sábado, 27 de fevereiro de 2010

Por terras albicastrenses, com gramática

     Nova sessão sobre o ensino da gramática, na terra natal daquele que foi um dos médicos mais reconhecidos do século XVI: Amato Lusitano (pseudónimo para o judeu João Rodrigues - um físico notável, como se diria no tempo).

      Mais um momento para dinamizar uma sessão acerca do ensino da gramática.
      E, a propósito, abordaram-se tópicos como:
      . Gramática e programas de ensino;
      . Gramática: progressão conhecimento implícito > conhecimento explícito;
      . Progressão e anualização do domínio do conhecimento explícito: casos práticos;
      . Gramática, terminologia e discurso pedagógico-didáctico;
      . Gramática e dispositivo estratégico: oficina gramatical;
      . Gramática e integração de níveis de análise.

     Cerca de cinquenta profissionais acompanharam esta iniciativa, que já vai tendo representação em vários pontos do país. Aos persistentes, interessados no tema e fiéis à oportunidade, impõe-se o agradecimento por terem ficado com menos uma manhã (a atirar para a tarde) de descanso ou até de preparação para o que será a próxima semana.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Uns heróis muito tripeiros

       Cruzei-me com Heróis à Moda do Porto.

      Trata-se de uma compilação de contos - produzidos por um grupo de alunos e que, com a coordenação do professor João Carlos Brito, reflectem o que é a linguagem das gentes do norte e da cidade "inbicta".
  Inspirados em contos tradicionais, os autores recontextualizaram as intrigas e a linguagem, para que, entre outros, a Bela Adormecida desse lugar à "Baby Dopada"; o Bambi se transformasse no "Bambi, o Cenourinha; o Capuchinho Vermelho se tornasse em "A Garina da Sé" e a Pequena Sereia acabasse como "A Faneca".
     A adaptação criativa combina com a adopção de um registo linguístico que molda os típicos incipit narrativos de novas configurações ("Há bué bué de tempo", "Esta cena aconteceu lá pró Norte...", "Era uma vez uma garina..."); matiza o escrito de traços de uma oralidade tão tripeira quanto nortenha, para não dizer mesmo fruto dos tempos e dos tiques de linguagem que se reproduzem por muitos locais frequentados por gente jovem na idade e no espírito, sempre disposta a "bombar", a pensar na "naite" (cada vez melhor quanto for 'ol naite longue'); reinventa o número sete para designar a quantidade de traficantes que acompanha a Geninha da Branca (qualquer semelhança com os anões da Branca de Neve não é pura coincidência!) ou, então, o número de contos (que, não sendo os da moeda em uso, valem muito pelas histórias que dão a ler e que não têm preço, pelo bem-estar e pelo cómico que proporcionam).
    Quanto ao epílogo, esse fica com a referência a um espaço comum, o 126 da Rua Passos Manuel, ali frente ao Cinema Olímpia (espaço de redenção, relações, felicidade, festa, também feito de alguns segredos por contar).

      Lê-se na contracapa que as personagens dos contos infantis, nesta obra, desatam a falar "portoguês"; por mim, acho que falam à moda do Norte, dos tempos contemporâneos e de variedades que, não sendo a padronizada, têm a familiaridade que os nossos ouvidos revêem a cada passeio, mercado ou esquina da rua.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Etimologia... com razão?

      O tempo que nos afasta do passado é um presente que nem sempre tem os melhores ecos, lembranças ou reminiscências. Platão diria que são sombras...

      Q: Que me dizes desta definição de étimo: «O étimo é a forma que constitui a origem de uma dada palavra. Normalmente o étimo identifica-se com a base da palavra actual e faz a ponte com a forma original da palavra. Um exemplo de étimo é racio, que é o étimo de “razão” e de “racional”»?


     R: Não sei que diga... não vá o arrazoado constituir alguma referência e de renome. A verdade é que não concordo muito com ela. Mas vamos por partes. Entendo que a noção de 'étimo' remete para a perspectiva diacrónica da língua e é nesse plano que deve ser considerada; daí a necessidade de restringir a primeira afirmação: o étimo é a forma que, diacronicamente, constitui a origem de uma dada palavra. Isto afasta-me, desde logo, da segunda afirmação da definição e do cruzamento com o termo 'base', o qual, morfologicamente, convoca uma perspectiva sincrónica (o que nem sempre é coincidente com 'étimo': por exemplo, a base de 'principalmente' é 'principal'; não o étimo 'principālis').
     Por fim, não creio que o exemplo final seja feliz, pela abrangência e associação de família de palavras que traduz relativamente ao latim e à consciência que se possa ter desta língua (o que não acontece com o comum dos falantes). Além disso, pela consulta de vários dicionários com informação etimológica, 'razão' tem como étimo 'ratiōne-', 'ratĭo, ratiōnis'; racional é um termo que deriva do étimo 'rationāle-, rationālis' e da aplicação de princípios de evolução fonética.

     Mais uma razão para pensar bem no que fazer com o que o passado nos deu. E não há como cruzar várias fontes, para despistar pontos críticos.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Se bem me lembro... outra vez

     Neste dia, ao ano de 1978, falecia o escritor e professor Vitorino Nemésio com 76 anos.

    Dele se registou lembrança por razões de nascimento. Chegou a vez da morte.
  Nesta ligação de contrários se faz a vida, a lembrar um dos poemas nemesianos, também feito  de (re)encontro(s).



A CAMINHO DO CORVO
À Maria Gabriela e ao Rodrigo,
primos filiais

A minha vida está velha
Mas eu sou novo até aos dentes.
Bendito seja o deus do encontro,
O mar que nos criou
Na sede da verdade,
A moça que o Canal tocou com seus fantasmas
E se deu de repente a mim como uma mãe;
Pois fica-se sabendo
Que da espuma do mar sai gente e amor também.
Bendita a Milha, o espaço ardente,
E a mão cerrada
Contra a vida esmagada.
Abençoemos o impossível
E que o silêncio bem ouvido
Seja por mim no amor de alguém.

25.7.1969

in Sapateia Açoriana, Andamento Holandês e outros poemas,
Lisboa, Arcádia, 1976, p. 13

     Na ideia da reconciliação com a vida, na consciência das suas contradições e do inesperado que contém; na força da musicalidade, da visão tão marcadamente insular atenta à universalidade do ser; na experiência pessoal aliada à transfiguração poética; na capacidade de se deixar surpreender pelo que o real e a envolvência do ser têm para dar, desenha-se a flor para um fruto que tem na poesia saber e sabor.

    Desaparecido no mesmo ano de Jorge de Sena, Vitorino Nemésio retratou-se como poeta implicado no encontro de si mesmo, no saber de si - autognóstico; uma forma de compreender o mundo no seu desconcerto universal.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Ai estas mudanças... já não são como soíam...

      Nem tudo o que parece incompreensível o é na verdade. Já se referiu algo neste sentido. Perante a questão, nada como pesquisar e, quem sabe, descobrir a razão no que alguns estudos já demonstraram.


     Q: Achas possível dizer-se que só o 'mas' é conjunção coordenativa adversativa? E o mesmo acontece para o 'e' (aditiva)? E com as restantes conjunções coordenativas?


Pormenor de Trivium (Gramática, Dialética, Retórica)
Manuscrito 1041-2, Paris, Biblioteca St. Geneviève

Ilustração da Gramática segurando uma pena, apontando um dedo regulador a um aluno, além de revelar o olhar próprio de quem aconselha e orienta na aprendizagem.

    R: Prototipicamente, fazem sentido as afirmações pressupostas nas duas questões inicialmente formuladas. Isto porque, caso se entenda por conjunção a classe de palavras que introduz um constituinte ou uma oração coordenada ou subordinada, não deixa de se reconhecer, formalmente, alguma distinção entre esta e os advérbios conectivos.
     Entre as propriedades das conjunções contam-se as seguintes:
   (i) ocupam a posição inicial ou introdutória do termo coordenado / subordinado (sem possibilidade de deslocação);
      (ii) co-ocorrem com outros conectores.
     Neste sentido, o 'mas' é a conjunção prototípica da coordenação adversativa (ex.: "Estudei muito, mas tirei má nota no teste"); o mesmo sucede com outras conjunções prototípicas: 'e' - aditiva ou copulativa; 'ou' - disjuntiva; 'logo' - conclusiva; 'pois' - explicativa.
     Os restantes termos adversativos, tradicionalmente considerados conjunções ('contudo', 'todavia', 'porém') também o podem ser, por conversão, quando se comportam da mesma forma que o 'mas' proposto no exemplo (numa substitução directa). Registam-se, ainda assim, outras realizações em que o comportamento discursivo destes últimos adquire um sentido semântico-pragmático associado a operações de contraste / oposição numa dimensão de conexão (não circunscrita a coordenação), de reforço, de reformulação, de regulação conversacional, de enfatização ou marcação fática. Daí, poderem ser encontrados a par das conjunções prototípicas ('O Pedro estudou muito, mas, no entanto, não conseguiu ter um bom resultado no teste') ou, ainda, de construções de parataxe, com frases simples ('O Pedro estudou muito. Não conseguiu, no entanto, ter um bom resultado no teste'). Assim, nestes últimos cenários não há a função de coordenar (assegurada pelas conjunções); há, antes, marcadores discursivos, instruções semântico-pragmáticas que exploram efeitos discursivos e /ou orientam processos de interpretação (sem classificação em termos de sintaxe). Daí também a classificação destes termos mais como 'advérbios conectivos' do que conjunções (por estas últimas estarem marcadas pela conversão e pelo comportamento restrito à introdução de sequências coordenadas e/ou subordinadas).
    Enquanto advérbios conectivos, não se trata tanto de abordar a composição de frases complexas (coordenadas); o que está em causa é um processo de conexão de natureza mais discursivo-pragmática.
    Procurando ultrapassar esta especificidade científica, algo complexa para os alunos do básico e secundário, tendo nas minhas aulas a utilizar um termo mais genérico: o de conector. Tanto na composição das frases como na funcionalidade pragmático-discursiva, prevalece o sentido comum de articular, conectar, ligar segmentos, sequências relevantes para a oralidade e/ou para o escrito, segundo uma determinada lógica significativa. Neste sentido, um projecto de articulação orientado para a gramática das línguas acabaria por criar afinidades tanto com o Inglês - que recorre ao 'conector' - como com o Francês - que convoca o termo 'connecteur'.

     Na aceitação do exposto, outro caminho se impõe: o da abertura a uma mudança que não se faz por decreto, portaria ou despacho. Nesse espírito, é possível construir (algumas) alternativas. Entre o saber científico e a prática pedagógica, as pontes a construir são mais vantajosas para todos: os que aprendem e os que ensinam. Maior segurança para todos.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Este livro que vos deixo...

     Assim se intitula a colectânea de versos (entre quadras, sextilhas, redondilhas, glosas e ensaios estróficos e versificatórios para textos dramáticos) desse poeta denominado "menor", por uns, "popular", por outros.

   Há 111 anos nascia António Fernandes Aleixo, em Vila Real de Santo António. Tomado pela espontaneidade e pelo improviso de produção poética, este escritor algarvio reflectia nos versos escritos o empirismo e a filosofia de vida própria de alguém que revela intuitos morais e aspirações sociais.

Estátua dedicada ao poeta, na cidade de Loulé,
onde viveu e faleceu.

A arte em nós se revela
sempre de forma diferente:
cai no papel ou na tela
conforme o artista sente.

.
Se vim condenado à morte,
também fiquei a saber
que só aqui pôde ser
um desgraçado ter sorte!...
.
Fala bem, gosto de ouvi-lo,
mas sei que lá dentro fica
para dizer tudo aquilo
que ele vê que o prejudica.
.
Que o mundo está mal, dizemos,
e vai de mal a pior;
e, afinal, nada fazemos
p'ra que ele seja melhor.


    A actualidade da poesia deste escritor sente-se e vive-se, depois do seu desaparecimento há mais de sessenta anos - ora pelos protestos velados e/ou explícitos ora pela participação na consciência de um país ansiado como socialmente menos injusto.


segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

"No tempo em que festejava o dia dos meus anos..."

     Assim o escreveu Pessoa, na pessoa do heterónimo Álvaro de Campos.

     Uma amiga fez-mo rever:


      "No tempo em que eu festejava o dia dos meus anos...": ao som do Português do Brasil, na voz do saudoso actor Paulo Autran. Boa declamação, com o embargar da voz próprio; de quem tem idade para a fazer com justiça para o poema.

     Aniversário: às vezes são outros que festejam por nós (e ainda bem, porque devemos ser importantes para elas). Campos lá sab(er)ia por que razão.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Chamar a música

     Alguns dias depois de "Quem me quiser", aí vai uma forma de reencontro.

     Depois da poesia, a música... Chamar a música.


   CHAMAR A MÚSICA

Esta noite vou ficar assim
Prisioneira desse olhar
De mel pousado em mim
Vou chamar a música
Pôr à prova a minha voz
Numa trova só p'ra nós

Esta noite vou beber licor

Como um filtro redentor
De amor, amor, amor
Vou chamar a música
Vou pegar na tua mão
Vou compor uma canção

Chamar a música
A música
Tê-la aqui tão perto
Como o vento no deserto
Acordado em mim
Chamar a música
A música
Musa dos meus temas
Nesta noite de açucenas
Abraçar-te apenas
É chamar a música

Esta noite não quero a TV
Nem a folha do jornal
Banal que ninguém lê
Vou chamar a música
Murmurar um madrigal
Inventar um ritual

Esta noite vou servir um chá
Feito de ervas e jasmim
E aromas que não há
Vou chamar a música
Encontrar à flor de mim
Um poema de cetim


     A música, a letra, a voz. Um exemplo de como poesia casa com música e voz. Assim chegámos à Europa, em 1994.

     Poetisa? Rosa Lobato de Faria, a mesma que, na simplicidade das palavras que dominou, escreveu a multiculturalidade de um povo a que pertenceu: "Que povo é este que partiu / E foi dobrar o Bojador? / Este povo que sentiu o feitiço, o desafio / De inventar um novo amor. / Das mãos unidas nasce a flor / E cada beijo sabe a paz. / Quando a alma sente o amor / Tenha o corpo qualquer cor / Preto ou branco tanto faz."

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Ideais românticos

     Assim o escreveu quem no dia de hoje nasceu, em 1799: Joaquim Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett.


in Da educação, 1º vol. (Educação doméstica ou paternal),
Londres: Sustenance e Stretch, 1829, pág. 8


     Passados mais de dois séculos, muito haveria a dizer.
  Diferenciados os contextos mais o sentido de educação da altura; assumidas as distâncias face ao público-alvo, quem não entenderia ou desejaria estas palavras como actuais? Quem não gostaria de se sentir útil e feliz na sociedade?
    Belo exemplo de formação integral (física, moral e intelectual) face a uma actualidade crescentemente marcada por alguma banalização do que sejam alguns sinais de facilitismo, de perversão de princípios, de ilusão e logro social. Um sentido de oportunidades inoportunas e insensatas, tão pautadas por baixo, sem virtude de exemplo ou testemunho; aparências de exigência e de controlo que só iludem os incautos; simulacros de educação, preocupados com rankings, estatísticas... números. Como se a aprendizagem fosse tão pronta, imediata, sem falhas...
      Credulidades!

   Talvez a máxima queirosiana de que "somos invariavelmente românticos" ainda faça todo o sentido.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

"Quem me quiser..."


      Li O Prenúncio das Águas e uma mulher nova se me revelou: não a das novelas ou das músicas. A portadora da sensibilidade, a do toque de simplicidade e delicadeza. A da serenidade.


     Lembro-me de um poema que cheirou a azul,... que me deu a ver a música... e soou a rosto sereno com um sorriso a apagar o mal.

Quem me quiser há-de saber as conchas
a cantiga dos búzios e do mar.
Quem me quiser há-de saber as ondas
e a verde tentação de naufragar.

Quem me quiser há-de saber as fontes,
a laranjeira em flor, a cor do feno,
a saudade lilás que há nos poentes,
o cheiro de maçãs que há no inverno.

Quem me quiser há-de saber a chuva
que põe colares de pérolas nos ombros
há-de saber os beijos e as uvas
há-de saber as asas e os pombos.

Quem me quiser há-de saber os medos
que passam nos abismos infinitos
a nudez clamorosa dos meus dedos
o salmo penitente dos meus gritos.

Quem me quiser há-de saber a espuma
em que sou turbilhão, subitamente
- Ou então não saber coisa nenhuma
e embalar-me ao peito, simplesmente.


Rosa Lobato de Faria (1932-2010)

        Expressão de gesto, de acto e de afecto em palavras que a poesia deixa relembrar, superando a morte.

        Hoje quem a quiser poderá sempre marcar encontro com a sua obra.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Sintaxe difícil... e com elevação!

      Mais um passinho nas dificuldades da sintaxe.

Q: Na frase "Parece que ninguém reparou na tristeza dele.", qual a função sintáctica de "que ninguém reparou na tristeza dele" é de complemento directo? ou, uma vez que estamos perante um verbo copulativo, funciona como Predicativo do sujeito? Obrigada.

R: Segundo a frase considerada, começo por indicar que não se trata de uma realização de ‘parecer’ enquanto verbo copulativo, para não dizer mesmo que há linguistas que problematizam essa classificação da gramática tradicional (cf. João Peres e Telmo Móia, na obra Áreas Críticas da Língua Portuguesa, aproximando a realização do verbo 'parecer' das construções de movimento de elevação). Portanto, não se trata de predicativo do sujeito.
     ‘Que ninguém reparou na tristeza dele’ configura-se como completiva numa construção em que o verbo da frase matriz (parecer) se realiza com a estrutura de um argumento lógico não vazio e um outro vazio. Assim, face à estrutura argumental traduzível em “Algo parece alguma coisa’, diria que a ‘algo’ corresponde sintacticamente um lugar vazio que se identifica com um sujeito nulo expletivo; ‘alguma coisa’ corresponde à completiva em análise com a função de complemento directo.
     Este raciocínio é corroborado ainda pelo seguinte:
     i) a presença de um sujeito nulo expletivo equipara-se a construções típicas do francês e do inglês que preenchem esse argumento pronominalmente (‘Il semble que X’ e ‘It seems that X’, respectivamente); em Português pode encontrar-se construção similar em Ele parece que X’;
     ii) a classificação da completiva em análise, enquanto complemento directo, é justificada pelo próprio teste de pronominalização que, no caso de construção oracional, dá lugar ao demonstrativo ‘isso’ (‘Parece isso’; ‘Ele parece isso’).

     Este é bem um dos casos que interessará trabalhar depois de se estabilizar noções básicas de sintaxe (tanto em termos de construção como de identificação de funções sintácticas). E, de novo, a integração de instrumentos, como os de testagem, nas aulas de gramática é um princípio a considerar. Seria um passo fundamental para um entendimento da sua dimensão experimental, oficinal e/ou laboratorial.

Regresso ao encarnado... com novo azul

     Reconduzo comentário a um esclarecimento anterior. Não é bem questão, mas a abertura ou suspensão das reticências dá sempre espaço a continuar a reflexão.

     Q: Não se diz palavra base, mas sim palavra primitiva...

     R: A designação ‘palavra primitiva’ associa-se à abordagem da gramática tradicional, bem como a uma nomenclatura, datada de 1967, que, entretanto, deu lugar ao Dicionário Terminológico (2008). Neste último encontra-se o termo ‘base’ como constituinte morfológico a partir do qual se formam outras palavras. Pode este constituinte ser configurado por um radical (ex.: velh-), a combinação de um radical com um índice ou uma vogal temática (no caso, índice temático, em ‘velho’) ou, ainda, uma palavra. De qualquer um destes decorrerá a formação de uma nova palavra.
     No caso de palavras que são formadas na sequência de outras que já são, por si, complexas, não faz muito sentido falar de palavras primitivas (ex.: 'esclarecimento', proveniente de 'esclarecer', ou 'encarnado', derivado de 'encarnar').
     Por outro lado, está também em causa uma perspetiva de estudo e de análise da língua: a designação 'palavra primitiva' remete para uma focalização diacrónica; 'base' assente numa perspetiva mais sincrónica.

     Diz o poeta: "Mudam-se os tempos,... "; não sei se muda a vontade...

domingo, 24 de janeiro de 2010

"Amo-te mais do que apenas mais um dia"

    Uma simples frase para um texto de uma profundidade e humanidade inquestionáveis. Assim se ouviu em plena representação, hoje, no Teatro Nacional de S. João (e até ao dia 31 deste mês).

     O Ano do Pensamento Mágico: título para uma peça de teatro, baseada num romance homónimo da escritora americana Joan Didion. Melhor seria dizer baseada numa experiência de vida, autobiográfica; registo de memória tornado monólogo teatral. Este mesmo, em solo, é construído por Eunice Muñoz de uma forma tocante, em termos de representação; o mesmo que Diogo Infante encenou de forma muito sugestiva e com a qualidade também dos grandes.
     Os poucos adereços de palco, o fundo musical (da autoria de João Gil e interpretada ao piano por Rúben Alves), a imagem projectada no final são os ingredientes necessários para se reflectir sobre as grandes relações pessoais, sobre a vida e a morte, sobre o acaso e o inesperado que esta última tem : "A vida modifica-se rapidamente... A vida muda num instante... Sentamo-nos para jantar e a vida, como a conhecemos, acaba."
      A dor trágica da perda (duplamente experienciada), a mágoa, a tristeza, a auto-piedade são discursiva e simbolicamente sugeridas, evoluindo numa progressiva redução de teias, emaranhados e espinhos, partilhados numa conversa exorcizadora com o público espectador; substituídas pela resignação, pela libertação dos mortos, pelo apaziguamento com as ondas finais, a evocar a passagem de um tempo, de um estado de espírito.

     O aviso impõe-se: "vai acontecer-vos"; o pedido acontece: "Deixa..." O valor da vida afirma-se pelo amor que a habita, inclusive nas molduras dos retratos, que não há como aceitar como isso mesmo: registos de memória, por mais que se diga ‘amo-te mais do que apenas mais um dia!' E tudo fica tão belo, quando tão bem representado, por mais doloroso que se apresente.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Novo encontro... nova reflexão sobre o ensino da gramática

   Na linha do já acontecido no Porto, chegou a vez de Aveiro: uma sala com cerca de 180 profissionais para ouvir falar sobre o ensino da gramática.

    Chegados ao 'Centro Cultural e de Congressos de Aveiro', tudo se conjugou para que se concretizasse mais um encontro de professores de Português (do 2º Ciclo ao Ensino Secundário). O tema: Ensinar Gramática.
    Genericamente, os mesmos pontos apresentados no Porto foram objecto de uma reflexão que durou toda a manhã deste sábado.
      Oportunidade para abordar tópicos como:

. novo programa de Português no ensino básico;
. conclusões de leitura desse programa;
. especificidades nas orientações de 1º, 2º e 3º ciclos;
. propostas de anualização ao nível do conhecimento explícito da língua;
. articulação dos programas do ensino básico-secundário;
. progressão nos conteúdos linguísticos;
. metodologias de trabalho no ensino da gramática;
. interface sintaxe-semântica;
. exemplos de trabalho / materiais com pouca terminologia;
. gramática em contexto e com sentido.

     Mais houve por certo, atendendo às solicitações, às reflexões, às partilhas que vão acontecendo no final da comunicação. Mais haverá. E o agradecimento final impõe-se, por mais um sábado dispensado ao nosso exercício profissional, em detrimento do pouco tempo que se vai tendo em termos pessoais e familiares.

Para as diferenças de 'haver' e 'existir'

     Nem sempre a sinonímia obriga à mesma configuração sintáctica. Mesmo uma interface sintaxe-semântica admite diferenças no planos de análise.

     Q: Por que razão em "Há cadeiras" o nome tem a função sintáctica de C.D. e em "Existem cadeiras", de sujeito? Ou está errada esta classificação? Se os verbos são sinónimos ("haver" significa, aqui, não "ter", mas "existir"), não deveriam ter um comportamento sintáctico equivalente?

    R: Não necessariamente. Por exemplo, admitindo que 'Eu gosto de café' seja sinónimo de 'Eu aprecio café' e que 'de café' / 'café' correspondam ao mesmo papel temático ou semântico (Objecto ou Tema), a verdade é que o predicado apresenta funções sintácticas distintas: 'de café' é o complemento oblíquo do verbo 'gostar'; 'café' é o complemento directo de 'apreciar'.
     No caso dos exemplos propostos, particularmente em “Existem cadeiras”, o sujeito “cadeiras” encontra-se em posição inversa à ordem normal e marcado pelo plural. Esta última característica é uma pista associada a uma das propriedades típicas de identificação do sujeito: a de obrigar o verbo do predicado a concordar quanto ao número. A par desta propriedade, há a pronominalização possível do sujeito com a configuração “Elas existem” (pronome pessoal na forma de sujeito).
     Já com o verbo ‘haver’, apresenta-se um comportamento sintáctico distinto. 'Haver', na qualidade de verbo principal, obedece a uma estrutura argumental cujo sujeito é de natureza nula (expletiva): ‘[-] Há cadeiras.’ A realização possível  de uma frase como 'Ele há cadeiras para todos os gostos' orienta a consideração de um sujeito ('Ele') detectável em outras línguas, como o francês ('Il') ou o inglês ('There'). Mesmo com a possibilidade de anular a inversão ('Cadeiras há'), nomeadamente com expansões que permitam o encadeamento com uma subordinada relativa, a natureza impessoal do verbo 'haver' (enquanto principal) não admite também conjugação-concordância.
    Assim, “cadeiras” é um argumento interno ao predicado ‘haver+N’ e não argumento exterior (como é o caso do sujeito sintáctico).

    Questão para dizer, em reformulação de provérbio, 'Aproximações, aproximações, distâncias à parte'.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Complemento quê?... Não complemento, ponto!

     Regressados às funções sintácticas, entre exclusões e algumas indecisões, próprias de algumas reflexões.

     Q: Em "Ele regressou cansado" como classificamos "cansado"? Não pode ser predicativo do sujeito. É complemento quê? Parece adverbial, mas cansado é um adjectivo...

       R: Trata-se de uma frase cuja constituição sintáctica não anda longe de outros casos já tratados.
     Apesar de 'cansado' ser formalmente um adjectivo, recategoriza-se como advérbio (regressar de um determinado modo > cansado). Daí a reflexão orientada para a natureza adverbial do adjectivo.
     Em termos sintácticos, não se trata de complemento nenhum. O verbo 'regressar' tem como estrutura argumental a seguinte: X regressa de Y (sendo 'X' sujeito; 'de Y', o complemento oblíquo seleccionado pelo verbo) ou mesmo X regressa a Y (com a representação das mesmas funções sintáticas). Ora, 'cansado' configura o modo como alguém regressou ou chegou. Não se tratando de um elemento sintáctico seleccionado pelo núcleo verbal, desempenha a função sintáctica de modificador.

     Mais um caso para considerar como a relação, a interface sintaxe-semântica acaba por ser uma estratégia interessante a aplicar no conhecimento explícito da língua (entre o que a lógica argumental do verbo implica e a forma como ela é expressa). Daí muito do interesse na aplicação didáctica da gramática de valências.

Um funcionário público... poeta

      87 anos que não chegaram a ser fisicamente; são-no espiritualmente, na qualidade da obra poética que sobrevive.

    O funcionário dos Serviços Médico-Sociais rendeu-se ao poder da palavra, ao labor poético que a tornou luz, sonoridade e sugestão do próprio corpo.


       Nas próprias palavras do poeta Eugénio de Andrade, é o corpo do Homem que se revê na poesia:

      “De Homero a S. João da Cruz, de Virgílio a Alexandre Blok, 
de Li Bay a William Blake, de Bashô a Kavafis, 
a ambição maior do fazer poético foi sempre a mesma: 
Ecce Homo, parece dizer cada poema."
“Poética” in Antologia Breve

       Eis o Homem, eis o artífice da palavra que busca o corpo.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Dúvida "encarnada"; logo eu, que gosto de "azul".

    Reconduzo comentário formulado a propósito da abordagem da parassíntese.

   Q: Quanto à palavra "encarnado", gostaria de saber o processo de formação dela. Estou na dúvida, porque não tenho certeza se "-ado", nesta palavra, é sufixo ou desinência verbal do particípio. Enfim, gostaria de entender bem isso.

   R: A palavra 'encarnado' encontra-se dicionarizada com proveniência do latim, sob a forma 'incarnātu-' (com o significado de 'cor de carne'). Neste sentido, trata-se de uma palavra-base, por natureza. Na lógica de muitos outros termos que não apresentam indicadores afixais - prefixais ou sufixais - de derivação (como é o caso de 'beleza', termo originado a partir do latino 'bellitĭa-', do provençal ou do italiano 'bellezza'), estamos perante um caso em que se revelam apenas processos (diacrónicos) de evolução fonética entre o termo de partida ('incarnātu-') e o termo de chegada ('encarnado').
    Por outro lado, a consciência linguística sincrónica desta palavra encontra-se de tal ordem afastada do significado etimológico que não é comum processar-se o vocábulo em questão como partindo de 'carne'.

    Mais um caso a evidenciar a importância da consulta de um dicionário de/com informação etimológica, antes de se reflectir ou segmentar, em termos morfológicos, os eventuais constituintes de uma palavra.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Depois da vida...

       Há pouco tempo me referi a ele, ao poeta nascido...

       E hoje se cumpre o fim de um ciclo.
       Palavra ao poeta que bem soube do que versava.

Estigma

Filhos dum deus selvagem e secreto
E cobertos de lama, caminhamos
Por cidades,
Por nuvens
E desertos.
Ao vento semeamos o que os homens não querem.
Ao vento arremessamos as verdades que doem
E as palavras que ferem.
Da noite que nos gera, e nós amamos,
Só os astros trazemos.
A treva ficou onde
Todos guardamos a certeza oculta
Do que nós não dizemos,
Mas que somos.


      Vinte e seis anos depois da morte: porque Ary dos Santos não foi só um dos homens dos tempos de Abril nem tão-pouco o das letras de canções. Foi poeta em grande, alguém que interessa rever pelo que escreveu.

Referências de leitura: imperativo / conjuntivo

    Recupero um comentário que, pela solicitação feita, merece a autonomia de publicação. Frutos de um encontro de e entre profissionais.

       Q: Caro colega,
     Como aprecio muito o manual 'Das Palavras aos Actos', estive hoje na excelente acção de formação dinamizada pelo Vítor no Porto. Relativamente a uma explicação que deu, agradecia imenso se me pudesse dar uma informação. Sempre considerei, tal como referiu o Vítor, que no Imperativo apenas existe a 2.ª pessoa e a forma afirmativa; e que, em todos os outros casos, se usa o presente do conjuntivo com valor imperativo. No entanto, como todas as gramáticas escolares recentes que tenho consultado ultimamente consideram a conjugação do imperativo em todas as pessoas e na forma negativa (coincidindo com o presente do conjuntivo), tenho explicado aos alunos que me parece ser essa a posição dominante da gramática actual, na linha do que é considerado na gramática de Celso Cunha e Lindley Cintra (mas que eu julgava estar mais de acordo com a nomenclatura brasileira). Ora, quando hoje ouvi o Vítor afirmar de forma tão categórica que o Imperativo apenas conta com a 2.ª pessoa e a forma afirmativa, percebi que continua então a ser essa a posição "oficial" em Portugal. Sendo assim, será possível o Vítor indicar-me que gramática(s) (ou outros estudos) validam inequivocamente esta posição relativamente ao Imperativo, para assim todos os colegas da escola passarem a adoptá-la (visto que não é isso que acontece actualmente).
      Muito obrigado e mais uma vez muitos parabéns pelo seu trabalho.

      R: Caríssimo colega,
     Antes de mais, o meu agradecimento pelas suas palavras simpáticas bem como pela sua presença num encontro que, dadas as condições climatéricas, me surpreendeu pela adesão de tantos profissionais motivados e interessados. Desde já, o meu bem haja.
   Quanto ao esclarecimento que me solicita, creio que um primeiro dado a estabelecer é de carácter morfológico. Ambos os modos verbais apresentam paradigmas flexionais distintos. Outro dado tem a ver com a diferenciação entre a designação de tipos de frase (frases de tipo imperativo) e a dos modos verbais: se, para o primeiro caso, podem concorrer vários modos e formas verbais (imperativo, conjuntivo, indicativo; infinitivo), para o segundo, a questão morfológica é decididamente distintiva (veja-se Inês Duarte e a obra Língua Portuguesa – Instrumentos de Análise, pág. 80; a Gramática da Língua Portuguesa, coordenada pela Professora Maria Helena Mira Mateus, pág. 934-936).
    A por si referida gramática de Celso Cunha e Lindley Cintra não deixa de ser sintomática: na distinção entre imperativo afirmativo e imperativo negativo (e aqui entendo que a noção de “imperativo” esteja mais próxima da questão do tipo de frase do que da do modo verbal), é clara a afirmação de que “o imperativo afirmativo possui formas próprias somente para as segundas pessoas do singular e do plural (sujeitos ‘tu’ e ‘vós’). As demais pessoas são expressas pelas formas correspondentes do presente do conjuntivo.” E, quanto ao imperativo negativo, “não tem nenhuma forma própria. É integralmente suprido pelo presente do conjuntivo” (pág. 474, da Nova Gramática do Português Contemporâneo). Na página 465 da obra citada, é ainda assumido, na alínea e), que o conjuntivo independente (por contraste com o conjuntivo de carácter subordinativo, na linha etimológica da própria designação do modo) se emprega em contextos de ordem / proibição (na terceira pessoa), embora eu acrescente que se possa alargar ainda mais o efeito perlocutório de mais enunciados (pedido, conselho, entre outros).
     Na mesma linha de pensamento, sugiro a leitura da Gramática da Língua Portuguesa, de Mário Vilela (Almedina), da qual cito a página 175: “O imperativo, como vimos, apresenta um quadro de formas com lacunas, em que o conjuntivo completa normalmente as formas que faltam ao imperativo.”
     Uma última sugestão: leitura do artigo “Subjonctif et impératif – une contribution à l’étude de la configuration linguistique du SOUHAIT, de l’ORDRE, du REGRET et du REPROCHE”, de Fernanda Irene Fonseca, ao qual poderá aceder na publicação intitulada Gramática e Pragmática – Estudos de Linguística Geral e de Linguística Aplicada ao Ensino do Português (Porto Editora).
    Espero ter sido esclarecedor e orientador nas referências a consultar.
    Sempre ao dispor.
    Cumprimentos.

   Que este seja um sinal da rede, da parceria, das colaborações sugeridas e necessárias para os trabalhos e desafios que a todo o tempo nos surgem... e que, neste momento, são de monta.