sábado, 16 de outubro de 2010

120 anos de uma vida poética

    A ter existido, o criador assim o viu: "toda a emoção que não dou nem a mim nem à minha vida.» (in 'Cartas de Fernando Pessoa')

      Álvaro de Campos, o engenheiro naval (por Glasgow) propenso ao triunfalismo dos motores e da tecnologia, nasceu em Tavira, no dia 15 de Outubro de 1890. Surgido impetuosamente "Num jacto, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda", muito do que é se revê na 'Ode Triunfal', esse exemplo poético feito da euforia e da força que culminam num sono, num cansaço e numa avaria impostos pelos excessos e pela exaltação heróica da máquina.

Foto de cartaz na Casa de Álvaro de Campos (Tavira)

   Ao heterónimo que quis "Sentir tudo de todas as maneiras", Pessoa não deixou de dar a oportunidade da busca incessante do Absoluto e da Verdade. Do registo finissecular e decadente, do vanguardismo futurista e sensacionista à angústia existencial, Campos viveu "de tudo em tudo" - entre a vitalidade transbordante e torrencial não deixou e experienciar a angústia própria de quem viveu todos os prazeres.

    Assim se cumpre mais um dia, um ano, um tempo "em que festejavam o dia dos meus anos!..."

sábado, 9 de outubro de 2010

Que desassossego!

    Entre o Livro do Desassossego, de Bernardo Soares, e o Filme do Desassossego, de João Botelho, há uma janela de vidro com a cara de Pessoa reflectida.

    Depois de assistir ao filme, no Teatro Nacional de S. João, consciencializei-me de que fui ao 'teatro' ver 'cinema' - um exemplo da possível confluência na exploração de movimentos, expressões e sentidos estéticos partilhados na Arte.
    Desassossego foi a palavra de ordem no balanço final: pela sucessão fragmentária de imagens a espelhar o registo e o estilo do livro de Bernardo Soares (desse ser que, não existindo, deixou obra); pela abordagem a uma interarte (dança, música, cinema, teatro, literatura, fotografia, ...), a um entrecruzamento artístico inspirado a partir do intertexto e intratexto pessoano ortonímico e heteronímico; pelo devaneio que constituiu todo o intervalo de tempo entre a cena inicial e a final, num bar, onde Pessoa se encontra (numa sugestão dessa desafiante ambiguidade que persiste entre Fernando Pessoa e o duplo Bernardo Soares, entre a ortonímia e heteronímia pessoanas); pela identidade e actualidade que as geniais reflexões de Bernardo Soares mantêm face à existência humana (nomeadamente à do homem moderno, cuja identidade está contingencialmente marcada pela alteridade); pela evocação fílmica da consciência e da inconsciência, do sensível e do inteligível pessoanos, a ponto de estes serem visibilizados no dialogismo dos discursos reflexivos.


     Se, como é citado no filme, a Literatura é a arte que casa com o pensamento, este não deixa de se alimentar do que toda uma herança cultural lhe oferece; do que as experiências vividas permitem reconhecer. Quanto ao sonho, há que libertá-lo do enleio que a vida às vezes (nos) apresenta.

    Entre o tédio, a angústia, a inquietação, tanto rasgo de lucidez chega a ser um desassossego; um filme feito do fragmentarismo e da profundidade de um discurso introspectivo não provoca desassossego menor.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Entre Tchékhov e Saramago: a vontade de demissão.

   Há pensamentos cuja coincidência e oportunidade chegam a ser perturbadoras.

      Há cerca de quinze dias, ri-me da representação feita da personagem de um professor a gritar em pleno teatro "Eu demito-me! Eu demito-me". Riso intrigante para um outro professor com vontade de fazer o mesmo num outro palco: o da vida.
      Há doze anos, neste mesmo dia, sentia orgulho por o Português tanto ser falado no mundo, em virtude da atribuição do Nobel da Literatura a José Saramago. Na altura, já tinha lido O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984), Memorial do Convento (1982), A Jangada de Pedra (1986), Deste Mundo e do Outro (1971), Todos os Nomes (1997) e O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991) - precisamente nesta ordem -, reconhecendo o embalo oralizante dos romances e o estilo criativo na escrita; o jogo cúmplice, irónico e denunciador das desigualdades e fragilidades humanas criado com o leitor; a reflexão humanista reflectida numa relação da arte de pensar com o posicionamento ético que aspira a um ideal social que coloca o Homem no centro. A todo o tempo, estes eram ingredientes saboreados e sublinhados em segmentos e pensamentos colhidos no que lia.
      Há minutos, revendo alguns dos versos de Os Poemas Possíveis (1966), parei numa pequena composição que, no momento, muito me diz. Agora, não me rio; porém, não deixei de relembrar o riso e como, em 'A Gaivota' de Tchékhov, o grito do professor espelhava uma vontade dominada pelo mal-estar do momento.

        Demissão


               Este mundo não presta, venha outro.
               Já por tempo de mais aqui andamos
               A fingir de razões suficientes.
               Sejamos cães do cão: sabemos tudo
               De morder os mais fracos, se mandamos,
               E de lamber as mãos, se dependentes.

                                                                                                        José Saramago

         Mordido que me sinto, espero que não me venham lamber as mãos.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Nobel da Literatura: Mario Vargas Llosa

   O nome, familiar, fez-me lembrar um (re)encontro feliz.
   
   Anunciado o peruano Mario Vargas Llosa como o premiado com o Nobel da Literatura deste ano, voltei a pegar livro que li do autor, há já uns bons pares de anos: Pantaleão e as visitadoras (1973).
    Mais recentemente, no ano lectivo 2008/2009, o reencontro fez-se graças a um contrato de leitura apresentado por um aluno numa das minhas aulas de 10º ano.
    A obra, que figura na listagem do Ministério da Educação para alunos do ensino secundário,  foi considerada numa espécie de jogo de sorte e de azar; numa aproximação e descoberta ao autor e à sua obra. Ainda que houvesse a oportunidade de redefinir o contrato, o aluno achou por bem prosseguir. Deve ter encontrado qualquer coisa que o manteve fiel à sorte recebida.

    A história centra-se na personagem Pantaleão Pantoja (capitão recém-promovido do exército), responsável pela criação sigilosa de um serviço de prostitutas para as Forças Armadas do Peru localizadas na selva amazónica. Mudando-se para Iquitos, Pantaleão mantém-se afastado dos restantes militares, usa trajes civis e nada contar à mãe nem à mulher. A discreta missão transforma-se na maior empresa de prostituição do país, alterando completamente a vida local e a do próprio capitão (quando este é visitado pela bela e insinuante Colombiana). Rendido à paixão e ao desejo que sente, Pantaleão vê na sua 'visitadora' a própria força do desejo, da vida amazona selvagem.
     No contraste entre a selva e a cidade (mais propriamente a hipocrisia de uma sociedade convencional e puritana, representada na personagem da mulher oficial de Pantaleão), Colombiana torna-se metáfora do desejo e da volúpia livres de qualquer forma de puritanismo; a selva sem pudores contra a cidade pudica, casta e hipócrita. Assim se atinge o registo da farsa para uma época, para os seus costumes.

    Entre o social e o natural: o velho conflito romântico europeu revê-se, em língua hispânica, num contexto sul-americano, no percurso de um militar que se vê derrotado "na (humana) guerra do amor".

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Uma gaivota voou... sobre um lago.

    Numa encenação de Nuno Cardoso, 'A Gaivota' (de Anton Tchékhov) passou pelo Teatro Nacional de São João (como se prova pelas fotografias de João Tuna).

    Num palco molhado, simbologia de reflexo e de fluidez, a agitação das águas retoma sempre o ponto de inércia, pela lacustre limitação e estagna-ção impostas pelo chão dos homens (qual escritor que busca "novas for-mas" e constata a rotina e o conformismo trazidos pelo tempo).
   No jogo dos contrastes que se comple(men)tam, a vida impõe-se na ténue fronteira entre o que é ilusão, ficção; desilusão, realidade. E no palco da vida surge aquilo a que todos assistem: desencontros de amor, antinomias do velho e do novo, do que flui e do que permanece, do campo e da cidade, da crise e do sonho, do 'eu' e do 'outro' que connosco anda (feito do posto, do posicionamento assumido tal qual cadeira que se arrasta para que nos possamos apoiar, sentar, acomodar).
    Da arte da escrita e do teatro, fica a imagem da vocação: a da entrega ao acto, na consciência de como há que vencer as dificuldades, os fracassos para que se possa obter a força interior que cada um assume da forma que melhor pode ou quer. Onde uns vêem a fama e celebridade desejadas, outros apenas encontram o trabalho que têm (e para o qual precisam de uma inspiração); onde uns buscam o que de insólito, novo e diferente há na arte, outros reconhecem o que esta tem de já consagrado; onde uns cumprem o papel que representam (com maior ou menor crença ou fé), outros questionam-se.
    E a gaivota voa, a gaivota crocita.
   O homem pode matá-la, pode matar-se.
   A ave pode morrer, mas a mulher que a encarna ainda foge, por mais que o passado a marque. Falta saber se o lago será suficientemente grande para o voo que quer dar.

    Tchékhov, como te entendo neste desassossego! Desde há um século, (re)escreve-se e (re)formula-se a nota de decadentismo, de angústia, de simbolismo, de um existencialismo antecipado. No jogo de desigualdades, no qual uns descem à dor, à perda e ao sofrimento (que abatem o ser humano), outros preferem a ilusão, deixando-se ficar por memórias de um passado que, não se querendo revisto, se impõe num presente apresentado como longe de qualquer mal. E a vida surge qual palco, qual cenário composto à medida dos anseios nele depositados.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

De um poeta cuja poesia tem arte de música

    Cento e quarenta e três anos depois de ter vindo ao mundo (1867-1926).

     De Camilo Pessanha ainda pouco se disse, além dos seus dados biográficos e da vivência errante com que muitos poetas se fazem (ou deles são feitos ou, ainda, que dizem deles ser feitos).
     No cruzamento de referências com Verlaine ("de la musique avant toute chose"), pela musicalidade; com Baudelaire mais Mallarmé, pelo simbolismo poético; com Pessoa e os do Orpheu, que tanto o admiraram e quiseram divulgar, fica um compositor de versos, sons, palavras e símbolos à espera do que o leitor encontre nas imagens evocadas.

           Imagens que passais pela retina
           Dos meus olhos, porque não vos fixais?
           Que passais como a água cristalina
           Por uma fonte para nunca mais!...

           Ou para o lago escuro onde termina
           Vosso curso, silente de juncais,
           E o vago medo angustioso domina,
           - Porque ides sem mim, não me levais?

           Sem vós o que são os meus olhos abertos?
           - O espelho inútil, meus olhos pagãos!
           Aridez de sucessivos desertos...

           Fica sequer, sombra das minhas mãos,
           Flexão casual de meus dedos incertos,
           - Estranha sombra em movimentos vãos.

in Clepsidra (1920)

    Um tempo para lembrar o soneto que mais me impressionou nos tempos dessa adolescência que teimava chegar à maioridade. Passagem, tempo que flui congregados em imagens de água, de olhos, de sombra, de espelhos em que o 'eu' se dissipa e que, a cada instante, se revê num relógio de água feito de transitoriedade.

domingo, 15 de agosto de 2010

Me vado lontano

   Finalmente...

   Un piculo apuntamento: vacanza (Milano, Firenze, Roma, Génova, Napoli), de preferenza sin Berlusconi.
   Si me tornero (piú felice) no lo so, ma io bisogno de un nuovo aire.
   La bella Itália!

   Até ao meu regresso (assim as asas do avião me tragam).

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

História(s) que a língua nos dá.

   Provas de que, na língua, o tempo faz diferença.

   A propósito de conquistas do século XII, aparece, num documento do século XVII, um dado descrito nos seguintes termos:

"Ganharão-se as Villas de Abrãtes e Torres Novas, ambas muyto fortes em o sitio, fermeza de muros e castellos (...)."

 (Frei António Brandão, in Monarquia Lusitana, 1632)

   Para além de questões ortográficas e da representação mais ou menos próxima de realizações fónicas, destaco a colocação pronominal clítica na primeira forma verbal: no contexto actual da mesóclise ('ganhar-se-ão'), há registo escrito de que há quase quatro séculos se fazia (dizia?) o que os alunos hoje em dia teimam em usar nos seus discursos orais / escritos.
   Tratando-se de um caso crítico a privilegiar no trabalho de língua, o que hoje se explica como uma evidência de composição histórica na língua portuguesa, com repercussões morfossintácticas (aproximando a conjugação pronominal de verbos no futuro e no condicional), parecia mais natural, menos complexo em estádios linguísticos anteriores.

     Quantos alunos não gostariam que retomássemos esse tempo (pelo que dizem e pelo que escrevem).

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Quando a solução está ao alcance dos nossos olhos

    Já lá vai algum tempo, quando um grupo de alunos apresentou o seu contrato de leitura baseado n' O Símbolo Perdido, de Dan Brown.

     Terminei hoje a leitura deste livro.
     As férias dão para pôr em dia o que nem sempre se consegue fazer ao longo de todo um ano de trabalho (com muitas escritas e muitas leituras... de outro tipo). Do ano lectivo findo e do contrato ficaram um ponto de motivação e uma pista de interesse para ir ao encontro deste romance.
    Não deixei de ficar "agarrado" pela história e pelas curiosidades que nela fui (re)encontrando:

. a maçonaria aborda a crença num ser superior: o Ser Supremo ou Grande Arquitecto do Universo (designação mais hiperonímica para Deus, Alá, Buda ou Jesus);
. os símbolos maçónicos associam-se a uma linha interpretativa: a da transformação (caveira, enxofre e sal, ampulheta, vela);
. 'symbolon' era o termo grego para uma tábua de argila onde se registava informação secreta - tábua que, depois de partida em pedaços, era espalhada por diferentes locais (só a junção das diferentes partes permitira acesso à informação - tal como nos 'símbolos'); 'lenda' e 'legenda' provêm do mesmo étimo latino ('legenda'); o termo 'álcool' tem origem no árabe 'al-kuhl'; 'talismã' provém do grego 'telesma', a significar 'completo'; a palavra 'noética' deriva do grego antigo 'nous', normalmente traduzido por 'conhecimento interior' ou 'consciência intuitiva' (embora de intuição me pareça que tem muito pouco);
. na formação da palavra 'sacrifício' há quem leia o jogo 'sacra-sagrado' e 'facere-fazer'; 'sincera' era a obra que escultores (desde os tempos de Miguel Ângelo) não dissimulavam com cera - 'sin cera' - e pó de pedra (nas rachas ou falhas); a palavra mágica 'abracadabra' remonta a um antigo misticismo aramaico ('avrah KaDabra') que significa 'eu crio, enquanto falo'; 'apocalipse' significa, literalmente e conforme o apontavam os antigos, 'revelação' (não necessariamente com o actual sentido interpretativo do fim cataclísmico do mundo); 'Elohim' é a palavra hebraica para Deus no Antigo Testamento (ser plural - e pluribus unum -, ou seja, "De muitos um só", numa convergência de forças);
. o número '33' era considerado, no tempo de Pitágoras, o mais elevado de todos os Números Mestres, o mais sagrado, o símbolo da Verdade Divina (tal como os maçons escolheram o trigésimo terceiro como o grau mais elevado); o 8 é o símbolo do infinito, após uma rotação, e o número da destruição em numerologia;
. "a mente senta-se no cimo do corpo físico como uma pedra de fecho de ouro. A Pedra Filosofal. Através da escadaria da coluna vertebral, a energia ascende e descende, circulando, ligando a mente celeste ao corpo físico" (pág. 482) - será este um mistério antigo?

    Mais do que se lê na epígrafe ("Viver no mundo sem ter a consciência do significado desse mesmo mundo é como deambular por uma enorme biblioteca sem tocar nos livros" - in The Secret Teachings of All Ages), o poder da linguagem pressente-se e ressalta numa obra cuja intriga é feita de ingredientes como a vingança, a evolução e a mudança retomando o passado, as escolhas e os dilemas que condicionam a acção humana, os sentidos de poder (antigos e contemporâneos) em confronto, os laços familiares que se atam e desatam, as redescobertas no percurso da vida e da História do Conhecimento, o entendimento do símbolo a convidar continuamente à junção de peças que trazem "luz" e significado àquele que "lê" sinais. Como também se lê no romance, "A língua pode ser bastante hábil a esconder a verdade" (pág. 232).
    Depois de ter lido O Código Da Vinci e Anjos e Demónios, não se pode dizer que este livro seja uma grande novidade na construção narrativa. Lê-se bem em tempo de descanso e aguarda-se sempre pela novidade que cada capítulo traz, pela(s) mudança(s) de rumo que se impõe(m).
   Em tempo de reconstrução e retoma de velhos mitos, coloca-se Washington no caminho da "The Promissed Land", com a tónica da esperança e da afirmação do Homem como fonte de poder, de saber e de (re)criação / transformação de ideais. Nisso se revê a própria personagem principal (Robert Langdon), pela (re)descoberta do que conhece e pela oportunidade que lhe é dada para mais aprender.

    Como o próprio livro o assume, na voz de Trish (personagem cooperante de Katherine Solomon), "O conhecimento é uma ferramenta e, como todas as ferramentas, o seu impacto está nas mãos do utilizador" (pág. 96).

sábado, 7 de agosto de 2010

Represas sem espinhos

   Ao vivo se revelam os verdadeiros artistas, sem os efeitos especiais e milagrosos de alguns arranjos tecnológicos..

   Numa programação / animação de férias que trouxe muitos nomes sonantes da música a Espinho, Luís Represas foi sensação.
   Um palco em plena Alameda 8, muita gente a assistir, para duas horas de espectáculo em que luz, música e voz(es) deram para ver quem sabe cantar e tocar, em directo, ao vivo e a cores.
    E cá vai uma do repertório ('Entre mim e eu') - entre tantas outras dos tempos dos Trovante ou do já longo percurso a solo do cantor -, que saiu bem mais animada com a força dos instrumentais e do coro de vozes que se fez ouvir à volta do palco.


    Poucos são aqueles que se revelam melhores e mais fortes naquilo que já fazem bem. Luís Represas é, sem dúvida, um desses exemplos.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Melancolia e alquimia linguística

       Assim se intitula uma pintura de Albrecht Dürer (séc. XVI): Melancolia I.
  
    Encarado como o supremo espírito renascentista - artista, filósofo, alquimista e um estudante dos mistérios antigos -, Dürer concluiu a pintura apresentada em 1514, tendo esta sido considerada a obra seminal do renascimento no Norte da Europa.


       A figura de asas, a representar o génio humano, está rodeada de sinais e símbolos marcados pela estranheza lógica; simboliza a tentativa falhada de a humanidade transformar o intelecto humano em poder divino, visível pela dificuldade de compreender todos os símbolos de que o génio dispõe (objectos de ciência, matemática, filosofia, natureza, geometria, carpintaria,...).
      Está mesmo difícil a relação entre cada um dos objectos. Fico-me pelo quadrado mágico (por baixo do sino), com 1514 na última linha. Por que razão(ões) será, para além dos números e cálculos perfeitos?

   Se por trás de Melancolia há uma alquimia linguística, que os estados de tristeza e depressão se transformem em palavras e actos de felicidade no desvelamento dos enigmas e da simbologia que o quadro encerra.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Se o tamanho interessa...

    Não há estética que melhore, por mais manicure ou pedicure que se faça.

    Um passeio pela cidade, até que uma montra chama a atenção:

   
    E pronto: se o tamanho interessa, o melhor que se pode fazer é 'Extensão' (plural 'extensões), enquanto sinónimo de ampliação ou aumento no comprimento.

    Já lá o dizia o latim ('extensiōne-'), pela escrita com 's'. E nisto não há acordo ortográfico que valha, pelo que a etimologia não deixará de ser critério a considerar, a par da consciência morfológica a trabalhar na escrita.
   

domingo, 1 de agosto de 2010

Poesia, voz e fado

   Para lembrar que "Há palavras que nos beijam".
  
    Nos versos de Alexandre O'Neill combinam-se os sons e a voz que Mariza faz chegar aos nossos ouvidos, na composição musical de Mário Pacheco. Assim se casa poesia, voz e fado.


          Há palavras que nos beijam

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.


De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.


(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)


Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Alexandre O'Neill, in No Reino da Dinamarca (1958)

      A mesma composição surge com um outro casamento vocálico e rítmico, que pode ser encontrado neste fado de Cristina Branco:


      Em cinco quadras de verso livre, alguns a rimar e outros nem por isso, ressalta uma linguagem acessível na apologia das palavras, das que são portadoras dos sinais de afetividade e felicidade; das que não dão lugar ao desgosto; das que materializam "O nome de quem se ama" (independentemente do suporte).
        Entre a expressão do bem e o sentido de liberdade, surgem as palavras positivas, como se de amor, de poesia e de magia se tratasse. E na confluência destes há cor, sensações que libertam / valorizam o Homem.

       Mais uma razão para se passar "Das palavras aos actos" (que, feitos de palavras que nos beijam, são menos moralistas e mais afectivos).

O açúcar está mesmo a dar...

   Pode ser coincidência, mas os pacotes de açúcar andam muito sábios.

   O pensamento citado é do autor de O Principezinho e tem muito que se lhe diga.


   Traduzindo isto, em termos de consciência e de conhecimento, só se compreende o que se interestrutura (daí a transformação que se opera naquele que integra o saber, passando-o a dominar, a compreender).

   Desconfiar, então, de todos aqueles que dizem que compreendem, mas não se transformam.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Estarei a precisar de açúcar?

    Finalmente as férias: o sal e o açúcar que se impõem.

    Há um pacote de açúcar que já deu muito que falar (dentro e fora das aulas): por Camões, pelo 'canto' relembrado da epopeia, pela 'música' que a voz dá à poesia no acto de ler / recitar.


    Reencontrei-o, neste meu primeiro dia de férias.
    Com o cheiro a sal no ar e sem o açúcar (que estraga "a verdade do café"), experimento o primeiro dia de um 'dolce far niente dopo molto lavoro'.

    Hum! Estas palavrinhas em italiano estão a fazer-me viver o verdadeiro sentido das férias.



domingo, 11 de julho de 2010

Ai que é já depois de amanhã!

       Não sei porquê, mas tenho a sensação de que vou fazer exame. Oxalá não reprove!

     No 1º Encontro 'A Linguística na Formação de Professores de Português' estava numa posição mais cómoda: a de espectador!
    Agora, vou ser espectador e comunicador. Espero que o seja com alguma "consciência". Impõe-se.
   Pretendo começar por dar conta de uma conversa que veio ao meu encontro no melhor dos momentos (Uma amiga dirá: nada é por acaso. E tem razão!).
    Aqui vai um pouquinho da comunicação:

    "... começo por partilhar um episódio recentemente experienciado.
    O local é uma feira do livro-outlet em Espinho. Aí captei uma conversa de dois interlocutores que se pronunciavam sobre o interesse da leitura e as vantagens desta para o melhor conhecimento da língua. Disfarçadamente procurei acompanhar o que era dito. Simulei o meu interesse por algumas páginas de livros avulsos, quando eram os ouvidos a deixarem-se levar por uma reflexão que me despertou a atenção pelo tema e pela preparação da comunicação para este encontro (que, então, se avizinhava). Mencionados alguns erros comuns na utilização da língua - como os familiares ‘bem-vindo (adjectivo, interjeição) / benvindo (nome)’, ‘traz (verbo) / trás (preposição)’, ‘comesse / come-se’, ‘adesão / aderência’), evoluiu-se para a discussão de estratégias na resolução de outros casos críticos. Um dos elementos dizia que, na escrita, tendia a substituir a palavra ‘ansioso’ por ‘perturbado’, por não conseguir «conscientemente» distinguir se na primeira devia grafar ‘s’ ou ‘c’; o outro lamentava que muitos dos nossos jovens separassem (cito) “os ‘mos’ dos verbos”, quando ele tinha aprendido uma regra fácil para evitar esse erro tantas vezes cometido: «Olhe, nada mais fácil que colocar o ‘nós’ antes do verbo, para saber que não devo separar o ‘mos’».

     Isto de contar conversas alheias não está a parecer comportamento lá muito virtuoso. Enfim!

    Tenho mais dois dias ...

quinta-feira, 8 de julho de 2010

E ainda por causa das formas de tratamento...

      Estamos sempre a aprender!

    Depois do 'você', há outro cuidado a ter, com as "senhoras donas". Assim se depreende do texto seguinte.

   Senhoras donas, por favor!

      Cada país (cada língua, cada cultura) tem a sua maneira específica de se dirigir às pessoas. Mal passamos Vilar Formoso, logo toda a gente se trata por tu, que os espanhóis não são de etiquetas nem de salamaleques.
     Mas nós não somos espanhóis.
    Também não somos mexicanos, que se tratam por "Licenciado" Fulano. Nem alinhamos com os brasileiros, para quem toda a gente é "Doutor", seguido do nome próprio: Doutor Pedro, Doutor António, Doutor Wanderlei, etc..
     Por cá, Doutor é seguido de apelido, e as mulheres, depois de passarem por aqueles brevíssimos segundos em que são tratadas por "Menina", passam de imediato - sejam casadas, solteiras, viúvas ou amigadas, sejam velhas ou novas, gordas ou magras, feias ou bonitas, ricas ou pobres - à categoria de "Senhora Dona".
     Mas parece que uns estranhos ventos sopraram pelas cabeças das gerações mais novas que fizeram o "dona" ir pelos ares ou ficar no tinteiro. Quando recebo daqueles telefonemas que me querem impingir tudo o que se inventou à face da terra - desde "produtos" bancários que me garantem vida farta, até prémios que supostamente ganhei por coisas a que nunca concorri - sou logo tratada por "Senhora Alice." Respondo sempre: " trate-me por tu, se quiser; ou só pelo meu nome, se lhe apetecer; mas nunca por Senhora Alice".
     Mas o cérebro destes pobrezinhos não foi formatado para encontrar resposta a estas coisas, e exclamam logo: "Ah, então não é a Senhora Alice que está ao telefone!"
    Eu sei que isto não é uma coisa importante, mas que é que querem, irrita-me quando oiço este tratamento dado às mulheres.
    Tal como me irrita quando vejo/oiço um jornalista tratar por você alguém com o dobro da idade dele.
    É uma questão de delicadeza. De respeito. E de saber falar português. Três coisas, admito, completamente fora de moda.
    Pois qual não é o meu espanto quando, aqui há dias, na televisão, oiço o Senhor Primeiro Ministro referir-se assim à mulher (também odeio a palavra "esposa"?) do Comendador Manuel Violas. "A Senhora Celeste?" (não sei se é este o nome da senhora, mas adiante).
    Fico parva. Nos cursos todos que tirou, ninguém lhe ensinou que as senhoras são todas "Senhoras Donas"?
    Parafraseando livremente o nosso Augusto Gil, "que quem trabalha num call-center nos faça sofrer tormentos? enfim! Mas o Primeiro-Ministro, Senhor? Por que nos dás esta dor? Por que padecemos assim?

    Assim o escreveu Alice Vieira, numa rubrica do Jornal de Notícias: coluna 'Opinião' , do dia 18 de Setembro de 2008 (pág. 12).

     Não posso esquecer-me disto, para fazer melhor figura que o Senhor Primeiro Ministro (isto porque já não há vento para soprar pela cabeça desta minha 'geração' que já vai nos '-entas') ou para não me equiparar a um trabalhador de call-center (quem sabe se, um dia, não vai ser isto o futuro de um professor: "Estou, sim! Faça o favor de dizer o que deseja aprender!").

terça-feira, 6 de julho de 2010

De alguma deriva nas formas de tratamento

       Alguma da evolução da língua também se faz sentir na dimensão pragmática.

    No capítulo das formas de tratamento, muitos sinais de deriva podem ser perspectivados à luz das diferenças entre o que alguns textos deixam ler e o que as relações interpessoais dão a ver.

    "Este dia [quando Dâmaso fora convidado por Afonso a ir jantar ao Ramalhete] pareceu belo a Dâmaso, como se fosse feito de azul e ouro. Mas melhor ainda foi a manhã em que Carlos, um pouco incomodado e ainda deitado, o recebeu no quarto, como entre rapazes... Daí datava a sua intimidade: começou a tratar Carlos por você. Depois, nessa semana, revelou aptidões úteis (...); e daí por diante passava horas à banca de Carlos (...) Tanta dedicação merecia um tu de familiaridade. Carlos deu-lho."

Os Maias, de Eça de Queirós, cap. VII (pág. 190)

     Cláudio Basto, no artigo "Formas de tratamento, em Português" publicado na Revista Lusitana (nº 29, pp. 183-202) regista 'você' como um derivação de 'vossa mercê' (tratamento nominal outrora dirigido ao rei), que o tempo fez registar com as variantes e reduções fonéticas de 'vossemecê', 'voss'mecê', 'vossancê', 'vomecê', võcê'. A par destas evoluções sonoras, chegou-se ao desprestígio social do tratamento (na zona do Minho e dos Açores há quem reaja, dizendo "você é estrebaria").
     Actualmente, a simplificação que a forma de tratamento permite - pela adopção e redução das marcas morfológicas de flexão verbal à terceira pessoa -; a vulgarização de um discurso de 'moda, de bom tom, de chic'; a exposição ao registo do Português do Brasil acabam por a converter a um sinal de crescente democratização, ainda que socialmente marcado na diferenciação do que é uma pessoa saber avaliar a adequação da sua utilização.
    Por isso, quando um aluno me trata por 'você' e eu o corrijo (explicando a inadequação desse tratamento face a alguém que nos é superior na idade, na experiência, no estatuto), a velha questão do respeito, da adequação, da importância ou mesmo da familiaridade é evocada, por um tratamento que me é contra-argumentado de forma afectiva, comparada à de um pai ou um avô. Em tempos diria, à de um rei!

      E a minha vontade, no meio de tanta deriva, é quase esquecer a questão e dizer: obrigado (mas, para o bem da integração social deles, não o posso fazer).

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Porque dá a sensação de que isto (nos) é familiar...

    Em tempos de Educação atravessada pelos princípios neo-liberais que a sociedade, em geral, idolatra, faz bem lembrar alguns testemunhos e algumas perspectivas.

    Este vem de alguém que, na actualidade, há muito reflecte sobre a formação de professores:

   "Profissão que deixou de ser compreendida como arte, mas como técnica baseada na aplicação da ciência ao ensino e à escola. Esta deverá organizar-se de uma forma racional, aplicando princípios organizacionais das empresas eficazes. Trata-se, portanto, de formar professores eficazes para uma escola eficaz, procurando a investigação científica isolar as características que distinguem as escolas eficazes das não eficazes. Alunos, professores e escolas ligam-se pela mesma preocupação de racionalidade, eficácia e controlo. Por isso, a formação é isomórfica do ensino".

Maria Teresa Estrela (2002: 21) - "Modelos de Formação de Professores e seus Pressupostos Conceptuais"
in Revista de Educação, vol. XI, nº 1, Lisboa, Departamento de Educação da
Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa

     Assim se caracteriza o programa de formação baseado no Competency-Based Teacher Education (em voga nos anos 70, nos EUA). Tudo muito a aproximar-se de um neo-behaviourismo e de uma lógica tyleriana das organizações. É bom que os partidários do discurso dos "clientes" na escola e os promotores de formação formatada, padronizada para todos (como se os problemas, as questões de educação fossem de uma só natureza e do mais literalmente tecnológico), certificadora pela frequência - e não tanto pelas aquisições demonstradas - reflictam sobre esta visão, nem formativa nem formadora para ninguém (o tempo o dirá, se é que já não o está a dizer). Basta ver, com atenção, a crise em que a economia neoliberal nos lançou.
    É o que faz ver a escola, e o que em torno dela gravita, na lógica dominante das empresas e dos resultados.

sábado, 3 de julho de 2010

Chegou o que havia sido anunciado

    Primeiro o prometido ou anunciado... depois o devido. Em tempo de verão, há uma "Bola de Neve" que gela mesmo quem acha que o bullying não é uma das questões quentes nas relações humanas.

    A ideia de um trio (R3 Produções) que, de R, tem o espírito do que é realizável, reanimador; do reconforto, do reconhecimento e da recreação. E também da reflexão.

   
    A 'bola de neve' sugere todo um processo que sai do nosso controlo, o acumular que pode conduzir ao perigo dos extremos (a ser consciencializado, para poder ser evitado).
   E 'bullyings' há muitos nesta vida (nas ruas, nas escolas, nos espaços domésticos, nas pessoas, nos media, nos actos e nas palavras). Nada como nos despedirmos deles todos, para que ela se torne mais salutar, dando lugar ao que se possa construir sem violências, sem medos, sem perseguições.
  
    Uma realização que não deixa de lembrar a primeira experiência que visionei, há cerca de um ano: "Um Programa Sucinto", feito de contratos de leitura. Já nessa altura se marcou pela diferença. Parabéns ao grupo da produção, da realização e da representação.