sexta-feira, 30 de julho de 2010

Estarei a precisar de açúcar?

    Finalmente as férias: o sal e o açúcar que se impõem.

    Há um pacote de açúcar que já deu muito que falar (dentro e fora das aulas): por Camões, pelo 'canto' relembrado da epopeia, pela 'música' que a voz dá à poesia no acto de ler / recitar.


    Reencontrei-o, neste meu primeiro dia de férias.
    Com o cheiro a sal no ar e sem o açúcar (que estraga "a verdade do café"), experimento o primeiro dia de um 'dolce far niente dopo molto lavoro'.

    Hum! Estas palavrinhas em italiano estão a fazer-me viver o verdadeiro sentido das férias.



domingo, 11 de julho de 2010

Ai que é já depois de amanhã!

       Não sei porquê, mas tenho a sensação de que vou fazer exame. Oxalá não reprove!

     No 1º Encontro 'A Linguística na Formação de Professores de Português' estava numa posição mais cómoda: a de espectador!
    Agora, vou ser espectador e comunicador. Espero que o seja com alguma "consciência". Impõe-se.
   Pretendo começar por dar conta de uma conversa que veio ao meu encontro no melhor dos momentos (Uma amiga dirá: nada é por acaso. E tem razão!).
    Aqui vai um pouquinho da comunicação:

    "... começo por partilhar um episódio recentemente experienciado.
    O local é uma feira do livro-outlet em Espinho. Aí captei uma conversa de dois interlocutores que se pronunciavam sobre o interesse da leitura e as vantagens desta para o melhor conhecimento da língua. Disfarçadamente procurei acompanhar o que era dito. Simulei o meu interesse por algumas páginas de livros avulsos, quando eram os ouvidos a deixarem-se levar por uma reflexão que me despertou a atenção pelo tema e pela preparação da comunicação para este encontro (que, então, se avizinhava). Mencionados alguns erros comuns na utilização da língua - como os familiares ‘bem-vindo (adjectivo, interjeição) / benvindo (nome)’, ‘traz (verbo) / trás (preposição)’, ‘comesse / come-se’, ‘adesão / aderência’), evoluiu-se para a discussão de estratégias na resolução de outros casos críticos. Um dos elementos dizia que, na escrita, tendia a substituir a palavra ‘ansioso’ por ‘perturbado’, por não conseguir «conscientemente» distinguir se na primeira devia grafar ‘s’ ou ‘c’; o outro lamentava que muitos dos nossos jovens separassem (cito) “os ‘mos’ dos verbos”, quando ele tinha aprendido uma regra fácil para evitar esse erro tantas vezes cometido: «Olhe, nada mais fácil que colocar o ‘nós’ antes do verbo, para saber que não devo separar o ‘mos’».

     Isto de contar conversas alheias não está a parecer comportamento lá muito virtuoso. Enfim!

    Tenho mais dois dias ...

quinta-feira, 8 de julho de 2010

E ainda por causa das formas de tratamento...

      Estamos sempre a aprender!

    Depois do 'você', há outro cuidado a ter, com as "senhoras donas". Assim se depreende do texto seguinte.

   Senhoras donas, por favor!

      Cada país (cada língua, cada cultura) tem a sua maneira específica de se dirigir às pessoas. Mal passamos Vilar Formoso, logo toda a gente se trata por tu, que os espanhóis não são de etiquetas nem de salamaleques.
     Mas nós não somos espanhóis.
    Também não somos mexicanos, que se tratam por "Licenciado" Fulano. Nem alinhamos com os brasileiros, para quem toda a gente é "Doutor", seguido do nome próprio: Doutor Pedro, Doutor António, Doutor Wanderlei, etc..
     Por cá, Doutor é seguido de apelido, e as mulheres, depois de passarem por aqueles brevíssimos segundos em que são tratadas por "Menina", passam de imediato - sejam casadas, solteiras, viúvas ou amigadas, sejam velhas ou novas, gordas ou magras, feias ou bonitas, ricas ou pobres - à categoria de "Senhora Dona".
     Mas parece que uns estranhos ventos sopraram pelas cabeças das gerações mais novas que fizeram o "dona" ir pelos ares ou ficar no tinteiro. Quando recebo daqueles telefonemas que me querem impingir tudo o que se inventou à face da terra - desde "produtos" bancários que me garantem vida farta, até prémios que supostamente ganhei por coisas a que nunca concorri - sou logo tratada por "Senhora Alice." Respondo sempre: " trate-me por tu, se quiser; ou só pelo meu nome, se lhe apetecer; mas nunca por Senhora Alice".
     Mas o cérebro destes pobrezinhos não foi formatado para encontrar resposta a estas coisas, e exclamam logo: "Ah, então não é a Senhora Alice que está ao telefone!"
    Eu sei que isto não é uma coisa importante, mas que é que querem, irrita-me quando oiço este tratamento dado às mulheres.
    Tal como me irrita quando vejo/oiço um jornalista tratar por você alguém com o dobro da idade dele.
    É uma questão de delicadeza. De respeito. E de saber falar português. Três coisas, admito, completamente fora de moda.
    Pois qual não é o meu espanto quando, aqui há dias, na televisão, oiço o Senhor Primeiro Ministro referir-se assim à mulher (também odeio a palavra "esposa"?) do Comendador Manuel Violas. "A Senhora Celeste?" (não sei se é este o nome da senhora, mas adiante).
    Fico parva. Nos cursos todos que tirou, ninguém lhe ensinou que as senhoras são todas "Senhoras Donas"?
    Parafraseando livremente o nosso Augusto Gil, "que quem trabalha num call-center nos faça sofrer tormentos? enfim! Mas o Primeiro-Ministro, Senhor? Por que nos dás esta dor? Por que padecemos assim?

    Assim o escreveu Alice Vieira, numa rubrica do Jornal de Notícias: coluna 'Opinião' , do dia 18 de Setembro de 2008 (pág. 12).

     Não posso esquecer-me disto, para fazer melhor figura que o Senhor Primeiro Ministro (isto porque já não há vento para soprar pela cabeça desta minha 'geração' que já vai nos '-entas') ou para não me equiparar a um trabalhador de call-center (quem sabe se, um dia, não vai ser isto o futuro de um professor: "Estou, sim! Faça o favor de dizer o que deseja aprender!").

terça-feira, 6 de julho de 2010

De alguma deriva nas formas de tratamento

       Alguma da evolução da língua também se faz sentir na dimensão pragmática.

    No capítulo das formas de tratamento, muitos sinais de deriva podem ser perspectivados à luz das diferenças entre o que alguns textos deixam ler e o que as relações interpessoais dão a ver.

    "Este dia [quando Dâmaso fora convidado por Afonso a ir jantar ao Ramalhete] pareceu belo a Dâmaso, como se fosse feito de azul e ouro. Mas melhor ainda foi a manhã em que Carlos, um pouco incomodado e ainda deitado, o recebeu no quarto, como entre rapazes... Daí datava a sua intimidade: começou a tratar Carlos por você. Depois, nessa semana, revelou aptidões úteis (...); e daí por diante passava horas à banca de Carlos (...) Tanta dedicação merecia um tu de familiaridade. Carlos deu-lho."

Os Maias, de Eça de Queirós, cap. VII (pág. 190)

     Cláudio Basto, no artigo "Formas de tratamento, em Português" publicado na Revista Lusitana (nº 29, pp. 183-202) regista 'você' como um derivação de 'vossa mercê' (tratamento nominal outrora dirigido ao rei), que o tempo fez registar com as variantes e reduções fonéticas de 'vossemecê', 'voss'mecê', 'vossancê', 'vomecê', võcê'. A par destas evoluções sonoras, chegou-se ao desprestígio social do tratamento (na zona do Minho e dos Açores há quem reaja, dizendo "você é estrebaria").
     Actualmente, a simplificação que a forma de tratamento permite - pela adopção e redução das marcas morfológicas de flexão verbal à terceira pessoa -; a vulgarização de um discurso de 'moda, de bom tom, de chic'; a exposição ao registo do Português do Brasil acabam por a converter a um sinal de crescente democratização, ainda que socialmente marcado na diferenciação do que é uma pessoa saber avaliar a adequação da sua utilização.
    Por isso, quando um aluno me trata por 'você' e eu o corrijo (explicando a inadequação desse tratamento face a alguém que nos é superior na idade, na experiência, no estatuto), a velha questão do respeito, da adequação, da importância ou mesmo da familiaridade é evocada, por um tratamento que me é contra-argumentado de forma afectiva, comparada à de um pai ou um avô. Em tempos diria, à de um rei!

      E a minha vontade, no meio de tanta deriva, é quase esquecer a questão e dizer: obrigado (mas, para o bem da integração social deles, não o posso fazer).

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Porque dá a sensação de que isto (nos) é familiar...

    Em tempos de Educação atravessada pelos princípios neo-liberais que a sociedade, em geral, idolatra, faz bem lembrar alguns testemunhos e algumas perspectivas.

    Este vem de alguém que, na actualidade, há muito reflecte sobre a formação de professores:

   "Profissão que deixou de ser compreendida como arte, mas como técnica baseada na aplicação da ciência ao ensino e à escola. Esta deverá organizar-se de uma forma racional, aplicando princípios organizacionais das empresas eficazes. Trata-se, portanto, de formar professores eficazes para uma escola eficaz, procurando a investigação científica isolar as características que distinguem as escolas eficazes das não eficazes. Alunos, professores e escolas ligam-se pela mesma preocupação de racionalidade, eficácia e controlo. Por isso, a formação é isomórfica do ensino".

Maria Teresa Estrela (2002: 21) - "Modelos de Formação de Professores e seus Pressupostos Conceptuais"
in Revista de Educação, vol. XI, nº 1, Lisboa, Departamento de Educação da
Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa

     Assim se caracteriza o programa de formação baseado no Competency-Based Teacher Education (em voga nos anos 70, nos EUA). Tudo muito a aproximar-se de um neo-behaviourismo e de uma lógica tyleriana das organizações. É bom que os partidários do discurso dos "clientes" na escola e os promotores de formação formatada, padronizada para todos (como se os problemas, as questões de educação fossem de uma só natureza e do mais literalmente tecnológico), certificadora pela frequência - e não tanto pelas aquisições demonstradas - reflictam sobre esta visão, nem formativa nem formadora para ninguém (o tempo o dirá, se é que já não o está a dizer). Basta ver, com atenção, a crise em que a economia neoliberal nos lançou.
    É o que faz ver a escola, e o que em torno dela gravita, na lógica dominante das empresas e dos resultados.

sábado, 3 de julho de 2010

Chegou o que havia sido anunciado

    Primeiro o prometido ou anunciado... depois o devido. Em tempo de verão, há uma "Bola de Neve" que gela mesmo quem acha que o bullying não é uma das questões quentes nas relações humanas.

    A ideia de um trio (R3 Produções) que, de R, tem o espírito do que é realizável, reanimador; do reconforto, do reconhecimento e da recreação. E também da reflexão.

   
    A 'bola de neve' sugere todo um processo que sai do nosso controlo, o acumular que pode conduzir ao perigo dos extremos (a ser consciencializado, para poder ser evitado).
   E 'bullyings' há muitos nesta vida (nas ruas, nas escolas, nos espaços domésticos, nas pessoas, nos media, nos actos e nas palavras). Nada como nos despedirmos deles todos, para que ela se torne mais salutar, dando lugar ao que se possa construir sem violências, sem medos, sem perseguições.
  
    Uma realização que não deixa de lembrar a primeira experiência que visionei, há cerca de um ano: "Um Programa Sucinto", feito de contratos de leitura. Já nessa altura se marcou pela diferença. Parabéns ao grupo da produção, da realização e da representação.

sábado, 26 de junho de 2010

Da poesia feita música... a descompasso

     No país em que tudo começa a ser possível, caem as referências que sempre foram necessárias e a dúvida instala-se.

     Q: Colega, que acha de uma quadra também poder ser quarteto? Nunca permiti que os meus alunos dissessem tal coisa nas aulas ou nos testes; agora, para a correcção de exames de 9º ano, dizem que devo aceitar. A ser possível, os manuais não deviam contemplar as duas hipóteses? Deixe de lado um pouco do seu cansaço, por favor, e esclareça-me nesta questão.

     R: Numa primeira reacção, diria que nada como consultar uma referência credível.
    Pegando no Tratado de versificação portuguesa, de Amorim de Carvalho, mais precisamente na Terceira Parte (Das Estrofes e dos Sistemas Estróficos), não encontrei a designação de 'quarteto'; só 'quadra'.
      Numa segunda referência, a do Dicionário de Literatura dirigido por Jacinto do Prado Coelho, aparecem duas entradas - 'Quadra' e 'Quarteto' -, ambas com o artigo seguinte: "Estância de quatro versos, ou estância de quatro versos de arte menor", para a primeira, "de arte maior", para a segunda. Ainda aí e em termos de remissão, aconselha-se a leitura da entrada "Estância", na qual se pode ler o seguinte parágrafo: "As estâncias de quatro versos, que, sem distinções, chamamos hoje quadras, encontram-se na poesia portuguesa desde as origens até aos nossos dias. A quadra adapta-se aos metros longos, tomando carácter culto, e aos metros curtos, tomando carácter mais caracteristicamente popular que nenhuma outra estância portuguesa. Alguns autores, como Filinto Elísio, reservam para a estância de quatro versos de arte maior a designação específica de quarteto que, em Espanha, é corrente neste emprego."
      Perante os destaques considerados (da minha responsabilidade), não creio que seja de vulgarizar uma designação que tem traços de especificidade. Se o texto para que o exame aponta obedecer à natureza versificatória da arte maior, não haverá problema em aceitar tal designação - por mais que entenda, a título pessoal, como uma especificidade que não faz muito sentido abordar ao nível de um ensino básico.
       Por essa natureza circunscrita da designação, vejo também razão para não se tornar comum, nos manuais, o 'quarteto', sob pena de, por generalização, o aluno ser inadvertidamente induzido a designar o dístico como 'dueto' (e, por certo, verá nisso regularidade, quando, ainda por cima, a seguir, chega o 'terceto').

      Caso para dizer que a música, agora, é outra, por mais que a poesia dela tenha vivido.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Hedonismo no final de (mais) um ano lectivo

     Prestes a chegar ao fim de mais uma etapa, está a apetecer-me abandonar tudo... pelo prazer que começo a não ter.

    Lembro-me de uma música... costuma ajudar. A imagem e a voz de Deborah Dyer (Skin) impõem-se.
    E veio logo esta, intitulada "Hedonismo". Coincidência!


I hope you're feeling happy now
I see you feel no pain at all it seems
I wonder what you're doin' now
I wonder if you think of me at all
Do you still play the same moves now
Or are those special moods
For someone else
I hope you're feeling happy now.

Just because you feel good
Doesn't make you right (oh no)
Just because you feel good
Still want you here tonight

Does laughter still discover you
I see through all those smiles
That look so right
Do you still have the same friends now
To smoke away your
Problems and your life
Oh how do you remember
Me the one that made
You laugh until you cried
I hope you're feeling happy now

I wonder what you're doing now
I hope you're feeling happy now
I wonder what you're doing now
I hope you're feeling happy now
 
   "To smoke away your / Problems and your life" - que melhor poderia eu agora querer?
 
   Venha daí o S. João. Já que não fumo, salto à fogueira ou lanço balões. Pode ser que estes levem os problemas desta vida feita de cansaços... e deixem algum prazer.

domingo, 20 de junho de 2010

Porque há ministras que sabem o que dizem...

     Em horas de tristeza, ainda há palavras, discursos que deixam esboçar alguma lágrima de alegria.

     Esta foi a sensação no final de um discurso de Gabriela Canavilhas (Ministra da Cultura) que teve tudo menos o tom fúnebre que, naturalmente, se impunha à morte de José Saramago.
     Natural foi mais o registo de homenagem, de cerimónia ao Homem, na constatação de uma velhice de mãos dadas com a infância; no ecoar de uma obra que se fez qual hora de conto ("Era uma vez..."); no constrangimento de uma morte que tanto celebrou a vida, lembrando a avó Josefa (que, aos noventa anos, dizia que o "mundo é tão bonito e eu tenho pena de me ir embora") ou o avô Jerónimo (que se despediu das árvores que havia plantado e chorou por saber que não mais as veria).
     Um fim com a solenidade merecida, não por um escritor, mas com o escritor; um recomeço com a Literatura, o Homem e o Ambiente, tomando o Verbo no princípio.


      «Era uma vez um rei que fez promessas de levantar um convento em Mafra, um soldado maneta, uma mulher que tinha poderes, e um padre que queria voar numa Passarola e que morreu doido;
      Era uma vez Jesus, que disse a Maria Magdalena - “quero estar onde a minha sombra estiver, se lá é que estiverem os teus olhos”;
      Era uma vez um cão que lambeu as lágrimas a uma mulher desesperada num mundo de cegos, desejando também cegar para ser poupada aos horrores que a vista lhe trazia;
       Era uma vez a morte, que tinha um plano e que o cumpriu – abraçou-se ao homem sem que ele compreendesse o que lhe estava a suceder, e ela, a morte, que nunca dormia, deixou descair suavemente as pálpebras enquanto adormecia; no dia seguinte, ninguém morreu;
       Era uma vez um homem, que quando morreu, partiram duas pessoas: saiu ele, de mão dada com a criança que foi – tal como o próprio José Saramago previu, nas suas próprias palavras.
      Era uma vez e tantas outras vezes, o respeito à terra e aos homens, a luta contra as injustiças, a defesa dos direitos humanos, a denúncia contra a guerra do Iraque ou contra a ocupação palestiniana, as causas dos Sem Terra, do movimento anti-globalizante, da preservação do ambiente, ou do anti-clericalismo desassombrado.
      Estas e tantas outras, foram as histórias com que o ateu místico, religioso laico, interrogador de Deus e dos homens, José Saramago, “comunista hormonal” nas suas palavras, questionou Portugal e o mundo incessantemente, directa ou metaforicamente.
     A liberdade do pensamento define o criador: Saramago foi voz lúcida, inconformada, firme, insubmissa na luta contra a desigualdade entre os homens – esta sim “a verdadeira miséria”, dizia.
    Parte da imensa receptividade que as suas obras têm merecido em todo o mundo, e que a atribuição do Nobel cimentou e glorificou, deve-se a esse carácter humanista, à esperança que a sua obra impõe ao Homem.»
(excerto do discurso)

     E com palavras simples tanto se disse.

     Gostei do discurso a um Homem de escrita e pensamento universais. Por isso, obrigado, Senhora Ministra.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Caiu no céu...

    Uma aluna e amiga mandou-me a mensagem: "Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam". A citação fez-me lembrar a leitura de A viagem do elefante e a epígrafe que Saramago colhera do Livro dos Itinerários.



    O itinerário, o rumo pode ser comum; mas sempre singular, quando do momento de morte se fala.
    Na minha experiência inicial de leitura do escritor, já havia sido essa a mensagem tirada de O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984) - a de um fim singular, no fecho de um romance:

    "Então bateram à porta. Ricardo Reis correu, foi abrir, já prontos os braços para recolher a lacrimosa mulher, afinal era Fernando Pessoa, Ah, é você, Esperava outra pessoa, Se sabe o que aconteceu, deve calcular que sim, creio ter-lhe dito um dia que a Lídia tinha um irmão na Marinha, Morreu, Morreu. Estavam no quarto, Fernando Pessoa sentado aos pés da cama, Ricardo Reis numa cadeira. Anoitecera por completo. Meia hora passou assim ouviram-se as pancadas de um relógio no andar de cima, É estranho, pensou Ricardo Reis, não me lembrava deste relógio, ou esqueci-me dele depois de o ter ouvido pela primeira vez. Fernando Pessoa tinha as mãos sobre o joelho, os dedos entrelaçados, estava de cabeça baixa. Sem se mexer, disse, Vim cá para lhe dizer que não tornaremos a ver-nos, Porquê, O meu tempo chegou ao fim, lembra-se de eu lhe ter dito que só tinha para uns meses, Lembro-me, Pois é isso, acabaram-se. Ricardo Reis subiu o nó da gravata, levantou-se, vestiu o casaco. Foi à mesa-de-cabeceira buscar The god of the labyrinth, meteu-o debaixo do braço, Então vamos, disse, Para onde é que você vai, Vou consigo, Devia ficar aqui, à espera de Lídia, Eu sei que devia, Para a consolar do desgosto de ter ficado sem o irmão, Não lhe posso valer, E esse livro, para que é, Apesar do tempo que tive, não cheguei a acabar de lê-lo, Não irá ter tempo, Terei o tempo todo, Engana-se, a leitura é a primeira virtude que se perde, lembra-se. Ricardo Reis abriu o livro, viu uns sinais incompreensíveis, uns riscos pretos, uma página suja, Já me custa ler, disse, mas mesmo assim vou levá-lo, Para quê, Deixo o mundo aliviado de um enigma. Saíram de casa, Fernando Pessoa ainda observou, Você não trouxe chapéu, Melhor do que eu sabe que não se usa lá. Estavam no passeio do jardim, olhavam as luzes pálidas do rio, a sombra ameaçadora dos montes. Então vamos, disse Fernando Pessoa, Vamos, disse Ricardo Reis. O Adamastor não se voltou para ver, parecia-lhe que desta vez ia ser capaz de dar o grande grito. Aqui, onde o mar se acabou e a terra espera."

    Numa outra obra (Deste mundo e do Outro), em registo de crónica e na escrita canónica que não lhe trouxe a fama, pude ver a importância da perspectiva na vida - um eixo temático ecoado noutras narrativas do escritor:

    "Lembro-me de há muitos anos estar deitado no chão, no campo (todos nós devíamos ter nascido e vivido no campo), com o céu por cima, azul, com vagarosas nuvens. De costas, era a posição, e é a posição para quem quiser sujeitar-se à experiência. É importante que haja silêncio. (Um leve fundo sonoro de cigarras, folhagens e piar de aves não perturba. Havia tudo isto no momento de que falo.) Eu estava deitado de costas e tinha o céu por cima. E bruscamente o céu tornou-se qualquer coisa onde se podia cair. Não era a força da gravidade que me mantinha colado à terra, mas a minha vontade."

    Por ora, prefiro acreditar que "um mero trabalhador da palavra" caiu no céu, retomando a viagem sem fim.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Está para chegar uma BOLA DE NEVE

   Já comecei a ver sinais da última realização da R3.

   Para já, um 'still' ("roubado" à página das Rcubo Produções - espero que me perdoem!); depois, há-de chegar a obra-prima (não é história de faca e alguidar, mas anda lá perto, numa adaptação aos tempos modernos).

   
    Estou ansioso pela noite de estreia. Que diria Alfred Hitchcock?!
    (Uma fita de polícia, um caminho, um monte e uns degraus, duas valentes pedras... muito verde... a pedir um pouquinho de vermelho... Hum!)
      
   Porque ainda há quem acredite em dinamizar e ter projectos. Ainda bem! Significa que há futuro.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Passaram quarenta anos


    1970: Almada Negreiros legava ao mundo a sua ausência física, a de alguém que ajudou a criar e a afirmar a mentalidade do Modernismo artístico.

    Para lembrança do homem e do pensamento, deixo aqui o apontamento de um breve ensaio:


   "A diferença entre solução e direcção é esta: a solução é sempre um remédio passageiro para disfarçar a desgraça. Ao passo que a direcção é a própria dignidade posta nas mãos do desgraçado para que deixe de o ser, e a direcção única é a garantia perpétua dessa dignidade."

in "Ensaios"
         Postal com desenho
alusivo a A. Negreiros 
(de Stuart Carvalhais)

    Moderno e actualíssimo. Neste sentido, começo a compreender por que motivo muitos querem soluções: sempre é mais imediato. Prefiro direcções (sem unicidades ou forças bélicas). São menos ilusórias.

domingo, 13 de junho de 2010

Completar com um se... feito de dúvida

   Em tempo de fim de um ciclo, há um outro prestes a começar.

   No desgaste físico do que estes tempos oferecem (sem referências, sem sustentabilidade, sem ideias, sem projectos de acção credíveis... sem sol de confiança), lembrei-me de uma canção de Djavan.


Você disse que não sabe se não
Mas também não tem certeza que sim
Quer saber?
Quando é assim
Deixa vir do coração

Você sabe que eu só penso em você
Você diz que vive pensando em mim
Pode ser
Se é assim
Você tem que largar a mão do não
Soltar essa louca, arder de paixão
Não há como doer pra decidir
Só dizer sim ou não
Mas você adora um se...

Eu levo a sério mas você disfarça
Você me diz à beça e eu nessa de horror
E me remete ao frio que vem lá do sul
Insiste em zero a zero e eu quero um a um
Sei lá o que te dá, não quer meu calor
São Jorge por favor me empresta o dragão
Mais fácil aprender japonês em braille
Do que você decidir se dá ou não

    Se na letra da canção há um 'se' voltado para o desafio, esse mesmo 'se' pode ser lido como limitação. Também nos 'se' destes tempos, muitos são já pressentidos na atitude do que der e vier (face a um tempo feito de incertezas, incoerências e inconsistências). Seria bom que (ou se...) um novo ciclo viesse, diferente em tudo do que foi o último.

    Caso para perguntar: E se...? 

domingo, 30 de maio de 2010

Gramática com "muita fruta"

    Já conhecia o "frutíssimo", gelado de qualidade tão brasileira? Pois agora há um produto novo da Dan Cake!

   Eis a novidade:

   Não estou tentado a experimentar, mas fui levado a repensar o que sabia de gramática e da variação do nome quanto grau. Entre os tradicionais e conhecidos graus diminutivo e aumentativo, terá agora de se contar também com o grau superlativo absoluto sintético (que já não é propriedade exclusiva dos adjectivos), para considerar estes casos de designação nominal de alguns produtos. Ou, assim não sendo, fruta é adjectivo e este passa a ter a funcionalidade de designar entidades (no caso, das mais comestíveis).
   Provas da criatividade linguística associada ao trabalho publicitário.

   Se podia viver sem ele... o produto... o grau...? Claro que podia, mas não era a mesma coisa.

domingo, 23 de maio de 2010

Uma voz fisicamente silenciada

     A morte é estado que abala qualquer mortal (quem perde a vida e quem vive com a perda).

    A notícia da morte de Beto soou, quebrando o aparente ritmo rotineiro dos dias. A música compõe-se noutro estilo, para dar lugar ao pesaroso choro combinado com a perda de uma voz doce e rouca que se fazia ouvir, nos últimos tempos, na rádio e televisão com alguma frequência.
    42 anos de idade interrompidos por uma paragem cardio-respiratória; uma carreira em afirmação que não deixou de se marcar por alguns momentos altos.
    Na memória, ficam várias melodias, uma delas muito apreciada e aclamada, numa parceria de sucesso:


    BRINCANDO COM O FOGO

Vem no fim da noite sem avisar,
dança no silêncio do teu olhar,
a chamar por mim, a chamar por mim.

Chega com a brisa que vem do mar,
brinca no meu corpo a desinquietar
como um arlequim, como um arlequim.

Chega quando quer e não quer saber,
nem do mal que fez ou que vai fazer,
é um tanto faz, crer ou não crer.

Chega assim,
cavaleiro andante,
louco e triunfante,
como um salteador,
p'ra no fim, nos deixar a contas,
com as palavras tontas que dissemos por amor.

E eu que jurei nunca mais cair
nesses teus ardis, nunca mais seguir
esse teu olhar, esse teu olhar.

De nada nos vale tentar fingir
para quê negar ou sequer fugir
desse mal de amar, desse mal de amar.

Chega quando quer e não quer saber
nem do mal que fez ou que vai fazer,
é um tanto faz, crer ou não crer.

   Duas vozes no jogo harmonioso das voltas que Rita Guerra e Beto souberam encontrar em vários momentos (nomeadamente o da gravação de "Desencontros", em 2000).

     Uma voz subtraída a um dueto que fica gravado para a posteridade e para, a partir de hoje, se rever ao vivo eternamente em diferido.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Reciclem a língua, já agora!


   Num folheto publicitário, destinado à troca e à reciclagem de máquinas de café.

    Anda tão mal-tratada a língua que nem à reciclagem das máquinas de café esca-pa.
    Assim se lê num impresso, que, de mão em mão, vai espalhando erro que nem vírus. O caso não é para gripe (já o foi!); é para língua em disfunção.
    É verdade que a configuração de um sujeito oracional ("Garantir o tratamento adequado e a reciclagem destes resíduos") é uma complexidade a considerar, ainda para mais com uma coordenação de gru-pos nominais (tomados como comple-mento directo complexo da subordinada infinitiva). Porém, isso não pode fazer esquecer que toda a construção transcrita funciona, na frase matriz, como sujeito sintáctico, o qual não pode ser separado do predicado (não menos complexo) por uma vírgula.
    Se o emprego deste sinal de pontuação tem alguma possibilidade de variação, neste caso a questão é decisiva.

   Até estava a pensar reciclar a minha máquina de café, mas, assim, recuso-me a fazê-lo. O grão de café saiu mais do que torrado... amargou mesmo.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Sol e sombra em Serralves

     Foi tempo soalheiro, uma tarde como não se via há muito. Uma luz irradiava nos jardins; no museu, havia sombras...

       Hoje foi dia para acompanhar os 10º anos numa visita de estudo. Destino: Serralves.
    Ao verde e ao brilho convidativos do exterior corresponderam o dominante branco e a pesquisada sombra do interior.
Grand Herbier D'Ombre
Lourdes Castro
     Sob o título "À luz da sombra", os alunos foram guiados na descoberta da obra de Lourdes Castro e Manuel Zimbro (colaboradores na vida e no trabalho, desde a década de 70). Entre a exposição visual e os apontamentos videográficos, houve materiais e projectos diversos a observar e comentar, todos na exploração, na redescoberta de um 'eu' projectado e revisto nos reflexos e nas sombras, consciencializando-se da volatilidade também do acto criativo. Inclusive, a arte apoiada na acção, na performance, foi um dos conceitos explorados e explicitados, numa aproximação ao teatro de sombras chinês.
     À sombra da mensagem de Lourdes Castro, a da norte-americana e contemporânea Dara Birnbaum desmonta o brilho que os diferentes media propõem. A crítica impõe-se relativamente ao tratamento que subsiste numa visão feminina - captada em séries como Wonder Woman ou Love Boat - que perpassa subtilmente no seio do consumismo mediático (e que, eventualmente, perpetua preconceitos).

     A descoberta da estética, a dimensão da arte representada e a busca de sentidos foram o exercício para uma tarde planificada pelo grupo de Filosofia da Escola Secundária de Gondomar, acompanhada por professores de Português e Directores de Turma associados. E, depois, os sentidos do jardim não deixaram de ser também explorados.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

E depois do verbo... o adjectivo

     Com o tempo, sempre se vão encontrando uns "tesouros" nos manuais escolares. E as perguntas impõem-se.

      Q: Encontrei num manual a designação "adjectivo deverbal". Diz-lhe alguma coisa?

     R:  Trata-se de uma subcategoria dos adjectivos, considerada numa perspectiva morfológica. Ou seja, são adjectivos formados a partir de uma base que é uma forma verbal.
    A título de exemplo, podem considerar-se casos como os implicados na derivação 'relaciona(r) > relacionável'; 'adapta(r) > adaptável'; 'soluciona(r) > solucionável'. Na versão da antiga TLEBS, designavam-se estes casos como 'adjectivo de possibilidade'.
     A designação do processo 'denominal, deverbal, deadjectival' prende-se precisamente com um processo morfológico, contemplando a base de uma palavra que vai derivar numa outra (a partir de nome, de verbo, de adjectivo, respectivamente, constrói-se outra palavra).
  Nomeadamente é também o que se passa com a formação dos adjectivos relacionais (ex.: solar, presidencial, semanal...), que, por terem na sua base de formação um nome, são também designados adjectivos denominais.

    Em termos de prática de ensino-aprendizagem, estou mais preocupado com a categoria (do que com subcategorias). Acho que a prioridade deve ser dada à identificação desta (antes de tudo, que os alunos saibam o que são adjectivos). Numa avaliação da situação de ensino-aprendizagem, poderá ser relevante avançar para o estudo das subcategorias (e não deve ser de desconsiderar um conhecimento que pode ajudar a explicar o comportamento distintivo de alguns adjectivos, comparativamnete a outros). Questões de progressão na abordagem do objecto, de acordo com objectivos.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Entre auxiliares e principais... ficam-se os verbos

      Na base de uma questão formulada a propósito do apontamento de 1 de Abril, já lá vai mais de um ano.

Q: Se por acaso tivéssemos como exemplo 'O Pedro deseja ir à festa', 'O Pedro deve ir à festa', qual seria o meu verbo principal? E por que razão?

R: Com o primeiro exemplo, o verbo principal é ‘deseja’; com o segundo, ‘ir’.
     Na primeira frase, o que está em questão não é um complexo verbal, mas sim uma estrutura sintáctica que pode ser parafraseada da seguinte forma: o Pedro deseja alguma coisa (o verbo ‘desejar’ é, no caso, um transitivo directo; ou seja, um verbo que selecciona um complemento directo). Essa 'alguma coisa', por sua vez, está representada por uma subordinada infinitiva que tem como verbo principal 'ir'. Este último, contudo, não deixa de estar dependente da frase-matriz ou sequência subordinante (na qual 'deseja' é o núcleo superordenado).
     Na segunda frase, há um complexo verbal (verbo auxiliar ‘dever’ seguido do verbo principal ‘ir’). Descontextualizada que está a frase, admitem-se duas leituras possíveis: uma, afirma-se a probabilidade de o Pedro ir à festa (entendendo-se o verbo ‘dever’ como auxiliar modal, na expressão da probabilidade); outra, indica-se a obrigatoriedade de o Pedro ir à festa (com o verbo ‘dever’, agora, a ser tomado como um auxiliar modal de obrigação).
     A propósito de questões de auxiliaridade, é possível recuperar o apontamento anterior, no qual já se havia abordado o tópico do complexo verbal e o dos verbos auxiliares. Os exemplos aí propostos (frase ii mais o segundo enunciado de 1) aproximam-se, respectivamente, do que se pretende com as duas frases aqui indicadas (antes na perspectiva de identificação dos verbos auxiliares; agora, na dos principais). Pela aplicação de testes aí explicitados para se distinguir o tipo de verbo, chegar-se-á à conclusão construída nos três primeiros parágrafos.

     É bom saber que há quem leia o que já faz tempo. E assim se retoma o passado para o tornar presente (se isto do tempo é, por si, confuso, o que dizer de 'amanhã, o hoje será ontem'?).

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Ler... para ouvir

   Fui convidado a partilhar a leitura oralizada do primeiro capítulo do Memorial do Convento. Quinze minutos que fizeram a diferença deste dia.

   Uma turma de 12º ano. Algumas caras conhecidas; e dois alunos meus dos tempos do ensino básico. Como estão crescidos, depois de três anos! Foi bom revê-los.
   Lá expliquei muito brevemente como reagi às primeiras palavras do narrador, assim que li, pela primeira vez, este romance de Saramago (já lá vão muitos anos) - um dos meus preferidos (sem tirar lugar ao primeiro dos amores: O Ano da Morte de Ricardo Reis).
   E, depois, a voz fez o resto.
  De facto, não há retrato de realeza que consiga escapar a tanta ironia. Nada para levar a sério. E os risos foram surgindo. Mais uma vez, a figura do "Magnânimo" D. João V ficou reduzida à sua condição de ser risível (como tantos outros seres que hoje se arvoram de um poder que os torna também ridículos... e nem dão por isso!).
   Lá voltei eu a contribuir para a destruição da imagem real (numa cumplicidade com um narrador que apresenta uma visão, uma perspetiva muito crítica da História - num confronto entre a sátira aos dominadores e a epopeia do trabalho). Espero que, assim, descubram a grandiosidade do homem comum, que faz da vida o maior feito, o maior trono para "todos os nomes" (por mais incógnitos que fiquem / tenham ficado na História).
  
   Convidei-os, então, a reler a relação de Baltasar e Blimunda: naturalidade, espiritualidade, religiosidade, vontade e humanidade. Antídotos para a "fantasia" e a ilusão de todos os tempos (e as do presente também).