quinta-feira, 29 de abril de 2010

Morfologia a quanto obrigas...

     Voltemos às dúvidas, que andavam um tanto arredadas deste espaço (como dizem os meus alunos, "Professor, tenho uma dúvida!"; e eu respondo "Felicidade a tua, pois eu tenho muitas!").

    Q: Partindo do exemplo "Quando chegar a casa, vou estudar", tenho lido em vários sítios que o verbo 'chegar' ora está no infinitivo ora está no futuro do conjuntivo. É indiferente esta classificação? Posso aceitar qualquer uma delas? Na verdade a terminação parece ser a do infinitivo. Como posso explicar a diferença?

    R: No exemplo que me dá, vejo o infinitivo na forma do verbo 'estudar', na medida em que o complexo verbal associado ao futuro próximo ("vou estudar") se configura do seguinte modo: 'verbo auxiliar + verbo principal (infinitivo)'.
    Já quanto ao verbo 'chegar', apesar da aparente semelhança formal (em termos morfológicos) entre futuro do conjuntivo e infinitivo, julgo ser mais adequada a classificação de futuro do conjuntivo pelo seguinte raciocínio: numa eventual manipulação / transformação da frase, seria possível ver a co-ocorrência de 'quando' com verbos que admitem a forma do futuro do conjuntivo e não a de infinitivo. Assim, seria possível ter "Quando estiver em casa vou estudar" e não "*Quando estar em casa vou estudar".
     Construam-se ainda frases que tenham o articulador 'quando' seguido dos verbos 'fazer', 'dizer', 'trazer', 'querer', 'ter', 'pôr', 'poder', e seguramente não serão estas formas infinitivas que aparecerão. Serão utilizadas as que correspondem ao futuro do conjuntivo (como é o caso de 'fizer', 'disser', 'trouxer', 'quiser', 'tiver', 'puser', 'puder', respectivamente).

    Ora cá está um exemplo de como a morfossintaxe, além de alguns contributos de ordem semântica, pode marcar diferença no modo de ver a forma das palavras.

domingo, 25 de abril de 2010

Abril precisa de açúcar...

    Em feriado celebrado em pleno domingo (coisa tão escusada!), os discursos são velhos, as ideias estão gastas, o tempo vai apagando as conquistas e os ideais estão enevoada e silenciosamente em crise. Sinais de algum desmaio...

     Não desmerecendo o exemplo que muitos deram neste dia, em 1974, 36 anos depois as palavras de Sophia mantêm o sentido que a actualidade impõe:

"Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo."

     Nessa madrugada já distante, conquistou-se a liberdade, desde aí também ameaçada. Hoje, entre silêncios que se geram, injustiças criadas e defendidas, precariedade e desequilíbrios socialmente desgastantes, orientações políticas inconsistentes e pautadas por constantes e sucessivos dissensos, resta sempre a hipótese de dar voz ao descontentamento... muitas vezes qual farinha colocada em saco roto. A sensação de esgotamento faz-se sentir e um sentido de vazio cresce. É preciso que a noite saiba que tem de dar lugar ao dia.

    Peço um café.
   Dão-me um pacote de açúcar (fica para reanimar o Dia da Liberdade).
     Leio a pergunta registada no pacote (à direita).
     Apetece-me dizer: Há!
    Ver uma multidão de pessoas com vontade de ser verdadeira e de lutar por uma liberdade socialmente valorizadora, limpa, empenhada na construção de uma sociedade mais justa e solidária, menos iludida e ilusória. Talvez assim fosse possível 'Desenvolver' (já que de 'Democratizar' e 'Descolonizar' se evidenciou alguma coisa com a Revolução dos Cravos). Isto porque quero acreditar que isto não seja impossível nem falso.

    ... e eu preciso de café.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Antígona: reflexão sobre o(s) poder(es) para salvar a vida

     Um espectáculo... (no duplo sentido).

    Numa encenação de Nuno Carinhas e com o texto de Sófocles traduzido por Marta Várzeas, expõe-se ao público uma estrutura cénica de anfiteatro, sugestivamente fundacional da tradição grega; o visionamento de um cerimonial performativo de natureza cívica; a força de uma representação que se faz dos conflitos de critérios, do entendimento e do significado a dar a certas palavras; da abordagem trágica não tanto de situações (como em Ésquilo), mas, mais, de caracteres.
     A força de um dever apoiado no sentimento e no laço familiar debate-se com as ordenações estabelecidas por um poder que, por mais que seja inicialmente legitimado e reconhecido, escapa ao entendimento moral. É o que sucede quando não se admite soluções e apenas se dá ordens (tal como Creonte); e assim se chega a ameaçar o Cosmos, lançando-se o mundo no caos.
    A atitude de oposição da jovem Antígona, figura que o leitor / espectador mais guarda na memória (não obstante a reduzida presença no texto / na representação), culmina num diálogo intemporal, feito da legitimação da lei dos deuses em detrimento da lei humana. Torna-se admissível a questão de quem escreve as leis não escritas dos deuses. Nesta linha de reflexão, cresce o confronto de dois poderes, ao qual se junta outro: é posto em causa um acto humano de Creonte, enquanto porta-voz das razões de Estado, para se impor aquele assente numa plataforma moral, familiar - eticamente sustentado a ponto de ferir de morte alguns sinais de um mundo despótico.


    No final, chegada a “anagnorisis” (reconhecimento), a força do tempo impera: é tarde. A “hamartia” (erro trágico) faz com que Antígona, num bailado de dor que a conduz a uma caverna escavada na rocha, acabe por pôr termo à vida. Também Hémon (o noivo de Antígona, o filho de Creonte) teve na espada com que se trespassou o acto sofrido do amante que - apesar de saber usar da palavra, do discurso apoiado num raciocínio aprovado - deixou na palavra dita toda a força que não alimentou o feito desejado ou a solução creditada.
    Da quase ausência de Antígona (no texto ou no palco) se faz a presença forte de uma consciência liberta, mas ameaçada na condição e na existência; do tempo representado, já passado, se revê o presente com muitos poderes que, no jogo da pólis e do ethos, se degladiam.
    “Não há ventura sem desdita” é máxima que Sófocles parece querer situar ao nível das forças do destino. Ao ouvir que “Há mortos de que os vivos são responsáveis”, impõe-se a acção do Homem, a origem de algum do sentido trágico e desventuroso traçado pelo próprio; mas também a fonte para poder salvar a vida.

       Pela mensagem do texto dramático, pela qualidade arrebatadora da representação e encenação, pela(s) companhia(s) do momento, esta foi uma noite que deu em muita luz.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Pela paz ansiada

      É nos tempos mais conturbados que se dá mais valor ao que nos inspira segurança, estabilidade, paz...

     Neste Dia Mundial da Voz, dê-se esta última à poesia...


..., fazendo-se ouvir as palavras dessa poetisa que buscou o sentido completo, pleno das coisas: "Na febre de buscar o senso à vida / Descubro-me dor de alma inacabada". Vislumbro nestes versos uma intrigante actualidade, na crença de uma Natália Correia, para quem "tudo é eterno num segundo".

      ... porque a poesia é voz, é música e, no uso das palavras mais incisivas, não deixa de convocar a paz.

Tópico: o meu olhar...

    Não é lá grande coisa, principalmente nos tempos que correm. Já houve melhores dias.

    Lido o poema de uma amiga, tão feito do azul celeste com que pinta o seu firmamento, entro em diálogo versificado, numa polifonia disfórica... com um outro olhar.


FÉNIX-ÍCARO SEM (G)RITO

No meu olhar,
sou Fénix em cinza
sem azul no firmamento;
com lua
cercada de noite
e de uma diminuta estrela
que aspira a ser Sol.

Deixá-la brilhar...
Talvez alumie
quem ainda vive
de tanto imaginar.

Em sétimo céu,
Ícaro viu-se perder.
À terra voltou,
depois de o Sol cobiçar.
No calor do fogo,
achou motivo para a queda.
No calor do fogo,
ficou a Fénix queda
(sem fêmea que a chorasse).

Há voos que,
na liberdade cega,
do ar tombam no mar;
há cinzas que,
sopradas pelo vento,
se dispersam,
se apartam
de um apregoado brotar ...
longe do renascer.
Pobres mitos, em rito por cumprir!

Neste meu desencantado olhar,
há íris que embate em nevoeiro;
pupilas sem mestre, em cegueira;
há uma imensa e intensa luz
turvando um mundo
que, de fantasia, se faz do que o ilude...

Não deixa voar
este meu olhar.
Gondomar,
20 Abril 2010 (um dia sem história)

    Se quem muito alto sobe muito baixo desce, espero que o inverso também se faça verdade, pela esperança de melhores tempos e olhares.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Reencontro: melhor mais uma vez do que outra vez

    O reencontro é com a música e com um dos diversos grupos que acompanhei na década de 80 do século passado, tal como muitos outros teenagers desse tempo.

    Nessa altura, entre muitos êxitos, até as barricadas eram menos limitativas, mais transponíveis.

Do álbum Through the barricades, lançado em 1986

   Hoje, passado o século, alterados o tempo e os rostos, mantém-se o tom dos "new romantic" Spandau Ballet. Revive-se a voz de Tony Hadley, o saxofone de Steve Norman, mais os guitarristas Gary e Martin Kemp, além do baterista John Keeble.

Do sétimo álbum do grupo (Once more), datado de 2009

         ONCE MORE

I don't want to let you down
I just want the chance to turn myself around
I keep on searching for the sound
I don't want to do you wrong
I just want to take us back where we belong
We were hot and we were oh so strong

Oh I know we will make it if we try
Reach for the stars and we can touch the sky


Darling, once more, won't you give me one more time
Say these words together
I need you more than ever
Trying once more
One more chance to make it right
Never say never, let's rise up together, take on the world

I don't want to change a thing
I don't want to change this whisper to a scream
Same old song in a different dream
Sorry I stole the show
I can't believe I had your heart and let it go
I always loved you but I didn't know

Oh there's nothing standing in our way
We've got the love but do we want to play


(Let's stick around, go round again
Another chance to make amends)

    Revivalismos em tempos de saturação - sempre é uma estratégia de sobrevivência.

    Com música, o passado até pode ser retemperador (sem querer ser saudosista). Pelo menos, traz alguma harmonia, para tempos que se revelem mais esgotantes e esgotados. "Let's rise up together, take on the world" (no matter how heavy I figure it out, right now).


segunda-feira, 12 de abril de 2010

O contrário de relevar é... relevar!

    Porque há verso e reverso, há sempre a possibilidade de a poesia voltar ao uso original da língua (se não for ela a própria origem); porque há palavras que têm em si o seu antónimo, construa-se o significado que mais lhes convém.

     É o caso da palavra 'relevar', conforme se lê nas frases dadas:

i) A chamada telefónica permitiu-lhe relevar as saudades que tinha sentido com a partida do amigo.
ii) Depois da situação crítica vivida, passou a relevar muito do que julgava ser o pior da vida.

a) Muita gente acha que os adornos ajudam a relevar a beleza.
b) Entre tantos assuntos a tratar, o administrador decidiu relevar uns tantos em detrimento de outros de pequena monta.

     Entre os pares construídos, ao primeiro  associa-se o sentido da diminuição e da atenuação; ao segundo, o traço da saliência, do destaque. À perda de i)-ii) contrapõe-se o ganho em a)-b), fazendo-se sobressair algo.

     Se algumas palavras são camaleónicas (mudando a classe, apesar da forma, tal como os famigerados répteis o fazem na cor), outras há que tudo mantêm, excepto aquilo que os comunicantes nelas possam ver ou ler. Por isso, quando se relevar algo que tenha sido dito, há sempre a possibilidade de acertar em pólos extremos, conforme se queira destacar (porque se aceita) ou menorizar (porque se discorda).

sábado, 10 de abril de 2010

Como eu... melhor do que eu.

      Professor de Português: há 86 anos nascia um exemplo de atenção à vida (por mais curta que ela tivesse sido) e ao ensino (sobre o qual se lê alguns dos momentos vividos, num diário póstumo).

        "A aula começou pela algazarra do costume. Parece uma romaria depois dos primeiros copos. Eu entro e peço paz, suplico paz, imponho paz; o primeiro minuto tem de ser de paz imposta; o segundo é que já é paz provocada, paz devida ao interesse que a aula consegue ter (ou romaria novamente, devida ao desinteresse que a aula consegue ter...).
       Fez-se, imposto, uma espécie de silêncio; um silêncio cheio de resíduos de barulho... E comecei a ler."


      Um apontamento para muitos momentos repetíveis na "romaria", desejáveis num ritual de leitura que se constrói. Quando ler é voz, há como que o canto sedutor das sereias a dominar incautos marinheiros, sem que se lhes anuncie nenhum naufrágio (bem pelo contrário!).
       E, depois, há aquele outro registo que também recordo dos meus tempos de estágio, quando pela primeira vez me cruzei com a escrita de Sebastião da Gama. Nele lia o que teria gostado de ter sentido com alguns dos meus professores (e alguns certamente o conseguiram, a ponto de querer tornar-me um deles); nele pressentia algo a seguir, se queria que as minhas aulas tivessem alguns momentos de alegria e de felicidade (quer para mim quer para os que comigo iriam trabalhar) a par de algum esforço necessário ao saber.


     
     Entre 1924 e 1952 correu o tempo para a curta existência e a intensa vivência de um professor e poeta. 28 anos de um "insofrido anseio de se dar às coisas como aos seres"; existência que o Prof. Hernâni Cidade caracterizou no prefácio do Diário (1958) daquele seu aluno, na Faculdade de Letras de Lisboa, que se havia dado a conhecer em verso, com Serra-Mãe (1945).

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Sem romantismos...

     Pensamento... dos mais românticos ou práticos?

     Numa exposição que se encontra no Centro de Estudos Camilianos - Casa Museu de Camilo (São Miguel de Ceide), a propósito das mulheres na vida de Camilo, lê-se:

























      Escrito por quem foi, que se diria do percurso em versão masculina?!

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Porque amador é aquele que ama

     No fim de um dia, na Quinta da Bonjóia, foi tempo para uma conversa a propósito da figura precursora e introdutora do Surrealismo em Portugal: António Pedro (1909-1966).

    Na sequência dos "Serões da Bonjóia - Tertúlias à moda do Porto", Júlio Gago, director artístico do Teatro Experimental do Porto (TEP), proferiu a última de quatro conversas à volta do tema 'António Pedro' (figura primeira na direcção artística deste grupo, no período 1953-61). 
   Ainda no contexto da comemoração do centenário de nascimento (iniciativa começada em 2009 e prolongada até ao presente ano), foram abordadas as facetas do jornalista (foi inclusivamente director de dois jornais de Coimbra: "Bicho" e "Pena, papel e veneno"), escritor, pintor, desenhista, encenador. 
     Nascido em Cabo Verde (na cidade da Praia), chega ainda criança a Portugal. Estudou em La Guardia (onde cultivou o gosto pelo teatro). António Pedro foi homem para se multiplicar por várias áreas artísticas, tendo sido pioneiro em Portugal nalgumas delas.

      Aqui ficam alguns apontamentos, a relevar o seu papel:
      . ao criar a primeira galeria de arte comercial com Tomás de Melo (a U.P., 1932);
    . ao participar nos manifestos Planista e Dimensionista (1936), fundamentais para o surrealismo europeu, que entra em Portugal por via de António Pedro - figura principal do Grupo Surrealista de Lisboa (1947-9); 
      . ao escrever o primeiro romance (assim chamado porque o autor assim o quis) poético surrealista, intitulado Apenas uma Narrativa (1942);
     . ao inovar nas artes gráficas em Portugal (com a capa do número inicial da revista Variante, da qual foi director, em 1942);

   . ao dar voz à liberdade ansiada (vinda de Londres, pela BBC, aquando da II Guerra Mundial, mais precisamente nos anos 1944-5), na luta contra o autoritarismo fascista (fosse pela esquerda fosse pela direita);
    . ao renovar a estética do teatro em Portugal, essencialmente no âmbito da encenação.
      Viria a morrer em Moledo, aos 67 anos.
      Jorge de Sena viria a antologiar o que de melhor António Pedro fez na poesia.
António Pedro, em foto de Fernando Aroso

      Depois de cerca de hora e meia de conversa, dois dados se retiveram: na opinião do orador, António Pedro não é tão reconhecido no seu país como o é lá fora; se não é assumido como um brilhante exemplo da Arte Moderna (de que foi pioneiro também no ensaísmo), contribuiu determinantemente para a inovação, o pioneirismo e o brilhantismo de diversas formas de expressão artística (literatura, pintura, cerâmica, teatro). 

quarta-feira, 7 de abril de 2010

De Camilo a Régio, para literatura feita de viagem

      Para isto servem as pausas: ver, ler, ouvir e sentir a literatura que vai oficialmente escapando aos nossos sentidos.

      A viagem teve como destino, na manhã, S. Miguel de ... ora Seide ora Ceide (indicações para diferentes gostos gráficos, sempre em comunhão homofónica). Momento para recordar Camilo Castelo-Branco, o seu tom sarcástico e irónico de escrita; um percurso de vida entre o aventureiro, o crítico e ousado, o sofrido; um homem que enfrentou o próprio tempo.
     Da casa onde pôs termo à vida ao Centro de Estudos Camilianos... um atravessar de rua para se acompanhar uma exposição sobre as mulheres do escritor (da mãe, das diferentes companheiras, àquela que lhe seguiu os passos na literatura - ainda que, assim se diz, ele a preferisse na cozinha).
     À tarde, foi a vez de José Régio, um homem plural para (ou em) um escritor singular. 68 anos de vida para o defensor da "Literatura Viva": "Em arte, é vivo tudo o que é original. É original, tudo o que provém da parte mais virgem, mais verdadeira e mais íntima duma personalidade artística". Haja personalidade na obra, mas quanto a obedecer-lhe... assim o entenda o leitor.
     Entre a formação em línguas românicas, a docência de Português, a produção escrita e as colecções de arte popular antiga mais as de pendor sacro, José Régio impôs-se como figura de intervenção cívica e intelectual na primeira metade do século XX, sendo um dos fundadores do segundo modernismo português e da revista Presença.

Pseudónimo de José Maria dos Reis Pereira,
neto de ourives e filho de homem dedicado às artes e letras,
rendido à necessidade de trabalhar na ourivesaria
     




             Vila do Conde aqueceu os caminheiros com o sol que abrilhantou o dia, num contraste assumido com o espírito suicida do autor de Onde está a Felicidade? (1856); com a ambiência sofrida, vitimizadora e dominada pela arte sacra com que o criador de Confissão de um Homem Religioso (póstumo) traçou as divisões de uma casa herdada da tia-avó e madrinha, ao lado daquela em que havia nascido.

     De uma tertúlia andante se fez resumo, para o que da crónica a produzir muito haveria a escrever; mas, perante dois exemplos de escritores fisicamente pequenos (embora intelectualmente grandes na literatura e cultura portuguesas), tudo ficaria a esmo face ao que "doze apóstolos" puderam vivenciar.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

As salaam alekum...

          Assim se cumprimenta quem se deixa dominar pela Fúria Divina.


      A construção do romance obedece a um processo de alternância desnivelada: entre duas histórias aparentemente paralelas, com o nível narrativo centrado no egípcio Ahmed a situar-se num ponto mais recuado no tempo face ao que focaliza a intriga de Tomás de Noronha-Rebecca Scott-Frank Bellamy.
    Numa intriga feita de enigmas a descodificar, de aprendizagens a construir e de riscos / desafios a correr, o leitor ganha com a pesquisa feita por José Rodrigues dos Santos e a partilha sobre alguns dos princípios e ideais islâmicos (dos mais pacíficos aos mais fundamentalistas); tira ainda proveito de toda uma história que apresenta diferentes perspectivas do que é o islamismo, o Alcorão e o radicalismo religioso.
        Numa crise mundial em que Ocidente e Oriente são pólos de tensão e de luta pela supremacia de poder, a religião torna-se bandeira para um jogo conflitualmente assumido entre o governo segundo as leis dos homens e o domínio segundo as leis de Deus (não fossem estas últimas interpretadas à luz da racionalidade dos homens!).
        Tudo o mais anda algo próximo da receita de Dan Brown e da personagem Robert Langdon: um perigo instala-se, o confronto com o mau da fita é inevitável, a descoberta é feita (jogando com sinais e raciocínios que um historiador e criptanalista acaba por desvendar ao último segundo). E, para não variar, um toque de sedução para ver se vai durar muito.
         Por fim, há de tudo e para diferentes (des)gostos: entre a afirmação da genialidade do protagonista e a frustração ou desilusão de alguns dos seus intentos.

      Tal como se começou, resta fechar no mesmo tom e com educação: Wa alekum salema (assim se devolve uma saudação).

sábado, 27 de março de 2010

Fim de um ciclo: a propósito do ensino da gramática

     Foi em Manteigadas, no Auditório da Escola Profissional de Setúbal, que se concluiu um périplo pelo país. Objectivo: reflectir acerca do ensino da gramática.

      A presença de mais de meia centena de profissionais em vésperas de Conselhos de Turma e do final de mais um período lectivo foi o exemplo da motivação e do empenho para mais uma manhã (das poucas que houve este ano iluminadas pelo sol) destinada à reflexão sobre um tema que se tem vindo progressivamente a revalorizar na formação e nas práticas docentes.
      As questões são muitas, as dificuldades não são menores, para um tema que está longe de ser consensual (entre o "mal necessário" e o domínio sentido como uma das especificidades de um professor de línguas).
      Vários foram os tópicos abordados:
       i) o trabalho da gramática desde o primeiro ciclo, a par de outras competências (num alargamento dos planos de análise da língua, da melhoria dos desempenhos orais e escritos, da consciencialização das variedades e da norma-padrão, além da natureza formal das realizações);
     ii) o conhecimento explícito, no seu estatuto idêntico ao das demais competências (dupla perspectivação: quer como competência autónoma quer como competência instrumental e transversal);
      iii) gramática e progressão (do conhecimento implícito ao explícito, visando uma maior consciência, estruturação e sistematização desse conhecimento como condição de aperfeiçoamento fundamentado e crítico das restantes competências);
     iv) a anualização (dispositivo de planificação que activa a progressão gramatical na sua dimensão criteriosamente multifocalizada e estratégica, voltada para um conhecimento criticamente fundamentado);
     v) a terminologia gramatical como instrumento ao serviço de um discurso pedagógico mais rigoroso, propiciador de maior segurança quando formativa e formadoramente entendido;
      vi) a oficina gramatical como um exemplo de aplicação prática.

     No final de mais um percurso, fica a expectativa de se ter contribuído para a chamada de atenção relativamente a uma área estruturante no ensino da língua (materna). Entre as práticas que autonomizam a estrutura e o funcionamento da língua (consciencializando os alunos de um conjunto de procedimentos e técnicas necessários a um melhor desempenho linguístico) e as que assumem um percurso integrado da reflexão gramatical com as demais competências de compreensão / expressão orais ou escritas, todas se orientam para o reforço do trabalho de um domínio nuclear, estruturador do pensamento e do saber, os quais relevam a existência e a cognição do próprio Homem.

quarta-feira, 24 de março de 2010

E tudo fica ao contrário... até a língua!

      No jogo publicitário muito há ainda do espírito do Carnaval (que já lá foi)... e ninguém leva a mal.

     Assim se espera que seja (a criatividade e o espírito publicitários), ao ler-se a página seguinte:

    
     Tudo se faz para chamar a atenção; mesmo acentuar palavras que nunca o foram, quebrando essa simples regra do Português que dita que, normalmente, as palavras graves não são graficamente acentuadas. Já bastava ter de saber os casos que lhe escapam; criar outros... "não havia necessidade". Já agora, podia colocar-se a palavra "contrário" ao contrário, ou colocar-lhe o acento por baixo... Enfim, outras criatividades (menos perigosas, digo eu)!

     Não admira, pois, que, com exemplos destes, ande tudo de pernas «p'ró ar» ou de cabeça «p'ró chão». Só faltava ouvir a pergunta: "Não podíamos viver sem este (mau) exemplo de publicidade?" Podíamos, mas não era a mesma coisa!

sábado, 20 de março de 2010

Gramática por terras de Viriato

    Em Viseu, com cerca de uma centena de companheiros de trabalho.

     
     Num dos auditórios do Hotel Príncipe Perfeito, houve tempo para se falar sobre um dos domínios programáticos do ensino do Português: o ensino da gramática.
     Em articulação com o novo programa do ensino básico e o do secundário; explorando a questão da progressão no âmbito da estrutura e do funcionamento da língua; considerando a importância que a terminologia linguística possa ter ao nível do discurso pedagógico-didáctico; convocando a segurança que os doentes possam experimentar ao adoptar uma nomenclatura cientificamente mais estável e sustentada em estudos linguísticos; exemplificando o que possa ser um trabalho de oficina gramatical (a partir de um texto, isolando um aspecto significativo e conectando com diferentes domínios, numa perspectiva de integração de domínios), foi dinamizada uma sessão de trabalho que se caracterizou também pela interacção e intervenção dos participantes.

      Mais haveria certamente para dizer, mas o tempo é sempre escasso quando o assunto se impõe como estruturante no saber e nas aprendizagens.

sábado, 13 de março de 2010

Mais uma etapa na Gramática: Albufeira

       Hoje, foi a vez de Albufeira.

    Cerca de oitenta colegas, com muita vontade de ouvir e alguma coisa para partilhar, compuseram largamente o auditório da Escola Básica e Secundária de Albufeira.
    Depois de dinami-zada a sessão, por mais adiantada que fosse a hora, houve alguns mi-nutos para trocar impressões, questões, alguns pedidos...
    Na linha das experiências anteriores, foram abordados os seguintes tópicos:
. ensino da gamática no contexto do novo programa de Português do ensino básico, mais o do ensino secundário;
. especificidades nas orientações de 1º, 2º e 3º ciclos;
. propostas de anualização (no básico) ao nível do conhecimento explícito da língua;
. progressão nos conteúdos linguísticos;
. metodologias de trabalho no ensino da gramática (o caso da oficina gramatical);
. exemplos de trabalho / materiais com pouca terminologia (só a necessária para o professor se sntir mais seguro no que diz e no que pede).

    Um tempo que, espero, tenha sido compensador, para esquecer o dia de sol que não se pôde aproveitar. Prova de que outros valores mais altos "se alevantam".

sábado, 6 de março de 2010

Casa do Professor, em Braga, com gramática

       Depois do Porto e de Castelo Branco, o regresso ao Norte.

       À volta de oitenta professores ocuparam o auditório da Casa do Professor de Braga para mais um momento de reflexão sobre o ensino da gramática.
       Na lógica dos encontros já dinamizados, este pautou-se por algum espaço de interacção, resultante do próprio interesse dos ouvintes. As dúvidas impuseram-se, os casos propostos mereceram a resposta na linha do que ia sendo desenvolvido na comunicação.
       Esta centrou-se nos seguintes tópicos:
       . o ensino da gamática no contexto dos programas dos ensinos básico e secundário;
       . a progressão gramatical reflectida num trabalho de planificação / anualização;
       . a terminologia linguística ao serviço da formação docente e suas implicações no discurso pedagógico-didáctico;
       . exemplificação do ensino da gramática: um caso de oficina gramatical  partir de um texto concreto;
       . a gramática com sentido: entre a pertinência e a interface sintaxe-semântica.
      Esta alargou-se para outros tópicos que implicaram a explicitação de uma outra visão do funcionamento dos departamentos / grupos disciplinares, de um posicionamento docente mais autónomo e legitimamente sustentado numa formação inicial e contínua atenta às especificidades do nosso objecto de trabalho e de estudo: a língua.

      A todos os que se predispuseram a assistir a este encontro e particularmente aos muitos que se mantiveram até ao final, impõe-se o agradecimento pela atenção e pelos desafios criados na interacção, certamente motivados pelas necessidades que fazem tantos profissionais procurar este tipo de sessões.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Da verdade e da ficção: um jogo de anjo

      A propósito do final da leitura de O Jogo do Anjo, do catalão Carlos Ruiz Zafón.

      No jogo de interacções das personagens, Cristina (a paixão de David) cita, na fase final do romance, as palavras do marido (um diletante, um pretenso escritor e um homem, na essência, falhado, não obstante o relevo social que lhe dão): "O Pedro costuma dizer que a única maneira de conhecer realmente um escritor é através do rasto de tinta que ela vai deixando, que a pessoa que julgamos ver não passa de uma personagem oca e que a verdade se esconde sempre na ficção."
      Talvez o complemento para tal constatação se situe já nas primeiras duzentas páginas: vem de David, para Isabella (a apaixonada que não tem correspondência, senão num amor de segunda chance). Aí se lê que "Toda a obra de arte é agressiva (...). E toda a vida de artista é uma pequena ou uma grande guerra, a começar pelo próprio e pelas suas limitações. Para chegar a alguma coisa que te proponhas é preciso primeiro a ambição e depois o talento, o conhecimento e, por fim, a oportunidade."
    Palavras para a ficção e para a obra de arte; palavras para a vida.
   No fundo, este é um dos pensamentos-matriz de O Jogo do Anjo (2008), do mesmo autor de A Sombra do Vento (2001).
     A Barcelona da década de 20 (século XX), misteriosa, enigmática, dominada pela necrópole de "Rosa de Fogo" faz-se pressentir neste livro, cuja intriga é temporalmente situada, em termos narrativos, antes das coordenadas que abrem o romance de 2001. Diria mesmo que o final de O Jogo do Anjo tem os motivos, as origens para a abertura de A Sombra do Vento, pela entrada de algumas personagens que se recuperam (daquele para este, na lógica da cronologia das acções narrativas; deste para aquele, no plano da produção escrita). Desta feita é um escritor que se afirma no seu percurso biográfico, pautado pelas Great Expectations, de Charles Dickens. Um caminho feito com a escrita, com a literatura, com a irónica ventura marcada pelos tons do romance gótico e pela(s) certeza(s) da(s) morte(s) que compõe(m) a vida. A mesma paixão pelos livros (procurados, possuídos, guardados); os livros que salvam vidas, qual criação para a sobrevivência do criador (tal como Passos do Céu acabará por salvar David quando este é atingido pelo inspector Victor Grandes).
      Entre o campo do sonho, do fantástico e dos conflitos de uma vida romanceada, cresce David Martín, como escritor e como homem. Como alguém que constrói as suas narrativas, tal como o faz com a sua própria vivência, feita de perdas, de reencontros, de concretização de sonhos, de ciclos que importa rever, amar e acompanhar, para de novo perder.

       No jogo da ficção (e da vida), esta é a bênção e a vingança do anjo.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Por terras albicastrenses, com gramática

     Nova sessão sobre o ensino da gramática, na terra natal daquele que foi um dos médicos mais reconhecidos do século XVI: Amato Lusitano (pseudónimo para o judeu João Rodrigues - um físico notável, como se diria no tempo).

      Mais um momento para dinamizar uma sessão acerca do ensino da gramática.
      E, a propósito, abordaram-se tópicos como:
      . Gramática e programas de ensino;
      . Gramática: progressão conhecimento implícito > conhecimento explícito;
      . Progressão e anualização do domínio do conhecimento explícito: casos práticos;
      . Gramática, terminologia e discurso pedagógico-didáctico;
      . Gramática e dispositivo estratégico: oficina gramatical;
      . Gramática e integração de níveis de análise.

     Cerca de cinquenta profissionais acompanharam esta iniciativa, que já vai tendo representação em vários pontos do país. Aos persistentes, interessados no tema e fiéis à oportunidade, impõe-se o agradecimento por terem ficado com menos uma manhã (a atirar para a tarde) de descanso ou até de preparação para o que será a próxima semana.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Uns heróis muito tripeiros

       Cruzei-me com Heróis à Moda do Porto.

      Trata-se de uma compilação de contos - produzidos por um grupo de alunos e que, com a coordenação do professor João Carlos Brito, reflectem o que é a linguagem das gentes do norte e da cidade "inbicta".
  Inspirados em contos tradicionais, os autores recontextualizaram as intrigas e a linguagem, para que, entre outros, a Bela Adormecida desse lugar à "Baby Dopada"; o Bambi se transformasse no "Bambi, o Cenourinha; o Capuchinho Vermelho se tornasse em "A Garina da Sé" e a Pequena Sereia acabasse como "A Faneca".
     A adaptação criativa combina com a adopção de um registo linguístico que molda os típicos incipit narrativos de novas configurações ("Há bué bué de tempo", "Esta cena aconteceu lá pró Norte...", "Era uma vez uma garina..."); matiza o escrito de traços de uma oralidade tão tripeira quanto nortenha, para não dizer mesmo fruto dos tempos e dos tiques de linguagem que se reproduzem por muitos locais frequentados por gente jovem na idade e no espírito, sempre disposta a "bombar", a pensar na "naite" (cada vez melhor quanto for 'ol naite longue'); reinventa o número sete para designar a quantidade de traficantes que acompanha a Geninha da Branca (qualquer semelhança com os anões da Branca de Neve não é pura coincidência!) ou, então, o número de contos (que, não sendo os da moeda em uso, valem muito pelas histórias que dão a ler e que não têm preço, pelo bem-estar e pelo cómico que proporcionam).
    Quanto ao epílogo, esse fica com a referência a um espaço comum, o 126 da Rua Passos Manuel, ali frente ao Cinema Olímpia (espaço de redenção, relações, felicidade, festa, também feito de alguns segredos por contar).

      Lê-se na contracapa que as personagens dos contos infantis, nesta obra, desatam a falar "portoguês"; por mim, acho que falam à moda do Norte, dos tempos contemporâneos e de variedades que, não sendo a padronizada, têm a familiaridade que os nossos ouvidos revêem a cada passeio, mercado ou esquina da rua.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Etimologia... com razão?

      O tempo que nos afasta do passado é um presente que nem sempre tem os melhores ecos, lembranças ou reminiscências. Platão diria que são sombras...

      Q: Que me dizes desta definição de étimo: «O étimo é a forma que constitui a origem de uma dada palavra. Normalmente o étimo identifica-se com a base da palavra actual e faz a ponte com a forma original da palavra. Um exemplo de étimo é racio, que é o étimo de “razão” e de “racional”»?


     R: Não sei que diga... não vá o arrazoado constituir alguma referência e de renome. A verdade é que não concordo muito com ela. Mas vamos por partes. Entendo que a noção de 'étimo' remete para a perspectiva diacrónica da língua e é nesse plano que deve ser considerada; daí a necessidade de restringir a primeira afirmação: o étimo é a forma que, diacronicamente, constitui a origem de uma dada palavra. Isto afasta-me, desde logo, da segunda afirmação da definição e do cruzamento com o termo 'base', o qual, morfologicamente, convoca uma perspectiva sincrónica (o que nem sempre é coincidente com 'étimo': por exemplo, a base de 'principalmente' é 'principal'; não o étimo 'principālis').
     Por fim, não creio que o exemplo final seja feliz, pela abrangência e associação de família de palavras que traduz relativamente ao latim e à consciência que se possa ter desta língua (o que não acontece com o comum dos falantes). Além disso, pela consulta de vários dicionários com informação etimológica, 'razão' tem como étimo 'ratiōne-', 'ratĭo, ratiōnis'; racional é um termo que deriva do étimo 'rationāle-, rationālis' e da aplicação de princípios de evolução fonética.

     Mais uma razão para pensar bem no que fazer com o que o passado nos deu. E não há como cruzar várias fontes, para despistar pontos críticos.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Se bem me lembro... outra vez

     Neste dia, ao ano de 1978, falecia o escritor e professor Vitorino Nemésio com 76 anos.

    Dele se registou lembrança por razões de nascimento. Chegou a vez da morte.
  Nesta ligação de contrários se faz a vida, a lembrar um dos poemas nemesianos, também feito  de (re)encontro(s).



A CAMINHO DO CORVO
À Maria Gabriela e ao Rodrigo,
primos filiais

A minha vida está velha
Mas eu sou novo até aos dentes.
Bendito seja o deus do encontro,
O mar que nos criou
Na sede da verdade,
A moça que o Canal tocou com seus fantasmas
E se deu de repente a mim como uma mãe;
Pois fica-se sabendo
Que da espuma do mar sai gente e amor também.
Bendita a Milha, o espaço ardente,
E a mão cerrada
Contra a vida esmagada.
Abençoemos o impossível
E que o silêncio bem ouvido
Seja por mim no amor de alguém.

25.7.1969

in Sapateia Açoriana, Andamento Holandês e outros poemas,
Lisboa, Arcádia, 1976, p. 13

     Na ideia da reconciliação com a vida, na consciência das suas contradições e do inesperado que contém; na força da musicalidade, da visão tão marcadamente insular atenta à universalidade do ser; na experiência pessoal aliada à transfiguração poética; na capacidade de se deixar surpreender pelo que o real e a envolvência do ser têm para dar, desenha-se a flor para um fruto que tem na poesia saber e sabor.

    Desaparecido no mesmo ano de Jorge de Sena, Vitorino Nemésio retratou-se como poeta implicado no encontro de si mesmo, no saber de si - autognóstico; uma forma de compreender o mundo no seu desconcerto universal.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Ai estas mudanças... já não são como soíam...

      Nem tudo o que parece incompreensível o é na verdade. Já se referiu algo neste sentido. Perante a questão, nada como pesquisar e, quem sabe, descobrir a razão no que alguns estudos já demonstraram.


     Q: Achas possível dizer-se que só o 'mas' é conjunção coordenativa adversativa? E o mesmo acontece para o 'e' (aditiva)? E com as restantes conjunções coordenativas?


Pormenor de Trivium (Gramática, Dialética, Retórica)
Manuscrito 1041-2, Paris, Biblioteca St. Geneviève

Ilustração da Gramática segurando uma pena, apontando um dedo regulador a um aluno, além de revelar o olhar próprio de quem aconselha e orienta na aprendizagem.

    R: Prototipicamente, fazem sentido as afirmações pressupostas nas duas questões inicialmente formuladas. Isto porque, caso se entenda por conjunção a classe de palavras que introduz um constituinte ou uma oração coordenada ou subordinada, não deixa de se reconhecer, formalmente, alguma distinção entre esta e os advérbios conectivos.
     Entre as propriedades das conjunções contam-se as seguintes:
   (i) ocupam a posição inicial ou introdutória do termo coordenado / subordinado (sem possibilidade de deslocação);
      (ii) co-ocorrem com outros conectores.
     Neste sentido, o 'mas' é a conjunção prototípica da coordenação adversativa (ex.: "Estudei muito, mas tirei má nota no teste"); o mesmo sucede com outras conjunções prototípicas: 'e' - aditiva ou copulativa; 'ou' - disjuntiva; 'logo' - conclusiva; 'pois' - explicativa.
     Os restantes termos adversativos, tradicionalmente considerados conjunções ('contudo', 'todavia', 'porém') também o podem ser, por conversão, quando se comportam da mesma forma que o 'mas' proposto no exemplo (numa substitução directa). Registam-se, ainda assim, outras realizações em que o comportamento discursivo destes últimos adquire um sentido semântico-pragmático associado a operações de contraste / oposição numa dimensão de conexão (não circunscrita a coordenação), de reforço, de reformulação, de regulação conversacional, de enfatização ou marcação fática. Daí, poderem ser encontrados a par das conjunções prototípicas ('O Pedro estudou muito, mas, no entanto, não conseguiu ter um bom resultado no teste') ou, ainda, de construções de parataxe, com frases simples ('O Pedro estudou muito. Não conseguiu, no entanto, ter um bom resultado no teste'). Assim, nestes últimos cenários não há a função de coordenar (assegurada pelas conjunções); há, antes, marcadores discursivos, instruções semântico-pragmáticas que exploram efeitos discursivos e /ou orientam processos de interpretação (sem classificação em termos de sintaxe). Daí também a classificação destes termos mais como 'advérbios conectivos' do que conjunções (por estas últimas estarem marcadas pela conversão e pelo comportamento restrito à introdução de sequências coordenadas e/ou subordinadas).
    Enquanto advérbios conectivos, não se trata tanto de abordar a composição de frases complexas (coordenadas); o que está em causa é um processo de conexão de natureza mais discursivo-pragmática.
    Procurando ultrapassar esta especificidade científica, algo complexa para os alunos do básico e secundário, tendo nas minhas aulas a utilizar um termo mais genérico: o de conector. Tanto na composição das frases como na funcionalidade pragmático-discursiva, prevalece o sentido comum de articular, conectar, ligar segmentos, sequências relevantes para a oralidade e/ou para o escrito, segundo uma determinada lógica significativa. Neste sentido, um projecto de articulação orientado para a gramática das línguas acabaria por criar afinidades tanto com o Inglês - que recorre ao 'conector' - como com o Francês - que convoca o termo 'connecteur'.

     Na aceitação do exposto, outro caminho se impõe: o da abertura a uma mudança que não se faz por decreto, portaria ou despacho. Nesse espírito, é possível construir (algumas) alternativas. Entre o saber científico e a prática pedagógica, as pontes a construir são mais vantajosas para todos: os que aprendem e os que ensinam. Maior segurança para todos.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Este livro que vos deixo...

     Assim se intitula a colectânea de versos (entre quadras, sextilhas, redondilhas, glosas e ensaios estróficos e versificatórios para textos dramáticos) desse poeta denominado "menor", por uns, "popular", por outros.

   Há 111 anos nascia António Fernandes Aleixo, em Vila Real de Santo António. Tomado pela espontaneidade e pelo improviso de produção poética, este escritor algarvio reflectia nos versos escritos o empirismo e a filosofia de vida própria de alguém que revela intuitos morais e aspirações sociais.

Estátua dedicada ao poeta, na cidade de Loulé,
onde viveu e faleceu.

A arte em nós se revela
sempre de forma diferente:
cai no papel ou na tela
conforme o artista sente.

.
Se vim condenado à morte,
também fiquei a saber
que só aqui pôde ser
um desgraçado ter sorte!...
.
Fala bem, gosto de ouvi-lo,
mas sei que lá dentro fica
para dizer tudo aquilo
que ele vê que o prejudica.
.
Que o mundo está mal, dizemos,
e vai de mal a pior;
e, afinal, nada fazemos
p'ra que ele seja melhor.


    A actualidade da poesia deste escritor sente-se e vive-se, depois do seu desaparecimento há mais de sessenta anos - ora pelos protestos velados e/ou explícitos ora pela participação na consciência de um país ansiado como socialmente menos injusto.


segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

"No tempo em que festejava o dia dos meus anos..."

     Assim o escreveu Pessoa, na pessoa do heterónimo Álvaro de Campos.

     Uma amiga fez-mo rever:


      "No tempo em que eu festejava o dia dos meus anos...": ao som do Português do Brasil, na voz do saudoso actor Paulo Autran. Boa declamação, com o embargar da voz próprio; de quem tem idade para a fazer com justiça para o poema.

     Aniversário: às vezes são outros que festejam por nós (e ainda bem, porque devemos ser importantes para elas). Campos lá sab(er)ia por que razão.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Chamar a música

     Alguns dias depois de "Quem me quiser", aí vai uma forma de reencontro.

     Depois da poesia, a música... Chamar a música.


   CHAMAR A MÚSICA

Esta noite vou ficar assim
Prisioneira desse olhar
De mel pousado em mim
Vou chamar a música
Pôr à prova a minha voz
Numa trova só p'ra nós

Esta noite vou beber licor

Como um filtro redentor
De amor, amor, amor
Vou chamar a música
Vou pegar na tua mão
Vou compor uma canção

Chamar a música
A música
Tê-la aqui tão perto
Como o vento no deserto
Acordado em mim
Chamar a música
A música
Musa dos meus temas
Nesta noite de açucenas
Abraçar-te apenas
É chamar a música

Esta noite não quero a TV
Nem a folha do jornal
Banal que ninguém lê
Vou chamar a música
Murmurar um madrigal
Inventar um ritual

Esta noite vou servir um chá
Feito de ervas e jasmim
E aromas que não há
Vou chamar a música
Encontrar à flor de mim
Um poema de cetim


     A música, a letra, a voz. Um exemplo de como poesia casa com música e voz. Assim chegámos à Europa, em 1994.

     Poetisa? Rosa Lobato de Faria, a mesma que, na simplicidade das palavras que dominou, escreveu a multiculturalidade de um povo a que pertenceu: "Que povo é este que partiu / E foi dobrar o Bojador? / Este povo que sentiu o feitiço, o desafio / De inventar um novo amor. / Das mãos unidas nasce a flor / E cada beijo sabe a paz. / Quando a alma sente o amor / Tenha o corpo qualquer cor / Preto ou branco tanto faz."

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Ideais românticos

     Assim o escreveu quem no dia de hoje nasceu, em 1799: Joaquim Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett.


in Da educação, 1º vol. (Educação doméstica ou paternal),
Londres: Sustenance e Stretch, 1829, pág. 8


     Passados mais de dois séculos, muito haveria a dizer.
  Diferenciados os contextos mais o sentido de educação da altura; assumidas as distâncias face ao público-alvo, quem não entenderia ou desejaria estas palavras como actuais? Quem não gostaria de se sentir útil e feliz na sociedade?
    Belo exemplo de formação integral (física, moral e intelectual) face a uma actualidade crescentemente marcada por alguma banalização do que sejam alguns sinais de facilitismo, de perversão de princípios, de ilusão e logro social. Um sentido de oportunidades inoportunas e insensatas, tão pautadas por baixo, sem virtude de exemplo ou testemunho; aparências de exigência e de controlo que só iludem os incautos; simulacros de educação, preocupados com rankings, estatísticas... números. Como se a aprendizagem fosse tão pronta, imediata, sem falhas...
      Credulidades!

   Talvez a máxima queirosiana de que "somos invariavelmente românticos" ainda faça todo o sentido.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

"Quem me quiser..."


      Li O Prenúncio das Águas e uma mulher nova se me revelou: não a das novelas ou das músicas. A portadora da sensibilidade, a do toque de simplicidade e delicadeza. A da serenidade.


     Lembro-me de um poema que cheirou a azul,... que me deu a ver a música... e soou a rosto sereno com um sorriso a apagar o mal.

Quem me quiser há-de saber as conchas
a cantiga dos búzios e do mar.
Quem me quiser há-de saber as ondas
e a verde tentação de naufragar.

Quem me quiser há-de saber as fontes,
a laranjeira em flor, a cor do feno,
a saudade lilás que há nos poentes,
o cheiro de maçãs que há no inverno.

Quem me quiser há-de saber a chuva
que põe colares de pérolas nos ombros
há-de saber os beijos e as uvas
há-de saber as asas e os pombos.

Quem me quiser há-de saber os medos
que passam nos abismos infinitos
a nudez clamorosa dos meus dedos
o salmo penitente dos meus gritos.

Quem me quiser há-de saber a espuma
em que sou turbilhão, subitamente
- Ou então não saber coisa nenhuma
e embalar-me ao peito, simplesmente.


Rosa Lobato de Faria (1932-2010)

        Expressão de gesto, de acto e de afecto em palavras que a poesia deixa relembrar, superando a morte.

        Hoje quem a quiser poderá sempre marcar encontro com a sua obra.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Sintaxe difícil... e com elevação!

      Mais um passinho nas dificuldades da sintaxe.

Q: Na frase "Parece que ninguém reparou na tristeza dele.", qual a função sintáctica de "que ninguém reparou na tristeza dele" é de complemento directo? ou, uma vez que estamos perante um verbo copulativo, funciona como Predicativo do sujeito? Obrigada.

R: Segundo a frase considerada, começo por indicar que não se trata de uma realização de ‘parecer’ enquanto verbo copulativo, para não dizer mesmo que há linguistas que problematizam essa classificação da gramática tradicional (cf. João Peres e Telmo Móia, na obra Áreas Críticas da Língua Portuguesa, aproximando a realização do verbo 'parecer' das construções de movimento de elevação). Portanto, não se trata de predicativo do sujeito.
     ‘Que ninguém reparou na tristeza dele’ configura-se como completiva numa construção em que o verbo da frase matriz (parecer) se realiza com a estrutura de um argumento lógico não vazio e um outro vazio. Assim, face à estrutura argumental traduzível em “Algo parece alguma coisa’, diria que a ‘algo’ corresponde sintacticamente um lugar vazio que se identifica com um sujeito nulo expletivo; ‘alguma coisa’ corresponde à completiva em análise com a função de complemento directo.
     Este raciocínio é corroborado ainda pelo seguinte:
     i) a presença de um sujeito nulo expletivo equipara-se a construções típicas do francês e do inglês que preenchem esse argumento pronominalmente (‘Il semble que X’ e ‘It seems that X’, respectivamente); em Português pode encontrar-se construção similar em Ele parece que X’;
     ii) a classificação da completiva em análise, enquanto complemento directo, é justificada pelo próprio teste de pronominalização que, no caso de construção oracional, dá lugar ao demonstrativo ‘isso’ (‘Parece isso’; ‘Ele parece isso’).

     Este é bem um dos casos que interessará trabalhar depois de se estabilizar noções básicas de sintaxe (tanto em termos de construção como de identificação de funções sintácticas). E, de novo, a integração de instrumentos, como os de testagem, nas aulas de gramática é um princípio a considerar. Seria um passo fundamental para um entendimento da sua dimensão experimental, oficinal e/ou laboratorial.

Regresso ao encarnado... com novo azul

     Reconduzo comentário a um esclarecimento anterior. Não é bem questão, mas a abertura ou suspensão das reticências dá sempre espaço a continuar a reflexão.

     Q: Não se diz palavra base, mas sim palavra primitiva...

     R: A designação ‘palavra primitiva’ associa-se à abordagem da gramática tradicional, bem como a uma nomenclatura, datada de 1967, que, entretanto, deu lugar ao Dicionário Terminológico (2008). Neste último encontra-se o termo ‘base’ como constituinte morfológico a partir do qual se formam outras palavras. Pode este constituinte ser configurado por um radical (ex.: velh-), a combinação de um radical com um índice ou uma vogal temática (no caso, índice temático, em ‘velho’) ou, ainda, uma palavra. De qualquer um destes decorrerá a formação de uma nova palavra.
     No caso de palavras que são formadas na sequência de outras que já são, por si, complexas, não faz muito sentido falar de palavras primitivas (ex.: 'esclarecimento', proveniente de 'esclarecer', ou 'encarnado', derivado de 'encarnar').
     Por outro lado, está também em causa uma perspetiva de estudo e de análise da língua: a designação 'palavra primitiva' remete para uma focalização diacrónica; 'base' assente numa perspetiva mais sincrónica.

     Diz o poeta: "Mudam-se os tempos,... "; não sei se muda a vontade...