segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Modo sem '-mente'; '-mente' sem modo

    Questões, dúvidas, saber(es) que o tempo não deixou resolver...

    Q: Antes da TLEBS, dizia que 'felizmente' era um advérbio de modo. Porque é que agora tem de ser um advérbio de predicado? Ou é de frase?

    R: A dúvida que coloca é bastante complexa, por vários pontos que estão e/ou parecem estar implicados na formulação. Neste sentido, procurarei abordá-los de modo faseado (ou faseadamente).
    Para começar, tenho a indicar que não é a TLEBS que pode estar na base do referencial terminológico para a prática lectiva, mas, sim, um sucedâneo decorrente da revisão científica produzida pelos Professores João Costa e Vítor Aguiar e Silva (doravante designado Dicionário Terminológico ou DT).
   De seguida, temo que possa estar associada à questão uma generalização que interessa desfazer: nem todos os advérbios terminados em '-mente' são de modo (o caso de 'recentemente', 'frequentemente' que são advérbios de natureza temporal-aspectual; 'somente', 'unicamente', para advérbios de focalização / restrição; 'possivelmente', 'provavelmente', para advérbios modais; 'primeiramente', 'seguidamente', 'finalmente', para advérbios que exprimem a ordenação / sequencialização e funcionam como conectores); são-no aqueles que admitem a paráfrase que construí no primeiro parágrafo ('de modo faseado' > faseadamente).
    No caso de 'felizmente', é verdade que pode ser aplicada a paráfrase 'de modo feliz > felizmente'; contudo, tal é possível num número algo reduzido de frases - do tipo "Na entrevista, ele correspondeu felizmente aos desafios colocados" (o que admite a classificação de advérbio de modo). Em termos de critério sintáctico, este é um caso de advérbio de predicado que assume a função de modificador.
     Com muito mais frequência se utiliza 'felizmente' como advérbio de frase (revelador do posicionamento do falante face ao enunciado que produz). A propósito do título do texto dramático de Luís de Sttau Monteiro, Felizmente há luar!, costumo mostrar aos alunos que a paráfrase já não funciona e que a classificação de advérbio de modo se revela algo inadequada; por esta razão, estou perante um advérbio que se orienta para o falante e para a atitude, a apreciação (a modalidade) reveladas no enunciado. Na frase anteriormente exemplificada, a simples colocação de vírgulas aponta já para uma categorização distinta do advérbio. Com "Na entrevista, ele correspondeu, felizmente, aos desafios colocados", a representação entonacional da frase aponta bem mais para uma questão de modalidade (de posicionamento do falante) do que para o modo como 'ele' (sujeito do enunciado) correspondeu aos desafios; assim, a leitura orienta-se para o que é um advérbio de frase, neste caso encaixado no meio da frase, mas que admitiria posição inicial ou final - o que já não sucederia com a leitura do advérbio de predicado.
      O mesmo sucede, por exemplo, com 'naturalmente': entre "Ele sobreviveu naturalmente" (isto é, de modo natural; em contraste com o modo que implica qualquer intervenção não natural) e "Naturalmente, ele sobreviveu / Ele sobreviveu, naturalmente" (isto é, dentro do que é expectável pelo falante), há diferenças que se prendem com vários critérios distintivos (nomeadamente,  a posição do advérbio no predicado / na frase, a pontuação) e que fazem com que o primeiro enunciado contemple um advérbio de modo. O mesmo não sucede com o segundo.
Um dos contributos para o estudo do advérbio em Português


    ... mas que já foi(foram) objecto de referência neste espaço virtual (que não sei se tem alguma coisa a ver com virtude!).

sábado, 15 de janeiro de 2011

Actos, objectivos e força... a propósito de fala

     A língua tem destas coisas: nem tudo o que parece é; e o que é depende de muito do que ela sozinha não tem.

     Q: Olá, Vítor. Estou com uma dúvida em relação a alguns exercícios de pragmática. Em relação aos actos de fala (tipologia dos actos ilocutórios), se tivermos uma frase do tipo "Fecha a janela, por favor", o objectivo ilocutório é levar o outro a realizar uma acção e a força ilocutória é a de um pedido. E se a frase for "É a revolução do 25 de Abril" ou "Declaro aberta a sessão"? 

    R: A propósito do exemplo "Fecha a janela, por favor", pode tratar-se de um enunciado cujo objectivo se prende com o facto de levar o alocutário (destinatário do locutor) a realizar um acto verbal ou não verbal (neste caso, não verbal dominantemente). Trata-se, por isso, de um acto ilocutório directivo. Como este tipo de actos se marca por diferentes graus em termos da relação locutor-alocutário, da autoridade exercida e ou da função comunicativa (caso se trate de uma ordem, de um pedido, de uma sugestão, de um conselho,...), a força ilocutória acaba por variar e se evidenciar conforme a conjugação de todos os dados de análise disponíveis. No caso, e em abstracto, a fórmula de cortesia 'por favor' tende a anular o grau máximo de exercício de influência sobre o alocutário, da força ilocutória pretendida. Tal faz com que pareça tratar-se de um pedido (e não de uma ordem). Todavia, há aqui muitos outros factores contextuais a considerar. Por exemplo, o tom de voz, a caracterização do próprio locutor e o tipo de poder que exerce: alguém muito irritado ou num registo próximo da ironia pode formular o enunciado em causa como se de uma ordem se tratasse.
     Já com "Declaro aberta a sessão", o acto que está em causa é o que se designa por "acto ilocutório declarativo" (ou simplesmente 'Declarações', para Searle); ou seja, o locutor é assumido como alguém que tem o poder institucional para legitimar a transformação de uma situação (antes a sessão não estava aberta; a partir do momento em que o locutor profere o enunciado, a sessão passa a estar aberta). É o que acontece no caso, por exemplo, de o locutor ser juiz, presidente de uma assembleia, professor - todos têm poder institucional para mudar um determinado estado de coisas. É ainda o que se sucede com um padre quando, num casamento, diz "Declaro-vos marido e mulher". A força ilocutória prende-se com o estatuto legal e legitimado do locutor e o objectivo relaciona-se com a correspondência que se intenta ver imediatamente estabelecida entre o que é dito e a situação criada por aquilo que é dito, dado o poder de quem o diz. De novo, há aqui todo um conjunto de condicionantes contextuais a considerar para a classificação  dos actos de fala (o que muito se prende com a abordagem que a pragmática introduz ao nível da análise de enunciados / discursos).
       Neste pressuposto, "É a revolução do 25 de Abril" parece-me um enunciado que, para ser caracterizado em termos de acto de fala, precisa de ser contextualizado: quem o diz, como o diz, quando o diz, a quem o diz. Sem isso, é algo difícil de concluir. Pode tratar-se de um acto de fala assertivo, pensando num comunicador que vai falar sobre o tema "revolução" e aborda aquela que, em Portugal, permite a passagem do estado de ditadura marcelista para o período democrático pós-marcelista; pode aproximar-se de um acto de fala expressivo, caso evidencie algum tipo de reacção, posição do locutor (favorável / desfavorável) face ao assunto abordado; pode, inclusivamente, tratar-se de um acto de fala directivo (neste caso indirecto), caso se considere que o enunciado é produzido por alguém que, vivendo no próprio dia 25 de Abril de 1974, pretende incitar outros elementos a participar  na revolução anunciada.
      Em síntese, não pode haver classificação de actos de fala (e respectivos objectivo e força ilocutórios) sem a consideração das condicionantes contextuais e das relações que o utilizador mantém com a língua que usa, dos comportamentos visados, da relação com os outros interlocutores ou das funções linguísticas pretendidas ao comunicar com alguém.
      Não sei se consegui ser claro na abordagem da dúvida, dada a complexidade desta. Também é certo que ela se integra numa das áreas mais ricas do estudo da língua, pelas relações, pelas construções e pelos comportamentos associados às realizações linguísticas, ao dito (explícito) e ao não dito (implícito), ao contexto e ao modo de dizer.
     Neste sentido, recomendo a leitura da Gramática da Língua Portuguesa, coordenada pela Professora Maria Helena Mira Mateus, para um aprofundamento mais fundamentado sobre o assunto dos "Actos de Fala".
  
    Já houve também oportunidade de aqui falar em actos e suas relações com os textos. Em suma, é o que acontece quando se passa das palavras aos actos (Isto faz-me lembrar qualquer coisa...!).


sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Barroco: entre a pérola e o irregular

        O tempo esteve a jeito, num dia que de tudo teve...

        É prática comum esta visita ao Porto Barroco, que faz com que muitos alunos de 11º ano contactem com uma cidade frequentemente conhecida apenas pelo que tem de centro, de comercial e de centro(s) comercial(is).
        No percurso calcorreado entre a zona do Carmo e a de S. Francisco, muito houve para ouvir e registar a propósito:
Interior da Igreja dos Clérigos: um dos pontos altos da visita
(Janeiro, 2011)   VO
  • da Igreja das Carmelitas e da Igreja do Carmo;
  • da Torre e da Igreja dos Clérigos;
  • da Igreja e da Santa Casa da Misericórdia;
  • da Igreja de S. Francisco e das Catacumbas.
  • do Freixo e do seu Palácio.
      Nicolau Nasoni foi nome de destaque: entre o supostamente feito (desenho da fachada da Igreja das Carmelitas) e o assumidamente construído (Igreja e Torre dos Clérigos, onde se encontra sepultado algures por baixo de um dos dois púlpitos; fachada da Igreja da Misericórdia; Palácio do Freixo).
    Em alternativa às "viagens" de anos anteriores (que contemplavam o percurso da Igreja de S. Francisco, a Igreja da Misericórdia e a de S. Lourenço ou dos Grilos, a Sé e a Igreja de Santa Clara), desta feita cumpriu-se orientação contrária na cidade.
      Nela se observaram as memórias de pedra para um período artístico que evoluiu do barroco nacional para o do período joanino (coetâneo ao reinado de D. João V) e o designado movimento rococó (já com influências do barroco francês e alemão).
      Entre a manhã cumprida a rigor (com cerca de setenta alunos) e a tarde interrompida por força maior (com mais cem), viveu-se a satisfação e a tensão, dissimetria tão ao gosto do contexto epocal evocado.

      Com coisas para lembrar e outras para esquecer, também o dia se definiu pelos contrastes, pelos extremos, numa exibição espectacular de sensações, de exploração de sentidos; de vivência de "conflitos", de "oposições"; em torno da reflexão sobre o tempo e a mudança (numa prova de que o tempo passa e há coisas que têm necessariamente de mudar, como evidência do próprio acto de crescer).

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Anunciada nova produção dos R3

      Dizem que a vida é um jogo...

    Acrescentaria que de sorte ou azar, sem que muitas vezes tenhamos a hipótese de escolher. Por mais esforço que se faça, nem sempre se obtém o que se deseja; outras vezes, bate-nos à porta o que nem pensámos ver ou ter.

     
     Perguntas, conselhos, suspiros, ansiedade... peças de jogo para uma cartada feita de apostas que marcam acidentalmente a vida. Serão estes os ingredientes para a queda de um castelo de cartas? Ou para um jogo, uma ficção inspirados na realidade?
      Misterioso... há segredos em jogo, decisões comprometedoras... suspeito que vem aí sucesso.
     
    Entre vencedores e perdedores, o jogo e a vida valem o que deles fizermos.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

De volta ao (século) passado

      Faz alguns anos; melhor, algumas décadas. Enfim, já se pode dizer que é do século passado.

     Havia alguma coisa de sedutor no "Vitinho", quanto mais não fosse porque o anunciar da "hora da caminha" acabava por dar lugar ao gosto de ir além do permitido. O fruto proibido foi sempre o mais apetecido: "só mais um bocadinho!" (o filme que vinha de seguida era sempre melhor!). Se não vinha a permissão, não havia mal, porque o amiguinho televisivo já tinha ido dormir também.
     Mudaram o tempo, as vozes, a letra, a melodia...

Montagem com as músicas do Vitinho (RTP), entre 1986-1997

    Hoje o "Vitinho" ("Bitinho" à moda do "Nuorte") soa a afecto, a proximidade na boca de alguns alunos - diminutivo autorizado para aqueles que ainda sabem que, além do "Trabalho, trabalho e mais trabalho", há tempo para rir, brincar e sorrir, quando se está a aprender; quando se disfarça a dificuldade, o esforço solicitados na conquista do saber e do saber-fazer. 
    Para outros, à moda do Sermão de Santo António, parece não haver senão "fel", qual Santo Peixe de Tobias (que não deixou de ser louvado, por curar a "cegueira" daqueles que não viam ou não vêem... ou não querem ver).

    Com o agradecimento à VS, por me ter feito relembrar alguma coisa feliz de um passado que (ainda) resiste. Às vezes, é bom dar espaço às lembranças.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Eco para um Umberto nascido

       Há 79 anos nasceu um dos intelectuais e ensaístas contemporâneos mais reconhecidos, em termos internacionais, nos domínios da Estética, Linguística, Literatura, Semiótica e Filosofia: o italiano Umberto Eco.
  
     Não de menor importância é o seu contributo para a literatura mundial, nomeadamente na produção romanesca que já deu títulos como O Nome da Rosa (1980), O Pêndulo de Foucault (1988), Baudolino (2000) ou o mais recente A Misteriosa Chama da Rainha Loana (2005).
     Lembro-me de me ter cruzado com o primeiro romance por alturas da exibição do filme, realizado por Jean-Jacques Annaud em 1986. Foi certamente um dos exemplos apreciados, tanto na versão escrita como na cinematográfica. A par da intriga detectivesca não deixava de se recriar toda uma ambiência medieval, pautada não só pela cor epocal das trevas mas também pelo sentido de sacralização e de controlo de um saber vastíssimo. 
     No seio de tudo, um livro: o desaparecido volume sobre a Comédia, de Aristóteles, que comple(men)taria a Poética e a Retórica.

      
       A propósito do poder do riso, relembro um excerto e um diálogo entre as personagens Jorge e Guilherme:

      - Mas agora explica-me - estava dizendo Guilherme - porquê? Por que quiseste proteger este livro mais que tantos outros? (…) Há tantos outros livros que falam da comédia, tantos outros ainda que contêm o elogio do riso. Por que é que este te incutia tanto pavor?
     - Porque era do Filósofo. Cada um dos livros daquele homem destruiu uma parte da sapiência que a cristandade tinha acumulado ao longo dos séculos. (…) Cada palavra do Filósofo, sobre quem hoje em dia juram mesmo os santos e os pontífices, subverteu a imagem do mundo. Mas ele não tinha conseguido subverter a imagem de Deus. Se este livro se tornasse… se tivesse tornado matéria de aberta interpretação, teríamos franqueado o último limite.
     - Mas que coisa te assustou neste discurso sobre o riso? Não eliminas o riso eliminando este livro.
     - Não, decerto. O riso é a fraqueza, a corrupção, a sensaboria da nossa carne. É o folguedo para o camponês, a licença para o avinhado, mesmo a Igreja na sua sabedoria concedeu o momento da festa, do Carnaval, da feira, desta poluição diurna que descarrega os humores e entrava outros desejos e outras ambições… (…) Mas aqui, aqui - agora Jorge batia com o dedo na mesa, perto do livro que Guilherme tinha à sua frente - aqui inverte-se a função do riso, eleva-se a uma arte, abrem-se-lhe as portas do mundo dos doutos, faz-se dele objecto de filosofia e de pérfida teologia… "
in O Nome da Rosa, trad. de Maria Celeste Pinto, Círculo de Leitores, pp 345-346

     Entre o registo do erudito medievalista e o labor do escritor que revisita épocas históricas feitas de enigmas e contrastes (como os retratados nas ordens religiosas monásticas e nos movimentos heréticos), O Nome da Rosa é um romance reconhecido como uma das obras "clássicas" da literatura mundial.


segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Um novo 'se'

    Já tinha prenunciado o tempo dos 'se'.

Q: Na frase 'Diz-se muita coisa', como classificas o 'se'? É um 'se' passivo?

R: Pode ser, para além de uma segunda hipótese, tudo dependendo da paráfrase que se possa associar à frase proposta:
    i) É dita muita coisa / Muita coisa é dita.
    ii) Alguém diz muita coisa / Há quem diga muita coisa.
    Conforme a opção se situar na interpretação i) ou ii), a classificação do pronome em causa tende, respectivamente, para um 'se passivo' ou para um 'se' impessoal. A escolha da interpretação está dependente de factores que ultrapassam o âmbito da frase.
    Serão razões discursivas, temáticas e pragmaticamente motivadas que poderão estar na base de qualquer processo de desambiguização (seja ao nível da produção seja ao nível da recepção do enunciado).    

    Não sei bem se o assunto ficará por aqui. Pode haver outros 'se' por aí...

Cada um sabe as linhas com que se cose

         Assim o diz o povo.

        Contudo, entre o 'coser' com fio e o 'cozer' com fogo, ainda há quem se queira 'queimar'.

Tira publicada na edição de hoje do Jornal de Notícias

     Um exemplo clássico de como a homofonia pode motivar o erro. Por clássico que seja, parece que ainda não há resolução... e pior ainda quando propagado por meios de comunicação social que, mesmo em banda desenhada, deviam pautar-se pelo bom exemplo. Não é aqui o caso.
    Já no latim se assumia a diferença entre 'consuĕre' (no latim clássico, entretanto vulgarizado para 'cosēre') e 'coquĕre' (vulgarizado como 'cocēre'), conforme a linha ou o lume, respectivamente. Reside, portanto, já no latim a distinção ortográfica entre a linha do 's' e o lume do 'c'.

     A botão linha se dá - razão pela qual se cose.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Em jeito de balanço

    Ao fim de cerca de dois anos, fica um registo estatístico.

    Para uma rede de consultas e leituras que já se pode assumir como abrangente, eis o mapa do público que conhece esta "carruagem":


    Ainda alguns números que se me revelam impressionantes, atendendo às já mais de sete mil e duzentas visualizações:
     Portugal 5 398                                  Itália 16
     Brasil 1 692                                      Angola 12
     Estados Unidos 213                          Alemanha 12
     Rússia 19                                          França 12
     Reino Unido 16                                 Holanda 12

   A todos, o agradecimento devido pelas "viagens" aqui realizadas, mais os votos de uma óptima passagem de ano e de um 2011 muito promissor.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Quando doze foi dez

     Está dezembro a terminar, o décimo segundo mês deste calendário gregoriano com o qual temos convivido desde que esta forma de organizar o tempo nasceu.

    Etimologicamente, tudo se prende com 'dĕcem' e 'decĕmber', o décimo mês do antigo calendário romano (segundo dizem, conforme o estabelecido por Rómulo, aquando da criação de Roma).
    Júlio César ainda viveu março como o primeiro mês do ano, concluindo-se este último com 'Januarius' e 'Februarius'. Ao introduzir-se os meses 'Unodecembris' e 'Duodecembris' no final do ano 46 a.C., arrastaram-se os outros dois para o início de 45 a.C., pelo que março se tornou o terceiro (afastando-se, assim, do inverno e encetando-se a prática da celebração das festas romanas na estação mais florida: a da marcação do equinócio).
    Com o Papa Gregório XIII, o calendário juliano sofreu as últimas mudanças: vulgarizou-se a tradição de iniciar o ano a 1 de janeiro; reduziu-se o calendário / ano anterior em dez dias; corrigiu-se a medição do ano solar (365, 2425 dias solares), com um ano bissexto de quatro em quatro anos.
    Viveu-se, assim, o final do etimológico 'dez', que se tornou doze.
   Em véspera de passsagem, fica ainda o registo da designação dos meses, a revelar tradições de variada espécie:
. Janeiro - de Jano (deus romano das portas, das passagens, dos inícios e dos fins);
. Fevereiro - de Februus (deus etrusco da morte, relacionado com a palavra 'febre'; o "mês da purificação", para os latinos, que chegou a fechar o calendário antigo);
. Março - de Marte (deus romano da guerra);
. Abril - de 'Aprilis' (associado a 'abrir', numa referência à germinação das culturas, além da relação / sugestão com 'Aprus', o nome etrusco para Vénus: deusa do amor e da paixão);
. Maio - de Maia Maiestas (deusa romana);
. Junho - de Juno (deusa romana, esposa do deus Júpiter);
. Julho - de Júlio César (ditador romano, que alterou o anteriormente chamado 'Quintilis', o quinto mês do calendário de Rómulo);
. Agosto - de Augusto (primeiro imperador romano, que mudou o anteriormente chamado 'Sextilis', o sexto mês do calendário romano antigo);
. Setembro - de 'septem' ("sete" em latim; o sétimo mês do calendário de Rómulo);
. Outubro - de 'ōcto' ("oito" em latim; o originário oitavo mês);
. Novembro - de 'nŏvem' ("nove" em latim; o nono mês);
. Dezembro - de 'dĕcem' ("dez" em latim; o décimo mês).

    Imagino-me nos tempos de Rómulo: amanhã a deixar a 'febre' para entrar em mês marcial (é verdade: o actual janeiro manteve-se mais como tempo de guerra, em vez da simples porta ou da passagem).

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Pensamento do Homem e da criança que também foi.

      Há um ano, relembrava Redol; hoje retomo o tópico por há 99 anos ter ocorrido o seu nascimento.

      Um pensamento do autor-narrador pode ser lido logo nas primeiras páginas da que foi considerada uma das obras-primas da literatura (dita) infantil:

Escultura em bronze de Maria Morais (1981), à entrada da
Escola Secundária de Vila Franca de Xira (terra natal do escritor).

"Um homem cresce até ao fim da vida,
se não em altura,
pelo menos em obras e ambições."


    Assim se lê em Constantino Guardador de Vacas e de Sonhos (20ª ed., Lisboa, Editorial Caminho, 1990), quando o narrador apresenta a personagem ainda criança que dá título ao "contarelo" (publicado em 1962) - afirmação com a exemplaridade dos valores da formação, da aprendizagem, do crescimento e do desenvolvimento.

     Pensamento de homem para uma obra centrada num rapaz de doze anos, pautado pela acção e pela imaginação, a procurar superar uma realidade social associada a uma época (anos sessenta do século XX) e a um espaço (entre o piscatório e o rural) feitos de algumas agruras da vida.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

'O Pianista' - da História à Música

      Eis um filme que desconcerta qualquer ser humano.

    É daquelas películas a ver quando sentimos que tudo está mal connosco - rapidamente nos apercebemos do nosso mal menor, dado o efeito de real para que a ficção nos transporta.
   O contexto histórico da Segunda Guerra Mundial e o percurso da personagem Władysław Szpilman (interpretado pelo oscarizado Adrien Brody) são um retrato de um tempo e um mundo em ruínas, nos quais a vida se confronta continuamente com o perigo, a ameaça do fim. O começo da Segunda Guerra Mundial e a invasão da Polónia (em 1 de Setembro de 1939) condicionam a vida de Szpilman, na deterioração crescente a que população judia se viu votada: com limitação na circulação de dinheiro, com faixas identificadoras da sua origem, com o abandono das casas e dos bens, com a separação dos núcleos familiares, com a fome e a perseguição humilhante que a acompanhou para os guetos e para os campos de concentração / aniquilação.
       A sobrevivência da personagem principal faz-se à custa da separação da família, da sua integração no trabalho escravo, do seu esforço de fuga a todo o tempo praticamente ameaçado, da sua iminente morte à mão dos próprios salvadores russos (que o vêem com um casaco alemão vestido). 

Trailer de O Pianista (2002), realizado por Roman Polanski.
    
   Assistindo às acções de resistência, sem nelas poder participar, Szpilman é descoberto, na fuga final, pelo capitão Wilm Hosenfeld (Thomas Kretschmann). Entre eles, a música compõe a união de perseguido e perseguidor, a ponto de este último se tornar no seu salvador (levando-lhe comida e deixando-o esconder-se nos bairros arruinados pelos nazis).

Uma das cenas mais significativas do filme: o entendimento do perseguido e do perseguidor pela música
(Balada nº 1, op. 23 de Chopin)
   
   Com esta protagonista na vida de Szpilman (tanto na vida feliz como na que o fez contactar directamente com as mais diferentes formas de terror), a música torna-se das únicas notas de felicidade e harmonia existentes na intriga fílmica, mesmo quando a personagem ora não se pode dar a ouvir no toque do piano ora não tem o instrumento musical senão na própria mente, Porque esteve sempre lá, a música é símbolo da diferença no crime e no caos instalados (é interrompida no início da película; impõe-se na última cena); é o registo de um final feliz para um filme triste, francamente duro, penoso na apresentação dos atos perversos, sádicos e aniquiladores do regime nazi.
   O Pianista é uma produção  cinéfila já com oito anos (o filme data de 2002), mas ainda suficientemente forte para, a par de A Lista de Schindler (1993), A Vida é Bela (1997) e O rapaz do pijama às riscas (2008), fazer lembrar o holocausto de um período que não se pode ter repetido sob nenhum pretexto; para evocar a música (personagem principal de muitos filmes) que, no caso presente, um Chopin deu à Humanidade.

    Dirigido por Roman Polanski (também agraciado com o Óscar de Melhor Realizador), O Pianista apoia-se na autobiografia homónima escrita pelo músico polaco Władysław Szpilman e constitui-se como tributo à sobrevivência ou grito de alerta para a desumanização que, infelizmente, emerge em tempos de guerra.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Mais desafios, a partir de dúvidas

    Na linha de alguns desafios linguísticos, cá vai mais um, na sequência de uma dúvida colocada a propósito de uma mensagem anterior.

     Q: Boa noite! Podem esclarecer-me sobre o seguinte? Por que razão se chama adverbial à oração condicional? (ex.: Se precisares de ajuda, chama-me imediatamente). Que relação tem com advérbios? Agradeço uma resposta que pudesse ser dada a um aluno de ensino secundário que fizesse esta pergunta. E entendida... O mesmo para as outras adverbiais. Obrigado.

      R: Viva!
     Adverbial é a designação para dar conta de uma unidade estrutural sintáctica constituída quer pela classe dos advérbios quer por expressões equivalentes (grupo nominal, grupo preposicional, grupo frásico ou oracional) quanto à posição e à funcionalidade significativa.
     Assim, numa frase como (1), pode ocorrer, no lugar do advérbio (em itálico), todo um outro conjunto de unidades que, por substituição, corresponderia a um adverbial (expressão) com a mesma distribuição e/ou ao mesmo tipo de informação (no caso, de frequência temporal):

(1) Os alunos lêem um livro mensalmente.
(1a)                                    todos os meses.
(1b)                                    em cada um dos meses.
(1c)                                    sempre que dão entrada num novo mês.

       No caso da frase “Se precisares de ajuda, chama-me imediatamente”, o itálico aponta para o que já a gramática tradicional designava como uma subordinada adverbial, em contraste com as subordinadas substantivas e as adjectivas.
      Tal designação associa-se a duas propriedades que geralmente marcam as primeiras:
. a possibilidade de comparecerem numa construção clivada (ex.: É [só] se precisares de ajuda que me chamas imediatamente);
. a capacidade de ocorrerem em posição inicial (como no exemplo de partida), medial (ex.: Chama-me, se precisares de ajuda, imediatamente) ou final (ex.: Chama-me imediatamente, se precisares de ajuda).
       Ao caso em concreto, acresce o facto de a subordinada concorrer ainda para a seguinte caracterização típica dos adverbiais: é suprimível, atendendo à estrutura argumental do verbo da sequência subordinante (chamar), o que, consequentemente, dá conta da sua natureza de modificador.

       Considero que os testes de substituição, comutação / permuta; comparação contrastiva e manipulação frásica são as melhores formas de demonstração junto dos alunos, como estratégia de construir a explicitação dos raciocínios e do conhecimento da língua.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

E assim se chega a mais um Natal

     Na pressa do tempo, fiz nascer um postal doméstico...

     Com um presépio que vai ganhando novas formas a cada ano, as figuras mantêm-se, na esperança de que o novo não deixe de preservar o que ainda nos une a um espírito fraterno e as memórias que dão cor à nossa existência, ao nosso ser.



A lua e as estrelas dão luz à noite;
Maria deu à luz um santo menino;

O Homem mundano, para que se afoite,
Pede a Deus, grande; lá esquece o pequenino.
E, entre as palhas, o musgo e o curral,
Dá-se a beleza que ilumina o Natal.



Presépio doméstico - III
(Dezembro, 2010)
VO

Que este seja o tempo de dar e receber,
na redescoberta das pequenas coisas
que (também) fazem os momentos grandes.

    
    
  A todos os que vão viajando "nesta carruagem", os votos de um santo e feliz Natal.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Das origens do presépio

     Com a chegada do Natal e dos seus motivos, relembrei Itália, Nápoles e a costa amalfitana.

     O tempo quente de férias nada tem a ver com o frio que, agora, fere as narinas, gela as mãos e corta a pele.
Foto da costa amalfitana, com o seu presépio de casas na encosta
(Agosto, 2010)  VO
      Foi a montar o presépio que ecoaram, na minha memória, as palavras da guia, algures no percurso entre Nápoles e a costa amalfitana: "Esta é a zona da origem dos presépios. Tudo isto se revê no que terá sido o primeiro presépio do mundo, construído em argila por São Francisco de Assis no século XIII (1223)". E, assim, se vislumbrava o casario pelas encostas (entre o traçado árabe e bizantino), além de se imaginar a iluminação que a noite traria.
     A propósito do presépio, parece que, em vez de festejar (como habitualmente) a noite de Natal na sua igreja, a floresta de Greccio foi o local para onde o então frade fez transportar uma manjedoura, uma vaca e um burro - figuras que passavam a explicar e a ilustrar melhor o Natal ao homem comum, a todos os que não conseguiam entender a história do nascimento de Jesus.
     De facto, vários foram os sinais da popularidade do costume, que parece ter surgido na província italiana da Campania.
    Uma nova tradição se instituía, espalhada que foi, durante a Idade Média, entre os principais espaços religiosos da Europa.
    Já em pleno século XVI, em 1567, a Duquesa de Amalfi mandou montar um presépio com 116 figuras para representar o nascimento de Jesus, a adoração dos Reis Magos e dos pastores, mais os cânticos dos anjos.


Presépio napolitano
à entrada do NH Ambassador
(Agosto, 2010)     VO



    Inspirado nesta experiência, não faltarão a manjedoura, o boi, o burro e umas quantas outras figuras no meu presépio, montado, desta feita, em terras gondomarenses, para aquecer um espaço que acolherá amigos e familiares.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

De regresso à coesão... a partir da posição

    Questões de sintaxe (e não só) na sua relação com coesão.

Q: Colega, acha que a posição dos elementos na frase também tem a ver com questões de coesão?

R: Há, por certo, relações entre os dois domínios, tomando em linha de conta a abordagem implicada em termos de superfície dos enunciados ou na constituição sintagmática das sequências frásicas.
    Por exemplo, o posicionamento das subordinadas adverbiais não deixa de concorrer para a natureza coesiva das frases nos textos / discursos. Aquelas ocorrem, normalmente, numa posição posterior (1) ou anterior (2) ao segmento subordinante:

  (1) Chama-me a qualquer momento se precisares de ajuda.
  (2) Se precisares de ajuda, chama-me imediatamente.

      A colocação das subordinadas adverbiais condicionais exemplificadas aponta, desde logo, para uma relação directa com graus distintos de integração face à sequência subordinante: semanticamente, a proposta (1) exemplifica uma subordinada adverbial em posição final, tendencialmente sugerindo conexões mais estreitas com a subordinante ou frase matriz (daí também a inexistência de vírgula na escrita ou de pausa na oralidade). O mesmo pode ser verificado em (3):

      (3) A questão foi colocada porque no nosso dia-a-dia não há soluções para resolver todos os problemas.

      Numa perspectiva de análise do discurso, uma subordinada adverbial em posição inicial - como em (2) - prende-se com um conjunto de relações textuais mais amplo, considerando os enunciados que a precedem; proporciona um enquadramento ou esquema mental para as sequências que se lhe seguem; é comummente marcada por vírgula / pausa a delimitá-la da subordinante, o que, consequentemente, pode evidenciar um grau de integração mais fraco face a esta última sequência.
     Atentando num exemplo como (4), manifesta-se uma maior integração da subordinada final do que o enquadramento proposto com a causal inicial (não obstante o encadeamento e a natureza modificadora de ambas as sequências):
    
     (4) Dado o estudo nem sempre ser suficiente para um bom resultado, poderás necessitar de ajuda para encontrar estratégias complementares.

      A posição dos segmentos frásicos presta-se igualmente à consideração de questões ligadas à estrutura informacional: numa frase complexa, a sequência inicial pode apoiar-se em informação encarada como já conhecida, enquanto a final se apoia em informação nova. Em (3), a frase matriz surge à cabeça, com o grupo nominal 'A questão', pressupondo um discurso anterior, no qual já tenha sido feita referência a 'uma questão'. Já em (4) sucede o contrário: a subordinada causal toma como conhecido o facto de o estudo não ser razão suficiente para um bom resultado, encaminhando-se, assim, a subordinante e a subordinada final para a apresentação da informação nova.
   
     Sintaxe, pragmática, progressão de informação: domínios que concorrem para uma gramática da língua feita de corpo inteiro.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Acontece... na vida

     Por mais que se diga "É a vida!" quando nos deparamos com a morte, as felicidades da primeira nunca apagarão a dor e o sentido de perda da segunda.

     Há um ciclo que está a fechar-se com a perda de algumas referências que marcaram a minha geração. Na área da comunicação, Carlos Pinto Coelho ficará sempre como uma das que preencheram o espaço televisivo e a vida de muitos.

     Entre vários contributos, o do "Acontece" na RTP2 é incontornável, como um dos poucos programas que me prendiam à televisão pública, pela qualidade jornalística e pela oportuna divulgação cultural apresentadas. Nove anos (1994-2003) de uma companhia  televisiva que alguém quis romper por "valores mais altos" que não se "alevantaram" (nem podiam  nem podem "alevantar"-se).
     Concorrentemente, noutros programas, outros prazeres se juntaram, como os das rábulas de Herman José a esse jornalista e apresentador que, pausada, cuidadosa e repetidamente, dizia as palavras de modo a que todos entendessem o dito e o não dito (por mais crítico que fosse).
     Um exemplo de lusofonia, de cavalheirismo, de persistência, de integridade.
     Um "sal da terra" para condimentar a memória dos que com ele conviveram no pequeno ecrã e para preservar o jornalismo de alguns dos males de que tem vindo a sofrer.

     Porque não há outra forma de melhor terminar esta homenagem a quem já vive na memória colectiva, passo a citar: "E assim acontece".

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Será espera(nça), crença ou fado?

     Memória de um grupo da década de oitenta do século passado para os novos dias deste século, feitos de alguma desesperança.

     Com a letra e música de Pedro Ayres Magalhães, a voz de Teresa Salgueiro trazia a tradição, a expressão da vontade, da espera, da separação, da dor e do amor. Tudo a parecer fado... um fado nacional que, ainda hoje, é muito mais do que género musical. 


HAJA O QUE HOUVER

Haja o que houver, eu estou aqui
Haja o que houver, espero por ti
Volta no vento, ó meu amor
Volta depressa, por favor

Há quanto tempo já esqueci
Porque fiquei longe de ti
Cada momento é pior
Volta no vento, por favor

Eu sei
Quem és p'ra mim
Haja o que houver
Espero por ti

Eu sei, eu sei
Quem és para mim
Haja o que houver
Espero por ti

      Foi com "Palavras Cantadas" (2002) como estas que o grupo me conquistou (e, na altura, com registo ao vivo).  

    Sonoridades para recordar, pelo valor (menos económico, mais cultural) que têm. Porque nem tudo o que (re)luz é ouro. Também pode ser música, som, voz.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Coesão... em acção

     Na sequência de um comentário de um(a) leitor(a), prossigo com alguns dados acerca da coesão.

    Q: Já agora: a coesão referencial creio que aparece na gramática da Prof. Inês Duarte e outras autoras (Caminho Ed.); creio que é mesmo ela a autora da secção da coesão textual. Mas no DT creio que não surge!

    R: De facto, o conceito de coesão é um dos mais operatórios em termos das competências gerais de leitura e da escrita.
     É verdade que a noção de coesão referencial aparece tratada na Gramática da Língua Portuguesa, coordenada pela Professora Maria Helena Mira Mateus (Editorial Caminho), mais precisamente no capítulo da responsabilidade da Professora Inês Duarte intitulado “Aspectos linguísticos da organização textual” (capítulo 5). Diria, ainda, que, para o Português, há um texto basilar no entendimento deste conceito – é o caso do artigo “Coerência e coesão nas unidades linguísticas”, do Professor Joaquim Fonseca (em Linguística e Texto / Discurso, da ICALP, 1992). Apoiado no estudo de Halliday-Hasan de 1976 (Cohesion in English), o linguista português aponta para a manifestação, à superfície, de nexos entre enunciados – nomeadamente, os de realização por referência, por substituição, por elipse, por léxico.
      A questão da coesão referencial concretiza-se no processo de designar / referir entidades pelo recurso preferencial à categoria nominal ou a um possível substituto, havendo ainda a possibilidade de, informacionalmente, marcar-se e progredir-se da introdução de um referente no texto pela primeira vez para a sua retoma (anáfora); de anunciar um elemento que só posteriormente é explicitado em termos referenciais (catáfora); de situar esse referente segundo as condições de produção discursiva (dimensão deítica).
      É na base de mecanismos essencialmente de ordem gramatical que se constrói este tipo de coesão, entre os quais se pode adiantar os seguintes:

(1) O professor dirige as actividades lectivas, com os alunos a assumirem-no como líder e a socorrerem-se dele sempre que têm dúvidas a esclarecer.
[MECANISMO: o grupo nominal ‘O professor’ é o antecedente para as pronominalizações ‘-no’ e ‘(d)ele’, tomadas como termos anafóricos]

(2) Havia um homem na paragem do autocarro. Era o senhor que já me havia solicitado uma direcção.
[MECANISMO: a progressão de ‘um homem’ para ‘o senhor’, além de uma substituição lexical co-referente (homem > senhor), exemplifica a referencialidade construída à base da definitivização (um > o), ou seja, a progressão entre a introdução de informação nova e a retoma de informação já introduzida ou textualmente conhecida]

(3) Aproximou-se um gato dos meus pés. Este olhava para mim como a pedir-me colo.
[MECANISMO: a substituição do grupo nominal ‘um gato’ pelo pronome ‘Este’ permite construir uma cadeia de referência entre antecedente-termo anafórico que evita a utilização de repetições desnecessárias]

(4) Crianças, jovens, adultos, todos são vítimas potenciais de uma epidemia.
[MECANISMO: o pronome indefinido ‘todos’ (realização pronominal de um quantificador) é o termo anafórico para um antecedente múltiplo ou enumerativo: ‘crianças, jovens, adultos’]

(5) Para que o espectáculo corresse bem fez-se assim: falou-se com os interessados, houve muitos ensaios preparatórios, chamaram-se profissionais que forneceram pistas fundamentais, preparou-se um espectáculo inicial para os amigos e, só depois, se abriu o pano para o público geral.
[MECANISMO: o advérbio ‘assim’ é assumido como palavra referencialmente dependente do que se lhe segue, pelo que tudo o que está depois do sinal dois pontos é o que cabe em ‘assim’; daí este último estar na base de uma construção catafórica]

(6) O pobre sentia-se desamparado; contudo, não estava sozinho nessa condição.
[MECANISMO: a elipse visível na configuração ‘O pobre sentia-se desamparado; contudo, Ø não estava sozinho nessa condição’ caracteriza-se pela ausência de realização lexical do termo anafórico, numa espécie de categoria vazia no mecanismo de coesão referencial]

       A exemplificação dos mecanismos nos seis exemplos propostos não invalida a co-ocorrência de outros, convergindo para uma organização interna dos textos / discursos / enunciados que lhes garante o tratamento de unidades dotadas de sentido (veja-se, por exemplo, em 2, ‘senhor’ > ‘que’; em 3, ‘meus pés > mim > me; em 6, ‘desamparado’ > ‘nessa condição’).
      No que toca ao Dicionário Terminológico, convido-o(a) a ler a secção C (Análise do discurso, Retórica, Pragmática e Linguística textual) e as entradas respeitantes a Texto (C.1.2), onde poderá encontrar a de ‘coesão textual’. Nesta última, encontram-se destacados e activados termos associáveis à coesão referencial (como o de ‘cadeia de referência’).

      A produtividade de trabalhar mecanismos destes ao nível transfrásico e/ou textual é a que se revê em áreas tão amplas como a de diversificar vocabulário, a de evitar repetições desnecessárias em frases / textos, a de gerir / avaliar a informação que se pretende transmitir, a de ultrapassar ambiguidades, a de evitar ruídos textuais e fazer progredir a informação com dados novos.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Água é vida?!

     Até podia ser..., antes da poluição e contaminação a que anda votada.

     Pior ainda quando é publicitada tão incorrectamente. Caso para dizer que não é credível o que surge tão mal anunciado.


     Não só não dá vida como ainda dela constitui mau exemplo. Uma água destinada a bebés, idosos e hipertensos, pelo facto de apresentar duas propriedades (fraca mineralização e baixo teor de nitratos), necessitaria de um predicado no plural, numa formulação que também não devia deixar escapar um outro cuidado na construção do paralelismo previsível na coordenação: 'A sua fraca mineralização e o baixo teor de nitratos tornam-na...'.
     Para não bastar, ter na segunda frase um sujeito sintáctico separado do predicado por uma vírgula é infelicidade a mais para a produção de um só cartaz, digno de um "Pingo Azedo" e destinado a um produto que não pode ser indicado a quem não tenha mais resistências.

     Para contrariar o prospecto ao fundo, apetece dizer "Só há uma língua. Proteja-a".

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

De Lennon e mais alguns... com outras recordações

     Depois de ontem me ter lembrado de John Lennon, hoje completo o grupo.

   Na 'batida de escaravelho' (jogo para a mistura de 'beat' com 'beetle'), Lennon, George Harrisson, Paul McCartney e Ringo Starr - para só falar dos que constituíram o quarteto mais famoso da história da música rock dos anos 60 - faziam a diferença, primeiro pelos bares das ruas de Hamburgo; depois, pelos de Liverpool. 
     Entre as muitas canções deixadas por The Beatles, uma sempre me marcou pela sua dimensão intemporal na singeleza da composição musical e pela natural reflexão sobre o poder da memória e do amor. Lançada num álbum de 1965 intitulado "Rubber Soul", "In my life" é um dos produtos da parceria Lennon-McCartney que mais versões e interpretações recebeu.

Em Dezembro de 1965, começava a ouvir-se "In my life"

IN MY LIFE

There are places I remember all my life,
Though some have changed,
Some forever, not for better,
Some have gone and some remain.

All these places had their moments
With lovers and friends I still can recall.
Some are dead and some are living.
In my life I've loved them all.

But of all these friends and lovers,
There is no one compares with you,
And these memories lose their meaning
When I think of love as something new.

Though I know I'll never lose affection
For people and things that went before,
I know I'll often stop and think about them,
In my life I'll love you more.

     Entre a melancolia, a lembrança e a expressão do amor, fica a obra-prima de uma composição cujo arranjo melodioso se faz também com o contributo de George Martin, num solo que soa a um cravo barroco (instrumento e período artístico que mais reflectiram a questão da fugacidade da vida, das marcas terrenas e do renascer das cinzas).

     Qual Fénix Renascida, os The Beatles alimentaram-me a lembrança de tempos, lugares e pessoas.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Sempre a imaginar

       Há trinta anos, desaparecia do mundo terreno um homem a quem outro tirou a vida.

       Entre tantas composições (quer a solo quer com os Beatles), Imagine será sempre o hino de um ideal construído para uma irmandade humana feita de utopia. A utopia de John Lennon.
       Não se trata apenas de 'Give peace a chance', de 'Power to the People' ou de 'Working Class Hero'; é algo de 'Love' e 'Just Like Starting Over', com o activismo necessário a um messianismo feito de Igualdade na Terra.


IMAGINE

Imagine there's no heaven
It's easy if you try
No hell below us
Above us only sky

Imagine all the people
Living for today...

Imagine there's no countries
It isn't hard to do
Nothing to kill or die for
And NO religion too

Imagine all the people
Living life in peace...

You may say I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope someday you'll join us
And the world will be as one

Imagine no possessions
I wonder if you can
No need for greed or hunger
A brotherhood of man

Imagine all the people
Sharing all the world...

You may say I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope someday you'll join us
And the world will live as one

    Ninguém assim devia morrer, muito menos por causa de outros que encurtam a vida.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Coesão - entre a referencial e a lexical

    Desta feita a questão é sobre gramática, mas de âmbito textual.

    Uma das propriedades da textualidade é a da coesão, apoiada em marcas de conexão e em processos linguísticos verificáveis ao nível das sequências e da articulação de enunciados (onde cabem categorias como as de construção de referência; de mecanismos de substituição, de elipse, de articulação e de relação lexical), numa complexidade de ligações que sustenta a boa formação dos enunciados, dos discursos, dos textos.
    Uma tabela-síntese com os processos / mecanismos implicados é a que se pode sumariamente verificar no seguin-
te registo, publicado no manual escolar de 10º ano, do qual sou co-autor.
    Aí (na página 199), entre outros tipos de coesão, podem ser
lidos os que abaixo se apresentam:

    Assim se impôs a dúvida / ques-tão:

Q: Relativamente à distinção entre a coesão refe-rencial e a lexical, não percebo bem. Então numa substituição de um nome por um pronome pessoal, não estaremos perante um processo de coesão lexical, por pronominalização, uma vez que remetem para o mesmo referente? E, nesse caso, não se considera que a substituição é realizada por meio da anáfora, neste caso pronominal?

     R: A distinção dos vários processos de coesão é uma questão metodológica que não deixa de manter relações com processos / mecanismos diferenciados, muitas vezes convocando uma interligação estreita ao nível dos enunciados e/ou da superfície textual.
    Se, em termos de coesão referencial, se focalizam relações de dependência entre elementos gramaticais que constroem redes de referência entre enunciados antecedentes / consequentes e suas condições de produção (pelo recurso a anáforas, catáforas, elementos deícticos), no caso da coesão lexical é ao nível do léxico, do vocabulário e das unidades lexicais (com suas relações semânticas) que a questão mais se coloca. Chega-se, neste último caso, a contemplar casos de co-referência não anafórica, que não são considerados na tipologia anterior.
     Assim, substituir um nome / grupo nominal por um pronome é um mecanismo típico da coesão referencial, dado o recurso a um mecanismo de natureza relacional ou gramatical (ex.: o rapaz > ele > lhe > se…), de âmbito mais fechado. Anáforas pronominais são exemplos de coesão referencial, neste sentido estritamente gramatical.
     Já o caso das anáforas lexicais tende mais para um processo de coesão lexical, no qual se contemplam mecanismos mais ilimitados e abertos de actualização do léxico em vocabulário. Daí as relações de (1) sinonímia, (2) antonímia, (3) hiperonímia-hiponímia, (4) holonímia-meronímia, (5) associação, (6) anáfora resumativa, entre outros (ex. 1.: o rapaz > o miúdo > o moço > o jovem > o garoto… / ex. 2: O pobre pedia, mas o rico não ouvia. / ex. 3: Os veículos estavam destruídos: carros, motas, bicicletas. / ex. 4: A flor estava destruída: as pétalas desfeitas, o caule quebrado, as raízes podres. / ex. 5: O polícia controlava o trânsito e passava coimas aos infractores. / ex. 6: A chuva batida, o vento corrido, os relâmpagos faiscantes tornavam a tempestade medonha).
     Neste último caso, a cadeia referencial constrói-se (daí também poder falar-se de coesão referencial), só que apoiada em mecanismos léxicos, não gramaticais.

      Trabalhar na consciência e na reflexão explícita destes mecanismos, das possibilidades de progressão, da gestão de informação e dos raciocínios lógicos associados é um percurso que coloca a gramática ao serviço de competências de leitura e de escrita.
    

sábado, 4 de dezembro de 2010

Mais vale mal acompanhado...

    É sabido que o enunciado paremiológico não é bem assim...

    ... mas é preferível isso a ver certas palavras assim escritas em publicidade:

      Caso para dizer que nem quem muito aprecia café fica indiferente. Assim não quero. Não é "à maneira", mesmo para publicidade que queira funcionar pela negativa.
    Desde quando os vocábulos terminados em 'zinho' são esdrúxulos (terceira sílaba a contar do fim como tónica)?
   Sempre foram graves (sílaba tónica na segunda sílaba a contar do fim da palavra) e respeitam a regra geral do Português: normalmente, as palavras graves não são graficamente acentuadas.
   Uma coisa é a palavra-base (só); outra, a derivada por sufixação (sozinho).

    Por mim, mais vale estar SOZINHO do que mal acompanhado. Com publicidade assim, prefiro outra (melhor) companhia.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Uma lição de vida: 'Sui Caedere - uma Vida, um Erro'

     Uma tarde chuvosa, tristonha, feita de nuvens ensombradas e de gélido sopro...

     No âmbito das actividades do Clube de Filosofia da minha escola, tem um grande número de alunos assistido, no Auditório Municipal de Gondomar, à representação da peça Sui Caedere - uma Vida, um Erro, uma produção dramática de Beatriz Soares e João Ferreira.

 

     A qualidade do texto, o empenho e esforço da representação, a adequação do fundo musical e do enquadramento luminotécnico, a sugestão da encenação, mais o espaço de debate, de reflexão e partilha de valores, de leituras de sinais e de consciencialização do vivido (seja no palco seja no cruzamento deste com a vida) formam um todo humanizador, pedagógico e artístico. Recomendável e a reconhecer.
    "Viver a cultura de forma inclusiva e transformadora" é um dos objectivos da jovem associação In-Skené - gTag. Assim o têm feito; assim o fizeram hoje (no que deram a ver, no que partilharam, no que fizeram ver) e certamente o farão amanhã e noutros tempos futuros.
     Com jovens assim, pelo exemplo que dão, é possível acreditar na vida - porque "a vida vale por si só".
      Por isso, vou voltar a assistir a esta lição sobre a vida.

(Aparte: era isto que devias ter visto e discutido connosco, S; 
foi isto que nos fizeste lembrar, S; 
isto e algo mais não soubemos ler em ti, S).

     ... para um dia de sol sentido na companhia de alunos, de colegas e de um grupo de jovens que tem o teatro na vida e a vida no teatro.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

No tempo dos 'se'

     Prevejo que vou andar uns tempos a tratar o 'se'... no tanto que ele tem de camaleónico.

     Para já, a questão, a dúvida é de ordem sintáctica.

     Q: Vítor, bom dia! Mais uma consulta...
  Na frase "A raposa interessou-SE pelo queijo" o 'se' destacado tem alguma função sintáctica?

    R: As construções do tipo ‘V-se’ apresentam uma multiplicidade de situações: realizações com verbos intrinsecamente pronominais (nos quais maioritariamente é impossível retirar o ‘-se’); realizações reflexivas (nas quais existe identidade correferencial entre o sujeito sintáctico e o complemento directo) e reflexivas de posse; realizações recíprocas; realizações associadas à redução da estrutura argumental do verbo; realizações passivas.
    O caso proposto integro-o nas realizações com verbos intrinsecamente pronominais - com ‘se’ inerente -, (como é o caso de ‘alegrar-se por / com’, ‘atrever-se a’, despedir-se de ‘, ‘divertir-se com’, interessar-se em / por’, ‘zangar-se com’); ou seja, sem função sintáctica na frase (contrariamente aos casos de ‘-se’ reflexo, recíproco ou passivo).
     Assim, a frase teria a configuração sintáctica de um
          a) sujeito (‘A raposa’);
      b) predicado (‘interessou-se pelo queijo’) com um complemento oblíquo (‘pelo queijo’), tomando como núcleo um verbo transitivo indirecto (‘interessar-se’).

     E mais haverá para dizer, quando outros exemplos chegarem...