quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Uma lição de vida: 'Sui Caedere - uma Vida, um Erro'

     Uma tarde chuvosa, tristonha, feita de nuvens ensombradas e de gélido sopro...

     No âmbito das actividades do Clube de Filosofia da minha escola, tem um grande número de alunos assistido, no Auditório Municipal de Gondomar, à representação da peça Sui Caedere - uma Vida, um Erro, uma produção dramática de Beatriz Soares e João Ferreira.

 

     A qualidade do texto, o empenho e esforço da representação, a adequação do fundo musical e do enquadramento luminotécnico, a sugestão da encenação, mais o espaço de debate, de reflexão e partilha de valores, de leituras de sinais e de consciencialização do vivido (seja no palco seja no cruzamento deste com a vida) formam um todo humanizador, pedagógico e artístico. Recomendável e a reconhecer.
    "Viver a cultura de forma inclusiva e transformadora" é um dos objectivos da jovem associação In-Skené - gTag. Assim o têm feito; assim o fizeram hoje (no que deram a ver, no que partilharam, no que fizeram ver) e certamente o farão amanhã e noutros tempos futuros.
     Com jovens assim, pelo exemplo que dão, é possível acreditar na vida - porque "a vida vale por si só".
      Por isso, vou voltar a assistir a esta lição sobre a vida.

(Aparte: era isto que devias ter visto e discutido connosco, S; 
foi isto que nos fizeste lembrar, S; 
isto e algo mais não soubemos ler em ti, S).

     ... para um dia de sol sentido na companhia de alunos, de colegas e de um grupo de jovens que tem o teatro na vida e a vida no teatro.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

No tempo dos 'se'

     Prevejo que vou andar uns tempos a tratar o 'se'... no tanto que ele tem de camaleónico.

     Para já, a questão, a dúvida é de ordem sintáctica.

     Q: Vítor, bom dia! Mais uma consulta...
  Na frase "A raposa interessou-SE pelo queijo" o 'se' destacado tem alguma função sintáctica?

    R: As construções do tipo ‘V-se’ apresentam uma multiplicidade de situações: realizações com verbos intrinsecamente pronominais (nos quais maioritariamente é impossível retirar o ‘-se’); realizações reflexivas (nas quais existe identidade correferencial entre o sujeito sintáctico e o complemento directo) e reflexivas de posse; realizações recíprocas; realizações associadas à redução da estrutura argumental do verbo; realizações passivas.
    O caso proposto integro-o nas realizações com verbos intrinsecamente pronominais - com ‘se’ inerente -, (como é o caso de ‘alegrar-se por / com’, ‘atrever-se a’, despedir-se de ‘, ‘divertir-se com’, interessar-se em / por’, ‘zangar-se com’); ou seja, sem função sintáctica na frase (contrariamente aos casos de ‘-se’ reflexo, recíproco ou passivo).
     Assim, a frase teria a configuração sintáctica de um
          a) sujeito (‘A raposa’);
      b) predicado (‘interessou-se pelo queijo’) com um complemento oblíquo (‘pelo queijo’), tomando como núcleo um verbo transitivo indirecto (‘interessar-se’).

     E mais haverá para dizer, quando outros exemplos chegarem...

terça-feira, 30 de novembro de 2010

I know not what tomorrow will bring

      Dizem que há 75 anos foi assim que Pessoa se despediu desta vida, escrevendo a lápis. Uma vida renascida para cada futuro leitor.

      Três quartos de século separam-nos da morte de Fernando Pessoa, anunciada, apenas a 3 de Dezembro, no periódico Diário de Notícias, nos seguintes termos:

Fernando Pessoa, Pintura a óleo do polaco Jacob Porat
     MORREU FERNANDO PESSOA
    Grande poeta de Portugal

     Este foi o título de uma notícia, saída a público um dia depois do seu enterro.
   Declarada a morte no dia 30 de Novembro de 1935, o poeta é sepultado no jazigo da avó (Cemitério dos Prazeres), no dia 2 de Dezembro.
   É do dia 3 a notícia de que se dará conta, embora haja uma curta, publicada no próprio dia do enterro, de O Comércio do Porto, com o seguinte teor:

     "Realizou-se, hoje, o funeral do poeta Fernando Pessoa, ontem falecido, autor insigne do Orfeu, cuja morte causou dolorosa impressão nos meios intelectuais. De espírito crítico admirável, Fernando Pessoa contava 47 anos de idade. Deixa uma extensa obra quási toda inédita e na sua maioria nas línguas portuguesa e inglesa."

       Bem mais extenso é o registo do Diário de Notícias:




in Maria José de Lencastre, 
Fernando Pessoa - Uma Fotobiografia,  
Imprensa Nacional Casa da Moeda e Centro de Estudos Pessoanos, pp. 310-311

     Esta a notícia necrológica.
     Mas, para o reconhecimento do escritor e, acima de tudo do homem, acrescenta-se um episódio de vida, com a verdade, a moralidade e o valor que lhe quiserem dar:
    
     "... ocorre-me que, numa ocasião, entrando eu num eléctrico (recordo-me bem, era da carreira da Estrela), deparo com Fernando Pessoa que me pergunta de chofre: «Já notou uma coisa, ó Pascoaes? Há escritores de quem toda a gente fala e ninguém lê, e outros de quem ninguém fala e toda a gente lê. E destas duas espécies, qual, em seu entender, tem mais valor?» Respondi que aqueles de quem toda a gente fala e ninguém lê, e Fernando Pessoa rematou: «é também a minha opinião».
Teixeira de Pascoaes, entrevista a O Primeiro de Janeiro, 24-5-1950

     Pequenos registos para um (até dois... três) dos grandes da língua e da literatura portuguesas no mundo.

Papisa... carta de Tarot ou algo mais?

      Na base da História ou de uma lenda, o filme está para quem o quiser ver.

      A segunda carta do Tarot, nos arcanos maiores (logo a seguir à do Mago), é a da Papisa. Com vestes pontifícias, aparece como símbolo da sabedoria, do conhecimento, da intuição, do crescimento, da gestação, da nutrição da alma e do corpo.
      De tudo isto se compõe a personagem fílmica inspirada na obra mais recente de Donna Woolfolk Cross (1996): o romance Pope Joan. Cento e trinta anos antes, The Papess Joanne trouxe fama mundial ao escritor Emmanuel Rhoides... e a sua excomunhão pela Igreja Ortodoxa Grega.

     
    Entre os que apontam a impossibilidade de eleição da Papisa (no século IX) e os que a cruzam com influências de histórias da ortodoxia (e da heterodoxia), não deixa de haver quem busque o fundo histórico que, como qualquer visão da História contemporânea, não deixa de considerar a construção narrativa, a ficção,a versão possível, com o foco nos preteridos ou com a visão não oficial dos factos. Por que razão uma igreja só pode ser encabeçada pelo masculino?
     Trata-se de um drama histórico, co-produção inglesa e alemã realizada por Sönke Wortmann em 2010. Na sede de conhecimento, Johanna von Ingelheim guarda, durante muito tempo, um segredo - o que lhe dará acesso ao saber, ao poder e a um destino tão trágico que será apagado da História (por verdadeira ou por ficcional que seja a narrativa do passado).
    Afinal, a explicação de Dan Brown em O Código Da Vinci, para o afastamento das mulheres do poder eclesiástico, tem o seu traço de verosimilhança ou de verdade... quem sabe!
    
     Porque na História e nas lendas não deixou de haver mulheres que (também) fizeram a diferença.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Porque há homens que fazem a diferença

     Uma melodia para se tirar o chapéu a Charlie Chaplin.

      Primeiro, a versão original (1936) para a banda sonora de Modern Times:


    Depois, ouvir a melodia com a letra e o título acrescentados por John Turner e Geoffrey Parsons (1954), numa versão que Natalie Cole viria a recriar a partir do modelo paterno: o do grande Nat King Cole.

 "Smile" na interpretação de Nat King Cole

 SMILE (even though your heart is breaking)

Smile, though your heart is aching
Smile, even though it's breaking
When there are clouds in the sky
You'll get by...

If you smile
Through your fear and sorrow
Smile and maybe tomorrow
You'll see the sun come shining through
For you

Light up your face with gladness
Hide every trace of sadness
Although a tear may be ever so near
That's the time you must keep on trying
Smile, what's the use of crying?
You'll find that life is still worthwhile
If you'll just... smile

That's the time you must keep on trying
Smile, what's the use of crying
You'll find that life is still worthwhile
If you'll just smile.

Natalie Cole num espetáculo em New Jersey (2014)
     A versão de Natalie Cole tem o soul e o rythm and blues mais o registo de jazz necessários para a plenitude de uma música composta por aquele que mais famoso ficou pelo que fez rir (e chorar) na mudez cinematográfica - Charlie Chaplin, o mais conhecido Charlot, um cómico que, tal como os palhaços, fez (sor)rir também na hora da dor. Mais um sinal de que os contrastes se comple(men)tam.

     Uma canção para um tempo frio e crítico, que aspira ao sorriso para espantar a tristeza, na ânsia de um futuro melhor. São estes, também, os 'tempos modernos'.

domingo, 28 de novembro de 2010

Entre o sagrado e o profano...

    No meio da sagração, do respeito e da fé, nem só as árvores têm vida. A língua também.

    Entre o que haja a respeitar, uma das questões a destacar é a da correcção da língua, no que às convenções ortográficas diz respeito - particularmente as relativas à acentuação.
     Pode o autor da escrita na "placa dourada" (que nada tem de ouro) estar a pensar desfazer um ditongo que, na verdade, não existe. Nem sempre duas vogais juntas constituem ditongo (duas vogais constitutivas de uma sílaba, produzidas numa só emissão sonora). É o caso. Trata-se de um hiato (sequência de duas vogais pertencentes a sílabas distintas).
     E se as rainhas não podem ser "coroadas" com um acento gráfico, o mesmo sucede com as campainhas (do latim 'campanīna-') , as tainhas (do latim 'tagenĭa-'), as fuinhas (do francês 'fouine' ou as grainhas (do latim 'granu-'+inha); ou mesmo todas as palavras terminadas em '-inha' (por serem graves, em termos de acento fónico).

     Sem ser um lugar sagrado, há que respeitar o que as gramáticas e as convenções ortográficas ditam. Não sei se será uma questão de fé, mas o certo é que a língua é para o uso de cada um de nós. Mesmo tendo vida, há que "alimentá-la" com o que a faz ainda reconhecível aos olhos de qualquer falante, ouvinte, leitor. Prova de que não se pode escrever apenas pelo que se diz / ouve.

sábado, 27 de novembro de 2010

Predicativo do sujeito?!... De novo!

    Funções sintácticas, a quanto obrigas (convenhamos umas mais do que outras).

   Q: Num contexto de formação, foi-me indicado que o adjectivo 'feliz' funciona como predicativo do sujeito em 'Ela vive feliz'. Qual a razão ou razões para tal?

   R: Tenho alguma dificuldade em tomar ‘feliz’, à partida e sem qualquer contextualização ou indicação textual prévia, como predicativo do sujeito na frase indicada.
       Primeiro, o verbo ‘viver’ não é sintáctica nem tipicamente considerado um verbo de ligação ou copulativo (condição habitualmente requerida para a presença de um predicativo do sujeito). Depois, entre as valências e as estruturas argumentais típicas implicadas nas realizações de ‘viver’, este verbo assume-se como de realização intransitiva (Alguém vive – VIVER [x]) ou transitiva (Alguém viver em algum sítio / Alguém viver de algo / Alguém viver alguma coisa – VIVER [x, em y] ou VIVER [x, de y] ou, ainda, VIVER [x, y]). Na frase proposta, vejo a leitura de uma realização intransitiva, na qual ‘feliz’ se assume como um modificador de predicado (equiparável a ‘viver feliz / triste / contente / com entusiasmo / à larga / em crise', entre outras possibilidades).
      A aproximação de ‘feliz’ a predicativo do sujeito só a poderia ver em contextos muito particulares, de derivação semântica (nada regulares nem sistemáticos), que tomassem ‘viver’ aspectualmente como um verbo de estado e não como um evento - uma hipótese a ganhar algum sentido numa realização de ‘viver’ enquanto sinónima dos verbos copulativos ‘ser/estar’ (e muito circunscrita a enunciados que obedecessem à configuração do verbo em enunciados genéricos, no presente do indicativo).

   Questão comum a outras dúvidas já abordadas, o predicativo do sujeito não deixa de estar no top. Ficaremos por aqui? Como diria o cantor, "venham mais cinco..." (mas de preferência com outras funções).

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Outra vez o (des)acordo... nos dias da semana

     A propósito do Acordo Ortográfico, eis a novidade que nunca o foi.

   Q: Ouvi dizer que o Acordo Ortográfico já admite a escrita dos dias da semana com letra minúscula. Acha que devo ensinar os meus alunos a escrever dessa forma?

    R: Bem, começo por dizer que não sou eu nem as minhas opiniões que devem orientar o trabalho de um professor com os seus alunos. Limito-me a partilhar ideias que não foram, não são nem nunca serão prescritivas. Aconselho, quando muito, a leitura de referenciais de acção como opção a seguir, mais do que intuições ou usos cuja origem é algo obscura.

Na Antiguidade Romana identificavam-se os dias da semana pelo conjunto de estrelas:
Sol, Lua, Marte, Mercúrio, Júpiter, Vénus e Terra.

         No que toca aos dias da semana, creio que sempre se deve ter ensinado a sua grafia com minúscula (a não ser no contexto habitual para todas as palavras que abrem uma frase com maiúscula). Não se trata de uma questão nova introduzida pelo Acordo Ortográfico, pois qualquer boa gramática do Português (a propósito de orientações gráficas) apresentaria a grafia de 'domingo, segunda-feira, terça-feira, quarta-feira...'.
         Em termos de História da Língua, é um dado que, no nosso idioma, se marcou a influência do Cristianismo por vários meios, um deles pela designação dos dias da semana. Creio ser a única língua, entre as românicas, que apresenta a denominação de alguns dias numa fusão resultante entre um encontro comercial (feira) e o horário das missas realizadas em determinadas regiões: 'feria secunda, feria tertia, feria quarta, feria quinta, feria sexta'.
     Voltando ao ponto do Acordo Ortográfico, aqui não há, de facto, novidade. Esta, genericamente, residirá apenas ao nível dos meses do ano (ex.: janeiro, fevereiro, março, abril... até dezembro) ou dos pontos cardeais e colaterais (ex.: norte, sul, este, oeste, sudeste, és-sueste), exceptuando neste último caso as abreviaturas correspondentes ou as denominações genéricas das regiões geográficas, para as quais se mantém a maiúscula (ex.: N, S, E, O / Desta vez vou de férias para o Norte). 
       
     É tempo de nos convertermos ao que já o Cristianismo ditava, na laicização, na secularidade e na mundanalidade das feiras (vem de longe, por certo, este gosto por 'centros comerciais') cruzadas com a humildade das missas. Tudo muito minúsculo.

Do que vive uma nação?

     As palavras são de quem nasceu há 165 anos, o fundador do "Distrito de Évora" (1867) e o conferencista que proclamou o "Realismo como nova expressão da arte" (1871).

     Reencontro-me com o seguinte excerto do seu pensamento:

      "Uma nação vive, próspera, é respeitada, não pelo seu corpo diplomático, não pelo seu aparato de secretarias, não pelas recepções oficiais, não pelos banquetes cerimoniosos de camarilhas: isto nada vale, nada constrói, nada sustenta; isto faz reduzir as comendas e assoalhar o pano das fardas - mais nada. Uma nação vale pelos seus sábios, pelas suas escolas, pelos seus génios, pela sua literatura, pelos seus exploradores científicos, pelos seus artistas. Hoje, a superioridade é de quem mais pensa; antigamente era de quem mais podia: ensaiavam-se então os músculos como já se ensaiam as ideias. "
Eça de Queirós, in "Distrito de Évora"

      Convenhamos que o pensamento é actual (algumas soluções para a contenção da despesa?) e orientador para a formação e a educação (não as do faz de conta nem as das 'novas' oportunidades, por cumprir e apoiadas em aparências) que conjugam o saber com o poder e o saber fazer.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Entre sermões e pequenas narrativas (ou entre Vieira e Leiria)

    Entre peixes que são metáfora dos homens e vícios / virtudes neles alegoricamente representados, Padre António Vieira fez passar no Sermão de Santo António uma mensagem aos homens do seu tempo (e não só).

      Mas nem só de sermões vive o Homem.
    Há narrativas bem mais pequenas que, com maior ou menor adaptação face ao original, não deixam de fazer ver algo mais do que simples frutos...

    
    Mário-Henrique Leiria assim o escreveu, dizem, com algum 'nonsense' e com o legado surrealista nos Contos do Gin-Tonic; Mário Viegas assim o contou e deu a conhecer, na irreverência e com o olhar matreiro de todos os que se superam na ingenuidade e no imediatismo das palavras ditas... e que ficam vivas.

    Entre a letra e a voz, pode o Homem ver os sinais do(s) Tempo(s), particularmente no dia de HOJE. Assim o queira (para não dizer o típico 'Amen', mais adequado aos sermões vieirianos) neste "Rifão Quotidiano".

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Locução sim... quanto ao resto...

       Com dúvidas, há sempre hipótese de ir mais longe.

       A partir da leitura e da dúvida instalada, impôs-se a questão.

     Q: Incomodo-o para tirar uma dúvida que surgiu ao trabalhar o Guião de Implementação do Programa - Conhecimento Explícito da Língua (pág. 53). Prende-se com o esquema seguinte e a análise dos constituintes da frase dada:

    
    Sendo "depois de" uma locução adverbial, por que razão "depois das aulas" é um grupo preposicional?

      R:  A classificação que atribui a "Depois de" (locução adverbial) não está correcta. Trata-se de uma locução preposicional. Daí a consideração dela num "grupo preposicional".
     Será de relembrar que, na tradição gramatical luso-brasileira, uma locução adverbial forma-se pela associação 'Preposição+Advérbio OU Nome OU Adjectivo' (exemplos: em cima, por perto / com certeza, por conta, de propósito / de novo, em breve, por atacado), contrariamente às locuções preposicionais. Estas últimas são formadas por 'Advérbio OU Nome OU Adjectivo+Preposição' (exemplo: dentro de, além de, depois de). Ou seja, é a última palavra da locução que determina a designação e a natureza sintagmática.
     Como 'depois de' é formada por Advérbio+Preposição, há, portanto, uma locução preposicional.

    Caso para dizer que, na questão em causa, "tradition is still what it used to be".

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Para quando o renascer das cinzas?

       Heranças barrocas estas... que nos (re)lembram o ciclo natural da vida (com a morte).

A ave Benu, para os antigos egípcios, é uma das representações
do mito da Fénix

      A Fénix ou Phoenicoperus, como era conhecida na época da Antiguidade grega, é uma figura mitológica associada a uma ave semelhante a uma águia, de plumagem pluricromática em tons de avermelhado, alaranjado e amarelo incandescente.
    Caracterizada como fabulosa, tinha uma longa vida que se consumia por acção do fogo, a cada quinhentos / mil anos, num ninho preparado para o efeito por ela mesma. Daí muitos também a designarem de 'Pássaro de Fogo'. A partir dela, mais propriamente das respectivas cinzas, renascia, até sete vezes sete, numa outra ave mais jovem. Assim se construiu o mito e o símbolo dos ciclos periódicos, da ressurreição na Eternidade.    
     Pode verificar-se esta ideia de início, término e reinício na vida de homens, de nações, de planetas num cumprimento sucessivo de ciclos (tais como, períodos de dificuldades e posteriores transformações). E assim se aspira ao desejo de, após a vivência de situações-limite, se conseguir "renascer" para uma nova fase, dita mais feliz.

     Diante da perspectiva da morte, esta ave era considerada um símbolo de esperança, de persistência e de transformação face a tudo o que existe; um sinal da vitória, de sublimação da vida e de superação do que a limitava ou do que a fazia findar.

Entre as novidades do Vaticano e as lembranças em Roma

      No dia em que se anuncia alguma mudança (será?) no pensamento do Papa, lembrei-me da minha passagem pelo Vaticano (e de como tive de esquecer que a Igreja é para os humildes, pobres e necessitados).

     Cerca de dois meses depois do meu regresso, lá por finais de Outubro, uma amiga dava-me a conhecer como uma das suas leituras se cruzava com as impressões do meu relato sobre os dias vividos em Roma.
     Aqui segue o excerto, por ela facultado (o que lhe agradeço) e da autoria de Possidónio Cachapa, no livro intitulado Rio da Glória (Oficina do Livro - 2006):


     "Já viram um turista de sandálias e ar deslumbrado, a percorrer Roma a pé? A extasiar-se com o Capitólio, a estremecer de compaixão diante do Coliseu, enquanto se desvia de uma horda bárbara de japoneses? Então, para quê contar esses primeiros dias de Mário? Para quê falar da forma como ele entrou em quantas igrejas pôde? Não para rezar, porque as sentia desertadas da presença de Deus, que só imaginava nos desertos ou voando sobre as águas, mas para se comover diante da beleza dos santos barrocos, das portas lacadas a madrepérola, onde o seu rosto sem atributos se espelhava melhorado. Sim, até à praça Navona ele foi… A olhar, curioso, grupos de austríacos que comiam gelados de chocolate ou pannacotta, um fotógrafo que pedia ao assistente que movesse a perna da modelo para mais perto do estômago, como se ela fosse um porco morto ou um cacho de peras sobre uma jarra tombada. Uma mulher velha, um chapéu de agência turística na cabeça, descansava na beira da fonte, enquanto o neto, de costas, marcava as gajas, com os pés imersos na água que parecia azul-clara. As estátuas de Bernini revolviam-se imóveis, melancólicas de representar o mesmo papel até que o tempo as levasse. Pombos cinzentos sujavam de excrementos o rosa estriado dos mármores. Tudo lhe interessava e o entusiasmava, não só por pertença, mas também por isso. Ser e não ser do tempo que lhe calhava. Estar e não estar com os que pisavam as pedras como meio de entretenimento. Sentado na piazza, na tarde morna, Mário estava a li e não estava; se estendesse as mãos, poderia ou não agarrar a beira de uma fonte ou roçar o corpo apressado de um estudante em férias.
    Gostou sobretudo da cor dos prédios, tão diferente dos brancos ou da decadência dos azulejos modernos a que se tinha habituado. Relaxava-se nos ocres, nos laranjas, em cores que vinham da terra. Davam-lhe segurança, como se não fosse preciso ir a mais lado nenhum. Calculou que fosse por isso que os guias de viagem insistissem em chamar à cidade “eterna”. Ir onde, se o passado se mantinha agarrado a nós como lapa?
      Nos anos que se seguiram, Mário visitou muitas vezes a cidade vizinha do estado que o acolhia, sem nunca se cansar dela. Pensava nas multidões que a cobriam como inundações periódicas, que aconteciam ao longo dos séculos e que recuavam, deixando sedimentos que alimentavam e alegravam a vida dos restantes seres. Talvez tenha sido isso o que o impediu de partir mais cedo."

FOTOS: 
cimo: Monte Capitólio (Campidoglio) ou Capitolino, uma das famosas sete colinas de Roma; 
segunda: Coliseu de Roma;
terceira: Piazza Navona, o salão de visitas de Roma;
fundo: Interior da Basílica de S. Pedro (Roma), altar central da autoria de Bernini.

      Hoje, três meses depois, o Vaticano (por razões distintas) regressa aos meus ouvidos e à minha memória.
  
     De facto, qualquer visitante de Roma e do Vaticano identifica-se com o que foi lido... de como nos sentimos parte de uma história, das raízes de uma cultura e de uma civilização de que somos uma pequena peça. Está ali a nossa herança, o peso do tempo a que pertencemos (passado e presente), o muito que somos (culturamente) na pequenez (física) que sentimos.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

T3+1 (ou a procura de abrigo em noite chuvosa)

     Chuva intensa, sacudir de casacos, sacos de plástico nos pés, necessidade de um tecto... À primeira vista, parece uma coisa, mas é outra... Coisas de ficção misturada com realidade.

    Tê três mais um é o título de um espectáculo levado à cena, no Teatro Carlos Alberto, com textos de Anton Tchékhov: O Canto do Cisne (I e II), mais Os Malefícios do Tabaco.

     Na interpretação de Nuno Cardoso, três monólogos desenvolvem-se aos olhos de uma plateia que se move, que ganha consciência da sua presença. Em O Canto do Cisne, tal acontece pela afirmação da sua ausência, pela desconstrução de um espaço ocupado pelo público, tomado como vazio, enquanto lugar de ficção (assim se convida o espectador a avaliar-se no seu papel (também artístico, de teatro). Tudo na voz de um actor ou do homem que teatraliza, se finge fora do jogo teatral. Com Os Malefícios do Tabaco, quem assiste é interpelado a participar numa situação cómica (de alguém que se apresenta como conferencista de um tema que não domina) transformada em tragicomédia humana (a de quem não está à altura do que é previsto, que tudo faz para [se] manter e sobreviver, até que cai no desejo de se libertar... na vontade [sem sucesso] de tudo abandonar).
   
     Se "O Poeta é um fingidor / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente", o actor é um simulador; e ilude tão completamente que cria a aparente exposição ao que vive realmente: o abandono, a passagem do tempo, a velhice que se impõe.
Actor Nuno Cardoso
(fotografias de João Tuna)


    Para quem não fuma, e ainda que já tenha feito algumas conferências (falando do que, talvez, ainda pouco vá sabendo), resta-me mais O Canto do Cisne, que finda com "Tragam a carruagem! Tragam a carruagem!" - de preferência, a que conduza a alma à sua arte ("Enquanto houver arte, enquanto houver teatro, não há velhice!") ou o corpo e o espírito em viagem.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Qual é o (des)acordo?

       Porque há quem muito fale... fico eu com dúvida!

     É de âmbito paremiológico o 'Quem muito fala pouco acerta'. Mas, como ando em época de muitas dúvidas, lá vou à procura do que julgava saber. E releio:

    com (´)
  passado de
  verbos em -AR

   (louvar) louvámos, (amar) amámos,
   (gostar) gostámos, (achar) achámos

   Obs: Em variantes diferentes do português europeu padrão, pode suprimir-se o acento.

in página 41 (com remissão para a Base IX do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa
[pp. 84-89, com as notas explicativas 5.1, 5.2.2, 5.2.4, 5.3, 5.4.1, 5.4.2 mais 5.4.3 nas páginas 125-134])

   Triste notícia esta para quem se queria ver livre do acento gráfico de "passamos / passámos", de "estudamos / estudámos", "trabalhamos" / trabalhámos". É que, no (des)acordo ortográfico presente, muito já se quer pôr (inclusive o que não tem). Ora, no que à distintividade diz respeito, é preciso algum acordo, para que não se instaure o 'diz que disse' ou o 'estou a dizer porque alguém me disse'. Respectivamente, distinga-se o presente do pretérito perfeito do indicativo, nos verbos da primeira declinação ('-ar') conjugados na primeira pessoa do plural - assim se lê na publicação da Imprensa Nacional casa da Moeda e numa publicação de um dos autores e defensores do Acordo Ortográfico. Creio que são estas as melhores referências. Tudo o mais são opiniões.

   É por isso que eu leio (a bem da variedade do Português do continente europeu), sem deixar de procurar entender o Português falado noutros continentes (a bem da comunicação e da comunhão desejada entre os da mesma língua, respeitadores do que ela tem na sua evolução e variação).

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Da morte em tempos de crise.

    Há quem diga que se trata de uma "questão de previdência e planeamento!"

    Não se tratasse de uma situação séria e grave, a tragicomédia não deixa de ser inevitável. Ainda mais quando o tempo é de crise e até na morte (ou na sua manifestação pública) há que poupar em qualquer coisa.


    Que dizer de uma lápide que pode sugerir, por inusitadas razões, um inesperado sobrenome de família; por temporalidade diversa, uma invulgar cronologia de mortes; por contraste, que "Angelina Já Falecida" se distingue de "João" sem mais (diferente de falecido ou ainda não falecido?! Ainda vivo?!); por limitações de memória, uma invulgar caracterização desta última; por extensão da vida, um sinal da(s) crise(s) dos tempos?

    Caso para dizer: poucas graças com a morte e nada de graças à morte... porque nem esta é de graça.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Dúvida: Predicativo do sujeito?!...?!

   Regresso às dúvidas centradas em funções sintácticas.

  Q: Diga-me, por favor, como posso classificar 'existir vida em Marte' na frase seguinte: 'É possível existir vida em Marte'? Também é predicativo do sujeito, na continuidade de´'possível'? Há quem me diga que também é o complemento do adjectivo.

  R: A frase que me apresenta configura um caso de inversão no Português relativamente à ordem sintáctica típica do Sujeito-Predicado.
    Assim, para o predicado 'É possível' (constituído pelo núcleo de um verbo copulativo mais o predicativo do sujeito 'possível'), há um sujeito - 'Existir vida em Marte' -, o qual se apresenta sob a forma de uma oração não finita (infinitiva).
    Não há hipótese de o considerar complemento do adjectivo, porque esta função sintáctica comparece tipicamente em casos de adjectivos relacionáveis com verbos transitivos (exemplo: Admirar[-se com] X > admirada com X; Preocupar-se com X > preocupado com X; Interessar-se com / por Y > interessado com /por y). 'Possível' não entra, portanto, na categoria-padrão destes adjectivos que seleccionam um complemento (enquanto função interna).

    Esta questão das funções sintácticas internas é uma complexidade que se torna bem mais complicada quando as centrais e hierarquicamente dominantes já não são adequadamente identificadas. Prova de que as subcategorias devem aparecer depois de dominadas as categorias. Por etapas... por etapas... Assim pode ser que as raízes dêem lugar a ramificações mais sustentadas.

sábado, 13 de novembro de 2010

De novo Deborah... mais o grupo

      A imagem e a voz de Deborah Dyer (a também conhecida Skin) impõem-se a solo ou em grupo (Skunk Anansie).

    Desta feita é "Over the Love" (do CD 'Wonderlustre', o último). I wonder what it is.

   
    OVER THE LOVE

    You pretend the spell has broken
    goods were spoilt from the start
    no complaints I release my claim on your heart


    Now I can forget you cos' I'm over the love
    Karma can protect you cos' I'm over the fun
    I needed the shame, I needed the pain
    I need to feel nothing for you
    Now I can forget you cos' I'm done

    You can bite, the fist that feeds you
    lose your fight with some scars
    you defend spilling blood and rain let it ride... right
    (throw it all away).

   
    Está a apetecer-me ir ao Coliseu do Porto. Porquê? Who knows...


segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Vulcão Merapi - tão longe e tão perto...

    A erupção do vulcão em Merapi, na Indonésia, activou-me memórias muito recentes.

    A força destruidora da natureza está aí, viva, activa, desde 26 de Outubro. Ontem, mais uma erupção.

    São muitos os feridos; há corpos resgatados que se encontram carbonizados; há problemas respiratórios e queimaduras entre os que sobrevivem a mais uma catástrofe na Indonésia.
    Na outra extremidade do mundo, são e salvo, só tenho uma pequeníssima percepção do medo. E mesmo essa é tão distanciada quanto a de um turista que se viu perante uma possibilidade de ameaça: a de um vulcão que, a todo o momento, pode ainda expelir esse familiar manto de fogo, que os séculos acabaram por transformar em material para a construção de muros na cidade.
    Lembro-me de Pompeia, dos vestígios que, por ora, alimentam a fantasia dos turistas que a visitam; que fazem do presente memória de um passado trágica e ameaçadoramente repetível.


Vesúvio (ao fundo) dominando o Templo de Apolo, em Pompeia.
    Lá ainda se sente o peso sufocante de uma morte que dizimou os cerca de 5 mil habitantes da antiga cidade italiana, situada a sueste de Nápoles. Corria o ano de 79 d. C. e o Vesúvio vomitava a lava e os gases mortíferos. O resto viria com o passar das horas: chuvas de pedra e de gás, névoas de fumo e escuridão, ondas de fogo e cinza aquecida.
  Tempo de incineração, petrificação, de imobilização na posição de morte - a que perdurou até aos dias de hoje.

    Passados mais de mil e novecentos anos, as memórias lá estão a descoberto, graças às escavações que se têm vindo a fazer desde há cerca de dois séculos e meio - vestígios de uma cidade romana classificada Património Mundial pela UNESCO, na zona designada por Áreas Arqueológicas de Pompeia, Herculanum e Torre Annunziata.

sábado, 6 de novembro de 2010

Canto poético (para o optimismo): No teu poema

      Reencontro com um poema, uma voz e uma melodia feitos para seduzir.

     Pouco há para dizer quando o que é conhecido, de repente, faz diferença.
    Embalado pela melodia, dando atenção às palavras e apreciando a interpretação, a sedução acontece. Desvela-se a beleza do que sempre esteve ao pé e na memória, na composição e na letra de José Luís Tinoco.


      NO TEU POEMA 

No teu poema
Existe um verso em branco e sem medida
Um corpo que respira, um céu aberto
Janela debruçada para a vida

No teu poema
Existe a dor calada lá no fundo
O passo da coragem em casa escura
E, aberta, uma varanda para o mundo.

Existe a noite
O riso e a voz refeita à luz do dia
A festa da Senhora da Agonia
E o cansaço
Do corpo que adormece em cama fria.

Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.

No teu poema
Existe o grito e o eco da metralha
A dor que sei de cor mas não recito
E os sonos inquietos de quem falha.

No teu poema
Existe um canto, chão alentejano
A rua e o pregão de uma varina
E um barco assoprado a todo o pano.

Existe um rio
O canto em vozes juntas, vozes certas
Canção de uma só letra
E um só destino a embarcar
No cais da nova nau das descobertas.

Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.

No teu poema
Existe a esperança acesa atrás do muro
Existe tudo o mais que ainda escapa
E um verso em branco à espera de futuro.


    Interpretações como as de Carlos do Carmo, Simone de Oliveira, Dulce Pontes ou Mafalda Arnauth são a prova de como há palavras que, em diferentes vozes, não perdem qualquer beleza ou nota de optimismo nos versos (também feitos dos seus reversos). 

     Em tempos críticos, o canto poético convoca alguma da magia que se perde... e a esperança de "um verso em branco à espera do futuro".   

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Complementos, modificadores... ou nem isso!

     De volta às questões da sintaxe, mais propriamente das funções sintácticas.

     Entre várias dúvidas, uma parece ser a base para toda uma implicação de raciocínios consequentes (da função sintáctica de um constituinte à classificação sintáctica de um verbo).

     Q: Em 'A sopa sabe-me bem', qual é a função sintáctica de 'bem'? Complemento oblíquo? Modificador?

       R: O caso de ‘bem’ em ‘saber bem’ é um caso complexo para se analisar sintacticamente, pois o enunciado a trabalhar requer uma plataforma de âmbito semântico e pragmático. Na verdade, ‘saber’ não pode ser encarado, neste caso, como um verbo cujos traços de predicação se associam a um estado cognitivo (com a estrutura argumental correspondente à configuração do tipo ‘X saber Y’, como é usual nas ocorrências mais comuns).
     ‘Saber bem / mal’ entra no domínio das lexias ou das expressões fixas - objecto de um processo de lexicalização ou deriva semântica, com perda das regularidades de construção, nas quais cabem as didacticamente chamadas expressões idiomáticas e as colocações. Trata-se, assim, de uma ocorrência de 'saber' enquanto expressão de percepção psicológica / apreciativa / avaliativa - equiparável a verbos como ‘gostar’, ‘apreciar’ e os antónimos 'detestar', 'desapreciar'.
      É na perspectiva deste estado de coisas que tem cabimento proceder à análise da frase ‘A sopa sabe-me bem’. Para um sujeito (semanticamente tomado com o papel de objecto – ‘a sopa’) há um predicado constituído por uma expressão fixa (‘sabe-me bem’) que inclui um complemento indirecto (semanticamente tomado como o experienciador da apreciação e configurado pelo dativo - ‘me’ -, o ‘dativo ethicus’ que se encontra pragmaticamente associado ao locutor do enunciado). Trata-se de uma construção equiparada a 'A sopa agrada-me'.

     Este sentido integrador do processo de análise é o que pode ser depreendido da formulação de algumas orientações didácticas para a construção de uma gramática pedagógica (que, apoiada no domínio da sintaxe, não deixa de relevar um enfoque articulado com os usos da língua). Promove-se, então, uma redefinição no ensino da sintaxe, com dois tipos de implicação: abordar este domínio linguístico pela consideração dos significados a que as estruturas sintácticas respondem (claramente, orientando-se para uma dimensão mais comunicativa); encarar as actividades de natureza sintáctica mais como manipulação de enunciados do que mera identificação e análise das formas ou relações gramaticais.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O Outro (Português e Brasil de mãos dadas)

       As palavras são de um português; a música de uma brasileira. Em comum a língua e o Homem.

      Pessoa dizia, de Mário de Sá-Carneiro, que não teve biografia, só génio; que viveu o que disse. O companheiro pessoano no Modernismo, que se autocaracterizou como um "castrado de alma", explorou o tema da angústia até ao final da vida, à qual pôs término com apenas 26 anos. 
      A ideia do Eu e do Outro tornou-se tema para expressão do desconhecimento face à representação de si mesmo; da aspiração à diferença do ser na existência; da partilha angustiada e entediada "do que está ao pé".


    Eu não sou eu nem sou o outro,
    Sou qualquer coisa de intermédio:
    Pilar da ponte de tédio
    Que vai de mim para o Outro.
Lisboa, Fevereiro de 1914

    Quatro versos para um narcisismo sacrificado a ponto de, tal como na expressão de Plauto - em Báquides (IV, 7-18) -, morrer jovem o que os deuses amam. Não tinha de necessariamente ser assim.
    

sábado, 16 de outubro de 2010

120 anos de uma vida poética

    A ter existido, o criador assim o viu: "toda a emoção que não dou nem a mim nem à minha vida.» (in 'Cartas de Fernando Pessoa')

      Álvaro de Campos, o engenheiro naval (por Glasgow) propenso ao triunfalismo dos motores e da tecnologia, nasceu em Tavira, no dia 15 de Outubro de 1890. Surgido impetuosamente "Num jacto, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda", muito do que é se revê na 'Ode Triunfal', esse exemplo poético feito da euforia e da força que culminam num sono, num cansaço e numa avaria impostos pelos excessos e pela exaltação heróica da máquina.

Foto de cartaz na Casa de Álvaro de Campos (Tavira)

   Ao heterónimo que quis "Sentir tudo de todas as maneiras", Pessoa não deixou de dar a oportunidade da busca incessante do Absoluto e da Verdade. Do registo finissecular e decadente, do vanguardismo futurista e sensacionista à angústia existencial, Campos viveu "de tudo em tudo" - entre a vitalidade transbordante e torrencial não deixou e experienciar a angústia própria de quem viveu todos os prazeres.

    Assim se cumpre mais um dia, um ano, um tempo "em que festejavam o dia dos meus anos!..."

sábado, 9 de outubro de 2010

Que desassossego!

    Entre o Livro do Desassossego, de Bernardo Soares, e o Filme do Desassossego, de João Botelho, há uma janela de vidro com a cara de Pessoa reflectida.

    Depois de assistir ao filme, no Teatro Nacional de S. João, consciencializei-me de que fui ao 'teatro' ver 'cinema' - um exemplo da possível confluência na exploração de movimentos, expressões e sentidos estéticos partilhados na Arte.
    Desassossego foi a palavra de ordem no balanço final: pela sucessão fragmentária de imagens a espelhar o registo e o estilo do livro de Bernardo Soares (desse ser que, não existindo, deixou obra); pela abordagem a uma interarte (dança, música, cinema, teatro, literatura, fotografia, ...), a um entrecruzamento artístico inspirado a partir do intertexto e intratexto pessoano ortonímico e heteronímico; pelo devaneio que constituiu todo o intervalo de tempo entre a cena inicial e a final, num bar, onde Pessoa se encontra (numa sugestão dessa desafiante ambiguidade que persiste entre Fernando Pessoa e o duplo Bernardo Soares, entre a ortonímia e heteronímia pessoanas); pela identidade e actualidade que as geniais reflexões de Bernardo Soares mantêm face à existência humana (nomeadamente à do homem moderno, cuja identidade está contingencialmente marcada pela alteridade); pela evocação fílmica da consciência e da inconsciência, do sensível e do inteligível pessoanos, a ponto de estes serem visibilizados no dialogismo dos discursos reflexivos.


     Se, como é citado no filme, a Literatura é a arte que casa com o pensamento, este não deixa de se alimentar do que toda uma herança cultural lhe oferece; do que as experiências vividas permitem reconhecer. Quanto ao sonho, há que libertá-lo do enleio que a vida às vezes (nos) apresenta.

    Entre o tédio, a angústia, a inquietação, tanto rasgo de lucidez chega a ser um desassossego; um filme feito do fragmentarismo e da profundidade de um discurso introspectivo não provoca desassossego menor.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Entre Tchékhov e Saramago: a vontade de demissão.

   Há pensamentos cuja coincidência e oportunidade chegam a ser perturbadoras.

      Há cerca de quinze dias, ri-me da representação feita da personagem de um professor a gritar em pleno teatro "Eu demito-me! Eu demito-me". Riso intrigante para um outro professor com vontade de fazer o mesmo num outro palco: o da vida.
      Há doze anos, neste mesmo dia, sentia orgulho por o Português tanto ser falado no mundo, em virtude da atribuição do Nobel da Literatura a José Saramago. Na altura, já tinha lido O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984), Memorial do Convento (1982), A Jangada de Pedra (1986), Deste Mundo e do Outro (1971), Todos os Nomes (1997) e O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991) - precisamente nesta ordem -, reconhecendo o embalo oralizante dos romances e o estilo criativo na escrita; o jogo cúmplice, irónico e denunciador das desigualdades e fragilidades humanas criado com o leitor; a reflexão humanista reflectida numa relação da arte de pensar com o posicionamento ético que aspira a um ideal social que coloca o Homem no centro. A todo o tempo, estes eram ingredientes saboreados e sublinhados em segmentos e pensamentos colhidos no que lia.
      Há minutos, revendo alguns dos versos de Os Poemas Possíveis (1966), parei numa pequena composição que, no momento, muito me diz. Agora, não me rio; porém, não deixei de relembrar o riso e como, em 'A Gaivota' de Tchékhov, o grito do professor espelhava uma vontade dominada pelo mal-estar do momento.

        Demissão


               Este mundo não presta, venha outro.
               Já por tempo de mais aqui andamos
               A fingir de razões suficientes.
               Sejamos cães do cão: sabemos tudo
               De morder os mais fracos, se mandamos,
               E de lamber as mãos, se dependentes.

                                                                                                        José Saramago

         Mordido que me sinto, espero que não me venham lamber as mãos.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Nobel da Literatura: Mario Vargas Llosa

   O nome, familiar, fez-me lembrar um (re)encontro feliz.
   
   Anunciado o peruano Mario Vargas Llosa como o premiado com o Nobel da Literatura deste ano, voltei a pegar livro que li do autor, há já uns bons pares de anos: Pantaleão e as visitadoras (1973).
    Mais recentemente, no ano lectivo 2008/2009, o reencontro fez-se graças a um contrato de leitura apresentado por um aluno numa das minhas aulas de 10º ano.
    A obra, que figura na listagem do Ministério da Educação para alunos do ensino secundário,  foi considerada numa espécie de jogo de sorte e de azar; numa aproximação e descoberta ao autor e à sua obra. Ainda que houvesse a oportunidade de redefinir o contrato, o aluno achou por bem prosseguir. Deve ter encontrado qualquer coisa que o manteve fiel à sorte recebida.

    A história centra-se na personagem Pantaleão Pantoja (capitão recém-promovido do exército), responsável pela criação sigilosa de um serviço de prostitutas para as Forças Armadas do Peru localizadas na selva amazónica. Mudando-se para Iquitos, Pantaleão mantém-se afastado dos restantes militares, usa trajes civis e nada contar à mãe nem à mulher. A discreta missão transforma-se na maior empresa de prostituição do país, alterando completamente a vida local e a do próprio capitão (quando este é visitado pela bela e insinuante Colombiana). Rendido à paixão e ao desejo que sente, Pantaleão vê na sua 'visitadora' a própria força do desejo, da vida amazona selvagem.
     No contraste entre a selva e a cidade (mais propriamente a hipocrisia de uma sociedade convencional e puritana, representada na personagem da mulher oficial de Pantaleão), Colombiana torna-se metáfora do desejo e da volúpia livres de qualquer forma de puritanismo; a selva sem pudores contra a cidade pudica, casta e hipócrita. Assim se atinge o registo da farsa para uma época, para os seus costumes.

    Entre o social e o natural: o velho conflito romântico europeu revê-se, em língua hispânica, num contexto sul-americano, no percurso de um militar que se vê derrotado "na (humana) guerra do amor".

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Uma gaivota voou... sobre um lago.

    Numa encenação de Nuno Cardoso, 'A Gaivota' (de Anton Tchékhov) passou pelo Teatro Nacional de São João (como se prova pelas fotografias de João Tuna).

    Num palco molhado, simbologia de reflexo e de fluidez, a agitação das águas retoma sempre o ponto de inércia, pela lacustre limitação e estagna-ção impostas pelo chão dos homens (qual escritor que busca "novas for-mas" e constata a rotina e o conformismo trazidos pelo tempo).
   No jogo dos contrastes que se comple(men)tam, a vida impõe-se na ténue fronteira entre o que é ilusão, ficção; desilusão, realidade. E no palco da vida surge aquilo a que todos assistem: desencontros de amor, antinomias do velho e do novo, do que flui e do que permanece, do campo e da cidade, da crise e do sonho, do 'eu' e do 'outro' que connosco anda (feito do posto, do posicionamento assumido tal qual cadeira que se arrasta para que nos possamos apoiar, sentar, acomodar).
    Da arte da escrita e do teatro, fica a imagem da vocação: a da entrega ao acto, na consciência de como há que vencer as dificuldades, os fracassos para que se possa obter a força interior que cada um assume da forma que melhor pode ou quer. Onde uns vêem a fama e celebridade desejadas, outros apenas encontram o trabalho que têm (e para o qual precisam de uma inspiração); onde uns buscam o que de insólito, novo e diferente há na arte, outros reconhecem o que esta tem de já consagrado; onde uns cumprem o papel que representam (com maior ou menor crença ou fé), outros questionam-se.
    E a gaivota voa, a gaivota crocita.
   O homem pode matá-la, pode matar-se.
   A ave pode morrer, mas a mulher que a encarna ainda foge, por mais que o passado a marque. Falta saber se o lago será suficientemente grande para o voo que quer dar.

    Tchékhov, como te entendo neste desassossego! Desde há um século, (re)escreve-se e (re)formula-se a nota de decadentismo, de angústia, de simbolismo, de um existencialismo antecipado. No jogo de desigualdades, no qual uns descem à dor, à perda e ao sofrimento (que abatem o ser humano), outros preferem a ilusão, deixando-se ficar por memórias de um passado que, não se querendo revisto, se impõe num presente apresentado como longe de qualquer mal. E a vida surge qual palco, qual cenário composto à medida dos anseios nele depositados.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

De um poeta cuja poesia tem arte de música

    Cento e quarenta e três anos depois de ter vindo ao mundo (1867-1926).

     De Camilo Pessanha ainda pouco se disse, além dos seus dados biográficos e da vivência errante com que muitos poetas se fazem (ou deles são feitos ou, ainda, que dizem deles ser feitos).
     No cruzamento de referências com Verlaine ("de la musique avant toute chose"), pela musicalidade; com Baudelaire mais Mallarmé, pelo simbolismo poético; com Pessoa e os do Orpheu, que tanto o admiraram e quiseram divulgar, fica um compositor de versos, sons, palavras e símbolos à espera do que o leitor encontre nas imagens evocadas.

           Imagens que passais pela retina
           Dos meus olhos, porque não vos fixais?
           Que passais como a água cristalina
           Por uma fonte para nunca mais!...

           Ou para o lago escuro onde termina
           Vosso curso, silente de juncais,
           E o vago medo angustioso domina,
           - Porque ides sem mim, não me levais?

           Sem vós o que são os meus olhos abertos?
           - O espelho inútil, meus olhos pagãos!
           Aridez de sucessivos desertos...

           Fica sequer, sombra das minhas mãos,
           Flexão casual de meus dedos incertos,
           - Estranha sombra em movimentos vãos.

in Clepsidra (1920)

    Um tempo para lembrar o soneto que mais me impressionou nos tempos dessa adolescência que teimava chegar à maioridade. Passagem, tempo que flui congregados em imagens de água, de olhos, de sombra, de espelhos em que o 'eu' se dissipa e que, a cada instante, se revê num relógio de água feito de transitoriedade.