segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Entre as novidades do Vaticano e as lembranças em Roma

      No dia em que se anuncia alguma mudança (será?) no pensamento do Papa, lembrei-me da minha passagem pelo Vaticano (e de como tive de esquecer que a Igreja é para os humildes, pobres e necessitados).

     Cerca de dois meses depois do meu regresso, lá por finais de Outubro, uma amiga dava-me a conhecer como uma das suas leituras se cruzava com as impressões do meu relato sobre os dias vividos em Roma.
     Aqui segue o excerto, por ela facultado (o que lhe agradeço) e da autoria de Possidónio Cachapa, no livro intitulado Rio da Glória (Oficina do Livro - 2006):


     "Já viram um turista de sandálias e ar deslumbrado, a percorrer Roma a pé? A extasiar-se com o Capitólio, a estremecer de compaixão diante do Coliseu, enquanto se desvia de uma horda bárbara de japoneses? Então, para quê contar esses primeiros dias de Mário? Para quê falar da forma como ele entrou em quantas igrejas pôde? Não para rezar, porque as sentia desertadas da presença de Deus, que só imaginava nos desertos ou voando sobre as águas, mas para se comover diante da beleza dos santos barrocos, das portas lacadas a madrepérola, onde o seu rosto sem atributos se espelhava melhorado. Sim, até à praça Navona ele foi… A olhar, curioso, grupos de austríacos que comiam gelados de chocolate ou pannacotta, um fotógrafo que pedia ao assistente que movesse a perna da modelo para mais perto do estômago, como se ela fosse um porco morto ou um cacho de peras sobre uma jarra tombada. Uma mulher velha, um chapéu de agência turística na cabeça, descansava na beira da fonte, enquanto o neto, de costas, marcava as gajas, com os pés imersos na água que parecia azul-clara. As estátuas de Bernini revolviam-se imóveis, melancólicas de representar o mesmo papel até que o tempo as levasse. Pombos cinzentos sujavam de excrementos o rosa estriado dos mármores. Tudo lhe interessava e o entusiasmava, não só por pertença, mas também por isso. Ser e não ser do tempo que lhe calhava. Estar e não estar com os que pisavam as pedras como meio de entretenimento. Sentado na piazza, na tarde morna, Mário estava a li e não estava; se estendesse as mãos, poderia ou não agarrar a beira de uma fonte ou roçar o corpo apressado de um estudante em férias.
    Gostou sobretudo da cor dos prédios, tão diferente dos brancos ou da decadência dos azulejos modernos a que se tinha habituado. Relaxava-se nos ocres, nos laranjas, em cores que vinham da terra. Davam-lhe segurança, como se não fosse preciso ir a mais lado nenhum. Calculou que fosse por isso que os guias de viagem insistissem em chamar à cidade “eterna”. Ir onde, se o passado se mantinha agarrado a nós como lapa?
      Nos anos que se seguiram, Mário visitou muitas vezes a cidade vizinha do estado que o acolhia, sem nunca se cansar dela. Pensava nas multidões que a cobriam como inundações periódicas, que aconteciam ao longo dos séculos e que recuavam, deixando sedimentos que alimentavam e alegravam a vida dos restantes seres. Talvez tenha sido isso o que o impediu de partir mais cedo."

FOTOS: 
cimo: Monte Capitólio (Campidoglio) ou Capitolino, uma das famosas sete colinas de Roma; 
segunda: Coliseu de Roma;
terceira: Piazza Navona, o salão de visitas de Roma;
fundo: Interior da Basílica de S. Pedro (Roma), altar central da autoria de Bernini.

      Hoje, três meses depois, o Vaticano (por razões distintas) regressa aos meus ouvidos e à minha memória.
  
     De facto, qualquer visitante de Roma e do Vaticano identifica-se com o que foi lido... de como nos sentimos parte de uma história, das raízes de uma cultura e de uma civilização de que somos uma pequena peça. Está ali a nossa herança, o peso do tempo a que pertencemos (passado e presente), o muito que somos (culturamente) na pequenez (física) que sentimos.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

T3+1 (ou a procura de abrigo em noite chuvosa)

     Chuva intensa, sacudir de casacos, sacos de plástico nos pés, necessidade de um tecto... À primeira vista, parece uma coisa, mas é outra... Coisas de ficção misturada com realidade.

    Tê três mais um é o título de um espectáculo levado à cena, no Teatro Carlos Alberto, com textos de Anton Tchékhov: O Canto do Cisne (I e II), mais Os Malefícios do Tabaco.

     Na interpretação de Nuno Cardoso, três monólogos desenvolvem-se aos olhos de uma plateia que se move, que ganha consciência da sua presença. Em O Canto do Cisne, tal acontece pela afirmação da sua ausência, pela desconstrução de um espaço ocupado pelo público, tomado como vazio, enquanto lugar de ficção (assim se convida o espectador a avaliar-se no seu papel (também artístico, de teatro). Tudo na voz de um actor ou do homem que teatraliza, se finge fora do jogo teatral. Com Os Malefícios do Tabaco, quem assiste é interpelado a participar numa situação cómica (de alguém que se apresenta como conferencista de um tema que não domina) transformada em tragicomédia humana (a de quem não está à altura do que é previsto, que tudo faz para [se] manter e sobreviver, até que cai no desejo de se libertar... na vontade [sem sucesso] de tudo abandonar).
   
     Se "O Poeta é um fingidor / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente", o actor é um simulador; e ilude tão completamente que cria a aparente exposição ao que vive realmente: o abandono, a passagem do tempo, a velhice que se impõe.
Actor Nuno Cardoso
(fotografias de João Tuna)


    Para quem não fuma, e ainda que já tenha feito algumas conferências (falando do que, talvez, ainda pouco vá sabendo), resta-me mais O Canto do Cisne, que finda com "Tragam a carruagem! Tragam a carruagem!" - de preferência, a que conduza a alma à sua arte ("Enquanto houver arte, enquanto houver teatro, não há velhice!") ou o corpo e o espírito em viagem.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Qual é o (des)acordo?

       Porque há quem muito fale... fico eu com dúvida!

     É de âmbito paremiológico o 'Quem muito fala pouco acerta'. Mas, como ando em época de muitas dúvidas, lá vou à procura do que julgava saber. E releio:

    com (´)
  passado de
  verbos em -AR

   (louvar) louvámos, (amar) amámos,
   (gostar) gostámos, (achar) achámos

   Obs: Em variantes diferentes do português europeu padrão, pode suprimir-se o acento.

in página 41 (com remissão para a Base IX do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa
[pp. 84-89, com as notas explicativas 5.1, 5.2.2, 5.2.4, 5.3, 5.4.1, 5.4.2 mais 5.4.3 nas páginas 125-134])

   Triste notícia esta para quem se queria ver livre do acento gráfico de "passamos / passámos", de "estudamos / estudámos", "trabalhamos" / trabalhámos". É que, no (des)acordo ortográfico presente, muito já se quer pôr (inclusive o que não tem). Ora, no que à distintividade diz respeito, é preciso algum acordo, para que não se instaure o 'diz que disse' ou o 'estou a dizer porque alguém me disse'. Respectivamente, distinga-se o presente do pretérito perfeito do indicativo, nos verbos da primeira declinação ('-ar') conjugados na primeira pessoa do plural - assim se lê na publicação da Imprensa Nacional casa da Moeda e numa publicação de um dos autores e defensores do Acordo Ortográfico. Creio que são estas as melhores referências. Tudo o mais são opiniões.

   É por isso que eu leio (a bem da variedade do Português do continente europeu), sem deixar de procurar entender o Português falado noutros continentes (a bem da comunicação e da comunhão desejada entre os da mesma língua, respeitadores do que ela tem na sua evolução e variação).

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Da morte em tempos de crise.

    Há quem diga que se trata de uma "questão de previdência e planeamento!"

    Não se tratasse de uma situação séria e grave, a tragicomédia não deixa de ser inevitável. Ainda mais quando o tempo é de crise e até na morte (ou na sua manifestação pública) há que poupar em qualquer coisa.


    Que dizer de uma lápide que pode sugerir, por inusitadas razões, um inesperado sobrenome de família; por temporalidade diversa, uma invulgar cronologia de mortes; por contraste, que "Angelina Já Falecida" se distingue de "João" sem mais (diferente de falecido ou ainda não falecido?! Ainda vivo?!); por limitações de memória, uma invulgar caracterização desta última; por extensão da vida, um sinal da(s) crise(s) dos tempos?

    Caso para dizer: poucas graças com a morte e nada de graças à morte... porque nem esta é de graça.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Dúvida: Predicativo do sujeito?!...?!

   Regresso às dúvidas centradas em funções sintácticas.

  Q: Diga-me, por favor, como posso classificar 'existir vida em Marte' na frase seguinte: 'É possível existir vida em Marte'? Também é predicativo do sujeito, na continuidade de´'possível'? Há quem me diga que também é o complemento do adjectivo.

  R: A frase que me apresenta configura um caso de inversão no Português relativamente à ordem sintáctica típica do Sujeito-Predicado.
    Assim, para o predicado 'É possível' (constituído pelo núcleo de um verbo copulativo mais o predicativo do sujeito 'possível'), há um sujeito - 'Existir vida em Marte' -, o qual se apresenta sob a forma de uma oração não finita (infinitiva).
    Não há hipótese de o considerar complemento do adjectivo, porque esta função sintáctica comparece tipicamente em casos de adjectivos relacionáveis com verbos transitivos (exemplo: Admirar[-se com] X > admirada com X; Preocupar-se com X > preocupado com X; Interessar-se com / por Y > interessado com /por y). 'Possível' não entra, portanto, na categoria-padrão destes adjectivos que seleccionam um complemento (enquanto função interna).

    Esta questão das funções sintácticas internas é uma complexidade que se torna bem mais complicada quando as centrais e hierarquicamente dominantes já não são adequadamente identificadas. Prova de que as subcategorias devem aparecer depois de dominadas as categorias. Por etapas... por etapas... Assim pode ser que as raízes dêem lugar a ramificações mais sustentadas.

sábado, 13 de novembro de 2010

De novo Deborah... mais o grupo

      A imagem e a voz de Deborah Dyer (a também conhecida Skin) impõem-se a solo ou em grupo (Skunk Anansie).

    Desta feita é "Over the Love" (do CD 'Wonderlustre', o último). I wonder what it is.

   
    OVER THE LOVE

    You pretend the spell has broken
    goods were spoilt from the start
    no complaints I release my claim on your heart


    Now I can forget you cos' I'm over the love
    Karma can protect you cos' I'm over the fun
    I needed the shame, I needed the pain
    I need to feel nothing for you
    Now I can forget you cos' I'm done

    You can bite, the fist that feeds you
    lose your fight with some scars
    you defend spilling blood and rain let it ride... right
    (throw it all away).

   
    Está a apetecer-me ir ao Coliseu do Porto. Porquê? Who knows...


segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Vulcão Merapi - tão longe e tão perto...

    A erupção do vulcão em Merapi, na Indonésia, activou-me memórias muito recentes.

    A força destruidora da natureza está aí, viva, activa, desde 26 de Outubro. Ontem, mais uma erupção.

    São muitos os feridos; há corpos resgatados que se encontram carbonizados; há problemas respiratórios e queimaduras entre os que sobrevivem a mais uma catástrofe na Indonésia.
    Na outra extremidade do mundo, são e salvo, só tenho uma pequeníssima percepção do medo. E mesmo essa é tão distanciada quanto a de um turista que se viu perante uma possibilidade de ameaça: a de um vulcão que, a todo o momento, pode ainda expelir esse familiar manto de fogo, que os séculos acabaram por transformar em material para a construção de muros na cidade.
    Lembro-me de Pompeia, dos vestígios que, por ora, alimentam a fantasia dos turistas que a visitam; que fazem do presente memória de um passado trágica e ameaçadoramente repetível.


Vesúvio (ao fundo) dominando o Templo de Apolo, em Pompeia.
    Lá ainda se sente o peso sufocante de uma morte que dizimou os cerca de 5 mil habitantes da antiga cidade italiana, situada a sueste de Nápoles. Corria o ano de 79 d. C. e o Vesúvio vomitava a lava e os gases mortíferos. O resto viria com o passar das horas: chuvas de pedra e de gás, névoas de fumo e escuridão, ondas de fogo e cinza aquecida.
  Tempo de incineração, petrificação, de imobilização na posição de morte - a que perdurou até aos dias de hoje.

    Passados mais de mil e novecentos anos, as memórias lá estão a descoberto, graças às escavações que se têm vindo a fazer desde há cerca de dois séculos e meio - vestígios de uma cidade romana classificada Património Mundial pela UNESCO, na zona designada por Áreas Arqueológicas de Pompeia, Herculanum e Torre Annunziata.

sábado, 6 de novembro de 2010

Canto poético (para o optimismo): No teu poema

      Reencontro com um poema, uma voz e uma melodia feitos para seduzir.

     Pouco há para dizer quando o que é conhecido, de repente, faz diferença.
    Embalado pela melodia, dando atenção às palavras e apreciando a interpretação, a sedução acontece. Desvela-se a beleza do que sempre esteve ao pé e na memória, na composição e na letra de José Luís Tinoco.


      NO TEU POEMA 

No teu poema
Existe um verso em branco e sem medida
Um corpo que respira, um céu aberto
Janela debruçada para a vida

No teu poema
Existe a dor calada lá no fundo
O passo da coragem em casa escura
E, aberta, uma varanda para o mundo.

Existe a noite
O riso e a voz refeita à luz do dia
A festa da Senhora da Agonia
E o cansaço
Do corpo que adormece em cama fria.

Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.

No teu poema
Existe o grito e o eco da metralha
A dor que sei de cor mas não recito
E os sonos inquietos de quem falha.

No teu poema
Existe um canto, chão alentejano
A rua e o pregão de uma varina
E um barco assoprado a todo o pano.

Existe um rio
O canto em vozes juntas, vozes certas
Canção de uma só letra
E um só destino a embarcar
No cais da nova nau das descobertas.

Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.

No teu poema
Existe a esperança acesa atrás do muro
Existe tudo o mais que ainda escapa
E um verso em branco à espera de futuro.


    Interpretações como as de Carlos do Carmo, Simone de Oliveira, Dulce Pontes ou Mafalda Arnauth são a prova de como há palavras que, em diferentes vozes, não perdem qualquer beleza ou nota de optimismo nos versos (também feitos dos seus reversos). 

     Em tempos críticos, o canto poético convoca alguma da magia que se perde... e a esperança de "um verso em branco à espera do futuro".   

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Complementos, modificadores... ou nem isso!

     De volta às questões da sintaxe, mais propriamente das funções sintácticas.

     Entre várias dúvidas, uma parece ser a base para toda uma implicação de raciocínios consequentes (da função sintáctica de um constituinte à classificação sintáctica de um verbo).

     Q: Em 'A sopa sabe-me bem', qual é a função sintáctica de 'bem'? Complemento oblíquo? Modificador?

       R: O caso de ‘bem’ em ‘saber bem’ é um caso complexo para se analisar sintacticamente, pois o enunciado a trabalhar requer uma plataforma de âmbito semântico e pragmático. Na verdade, ‘saber’ não pode ser encarado, neste caso, como um verbo cujos traços de predicação se associam a um estado cognitivo (com a estrutura argumental correspondente à configuração do tipo ‘X saber Y’, como é usual nas ocorrências mais comuns).
     ‘Saber bem / mal’ entra no domínio das lexias ou das expressões fixas - objecto de um processo de lexicalização ou deriva semântica, com perda das regularidades de construção, nas quais cabem as didacticamente chamadas expressões idiomáticas e as colocações. Trata-se, assim, de uma ocorrência de 'saber' enquanto expressão de percepção psicológica / apreciativa / avaliativa - equiparável a verbos como ‘gostar’, ‘apreciar’ e os antónimos 'detestar', 'desapreciar'.
      É na perspectiva deste estado de coisas que tem cabimento proceder à análise da frase ‘A sopa sabe-me bem’. Para um sujeito (semanticamente tomado com o papel de objecto – ‘a sopa’) há um predicado constituído por uma expressão fixa (‘sabe-me bem’) que inclui um complemento indirecto (semanticamente tomado como o experienciador da apreciação e configurado pelo dativo - ‘me’ -, o ‘dativo ethicus’ que se encontra pragmaticamente associado ao locutor do enunciado). Trata-se de uma construção equiparada a 'A sopa agrada-me'.

     Este sentido integrador do processo de análise é o que pode ser depreendido da formulação de algumas orientações didácticas para a construção de uma gramática pedagógica (que, apoiada no domínio da sintaxe, não deixa de relevar um enfoque articulado com os usos da língua). Promove-se, então, uma redefinição no ensino da sintaxe, com dois tipos de implicação: abordar este domínio linguístico pela consideração dos significados a que as estruturas sintácticas respondem (claramente, orientando-se para uma dimensão mais comunicativa); encarar as actividades de natureza sintáctica mais como manipulação de enunciados do que mera identificação e análise das formas ou relações gramaticais.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O Outro (Português e Brasil de mãos dadas)

       As palavras são de um português; a música de uma brasileira. Em comum a língua e o Homem.

      Pessoa dizia, de Mário de Sá-Carneiro, que não teve biografia, só génio; que viveu o que disse. O companheiro pessoano no Modernismo, que se autocaracterizou como um "castrado de alma", explorou o tema da angústia até ao final da vida, à qual pôs término com apenas 26 anos. 
      A ideia do Eu e do Outro tornou-se tema para expressão do desconhecimento face à representação de si mesmo; da aspiração à diferença do ser na existência; da partilha angustiada e entediada "do que está ao pé".


    Eu não sou eu nem sou o outro,
    Sou qualquer coisa de intermédio:
    Pilar da ponte de tédio
    Que vai de mim para o Outro.
Lisboa, Fevereiro de 1914

    Quatro versos para um narcisismo sacrificado a ponto de, tal como na expressão de Plauto - em Báquides (IV, 7-18) -, morrer jovem o que os deuses amam. Não tinha de necessariamente ser assim.
    

sábado, 16 de outubro de 2010

120 anos de uma vida poética

    A ter existido, o criador assim o viu: "toda a emoção que não dou nem a mim nem à minha vida.» (in 'Cartas de Fernando Pessoa')

      Álvaro de Campos, o engenheiro naval (por Glasgow) propenso ao triunfalismo dos motores e da tecnologia, nasceu em Tavira, no dia 15 de Outubro de 1890. Surgido impetuosamente "Num jacto, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda", muito do que é se revê na 'Ode Triunfal', esse exemplo poético feito da euforia e da força que culminam num sono, num cansaço e numa avaria impostos pelos excessos e pela exaltação heróica da máquina.

Foto de cartaz na Casa de Álvaro de Campos (Tavira)

   Ao heterónimo que quis "Sentir tudo de todas as maneiras", Pessoa não deixou de dar a oportunidade da busca incessante do Absoluto e da Verdade. Do registo finissecular e decadente, do vanguardismo futurista e sensacionista à angústia existencial, Campos viveu "de tudo em tudo" - entre a vitalidade transbordante e torrencial não deixou e experienciar a angústia própria de quem viveu todos os prazeres.

    Assim se cumpre mais um dia, um ano, um tempo "em que festejavam o dia dos meus anos!..."

sábado, 9 de outubro de 2010

Que desassossego!

    Entre o Livro do Desassossego, de Bernardo Soares, e o Filme do Desassossego, de João Botelho, há uma janela de vidro com a cara de Pessoa reflectida.

    Depois de assistir ao filme, no Teatro Nacional de S. João, consciencializei-me de que fui ao 'teatro' ver 'cinema' - um exemplo da possível confluência na exploração de movimentos, expressões e sentidos estéticos partilhados na Arte.
    Desassossego foi a palavra de ordem no balanço final: pela sucessão fragmentária de imagens a espelhar o registo e o estilo do livro de Bernardo Soares (desse ser que, não existindo, deixou obra); pela abordagem a uma interarte (dança, música, cinema, teatro, literatura, fotografia, ...), a um entrecruzamento artístico inspirado a partir do intertexto e intratexto pessoano ortonímico e heteronímico; pelo devaneio que constituiu todo o intervalo de tempo entre a cena inicial e a final, num bar, onde Pessoa se encontra (numa sugestão dessa desafiante ambiguidade que persiste entre Fernando Pessoa e o duplo Bernardo Soares, entre a ortonímia e heteronímia pessoanas); pela identidade e actualidade que as geniais reflexões de Bernardo Soares mantêm face à existência humana (nomeadamente à do homem moderno, cuja identidade está contingencialmente marcada pela alteridade); pela evocação fílmica da consciência e da inconsciência, do sensível e do inteligível pessoanos, a ponto de estes serem visibilizados no dialogismo dos discursos reflexivos.


     Se, como é citado no filme, a Literatura é a arte que casa com o pensamento, este não deixa de se alimentar do que toda uma herança cultural lhe oferece; do que as experiências vividas permitem reconhecer. Quanto ao sonho, há que libertá-lo do enleio que a vida às vezes (nos) apresenta.

    Entre o tédio, a angústia, a inquietação, tanto rasgo de lucidez chega a ser um desassossego; um filme feito do fragmentarismo e da profundidade de um discurso introspectivo não provoca desassossego menor.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Entre Tchékhov e Saramago: a vontade de demissão.

   Há pensamentos cuja coincidência e oportunidade chegam a ser perturbadoras.

      Há cerca de quinze dias, ri-me da representação feita da personagem de um professor a gritar em pleno teatro "Eu demito-me! Eu demito-me". Riso intrigante para um outro professor com vontade de fazer o mesmo num outro palco: o da vida.
      Há doze anos, neste mesmo dia, sentia orgulho por o Português tanto ser falado no mundo, em virtude da atribuição do Nobel da Literatura a José Saramago. Na altura, já tinha lido O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984), Memorial do Convento (1982), A Jangada de Pedra (1986), Deste Mundo e do Outro (1971), Todos os Nomes (1997) e O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991) - precisamente nesta ordem -, reconhecendo o embalo oralizante dos romances e o estilo criativo na escrita; o jogo cúmplice, irónico e denunciador das desigualdades e fragilidades humanas criado com o leitor; a reflexão humanista reflectida numa relação da arte de pensar com o posicionamento ético que aspira a um ideal social que coloca o Homem no centro. A todo o tempo, estes eram ingredientes saboreados e sublinhados em segmentos e pensamentos colhidos no que lia.
      Há minutos, revendo alguns dos versos de Os Poemas Possíveis (1966), parei numa pequena composição que, no momento, muito me diz. Agora, não me rio; porém, não deixei de relembrar o riso e como, em 'A Gaivota' de Tchékhov, o grito do professor espelhava uma vontade dominada pelo mal-estar do momento.

        Demissão


               Este mundo não presta, venha outro.
               Já por tempo de mais aqui andamos
               A fingir de razões suficientes.
               Sejamos cães do cão: sabemos tudo
               De morder os mais fracos, se mandamos,
               E de lamber as mãos, se dependentes.

                                                                                                        José Saramago

         Mordido que me sinto, espero que não me venham lamber as mãos.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Nobel da Literatura: Mario Vargas Llosa

   O nome, familiar, fez-me lembrar um (re)encontro feliz.
   
   Anunciado o peruano Mario Vargas Llosa como o premiado com o Nobel da Literatura deste ano, voltei a pegar livro que li do autor, há já uns bons pares de anos: Pantaleão e as visitadoras (1973).
    Mais recentemente, no ano lectivo 2008/2009, o reencontro fez-se graças a um contrato de leitura apresentado por um aluno numa das minhas aulas de 10º ano.
    A obra, que figura na listagem do Ministério da Educação para alunos do ensino secundário,  foi considerada numa espécie de jogo de sorte e de azar; numa aproximação e descoberta ao autor e à sua obra. Ainda que houvesse a oportunidade de redefinir o contrato, o aluno achou por bem prosseguir. Deve ter encontrado qualquer coisa que o manteve fiel à sorte recebida.

    A história centra-se na personagem Pantaleão Pantoja (capitão recém-promovido do exército), responsável pela criação sigilosa de um serviço de prostitutas para as Forças Armadas do Peru localizadas na selva amazónica. Mudando-se para Iquitos, Pantaleão mantém-se afastado dos restantes militares, usa trajes civis e nada contar à mãe nem à mulher. A discreta missão transforma-se na maior empresa de prostituição do país, alterando completamente a vida local e a do próprio capitão (quando este é visitado pela bela e insinuante Colombiana). Rendido à paixão e ao desejo que sente, Pantaleão vê na sua 'visitadora' a própria força do desejo, da vida amazona selvagem.
     No contraste entre a selva e a cidade (mais propriamente a hipocrisia de uma sociedade convencional e puritana, representada na personagem da mulher oficial de Pantaleão), Colombiana torna-se metáfora do desejo e da volúpia livres de qualquer forma de puritanismo; a selva sem pudores contra a cidade pudica, casta e hipócrita. Assim se atinge o registo da farsa para uma época, para os seus costumes.

    Entre o social e o natural: o velho conflito romântico europeu revê-se, em língua hispânica, num contexto sul-americano, no percurso de um militar que se vê derrotado "na (humana) guerra do amor".

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Uma gaivota voou... sobre um lago.

    Numa encenação de Nuno Cardoso, 'A Gaivota' (de Anton Tchékhov) passou pelo Teatro Nacional de São João (como se prova pelas fotografias de João Tuna).

    Num palco molhado, simbologia de reflexo e de fluidez, a agitação das águas retoma sempre o ponto de inércia, pela lacustre limitação e estagna-ção impostas pelo chão dos homens (qual escritor que busca "novas for-mas" e constata a rotina e o conformismo trazidos pelo tempo).
   No jogo dos contrastes que se comple(men)tam, a vida impõe-se na ténue fronteira entre o que é ilusão, ficção; desilusão, realidade. E no palco da vida surge aquilo a que todos assistem: desencontros de amor, antinomias do velho e do novo, do que flui e do que permanece, do campo e da cidade, da crise e do sonho, do 'eu' e do 'outro' que connosco anda (feito do posto, do posicionamento assumido tal qual cadeira que se arrasta para que nos possamos apoiar, sentar, acomodar).
    Da arte da escrita e do teatro, fica a imagem da vocação: a da entrega ao acto, na consciência de como há que vencer as dificuldades, os fracassos para que se possa obter a força interior que cada um assume da forma que melhor pode ou quer. Onde uns vêem a fama e celebridade desejadas, outros apenas encontram o trabalho que têm (e para o qual precisam de uma inspiração); onde uns buscam o que de insólito, novo e diferente há na arte, outros reconhecem o que esta tem de já consagrado; onde uns cumprem o papel que representam (com maior ou menor crença ou fé), outros questionam-se.
    E a gaivota voa, a gaivota crocita.
   O homem pode matá-la, pode matar-se.
   A ave pode morrer, mas a mulher que a encarna ainda foge, por mais que o passado a marque. Falta saber se o lago será suficientemente grande para o voo que quer dar.

    Tchékhov, como te entendo neste desassossego! Desde há um século, (re)escreve-se e (re)formula-se a nota de decadentismo, de angústia, de simbolismo, de um existencialismo antecipado. No jogo de desigualdades, no qual uns descem à dor, à perda e ao sofrimento (que abatem o ser humano), outros preferem a ilusão, deixando-se ficar por memórias de um passado que, não se querendo revisto, se impõe num presente apresentado como longe de qualquer mal. E a vida surge qual palco, qual cenário composto à medida dos anseios nele depositados.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

De um poeta cuja poesia tem arte de música

    Cento e quarenta e três anos depois de ter vindo ao mundo (1867-1926).

     De Camilo Pessanha ainda pouco se disse, além dos seus dados biográficos e da vivência errante com que muitos poetas se fazem (ou deles são feitos ou, ainda, que dizem deles ser feitos).
     No cruzamento de referências com Verlaine ("de la musique avant toute chose"), pela musicalidade; com Baudelaire mais Mallarmé, pelo simbolismo poético; com Pessoa e os do Orpheu, que tanto o admiraram e quiseram divulgar, fica um compositor de versos, sons, palavras e símbolos à espera do que o leitor encontre nas imagens evocadas.

           Imagens que passais pela retina
           Dos meus olhos, porque não vos fixais?
           Que passais como a água cristalina
           Por uma fonte para nunca mais!...

           Ou para o lago escuro onde termina
           Vosso curso, silente de juncais,
           E o vago medo angustioso domina,
           - Porque ides sem mim, não me levais?

           Sem vós o que são os meus olhos abertos?
           - O espelho inútil, meus olhos pagãos!
           Aridez de sucessivos desertos...

           Fica sequer, sombra das minhas mãos,
           Flexão casual de meus dedos incertos,
           - Estranha sombra em movimentos vãos.

in Clepsidra (1920)

    Um tempo para lembrar o soneto que mais me impressionou nos tempos dessa adolescência que teimava chegar à maioridade. Passagem, tempo que flui congregados em imagens de água, de olhos, de sombra, de espelhos em que o 'eu' se dissipa e que, a cada instante, se revê num relógio de água feito de transitoriedade.

domingo, 15 de agosto de 2010

Me vado lontano

   Finalmente...

   Un piculo apuntamento: vacanza (Milano, Firenze, Roma, Génova, Napoli), de preferenza sin Berlusconi.
   Si me tornero (piú felice) no lo so, ma io bisogno de un nuovo aire.
   La bella Itália!

   Até ao meu regresso (assim as asas do avião me tragam).

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

História(s) que a língua nos dá.

   Provas de que, na língua, o tempo faz diferença.

   A propósito de conquistas do século XII, aparece, num documento do século XVII, um dado descrito nos seguintes termos:

"Ganharão-se as Villas de Abrãtes e Torres Novas, ambas muyto fortes em o sitio, fermeza de muros e castellos (...)."

 (Frei António Brandão, in Monarquia Lusitana, 1632)

   Para além de questões ortográficas e da representação mais ou menos próxima de realizações fónicas, destaco a colocação pronominal clítica na primeira forma verbal: no contexto actual da mesóclise ('ganhar-se-ão'), há registo escrito de que há quase quatro séculos se fazia (dizia?) o que os alunos hoje em dia teimam em usar nos seus discursos orais / escritos.
   Tratando-se de um caso crítico a privilegiar no trabalho de língua, o que hoje se explica como uma evidência de composição histórica na língua portuguesa, com repercussões morfossintácticas (aproximando a conjugação pronominal de verbos no futuro e no condicional), parecia mais natural, menos complexo em estádios linguísticos anteriores.

     Quantos alunos não gostariam que retomássemos esse tempo (pelo que dizem e pelo que escrevem).

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Quando a solução está ao alcance dos nossos olhos

    Já lá vai algum tempo, quando um grupo de alunos apresentou o seu contrato de leitura baseado n' O Símbolo Perdido, de Dan Brown.

     Terminei hoje a leitura deste livro.
     As férias dão para pôr em dia o que nem sempre se consegue fazer ao longo de todo um ano de trabalho (com muitas escritas e muitas leituras... de outro tipo). Do ano lectivo findo e do contrato ficaram um ponto de motivação e uma pista de interesse para ir ao encontro deste romance.
    Não deixei de ficar "agarrado" pela história e pelas curiosidades que nela fui (re)encontrando:

. a maçonaria aborda a crença num ser superior: o Ser Supremo ou Grande Arquitecto do Universo (designação mais hiperonímica para Deus, Alá, Buda ou Jesus);
. os símbolos maçónicos associam-se a uma linha interpretativa: a da transformação (caveira, enxofre e sal, ampulheta, vela);
. 'symbolon' era o termo grego para uma tábua de argila onde se registava informação secreta - tábua que, depois de partida em pedaços, era espalhada por diferentes locais (só a junção das diferentes partes permitira acesso à informação - tal como nos 'símbolos'); 'lenda' e 'legenda' provêm do mesmo étimo latino ('legenda'); o termo 'álcool' tem origem no árabe 'al-kuhl'; 'talismã' provém do grego 'telesma', a significar 'completo'; a palavra 'noética' deriva do grego antigo 'nous', normalmente traduzido por 'conhecimento interior' ou 'consciência intuitiva' (embora de intuição me pareça que tem muito pouco);
. na formação da palavra 'sacrifício' há quem leia o jogo 'sacra-sagrado' e 'facere-fazer'; 'sincera' era a obra que escultores (desde os tempos de Miguel Ângelo) não dissimulavam com cera - 'sin cera' - e pó de pedra (nas rachas ou falhas); a palavra mágica 'abracadabra' remonta a um antigo misticismo aramaico ('avrah KaDabra') que significa 'eu crio, enquanto falo'; 'apocalipse' significa, literalmente e conforme o apontavam os antigos, 'revelação' (não necessariamente com o actual sentido interpretativo do fim cataclísmico do mundo); 'Elohim' é a palavra hebraica para Deus no Antigo Testamento (ser plural - e pluribus unum -, ou seja, "De muitos um só", numa convergência de forças);
. o número '33' era considerado, no tempo de Pitágoras, o mais elevado de todos os Números Mestres, o mais sagrado, o símbolo da Verdade Divina (tal como os maçons escolheram o trigésimo terceiro como o grau mais elevado); o 8 é o símbolo do infinito, após uma rotação, e o número da destruição em numerologia;
. "a mente senta-se no cimo do corpo físico como uma pedra de fecho de ouro. A Pedra Filosofal. Através da escadaria da coluna vertebral, a energia ascende e descende, circulando, ligando a mente celeste ao corpo físico" (pág. 482) - será este um mistério antigo?

    Mais do que se lê na epígrafe ("Viver no mundo sem ter a consciência do significado desse mesmo mundo é como deambular por uma enorme biblioteca sem tocar nos livros" - in The Secret Teachings of All Ages), o poder da linguagem pressente-se e ressalta numa obra cuja intriga é feita de ingredientes como a vingança, a evolução e a mudança retomando o passado, as escolhas e os dilemas que condicionam a acção humana, os sentidos de poder (antigos e contemporâneos) em confronto, os laços familiares que se atam e desatam, as redescobertas no percurso da vida e da História do Conhecimento, o entendimento do símbolo a convidar continuamente à junção de peças que trazem "luz" e significado àquele que "lê" sinais. Como também se lê no romance, "A língua pode ser bastante hábil a esconder a verdade" (pág. 232).
    Depois de ter lido O Código Da Vinci e Anjos e Demónios, não se pode dizer que este livro seja uma grande novidade na construção narrativa. Lê-se bem em tempo de descanso e aguarda-se sempre pela novidade que cada capítulo traz, pela(s) mudança(s) de rumo que se impõe(m).
   Em tempo de reconstrução e retoma de velhos mitos, coloca-se Washington no caminho da "The Promissed Land", com a tónica da esperança e da afirmação do Homem como fonte de poder, de saber e de (re)criação / transformação de ideais. Nisso se revê a própria personagem principal (Robert Langdon), pela (re)descoberta do que conhece e pela oportunidade que lhe é dada para mais aprender.

    Como o próprio livro o assume, na voz de Trish (personagem cooperante de Katherine Solomon), "O conhecimento é uma ferramenta e, como todas as ferramentas, o seu impacto está nas mãos do utilizador" (pág. 96).

sábado, 7 de agosto de 2010

Represas sem espinhos

   Ao vivo se revelam os verdadeiros artistas, sem os efeitos especiais e milagrosos de alguns arranjos tecnológicos..

   Numa programação / animação de férias que trouxe muitos nomes sonantes da música a Espinho, Luís Represas foi sensação.
   Um palco em plena Alameda 8, muita gente a assistir, para duas horas de espectáculo em que luz, música e voz(es) deram para ver quem sabe cantar e tocar, em directo, ao vivo e a cores.
    E cá vai uma do repertório ('Entre mim e eu') - entre tantas outras dos tempos dos Trovante ou do já longo percurso a solo do cantor -, que saiu bem mais animada com a força dos instrumentais e do coro de vozes que se fez ouvir à volta do palco.


    Poucos são aqueles que se revelam melhores e mais fortes naquilo que já fazem bem. Luís Represas é, sem dúvida, um desses exemplos.