sábado, 3 de julho de 2010

Chegou o que havia sido anunciado

    Primeiro o prometido ou anunciado... depois o devido. Em tempo de verão, há uma "Bola de Neve" que gela mesmo quem acha que o bullying não é uma das questões quentes nas relações humanas.

    A ideia de um trio (R3 Produções) que, de R, tem o espírito do que é realizável, reanimador; do reconforto, do reconhecimento e da recreação. E também da reflexão.

   
    A 'bola de neve' sugere todo um processo que sai do nosso controlo, o acumular que pode conduzir ao perigo dos extremos (a ser consciencializado, para poder ser evitado).
   E 'bullyings' há muitos nesta vida (nas ruas, nas escolas, nos espaços domésticos, nas pessoas, nos media, nos actos e nas palavras). Nada como nos despedirmos deles todos, para que ela se torne mais salutar, dando lugar ao que se possa construir sem violências, sem medos, sem perseguições.
  
    Uma realização que não deixa de lembrar a primeira experiência que visionei, há cerca de um ano: "Um Programa Sucinto", feito de contratos de leitura. Já nessa altura se marcou pela diferença. Parabéns ao grupo da produção, da realização e da representação.

sábado, 26 de junho de 2010

Da poesia feita música... a descompasso

     No país em que tudo começa a ser possível, caem as referências que sempre foram necessárias e a dúvida instala-se.

     Q: Colega, que acha de uma quadra também poder ser quarteto? Nunca permiti que os meus alunos dissessem tal coisa nas aulas ou nos testes; agora, para a correcção de exames de 9º ano, dizem que devo aceitar. A ser possível, os manuais não deviam contemplar as duas hipóteses? Deixe de lado um pouco do seu cansaço, por favor, e esclareça-me nesta questão.

     R: Numa primeira reacção, diria que nada como consultar uma referência credível.
    Pegando no Tratado de versificação portuguesa, de Amorim de Carvalho, mais precisamente na Terceira Parte (Das Estrofes e dos Sistemas Estróficos), não encontrei a designação de 'quarteto'; só 'quadra'.
      Numa segunda referência, a do Dicionário de Literatura dirigido por Jacinto do Prado Coelho, aparecem duas entradas - 'Quadra' e 'Quarteto' -, ambas com o artigo seguinte: "Estância de quatro versos, ou estância de quatro versos de arte menor", para a primeira, "de arte maior", para a segunda. Ainda aí e em termos de remissão, aconselha-se a leitura da entrada "Estância", na qual se pode ler o seguinte parágrafo: "As estâncias de quatro versos, que, sem distinções, chamamos hoje quadras, encontram-se na poesia portuguesa desde as origens até aos nossos dias. A quadra adapta-se aos metros longos, tomando carácter culto, e aos metros curtos, tomando carácter mais caracteristicamente popular que nenhuma outra estância portuguesa. Alguns autores, como Filinto Elísio, reservam para a estância de quatro versos de arte maior a designação específica de quarteto que, em Espanha, é corrente neste emprego."
      Perante os destaques considerados (da minha responsabilidade), não creio que seja de vulgarizar uma designação que tem traços de especificidade. Se o texto para que o exame aponta obedecer à natureza versificatória da arte maior, não haverá problema em aceitar tal designação - por mais que entenda, a título pessoal, como uma especificidade que não faz muito sentido abordar ao nível de um ensino básico.
       Por essa natureza circunscrita da designação, vejo também razão para não se tornar comum, nos manuais, o 'quarteto', sob pena de, por generalização, o aluno ser inadvertidamente induzido a designar o dístico como 'dueto' (e, por certo, verá nisso regularidade, quando, ainda por cima, a seguir, chega o 'terceto').

      Caso para dizer que a música, agora, é outra, por mais que a poesia dela tenha vivido.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Hedonismo no final de (mais) um ano lectivo

     Prestes a chegar ao fim de mais uma etapa, está a apetecer-me abandonar tudo... pelo prazer que começo a não ter.

    Lembro-me de uma música... costuma ajudar. A imagem e a voz de Deborah Dyer (Skin) impõem-se.
    E veio logo esta, intitulada "Hedonismo". Coincidência!


I hope you're feeling happy now
I see you feel no pain at all it seems
I wonder what you're doin' now
I wonder if you think of me at all
Do you still play the same moves now
Or are those special moods
For someone else
I hope you're feeling happy now.

Just because you feel good
Doesn't make you right (oh no)
Just because you feel good
Still want you here tonight

Does laughter still discover you
I see through all those smiles
That look so right
Do you still have the same friends now
To smoke away your
Problems and your life
Oh how do you remember
Me the one that made
You laugh until you cried
I hope you're feeling happy now

I wonder what you're doing now
I hope you're feeling happy now
I wonder what you're doing now
I hope you're feeling happy now
 
   "To smoke away your / Problems and your life" - que melhor poderia eu agora querer?
 
   Venha daí o S. João. Já que não fumo, salto à fogueira ou lanço balões. Pode ser que estes levem os problemas desta vida feita de cansaços... e deixem algum prazer.

domingo, 20 de junho de 2010

Porque há ministras que sabem o que dizem...

     Em horas de tristeza, ainda há palavras, discursos que deixam esboçar alguma lágrima de alegria.

     Esta foi a sensação no final de um discurso de Gabriela Canavilhas (Ministra da Cultura) que teve tudo menos o tom fúnebre que, naturalmente, se impunha à morte de José Saramago.
     Natural foi mais o registo de homenagem, de cerimónia ao Homem, na constatação de uma velhice de mãos dadas com a infância; no ecoar de uma obra que se fez qual hora de conto ("Era uma vez..."); no constrangimento de uma morte que tanto celebrou a vida, lembrando a avó Josefa (que, aos noventa anos, dizia que o "mundo é tão bonito e eu tenho pena de me ir embora") ou o avô Jerónimo (que se despediu das árvores que havia plantado e chorou por saber que não mais as veria).
     Um fim com a solenidade merecida, não por um escritor, mas com o escritor; um recomeço com a Literatura, o Homem e o Ambiente, tomando o Verbo no princípio.


      «Era uma vez um rei que fez promessas de levantar um convento em Mafra, um soldado maneta, uma mulher que tinha poderes, e um padre que queria voar numa Passarola e que morreu doido;
      Era uma vez Jesus, que disse a Maria Magdalena - “quero estar onde a minha sombra estiver, se lá é que estiverem os teus olhos”;
      Era uma vez um cão que lambeu as lágrimas a uma mulher desesperada num mundo de cegos, desejando também cegar para ser poupada aos horrores que a vista lhe trazia;
       Era uma vez a morte, que tinha um plano e que o cumpriu – abraçou-se ao homem sem que ele compreendesse o que lhe estava a suceder, e ela, a morte, que nunca dormia, deixou descair suavemente as pálpebras enquanto adormecia; no dia seguinte, ninguém morreu;
       Era uma vez um homem, que quando morreu, partiram duas pessoas: saiu ele, de mão dada com a criança que foi – tal como o próprio José Saramago previu, nas suas próprias palavras.
      Era uma vez e tantas outras vezes, o respeito à terra e aos homens, a luta contra as injustiças, a defesa dos direitos humanos, a denúncia contra a guerra do Iraque ou contra a ocupação palestiniana, as causas dos Sem Terra, do movimento anti-globalizante, da preservação do ambiente, ou do anti-clericalismo desassombrado.
      Estas e tantas outras, foram as histórias com que o ateu místico, religioso laico, interrogador de Deus e dos homens, José Saramago, “comunista hormonal” nas suas palavras, questionou Portugal e o mundo incessantemente, directa ou metaforicamente.
     A liberdade do pensamento define o criador: Saramago foi voz lúcida, inconformada, firme, insubmissa na luta contra a desigualdade entre os homens – esta sim “a verdadeira miséria”, dizia.
    Parte da imensa receptividade que as suas obras têm merecido em todo o mundo, e que a atribuição do Nobel cimentou e glorificou, deve-se a esse carácter humanista, à esperança que a sua obra impõe ao Homem.»
(excerto do discurso)

     E com palavras simples tanto se disse.

     Gostei do discurso a um Homem de escrita e pensamento universais. Por isso, obrigado, Senhora Ministra.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Caiu no céu...

    Uma aluna e amiga mandou-me a mensagem: "Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam". A citação fez-me lembrar a leitura de A viagem do elefante e a epígrafe que Saramago colhera do Livro dos Itinerários.



    O itinerário, o rumo pode ser comum; mas sempre singular, quando do momento de morte se fala.
    Na minha experiência inicial de leitura do escritor, já havia sido essa a mensagem tirada de O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984) - a de um fim singular, no fecho de um romance:

    "Então bateram à porta. Ricardo Reis correu, foi abrir, já prontos os braços para recolher a lacrimosa mulher, afinal era Fernando Pessoa, Ah, é você, Esperava outra pessoa, Se sabe o que aconteceu, deve calcular que sim, creio ter-lhe dito um dia que a Lídia tinha um irmão na Marinha, Morreu, Morreu. Estavam no quarto, Fernando Pessoa sentado aos pés da cama, Ricardo Reis numa cadeira. Anoitecera por completo. Meia hora passou assim ouviram-se as pancadas de um relógio no andar de cima, É estranho, pensou Ricardo Reis, não me lembrava deste relógio, ou esqueci-me dele depois de o ter ouvido pela primeira vez. Fernando Pessoa tinha as mãos sobre o joelho, os dedos entrelaçados, estava de cabeça baixa. Sem se mexer, disse, Vim cá para lhe dizer que não tornaremos a ver-nos, Porquê, O meu tempo chegou ao fim, lembra-se de eu lhe ter dito que só tinha para uns meses, Lembro-me, Pois é isso, acabaram-se. Ricardo Reis subiu o nó da gravata, levantou-se, vestiu o casaco. Foi à mesa-de-cabeceira buscar The god of the labyrinth, meteu-o debaixo do braço, Então vamos, disse, Para onde é que você vai, Vou consigo, Devia ficar aqui, à espera de Lídia, Eu sei que devia, Para a consolar do desgosto de ter ficado sem o irmão, Não lhe posso valer, E esse livro, para que é, Apesar do tempo que tive, não cheguei a acabar de lê-lo, Não irá ter tempo, Terei o tempo todo, Engana-se, a leitura é a primeira virtude que se perde, lembra-se. Ricardo Reis abriu o livro, viu uns sinais incompreensíveis, uns riscos pretos, uma página suja, Já me custa ler, disse, mas mesmo assim vou levá-lo, Para quê, Deixo o mundo aliviado de um enigma. Saíram de casa, Fernando Pessoa ainda observou, Você não trouxe chapéu, Melhor do que eu sabe que não se usa lá. Estavam no passeio do jardim, olhavam as luzes pálidas do rio, a sombra ameaçadora dos montes. Então vamos, disse Fernando Pessoa, Vamos, disse Ricardo Reis. O Adamastor não se voltou para ver, parecia-lhe que desta vez ia ser capaz de dar o grande grito. Aqui, onde o mar se acabou e a terra espera."

    Numa outra obra (Deste mundo e do Outro), em registo de crónica e na escrita canónica que não lhe trouxe a fama, pude ver a importância da perspectiva na vida - um eixo temático ecoado noutras narrativas do escritor:

    "Lembro-me de há muitos anos estar deitado no chão, no campo (todos nós devíamos ter nascido e vivido no campo), com o céu por cima, azul, com vagarosas nuvens. De costas, era a posição, e é a posição para quem quiser sujeitar-se à experiência. É importante que haja silêncio. (Um leve fundo sonoro de cigarras, folhagens e piar de aves não perturba. Havia tudo isto no momento de que falo.) Eu estava deitado de costas e tinha o céu por cima. E bruscamente o céu tornou-se qualquer coisa onde se podia cair. Não era a força da gravidade que me mantinha colado à terra, mas a minha vontade."

    Por ora, prefiro acreditar que "um mero trabalhador da palavra" caiu no céu, retomando a viagem sem fim.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Está para chegar uma BOLA DE NEVE

   Já comecei a ver sinais da última realização da R3.

   Para já, um 'still' ("roubado" à página das Rcubo Produções - espero que me perdoem!); depois, há-de chegar a obra-prima (não é história de faca e alguidar, mas anda lá perto, numa adaptação aos tempos modernos).

   
    Estou ansioso pela noite de estreia. Que diria Alfred Hitchcock?!
    (Uma fita de polícia, um caminho, um monte e uns degraus, duas valentes pedras... muito verde... a pedir um pouquinho de vermelho... Hum!)
      
   Porque ainda há quem acredite em dinamizar e ter projectos. Ainda bem! Significa que há futuro.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Passaram quarenta anos


    1970: Almada Negreiros legava ao mundo a sua ausência física, a de alguém que ajudou a criar e a afirmar a mentalidade do Modernismo artístico.

    Para lembrança do homem e do pensamento, deixo aqui o apontamento de um breve ensaio:


   "A diferença entre solução e direcção é esta: a solução é sempre um remédio passageiro para disfarçar a desgraça. Ao passo que a direcção é a própria dignidade posta nas mãos do desgraçado para que deixe de o ser, e a direcção única é a garantia perpétua dessa dignidade."

in "Ensaios"
         Postal com desenho
alusivo a A. Negreiros 
(de Stuart Carvalhais)

    Moderno e actualíssimo. Neste sentido, começo a compreender por que motivo muitos querem soluções: sempre é mais imediato. Prefiro direcções (sem unicidades ou forças bélicas). São menos ilusórias.

domingo, 13 de junho de 2010

Completar com um se... feito de dúvida

   Em tempo de fim de um ciclo, há um outro prestes a começar.

   No desgaste físico do que estes tempos oferecem (sem referências, sem sustentabilidade, sem ideias, sem projectos de acção credíveis... sem sol de confiança), lembrei-me de uma canção de Djavan.


Você disse que não sabe se não
Mas também não tem certeza que sim
Quer saber?
Quando é assim
Deixa vir do coração

Você sabe que eu só penso em você
Você diz que vive pensando em mim
Pode ser
Se é assim
Você tem que largar a mão do não
Soltar essa louca, arder de paixão
Não há como doer pra decidir
Só dizer sim ou não
Mas você adora um se...

Eu levo a sério mas você disfarça
Você me diz à beça e eu nessa de horror
E me remete ao frio que vem lá do sul
Insiste em zero a zero e eu quero um a um
Sei lá o que te dá, não quer meu calor
São Jorge por favor me empresta o dragão
Mais fácil aprender japonês em braille
Do que você decidir se dá ou não

    Se na letra da canção há um 'se' voltado para o desafio, esse mesmo 'se' pode ser lido como limitação. Também nos 'se' destes tempos, muitos são já pressentidos na atitude do que der e vier (face a um tempo feito de incertezas, incoerências e inconsistências). Seria bom que (ou se...) um novo ciclo viesse, diferente em tudo do que foi o último.

    Caso para perguntar: E se...? 

domingo, 30 de maio de 2010

Gramática com "muita fruta"

    Já conhecia o "frutíssimo", gelado de qualidade tão brasileira? Pois agora há um produto novo da Dan Cake!

   Eis a novidade:

   Não estou tentado a experimentar, mas fui levado a repensar o que sabia de gramática e da variação do nome quanto grau. Entre os tradicionais e conhecidos graus diminutivo e aumentativo, terá agora de se contar também com o grau superlativo absoluto sintético (que já não é propriedade exclusiva dos adjectivos), para considerar estes casos de designação nominal de alguns produtos. Ou, assim não sendo, fruta é adjectivo e este passa a ter a funcionalidade de designar entidades (no caso, das mais comestíveis).
   Provas da criatividade linguística associada ao trabalho publicitário.

   Se podia viver sem ele... o produto... o grau...? Claro que podia, mas não era a mesma coisa.

domingo, 23 de maio de 2010

Uma voz fisicamente silenciada

     A morte é estado que abala qualquer mortal (quem perde a vida e quem vive com a perda).

    A notícia da morte de Beto soou, quebrando o aparente ritmo rotineiro dos dias. A música compõe-se noutro estilo, para dar lugar ao pesaroso choro combinado com a perda de uma voz doce e rouca que se fazia ouvir, nos últimos tempos, na rádio e televisão com alguma frequência.
    42 anos de idade interrompidos por uma paragem cardio-respiratória; uma carreira em afirmação que não deixou de se marcar por alguns momentos altos.
    Na memória, ficam várias melodias, uma delas muito apreciada e aclamada, numa parceria de sucesso:


    BRINCANDO COM O FOGO

Vem no fim da noite sem avisar,
dança no silêncio do teu olhar,
a chamar por mim, a chamar por mim.

Chega com a brisa que vem do mar,
brinca no meu corpo a desinquietar
como um arlequim, como um arlequim.

Chega quando quer e não quer saber,
nem do mal que fez ou que vai fazer,
é um tanto faz, crer ou não crer.

Chega assim,
cavaleiro andante,
louco e triunfante,
como um salteador,
p'ra no fim, nos deixar a contas,
com as palavras tontas que dissemos por amor.

E eu que jurei nunca mais cair
nesses teus ardis, nunca mais seguir
esse teu olhar, esse teu olhar.

De nada nos vale tentar fingir
para quê negar ou sequer fugir
desse mal de amar, desse mal de amar.

Chega quando quer e não quer saber
nem do mal que fez ou que vai fazer,
é um tanto faz, crer ou não crer.

   Duas vozes no jogo harmonioso das voltas que Rita Guerra e Beto souberam encontrar em vários momentos (nomeadamente o da gravação de "Desencontros", em 2000).

     Uma voz subtraída a um dueto que fica gravado para a posteridade e para, a partir de hoje, se rever ao vivo eternamente em diferido.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Reciclem a língua, já agora!


   Num folheto publicitário, destinado à troca e à reciclagem de máquinas de café.

    Anda tão mal-tratada a língua que nem à reciclagem das máquinas de café esca-pa.
    Assim se lê num impresso, que, de mão em mão, vai espalhando erro que nem vírus. O caso não é para gripe (já o foi!); é para língua em disfunção.
    É verdade que a configuração de um sujeito oracional ("Garantir o tratamento adequado e a reciclagem destes resíduos") é uma complexidade a considerar, ainda para mais com uma coordenação de gru-pos nominais (tomados como comple-mento directo complexo da subordinada infinitiva). Porém, isso não pode fazer esquecer que toda a construção transcrita funciona, na frase matriz, como sujeito sintáctico, o qual não pode ser separado do predicado (não menos complexo) por uma vírgula.
    Se o emprego deste sinal de pontuação tem alguma possibilidade de variação, neste caso a questão é decisiva.

   Até estava a pensar reciclar a minha máquina de café, mas, assim, recuso-me a fazê-lo. O grão de café saiu mais do que torrado... amargou mesmo.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Sol e sombra em Serralves

     Foi tempo soalheiro, uma tarde como não se via há muito. Uma luz irradiava nos jardins; no museu, havia sombras...

       Hoje foi dia para acompanhar os 10º anos numa visita de estudo. Destino: Serralves.
    Ao verde e ao brilho convidativos do exterior corresponderam o dominante branco e a pesquisada sombra do interior.
Grand Herbier D'Ombre
Lourdes Castro
     Sob o título "À luz da sombra", os alunos foram guiados na descoberta da obra de Lourdes Castro e Manuel Zimbro (colaboradores na vida e no trabalho, desde a década de 70). Entre a exposição visual e os apontamentos videográficos, houve materiais e projectos diversos a observar e comentar, todos na exploração, na redescoberta de um 'eu' projectado e revisto nos reflexos e nas sombras, consciencializando-se da volatilidade também do acto criativo. Inclusive, a arte apoiada na acção, na performance, foi um dos conceitos explorados e explicitados, numa aproximação ao teatro de sombras chinês.
     À sombra da mensagem de Lourdes Castro, a da norte-americana e contemporânea Dara Birnbaum desmonta o brilho que os diferentes media propõem. A crítica impõe-se relativamente ao tratamento que subsiste numa visão feminina - captada em séries como Wonder Woman ou Love Boat - que perpassa subtilmente no seio do consumismo mediático (e que, eventualmente, perpetua preconceitos).

     A descoberta da estética, a dimensão da arte representada e a busca de sentidos foram o exercício para uma tarde planificada pelo grupo de Filosofia da Escola Secundária de Gondomar, acompanhada por professores de Português e Directores de Turma associados. E, depois, os sentidos do jardim não deixaram de ser também explorados.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

E depois do verbo... o adjectivo

     Com o tempo, sempre se vão encontrando uns "tesouros" nos manuais escolares. E as perguntas impõem-se.

      Q: Encontrei num manual a designação "adjectivo deverbal". Diz-lhe alguma coisa?

     R:  Trata-se de uma subcategoria dos adjectivos, considerada numa perspectiva morfológica. Ou seja, são adjectivos formados a partir de uma base que é uma forma verbal.
    A título de exemplo, podem considerar-se casos como os implicados na derivação 'relaciona(r) > relacionável'; 'adapta(r) > adaptável'; 'soluciona(r) > solucionável'. Na versão da antiga TLEBS, designavam-se estes casos como 'adjectivo de possibilidade'.
     A designação do processo 'denominal, deverbal, deadjectival' prende-se precisamente com um processo morfológico, contemplando a base de uma palavra que vai derivar numa outra (a partir de nome, de verbo, de adjectivo, respectivamente, constrói-se outra palavra).
  Nomeadamente é também o que se passa com a formação dos adjectivos relacionais (ex.: solar, presidencial, semanal...), que, por terem na sua base de formação um nome, são também designados adjectivos denominais.

    Em termos de prática de ensino-aprendizagem, estou mais preocupado com a categoria (do que com subcategorias). Acho que a prioridade deve ser dada à identificação desta (antes de tudo, que os alunos saibam o que são adjectivos). Numa avaliação da situação de ensino-aprendizagem, poderá ser relevante avançar para o estudo das subcategorias (e não deve ser de desconsiderar um conhecimento que pode ajudar a explicar o comportamento distintivo de alguns adjectivos, comparativamnete a outros). Questões de progressão na abordagem do objecto, de acordo com objectivos.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Entre auxiliares e principais... ficam-se os verbos

      Na base de uma questão formulada a propósito do apontamento de 1 de Abril, já lá vai mais de um ano.

Q: Se por acaso tivéssemos como exemplo 'O Pedro deseja ir à festa', 'O Pedro deve ir à festa', qual seria o meu verbo principal? E por que razão?

R: Com o primeiro exemplo, o verbo principal é ‘deseja’; com o segundo, ‘ir’.
     Na primeira frase, o que está em questão não é um complexo verbal, mas sim uma estrutura sintáctica que pode ser parafraseada da seguinte forma: o Pedro deseja alguma coisa (o verbo ‘desejar’ é, no caso, um transitivo directo; ou seja, um verbo que selecciona um complemento directo). Essa 'alguma coisa', por sua vez, está representada por uma subordinada infinitiva que tem como verbo principal 'ir'. Este último, contudo, não deixa de estar dependente da frase-matriz ou sequência subordinante (na qual 'deseja' é o núcleo superordenado).
     Na segunda frase, há um complexo verbal (verbo auxiliar ‘dever’ seguido do verbo principal ‘ir’). Descontextualizada que está a frase, admitem-se duas leituras possíveis: uma, afirma-se a probabilidade de o Pedro ir à festa (entendendo-se o verbo ‘dever’ como auxiliar modal, na expressão da probabilidade); outra, indica-se a obrigatoriedade de o Pedro ir à festa (com o verbo ‘dever’, agora, a ser tomado como um auxiliar modal de obrigação).
     A propósito de questões de auxiliaridade, é possível recuperar o apontamento anterior, no qual já se havia abordado o tópico do complexo verbal e o dos verbos auxiliares. Os exemplos aí propostos (frase ii mais o segundo enunciado de 1) aproximam-se, respectivamente, do que se pretende com as duas frases aqui indicadas (antes na perspectiva de identificação dos verbos auxiliares; agora, na dos principais). Pela aplicação de testes aí explicitados para se distinguir o tipo de verbo, chegar-se-á à conclusão construída nos três primeiros parágrafos.

     É bom saber que há quem leia o que já faz tempo. E assim se retoma o passado para o tornar presente (se isto do tempo é, por si, confuso, o que dizer de 'amanhã, o hoje será ontem'?).

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Ler... para ouvir

   Fui convidado a partilhar a leitura oralizada do primeiro capítulo do Memorial do Convento. Quinze minutos que fizeram a diferença deste dia.

   Uma turma de 12º ano. Algumas caras conhecidas; e dois alunos meus dos tempos do ensino básico. Como estão crescidos, depois de três anos! Foi bom revê-los.
   Lá expliquei muito brevemente como reagi às primeiras palavras do narrador, assim que li, pela primeira vez, este romance de Saramago (já lá vão muitos anos) - um dos meus preferidos (sem tirar lugar ao primeiro dos amores: O Ano da Morte de Ricardo Reis).
   E, depois, a voz fez o resto.
  De facto, não há retrato de realeza que consiga escapar a tanta ironia. Nada para levar a sério. E os risos foram surgindo. Mais uma vez, a figura do "Magnânimo" D. João V ficou reduzida à sua condição de ser risível (como tantos outros seres que hoje se arvoram de um poder que os torna também ridículos... e nem dão por isso!).
   Lá voltei eu a contribuir para a destruição da imagem real (numa cumplicidade com um narrador que apresenta uma visão, uma perspetiva muito crítica da História - num confronto entre a sátira aos dominadores e a epopeia do trabalho). Espero que, assim, descubram a grandiosidade do homem comum, que faz da vida o maior feito, o maior trono para "todos os nomes" (por mais incógnitos que fiquem / tenham ficado na História).
  
   Convidei-os, então, a reler a relação de Baltasar e Blimunda: naturalidade, espiritualidade, religiosidade, vontade e humanidade. Antídotos para a "fantasia" e a ilusão de todos os tempos (e as do presente também).

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Contrato a quanto obrigas!

     No contexto dos 'Contratos de Leitura' (actividade dinamizada com alunos do 10º ano), por vezes há contactos felizes.

     No desafio da leitura, há livros com os quais ainda não se fez a aproximação desejada.
     Outros, já lidos e relidos, são assunto para muita conversa.

    Depois há ainda aqueles que, programados para serem lidos, acabam por ultrapassar a vez de outros que permanecem à espera da nossa escolha. Foi o caso da Fúria Divina, de José Rodrigues dos Santos. Saltou-me para as mãos e foi dado aos olhos, ainda por cima numa leitura motivada por um grupo de alunos que decidiu fazer deste romance o seu contrato de leitura, com direito a exposição à turma.
     Entre a leitura e a produção de uma ficha, a exposição oral, a produção de um powerpoint, o esclarecimento de dúvidas e a tomada de notas, houve muita comunicação e interacção.
      E depois há livros que dão lugar a outros livros.
      E também se escreve.

      Prova de que não são apenas os alunos que fazem o que o professor manda. Desta feita também fui comandado por eles. Exemplo de um encontro acompanhado de reencontros nas e pelas páginas de um livro.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Com Textos 10 - para novo ciclo.

      Depois de um ciclo de trabalho com um projeto editorial escolar, começa-se um novo.

     Este é o sucedâneo de Das Palavras aos Actos. Intitula-se Com Textos, destina-se ao 10º ano de escolaridade (formação regular) e foi produzido em regime de co-autoria.
      Prefaciado pela Professora Doutora Maria Francisca Xavier, da Universidade Nova de Lisboa, contou ainda com a colaboração dela, no que à revisão científica diz respeito.
      Para a conceção do projeto, tiveram-se em conta os aspetos seguintes:
- estruturação do grafismo na lógica da dupla página;
- a organização das sequências por competências (ouvir/falar, ler, escrever, práticas e estudo da língua associados ao conhecimento explícito), apostando na processualidade implicada em cada uma delas;
- contacto com géneros e tipologias textuais diversificados, literários e não literários, conforme indicação do programa de disciplina;
-exploração de diferentes modalidades de oralidade, leitura e escrita;
- proposta de dinamização de projetos articulados com os conteúdos declarativos e processuais relacionados com cada uma das sequências;
- monitorização de competências mais de carácter transversal, com a indicação de indicadores / critérios de desempenho / de sucesso, com guiões de verificação articulados com atividades propostas ao longo das sequências;
- consolidação de conhecimentos, com formulação de sínteses de conteúdos programaticamente definidos essenciais às sequências em estudo;
- testagem de conhecimentos / competências para regulação das aprendizagens (avaliação formativa).
      O manual faz-se acompanhar de produtos complementares, nomeadamente: caderno de atividades, livro de professor, materiais de natureza multimedia.

       Que este seja um manual que auxilie principalmente os alunos na (re)descoberta da língua que também os faz. Citando as palavras da poeta que foi Sophia de Mello Breyner Andresen (in "Com Fúria e Raiva", O nome das coisas, 1977), "De longe muito longe desde o início / O homem soube de si pela palavra / E nomeou a pedra a flor a água / E tudo emergiu porque ele disse".

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Morfologia a quanto obrigas...

     Voltemos às dúvidas, que andavam um tanto arredadas deste espaço (como dizem os meus alunos, "Professor, tenho uma dúvida!"; e eu respondo "Felicidade a tua, pois eu tenho muitas!").

    Q: Partindo do exemplo "Quando chegar a casa, vou estudar", tenho lido em vários sítios que o verbo 'chegar' ora está no infinitivo ora está no futuro do conjuntivo. É indiferente esta classificação? Posso aceitar qualquer uma delas? Na verdade a terminação parece ser a do infinitivo. Como posso explicar a diferença?

    R: No exemplo que me dá, vejo o infinitivo na forma do verbo 'estudar', na medida em que o complexo verbal associado ao futuro próximo ("vou estudar") se configura do seguinte modo: 'verbo auxiliar + verbo principal (infinitivo)'.
    Já quanto ao verbo 'chegar', apesar da aparente semelhança formal (em termos morfológicos) entre futuro do conjuntivo e infinitivo, julgo ser mais adequada a classificação de futuro do conjuntivo pelo seguinte raciocínio: numa eventual manipulação / transformação da frase, seria possível ver a co-ocorrência de 'quando' com verbos que admitem a forma do futuro do conjuntivo e não a de infinitivo. Assim, seria possível ter "Quando estiver em casa vou estudar" e não "*Quando estar em casa vou estudar".
     Construam-se ainda frases que tenham o articulador 'quando' seguido dos verbos 'fazer', 'dizer', 'trazer', 'querer', 'ter', 'pôr', 'poder', e seguramente não serão estas formas infinitivas que aparecerão. Serão utilizadas as que correspondem ao futuro do conjuntivo (como é o caso de 'fizer', 'disser', 'trouxer', 'quiser', 'tiver', 'puser', 'puder', respectivamente).

    Ora cá está um exemplo de como a morfossintaxe, além de alguns contributos de ordem semântica, pode marcar diferença no modo de ver a forma das palavras.

domingo, 25 de abril de 2010

Abril precisa de açúcar...

    Em feriado celebrado em pleno domingo (coisa tão escusada!), os discursos são velhos, as ideias estão gastas, o tempo vai apagando as conquistas e os ideais estão enevoada e silenciosamente em crise. Sinais de algum desmaio...

     Não desmerecendo o exemplo que muitos deram neste dia, em 1974, 36 anos depois as palavras de Sophia mantêm o sentido que a actualidade impõe:

"Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo."

     Nessa madrugada já distante, conquistou-se a liberdade, desde aí também ameaçada. Hoje, entre silêncios que se geram, injustiças criadas e defendidas, precariedade e desequilíbrios socialmente desgastantes, orientações políticas inconsistentes e pautadas por constantes e sucessivos dissensos, resta sempre a hipótese de dar voz ao descontentamento... muitas vezes qual farinha colocada em saco roto. A sensação de esgotamento faz-se sentir e um sentido de vazio cresce. É preciso que a noite saiba que tem de dar lugar ao dia.

    Peço um café.
   Dão-me um pacote de açúcar (fica para reanimar o Dia da Liberdade).
     Leio a pergunta registada no pacote (à direita).
     Apetece-me dizer: Há!
    Ver uma multidão de pessoas com vontade de ser verdadeira e de lutar por uma liberdade socialmente valorizadora, limpa, empenhada na construção de uma sociedade mais justa e solidária, menos iludida e ilusória. Talvez assim fosse possível 'Desenvolver' (já que de 'Democratizar' e 'Descolonizar' se evidenciou alguma coisa com a Revolução dos Cravos). Isto porque quero acreditar que isto não seja impossível nem falso.

    ... e eu preciso de café.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Antígona: reflexão sobre o(s) poder(es) para salvar a vida

     Um espectáculo... (no duplo sentido).

    Numa encenação de Nuno Carinhas e com o texto de Sófocles traduzido por Marta Várzeas, expõe-se ao público uma estrutura cénica de anfiteatro, sugestivamente fundacional da tradição grega; o visionamento de um cerimonial performativo de natureza cívica; a força de uma representação que se faz dos conflitos de critérios, do entendimento e do significado a dar a certas palavras; da abordagem trágica não tanto de situações (como em Ésquilo), mas, mais, de caracteres.
     A força de um dever apoiado no sentimento e no laço familiar debate-se com as ordenações estabelecidas por um poder que, por mais que seja inicialmente legitimado e reconhecido, escapa ao entendimento moral. É o que sucede quando não se admite soluções e apenas se dá ordens (tal como Creonte); e assim se chega a ameaçar o Cosmos, lançando-se o mundo no caos.
    A atitude de oposição da jovem Antígona, figura que o leitor / espectador mais guarda na memória (não obstante a reduzida presença no texto / na representação), culmina num diálogo intemporal, feito da legitimação da lei dos deuses em detrimento da lei humana. Torna-se admissível a questão de quem escreve as leis não escritas dos deuses. Nesta linha de reflexão, cresce o confronto de dois poderes, ao qual se junta outro: é posto em causa um acto humano de Creonte, enquanto porta-voz das razões de Estado, para se impor aquele assente numa plataforma moral, familiar - eticamente sustentado a ponto de ferir de morte alguns sinais de um mundo despótico.


    No final, chegada a “anagnorisis” (reconhecimento), a força do tempo impera: é tarde. A “hamartia” (erro trágico) faz com que Antígona, num bailado de dor que a conduz a uma caverna escavada na rocha, acabe por pôr termo à vida. Também Hémon (o noivo de Antígona, o filho de Creonte) teve na espada com que se trespassou o acto sofrido do amante que - apesar de saber usar da palavra, do discurso apoiado num raciocínio aprovado - deixou na palavra dita toda a força que não alimentou o feito desejado ou a solução creditada.
    Da quase ausência de Antígona (no texto ou no palco) se faz a presença forte de uma consciência liberta, mas ameaçada na condição e na existência; do tempo representado, já passado, se revê o presente com muitos poderes que, no jogo da pólis e do ethos, se degladiam.
    “Não há ventura sem desdita” é máxima que Sófocles parece querer situar ao nível das forças do destino. Ao ouvir que “Há mortos de que os vivos são responsáveis”, impõe-se a acção do Homem, a origem de algum do sentido trágico e desventuroso traçado pelo próprio; mas também a fonte para poder salvar a vida.

       Pela mensagem do texto dramático, pela qualidade arrebatadora da representação e encenação, pela(s) companhia(s) do momento, esta foi uma noite que deu em muita luz.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Pela paz ansiada

      É nos tempos mais conturbados que se dá mais valor ao que nos inspira segurança, estabilidade, paz...

     Neste Dia Mundial da Voz, dê-se esta última à poesia...


..., fazendo-se ouvir as palavras dessa poetisa que buscou o sentido completo, pleno das coisas: "Na febre de buscar o senso à vida / Descubro-me dor de alma inacabada". Vislumbro nestes versos uma intrigante actualidade, na crença de uma Natália Correia, para quem "tudo é eterno num segundo".

      ... porque a poesia é voz, é música e, no uso das palavras mais incisivas, não deixa de convocar a paz.

Tópico: o meu olhar...

    Não é lá grande coisa, principalmente nos tempos que correm. Já houve melhores dias.

    Lido o poema de uma amiga, tão feito do azul celeste com que pinta o seu firmamento, entro em diálogo versificado, numa polifonia disfórica... com um outro olhar.


FÉNIX-ÍCARO SEM (G)RITO

No meu olhar,
sou Fénix em cinza
sem azul no firmamento;
com lua
cercada de noite
e de uma diminuta estrela
que aspira a ser Sol.

Deixá-la brilhar...
Talvez alumie
quem ainda vive
de tanto imaginar.

Em sétimo céu,
Ícaro viu-se perder.
À terra voltou,
depois de o Sol cobiçar.
No calor do fogo,
achou motivo para a queda.
No calor do fogo,
ficou a Fénix queda
(sem fêmea que a chorasse).

Há voos que,
na liberdade cega,
do ar tombam no mar;
há cinzas que,
sopradas pelo vento,
se dispersam,
se apartam
de um apregoado brotar ...
longe do renascer.
Pobres mitos, em rito por cumprir!

Neste meu desencantado olhar,
há íris que embate em nevoeiro;
pupilas sem mestre, em cegueira;
há uma imensa e intensa luz
turvando um mundo
que, de fantasia, se faz do que o ilude...

Não deixa voar
este meu olhar.
Gondomar,
20 Abril 2010 (um dia sem história)

    Se quem muito alto sobe muito baixo desce, espero que o inverso também se faça verdade, pela esperança de melhores tempos e olhares.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Reencontro: melhor mais uma vez do que outra vez

    O reencontro é com a música e com um dos diversos grupos que acompanhei na década de 80 do século passado, tal como muitos outros teenagers desse tempo.

    Nessa altura, entre muitos êxitos, até as barricadas eram menos limitativas, mais transponíveis.

Do álbum Through the barricades, lançado em 1986

   Hoje, passado o século, alterados o tempo e os rostos, mantém-se o tom dos "new romantic" Spandau Ballet. Revive-se a voz de Tony Hadley, o saxofone de Steve Norman, mais os guitarristas Gary e Martin Kemp, além do baterista John Keeble.

Do sétimo álbum do grupo (Once more), datado de 2009

         ONCE MORE

I don't want to let you down
I just want the chance to turn myself around
I keep on searching for the sound
I don't want to do you wrong
I just want to take us back where we belong
We were hot and we were oh so strong

Oh I know we will make it if we try
Reach for the stars and we can touch the sky


Darling, once more, won't you give me one more time
Say these words together
I need you more than ever
Trying once more
One more chance to make it right
Never say never, let's rise up together, take on the world

I don't want to change a thing
I don't want to change this whisper to a scream
Same old song in a different dream
Sorry I stole the show
I can't believe I had your heart and let it go
I always loved you but I didn't know

Oh there's nothing standing in our way
We've got the love but do we want to play


(Let's stick around, go round again
Another chance to make amends)

    Revivalismos em tempos de saturação - sempre é uma estratégia de sobrevivência.

    Com música, o passado até pode ser retemperador (sem querer ser saudosista). Pelo menos, traz alguma harmonia, para tempos que se revelem mais esgotantes e esgotados. "Let's rise up together, take on the world" (no matter how heavy I figure it out, right now).


segunda-feira, 12 de abril de 2010

O contrário de relevar é... relevar!

    Porque há verso e reverso, há sempre a possibilidade de a poesia voltar ao uso original da língua (se não for ela a própria origem); porque há palavras que têm em si o seu antónimo, construa-se o significado que mais lhes convém.

     É o caso da palavra 'relevar', conforme se lê nas frases dadas:

i) A chamada telefónica permitiu-lhe relevar as saudades que tinha sentido com a partida do amigo.
ii) Depois da situação crítica vivida, passou a relevar muito do que julgava ser o pior da vida.

a) Muita gente acha que os adornos ajudam a relevar a beleza.
b) Entre tantos assuntos a tratar, o administrador decidiu relevar uns tantos em detrimento de outros de pequena monta.

     Entre os pares construídos, ao primeiro  associa-se o sentido da diminuição e da atenuação; ao segundo, o traço da saliência, do destaque. À perda de i)-ii) contrapõe-se o ganho em a)-b), fazendo-se sobressair algo.

     Se algumas palavras são camaleónicas (mudando a classe, apesar da forma, tal como os famigerados répteis o fazem na cor), outras há que tudo mantêm, excepto aquilo que os comunicantes nelas possam ver ou ler. Por isso, quando se relevar algo que tenha sido dito, há sempre a possibilidade de acertar em pólos extremos, conforme se queira destacar (porque se aceita) ou menorizar (porque se discorda).

sábado, 10 de abril de 2010

Como eu... melhor do que eu.

      Professor de Português: há 86 anos nascia um exemplo de atenção à vida (por mais curta que ela tivesse sido) e ao ensino (sobre o qual se lê alguns dos momentos vividos, num diário póstumo).

        "A aula começou pela algazarra do costume. Parece uma romaria depois dos primeiros copos. Eu entro e peço paz, suplico paz, imponho paz; o primeiro minuto tem de ser de paz imposta; o segundo é que já é paz provocada, paz devida ao interesse que a aula consegue ter (ou romaria novamente, devida ao desinteresse que a aula consegue ter...).
       Fez-se, imposto, uma espécie de silêncio; um silêncio cheio de resíduos de barulho... E comecei a ler."


      Um apontamento para muitos momentos repetíveis na "romaria", desejáveis num ritual de leitura que se constrói. Quando ler é voz, há como que o canto sedutor das sereias a dominar incautos marinheiros, sem que se lhes anuncie nenhum naufrágio (bem pelo contrário!).
       E, depois, há aquele outro registo que também recordo dos meus tempos de estágio, quando pela primeira vez me cruzei com a escrita de Sebastião da Gama. Nele lia o que teria gostado de ter sentido com alguns dos meus professores (e alguns certamente o conseguiram, a ponto de querer tornar-me um deles); nele pressentia algo a seguir, se queria que as minhas aulas tivessem alguns momentos de alegria e de felicidade (quer para mim quer para os que comigo iriam trabalhar) a par de algum esforço necessário ao saber.


     
     Entre 1924 e 1952 correu o tempo para a curta existência e a intensa vivência de um professor e poeta. 28 anos de um "insofrido anseio de se dar às coisas como aos seres"; existência que o Prof. Hernâni Cidade caracterizou no prefácio do Diário (1958) daquele seu aluno, na Faculdade de Letras de Lisboa, que se havia dado a conhecer em verso, com Serra-Mãe (1945).

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Sem romantismos...

     Pensamento... dos mais românticos ou práticos?

     Numa exposição que se encontra no Centro de Estudos Camilianos - Casa Museu de Camilo (São Miguel de Ceide), a propósito das mulheres na vida de Camilo, lê-se:

























      Escrito por quem foi, que se diria do percurso em versão masculina?!

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Porque amador é aquele que ama

     No fim de um dia, na Quinta da Bonjóia, foi tempo para uma conversa a propósito da figura precursora e introdutora do Surrealismo em Portugal: António Pedro (1909-1966).

    Na sequência dos "Serões da Bonjóia - Tertúlias à moda do Porto", Júlio Gago, director artístico do Teatro Experimental do Porto (TEP), proferiu a última de quatro conversas à volta do tema 'António Pedro' (figura primeira na direcção artística deste grupo, no período 1953-61). 
   Ainda no contexto da comemoração do centenário de nascimento (iniciativa começada em 2009 e prolongada até ao presente ano), foram abordadas as facetas do jornalista (foi inclusivamente director de dois jornais de Coimbra: "Bicho" e "Pena, papel e veneno"), escritor, pintor, desenhista, encenador. 
     Nascido em Cabo Verde (na cidade da Praia), chega ainda criança a Portugal. Estudou em La Guardia (onde cultivou o gosto pelo teatro). António Pedro foi homem para se multiplicar por várias áreas artísticas, tendo sido pioneiro em Portugal nalgumas delas.

      Aqui ficam alguns apontamentos, a relevar o seu papel:
      . ao criar a primeira galeria de arte comercial com Tomás de Melo (a U.P., 1932);
    . ao participar nos manifestos Planista e Dimensionista (1936), fundamentais para o surrealismo europeu, que entra em Portugal por via de António Pedro - figura principal do Grupo Surrealista de Lisboa (1947-9); 
      . ao escrever o primeiro romance (assim chamado porque o autor assim o quis) poético surrealista, intitulado Apenas uma Narrativa (1942);
     . ao inovar nas artes gráficas em Portugal (com a capa do número inicial da revista Variante, da qual foi director, em 1942);

   . ao dar voz à liberdade ansiada (vinda de Londres, pela BBC, aquando da II Guerra Mundial, mais precisamente nos anos 1944-5), na luta contra o autoritarismo fascista (fosse pela esquerda fosse pela direita);
    . ao renovar a estética do teatro em Portugal, essencialmente no âmbito da encenação.
      Viria a morrer em Moledo, aos 67 anos.
      Jorge de Sena viria a antologiar o que de melhor António Pedro fez na poesia.
António Pedro, em foto de Fernando Aroso

      Depois de cerca de hora e meia de conversa, dois dados se retiveram: na opinião do orador, António Pedro não é tão reconhecido no seu país como o é lá fora; se não é assumido como um brilhante exemplo da Arte Moderna (de que foi pioneiro também no ensaísmo), contribuiu determinantemente para a inovação, o pioneirismo e o brilhantismo de diversas formas de expressão artística (literatura, pintura, cerâmica, teatro). 

quarta-feira, 7 de abril de 2010

De Camilo a Régio, para literatura feita de viagem

      Para isto servem as pausas: ver, ler, ouvir e sentir a literatura que vai oficialmente escapando aos nossos sentidos.

      A viagem teve como destino, na manhã, S. Miguel de ... ora Seide ora Ceide (indicações para diferentes gostos gráficos, sempre em comunhão homofónica). Momento para recordar Camilo Castelo-Branco, o seu tom sarcástico e irónico de escrita; um percurso de vida entre o aventureiro, o crítico e ousado, o sofrido; um homem que enfrentou o próprio tempo.
     Da casa onde pôs termo à vida ao Centro de Estudos Camilianos... um atravessar de rua para se acompanhar uma exposição sobre as mulheres do escritor (da mãe, das diferentes companheiras, àquela que lhe seguiu os passos na literatura - ainda que, assim se diz, ele a preferisse na cozinha).
     À tarde, foi a vez de José Régio, um homem plural para (ou em) um escritor singular. 68 anos de vida para o defensor da "Literatura Viva": "Em arte, é vivo tudo o que é original. É original, tudo o que provém da parte mais virgem, mais verdadeira e mais íntima duma personalidade artística". Haja personalidade na obra, mas quanto a obedecer-lhe... assim o entenda o leitor.
     Entre a formação em línguas românicas, a docência de Português, a produção escrita e as colecções de arte popular antiga mais as de pendor sacro, José Régio impôs-se como figura de intervenção cívica e intelectual na primeira metade do século XX, sendo um dos fundadores do segundo modernismo português e da revista Presença.

Pseudónimo de José Maria dos Reis Pereira,
neto de ourives e filho de homem dedicado às artes e letras,
rendido à necessidade de trabalhar na ourivesaria
     




             Vila do Conde aqueceu os caminheiros com o sol que abrilhantou o dia, num contraste assumido com o espírito suicida do autor de Onde está a Felicidade? (1856); com a ambiência sofrida, vitimizadora e dominada pela arte sacra com que o criador de Confissão de um Homem Religioso (póstumo) traçou as divisões de uma casa herdada da tia-avó e madrinha, ao lado daquela em que havia nascido.

     De uma tertúlia andante se fez resumo, para o que da crónica a produzir muito haveria a escrever; mas, perante dois exemplos de escritores fisicamente pequenos (embora intelectualmente grandes na literatura e cultura portuguesas), tudo ficaria a esmo face ao que "doze apóstolos" puderam vivenciar.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

As salaam alekum...

          Assim se cumprimenta quem se deixa dominar pela Fúria Divina.


      A construção do romance obedece a um processo de alternância desnivelada: entre duas histórias aparentemente paralelas, com o nível narrativo centrado no egípcio Ahmed a situar-se num ponto mais recuado no tempo face ao que focaliza a intriga de Tomás de Noronha-Rebecca Scott-Frank Bellamy.
    Numa intriga feita de enigmas a descodificar, de aprendizagens a construir e de riscos / desafios a correr, o leitor ganha com a pesquisa feita por José Rodrigues dos Santos e a partilha sobre alguns dos princípios e ideais islâmicos (dos mais pacíficos aos mais fundamentalistas); tira ainda proveito de toda uma história que apresenta diferentes perspectivas do que é o islamismo, o Alcorão e o radicalismo religioso.
        Numa crise mundial em que Ocidente e Oriente são pólos de tensão e de luta pela supremacia de poder, a religião torna-se bandeira para um jogo conflitualmente assumido entre o governo segundo as leis dos homens e o domínio segundo as leis de Deus (não fossem estas últimas interpretadas à luz da racionalidade dos homens!).
        Tudo o mais anda algo próximo da receita de Dan Brown e da personagem Robert Langdon: um perigo instala-se, o confronto com o mau da fita é inevitável, a descoberta é feita (jogando com sinais e raciocínios que um historiador e criptanalista acaba por desvendar ao último segundo). E, para não variar, um toque de sedução para ver se vai durar muito.
         Por fim, há de tudo e para diferentes (des)gostos: entre a afirmação da genialidade do protagonista e a frustração ou desilusão de alguns dos seus intentos.

      Tal como se começou, resta fechar no mesmo tom e com educação: Wa alekum salema (assim se devolve uma saudação).