domingo, 24 de janeiro de 2010

"Amo-te mais do que apenas mais um dia"

    Uma simples frase para um texto de uma profundidade e humanidade inquestionáveis. Assim se ouviu em plena representação, hoje, no Teatro Nacional de S. João (e até ao dia 31 deste mês).

     O Ano do Pensamento Mágico: título para uma peça de teatro, baseada num romance homónimo da escritora americana Joan Didion. Melhor seria dizer baseada numa experiência de vida, autobiográfica; registo de memória tornado monólogo teatral. Este mesmo, em solo, é construído por Eunice Muñoz de uma forma tocante, em termos de representação; o mesmo que Diogo Infante encenou de forma muito sugestiva e com a qualidade também dos grandes.
     Os poucos adereços de palco, o fundo musical (da autoria de João Gil e interpretada ao piano por Rúben Alves), a imagem projectada no final são os ingredientes necessários para se reflectir sobre as grandes relações pessoais, sobre a vida e a morte, sobre o acaso e o inesperado que esta última tem : "A vida modifica-se rapidamente... A vida muda num instante... Sentamo-nos para jantar e a vida, como a conhecemos, acaba."
      A dor trágica da perda (duplamente experienciada), a mágoa, a tristeza, a auto-piedade são discursiva e simbolicamente sugeridas, evoluindo numa progressiva redução de teias, emaranhados e espinhos, partilhados numa conversa exorcizadora com o público espectador; substituídas pela resignação, pela libertação dos mortos, pelo apaziguamento com as ondas finais, a evocar a passagem de um tempo, de um estado de espírito.

     O aviso impõe-se: "vai acontecer-vos"; o pedido acontece: "Deixa..." O valor da vida afirma-se pelo amor que a habita, inclusive nas molduras dos retratos, que não há como aceitar como isso mesmo: registos de memória, por mais que se diga ‘amo-te mais do que apenas mais um dia!' E tudo fica tão belo, quando tão bem representado, por mais doloroso que se apresente.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Novo encontro... nova reflexão sobre o ensino da gramática

   Na linha do já acontecido no Porto, chegou a vez de Aveiro: uma sala com cerca de 180 profissionais para ouvir falar sobre o ensino da gramática.

    Chegados ao 'Centro Cultural e de Congressos de Aveiro', tudo se conjugou para que se concretizasse mais um encontro de professores de Português (do 2º Ciclo ao Ensino Secundário). O tema: Ensinar Gramática.
    Genericamente, os mesmos pontos apresentados no Porto foram objecto de uma reflexão que durou toda a manhã deste sábado.
      Oportunidade para abordar tópicos como:

. novo programa de Português no ensino básico;
. conclusões de leitura desse programa;
. especificidades nas orientações de 1º, 2º e 3º ciclos;
. propostas de anualização ao nível do conhecimento explícito da língua;
. articulação dos programas do ensino básico-secundário;
. progressão nos conteúdos linguísticos;
. metodologias de trabalho no ensino da gramática;
. interface sintaxe-semântica;
. exemplos de trabalho / materiais com pouca terminologia;
. gramática em contexto e com sentido.

     Mais houve por certo, atendendo às solicitações, às reflexões, às partilhas que vão acontecendo no final da comunicação. Mais haverá. E o agradecimento final impõe-se, por mais um sábado dispensado ao nosso exercício profissional, em detrimento do pouco tempo que se vai tendo em termos pessoais e familiares.

Para as diferenças de 'haver' e 'existir'

     Nem sempre a sinonímia obriga à mesma configuração sintáctica. Mesmo uma interface sintaxe-semântica admite diferenças no planos de análise.

     Q: Por que razão em "Há cadeiras" o nome tem a função sintáctica de C.D. e em "Existem cadeiras", de sujeito? Ou está errada esta classificação? Se os verbos são sinónimos ("haver" significa, aqui, não "ter", mas "existir"), não deveriam ter um comportamento sintáctico equivalente?

    R: Não necessariamente. Por exemplo, admitindo que 'Eu gosto de café' seja sinónimo de 'Eu aprecio café' e que 'de café' / 'café' correspondam ao mesmo papel temático ou semântico (Objecto ou Tema), a verdade é que o predicado apresenta funções sintácticas distintas: 'de café' é o complemento oblíquo do verbo 'gostar'; 'café' é o complemento directo de 'apreciar'.
     No caso dos exemplos propostos, particularmente em “Existem cadeiras”, o sujeito “cadeiras” encontra-se em posição inversa à ordem normal e marcado pelo plural. Esta última característica é uma pista associada a uma das propriedades típicas de identificação do sujeito: a de obrigar o verbo do predicado a concordar quanto ao número. A par desta propriedade, há a pronominalização possível do sujeito com a configuração “Elas existem” (pronome pessoal na forma de sujeito).
     Já com o verbo ‘haver’, apresenta-se um comportamento sintáctico distinto. 'Haver', na qualidade de verbo principal, obedece a uma estrutura argumental cujo sujeito é de natureza nula (expletiva): ‘[-] Há cadeiras.’ A realização possível  de uma frase como 'Ele há cadeiras para todos os gostos' orienta a consideração de um sujeito ('Ele') detectável em outras línguas, como o francês ('Il') ou o inglês ('There'). Mesmo com a possibilidade de anular a inversão ('Cadeiras há'), nomeadamente com expansões que permitam o encadeamento com uma subordinada relativa, a natureza impessoal do verbo 'haver' (enquanto principal) não admite também conjugação-concordância.
    Assim, “cadeiras” é um argumento interno ao predicado ‘haver+N’ e não argumento exterior (como é o caso do sujeito sintáctico).

    Questão para dizer, em reformulação de provérbio, 'Aproximações, aproximações, distâncias à parte'.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Complemento quê?... Não complemento, ponto!

     Regressados às funções sintácticas, entre exclusões e algumas indecisões, próprias de algumas reflexões.

     Q: Em "Ele regressou cansado" como classificamos "cansado"? Não pode ser predicativo do sujeito. É complemento quê? Parece adverbial, mas cansado é um adjectivo...

       R: Trata-se de uma frase cuja constituição sintáctica não anda longe de outros casos já tratados.
     Apesar de 'cansado' ser formalmente um adjectivo, recategoriza-se como advérbio (regressar de um determinado modo > cansado). Daí a reflexão orientada para a natureza adverbial do adjectivo.
     Em termos sintácticos, não se trata de complemento nenhum. O verbo 'regressar' tem como estrutura argumental a seguinte: X regressa de Y (sendo 'X' sujeito; 'de Y', o complemento oblíquo seleccionado pelo verbo) ou mesmo X regressa a Y (com a representação das mesmas funções sintáticas). Ora, 'cansado' configura o modo como alguém regressou ou chegou. Não se tratando de um elemento sintáctico seleccionado pelo núcleo verbal, desempenha a função sintáctica de modificador.

     Mais um caso para considerar como a relação, a interface sintaxe-semântica acaba por ser uma estratégia interessante a aplicar no conhecimento explícito da língua (entre o que a lógica argumental do verbo implica e a forma como ela é expressa). Daí muito do interesse na aplicação didáctica da gramática de valências.

Um funcionário público... poeta

      87 anos que não chegaram a ser fisicamente; são-no espiritualmente, na qualidade da obra poética que sobrevive.

    O funcionário dos Serviços Médico-Sociais rendeu-se ao poder da palavra, ao labor poético que a tornou luz, sonoridade e sugestão do próprio corpo.


       Nas próprias palavras do poeta Eugénio de Andrade, é o corpo do Homem que se revê na poesia:

      “De Homero a S. João da Cruz, de Virgílio a Alexandre Blok, 
de Li Bay a William Blake, de Bashô a Kavafis, 
a ambição maior do fazer poético foi sempre a mesma: 
Ecce Homo, parece dizer cada poema."
“Poética” in Antologia Breve

       Eis o Homem, eis o artífice da palavra que busca o corpo.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Dúvida "encarnada"; logo eu, que gosto de "azul".

    Reconduzo comentário formulado a propósito da abordagem da parassíntese.

   Q: Quanto à palavra "encarnado", gostaria de saber o processo de formação dela. Estou na dúvida, porque não tenho certeza se "-ado", nesta palavra, é sufixo ou desinência verbal do particípio. Enfim, gostaria de entender bem isso.

   R: A palavra 'encarnado' encontra-se dicionarizada com proveniência do latim, sob a forma 'incarnātu-' (com o significado de 'cor de carne'). Neste sentido, trata-se de uma palavra-base, por natureza. Na lógica de muitos outros termos que não apresentam indicadores afixais - prefixais ou sufixais - de derivação (como é o caso de 'beleza', termo originado a partir do latino 'bellitĭa-', do provençal ou do italiano 'bellezza'), estamos perante um caso em que se revelam apenas processos (diacrónicos) de evolução fonética entre o termo de partida ('incarnātu-') e o termo de chegada ('encarnado').
    Por outro lado, a consciência linguística sincrónica desta palavra encontra-se de tal ordem afastada do significado etimológico que não é comum processar-se o vocábulo em questão como partindo de 'carne'.

    Mais um caso a evidenciar a importância da consulta de um dicionário de/com informação etimológica, antes de se reflectir ou segmentar, em termos morfológicos, os eventuais constituintes de uma palavra.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Depois da vida...

       Há pouco tempo me referi a ele, ao poeta nascido...

       E hoje se cumpre o fim de um ciclo.
       Palavra ao poeta que bem soube do que versava.

Estigma

Filhos dum deus selvagem e secreto
E cobertos de lama, caminhamos
Por cidades,
Por nuvens
E desertos.
Ao vento semeamos o que os homens não querem.
Ao vento arremessamos as verdades que doem
E as palavras que ferem.
Da noite que nos gera, e nós amamos,
Só os astros trazemos.
A treva ficou onde
Todos guardamos a certeza oculta
Do que nós não dizemos,
Mas que somos.


      Vinte e seis anos depois da morte: porque Ary dos Santos não foi só um dos homens dos tempos de Abril nem tão-pouco o das letras de canções. Foi poeta em grande, alguém que interessa rever pelo que escreveu.

Referências de leitura: imperativo / conjuntivo

    Recupero um comentário que, pela solicitação feita, merece a autonomia de publicação. Frutos de um encontro de e entre profissionais.

       Q: Caro colega,
     Como aprecio muito o manual 'Das Palavras aos Actos', estive hoje na excelente acção de formação dinamizada pelo Vítor no Porto. Relativamente a uma explicação que deu, agradecia imenso se me pudesse dar uma informação. Sempre considerei, tal como referiu o Vítor, que no Imperativo apenas existe a 2.ª pessoa e a forma afirmativa; e que, em todos os outros casos, se usa o presente do conjuntivo com valor imperativo. No entanto, como todas as gramáticas escolares recentes que tenho consultado ultimamente consideram a conjugação do imperativo em todas as pessoas e na forma negativa (coincidindo com o presente do conjuntivo), tenho explicado aos alunos que me parece ser essa a posição dominante da gramática actual, na linha do que é considerado na gramática de Celso Cunha e Lindley Cintra (mas que eu julgava estar mais de acordo com a nomenclatura brasileira). Ora, quando hoje ouvi o Vítor afirmar de forma tão categórica que o Imperativo apenas conta com a 2.ª pessoa e a forma afirmativa, percebi que continua então a ser essa a posição "oficial" em Portugal. Sendo assim, será possível o Vítor indicar-me que gramática(s) (ou outros estudos) validam inequivocamente esta posição relativamente ao Imperativo, para assim todos os colegas da escola passarem a adoptá-la (visto que não é isso que acontece actualmente).
      Muito obrigado e mais uma vez muitos parabéns pelo seu trabalho.

      R: Caríssimo colega,
     Antes de mais, o meu agradecimento pelas suas palavras simpáticas bem como pela sua presença num encontro que, dadas as condições climatéricas, me surpreendeu pela adesão de tantos profissionais motivados e interessados. Desde já, o meu bem haja.
   Quanto ao esclarecimento que me solicita, creio que um primeiro dado a estabelecer é de carácter morfológico. Ambos os modos verbais apresentam paradigmas flexionais distintos. Outro dado tem a ver com a diferenciação entre a designação de tipos de frase (frases de tipo imperativo) e a dos modos verbais: se, para o primeiro caso, podem concorrer vários modos e formas verbais (imperativo, conjuntivo, indicativo; infinitivo), para o segundo, a questão morfológica é decididamente distintiva (veja-se Inês Duarte e a obra Língua Portuguesa – Instrumentos de Análise, pág. 80; a Gramática da Língua Portuguesa, coordenada pela Professora Maria Helena Mira Mateus, pág. 934-936).
    A por si referida gramática de Celso Cunha e Lindley Cintra não deixa de ser sintomática: na distinção entre imperativo afirmativo e imperativo negativo (e aqui entendo que a noção de “imperativo” esteja mais próxima da questão do tipo de frase do que da do modo verbal), é clara a afirmação de que “o imperativo afirmativo possui formas próprias somente para as segundas pessoas do singular e do plural (sujeitos ‘tu’ e ‘vós’). As demais pessoas são expressas pelas formas correspondentes do presente do conjuntivo.” E, quanto ao imperativo negativo, “não tem nenhuma forma própria. É integralmente suprido pelo presente do conjuntivo” (pág. 474, da Nova Gramática do Português Contemporâneo). Na página 465 da obra citada, é ainda assumido, na alínea e), que o conjuntivo independente (por contraste com o conjuntivo de carácter subordinativo, na linha etimológica da própria designação do modo) se emprega em contextos de ordem / proibição (na terceira pessoa), embora eu acrescente que se possa alargar ainda mais o efeito perlocutório de mais enunciados (pedido, conselho, entre outros).
     Na mesma linha de pensamento, sugiro a leitura da Gramática da Língua Portuguesa, de Mário Vilela (Almedina), da qual cito a página 175: “O imperativo, como vimos, apresenta um quadro de formas com lacunas, em que o conjuntivo completa normalmente as formas que faltam ao imperativo.”
     Uma última sugestão: leitura do artigo “Subjonctif et impératif – une contribution à l’étude de la configuration linguistique du SOUHAIT, de l’ORDRE, du REGRET et du REPROCHE”, de Fernanda Irene Fonseca, ao qual poderá aceder na publicação intitulada Gramática e Pragmática – Estudos de Linguística Geral e de Linguística Aplicada ao Ensino do Português (Porto Editora).
    Espero ter sido esclarecedor e orientador nas referências a consultar.
    Sempre ao dispor.
    Cumprimentos.

   Que este seja um sinal da rede, da parceria, das colaborações sugeridas e necessárias para os trabalhos e desafios que a todo o tempo nos surgem... e que, neste momento, são de monta.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Um espectáculo... porque é bom lembrar

      Depois da intensidade da manhã, a noite de ontem deu em teatro... no Auditório Municipal de Gaia.

        Baseado em textos de Luiz Francisco Rebello e com encenação de Oliveira Alves, "Moinhos de Medo" é um espectáculo no qual se combinam duas peças marcadas pelo toque temático da crise da vida humana, do desencanto, da desilusão, da trágica consciencialização do que não pode ser recuperado.
      De destacar, a dupla Aleixo Rodrigues - Isabel Castiajo, numa representação levada a cabo num palco minimalista, pleno de movimentação, de expressividade, de jogos de luzes e vozes.
     Um balanço de vida constrói-se, entre a percepção que dela se fez (mais a traição que ela possa ter cometido) e a alternativa que ficou por tomar. Ciclos de vida que se interrompem pelas forças com que o Homem depara (nomeadamente a sua, reflectida num livre arbítrio que a tudo pode conduzir).
     Um exemplo do palco da vida, da ficção que se transforma em realidade (pelo desafio e pela reflexão lançada aos que, do fingimento, recebem, na plateia, uma mensagem, um apelo para repensarem muito dos seus percursos do dia-a-dia).

     Porque há actores e actrizes que tudo têm para ombrear com nomes sonantes do nosso teatro, fica o registo de que é bom saber como alguns anos de experiência (e de notório saber e qualidade dramática) se conjugam com valores mais novos na representação.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Calor humano em tempo frio com chuva

   Contra ventos e marés (porque houve muita chuva e algum vento a lembrar o frio), persistem os resistentes: professores motivados, em busca de partilha e encontros profissionalmente orientados para formação na área disciplinar. Ao sábado.


   E foram muitos (cerca de 300) os que, no Porto, partilharam comigo mais um dia de trabalho e de reflexão sobre o ensino da gramática.

   Foi tempo para se falar
. do contexto do novo programa de Português no ensino básico;
. de algumas conclusões de leitura desse programa;
. de especificidades de 1º, 2º e 3º ciclos, bem como de propostas de anualização ao nível do conhecimento explícito da língua;
. do programa do ensino secundário e de como, regressivamente, a articulação básico-secundário se refez;
. do que seja a progressão em dois casos concretos de conteúdos linguísticos;
. de metodologias de trabalho, no que ao ensino da gramática diz respeito;
. de vantagens na articulação de domínios (interface sintaxe-semântica);
. de exemplos de trabalho / materiais com pouca terminologia;
. de gramática em contexto e com sentido.
    E tanto mais havia para dizer, para perguntar e esclarecer.

   Ficaram reflexões, pistas, linhas de acção, propostas de trabalho e orientações para que se aproveite uma oportunidade para constituir grupos de trabalho, parcerias e redes de comunicação que propiciem melhores condições para o muito trabalho que há a fazer. E o agradecimento a todos os que estiveram presentes (de longe e de perto), inclusive aos organizadores e aos que me dirigiram a sua palavra de apreço.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Caiu neve... e não era Nova Iorque nem Natal!

        Grande foi o nevão lá p'rós lados de Baião.


       Nevão em Baião (Janeiro, 2010)      VO

       Era o regresso a casa. Um branco e preto de meter aflição, sempre que, depois da curva, tudo era neve a cobrir o chão.
       Antes, no recolhimento de um hotel, os flocos voavam, fazendo relembrar uma só quintilha da "Balada da Neve", nas palavras de Augusto Gil:


                   "Fui ver. A neve caía
                   do azul cinzento do céu,
                   branca e leve, branca e fria…
                   Há quanto tempo a não via!
                   E que saudades, Deus meu!"


       Apagado o sol do dia anterior, recordado o passeio à estação de Aregos e o ar queirosiano de A Cidade e as Serras, foi a vez da neve, qual "toalha calada sobre tudo" (Alberto Caeiro, in Poemas Inconjuntos) ... branca.

sábado, 2 de janeiro de 2010

A oportunidade de um novo ano

Ainda nos primeiros passos deste ano, uma nota da esperança que nos deve alimentar.



Esperança, do inglês
George Frederick Watts (1817-1904)

Reencontro com Mário Quintana, não tivesse ele nascido em terra de Vera Cruz, numa de nome sugestivo: Alegrete.

Esperança

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
- Oh delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
- Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
- O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...
                                                                             
                                             in Nova Antologia Poética, Editora Globo, São Paulo,
                                            1998, pág. 118.
 
No calor da poesia tropical, para contrariar o vento frio com que somos brindados neste início de Janeiro.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

I'll be with you again

      Em dia de Ano Novo, nada melhor do que relembrar New Year's Day dos U2.

      Chegados à primeira década do século, a caminho da segunda, é tempo de voltar a acreditar, mesmo quando o desânimo, a descrença já se fizeram sentir.


 Yeah...
All is quiet on New Year's Day
A world in white gets underway
I want to be with you
Be with you night and day
Nothing changes on New Year's Day
On New Year's Day

I will be with you again
I will be with you again

Under a blood red sky
A crowd has gathered in black and white
Arms entwined, the chosen few
The newspapers says, says
Say it's true it's true...
And we can break through
Though torn in two

We can be one

I...I will begin again
I...I will begin again


Oh...
Maybe the time is right
Oh...maybe tonight...

I will be with you again
I will be with you again

And so we're told this is the golden age
And gold is the reason for the wars we wage
Though I want to be with you
Be with you night and day
Nothing changes
On New Year's Day


      Num pequeno excerto de um poema de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), ficam as palavras poéticas, muitas vezes feitas da verdade que nenhuma ficção pode contornar:


Escultura do poeta, da autoria de Leo Santana, na Praia de Copacabana

"...
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre."

      Tempo de balanço, de renovação, de esperança.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Quando o destino morre de repente...

     Ecos de um título para evocar o nome de Alves Redol, esse escritor neo-realista que no ano de 1911 nascia e cuja obra literária se estenderia para lá do ano de 1967 (com a peça de teatro O destino morreu de repente) e do ano da morte do autor (1969).

    Entre a novela "Drama na Selva" (1932), publicada no Notícias Ilustrado de Lisboa, o romance Gaibéus (1939) - designação para os camponeses que ceifavam o arroz na zona do Ribatejo - e o conto "Nasci com passaporte de turista" (1940), António Alves Redol marca o início da sua escrita entre a prosa e a dramaturgia, reconhecidas pela sua natureza empenhada com a questão social, o mundo do trabalho e o retrato de alguma da miséria humana que se fazia sentir numa época dominada por figuras como Hitler, na Alemanha, e Salazar, em Portugal.


Estátua do Mestre Lagoa Henriques,
na cidade natal do escritor (Vila Franca de Xira),
numa leitura de um autor desligado dos bens materiais
e empenhado numa obra de escrita simples;
de uma nudez própria de quem dá a conhecer o homem,
o seu corpo e o esforço despendido no trabalho.
É a postura de quem desafia,
com os sinais do inconformismo
que também marcaram o autor do conto "Tatuagem" (1950) -
essa gravação na pele, com a dor da miséria.

     Um homem para quem a arte era:

"... um brilho estranho que se alimenta de tudo.
E nela é raro o que se perde inteiramente.
A arte para todos precisa de ser amassada por muitos,
e cada qual com a sua inteira personalidade.
No mundo dos homens, nada se perde."


(entrevista publicada na revista Plateia, 10 de Dezembro de 1961)

     Lembro-me de ter lido Constantino, guardador de vacas e de sonhos (1962), requisitado numa biblioteca itinerante que, à sexta-feira, pelo fim da tarde, chegava ao largo de Custóias para todos aqueles que buscavam, na leitura, o prazer de uma semana. Um pequeno livro a retratar a infância ribatejana de meninos-homens de que Constantino é um exemplo: menino travesso, que experiencia a vergonha de não passar na terceira classe; trabalhador do campo, a viver com os pais e uma avó que lhe dá a conhecer o sentido da responsabilidade. Retrato e preocupações de uma época.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Sem palavras... com tudo para comunicar

     Chapéu de coco, bengala, calças largas e grandes sapatos, num andar com os pés abertos para cada lado. Um louco, um palhaço, um parvo de bigodinho estreito e com a inocência própria dos que acabam por lidar com a verdade e a sinceridade.
 

     Há 32 anos, a presença física do familiar Charlie Chaplin deixou de se fazer ver; hoje, o popular Charlot permanece como o vagabundo-herói com que muitos se identificaram na luta contra o mal e a injustiça.

«Pensamos em demasia e sentimos bem pouco.
Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade.
Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura.
Sem essas virtudes, a vida será de violência
e tudo será perdido.»

     Data de 1936 um filme (o último em cinema mudo realizado pelo próprio actor) que reflecte muito destas palavras: Tempos Modernos. Uma crítica à industrialização na lógica organizacional taylorista e fordista. Uma reflexão sobre o poder da máquina, um pouco na lógica do que Vertov já havia feito, sete anos antes.


     Lembro-me de como, sem palavras, todo ele comunicava e fazia rir. Momentos de alegria em família, num tempo em que a televisão deixava ver o que parecia ser demasiada ficção. E tanto já tinha de realidade, na denúncia do que as máquinas acabam por nos fazer.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Por mais este Natal...

       Há quem diga que é das noites mais bonitas do ano.

      No escuro de uma noite chuvosa e fria, ao calor de uma lareira e à luz das lâmpadas de uma sala, bem como dos clarões intermitentes tanto do pinheiro como do presépio, uma mensagem nasceu:














Postal Doméstico - II
(Dezembro, 2009)
VO





Apagado o céu
que azulou o mar,
esfriado o tempo
que se olvidou do sol,
busca-se nova estrela
que ilumine a nossa esperança;
que nos guie até ao milagre.


Por cada ser humano
que noutro se queira achar,
em cada prato na mesa
que de manjares nos console,
renuncia-se à treva
que cada anoitecer lança;
que impeça que o nascer se consagre.


É tempo de recuperar o calor luminoso do Natal!

Gondomar

       Assim se cumpriu mais uma noite que, para alguns, terá o encanto de nenhuma outra; para outros, no frio do tempo, viver-se-á o gelo da solidão; para outros ainda será o momento que antecede um novo dia. Entre o encanto e o sofrimento, esta é mais uma noite... de Natal.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Se bem me lembro...

    Na Terceira, em 1901, nascia um homem voltado para o mundo, mente de uma insularidade ou açorianidade universais.


     O choro da criança nascida fez-se Canto Matinal (1916). Cresceu em Amor de Nunca Mais e Fala das Quatro Flores (1920), respectivamente expressão dramática e poética para quem viria a assumir-se como um autor e professor de Literatura atento à pluralidade (que engloba a contradição, o insólito e a renovação cíclica) e à novidade do mundo. Nem toda a noite a vida é um título para o ano de 1952, entre muitos outros que se lhe seguiram essencialmente na poesia e no romance.


      NOMEIO O MUNDO

Com medo de o perder nomeio o mundo,
Seus quantos e qualidades, seus objectos,
E assim durmo sonoro no profundo
Poço de astros anónimos e quietos.

Nomeei as coisas e fiquei contente:
Prendi a frase ao texto do universo.
Quem escuta ao meu peito ainda lá sente,
Em cada pausa e pulsação, um verso.
in O Verbo e a Morte (1959)


     A imagem televisiva de um homem que conversava, contava histórias e dizia poemas; que comunicava. Estas são algumas das memórias que ainda guardo de alguém também feito de humor e em constante diálogo (cheio de intensas emoções) com o telespectador.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Ficam-me as sombras... das verdadeiras imagens

      Parece Platão e a teoria do conhecimento, inspirada no Mito da Caverna.

     Leves reminiscências do que não vi - o resultado da observação das primeiras fotos desse espectáculo que o InSkené-gTag levou a cabo no passado sábado, no Auditório Municipal de Gondomar.


        Cada vez fica mais a sensação de ter lamentavelmente perdido algo imperdível.



       A sombra de um Pessoa... de um Nininho escrevendo à sua Ofélia, num pequeno passo da representação de "Tudo em Pessoa(s) - Com sentido (ou consentido)":


    "Meu amorzinho, meu Bebé querido:
    São cerca de 4 horas da madrugada e acabo, apesar de ter todo o corpo dorido e a pedir repouso, de desistir definitivamente de dormir. Há três noites que isto me acontece, mas a noite de hoje, então, foi das mais horríveis que tenho passado em minha vida. Felizmente para ti, amorzinho, não podes imaginar. Não era só a angina, com a obrigação estúpida de cuspir de dois em dois minutos, que me tirava o sono. É que, sem ter febre, eu tinha delírio, sentia-me endoidecer, tinha vontade de gritar, de gemer em voz alta, de mil cousas disparatadas. (…) Estou cheio de frio, vou estender-me na cama para fingir que repouso. Não sei quando te mandarei esta carta ou se acrescentarei ainda mais alguma cousa.
   Ai, meu amor, meu Bébé, minha bonequinha, quem te tivesse aqui! Muitos, muitos, muitos, muitos, muitos beijos do teu, sempre teu
Fernando"

Carta de Fernando Pessoa a Ofélia, pelo Dia dos Namorados (19/02/1920)

       Restam-me as sombras... já que não posso nem pude ter acesso às imagens originais do dia da representação. Talvez quando for filósofo... ou poeta.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Regresso das dúvidas... entre a ortografia e a morfologia

      Já que tenho de ficar em clausura, que o faça com alguma utilidade (esperemos!).

     Passo a dar corpo virtual a um espaço de perguntas-respostas que, sem qualquer identificação de quem questiona, é genericamente identificado com alunos, colegas com quem trabalho diretamente, além de muitos outros que se têm cruzado comigo neste meu caminho profissional.

    Q: É possível defender-se a regra ortográfica, como li num manual, de que as palavras com os diminutivos '-inho' e '-ito' se escrevem com 'z'?

   R: Desconheço essa regra e suspeito que haja nela o cruzamento de elementos que não são necessariamente semelhantes nem estão no mesmo plano de análise. Sem exemplificação, não tenho possibilidade de exercer sentido crítico preciso sobre a afirmação proposta. Contudo, avanço com os seguintes cenários:
i) famoso > famosito
ii) vaidoso > vaidosinho; vaidosozinho / vaidosito; vaidosozito
iii) vaso > vasinho; vasito / vasozinho; vasozito
iv) bom > bonzinho / bonzito [ou bem > benzinho / benzito)
v) menino > menininho; meninozinho
vi) gosto > gostinho; gostozinho / gostito; gostozito
vii) papel > papelito; papelzito / papelinho; papelzinho
viii) gato > gatito; gatozito / gatinho; gatozinho
ix) livro > livrito; livrozito / livrinho; livrozinho
x) pijama > pijamita; pijamazito / pijaminha; pijamazinho
     Bastaria ler i), ii) e iii) para verificar como a regra citada não se aplica generalizadamente.
     Pela dupla possibilidade das derivadas em ii) e iii), v), vi) e vii), viii) a x), outros dados se antevêem.
    O par sufixal '-inho' / '-zinho' bem como o '-ito' / '-zito' apontam para regularidades morfológicas que podem ser traduzidas nas seguintes orientações gerais:
. enquanto os primeiros termos de cada par se associam a radicais (vaidos-> vaidosinho; gat-> gatito), os segundos fazem-no relativamente a palavras (gosto > gostozinho; gato > gatozito);
. nos primeiros casos, o índice temático da palavra derivada é o mesmo da derivante (livro > livrinho); já nos segundos, há um índice temático próprio relacionado com o género da base derivante (pijama > pijamazito, pijamazinho).
    Estas são orientações para se poder defender que '-inho' e '-zinho', ao contrário do que é defendido tradicionalmente, são sufixos distintos; o mesmo sucede com '-ito' e '-zito'. Mais ainda: 'z' não tem estatuto de consoante de ligação como muitas vezes se lê (a este propósito, consulte-se as páginas 958-961 da Gramática da Língua Portuguesa, coordenada pela Prof. Mira Mateus, da Caminho). Daí também alguma da imprecisão na regra mencionada.
      Acrescente-se o facto de a reduplicação dos sufixos poder ser tomada como indicador de diferenciação (um pinguinhozinho); para além deste dado, outros poderiam cruzar-se no estudo dos pares de sufixos em apreço, como os que se prendem com: a forma como termina a palavra derivante; a comparação da acentuação fónica das palavras derivantes face às derivadas por sufixação; os contrastes de género entre as palavras derivantes e as derivadas.

      Muito discutível é a regra partilhada, tal como muitas generalizações morfológicas e ortográficas que por aí grassam, muitas vezes em manuais escolares e/ou gramática ditas pedagógicas. Isto sem falar em casos muitas vezes encarados como resultantes de sufixação, nunca o podendo ser: nem sardinha vem de 'sard-' nem grande galo dará 'galão'.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Do acto ao facto

     Apresentação pública de uma nova associação recreativa e cultural em Gondomar - ou de como um acto de juventude se faz facto cultural.

      Dia in Skené, ou melhor, noite in Skené. E eu in kreváti.

      Muitos assistirão ao 'Tudo em Pessoa(s)';
      eu fico-me pela imaginação.
      O gosto de um palco vivido e contracenado no público não foi para mim.
      Espero que o seja para os que me apoiaram na loucura
      de partilhar uma recriação pessoana
      feita de muitos versos,
      feita de múltiplas vozes,
      feita de ensaiados gestos,
      feita de ousada representação.

      Tudo começará com o escuro...
      com uma melodia...


      com uma voz transcendente... entre muitas outras presentes...
      ... e os sentidos possíveis.

      Assim foi pensado o reencontro do público com Ofélia e Pessoa.
     Entre o lamento de não estar onde não posso e a convicção de que muitos darão vida a um sonho, fica o desejo de que este nascimento seja mais um sinal da esperança ambicionada.