oblíquo? Uma colega diz-me que é o que se passa em casos típicos como os da frase "Eu estou na escola", com o 'na escola' a desempenhar essa função. É verdade?


    R: A designação de complemento oblíquo corresponde à função sintáctica que, na primeira versão da TLEBS, se identificava com os complementos preposicionais e os complementos adverbiais, o que não tem a ver com o exemplo dado, seguramente (pois 'na escola', no contexto de precedência de um verbo copulativo, desempenha a função de predicativo do sujeito).
       A designação de 'complemento oblíquo', não sendo muito familiar no campo da didáctica da gramática, é a que se relaciona com características ou universais linguísticos sintácticos: os verbos requerem argumentos para saturar o seu significado, sendo que uns se fazem acompanhar de complementos directos (os transitivos directos, isto é os que seleccionam complementos no caso acusativo), de complementos indirectos (os transitivos indirectos que admitem complementos configurados no caso dativo, substituíveis na terceira pessoa por 'lhe/lhes'), de complementos oblíquos (os transitivos indirectos que admitem complementos que não cabem em nenhum dos casos anteriormente considerados). Trata-se, portanto, de uma designação que articula as funções sintácticas com indicadores de caso.
       A título de exemplo, são complementos oblíquos os segmentos em itálico propostos nas frases seguintes:
     i) Nas férias passadas, fui a Barcelona. (> aí / lá; a esse sítio/local)
     ii) O meu irmão adaptou-se à nova turma. (> a isso)
     iii) Eu moro aqui, junto ao Estádio das Antas. (> neste sítio / local)
     iv) Não gosto de esperar. (> disso)
     v) Vou colocar os livros na pasta. (> aí / lá, nesse sítio)
      Todos eles são segmentos seleccionados pelo verbo principal (ir, adaptar-se, gostar, colocar), configurados sob a forma de grupo preposicional (a Barcelona, à nova turma, de esperar, na pasta) ou grupo adverbial (aqui).
     Em termos didácticos, considero que, para se trabalhar complementos oblíquos, há que seguir os seguintes passos, progressivamente equacionados na abordagem sintáctica de frases:
       a) diferenciar complementos (elementos seleccionados pelo núcleo verbal da frase) de modificadores (elementos não requeridos pelo núcleo verbal da frase);
       b) distinguir tipos de complementos considerados no predicado da frase - directos, indirectos, oblíquos (pela aplicação de testes de identificação: interrogação e pronominalização, por exemplo);
     c) progredir na abordagem de complementos oblíquos (por exemplo, abordando inicialmente os que digam respeito a informação de localização temporal / espacial, num contraste típico entre o que sejam complementos oblíquos seleccionados pelo núcleo verbal e modificadores; depois, tratando os complementos que revelem outro tipo de informação, segundo o tipo semântico de verbos utilizado).
      Assim, primeiro, é importante distinguir "Eu moro no Porto" (complemento oblíquo) de "Eu comprei uma casa no Porto" (modificador de valor locativo); depois, nada como abordar os complementos oblíquos pela sua própria especificidade, face a outros complementos, e com os valores semânticos distintos relativamente aos atrás considerados.
    Parto, portanto, da possibilidade de a gramática poder ser ensinada segundo duas perspectivas: pela entrada de sentido (mais associada e articulada com as competências de leitura e escrita); pela entrada da reflexão da língua, numa perspectiva mais oficinal. Se os complementos oblíquos são importantes, para o primeiro caso, em contextos de regulação da escrita (com a preocupação na selecção adequada das preposições que acompanham determinados verbos – ex.: preferir X a Y; cuidar de Y, ir a Y, ir para Y, vir de Y, …), para o segundo, o trabalho centra-se mais na natureza distintiva destes complementos relativamente a outros já abordados (os directos e os indirectos, no primeiro e segundo ciclos; o oblíquo concluir-se-ia no terceiro).
     Focalizando casos de complementação e sua distinção relativamente aos modificadores, é possível trabalhar oficinalmente o contraste da seguinte forma:

        1. Atentar nas seguintes frases:
            a) Os amigos meteram um papel numa garrafa.
            b) Os miúdos puseram um papel numa garrafa.
            c) Os meninos viram um papel numa garrafa.
            d) Eles observaram um papel numa garrafa.
            e) Eles leram um papel numa garrafa.
        1.1. Indicar as frases nas quais se pode retirar “numa garrafa”, mantendo-se as frases correctas. (R: c, d, e)
        1.2. Identificar as frases nas quais a expressão “numa garrafa” é pedida pelo verbo pertencente ao predicado. (R: a, b)
   2. Os complementos de um predicado são exigidos pelo verbo principal; os modificadores não são obrigatórios.
        2.1. Referir as frases que apresentam “numa garrafa” como modificador. (R: c, d, e)

    Focalizando a distinção de complementos, poder-se-á estruturar um questionário da seguinte forma, para as mesmas frases:

  1. Os predicados com elementos destacados a verde começam com um verbo que pede um ou mais complementos.
     1.1. Identificar os verbos que precisam de dois complementos. (R: meter [X em Y], pôr [X em Y])
     1.2. Indicar os verbos que só necessitam de um complemento. (R: ver [X], observar [X], ler [X])
     1.3. Referir o complemento que pode ser substituído pelo pronome pessoal ‘(n)o’. (R: um papel)
     1.4. Reescrever cada uma das frases começando-as por “um papel”. (R: Um papel foi metido pelos amigos numa garrafa,… [transformação passiva, enquanto mecanismo de identificação do complemento directo da frase activa, o qual se transforma em sujeito na frase passiva])
  2. Considerar a expressão “numa garrafa” em todas as frases.
     2.1. Assinalar as frases nas quais a expressão funciona como complemento. (R: 1a e 1b)
    2.2. Verificar a possibilidade de “numa garrafa” poder ser substituída pelos pronomes ‘a’ ou ‘lhe’. (R: Impossibilidade nos dois casos)
 3. O complemento directo de uma frase pode ser substituído, na terceira pessoa, pelos pronomes ‘o(s)/a(s)’, ‘lo(s) / la(s)’ ou ‘no(s) / na(s)’; o complemento indirecto, por ‘lhe(s)’.
    3.1.Relacionar a conclusão anterior com a expressão ‘numa garrafa’. (R: não é complemento directo nem indirecto, em nenhuma das frases) .

    Poder-se-á, então, concluir, depois de tanto trabalho indutivo (metodologia que prefiro, no que à abordagem da gramática oficinal diz respeito), que este complemento tem uma designação motivadamente distintiva (complemento oblíquo).

    Mais um exemplo de como uma abordagem oficinal e a consideração de um critério de progressão poderão minimizar alguma estranheza que os alunos, munidos dos instrumentos e testes de identificação adequados, acabam por reconhecer a funcionalidade.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Voltando aos desafios linguísticos...

      A propósito da partilha de dúvidas, questões,... lá vai mais uma.

      Q: Como é que se distinguem os modificadores do predicado dos modificadores da frase?

   R: Os modificadores do predicado (internos ao grupo verbal que assume a função de predicado, independentemente da localização deles na frase) são constituintes facultativos do grupo verbal e admitem dois tipos de teste: o da interrogação numa estrutura clivada com o verbo ‘Ser’(a) e o da negação (b):

> Os alunos vão participar num torneio no próximo sábado. [Predicado]
> No próximo sábado, os alunos vão participar num torneio. [Predicado]
> O que é que os alunos vão fazer? Vão participar num torneio no próximo sábado. [Predicado]
(a) Vai ser no próximo sábado que os alunos vão participar num torneio?
(b) Os alunos vão participar num torneio não no próximo sábado, mas no domingo.

     O mesmo já não sucede com os modificadores da frase (externos ao grupo verbal que assume a função de predicado, assumindo eles valores da modalidade – isto é, configurando-se essencialmente como advérbios ou expressões adverbiais para marcar o posicionamento do sujeito da enunciação relativamente ao conteúdo da frase / do enunciado). Nestes casos, os testes acima mencionados já não são aplicáveis, uma vez que tornam as frases agramaticais (*):

> Francamente, ele podia fazer um trabalho bem melhor. [Predicado]
> O que é que se passa? Ele podia fazer um trabalho bem melhor. [Predicado]
(a) *É francamente que ele podia fazer um trabalho bem melhor?
(b) * Não francamente mas fingidamente, ele podia fazer um trabalho bem melhor.

    Mais um contributo assente numa abordagem próxima do carácter oficinal do ensino da gramática, desta feita na base de uma função sintáctica. Mais do que a etiquetagem é bom que se instituam processos (testes) capazes de sustentar o conhecimento.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Só modificadores...!

    Há que ter atenção ao nível!

    E este pode ser encontrado em função do foco daquilo que é modificado.

    Q: Olá, Vítor! Desculpa estar a incomodar-te, mas concordas com a classificação de complemento do nome para o constituinte "graças ao degelo do Ártico", em "Fósseis encontrados na Gronelândia graças ao degelo do Ártico"?

      R: Olá. 
    Não posso concordar, mesmo que a sequência em análise fosse apenas o segmento 'degelo do Ártico'. Sendo 'degelo' uma forma nominal decorrente do verbo 'degelar' (verbo tipicamente intransitivo), não há lugar a complemento do nome; portanto, a função sintática de 'do Ártico' é a de modificador do nome (por se tratar de uma expansão do nome 'degelo') restritivo (limitando a referência de 'degelo' apenas ao contexto 'do Ártico'; não assinalado por vírgula).
   A sequência proposta é representativa de enunciados típicos dos títulos (oração não finita participial), numa redução do que deveria ser uma construção frásica passiva: "Fósseis (foram) encontrados na Gronelândia graças ao degelo do Ártico". Assim, "graças ao degelo do Ártico" (que eu faria anteceder de vírgula, já agora) funciona como modificador do grupo verbal (ou do predicado). Trata-se de uma sequência de lógica causal que faz parte do predicado ("[foram] encontrados na Gronelândia, graças ao degelo do Ártico"); portanto, um modificador do grupo verbal. 
       Se este último modificador se analisa ao nível superior da frase, relembro que o modificador do nome mencionado no primeiro parágrafo desta resposta é função sintática analisada a nível interno de um grupo nominal (que teria 'degelo' como núcleo) - ou seja, não ao nível da frase matriz, mas de um elemento que, a um segundo nível, teria na sua dependência uma expansão especificativa.


     Feito o esclarecimento, é caso para dizer que quem se mete com modificadores chama para si algumas "dores" (ara complicar ou "doer" mais, só faltava tratar também os modificadores da frase).

sábado, 31 de maio de 2014

Casos de pontuação: a vírgula

      Digamos que é uma forma útil esta, a de terminar o mês com um pedido justificável.

     Quando são eles a pedir, nada como instruir nos meios que procuram (ainda que uma boa gramática os pudesse orientar de forma mais completa).
virgul A feto, de Sílvio Prado (poema concreto)
(in http://poesiavisualsilvio.blogspot.pt/2010_06_01_archive.html) 
    Q: Professor, tenho tanta dificuldade em acertar nas vírgulas que gostava de lhe pedir, se não fosse pedir muito, umas dicas para ver se acerto mais. Obrigado.

    R: Isto quanto a dicas é tarefa complicada, porque o assunto não é tão simples quanto isso.
     Em vez de dizer o que pode ser feito, talvez seja bom começar por referir o que nunca pode acontecer (talvez assim já se acerte mais do que é costume):

I - Situações nas quais não se pode utilizar vírgula:
     . nunca colocar uma vírgula entre o sujeito e o predicado de uma frase
Alguns alunos ainda se preocupam com a correção da pontuação.
                                   Sujeito                             Predicado                                                                    

   . nunca colocar uma vírgula entre o núcleo verbal do predicado e o(s) respectivo(s) complemento(s) e/ou predicativo(s)
Muitos alunos consideraram a vírgula um sinal de pontuação desnecessário.
[núcleo verbal  + CDirecto    +    Predicativo do CD]                      

    . nunca colocar vírgulas antes de parêntesis ou travessões que funcionem como encaixes ou assinalem modificadores não restritivos
Os estudantes (atentos à explicação) melhoraram os seus desempenhos.

    . nunca colocar vírgulas em sequências que restrinjam ou delimitem uma entidade
O Porto que eu conheci já não existe.

       Para além destas situações essenciais (e específicas), sem considerar alguns casos de uso estilístico ou de variação / gestão possível, é comum considerar os seguintes cenários de utilização da vírgula:

II - Situações de utilização obrigatória de vírgula:
    . assinalar a separação dos elementos de uma enumeração (à exceção do último, por norma introduzido pela conjunção copulativa 'e')
Havia na localidade uma escola, uma igreja, uma mercearia e uma farmácia. 

     . marcar a presença de um vocativo na frase
Meu caro amigo, é favor concluir a tarefa pedida.
Faz o trabalho que te pedi, rapaz.Sem trabalho, meus caros amigos, não condições para grande sucesso.


    . introduzir as coordenadas iniciadas pela conjunção adversativa ‘mas’ ou pela explicativa ‘pois’
Ele estudou a matéria várias vezes, mas continuava a não perceber alguns assuntos.
Todos ficaram desolados com os resultados, pois as notas estavam longe de ser boas.

  . delimitar orações subordinadas relativas não restritivas (apositivas ou explicativas), separando-as da oração principal com duas vírgulas (no caso de um encaixe) ou uma (subordinada à direita)
O ambiente, que se tornou uma questão política, está a degradar-se.
Todos discutem a questão do ambiente, que se tornou uma questão política
.

   separar elementos / segmentos que funcionem como modificadores ou que constituam sequências de comentário / opinião
Para ser franco, agora, não sei o que te possa dizer.
Na noite de ontem, a chuva , infelizmente, não parou de cair.

   . segmentar as subordinadas participiais, gerundivas ou infinitivas quando funcionam como modificadores de um elemento / uma oração subordinante 
Concluído o trabalho, saiu do posto de emprego. (participial
Chegou atempadamente a casa, correndo o mais que pôde. (gerundiva
Teve uma ótima surpresa, ao receber uma visita inesperada. (infinitiva

    . encaixar expressões com valor reformulativo ou explicativo
Ele infirmou, ou seja, não confirmou a história do amigo. 

    . assinalar frases incisas (intercaladas) numa frase superior
O livro, disse o editor, foi um sucesso no estrangeiro.  

  . destacar uma interjeição, sempre que esta é seguida ou precedida de outras palavras
Ai, se esta chuva parasse de vez!

    . separar, numa data, a referência feita ao lugar
Espinho, 31 de maio de 2014 

    . destacar um segmento frásico anteposto face à ordem normal, típica da frase
Um Ipad, ele comprou-o com o dinheiro ganho.

   . marcar a omissão de um verbo que possa ser subentendido a partir de uma sequência anterior (onde se encontra expresso), para evitar repetição desnecessária
Na fila, à frente, estava uma só pessoa; atrás, mais de uma dúzia delas. 

     Depois do estudo, a exercitação.
   Fico-me pelas situações convencionadas. Outras haverá, por razões estilísticas ou motivações não convencionais, que não rezam nesta história.
     
    Espero que, depois da explicação e da exercitação, nova luz se faça na utilização da vírgula. Há quem diga que ela tem, por vezes, o formato da lua. Bom seria que, neste assunto, a noite desse lugar ao dia.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Questões de território

    Não se trata nada de conquistas territoriais; antes, da sua especificação gramatical.

    Logo de manhã começa o dia.

   Q: Olá, Vítor. Diz-me, por favor, se o nome "território" pede complemento do nome ou modificador do nome restritivo.


 R: O termo 'território' não se encontra na tipolo-gia de nomes que seleciona comple-mentos. Neste senti-do, a sua especifi-cação é construída pelo recurso a estruturas que fun-cionarão como modificadores do nome (restritivo ou não restritivo, conforme a construção de referência) .
 Atentando nos segmentos sublinhados nos exemplos seguintes, é possível encontrar sequências representativas de modificadores do nome restritivos (i) e não restritivos (ii):

   i) É preciso marcar o território (que se encontra) sob tutela do estado.
      O território suíço encontra-se dividido em vários cantões linguísticos.
      Há territórios inóspitos à dignidade humana.
    Para além do território terrestre, há quem pretenda dominar o território marítimo e o aéreo.

   ii) Os territórios planetários - terrestre, marítimo e aéreo - têm sido objeto de múltiplas conquistas.
       Cada vez mais se fala de um território, virtual, que ninguém tem e a todos pertence.

        Espero ter ajudado.

      Avancemos para outros territórios!
       

terça-feira, 12 de abril de 2011

Nomes e seus complementos

     A propósito da expansão do grupo nominal, regresso à reflexão sobre modificadores e complementos do nome.

    Q: Confrontando frases, surgiu-me uma dúvida que não tenho conseguido esclarecer sozinha:
     i) na frase 'A pesca baleeira tem vindo a aumentar', 'baleeira' é o complemento do nome "pesca" no grupo nominal 'a pesca baleeira';
     ii) na frase 'Adoro flores frescas e coloridas', 'frescas e coloridas' é considerado pelo DT como um modificador restritivo, o que eu entendo com facilidade.
    A questão é: por que motivo não é também 'baleeira' modificador restritivo na frase já referida? Isto, porque, a meu ver, 'baleeira' restringe a 'pesca', afunila o tipo de pesca, excluindo as pescas que não as da baleia. Ou melhor, se afirmarmos que a pesca tem vindo a aumentar, podemos estar a cometer uma imprecisão, se toda a pesca estiver a decrescer, salvo um tipo de pesca, a da baleia. Assim, parece-me que o GAdj (baleeira) restringe a ideia “alargada” de “pesca”, bem como acontece com 'frescas e coloridas', que restringe, afunila também a ideia de flores.

       R: Suponho que a dúvida se prenda mais com a colocação dos adjectivos (pós nominais) e a informação que comportam. Todavia, a classificação de complemento de nome, conforme a designação o aponta, prende-se com o núcleo do grupo nominal, isto é, os tipos de nome e os elementos por este requeridos na estrutura argumental.
        Ao focalizar-se o nome, concluir-se-á que este selecciona complementos (considerando a tipologia de nomes já aqui apontada) ou, então, é acompanhado por modificadores.
     No caso da primeira frase, aparece um grupo nominal, 'A pesca baleeira', cujo núcleo é um nome eventivo (decorrente de uma forma verbal -'pescar'-, por derivação não afixal, ou a tradicional derivação regressiva). Esta propriedade está implicada no verbo que deriva em nome, pois a estrutura argumental do verbo 'pescar' é transitiva [alguém PESCAR alguma coisa]. Assim, o nome derivado ('pesca') selecciona também um complemento assente no papel temático de agente ou de objecto.
     O mesmo não sucede com o nome 'flor(es)', uma vez que este último não pertence a nenhum dos tipos nominais associados a complementos; daí 'frescas e floridas' funcionar como modificador interno ao grupo nominal (na base da restrição, ou seja, 'Adoro apenas as flores frescas e coloridas'; as que não têm tais características não são adoradas).

    Mais do que a expansão, interessa ver o núcleo, a essencialidade. Esta é uma questão fundamental, lógica, para a classificação sintáctica de qualquer termo, nomeadamente dos grupos de palavras e dos elementos que o compõem.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Sintaxe complicada?

      De regresso aos desafios...

     Q: Já que gosta de desafios, lá vai um: na frase 'Os alunos partiram para Lisboa às oito horas' qual é a função sintáctica de 'às oito horas'? Não é da mesma natureza de 'para Lisboa'?

    R: Diria que se está perante um caso interessante para distinguir complementos de modificadores. Admitindo que a estrutura argumental do verbo 'partir' (enquanto verbo de movimento) requer um esquema do tipo 'Alguém (X) PARTIR para algum sítio (Y)', X e Y serão tomados como os argumentos necessários à construção sintáctica de um sujeito (x: 'Os alunos') a dar lugar a um predicado que contém um complemento oblíquo (y: 'para Lisboa'), além de um modificador. Neste sentido, 'partir' é realizado como verbo transitivo indirecto. Na frase proposta, 'às oito horas' funciona como um modificador que integra o grupo verbal, pois não se constitui como elemento selecionado pelo núcleo verbal.
     Uma forma de diferenciar o estatuto sintáctico destes dois grupos preposicionais ('para Lisboa' e 'às oito horas') é a utilização do teste pergunta / resposta, com a utilização do verbo 'fazer' a substituir um verbo agentivo:

i) O que fizeram os alunos às oito horas?
    Partiram para Lisboa.
ii) * O que fizeram os alunos para Lisboa?
    * Partiram às oito horas.

   A aceitabilidade do par pergunta-resposta em (i) assume a anaforização do verbo 'fazer' relativamente a 'partir para Lisboa' enquanto unidade que o núcleo verbal e o seu complemento representam; a agramaticalidade de (ii) evidencia que o verbo anafórico 'fazer' requer a unidade atrás mencionada, pelo que 'para Lisboa' não pode comparecer na questão (por já estar implicada na anaforização, não admitindo separação face ao núcleo verbal); na pergunta só poderão ocorrer os modificadores - como em (i).
      Consequentemente, a agramaticalidade da resposta em (ii) advém da impossibilidade de o par pergunta-resposta poder ser realizado nos termos propostos, o que, em última instância, daria sempre lugar à questão 'Partiram para onde?' (a motivar a existência de um complemento).

      De novo, sublinha-se a importância da aplicação de testes enquanto instrumentos que possam validar as classificações, as etiquetas que, por si só, de nada valem para a compreensão dos enunciados.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Complementos sim..., mas cada um no seu galho.

         Poderemos até falar de árvores, se elas ajudarem a ver o nível de análise (ou na frase ou no grupo de palavras).

     A propósito de um exercício de um manual de décimo ano de escolaridade e depois de a professora se confrontar com a solução, veio a questão:

      Q: Nos versos camonianos "S'imaginando tanta beleza / de si, em nova glória, a alma s'esquece / que fará quando a vir...", o sublinhado é identificado, nas soluções do manual, como complemento oblíquo. Não pode ser complemento do nome?



   
       R: Pode, sim, tomada a forma verbal 'imaginar' como realização transitiva direta (ALGUÉM IMAGINAR ALGUMA COISA) e 'tanta beleza de si' como o objeto desse exercício de imaginação / idealização. Trata-se de uma leitura possível, na exploração de alguma ambiguidade sintática que o enunciado traz para um leitor menos focado em recursos estilístico-literários do nosso poeta clássico, nomeadamente inversões motivadas por efeitos rimáticos (entre outros efeitos estéticos, temáticos e estilísticos).
     Neste caso, o segmento 'de ti' é encarado como expansão de um núcleo nominal (> "beleza / de si"), pelo que, nessa medida, é face a este núcleo que se impõe determinar o nível de análise e a identificação da devida função sintática interna (ou de segundo nível). Portanto, pela dependência face a um nome (que se expande ou com modificadores ou com complementos internos), interessará saber se este último corresponde ou não aos que se pautam pela seleção de argumentos na sua estrutura lexical (diga-se, aos seguidos por complementos).
      Na tipologia típica dos nomes que selecionam complementos argumentais,  'beleza' é apontado como nominalização de qualidade, isto é, termo tipicamente associado a derivação de adjetivo denotando propriedade (ser belo > ter beleza). As entidades a que esta última se atribui constituem, por norma, os seus argumentos (ex: 'a amabilidade dos anfitriões', 'a beleza da jovem', 'a franqueza do amigo', 'a rugosidade da cortiça', 'a surdez do avô'). Segundo Ana Maria Brito (in Gramática da Língua Portuguesa (coord. Maria Helena Mira Mateus, Lisboa, Ed. Caminho, pp. 330-332), trata-se de um nome lexicalmente relacionado / derivado de um adjetivo (nome deadjetival), traduzível pela sequência 'o facto de ser p' belo > beleza', seguindo-se a este último um grupo preposicional (com valor de genitivo) tomado como complemento de nome.
       Retomando o reconhecido verso de Camões e assumida a beleza de uma entidade (por mais abstrata que seja), no plano da imaginação / idealização petrarquista, esta mesma ('beleza de si') é o resultado de uma relação predicativa ('a entidade é bela') que, por nominalização, se revê na estrutura lexical de um grupo nominal cujo núcleo é expandido por um complemento de nome ('beleza da entidade' > 'beleza dela' ou 'beleza de si').

      Outras leituras poderiam resultar da abordagem destes mesmos versos camonianos (particularmente se a ordem sintática natural fosse mais associada a > 'Se imaginando tanta beleza, em nova glória, a alma se esquece de si'). A multiplicidade de sentidos e a exploração de mecanismos literários (nomeadamente, convocando-se inversões) admitiriam outro tipo de disposições, configurações sintáticas, com implicações  diversas no significado. Nesse outro caso, outros níveis (de análise) e/ou "galhos" surgiriam (e outras funções sintáticas também).

segunda-feira, 17 de março de 2014

Relações oblíquas

    Regressado às questões sintáticas, volta o complemento oblíquo.

    Houve já aqui oportunidade de falar deste complemento, função sintática selecionada pelo verbo principal do predicado (ao contrário dos modificadores que podem ser retirados da frase, mantendo-se esta correta em termos gramaticais).

  Q: Vítor, «arrancamos umas rosas do canteiro»: do canteiro é c. oblíquo?; a estrutura argumentativa do verbo 'arrancar' é como 'tirar'?

      R: Face às questões formuladas, respondo afirmativamente a ambas.
     A estrutura argumental do verbo 'arrancar' implica três argumentos (ALGUÉM1 + ARRANCAR + ALGUMA COISA + DE ALGUM SÍTIO / LOCAL3), sendo o último o complemento oblíquo.
        Acontece o mesmo com o verbo 'tirar' quando este tem o significado sinónimo de 'retirar', 'arrancar', 'mudar de lugar', 'eliminar' (ALGUÉM 1 + TIRAR + ALGUMA COISA 2 + DE ALGUM SÍTIO / LOCAL3).

      Ajuda à identificação dessa função a seleção que o verbo faz de uma preposição, não sendo esta  constituinte da resposta à questão "A quem?" (destinada à função do complemento indireto).

sábado, 23 de novembro de 2013

Regresso aos modificadores

     A propósito do conhecimento (nomeadamente o gramatical), não interessa onde o ter.

    Contacto para nova frase:

     Q: Olá, Vítor, tiras-me uma dúvida, p.f.? Em "A planta é conhecida no Brasil.", "no Brasil" é Modificador do Grupo Verbal, certo?

   R: Certo. Numa frase passiva, o núcleo verbal (o verbo 'conhecer' no particípio passado) ativa a estrutura argumental de um verbo transitivo direto: alguém CONHECE alguma coisa. 
       Subjacente à realização ativa 'Alguém conhece a planta no Brasil', o segmento 'no Brasil' corresponde ao modificador do grupo verbal. O mesmo sucede na transformação passiva, cujo predicado é formado pelo verbo auxiliar ser mais o particípio passado do verbo principal (conhecer > conhecida) e, ainda, o modificador que integra o predicado (no Brasil).
        Entre os testes que evidenciam este último dado, constam os seguintes:

1) a possibilidade de o modificador integrar a resposta focalizada no processo representado pelo verbo 'conhecer':
- O que é que se passa com 'A planta'?
- É conhecida no Brasil.

2) a possibilidade de esse modificador integrar uma questão cuja resposta focalize o sujeito sintático:
- Quem é / O que é que é conhecida no Brasil?
- A planta.

3) a possibilidade de o modificador integrar uma questão do tipo sim / não, podendo a resposta negativa dar lugar a reformulação:
- É no Brasil que a planta é conhecida?
- Sim, é. / Não, não é. É na China.

      Ainda a este propósito, aconselho a consulta de apontamentos anteriores, nos quais a questão foi já abordada com outros exemplos (alguns dos quais bastante complexos no seu processamento e na sua distinção sintática).

terça-feira, 9 de abril de 2013

Consequências da expansão

      A questão não é sobre História, mas dava para uma história bem maior.

     Na expansão de um nome / grupo nominal, têm sido colocadas dúvidas a título da complementação / modificação deste último. Esta não anda longe.

     Q: Na frase "Não percebo a vontade que os estudantes têm de praxar", a oração subordinada "que os estudantes têm de praxar" só se pode classificar como subordinada adjetiva relativa restritiva, uma vez que o pronome relativo "que" retoma o nome "vontade". Em termos sintáticos, a oração deveria desempenhar a função de modificador. Contudo, o nome "vontade" é de natureza epistémica, o que implica a existência de um complemento do nome. Assim, interrogo-me sobre como classificar a oração, uma vez que funciona como completiva.

    R: Respondo à questão recorrendo a vários pontos para o raciocínio exposto na questão, por considerar que há vários dados a abordar (uns para confirmar, outros para rebater):
i) a oração subordinada apontada é efetivamente uma subordinada relativa restritiva, introduzida pelo pronome relativo 'que', retomando o grupo nominal matriz ('a vontade');
ii) a função sintática desempenhada por essa subordinada, a nível interno, é a de modificador (sublinho, a nível interno, pois, a um primeiro nível - o da frase matriz -, "a vontade que os alunos têm de se praxar" funciona como complemento direto do núcleo verbal associado ao verbo 'perceber';
iii) o nome "vontade" não é de natureza epistémica (pois esta última tem a ver com o domínio ou a modalidade do conhecimento - certeza, dúvida, ideia); quando muito, trata-se de um nome associado a uma modalidade do tipo volitivo (a do desejo);
iv) não há implicação direta entre o recurso a um nome que admita complementação e a realização necessária desta última, sendo plausíveis configurações sintáticas distintas (confronte-se o sublinhado das frases "A ideia errada não foi aceite" e "A certeza aparentemente inabalável foi contestada", a apontar para a utilização de modificadores e não de complementos de nome, por mais que tenham sido utilizados grupos nominais que tipicamente selecionam complementos);
v) a oração subordinada não é completiva, já que não é introduzida por uma conjunção subordinativa completiva (mas, sim, por um pronome relativo).
    Falta dizer que os complementos de nome são, por norma, introduzidos por preposição e / ou um adjetivo que admita construção sinónima com um grupo preposicional (ex: americana = dos americanos, da América), ambos a desempenhar papel temático de agente ou objeto
     No caso de a frase ser "Não percebo a vontade de os alunos participarem nas praxes", haveria lugar a uma realização com complemento de nome no sublinhado.
      Assim, não é possível confundir uma questão de complementação (como a da frase final) com uma de retoma e restrição (como a inicialmente proposta).

     A configuração sintática, a natureza das classes de palavras implicadas e os papéis temáticos relativos aos grupos de palavras usados são dados a considerar numa plataforma de análise integrativa, quando se pretende abordar funções sintáticas (sejam estas colocadas ao nível da frase sejam elas respeitantes a funções internas).

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Do nome "livro" e dos seus complementos

      É um facto que a pontuação tem relações muito próximas com a sintaxe, para não dizer que a primeira é muito sintática.

       Talvez, por isso, o que começou a ser pontuação tenha evoluído para uma dúvida de sintaxe.

     Q: A propósito do uso da vírgula, vi uma explicação que passo a reproduzir: "os complementos do nome (não fazem parte do programa do 3º ciclo EB) também não podem ser separados por vírgulas do nome. EX: «Comprei um livro, de aventuras ao João.»"
       Dúvida: o segmento «de aventuras» é complemento do nome? Mas o nome que ele modifica («livro») não faz parte daquele conjunto de nomes que requerem essa função sintática, pois não?

     R: A questão do complemento de nome foi já aqui abordada em vários apontamentos, mas naturalmente muito ainda há a considerar, à medida que as exemplificações vão surgindo.
     A complexidade da questão pode levar a tipificar nomes que admitem a seleção de complemento, o que não invalida ter algum cuidado relativamente às realizações frásicas em que eles surjam (um mesmo nome pode ter expansões tanto com modificadores como com complementos) ou mesmo relativamente à possibilidade de outros nomes poderem integrar o que algumas sistematizações não propõem.
      No caso da palavra "livro", esta pode ser integrada na série de nomes com natureza argumental, como sejam os de parentesco (ex.: pai, filha, irmão, sobrinha...), os de representação de obra (ex.: quadro, desenho, estátua, foto), assim como os que designam relações sociais (ex.: amigo, colega, companheira), relações de subordinação ou dependência (ex.: criado, dono, proprietária), relações do tipo parte-todo (ex.: braço, perna, final, lado, suplemento) e propriedades / qualidades de pessoas ou outras entidades (ex.: altura, conteúdo, contorno, idade, forma, preço, peso...).
     "Livro" está relacionado com entidades concretas associadas a representação de obra, as quais admitem expansões com o papel temático de Agente / Tema, podendo estas últimas, por exemplo e à semelhança de outros complementos, posicionar-se no início da frase em contexto de inversão - conforme se pode detetar nos exemplos dados:

     i) Li vários livros de António Lobo Antunes.  > De António Lobo Antunes, li vários livros.
     ii) Comprei imensos livros de literatura.     >    De literatura, comprei imensos livros.
     iii) Adquiri três obras de medicina.      >   De medicina, adquiri três obras.

   Pelo exposto, faz sentido a reprodução da informação facultada na questão / dúvida, nomeadamente o que se diz relativamente à pontuação (em contexto de especificação e de sequencialização-padrão da expansão à direita; à esquerda, com inversão, nem por isso).

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

A escrita dos nossos ofícios

     Assim vai a escrita oficial, tecnologicamente especializada, virtual (mas não virtualizada) e cada vez mais exposta. E surge isto no dia em que morreu um dos maiores da literatura portuguesa. É, no mínimo, irónico.

    O exemplo não é perfeito, à semelhança do que já se foi encontrando noutras situações de âmbito educativo / formativo, nas quais o exemplo deveria mesmo vir de "cima".
     Hoje de manhã, recebi um mail com um texto que me deixou deveras estupefacto, não só pelo conteúdo (algo duvidoso, pelo que requer de celeridade e pelo que enigmaticamente prenuncia como "todos os processos que se vão desenvolver já a partir do ínicio de 2013") mas também pela forma excessivamente incorreta de registo.
    Creio poder dizer, com alguma felicidade, que alguns alunos meus do ensino básico já poderiam explicitar o que está mal, através do código de correção por mim utilizado.


    Contudo, para os que não o saibam, cá vai a legenda (mesmo à moda dos exercícios que já se vão fazendo em aula, para a explicitação de conhecimentos da língua):
    1 - ausência da marca de vocativo (vírgula);
    2 - ausência de vírgula a abrir o encaixe de um modificador (neste primeiro caso, entre o sujeito e o predicado da frase; mais adiante, entre o verbo nuclear do predicado e o complemento direto sob a forma de subordinada não finita infinitiva);
    3 -  ausência de vírgula a fechar o encaixe de um modificador (subordinada adverbial final) entre o sujeito e o predicado;
    4 - incorreta separação do verbo auxiliar (modal deôntico) face ao verbo principal, no interior do complexo verbal;
   5 - incorreta utilização de maiúscula após a utilização do sinal de dois pontos (que deveria introduzir uma enumeração de elementos separados por vírgula);
    6 e 7 - progressão deficiente da enumeração anunciada (bem) por dois pontos e que, na lógica do autor deste texto, pode ser feita com frases completas segmentadas e marcadas por pontos finais (enfim!), num comprometimento claro do que são segmentos textuais subordinados relativamente aos subordinantes;
    8 - inconsciência quanto à identificação da sílaba tónica (no caso, ['ni], pelo que o acento agudo deve ser colocado no 'i' desta mesma sílaba);
     9 - a incorreta utilização de uma só vírgula a separar o verbo que introduz o predicado do respetivo complemento direto, num desconhecimento sistemático de que os modificadores encaixados devem ter uma vírgula a abrir e outra a fechá-lo (no fundo, a reiterada deficiência assinalada em 2, com implicações da regra geral de que nunca se deve separar o sujeito do predicado por uma só vírgula; o mesmo não deve acontecer entre o verbo do predicado e os complementos por ele selecionados).
      Para finalizar, em termos textuais, há uma declarada incoerência discursiva: para um texto que se anuncia no registo da terceira pessoa ("a DGAE"), esquece-se esse facto para passar a ter a primeira do plural (entre o institucional e majestático "Agradecemos", na vez do simples "Agradece-se") e terminar com a primeira do singular ("Refiro", em lugar de "Refira-se") - em análise discursiva, isto daria para problematizar bastante se estaremos ou não perante um caso de verdadeira "máscara" ou de desvelamento progressivo de quem se apagou, no início, e se quis ou acabou por se deixar revelar, no fim.

      E é assim que todos vamos tendo acesso a material exemplificativo, para demonstrar e explicar o que não deve ser feito na escrita - material autêntico, a merecer revisão por parte das instituições oficiais que produzem e difundem "estas pérolas" textuais.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Os complementos (que até o são) e os circunstanciais (que podem não o ser tanto)

      Ainda a questão das terminologias gramaticais, para lá da distinção entre função sintática e constituintes sintagmáticos.

     Q: Um aluno veio ter comigo com algumas dúvidas. No caderno estava escrita a frase: "Os alunos foram a Sintra com os professores." "A Sintra" estava marcado como Complemento Circunstancial de Lugar. No exame nacional qual é a terminologia que os alunos têm de saber? 
  Outra pergunta: é um complemento circunstancial ou poderemos dizer que é um complemento preposicional pedido pelo verbo transitivo indirecto "ir"?

    R: Segundo as orientações dos últimos anos, bem como nas dos testes intermédios do presente ano letivo, ambas as terminologias (a da gramática tradicional e a do Dicionário Terminológico) são admissíveis, naturalmente em função do que têm sido práticas docentes reconhecidas pelos alunos, algumas das quais ainda fiéis ao que certos materiais apresentam (nomeadamente manuais) ou ao que algumas rotinas docentes têm discutivelmente imposto.
    Certo é que, com a frase em análise, surge um dos casos mais críticos na diferença entre a abordagem proposta pela gramática tradicional e a dos contributos científicos (linguísticos) mais recentes.
     Entende a gramática tradicional que "a Sintra" é um complemento circunstancial de lugar, ainda que, com isso, esteja a colocar-se sob a mesma etiqueta sintática realizações bem diferenciadas: as selecionadas pelos verbos-núcleo do predicado (como a do caso em análise); as que não são requeridas e podem ser retiradas, mantendo-se a frase correta. Se às primeiras não há problema nenhum em as classificar como complementos, o mesmo não sucede com as segundas (designadas pelo DT como modificadores). Similarmente, entende-se que 'em Espinho' seja complemento em 'Moro em Espinho', mas modificador em 'Caminho ao longo da praia, em Espinho' ou 'Em Espinho, compro peixe fresco às varinas'.
    Quanto à noção de circunstância espacial, a questão é mais de ordem semântica (e do papel temático associado) do que sintática, não devendo ser entendido como algo facultativo ou acessório da frase (tal como genera-lizadamente é apresentado pela gramática tradicional).
      Por fim, registo que o complemento da frase indicada é, sintaticamente, de natureza oblíqua. Dizer que ele é preposicional é uma questão que se coloca em termos de constituição sintagmática. De facto, o complemento oblíquo apontado é constituído por um grupo preposicional (formado por preposição mais nome).
(ou de como, no alinhamento dos verbos, há relações oblíquas na gramática das frases)

    Acima de tudo, faça-se a clara distinção, junto dos alunos, entre níveis de análise distintos (grupos de palavras / funções sintáticas), além de se provar, com exemplos claros, a distinção do que é complemento face ao que é um modificador.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Coordenação vs subordinação

       Um apontamento acerca da composição frásica, nos termos em que a questão foi colocada.

     Q: Para se distinguir uma oração coordenada de uma oração subordinada podemos experimentar antepor uma coordenada adversativa, por exemplo, a uma oração coordenada. Apercebemo-nos de que a frase resulta agramatical, ao contrário das subordinadas que se podem sempre antepor à subordinante. No entanto, isso apenas é válido para a subordinação adverbial, certo? 
      1- A Joana disse para ires almoçar 
      2- A mãe precisa de quem cuide do bebé 
      3- A rapariga que está levantada é minha irmã. 
      4- A rapariga, que é portuguesa, dá aulas de Francês. 
      Em qualquer uma destas frases a anteposição da subordinada substantiva completiva não finita (1), da  substantiva completiva finita (2), da adjetiva relativa restritiva (3) e não restritiva ou explicativa (4) não é possível. Dever-se-á manter esse critério como forma de distinção entre a coordenação e a subordinação? 

   R: O princípio genérico que refere para a distinção entre coordenação e subordinação é válido para as subordinadas adverbiais, mas nem todas. Excluem-se as comparativas e as consecutivas, que, na verdade, apresentam um comportamento sintático bem mais próximo da natureza substantiva do que da adverbial (a este propósito, confronte um apontamento anterior que se refere a estas construções mais como complementos do que como modificadores).
       No que toca às subordinadas substantivas, há construções de topicalização que também admitem a inversão, devidamente assinalada pela pontuação. É o caso de ‘Não sei quem fez o trabalho’ > ‘Quem fez o trabalho, não sei’ e ‘Não sei que dizer’ > ‘Que dizer, não sei’).
           Tal propriedade não ocorre com as subordinadas adjetivas.
       O certo é que as possibilidades de inversão das subordinadas não acontecem definitivamente na coordenação, nomeadamente, e sublinho, pelo facto de o elemento articulador ou conector (conjunção ou locução) não poder encabeçar a inversão da coordenada por ele introduzida. Esta impossibilidade é estável, razão mais forte para a identificação da coordenação (ainda que haja outras) do que propriamente aquilo que certas gramáticas apontam como distintivo, isto é, a questão da autonomia das orações coordenadas. Não verdade, não é sequer correto apontar este dado, pois também há muitas subordinadas adverbiais que, uma vez retirado o articulador, se afiguram como autónomas: ex – ‘Os alunos entram na sala quando o professor chega’ / 'Os alunos resolveram bem o exercício porque tinham estudado').

       A alegada simplicidade da coordenação, face à subordinação, é completamente negada quando relacionada com questões anafóricas, elípticas, de estrutura correlativa e de progressão lógica. A inversão é mais um dos testes reveladores da sua complexidade - a requerer uma abordagem explícita do conhecimento a adquirir.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Falta de visão

   Quando se ouve o anúncio "Visão... tenha uma", chego, por vezes, a preferir a falta dela.

  Sou leitor assíduo da revista Visão e tenho a leitura desta como um tempo bem passado, nos momentos em que me procuro informar do que se passa à nossa volta.
   Lamentavelmente, a última edição é exceção a esta disposição geral.
   Já, por si, a capa é muito estranha: com informação tão errada quanto a escolha das pessoas a que dá voz e/ou cuja mensagem reproduz (espero que bem, ainda que com conteúdo mau).


   Na verdade, o complemento direto não é substituído por nenhum outro complemento. E quanto ao oblíquo, ele tem uma natureza sintática muito particular: não é direto, não é indireto e ocorre em situações em que o verbo principal seleciona grupo adverbial (ex.: Eles moram MUITO LONGE) ou grupo preposicional (ex.: Ele colocou o livro NA PRATELEIRA) que admita anaforização com um advérbio (ex.: Ele colocou o livro ALI) ou com a sequência 'preposição + isso' (ex.: Todos adequam o trabalho às condições que têm > adequam o trabalho A + ISSO).
     Além disto, o conteúdo da capa não revela o da entrevista que apresenta nas páginas 72 a75, também de conteúdo com muito que se lhe diga, à responsabilidade ora de quem o transmite o conteúdo ora mesmo de quem costuma dar voz àqueles que muitas vezes não sabem o que dizem - o mínimo para quem afirma, e por várias vezes o fez e sem sentido nenhum, "só o 10º ano não tem literatura" (Edviges Ferreira); "Em lado algum do programa de Português se fala de morte - foram retirados os poemas de Pessoa que a abordam" (Maria do Carmo Vieira) ou "No passado havia complementos circunstanciais de tempo, modo, lugar, etc., conforme se precisava. Mas agora desapareceram e só há o desgraçado de um 'complemento oblíquo'" (Teolinda Gersão).
     Ao contrário da conclusão da jornalista Teresa Campos, são exemplos em nada elucidativos de coisa nenhuma: há literatura no programa de 10º ano (quanto mais não fosse pela abordagem da lírica camoniana); a morte figura como tema em vários textos, de Camões a Pessoa, não tendo eu conhecimento de condicionamento na seleção de poemas ou de temas por via dos programas (para não dizer que Mensagem é obra para encontrar vários poemas, nos quais a 'morte' é ingrediente para uma consciência de simbologia e renovação cíclica, de dimensão cultural; "O menino de sua mãe" e "Ela canta, pobre ceifeira" figuram em muitos materiais escolares como textos paradigmáticos da ortonímia, com veios de morte bem distintos das outras 'mortes' ou perdas que subsistem nas dicotomias do sentir e do pensar); o complemento oblíquo não é tudo e não pode ser entendido como transposição direta nem linear dos complementos circunstanciais (ou não fossem alguns destes exemplos de modificadores internos ao grupo verbal).

     Em suma, páginas que li e que não me trouxeram o bem-estar pretendido no anúncio do fim de semana. Caso para dizer que houve muita falta de visão, para uma revista que se diz de crédito.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Quando o verbo comanda...

     Voltando ao governo do verbo e dos seus governados.

     As dúvidas persistem, relativamente ao que é modificador ou complemento em determinadas frases.

     Q: Na frase "Os alunos chegaram tarde às aulas", 'tarde' e 'às aulas' são ambos modificadores ou complementos?


    R: Nem uma nem outra hipótese ou, então, uma mistura de ambas. Ou seja, há um modificador e um complemento.
    O ponto de partida é o da consideração da estrutura argumental do verbo 'chegar'. Em termos lógicos, este é um verbo bivalente: selecciona um argumento na posição de sujeito sintáctico, mais outro na de complemento (Alguém / Algo [X] CHEGA a algum sítio [Y]). Independentemente da realização frásica os contemplar ou não, esta é a valência básica seleccionada, a qual satura a dimensão lógico-semântica do verbo em questão, com os papéis semânticos implicados (o agente, por um lado; o alvo ou ponto de destino, por outro).
   Assim, [Y] é configurado por um constituinte na forma de grupo preposicional, com a função de complemento oblíquo (conforme o atestam a interrogação: 'Aonde chegam os alunos? > Às aulas; a pronominalização ou anaforização: 'Os alunos chegam lá / aí' > Às aulas).
   Quanto a 'tarde', trata-se do advérbio que modifica o verbo 'chegar', na função de modificador do predicado. Prova-o não só o facto de não figurar na estrutura argumental mas também o de admitir o teste do pró-verbo 'fazer' (Os alunos chegaram às aulas e fizeram-no tarde).

    E para alguém governar, têm os outros que se deixar subordinar, mesmo que não participem activamente na cena representada. Não é política aquilo de que falo, mas bem que podia ser, no jogo de dependências criado, no teatro composto por protagonistas, actores secundários e meros figurantes.