quinta-feira, 17 de março de 2011

Memória(s) de ouvido

       Dos tempos da adolescência, ficou uma grande voz...

      Elis Regina (ou a mais familiar "Pimentinha"), cujo nascimento a 17 de Março de 1945 hoje lembro, era a voz de "Fascinação", "Eu sei que vou te amar", "Águas de Março", "Alô, Alô, Marciano", "Madalena" - melodias que passavam na rádio e na televisão; que rodavam no gira-discos lá de casa, ainda em vinis de 45 rotações.
      De tanto uso, um ou outro ficou inutilizado; mas ficou gravado na memória auditiva: "Os sonhos mais lindos sonhei. / De quimeras mil um castelo ergui...", "Eu sei que vou te amar / Por toda a minha vida eu vou-te amar / Em cada despedida eu vou-te amar / Desesperadamente eu sei que vou-te amar...", "Alô, Alô, Marciano / Aqui quem fala é da terra / P'ra variar estamos em guerra...", "Ó Madalena, o meu peito percebeu / que o mar é uma gota / comparado ao pranto meu...".



É pau, é pedra, é o fim do caminho
é um resto de toco, é um pouco sozinho
é um caco de vidro, é a vida, é o sol
é a noite, é a morte, é um laço, é o anzol
é peroba do campo, o nó da madeira
caingá, candeia, é o Matita Pereira


É madeira de vento, tombo da ribanceira
é o mistério profundo
é o queira ou não queira
é o vento ventando, é o fim da ladeira
é a viga, é o vão, festa da cumeeira
é a chuva chovendo, é conversa ribeira
das águas de março, é o fim da canseira
é o pé, é o chão, é a marcha estradeira
passarinho na mão, pedra de atiradeira

Uma ave no céu, uma ave no chão
é um regato, é uma fonte
é um pedaço de pão
é o fundo do poço, é o fim do caminho
no rosto o desgosto, é um pouco sozinho

É um estrepe, é um prego
é uma ponta, é um ponto
é um pingo pingando
é uma conta, é um conto
é um peixe, é um gesto
é uma prata brilhando
é a luz da manhã, é o tijolo chegando
é a lenha, é o dia, é o fim da picada
é a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
é o projeto da casa, é o corpo na cama
é o carro enguiçado, é a lama, é a lama
é um passo, é uma ponte
é um sapo, é uma rã
é um resto de mato, na luz da manhã
são as águas de março fechando o verão
é a promessa de vida no teu coração

É pau, é pedra, é o fim do caminho
é um resto de toco, é um pouco sozinho
é uma cobra, é um pau, é João, é José
é um espinho na mão, é um corte no pé
são as águas de março fechando o verão
é a promessa de vida no teu coração

É pau, é pedra, é o fim do caminho
é um resto de toco, é um pouco sozinho
é um passo, é uma ponte
é um sapo, é uma rã
é um belo horizonte, é uma febre terçã
são as águas de março fechando o verão
é a promessa de vida no teu coração

É pau, é pedra, é o fim do caminho
é um resto de toco, é um pouco sozinho

Pau, pedra, fim do caminho
resto de toco, pouco sozinho

Pedra, caminho
Pouco sozinho

Pedra, caminho
É o toco


      Registos de um tempo revivido num tristonho Março, que bem podia ser Janeiro - o mês da morte da cantora (17 de Janeiro de 1982) -, entre o frio e o molhado, com "águas são de Março", mas "não fecham o verão". Grande música, grande voz, grande canção.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Camilo: o que preferiu os ladrões às bestas?

      No dia do nascimento de um dos maiores novelistas da Literatura Portuguesa.

     O tempo vai apagando alguns sinais da memória. De figura proeminente nos programas de ensino do Português, no século passado, hoje Camilo Castelo Branco é figura praticamente residual no conhecimento que os alunos detêm sobre um dos maiores românticos nacionais. E, no entanto, quando alguns deles se cruzam com narrativas camilianas, a reacção não deixa de ser positiva, por vezes até intensa. O mesmo aconteceu com grandes escritores.
     Há 186 anos nascia quem viria a ficar órfão de mãe e de pai, aos dois e nove anos, respectivamente. As letras adoptaram-no, depois de um curso de Medicina abandonado no segundo ano, bem como outro de Teologia no Seminário Principal. Na poesia, no teatro, no jornalismo, nos romances ou nas novelas, Camilo não deixou de se afirmar como um exemplo, sem esquecer o polemista que, nas décadas de cinquenta e sessenta do século XIX, revelou um exercício de escrita e um domínio da palavra notáveis.
    Considerado por alguns como o primeiro escritor profissional, o autor de Amor de Perdição (1862) foi um retratista de costumes, de linguagens, de vivências, sendo capaz de os transpor para o escrito com matizes de uma oralidade que Alexandre Herculano e Eça de Queirós não deixaram de explorar, em tendências literárias (romantismo e realismo-naturalismo) que se confrontaram.
    A cegueira viria a limitar Camilo, a ponto de este pôr termo à sua vida, pintada do aventureirismo, do inconformismo, da boémia, da intensidade passional e da consciência do conflito de forças que grassa no ser romântico. Sentiu-se sem a íris que o ligava à vida ou a janela que lhe alimentava a alma; sem os amigos que o abandonaram, como o registou num dos seus últimos poemas.
    Assim se revelou "um Homem do Norte":

  
     Não admira, portanto, que numa das suas cartas tenha testamentado o seu desejo de sepultura no Cemitério da Lapa (conforme o testemunha carta a um amigo).

  
    Se, com a imagem da morte, cumpre o romântico o tópico da fuga ao seu infortúnio, Camilo Castelo Branco assim o fez para a vida que hoje é lembrada.

     Talvez na mente do autor primasse o provérbio "Antes a morte que a má sorte"; mas, para muitos dos seus leitores do tempo, talvez fosse mais adequado um sentido possível para "O que a vida nos dá a morte nos tira".

terça-feira, 8 de março de 2011

Um "criativo", um criador, um criado...

        Há dias cuja criação é mais humana que divina, e talvez por trás do homem não deixe de estar uma força que o transcende.

      Este é o sentido das palavras que Pessoa escreveu a Adolfo Casais Monteiro, a propósito da criação heteronímica:

      "Aí por 1912, salvo erro (que nunca pode ser grande), veio-me à ideia escrever uns poemas de índole pagã. Esbocei umas cousas em verso irregular (não no estilo Álvaro de Campos, mas num estilo de meia regularidade), e abandonei o caso. Esboçara-se-me, contudo, numa penumbra mal urdida, um vago retrato da pessoa que estava a fazer aquilo. (Tinha nascido, sem que eu soubesse, o Ricardo Reis.)
       Ano e meio, ou dois anos depois, lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro – de inventar um poeta bucólico, de espécie complicada, e apresentar-lho, já me não lembro como, em qualquer espécie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira – foi em 8 de Março de 1914 – acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive. E tanto assim que, escritos que foram esses trinta e tantos poemas, imediatamente peguei noutro papel e escrevi, a fio, também, os seis poemas que constituem a Chuva Oblíqua, de Fernando Pessoa. Imediatamente e totalmente... Foi o regresso de Fernando Pessoa-Alberto Caeiro a Fernando Pessoa ele só. Ou, melhor, foi a reacção de Fernando Pessoa contra a sua inexistência como Alberto Caeiro. (…)
      Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir – instintiva e subconscientemente – uns discípulos. Arranquei do seu falso paganismo o Ricardo Reis latente, descobri-lhe o nome, e ajustei-o a si mesmo, porque nessa altura já o via. E, de repente, e em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo. Num jacto, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a Ode Triunfal de Álvaro de Campos – a Ode com esse nome e o homem com o nome que tem.
         Criei, então, uma coterie inexistente. Fixei aquilo tudo em moldes de realidade. Graduei as influências, conheci as amizades, ouvi, dentro de mim, as discussões e as divergências de critérios, e em tudo isto me parece que fui eu, criador de tudo, o menos que ali houve."

Fernando Pessoa, in Obra Poética e em Prosa, ed. António Quadros,
Porto, Lello & Irmão, 1986


     Também nos dias em que nos sentimos muito produtivos nada parece poder deter-nos. E quantas vezes assim começamos o dia para, no fim, desejarmos um pouco de terra, um instante sem ter que pensar, um repouso que nos comande até ao son(h)o, um balanço que relativize o excesso a que nos obrigaram ou a que nos demos.

      Coisas de tanta(s) pessoa(s) / Pessoa(s), e que também alimentam a arte do Homem Moderno.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Quando parece igual...

     Apetecia-me dizer "Atrás de mim virá quem te ensinará", mas é melhor justificar o que eu ganho. E a questão é irrecusável (pela questão e por quem a formula).

     Por isso, vou-me e dou-me ao trabalho (... trabalho e mais trabalho). Por que razão me lembrei eu disto?!

  Q: Olá, professor! Tenho uma dúvida... Qual a diferença, se houver, entre "experienciar" e "experimentar"? Segundo o dicionário online da Língua Portuguesa, pelo que percebi, não há grande diferença. Obrigada! Continuação de umas óptimas "férias" !

      R: Prezadíssima aluna, que felicidade! Uma dúvida! Eu tenho tantas... Vamos lá ver se (me) saio bem desta.
      No geral, diria que o que foi concluído da consulta faz sentido. O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa assume mesmo que 'experienciar' é o mesmo que 'experimentar'; outros tomam o primeiro termo como uma das acepções a contemplar no segundo.
      Todavia, no que toca à sinonímia, esta última não é perfeita nem total. Há frases em que a permuta dos vocábulos resulta bem:
      i) Experienciei uma sensação única na viagem a Itália.      
      ii) Experimentei uma sensação única na viagem a Itália.
         O mesmo não sucede noutros casos:
     iii) Experimentei um fato novo [mas * Experienciei um fato novo]
     iv) Experimentei as chaves todas e a porta não abriu [mas *Experienciei as chaves...]
     Assim, parece que 'experienciar' é um termo que combina melhor com palavras tendencialmente abstractas (ex.: sensação), enquanto 'experimentar' apresenta um leque mais abrangente de sentidos, combinatórias (nomeadamente com vocábulos de significado mais concreto).
     Outras diferenças residem mais em aspectos etimológicos e morfológicos. 'Experimentar' provém do termo latino 'experimentāre' (que sofreu evoluções, ainda que poucas, em termos sonoros e articulatórios), enquanto 'experienciar' é um verbo formado a partir de 'experiência' (por derivação com sufixação).
      Em suma, digo que se 'experimenta' um prato, uma comida e se 'experiencia' a sensação (agradável ou não) desse prato, dessa comida. 'Experienciar' está para o abstracto como para a vida, as sensações, os sentimentos; 'experimentar' cabe em situações de testagem, experiência, uso, ensaio, prova, comida e bebida, passagem, com noções tanto concretas como abstractas.
     (E deseja-me "boas férias" - e óptimas! Porquê? Onde? Quando? Como? Quem? Que eu saiba, só houve pausa lectiva - expressão, aliás, ambígua, porque a pausa que houve na actividade lectiva - o que me fez não ter de ir à escola - não deixou de ser uma pausa lectiva; ou seja, pausa para continuar a ensinar. Eis a prova - aqui está ela.)
      Espero ter sido esclarecedor.

     Qualquer dia começo a dar razão a quem já defendeu que não era necessário haver salas de aulas (Cala-te boca, para não dares ideias, e acabarem por descobrir que as escolas novas que estão a construir não são precisas. Ai! Não penses, não fales, não escrevas!). 

domingo, 6 de março de 2011

Entre Bibliotecas e Florestas

     De comum, a tela da representação, na conjugação de traços e imagens, quais livros ou árvores à espera de leitores e pássaros.

     O nome é português, a mulher é lisboeta e francesa, a arte é universal, na conjugação dos pontos, dos círculos, dos quadrados, da luz, do emaranhado de tons, linhas e figurações que evocam heranças culturais e vivências que entrecruzam Portugal, Brasil e França.

Criado em 28/11/2008 por jomarvaz

     Maria Helena Vieira da Silva faleceu a 6 de Março de 1992, com 84 anos por fazer.

   E porque a morte é também figuração da arte, fica a reminiscência de uma portuguesa que se deu ao mundo. 

sábado, 5 de março de 2011

Será o mito do eterno retorno?

     Talvez nunca se tenha falado tanto do Festival da Canção da RTP1, nos últimos tempos. Ainda bem!

     As reacções são de todo o tipo. 
    Já viste quem ganhou? O que é isto? Que figura é esta? Eles não desafinam? As interrogações dos mais velhos..., isto para não dar conta de outras apreciações que diziam não haver juízo, não ser assim que vamos ganhar (ainda há crentes!).
    As mensagens dos mais jovens - entre a ironia, a inconsciência e o espírito do inconformismo - vão desde o simples "Que lindo!", "Palhaços" e "Reis!" ao registo que marca uma vitória. 
    A minha teoria vai mais no sentido de todo um cenário recriado (o da manifestação que nunca é, por certo, afinada, ainda que todos pareçam ir na mesma direcção); de um espírito de luta (que é alegria); de um grito disfarçado de chalaça; de uma "pedrada no charco"; da queirosiana revolução de mentalidades, para reagir a uma "choldra ignóbil" que persiste (ou se reafirma) desde os finais do século XIX.
   A letra da canção tem de tudo, menos da inocência dos incautos. A par de uns famosos e conhecidos 'Deolinda', nos últimos tempos (de Geração Parva ou À Rasca), os 'Homens da Luta' em tudo me fizeram pensar e lembrar as cantigas de intervenção.
    Ecoaram, na minha mente, as palavras do Principal Sousa (um dos "reis do Rossio", do poder instituído que se vê ameaçado em Felizmente Há Luar!, de Luís de Sttau Monteiro):   "... o povo canta pelas ruas canções subversivas". Ou as de Miguel Forjaz (outro dos "reis"): "Os estados emotivos... dependem da música que se tem nos ouvidos". Até as do antigo soldado (um dos populares oprimidos): "Estas cantigas são inventadas / no regimento de Freire d'Andrade / São cantadas com o estilo / De lá ré ó liberdade".
    A "cantiga é uma arma", disse-o José Mário Branco. Para um contexto de ditadura (noite), a reacção melódica fez-se com várias canções e a várias vozes: a de Zeca Afonso, Sérgio Godinho, Paulo de Carvalho, Fernando Tordo e tantos outros que convocaram o espírito crítico, a liberdade e a "Madrugada" que um Duarte Mendes (um dos soldados de Abril) viria a celebrar. Para um contexto democrático (dia), outras vozes se fazem ouvir, no desconcerto que o presente faz (re)viver. Jel, na letra, e Vasco Duarte, na música, evocam o tempo dos cravos que trazem ao peito.

Final do Festival RTP da Canção - 2011

     A LUTA É ALEGRIA

Por vezes dás contigo desanimado
Por vezes dás contigo a desconfiar
Por vezes dás contigo sobressaltado
Por vezes dás contigo a desesperar

De noite ou de dia, a luta é alegria
E o povo avança é na rua a gritar

De pouco vale o cinto sempre apertado
De pouco vale andar a lamuriar
De pouco vale um ar sempre carregado
De pouco vale a raiva para te ajudar

De noite ou de dia, a luta é alegria
E o povo avança é na rua a gritar

E traz o pão e traz o queijo e traz o vinho
E vem o velho e vem o novo e o menino
E traz o pão e traz o queijo e traz o vinho
E vem o velho e vem o novo e o menino
Vem celebrar esta situação e vamos cantar contra a reacção
Vem celebrar esta situação e vamos cantar contra a reacção

E traz o pão e traz o queijo e traz o vinho
E vem o velho e vem o novo e o menino
E traz o pão e traz o queijo e traz o vinho
E vem o velho e vem o novo e o menino

Não falta quem te avise «toma cuidado»
Não falta quem te queira mandar calar
Não falta quem te deixe ressabiado
Não falta quem te venda o próprio ar

De noite ou de dia, a luta é alegria
E o povo avança é na rua a gritar

E traz o pão e traz o queijo e traz o vinho
E vem o velho e vem o novo e o menino
E traz o pão e traz o queijo e traz o vinho
E vem o velho e vem o novo e o menino

Vem celebrar esta situação e vamos cantar contra a reacção
Vem celebrar esta situação e vamos cantar contra a reacção
Vem celebrar esta situação e vamos cantar contra a reacção
Vem celebrar esta situação e vamos cantar contra a reacção

E traz o pão e traz o queijo e traz o vinho
E vem o velho e vem o novo e o menino
E traz o pão e traz o queijo e traz o vinho
E vem o velho e vem o novo e o menino
A luta continua


    Não me espanto se, daqui a uns tempos, alguém disser que este ritmo (entre o folclore, a marcha revolucionária e o corridinho de toque popular) foi o de uma canção que inspirou a mudança por muitos desejada (estão lá as figuras do campesinato, do soldado, do revolucionário, de um sugestivo "Zeca Afonso", de uma artista da moda que "dá nas vistas", do metalúrgico); que fez da luta alegria e um convite à acção - e que, para o bem e para o mal, se fará ouvir na Eurovisão.

     Mudar... sem rodar. Porque de rotativismo político também os finais do século XIX se marcaram. E o resultado não foi dos mais famosos para um país que "se perdeu".

sexta-feira, 4 de março de 2011

De um exercício que de duvidoso tem pouco

      É bom discutir as certezas e as incertezas que se tem.

     Desta feita, a dúvida nasce de um exercício e das suspeitas que ele levanta.

    Q: Colega, gostaria que se pronunciasse sobre a seguinte frase, mais o exercício construído para uma turma de 12º ano. Suponho que a resposta correcta seja a c), mas não se trata de uma solução pacífica no meu grupo de trabalho. Podia dar-me conta da sua opinião e da devida justificação? 
        Agradecida.
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FRASE: Descobriu-se recentemente que as células estaminais têm o poder de curar doenças mortais, que são "semente" de tecido e órgãos nobres, que podem dar vida a quem perspectivava sofrimento e morte.


Na frase proposta, os três "que" lá presentes são...
a) completivos os dois primeiros e relativo o segundo.
b) todos relativos.
c) todos completivos.
d) causais os dois primeiros e relativo o último.
___________________________________

      R: Considerando a frase e o exercício facultados, concordo com a solução c). Vejo uma construção apoiada numa enumeração sintáctica, a qual contempla três complementos directos para o verbo 'descobrir'. Esquematicamente, apresentaria os constituintes sintácticos do enunciado da seguinte forma:
    . Descobriu-se recentemente [três coisas]
        a) que as células estaminais têm o poder de curar doenças mortais,
        b) que (as células estaminais) são "semente" de tecido e órgãos nobres,
        c) que (as células estaminais) podem dar vida a quem perspectivava sofrimento e morte.
     Assim, em jeito de conclusão, diria que:
  i) o predicado apresenta três subordinadas completivas (enumeradas, segundo um mecanismo de coordenação assindética);
    ii) as segunda e terceira subordinadas completivas evidenciam um mecanismo de elipse do grupo nominal 'as células estaminais' (que configura o sujeito sintáctico das três subordinadas);
   iii) não existe co-referência entre o segundo 'que' e 'doenças mortais' (as quais, naturalmente, não são 'semente de tecido e órgãos nobres') nem entre o terceiro 'que' e 'semente de tecido e órgãos nobres' (pela incompatibilidade de concordância sintáctica entre singular e plural: '*semente de tecido e órgãos nobres podem dar vida...').
    Espero ter sido esclarecedor na explicitação. A complexidade da frase (com seis orações distintas) e a sua extensão requerem, de facto, um exercício de desmontagem e a consciência de um paralelismo sintáctico visível nas alíneas a) a c).

    Trata-se de um caso que, naturalmente, exige manipulação, treino e uma abordagem progressiva na extensão frásica.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Quando o verbo comanda...

     Voltando ao governo do verbo e dos seus governados.

     As dúvidas persistem, relativamente ao que é modificador ou complemento em determinadas frases.

     Q: Na frase "Os alunos chegaram tarde às aulas", 'tarde' e 'às aulas' são ambos modificadores ou complementos?


    R: Nem uma nem outra hipótese ou, então, uma mistura de ambas. Ou seja, há um modificador e um complemento.
    O ponto de partida é o da consideração da estrutura argumental do verbo 'chegar'. Em termos lógicos, este é um verbo bivalente: selecciona um argumento na posição de sujeito sintáctico, mais outro na de complemento (Alguém / Algo [X] CHEGA a algum sítio [Y]). Independentemente da realização frásica os contemplar ou não, esta é a valência básica seleccionada, a qual satura a dimensão lógico-semântica do verbo em questão, com os papéis semânticos implicados (o agente, por um lado; o alvo ou ponto de destino, por outro).
   Assim, [Y] é configurado por um constituinte na forma de grupo preposicional, com a função de complemento oblíquo (conforme o atestam a interrogação: 'Aonde chegam os alunos? > Às aulas; a pronominalização ou anaforização: 'Os alunos chegam lá / aí' > Às aulas).
   Quanto a 'tarde', trata-se do advérbio que modifica o verbo 'chegar', na função de modificador do predicado. Prova-o não só o facto de não figurar na estrutura argumental mas também o de admitir o teste do pró-verbo 'fazer' (Os alunos chegaram às aulas e fizeram-no tarde).

    E para alguém governar, têm os outros que se deixar subordinar, mesmo que não participem activamente na cena representada. Não é política aquilo de que falo, mas bem que podia ser, no jogo de dependências criado, no teatro composto por protagonistas, actores secundários e meros figurantes.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Camões, grande Camões...

     Há um "tópos" literário cuja ficcionalidade é tão real que faz da vida fonte (mais do que) inspiradora.

       É clássico, com tudo o que isto possa significar.

Hieronymus Bosch, A Nave dos Loucos

ESPARSA

sua ao desconcerto do mundo


    Os bons vi sempre passar
no mundo graves tormentos;
e, para mais m’espantar,
os maus vi sempre nadar
em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
o bem tão mal ordenado,
fui mau, mas fui castigado:
Assi que, só para mim
anda o mundo concertado.


     "Camões, grande Camões", assim o disse Bocage em soneto de cariz autobiográfico, cerca de três séculos depois da escrita camoniana.

     Não é semelhante seu destino ao meu; contudo, no pensamento há grande identidade. Assim o motiva a intemporalidade do mundo (às avessas).

ADD: entre o consistente e o elevado

       Há uma canção de Sérgio Godinho com o título "Pode alguém ser quem não é?"... cada vez a entendo melhor.

     Ao ler uma grelha de avaliação do desempenho docente (ADD), deparei com uns "designados" descritores / evidências que me causaram alguma perplexidade. Ei-los:

  
    Entendo que as duas formulações cimeiras não servem o propósito para que foram produzidas. Falta-lhes luz, claridade, evidência (isto se entender que um descritor de desempenho - para não ser linguagem de moda - se define por um enunciado sintético, preciso e objectivo, indicando o que se espera que o avaliado seja capaz de fazer, no cruzamento de conhecimentos e competências evidenciados em operações de natureza diferenciada, ao nível do saber-fazer, do saber-ser / estar do saber-aprender / formar-se).
    Ora, entre os sinónimos de "consistente", registam-se: sólido, resistente, firme, estável, válido, seguro, coerente (cf. Dicionário de Língua Portuguesa, da Verbo); no mesmo sentido vai o Grande Dicionário da Língua Portuguesa (de Cândido de Figueiredo, publicado pela Bertrand Editora). Acrescenta o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea (da Academia das Ciências de Lisboa) que é a propriedade do que subsiste ou tem duração; que está bem estruturado, que tem uma base bem fundamentada - no fundo, o significado de duradouro previsto no Dicionário Houaiss. Em fonte mais vulgarizada, como o Dicionário de Língua Portuguesa (Porto Editora), o próprio sentido figurado aponta para algo que é credível, constante, estável. Mesmo ao nível do saber popular e coloquial, toma-se tal adjectivo como sendo aquilo que alimenta, que é substancial.
     Torna-se, portanto, dúbio que, num registo de avaliação de desempenho docente, se aponte um 'descritor / evidência', no ponto da realização das actividades lectivas, que inferioriza o 'consistente' ("o docente evidencia consistente conhecimento científico, pedagógico e didáctico inerente à disciplina / área curricular" - patamar 4) face a 'elevado' ("o docente evidencia elevado conhecimento científico, pedagógico e didáctico inerente à disciplina / área curricular" - patamar 5).
   Novamente a consulta de dicionários (na ordem das fontes atrás consideradas) permite concluir que 'elevado' significa aquilo que tem lugar alto, elevação; que é sublime, nobre (isto até me fez lembrar o Peri Hupsous, esse tratado de Pseudo-Longino, descoberto no século XVI, no qual se procurava abordar as origens, as fontes dessa qualidade inefável que é o sublime - princípio tão clássico na abordagem do fenómeno literário); que é superior moral ou intelectualmente (senti a ascese platónica); que tem intensidade, que subiu e atingiu um alto grau; que é forte, excessivo (disto não gostei, por me parecer barroco), subido (não sei até onde, mas por certo não chego lá).
    Em suma, sempre na procura de algum respeito, rigor no sentido das palavras, bem como no que elas reflectem quando de avaliação se trata, deparo com um terreno instável. Devia ser o contrário, até pela necessidade de a avaliação ter de ser o mais transparente possível, para bem dos avaliados e dos próprios avaliadores que necessitam de uma tarefa menos impressiva e pouco clarificada. Qualquer professor entende isto, até pela obrigação e pelo exemplo a dar aos alunos com quem trabalha e avalia; mais ainda, quando está em causa algo que marca um percurso profissional dos seus pares.
    Assim sendo, é de questionar se a pontualidade de um 'elevado' (que possa ser atingido) pode ser preferido relativamente à sistematicidade, à duração implicada no significado de 'consistente'. Voltando ao caso dos alunos, quantos não terão atingido um resultado 'elevado' sem que tenham sido consistentes em resultados posteriores? Não acontecerá o mesmo com professores e com outros profissionais?
     A bem da verdade, é de considerar que um avaliado aprecie bem mais a observação de que desenvolve um trabalho consistente do que a indicação de que teve um desempenho 'elevado' - é, assim, preterido o patamar 5 em favor do 4. Como profissional consciente, atento, preocupado e interessado em avaliar criteriosamente, seria este último patamar (o 4) que gostaria de atingir, sempre na esperança de que não me associassem a um desempenho elevado, o qual significaria que numa, duas, três aulas poderia atingir tal grau (e, possivelmente, não noutras... porque a máquina - que não sou - também falha e avaria); que poderia ser qualificado, no desempenho, de 'sublime', superior moral ou intelectualmente (será esta a elevação que pretendem?) ou mesmo excessivo (eu não queria nada ser assim). De novo, sem qualquer pretensão para tal (a não ser que me achem merecedor disso, o que me honraria) desde já, preferiria o patamar 4. Este garantir-me-ia, pelo menos, que as qualidades seriam duradouras, constantes, credíveis. E que além dos avaliadores, os meus alunos me achariam merecedor de ensinar alguma coisa de uma forma mais contínua e continuada.
     Face ao exposto, e com nova consulta de dicionário, sublinho que matematicamente se diz que algo é consistente quando se apresenta isento de contradição interna (cf. Dicionário de Língua Portuguesa, da Porto Editora). Não é possível entender isto, face ao arrazoado construído. Quando a aprendizagem e a formação são consistentes apontam para uma qualidade que perpassa e até ultrapassa o tempo (que dizer dos velhinhos mestres que tanto nos ensinaram e que nos legaram um saber que a morte não quebrou?). Isso permite construir referenciais. O mesmo não se dirá de um desempenho elevado por si só.
      Apoiado em traços de significado distintos, em critérios heterogéneos, em parâmetros não uniformes, não é evidente (por mais que o descritor se encontre associado a evidências) por que motivo esta grelha de avaliação pretere o 'consistente' ao 'elevado'.
     Conclusão: diz uma expressão popular que a sabedoria da vida está em suportar coisas sem importância (como é o caso desta avaliação de 'faz de conta', proposta por quem quer definitivamente viver de uma imagem pintada com um verniz que estala: a de que tudo se faz, mas sem consistência alguma, e sob a bandeira de uma pretensa qualidade).

     E logo eu tenho que dizer isto, quando sou a favor da avaliação do desempenho docente. Retomo uma expressão do pensamento deste blogue: "luz de fantasia". Resta-me, decididamente, aspirar a mais do que oferece este mundo.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Por uma madrugada (pois quem canta...)

     Por músicas que, na nossa língua, marcaram e se fizeram pela diferença.

     Lembro-me que, pelos nove anos, houve uma canção que me chamou a atenção, ainda com os acordes de um hino à liberdade e à força das palavras e da(s) vontade(s).



        MADRUGADA

Dos que morreram sem saber porquê 
Dos que teimaram em silêncio e frio
Da força nascida no medo
E a raiva à solta manhã cedo
Fazem-se as margens do meu rio.


Das cicatrizes do meu chão antigo
E da memória do meu sangue em fogo
Na escuridão a abrir em cor
Do braço dado e a arma flor
Fazem-se as margens do meu povo

Canta-se a gente que a si mesma se descobre
E acorda vozes, arraiais
Canta-se a terra que a si mesma se devolve
Que o canto assim nunca é demais

Em cada veia o sangue espera a vez
Em cada fala se persegue o dia
E assim se aprendem as marés
Assim se cresce e ganha pé
Rompe a canção que não havia

Acordem luzes nos umbrais que a tarde cega
Acordem vozes, arraiais
Cantem despertos na manhã que a noite entrega
Que o canto assim nunca é demais

Cantem marés por essas praias de sargaços
Acordem vozes, arraiais
Corram descalços rente ao cais, abram abraços
Que o canto assim nunca é demais
O canto assim nunca é demais


     A letra e a música de José Luís Tinoco tornaram-se um incitamento à mudança, à madrugada que 1975 ainda representava e trazia consigo a luz, a felicidade, o canto (mesmo que conservados por um húmus feito de resistência, luta, medo que se quis superado).

     Ao fim de um dia de cansaço(s) e de um desgaste que vai minando tudo e todos, desejo (o tempo de) uma destas madrugadas.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Cesário Verde: tanta poesia para tão curta vida

      Nasceu hoje quem, com 31 anos apenas, desaparecia do real quotidiano que captou com a impressão que deixou.

      De Cesário Verde diz-se que foi poeta realista, naturalista, parnasiano, impressionista, de um romantismo que se redefine e se deixa marcar por tendências finisseculares. Tudo isto terá sido, não se tendo filiado a nenhuma escola literária. Entre a iniciativa, a observação, a criação individual e os moldes estéticos que concorriam no último quartel do século XIX, ganharam a poesia (no conteúdo e na forma) e os poetas que, no século seguinte, acabariam por reconhecer a mestria e a herança do "pintor de palavras" ou do "escritor do real pintado com impressões".


    Cidade, campo, reflexão social, sensações, percepções impressivas, deambulação, evasão e transfiguração são termos que concorrem para a leitura de uma poesia marcada pela extensão do verso, pela narratividade e pelo descritivismo, num sentido ecfrástico da representação real e da reconstrução / refiguração verbal.
        Seja por efeito do sol, da poeira, das emanações seja pela associação a histórias e tempos evocados, os versos de Cesário resistem à doença, à asfixia, à peste; ao retrato humano degradante que se impõe na cidade e se revê no campo, por mais salutar que este último ainda possa apresentar-se aos que o procuram.

       Deambular, evadir, transfigurar... de momento, só se for com a chuva que pinga na alma.

Pelo nascimento de um cativo do amor, da vida e dos sentidos

       A oitenta e quatro anos de um nascimento.

       O nascimento em Lisboa (1927) deu vida a um peregrino do mundo sempre fiel à cidade onde também morreu (1996).
      Outra das fidelidades foi a da escrita, a das letras que usou, trabalhou em várias vertentes (jornalismo, tradução, teatro, romance, poesia). 
      De resto, tudo deixou ou convidou a deixar - "Deixa ficar a flor, a morte na gaveta, o tempo no degrau" -, num experimentado culto à vida, aos sentidos, ao amor (os seus temas validos e aos quais se manteve sedutoramente cativo).


Soneto do Cativo


Se é sem dúvida Amor esta explosão
de tantas sensações contraditórias;
a sórdida mistura das memórias,
tão longe da verdade e da invenção;


o espelho deformante; a profusão
de frases insensatas, incensórias;
a cúmplice partilha nas histórias
do que os outros dirão ou não dirão;


se é sem dúvida Amor a cobardia
de buscar nos lençóis a mais sombria
razão de encantamento e de desprezo;


não há dúvida, Amor, que te não fujo
e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
tenho vivido eternamente preso!
                                                                                    David Mourão-Ferreira, in Obra Poética

     Num poema de amor, num convite à vida e para a vida, nada melhor do que lembrar o nascimento do seu criador.

    Um exemplo intelectual, de homem cuja vontade merece ser lida: "Que fique só da minha vida / um monumento de palavras / mas não de prata nem de cinza / Antes de lava, antes de nada".

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Eu estruturo, tu estruturas, ele estrutura... nós estruturamos

      Na nossa cabeça está o que precisa de ser explicitado; e, se não está, interessa criar o acesso para tal.

Q: Colega, podia explicar-me o que é a estrutura argumental? Qual é a relação com funções sintácticas? Ou tem mais a ver com Semântica?

R: A noção de estrutura argumental prende-se com a natureza relacional, semântica e lógica que certas classes de palavras revelam, nomeadamente a dos verbos (entre outras).
   Trata-se de uma noção que ganha relevo com a reintrodução do significado enquanto elemento fundamental na análise dos fenómenos gramaticais (tendência linguística assinalada desde o último quartel do século XX, mas que teve a sua génese em textos pioneiros que remontam à década de 90 do século XIX - como, por exemplo, os clássicos “Sobre o Significado e a Referência” e “Sobre o Conceito e o Objecto”, de Frege) e que permite construir uma interface entre sintaxe e semântica.
    Ao nível da análise de frases, com a 'estrutura argumental' redefine-se a estrutura básica destas: não se focaliza a relação sintagmática configurada pelas funções do sujeito e do predicado (ou SN + SV), caracterizada por marcas formais, mas a relação semântica mantida entre o verbo e os seus argumentos. Ou seja, o núcleo verbal assume a propriedade de seleccionar um determinado número de argumentos (configurados como sintagmas nominais, adjectivais, adverbiais ou preposicionais) que saturam o significado daquele. A título de exemplo, pode dizer-se que ‘morrer’ requer um argumento (algo / alguém morre); o verbo ‘ouvir’, dois (alguém ouve alguma coisa); e ‘prometer’, três (alguém promete algo a alguém). Acresce a isto o facto de os verbos, segundo a sua natureza semântica (isto é, segundo o tipo de situações denotado: acções, processos ou estados), determinarem os papéis semânticos ou temáticos dos argumentos seleccionados. Genericamente, o verbo de acção ‘prender’ selecciona um agente e um paciente:

(i) A polícia[Ag] prendeu o assaltante.[Pac] 
(ii) O assaltante[Pac] foi preso pela polícia.[Ag] 

   Verbos que denotam processos, como ‘entristecer’, requerem os papéis de experienciador e de instrumento ou força:

(iii) Os pais[Exp] entristeciam com a pouca sorte dos filhos.[Inst] 
(iv) A pouca sorte dos filhos[Inst] entristecia os pais.[Exp]
      Pelos exemplos dados, é possível verificar como um mesmo esquema semântico (agente / paciente, em i e ii; experienciador / instrumento, em iii e iv) pode dar lugar a formas de organização sintáctica distintas, nas quais os argumentos e os papéis semânticos associados desempenham funções sintácticas diferentes (ex.: o 'agente' ora aparece como sujeito sintáctico, em i, ora é configurado como complemento agente da passiva, em ii; o 'paciente' assume quer a posição de complemento directo, em i, quer a de sujeito sintáctico, em ii; o 'experienciador' é sujeito sintáctico em iii, mas complemento directo em iv, enquanto o 'instrumento' toma a posição de complemento oblíquo em iii e a de sujeito em iv). 
    Resumidamente e focalizando o que há de comum, conclui-se que a sintaxe em interface com a semântica encara o verbo como elemento central, nuclear da frase; responsável pela distribuição de papéis temáticos ou semânticos, bem como pela constituição dos lugares vazios que completam o seu sentido na frase. Sobre o esquema semântico construído irão actuar as regras da sintaxe, dando a forma de função sintáctica aos argumentos seleccionados.
    Nesta perspectiva, como que se constrói um primado universal semântico sobre o sintáctico, o que, aliás, se compagina com as noções de enquadramento, de quadros de referência, de conhecimentos de mundo, de imagens, de esquemas de organização mental, todos eles prévios às actividades desenvolvidas para compreender, interpretar, identificar e analisar usos de língua; o mesmo pode acontecer para se etiquetar os constituintes da estrutura frásica.
    Daí, por exemplo, a vantagem de se trabalhar exercícios apoiados na formulação de instruções gramaticais que coloquem, junto a cada verbo, as palavras ou os grupos que fazem parte da sua valência significativa (lugares vazios ou argumentos); que reconheçam a distinção entre grupos de palavras seleccionados pelos verbos (os designados ‘complementos’) e outros que se revelam opcionais (os modificadores); que distingam diferentes significados para uma mesma forma verbal, segundo a estrutura argumental considerada. Veja-se o caso do verbo ‘tratar’, significando, respectivamente, submeter ou proceder, numa valência tripla (ex.: alguém1 tratar algo / alguém2 de determinada forma3); abordar ou expor (ex.: alguém1 tratar algo2) e, ainda, cuidar (ex.: alguém1 tratar alguém2), numa valência dupla.
      Vai nesta linha a proposta de sistematização seguidamente apresentada:

in LP - 9º ano (Preparação para o Exame Nacional)
Porto, Edições Asa, págs. 124-125

    Esta inter-relação da sintaxe-semântica resulta num contributo fundamental de conversão da reflexão gramatical tanto numa estratégia geral de abordagem relativa à organização do pensamento lógico como num meio de adquirir estratégias orientadoras para a comunicação verbal.


      Eis o exemplo de um conceito que creio ser estruturante para o trabalho da gramática, mas que não necessita de ser explicitado (em termos de metalinguagem) na sala de aula. A estrutura e o mecanismo lógico implicados são, contudo, operacionalmente válidos e estrategicamente lógicos tanto no ensino como na aprendizagem da(s) língua(s).

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Na idade dos porquês!

    Já lá vão uns anos... quase vinte...

     Na altura (corria o ano de 1992), a voz da escocesa Annie Lennox fazia o furor das discotecas e da rádio, em ritmo de 'slow' ou balada.

Vídeo oficial de "Why"

      WHY

    How many times do I have to try to tell you
   That I'm sorry for the things I've done
   

    But when I start to try to tell you
   That's when you have to tell me
   Hey, this kind of trouble's only just begun
    I tell myself too many times
   Why don't you ever learn to keep your big mouth shut
   That's why it hurts so bad to hear the words
   That keep on falling from your mouth
   Falling from your mouth
   Falling from your mouth
   Tell me...
   Why
   Why
   I may be mad
   I may be blind
   I may be viciously unkind
   But I can still read what you're thinking
   
   And I've heard it said too many times
   That you'd be better off
   Besides...
   Why can't you see this boat is sinking
   Let's go down to the water's edge
   And we can cast away those doubts
   Some things are better left unsaid
   But they still turn me inside out
   Turning inside out turning inside out
   Tell me...
    Why... Tell me...
    Why...

    This is the book I never read
    These are the words I never said
    This is the path I'll never tread
    These are the dreams I'll dream instead
    This is the joy that's seldom spread
    These are the tears...
    The tears we shed
    This is the fear
    This is the dread
    These are the contents of my head
    And these are the years that we have spent
    And this is what they represent
    And this is how I feel
    Do you know how I feel?
    'Cause I don't think you know how I feel
    I don't think you know what I feel
    I don't think you know what I feel
    You don't know what I feel


     Hoje letra e melodia fazem parte de uma memória que alguém me fez (re)lembrar. Seja em versão discográfica e vídeo (com todas as técnicas de apuro) seja ao vivo (com a emoção do que é cantado e por quem canta), esta é das mais bonitas melodias de sempre:

Versão ao vivo, com tradução da letra da canção "Why"

    Um sussurro que, de tão intenso, se ajusta aos sentimentos que cada um só (não) tem: "You don't know what I feel!". 

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Da arte e dos artistas para haver sempre cor...

       Porque há contextos de formação nos quais se vão colocando dúvidas pertinentes...

      Felizmente, há momentos em que a procura de formação vai correspondendo a necessidades que não são formatadas senão pela vontade de saber mais.

    Q: Gostava que me explicasse um pouco do que entende por função sintáctica interna e, nomeadamente, me esclarecesse por que motivo em 'artista plástico' estamos perante o complemento de nome com o adjectivo 'plástico'.

     R:  Uma função sintáctica interna corresponde, em termos de hierarquia e dependência, a um encaixe de uma função no interior de uma outra superordenada. Por exemplo, um grupo nominal pode apresentar uma expansão (que dele depende), ora determinando-o ora especificando-o. Tal expansão assumirá uma função interna relativamente à que é exercida pelo grupo nominal e/ou pelo seu núcleo (nome) em questão.
    Considere-se o caso de grupo nominal (i), entretanto expandido por quantificação e/ou determinação (ii), bem como por especificação / restrição (iii), acabando por se constituit como segmento sintáctico de uma frase complexa (iv):

(i) Os jovens
(ii) Todos os nossos jovens
(iii) Todos os nossos jovens, que revelam uma atitude trabalhadora,...
(iv) Todos os nossos jovens, que revelam uma atitude trabalhadora, aspiram a uma proposta de emprego.

     O grupo em questão na sua configuração expandida (iv) desempenha a função sintáctica de [sujeito] (v), tendo este último, no seu interior, uma outra função: a de <modificador não restritivo> (vi).

(v) [Todos os nossos jovens, que revelam uma atitude trabalhadora,] aspiram a uma pro-
      posta de emprego.
(vi) [Todos os nossos jovens <, que revelam uma atitude trabalhadora,>] aspiram a uma 
      proposta de emprego.

      Uma outra função interna pode ser detectada no grupo preposicional 'a uma proposta de emprego', que funciona como complemento oblíquo do verbo 'aspirar' - em (vi). Este é acompanhado por uma preposição ('a') mais um grupo nominal ('uma proposta de emprego') cujo núcleo é 'proposta'. Por este último ser um nome derivado de verbo transitivo (propor > proposta), segue-se-lhe um complemento de nome ('de emprego') - uma função sintáctica interna (dependente) do nome configurado no [complemento oblíquo]. À semelhança do verbo 'propor', que seleciona complementos (alguém propõe alguma coisa), também o nome dele derivado faz a mesma seleção:

(vii) Todos os nossos jovens, que revelam uma atitude trabalhadora, aspiram [a uma proposta de emprego].

    Tive já a oportunidade de referir uma tipologia com os nomes que seleccionam complementos de nome, e 'proposta' cabe nela (tratando-se de um nome deverbal, isto é, formado a partir de verbo transitivo eventivo).
     O caso de 'artista plástico' (sinónimo de 'artista de pintura') cabe na situação dos nomes derivados de outros (artista < arte; porteiro < porta), estando ligados a profissões. A expansão destes nomes derivados (não os derivantes) com a sequência 'de+ N' ou adjectivo equivalente faz-se na posição de complemento (cf. Gramática da Língua Portuguesa, coordenada por Mira Mateus, no capítulo "Categorias sintácticas" da autoria de Ana Maria Brito - Lisboa, Editorial Caminho, página 331). Daí a consideração deste caso numa sistematização que pode encontrar no manual Com Textos - 10º ano (Asa Editores), encontrando-se sublinhados os complementos de nome devidos:


    ... vale a pena partilhar mais umas reflexões acerca da língua e do modo como ela se encontra disposta nas suas funções sintácticas.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Um ideal em verso popular

      Palavras sábias de um homem humilde já aqui lembrado.

      Há 112 anos nascia quem assim escreveu: António Aleixo.

        A ninguém faltava o pão,
      se este dever se cumprisse:
      - ganharmos em relação
      com o que se produzisse.


in "Novas Quadras" de
Este livro que vos deixo, 5ª ed., Loulé,
ed. de Vitalino Martins Aleixo, 1979, pág. 46

      Hoje seria um bom princípio aplicar esta lição...
      ontem foi, amanhã será... uma boa orientação,
      composta de vital emoção e necessária razão.

      Um ideal de mundo mais justo (e possível) à espera do tempo que o Homem (ainda) não vi(ve)u.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

'Auto da Barca do Inferno' encenado por António Feio

      Uma manhã no Teatro do Campo Alegre, com um texto vicentino de grande actualidade.

     Numa adaptação de Patrícia Castanheira e com a produção de Cultural Kids, Gil Vicente regressa, em palco, a um público que bem o conhece: alunos de 9º ano que lêem o Auto da Barca do Inferno (1517).
Imagem alusiva à corte vicentina
     Um texto de passado é tornado bem presente, captando-se a atenção dos jovens pelo recurso às novas tecnologias. Com elas se funde a representação, numa exploração da noção de perspectiva, de captação de diferentes planos - inclusive o dos bastidores, dados a conhecer numa espécie de visita virtual guiada por um diálogo ficcionado entre o dramaturgo e o filho, Luís Vicente.
   Dos conceitos associados à abordagem do texto dramá-tico, do percurso biobibliográfico vicentino, dos adereços, dos ensaios, dos actores e das actrizes, tudo se fala numa espécie de introdução à peça.
   Depois, o texto em acção: do quadro inicial do Diabo e do companheiro ao final com os Quatro Cavaleiros, sucedem-se as várias personagens julgadas após a morte. Fidalgo, Onzeneiro, Joane, Sapateiro... todos desfilam num balanço de vida a castigar (muitos) ou a premiar (poucos, e alguns de forma politicamente correcta).
      Interessante é o enquadramento que antecede o julgamento no juízo final: a passagem da vida para morte. Aos olhos do espectador uma simples movimentação de estrados, jogos de música e de luz permitem visionar a transição entre o que motivou a morte e o julgamento que se impõe na presença ora do diabo (alegoria do mal) ora do anjo (alegoria do bem).


Imagem alusiva à vida terrena do Onzeneiro
(colhendo a onzena)
  
Imagem alusiva à morte do Onzeneiro  
  Uns simples estrados, dispostos diferentemente para cada quadro, permitem ainda a sugestão do cais, a separação entre o plano da vida terrena (inferior) e o da vida após a morte. Sem barcas, está lá o rio (símbolo da passagem) e os espaços laterais cénicos destinados a cada um dos avaliadores.
    O cómico existe (no cumprimento dessa máxima vicentina do 'ridendo castigat mores'), sem que se caia no excesso, no ridículo, no inusitado.



      O aproveitamento pedagógico-didáctico da representação é evidente, sem que se coloque em desprimor o texto de autor e o espírito moralizador que a ele preside.

     Um momento bem passado, pela qualidade de representação e da encenação de António Feio (que vem ao nosso encontro num registo vídeo que testemunha a sua vontade de, ainda, 'mudar uma cena'). Um óptimo exemplo de equilíbrio entre a (re)criação artística e a fidelidade ao espírito intemporal da obra. Mesmo quando se assume que Gil Vicente é o 'pai do teatro português' (asserção questionável, tendo em conta as realizações teatrais que o antecederam), o mal torna-se menor, dada a qualidade literária que este autor quinhentista conseguiu impor aos textos produzidos para uma corte que não deixava de ser alvo de algumas das suas críticas.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Um hífen que se vai...

     Entre muitas generalizações críticas ("já não há tracinhos"... ao que chega um hífen) e algumas questões dúbias, nada como introduzir faseadamente algumas práticas.
        
     Na discussão do Acordo Ortográfico, chegou a vez do hífen.

Q: Agora já não há tracinho no 'hei-de'? Mas porquê?

R: Segundo o acordo, nem no antigo 'hei-de' nem nas restantes formas que 'haver de' o apresentavam ('hás-de', há-de', 'hão-de'). 
   Na verdade, considerando a construção de 'haver de + Verbo [infinitivo]' (uma das mais produtivas para dar expressão ao futuro intencional, aquele que dá conta do firme propósito de concretizar / realizar uma situação), a forma infinitiva não apresentava o hífen, o mesmo sucedendo com a forma conjugada na primeira e na segunda pessoas do plural ('havemos de + V'; 'haveis de + V', respectivamente).
   Neste sentido, não me repugna o segundo ponto da base XVII:
____________________________

«BASE XVII: DO HÍFEN NA ÊNCLISE, NA TMESE E COM O VERBO HAVER
1Emprega-se o hífen na ênclise (ex.: amá-lo, dá-se, deixa-o, partir-lhe) e na tmese (ex.: amá-lo-ei, enviar-lhe-emos)
2Não se emprega o hífen nas ligações da preposição 'de' às formas monossilábicas do presente do indicativo do verbo haver: hei de, hás de, hão de, etc.»

____________________________

   Não se depreende daqui, como já ouvi também dizer, que o futuro "já não tem tracinho". Basta pensar no contexto da tmese (elemento gramatical intercalado ou encaixado numa forma verbal) para se verificar a falsidade da conclusão: 
. comprarei o livro > comprá-lo-ei; 
. venderemos o livro ao cliente> vender-lho-emos.

    O caso do 'haver de + V' é, na verdade, um exemplo que me oferece sinais de consenso, por mais estranho que graficamente ele possa parecer a quem muito se habituou a hifenizá-lo.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Honra à vida e a um poema... de um aquariano.

       George Agostinho Baptista da Silva ou, simplesmente, Agostinho da Silva.

       Nascido a 13 de Fevereiro de 1906, no Porto, veio a morrer 88 anos depois, a 3 de Abril de 1994, em Lisboa. Um percurso de vida feito da Filologia, da História e da Filosofia que o tornaram reconhecido em vários pontos da língua portuguesa e não só.
    Tido como um dos grandes filósofos portugueses, Agostinho da Silva deixou toda uma obra e um pensamento que interessa redescobrir pelo humanismo, pela humanidade e pelos valores fraternalmente partilhados nos pensamentos:

As liberdades essenciais são três: 
liberdade de cultura, liberdade de organização social, liberdade económica. 
Pela liberdade de cultura, o homem poderá desenvolver ao máximo 
o seu espírito crítico e criador; 
ninguém lhe fechará nenhum domínio, 
ninguém impedirá que transmita aos outros o que tiver aprendido ou pensado. 
Pela liberdade de organização social, o homem intervém 
no arranjo da sua vida em sociedade, 
administrando e guiando, em sistemas cada vez mais perfeitos 
à medida que a sua cultura se for alargando;
 para o bom governante, cada cidadão não é uma cabeça de rebanho; 
é como que o aluno de uma escola de humanidade: 
tem de se educar para o melhor dos regimes, através dos regimes possíveis. 
Pela liberdade económica, o homem assegura o necessário 
para que o seu espírito se liberte de preocupações materiais e possa dedicar-se 
ao que existe de mais belo e de mais amplo; 
nenhum homem deve ser explorado por outro homem; 
ninguém deve, pela posse dos meios de produção e de transporte, que permitem explorar, 
pôr em perigo a sua liberdade de Espírito ou a liberdade de Espírito dos outros. 
No Reino Divino, na organização humana mais perfeita, 
não haverá nenhuma restrição de cultura, 
nenhuma coacção de governo, 
nenhuma propriedade. 

A tudo isto se poderá chegar gradualmente e pelo esforço fraterno de todos. 

in Textos e Ensaios Filosóficos (2005)

       Fica ainda um testemunho do pensador, numa entrevista televisiva com Alice Cruz (realizada por 1990), sobre a solidão (ou o diálogo da pessoa consigo mesma, na esteira de Vergílio Ferreira), a tolerância (ou melhor, a aceitação e a captação), o trabalho (que contradiz o pessoano 'Elogio da Preguiça') mais a poesia (que sai e, depois, mais nada).



       E o demais... histórias.

      É pela notoriedade e pela simplicidade de homens como este que interessa (re)construir referenciais que têm vindo a perder-se. Caso para dizer, e tudo o mais são histórias.