segunda-feira, 2 de maio de 2011

Um dia... dois dias... uma só mãe.

     É o dia comercial da mãe, que também tem dia santo... e merece.

Quarteira (Foto: VO)
     
     Mãe é mãe, pai é pai (ouve-se), por maior tautologia de que o enunciado se revista - ou talvez, assim, se diga mais implicitamente do que o que pudesse ser feito explicitamente, sempre aquém do que se quisesse ou pretendesse dizer.
     Este é o mundo da mãe ou a mãe que é um mundo.
    Por muito que se diga que tem mãe todo o vinho com depósito na garrafa; que é mãe o lugar, a obra, a abelha, a água, o país (ou pátria), a galinha; que é filho sem dor e mãe sem amor; que a ociosidade é a mãe de todos os vícios; que levar as mãos às fogueiras é a mãe das frieiras, a presença da mãe não deixa de eternizar a possibilidade de nascer, de crescer, de suportar a dor.
     E porque hoje é mais um dia da mãe...


Mãe!
Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei.
Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue, sangue! verdadeiro, encarnado!
Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens!

Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me a teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.

Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa. Eu também quero ter um feitio, um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.

Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão pela minha cabeça é tudo tão verdade!


Almada Negreiros, in A Invenção do Dia Claro (1921)


     Na palavra cantada por tantos poetas, há três letras numa só sílaba.

     Há sangue, há carne, há amor para que o Homem sobreviva ao tempo.

sábado, 30 de abril de 2011

Vamos ao verso, para não ter reverso...

      Este é um dos casos tradicionais na análise formal poética (em verso).

     Q: Qual é a diferença entre o verso solto e o monóstico? Pode dizer-se de qualquer uma das formas?

     R: Há diferenças substanciais entre as designações. Não são sinónimos.
    Fala-se de 'verso solto ou branco' quando se está a tratar a questão da rima, nomeadamente de um verso que, numa estrofe ou em todo um poema, não encaixa na combinação de sons associada a um esquema rimático.
    O caso do monóstico é outro: é o de uma designação para uma estrofe constituída por um só verso.
    Comparem-se as situações dos seguintes poemas:


    Não há, portanto, que confundir 'verso solto' com o facto de este estar isolado entre uma sequência de versos e/ou de estrofes; está isolado sim, mas por não rimar com mais nenhum outro.

      E assim o que é unidade (um verso que não rima; uma estrofe com um só verso) passa a dualidade (por se utilizarem dois conceitos para dois domínios completamente distintos).

sábado, 23 de abril de 2011

Um clássico... um intemporal...

      É um clássico, um dos grandes da literatura mundial, que já mereceu referência neste espaço por outros motivos.

       Hoje é data reconhecida para o seu nascimento há 447 anos.
  E neste mesmo dia, quando Shakespeare se deu a conhecer à Humanidade, relembro uma representação de O Mercador de Veneza, peça do dramaturgo inglês (dos finais do século XVI - 1596/98), reposta, numa versão cénica fabulosa de Ricardo Pais e Daniel Jonas, no Teatro Nacional de São João do Porto, por alturas do início de 2009.
     Exemplo de uma "comédia" marcada pelo jogo trágico das acções e emoções humanas, só por ironia se pode falar num "happy end" ou, citando o próprio autor com o título de outro texto dramático, em "All's well that ends well". Há muita duplicidade, muito desafio, conflitos e percepções a minar relações, poderes que desafiam o protagonista do título (o mercador cristão António) e o do texto (o judeu Shylock).
    Numa Veneza mercantil, onde a lei dos homens bons impera pela inteligência das mulheres vindas de Belmonte, surge à frente do espectador uma rede de equívocos, enigmas, valores e temas que Shakespeare conseguiu compor numa coerência avassaladora, capaz de tocar o ser de qualquer humano. Entre a libra (ou o meio quilo) de carne; a história dos três cofres; a abordagem de temas como a questão do sexo, das raças, das crenças, das leis; o jogo do disfarce, todos impõem os valores básicos do bem e do mal, numa tensão que não deixa ninguém sem partido.
      Na multiplicidade de formas artísticas convocadas para os temas e para a obra, não é de menor apreço a adaptação fílmica de The Merchand of Venice, de  Michael Radford (2004), com destaque para as interpretações de Al Pacino (Shylock) e Jeremy Irons (António). Muito actual é o monólogo do judeu, pela reflexão que suscita face às diferenças:


    No fim, retoma-se um 'topos' shakespeariano: o da música harmoniosa e pacificadora, vinda da paradisíaca Belmonte - "Here will we sit and let the sounds of music creep in our ears".

Cuidado com as distâncias...

      Já tive oportunidade de, por várias vezes, me referir à natureza deíctica de certos termos.

      As questões persistem, porque em tudo dependem dos contextos discursivamente equacionados.

    Q: O advérbio «longe» é também um elemento deíctico, por exemplo, na frase «Tenho passado dias aflitivos longe de ti»? A mim, parece-me que não, porque acho que esse advérbio se refere sobretudo à distância que separa o locutor do interlocutor e não ao lugar em que aquele se encontra, mas nunca se sabe.

A porta, o espaço e o tempo,
arte digital surrealista de Marcel Caram
    R: A resposta, em função da frase, é mesmo assim variável, tendo em conta a circunstância de produção do discurso e as condições de interacção.
     Admitindo o cenário de alguém que escreve uma carta e introduz a frase em questão no discurso para constatação das dificuldades criadas com uma separação, é possível ler 'longe' como deíctico: por implicitação e por contraste face ao 'cá / aqui' do locutor (escrevente), distingue-se o 'longe' como marca vectorialmente orientada para o 'aí', como coordenada referente a um espaço distanciado, mediado e não compresente em que o interlocutor (configurado pelo pronome 'ti') se encontra.
     Uma outra situação diz respeito ao reencontro de duas pessoas que interagem compresencialmente. O locutor pode formular o enunciado para o seu interlocutor, no tempo e no espaço que partilham (estes últimos de natureza deíctica). Num presente, num 'aqui' e num 'agora' em que se confessa a aflição vivida num intervalo de tempo mais ou menos lato (cf. pretérito perfeito composto), pode acontecer que se faça referência a um outro lugar (no qual o interlocutor já não se encontra), traduzido pela locução prepositiva 'longe de'. Com esta última encenação, não ocorre um sinal de 'mostração' da construção do discurso; trata-se apenas de um indicador espacial de referência não específica, sem relação directa com a produção discursiva ou as coordenadas do 'eu' e/ou do 'tu'.

    Razão para se ter de explicitar o contexto o mais possível, por uma questão de distinção de coordenadas de localização na produção discursiva (deícticas) e coordenadas de referência (não necessariamente deícticas).

terça-feira, 19 de abril de 2011

Nem sempre o que subordina é frase

    De novo sintaxe, com a complexidade que as frases nos oferecem e que muita gente ainda discute.

    Porque há frases complexas que se configuram por encadeamentos a diferentes níveis, cá vem um exemplo em que as árvores (invertidas, com tronco no céu e ramos na terra) sempre podem dar frutos.

    Q: Como se classificam as orações da frase «Não gostei da maneira como ele olhou para mim.»? E qual é a classe de «como»?

    R: Para analisar a frase dada, marcada pelo mecanismo de subordinação, partiria da constatação de que há uma estrutura subordinante ou superordenada, que corresponde à da frase matriz ('Não gostei de X'). Entretanto, X surge configurado da seguinte forma: 'a maneira como ele olhou para mim'. 
    A relação de dependência que se constrói entre o segmento subordinante e o subordinado opera-se na base de um constituinte (grupo nominal 'a maneira') restritivamente expandido ('como ele olhou para mim').
    Esquematicamente, tem-se qualquer coisa como:


     O grupo nominal expandido (no segundo nível - vermelho) apresenta o elemento 'como' enquanto pronome relativo, palavra de retoma para 'a maneira' - o elemento subordinante, que se articula com o segmento subordinado. Há, assim, uma segunda oração introduzida por um pronome relativo, o que faz desta última uma subordinada relativa restritiva.
     De qualquer forma, e porque entendo a dúvida e o desafio implicados na questão, devo registar que, numa breve consulta de algumas referências, detectei uma informação relevante. Na primeira versão da Gramática da Língua Portuguesa, coordenada por Mira Mateus (1989: 298), é interessante ler-se o seguinte a propósito da análise de alguns enunciados: "Vemos assim que quando, enquanto, como se aproximam quer pela sua forma quer pelo seu valor sintáctico-semântico dos morfemas relativos. (...) permitem ver como é afinal ténue a fronteira entre os morfemas relativos e algumas das chamadas «conjunções subordinativas». Os morfemas relativos podem exprimir valores coincidentes com os de outros conectores de subordinação." A citação aqui transcrita apoia-se, ainda, numa afirmação de Óscar Lopes que, na sua Gramática Simbólica do Português, nota "a semelhança, se não a homonímia, e o visível nexo existente entre certas conjunções ('porque', 'como', 'quando') e certos advérbios interrogativos", numa aproximação de parentesco das orações conjuncionais às relativas (1972: 310).
     Neste sentido, diria que a classificação de 'como' (por muito que me incline para pronome relativo) não pode desconsiderar totalmente a propriedade afim de uma conjunção. E precisamente por esta natureza homonímica de que fala Óscar Lopes, tenderia, em termos pedagógico-didácticos, a sublinhar o estatuto de conector / articulador do termo.

      Caso para dizer que, independentemente do conhecimento explícito da língua centrado na classificação em termos de classe de palavras, este é um dos exemplos em que a pedagogia do oral e a do escrito apontam para a funcionalidade expansiva, coesiva e articulatória de enunciados / discursos.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Tarquínio ou um exemplar de primavera romântica (até ao fim)

     Ainda que o título da obra seja plural, Primaveras Românticas (1872), o seu autor teve um percurso singular para um tempo feito de conformismos, poderes instituídos, conservadorismos de valores.

     Há 169 anos, nascia Antero de Quental em Ponta Delgada, o mentor da Geração de 70 (de onde saíram nomes e actos que marcaram o final do século XIX: Eça de Queirós, Teófilo Braga, Ramalho Ortigão, Oliveira Martins, só para referir os mais sonantes; as Conferências do Casino Lisbonense, "As Farpas", o projecto das Cenas da Vida Portuguesa, só para mencionar os mais marcantes).
     Por trás de tudo, estava Antero - poeta da reflexão estética e do papel social e civilizador da expressão poética, pensador e defensor do espírito científico-filosófico de combate ao sentimentalismo ultra-romântico dominante em Portugal pela década de 60 do século XIX.
     Não obstante o espírito polémico, revolucionário, activo, questionador da tradição artística obsoleta e paralisante, um percurso pessoal crítico e influenciado pela metafísica, bem como pela religião, cruzou-se com o pessimismo filosófico de Schopenhauer e de Hartmann, expressos na composição de, entre outros, Sonetos Completos (1886) - uma das formas poéticas que adopta para a consciencialização do processo de libertação da condição humana.

EVOLUÇÃO

Fui rocha em tempo, e fui no mundo antigo
tronco ou ramo na incógnita floresta...
Onda, espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiquíssimo inimigo...

Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
Ou, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso paúl, glauco pascigo...

Hoje sou homem, e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, da imensidade...

Interrogo o infinito e às vezes choro...
Mas estendendo as mãos no vácuo, adoro
E aspiro unicamente à liberdade.

Antero de Quental, in Sonetos (1861)
        
      Trinta anos depois, o autor destes versos far-se-ia em nada, interrompendo a evolução (ou antecipando-a, abandonando esta imensidade que é a vida).

     Nessa libertação, nessa fuga romântica persistiu um ideário que, porém, acabou por contradizer algum do sentido e do objectivo com que pautou a vida a que pôs fim: o da crença e o da opção pela mudança e pela ruptura, em prol do desenvolvimento intelectual, político e cultural.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

A duvidar é que nos entendemos...

       Regresso à sintaxe...

      Sem dúvida, esta é a área preferida dos colegas para suscitar e resolver questões.

      Q:  Na frase "Alguém me pediu para falar mais baixo", 'para falar mais baixo' é uma oração substantiva completiva? Caso não seja, consideramos o quê?

       R: Trata-se, sem dúvida, de uma subordinada substantiva completiva. Prova-o o facto de, pela estrutura argumental do verbo 'pedir' (Algo / Alguém pede ALGUMA COISA), o 'para falar mais baixo' corresponder ao elemento proposicional 'ALGUMA COISA'. 
       Em termos de pronominalização, temos 'Alguém me pediu isso'. Admissível, ainda, é o teste da interrogação: 'O que é que alguém te pediu' > 'Para falar mais baixo'. Logo, 'para falar mais baixo' desempenha a função sintáctica de complemento directo da frase dada.
         Neste caso, o 'para' é uma conjunção completiva, a par de 'se' (muito frequente em frases com verbos interrogativos como núcleo do grupo verbal, ou associados ao domínio semântico do 'saber') e de 'que'.
         A este propósito, retomo uma pequena sistematização acerca das subordinadas completivas, que pode ser esclarecedora:

in CARDOSO, Ana M. et al. (2010) - Com Textos 10, Porto, Asa Editores
(clicar em cima da imagem para a visualizar em tamanho maior)

        Não sei se fui esclarecedor (cá está o 'se' completivo), mas admito que a aplicação dos testes resolva muitos casos que pareçam dúbios (e, para fechar em beleza, um 'que' completivo - o que se segue a 'admito', porque do último, depois de 'casos', a história é outra). Espero ter 'completado' bem a missão.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Existência e absurdo

        105 anos: em terras da Irlanda (Dublin) Samuel Beckett nascia.

      Nome para um romancista e dramaturgo irlandês, Beckett cedo se cruzou com as línguas e os estudos franceses e italianos; foi professor e conheceu James Joyce. Dir-se-ia que, por isto, o currículo já era significativo.
       Na escrita,e como poeta, publicou o monólogo dramático Whoroscope; foi ensaísta; assinou a autoria de More Pricks Than Kicks (1934), Murphy (1938), Molloy (1951), Malone Meurt (1951) e L'Innommable (1953), Watt (1953), ao nível da narrativa; En Attendant Godot (1952), Fin de Partie (1957), Krapp's Last Tapee (1959) e Oh Les Beaux Jours (1961), entre os textos dramáticos mais consagrados e que o tornaram num dos nomes de referência ao nível do teatro.
Quadro de Roger Cummiskey
Apenas as palavras quebram o silêncio, todos os outros sons cessaram. Se eu estivesse silencioso, não ouviria nada. Mas se eu me mantivesse silencioso, os outros sons recomeçariam, aqueles a que as palavras me tornaram surdo, ou que realmente cessaram. Mas estou silencioso, por vezes acontece, não, nunca, nem um segundo. Também choro sem interrupção. É um fluxo incessante de palavras e lágrimas. Sem pausa para reflexão. Mas falo mais baixo, cada ano um pouco mais baixo. Talvez. Também mais lentamente, cada ano um pouco mais lentamente. Talvez. É-me difícil avaliar. Se assim fosse, as pausas seriam mais longas, entre as palavras, as frases, as sílabas, as lágrimas, confundo-as, palavras e lágrimas, as minhas palavras são as minhas lágrimas, os meus olhos a minha boca. E eu deveria ouvir, em cada pequena pausa, se é o silêncio que eu digo quando digo que apenas as palavras o quebram. Mas nada disso, não é assim que acontece, é sempre o mesmo murmúrio, fluindo ininterruptamente, como uma única palavra infindável e, por isso, sem significado, porque é o fim que confere o significado às palavras.

Samuel Beckett, in Textos para Nada

      E, para fechar o currículo em beleza, surge o Prémio Nobel da Literatura em 1969.

      Um dia e um escritor para serem lembrados, pelo que a existência dá - na realização e no absurdo.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Nomes e seus complementos

     A propósito da expansão do grupo nominal, regresso à reflexão sobre modificadores e complementos do nome.

    Q: Confrontando frases, surgiu-me uma dúvida que não tenho conseguido esclarecer sozinha:
     i) na frase 'A pesca baleeira tem vindo a aumentar', 'baleeira' é o complemento do nome "pesca" no grupo nominal 'a pesca baleeira';
     ii) na frase 'Adoro flores frescas e coloridas', 'frescas e coloridas' é considerado pelo DT como um modificador restritivo, o que eu entendo com facilidade.
    A questão é: por que motivo não é também 'baleeira' modificador restritivo na frase já referida? Isto, porque, a meu ver, 'baleeira' restringe a 'pesca', afunila o tipo de pesca, excluindo as pescas que não as da baleia. Ou melhor, se afirmarmos que a pesca tem vindo a aumentar, podemos estar a cometer uma imprecisão, se toda a pesca estiver a decrescer, salvo um tipo de pesca, a da baleia. Assim, parece-me que o GAdj (baleeira) restringe a ideia “alargada” de “pesca”, bem como acontece com 'frescas e coloridas', que restringe, afunila também a ideia de flores.

       R: Suponho que a dúvida se prenda mais com a colocação dos adjectivos (pós nominais) e a informação que comportam. Todavia, a classificação de complemento de nome, conforme a designação o aponta, prende-se com o núcleo do grupo nominal, isto é, os tipos de nome e os elementos por este requeridos na estrutura argumental.
        Ao focalizar-se o nome, concluir-se-á que este selecciona complementos (considerando a tipologia de nomes já aqui apontada) ou, então, é acompanhado por modificadores.
     No caso da primeira frase, aparece um grupo nominal, 'A pesca baleeira', cujo núcleo é um nome eventivo (decorrente de uma forma verbal -'pescar'-, por derivação não afixal, ou a tradicional derivação regressiva). Esta propriedade está implicada no verbo que deriva em nome, pois a estrutura argumental do verbo 'pescar' é transitiva [alguém PESCAR alguma coisa]. Assim, o nome derivado ('pesca') selecciona também um complemento assente no papel temático de agente ou de objecto.
     O mesmo não sucede com o nome 'flor(es)', uma vez que este último não pertence a nenhum dos tipos nominais associados a complementos; daí 'frescas e floridas' funcionar como modificador interno ao grupo nominal (na base da restrição, ou seja, 'Adoro apenas as flores frescas e coloridas'; as que não têm tais características não são adoradas).

    Mais do que a expansão, interessa ver o núcleo, a essencialidade. Esta é uma questão fundamental, lógica, para a classificação sintáctica de qualquer termo, nomeadamente dos grupos de palavras e dos elementos que o compõem.

domingo, 10 de abril de 2011

(Des)acordo... mas só na ortografia

      A passagem para novo (?) Acordo Ortográfico e a sua aplicação no ensino-aprendizagem da língua materna terá no próximo ano lectivo muito a dizer e a fazer...

     As relações da ortografia com outros domínios é uma questão que levantará muitas dúvidas. Na verdade, o futuro dirá até que ponto foi facilitada a aprendizagem da língua materna com a mensagem publicitada de que o modo como se fala passa a ter relações directas com o modo como se escreve. Nunca foi assim; não será assim.
    Assuma-se a convencionalidade da escrita. Outras relações podem tornar-se 'liaisons dangereuses'.

    Q: A palavra "anti-rugas", p.ex., que dizíamos derivada por prefixação, com o acordo ortográfico, fica "antirrugas", certo? Continuamos a referir o mesmo processo de formação? É que, se antes os alunos, não conhecendo a história da língua, já não sabiam o que eram palavras ou prefixos, agora ainda vai ser mais difícil, acho eu!

     R: É verdade que a perda de consciência das regularidades morfológicas, sintácticas e semânticas é um dado a considerar, enquanto factor da própria evolução da língua. Se assim não fosse, não haveria lugar à consideração de um conceito operacional como o da 'lexicalização', por exemplo.
      A forma 'antirrugas' é aquela para que o acordo aponta, havendo apenas a manutenção de hífen nos casos em que a base derivante inicia com 'h' (ex.: anti-higiénico) ou com a mesma vogal do prefixo (ex.: anti-ibérico). Trata-se de um exemplo que obedece ao princípio do ponto 2º da Base XVI:
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BASE XVI: DO HÍFEN NAS FORMAÇÕES POR PREFIXAÇÃO, RECOMPOSIÇÃO E SUFIXAÇÃO
1Nas formações com prefixos (como, por exemplo: ante-, anti-, circum-, co-, contra-, entre-, extra-, hiper-, infra-, intra-, pós-, pré-, pró-, sobre-, sub-, super-, supra-, ultra-, etc.) e em formações por recomposição, isto é, com elementos não autónomos ou falsos prefixos, de origem grega e latina (tais como: aero-, agro-, arqui-, auto-, bio-, eletro-, geo-, hidro-, inter-, macro-, maxi-, micro-, mini-, multi-, neo-, pan-, pluri-, proto­, pseudo­, retro-, semi-, tele-, etc.), só se emprega o hífen nos seguintes casos:
a) Nas formações em que o segundo elemento começa por hanti-higiénico/anti-higiênico, circum-hospitalar, co-herdeiro, contra-harmónico/contra-harmônico, extra-humano, pré-história, sub-hepático, super-homem, ultra-hiperbólico; arqui­hipérbole, eletro-higrómetro, geo-história, neo-helénico/neo-helênico, pan-helenismo, semi-hospitalar.
b) Nas formações em que o prefixo ou pseudoprefixo termina na mesma vogal com que se inicia o segundo elemento: anti-ibérico, contra-almirante, infra-axilar, supra-auricular; arqui-irmandade, auto-observação,eletro-ótica, micro-onda, semi-interno.

2Não se emprega, pois, o hífen:
a) Nas formações em que o prefixo ou falso prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por r ou s, devendo estas consoantes duplicar-se, prática aliás já generalizada em palavras deste tipo pertencentes aos domínios científico e técnico. Assim: antirreligioso, antissemita, contrarregra, contrassenha, cosseno, extrarregular, infrassom, minissaia, tal comobiorritmo, biossatélite, eletrossiderurgia, microssistema, microrradiografia.
b) Nas formações em que o prefixo ou pseudoprefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por vogal diferente, prática esta em geral já adotada também para os termos técnicos e científicos. Assim: antiaéreo, coeducaçao, extraescolar, aeroespacial, autoestrada, autoaprendizagem, agroindustrial, hidroelétrico, plurianual
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     No que toca ao processo de formação da palavra, naturalmente que se continuará a dizer que 'antirrugas' é uma palavra derivada por prefixação. 
    A questão da convenção escrita é distinta da que diz respeito ao domínio da formação de palavras. É verdade que a junção gráfica prefixo-base pode comprometer a consciência sincrónica do termo, mas essa questão já se levantava antes do acordo, com situações análogas. Entre falantes contemporâneos, muitos já não reconhecerão intuitivamente a formação de certas palavras, para não dizer que se tiravam conclusões erradas a partir do que era intuitivo ou imediatamente observável (chegou-se, por exemplo, a diferenciar processos morfológicos pela presença / ausência de hífen - lembro-me do que diziam certas gramática e manuais relativamente ao que era justaposição / aglutinação) Ouvia-se dizer que 'contra-informar' era uma palavra composta por justaposição (e não o era); que 'girassol' era aglutinada, e também não o era. 
    Enfim, aprendizagens que alguns conseguiram reciclar e reorientar; outros não, porque se mantiveram agarrados ao que aprenderam (mal) e repetiram por simplesmente ver reproduzido em materiais de qualidade questionável. 
     Em síntese: os receios adiantados não são nada que já não tivesse acontecido antes. Quem sabe que 'anti-' é um prefixo, conforme o próprio acordo o diz na Base XVI, sabe também que a palavra que o contiver terá de ser derivada. Estar junto à base é convenção ortográfica, tal como o é a duplicação de 'r', para a manutenção do som [R] com o qual iniciam palavras como 'rugas' (ou qualquer outra assim iniciada).
     Assim, a pergunta deve ser reconduzida para a necessidade de formação dos que vão ensinar com a língua materna, em geral, e de Língua Portuguesa / Português, em particular (seja na fase inicial seja na contínua, para não dizer ao longo da vida). Não se passou assim connosco? Pois há-de acontecer com os vindouros. Que procurem bem, que sejam bem formados e que descubram o que deve e como deve ser ensinado da melhor forma. Os que aprendem irão confrontar-se com dúvidas, irão perguntar e ficarão ou não satisfeitos com a resposta face às necessidades que vão ser criadas

    ... mas não devemos chamar para nós, professores de língua materna, mais do que deve ser feito. O problema é bem mais transversal. Por outro lado, em termos da nossa especificidade, há que reconhecer que o domínio da ortografia é um; outros domínios (como o morfológico) são outros domínios. E a misturar muito, o bolo vai sair torto, por certo.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Como os tempos se repetem... se é que mudaram!

      No reencontro com algumas páginas desse grande romance intitulado Os Maias, de Eça de Queirós...

     Já me perguntei se não estarei dominado pelo romântico mito do eterno retorno. Pode ser trágico o retorno do passado para um presente que indicia retrocessos na sua evolução (por mais ambíguo ou contraditório que isto possa parecer) ou no seu simples fluir - leia-se Frei Luís de Sousa, de Garrett, para assim se concluir.
      E que dizer de umas simples linhas como estas, no capítulo VI do romance queirosiano?

   «Ega ia fulminá-lo. Mas, vendo que o Cohen dava um sorriso enfastiado e superior a estas controvérsias de literaturas, calou-se; ocupou-se só dele, quis saber que tal ele achava aquele St. Emilion; e, quando o viu confortavelmente servido de sole normandelançou com grande alarde de interesse esta pergunta:
    – Então, Cohen, diga-nos você, conte-nos cá... O empréstimo faz-se ou não se faz?
    E acirrou a curiosidade, dizendo para os lados que aquela questão do empréstimo era grave. Uma operação tremenda, um verdadeiro episódio histórico!...
   O Cohen colocou uma pitada de sal à beira do prato, e respondeu, com autoridade, que o empréstimo tinha de se realizar «absolutamente». Os empréstimos em Portugal constituíam hoje uma das fontes de receita, tão regular, tão indispensável, tão sabida como o imposto. A única ocupação mesmo dos ministérios era esta – «cobrar o imposto» e «fazer o empréstimo». E assim se havia de continuar...
   Carlos não entendia de finanças: mas parecia-lhe que, desse modo, o país ia alegremente e lindamente para a bancarrota.
     – Num galopezinho muito seguro e muito a direito – disse o Cohen, sorrindo. – Ah, sobre isso, ninguém tem ilusões, meu caro senhor. Nem os próprios ministros da Fazenda!... A bancarrota é inevitável: é como quem faz uma soma...
     Ega mostrou-se impressionado. Olha que brincadeira, hem! E todos escutavam o Cohen. Ega, depois de lhe encher o cálice de novo, fincara os cotovelos na mesa para lhe beber melhor as palavras.
      – A bancarrota é tão certa, as coisas estão tão dispostas para ela – continuava o Cohen – que seria mesmo fácil a qualquer, em dois ou três anos, fazer falir o país...»


    Qualquer semelhança com a realidade não é pura coincidência.
    Diga-se que a literatura é ficção, sempre foi e será; mas quando o tempo alternativo se conjuga tão bem com o real não deixa de ser uma verdade a (re)viver, seja no momento da produção (marcado por um paradigma cientificista e positivista) seja no da leitura e da contemporaneidade (a que o futuro e a História virão a designar com um '-ismo' a estudar). Disto também se fazem as grandes obras.

   Entre máscaras, desencantos, desenganos e desilusões, lá vamos a correr (para não desistir) à procura de um novo "americano", esquecendo de novo o "paiozinho".

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Estão literalmente a dar-me música... boa e a bem!

     Dedicaram-me a música. Só uma amiga o podia fazer, por saber o que sinto agora.

    Afastado, por força e por exaustão, do que mais gosto de fazer (ensinar), este estado só tem de bom saber que há muita gente que, afinal, gosta de mim. Não que o não soubesse já; mas a condição de fragilidade é tão grande que, nestas alturas, qualquer ser humano procura força, energia nos postais  endereçados, nas fatias de bolo oferecidas, nas amêndoas que sempre adoçam as relações, nas palavras e nos actos revelados, na bonança e na primavera soalheira feitas desejos, nos afectos e nas saudades sentidos.
    E, além disto tudo, também me dão música... literalmente... tão apropriada ao que vivo. Parece que foi feita para mim (não fosse haver muitos que passaram, passam e passarão pelo mesmo).

      
       Hoje ouvi muitas vezes esta canção. Se já o tinha feito, hoje vivia-a com outro(s) sentido(s).

DÁ-ME UM ABRAÇO

Dá-me um abraço que seja forte
E me conforte a cada canto
Não digas nada que nada é tanto
E eu não me importo

Dá-me um abraço, fica por perto
Neste aperto, tão pouco espaço
Não quero mais nada, só o silêncio
Do teu abraço

Já me perdi, sem rumo certo,
Já me venci pelo cansaço
E estando longe
Estive tão perto
Do teu abraço

Dá-me um abraço, que me desperte
E me aperte, sem me apertar
Que eu já estou perto, abre os teus braços...
Quando eu chegar

É nesse abraço que eu descanso
Esse espaço que me sossega
E quando possas dá-me outro abraço
Só um não chega

     Desta forma, e graças a um gesto e preocupação de amiga (a quem estarei sempre especialmente reconhecido pelas partilhas já vividas), aproveito para agradecer a todos os que se têm preocupado comigo, manifestando os votos de melhoras. Hei-de, tenho que dar a volta; mas só com e no tempo (esse meu terrível gestor) em que eu possa superar as ondas de fragilidade que me cobriram e contra as quais me sinto, como sobrevivente em pequeno bote, a remar, sem chegar a ver (ainda) a linha do horizonte.

    Porque há abraços (para dar e receber) e porque há sempre aqueles que comigo estão (nos bons e maus momentos), faz sentido manter-me a remar, ainda que em ritmo lento.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Memória(s) de ouvido

       Dos tempos da adolescência, ficou uma grande voz...

      Elis Regina (ou a mais familiar "Pimentinha"), cujo nascimento a 17 de Março de 1945 hoje lembro, era a voz de "Fascinação", "Eu sei que vou te amar", "Águas de Março", "Alô, Alô, Marciano", "Madalena" - melodias que passavam na rádio e na televisão; que rodavam no gira-discos lá de casa, ainda em vinis de 45 rotações.
      De tanto uso, um ou outro ficou inutilizado; mas ficou gravado na memória auditiva: "Os sonhos mais lindos sonhei. / De quimeras mil um castelo ergui...", "Eu sei que vou te amar / Por toda a minha vida eu vou-te amar / Em cada despedida eu vou-te amar / Desesperadamente eu sei que vou-te amar...", "Alô, Alô, Marciano / Aqui quem fala é da terra / P'ra variar estamos em guerra...", "Ó Madalena, o meu peito percebeu / que o mar é uma gota / comparado ao pranto meu...".



É pau, é pedra, é o fim do caminho
é um resto de toco, é um pouco sozinho
é um caco de vidro, é a vida, é o sol
é a noite, é a morte, é um laço, é o anzol
é peroba do campo, o nó da madeira
caingá, candeia, é o Matita Pereira


É madeira de vento, tombo da ribanceira
é o mistério profundo
é o queira ou não queira
é o vento ventando, é o fim da ladeira
é a viga, é o vão, festa da cumeeira
é a chuva chovendo, é conversa ribeira
das águas de março, é o fim da canseira
é o pé, é o chão, é a marcha estradeira
passarinho na mão, pedra de atiradeira

Uma ave no céu, uma ave no chão
é um regato, é uma fonte
é um pedaço de pão
é o fundo do poço, é o fim do caminho
no rosto o desgosto, é um pouco sozinho

É um estrepe, é um prego
é uma ponta, é um ponto
é um pingo pingando
é uma conta, é um conto
é um peixe, é um gesto
é uma prata brilhando
é a luz da manhã, é o tijolo chegando
é a lenha, é o dia, é o fim da picada
é a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
é o projeto da casa, é o corpo na cama
é o carro enguiçado, é a lama, é a lama
é um passo, é uma ponte
é um sapo, é uma rã
é um resto de mato, na luz da manhã
são as águas de março fechando o verão
é a promessa de vida no teu coração

É pau, é pedra, é o fim do caminho
é um resto de toco, é um pouco sozinho
é uma cobra, é um pau, é João, é José
é um espinho na mão, é um corte no pé
são as águas de março fechando o verão
é a promessa de vida no teu coração

É pau, é pedra, é o fim do caminho
é um resto de toco, é um pouco sozinho
é um passo, é uma ponte
é um sapo, é uma rã
é um belo horizonte, é uma febre terçã
são as águas de março fechando o verão
é a promessa de vida no teu coração

É pau, é pedra, é o fim do caminho
é um resto de toco, é um pouco sozinho

Pau, pedra, fim do caminho
resto de toco, pouco sozinho

Pedra, caminho
Pouco sozinho

Pedra, caminho
É o toco


      Registos de um tempo revivido num tristonho Março, que bem podia ser Janeiro - o mês da morte da cantora (17 de Janeiro de 1982) -, entre o frio e o molhado, com "águas são de Março", mas "não fecham o verão". Grande música, grande voz, grande canção.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Camilo: o que preferiu os ladrões às bestas?

      No dia do nascimento de um dos maiores novelistas da Literatura Portuguesa.

     O tempo vai apagando alguns sinais da memória. De figura proeminente nos programas de ensino do Português, no século passado, hoje Camilo Castelo Branco é figura praticamente residual no conhecimento que os alunos detêm sobre um dos maiores românticos nacionais. E, no entanto, quando alguns deles se cruzam com narrativas camilianas, a reacção não deixa de ser positiva, por vezes até intensa. O mesmo aconteceu com grandes escritores.
     Há 186 anos nascia quem viria a ficar órfão de mãe e de pai, aos dois e nove anos, respectivamente. As letras adoptaram-no, depois de um curso de Medicina abandonado no segundo ano, bem como outro de Teologia no Seminário Principal. Na poesia, no teatro, no jornalismo, nos romances ou nas novelas, Camilo não deixou de se afirmar como um exemplo, sem esquecer o polemista que, nas décadas de cinquenta e sessenta do século XIX, revelou um exercício de escrita e um domínio da palavra notáveis.
    Considerado por alguns como o primeiro escritor profissional, o autor de Amor de Perdição (1862) foi um retratista de costumes, de linguagens, de vivências, sendo capaz de os transpor para o escrito com matizes de uma oralidade que Alexandre Herculano e Eça de Queirós não deixaram de explorar, em tendências literárias (romantismo e realismo-naturalismo) que se confrontaram.
    A cegueira viria a limitar Camilo, a ponto de este pôr termo à sua vida, pintada do aventureirismo, do inconformismo, da boémia, da intensidade passional e da consciência do conflito de forças que grassa no ser romântico. Sentiu-se sem a íris que o ligava à vida ou a janela que lhe alimentava a alma; sem os amigos que o abandonaram, como o registou num dos seus últimos poemas.
    Assim se revelou "um Homem do Norte":

  
     Não admira, portanto, que numa das suas cartas tenha testamentado o seu desejo de sepultura no Cemitério da Lapa (conforme o testemunha carta a um amigo).

  
    Se, com a imagem da morte, cumpre o romântico o tópico da fuga ao seu infortúnio, Camilo Castelo Branco assim o fez para a vida que hoje é lembrada.

     Talvez na mente do autor primasse o provérbio "Antes a morte que a má sorte"; mas, para muitos dos seus leitores do tempo, talvez fosse mais adequado um sentido possível para "O que a vida nos dá a morte nos tira".

terça-feira, 8 de março de 2011

Um "criativo", um criador, um criado...

        Há dias cuja criação é mais humana que divina, e talvez por trás do homem não deixe de estar uma força que o transcende.

      Este é o sentido das palavras que Pessoa escreveu a Adolfo Casais Monteiro, a propósito da criação heteronímica:

      "Aí por 1912, salvo erro (que nunca pode ser grande), veio-me à ideia escrever uns poemas de índole pagã. Esbocei umas cousas em verso irregular (não no estilo Álvaro de Campos, mas num estilo de meia regularidade), e abandonei o caso. Esboçara-se-me, contudo, numa penumbra mal urdida, um vago retrato da pessoa que estava a fazer aquilo. (Tinha nascido, sem que eu soubesse, o Ricardo Reis.)
       Ano e meio, ou dois anos depois, lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro – de inventar um poeta bucólico, de espécie complicada, e apresentar-lho, já me não lembro como, em qualquer espécie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira – foi em 8 de Março de 1914 – acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive. E tanto assim que, escritos que foram esses trinta e tantos poemas, imediatamente peguei noutro papel e escrevi, a fio, também, os seis poemas que constituem a Chuva Oblíqua, de Fernando Pessoa. Imediatamente e totalmente... Foi o regresso de Fernando Pessoa-Alberto Caeiro a Fernando Pessoa ele só. Ou, melhor, foi a reacção de Fernando Pessoa contra a sua inexistência como Alberto Caeiro. (…)
      Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir – instintiva e subconscientemente – uns discípulos. Arranquei do seu falso paganismo o Ricardo Reis latente, descobri-lhe o nome, e ajustei-o a si mesmo, porque nessa altura já o via. E, de repente, e em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo. Num jacto, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a Ode Triunfal de Álvaro de Campos – a Ode com esse nome e o homem com o nome que tem.
         Criei, então, uma coterie inexistente. Fixei aquilo tudo em moldes de realidade. Graduei as influências, conheci as amizades, ouvi, dentro de mim, as discussões e as divergências de critérios, e em tudo isto me parece que fui eu, criador de tudo, o menos que ali houve."

Fernando Pessoa, in Obra Poética e em Prosa, ed. António Quadros,
Porto, Lello & Irmão, 1986


     Também nos dias em que nos sentimos muito produtivos nada parece poder deter-nos. E quantas vezes assim começamos o dia para, no fim, desejarmos um pouco de terra, um instante sem ter que pensar, um repouso que nos comande até ao son(h)o, um balanço que relativize o excesso a que nos obrigaram ou a que nos demos.

      Coisas de tanta(s) pessoa(s) / Pessoa(s), e que também alimentam a arte do Homem Moderno.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Quando parece igual...

     Apetecia-me dizer "Atrás de mim virá quem te ensinará", mas é melhor justificar o que eu ganho. E a questão é irrecusável (pela questão e por quem a formula).

     Por isso, vou-me e dou-me ao trabalho (... trabalho e mais trabalho). Por que razão me lembrei eu disto?!

  Q: Olá, professor! Tenho uma dúvida... Qual a diferença, se houver, entre "experienciar" e "experimentar"? Segundo o dicionário online da Língua Portuguesa, pelo que percebi, não há grande diferença. Obrigada! Continuação de umas óptimas "férias" !

      R: Prezadíssima aluna, que felicidade! Uma dúvida! Eu tenho tantas... Vamos lá ver se (me) saio bem desta.
      No geral, diria que o que foi concluído da consulta faz sentido. O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa assume mesmo que 'experienciar' é o mesmo que 'experimentar'; outros tomam o primeiro termo como uma das acepções a contemplar no segundo.
      Todavia, no que toca à sinonímia, esta última não é perfeita nem total. Há frases em que a permuta dos vocábulos resulta bem:
      i) Experienciei uma sensação única na viagem a Itália.      
      ii) Experimentei uma sensação única na viagem a Itália.
         O mesmo não sucede noutros casos:
     iii) Experimentei um fato novo [mas * Experienciei um fato novo]
     iv) Experimentei as chaves todas e a porta não abriu [mas *Experienciei as chaves...]
     Assim, parece que 'experienciar' é um termo que combina melhor com palavras tendencialmente abstractas (ex.: sensação), enquanto 'experimentar' apresenta um leque mais abrangente de sentidos, combinatórias (nomeadamente com vocábulos de significado mais concreto).
     Outras diferenças residem mais em aspectos etimológicos e morfológicos. 'Experimentar' provém do termo latino 'experimentāre' (que sofreu evoluções, ainda que poucas, em termos sonoros e articulatórios), enquanto 'experienciar' é um verbo formado a partir de 'experiência' (por derivação com sufixação).
      Em suma, digo que se 'experimenta' um prato, uma comida e se 'experiencia' a sensação (agradável ou não) desse prato, dessa comida. 'Experienciar' está para o abstracto como para a vida, as sensações, os sentimentos; 'experimentar' cabe em situações de testagem, experiência, uso, ensaio, prova, comida e bebida, passagem, com noções tanto concretas como abstractas.
     (E deseja-me "boas férias" - e óptimas! Porquê? Onde? Quando? Como? Quem? Que eu saiba, só houve pausa lectiva - expressão, aliás, ambígua, porque a pausa que houve na actividade lectiva - o que me fez não ter de ir à escola - não deixou de ser uma pausa lectiva; ou seja, pausa para continuar a ensinar. Eis a prova - aqui está ela.)
      Espero ter sido esclarecedor.

     Qualquer dia começo a dar razão a quem já defendeu que não era necessário haver salas de aulas (Cala-te boca, para não dares ideias, e acabarem por descobrir que as escolas novas que estão a construir não são precisas. Ai! Não penses, não fales, não escrevas!). 

domingo, 6 de março de 2011

Entre Bibliotecas e Florestas

     De comum, a tela da representação, na conjugação de traços e imagens, quais livros ou árvores à espera de leitores e pássaros.

     O nome é português, a mulher é lisboeta e francesa, a arte é universal, na conjugação dos pontos, dos círculos, dos quadrados, da luz, do emaranhado de tons, linhas e figurações que evocam heranças culturais e vivências que entrecruzam Portugal, Brasil e França.

Criado em 28/11/2008 por jomarvaz

     Maria Helena Vieira da Silva faleceu a 6 de Março de 1992, com 84 anos por fazer.

   E porque a morte é também figuração da arte, fica a reminiscência de uma portuguesa que se deu ao mundo. 

sábado, 5 de março de 2011

Será o mito do eterno retorno?

     Talvez nunca se tenha falado tanto do Festival da Canção da RTP1, nos últimos tempos. Ainda bem!

     As reacções são de todo o tipo. 
    Já viste quem ganhou? O que é isto? Que figura é esta? Eles não desafinam? As interrogações dos mais velhos..., isto para não dar conta de outras apreciações que diziam não haver juízo, não ser assim que vamos ganhar (ainda há crentes!).
    As mensagens dos mais jovens - entre a ironia, a inconsciência e o espírito do inconformismo - vão desde o simples "Que lindo!", "Palhaços" e "Reis!" ao registo que marca uma vitória. 
    A minha teoria vai mais no sentido de todo um cenário recriado (o da manifestação que nunca é, por certo, afinada, ainda que todos pareçam ir na mesma direcção); de um espírito de luta (que é alegria); de um grito disfarçado de chalaça; de uma "pedrada no charco"; da queirosiana revolução de mentalidades, para reagir a uma "choldra ignóbil" que persiste (ou se reafirma) desde os finais do século XIX.
   A letra da canção tem de tudo, menos da inocência dos incautos. A par de uns famosos e conhecidos 'Deolinda', nos últimos tempos (de Geração Parva ou À Rasca), os 'Homens da Luta' em tudo me fizeram pensar e lembrar as cantigas de intervenção.
    Ecoaram, na minha mente, as palavras do Principal Sousa (um dos "reis do Rossio", do poder instituído que se vê ameaçado em Felizmente Há Luar!, de Luís de Sttau Monteiro):   "... o povo canta pelas ruas canções subversivas". Ou as de Miguel Forjaz (outro dos "reis"): "Os estados emotivos... dependem da música que se tem nos ouvidos". Até as do antigo soldado (um dos populares oprimidos): "Estas cantigas são inventadas / no regimento de Freire d'Andrade / São cantadas com o estilo / De lá ré ó liberdade".
    A "cantiga é uma arma", disse-o José Mário Branco. Para um contexto de ditadura (noite), a reacção melódica fez-se com várias canções e a várias vozes: a de Zeca Afonso, Sérgio Godinho, Paulo de Carvalho, Fernando Tordo e tantos outros que convocaram o espírito crítico, a liberdade e a "Madrugada" que um Duarte Mendes (um dos soldados de Abril) viria a celebrar. Para um contexto democrático (dia), outras vozes se fazem ouvir, no desconcerto que o presente faz (re)viver. Jel, na letra, e Vasco Duarte, na música, evocam o tempo dos cravos que trazem ao peito.

Final do Festival RTP da Canção - 2011

     A LUTA É ALEGRIA

Por vezes dás contigo desanimado
Por vezes dás contigo a desconfiar
Por vezes dás contigo sobressaltado
Por vezes dás contigo a desesperar

De noite ou de dia, a luta é alegria
E o povo avança é na rua a gritar

De pouco vale o cinto sempre apertado
De pouco vale andar a lamuriar
De pouco vale um ar sempre carregado
De pouco vale a raiva para te ajudar

De noite ou de dia, a luta é alegria
E o povo avança é na rua a gritar

E traz o pão e traz o queijo e traz o vinho
E vem o velho e vem o novo e o menino
E traz o pão e traz o queijo e traz o vinho
E vem o velho e vem o novo e o menino
Vem celebrar esta situação e vamos cantar contra a reacção
Vem celebrar esta situação e vamos cantar contra a reacção

E traz o pão e traz o queijo e traz o vinho
E vem o velho e vem o novo e o menino
E traz o pão e traz o queijo e traz o vinho
E vem o velho e vem o novo e o menino

Não falta quem te avise «toma cuidado»
Não falta quem te queira mandar calar
Não falta quem te deixe ressabiado
Não falta quem te venda o próprio ar

De noite ou de dia, a luta é alegria
E o povo avança é na rua a gritar

E traz o pão e traz o queijo e traz o vinho
E vem o velho e vem o novo e o menino
E traz o pão e traz o queijo e traz o vinho
E vem o velho e vem o novo e o menino

Vem celebrar esta situação e vamos cantar contra a reacção
Vem celebrar esta situação e vamos cantar contra a reacção
Vem celebrar esta situação e vamos cantar contra a reacção
Vem celebrar esta situação e vamos cantar contra a reacção

E traz o pão e traz o queijo e traz o vinho
E vem o velho e vem o novo e o menino
E traz o pão e traz o queijo e traz o vinho
E vem o velho e vem o novo e o menino
A luta continua


    Não me espanto se, daqui a uns tempos, alguém disser que este ritmo (entre o folclore, a marcha revolucionária e o corridinho de toque popular) foi o de uma canção que inspirou a mudança por muitos desejada (estão lá as figuras do campesinato, do soldado, do revolucionário, de um sugestivo "Zeca Afonso", de uma artista da moda que "dá nas vistas", do metalúrgico); que fez da luta alegria e um convite à acção - e que, para o bem e para o mal, se fará ouvir na Eurovisão.

     Mudar... sem rodar. Porque de rotativismo político também os finais do século XIX se marcaram. E o resultado não foi dos mais famosos para um país que "se perdeu".

sexta-feira, 4 de março de 2011

De um exercício que de duvidoso tem pouco

      É bom discutir as certezas e as incertezas que se tem.

     Desta feita, a dúvida nasce de um exercício e das suspeitas que ele levanta.

    Q: Colega, gostaria que se pronunciasse sobre a seguinte frase, mais o exercício construído para uma turma de 12º ano. Suponho que a resposta correcta seja a c), mas não se trata de uma solução pacífica no meu grupo de trabalho. Podia dar-me conta da sua opinião e da devida justificação? 
        Agradecida.
__________________________________


FRASE: Descobriu-se recentemente que as células estaminais têm o poder de curar doenças mortais, que são "semente" de tecido e órgãos nobres, que podem dar vida a quem perspectivava sofrimento e morte.


Na frase proposta, os três "que" lá presentes são...
a) completivos os dois primeiros e relativo o segundo.
b) todos relativos.
c) todos completivos.
d) causais os dois primeiros e relativo o último.
___________________________________

      R: Considerando a frase e o exercício facultados, concordo com a solução c). Vejo uma construção apoiada numa enumeração sintáctica, a qual contempla três complementos directos para o verbo 'descobrir'. Esquematicamente, apresentaria os constituintes sintácticos do enunciado da seguinte forma:
    . Descobriu-se recentemente [três coisas]
        a) que as células estaminais têm o poder de curar doenças mortais,
        b) que (as células estaminais) são "semente" de tecido e órgãos nobres,
        c) que (as células estaminais) podem dar vida a quem perspectivava sofrimento e morte.
     Assim, em jeito de conclusão, diria que:
  i) o predicado apresenta três subordinadas completivas (enumeradas, segundo um mecanismo de coordenação assindética);
    ii) as segunda e terceira subordinadas completivas evidenciam um mecanismo de elipse do grupo nominal 'as células estaminais' (que configura o sujeito sintáctico das três subordinadas);
   iii) não existe co-referência entre o segundo 'que' e 'doenças mortais' (as quais, naturalmente, não são 'semente de tecido e órgãos nobres') nem entre o terceiro 'que' e 'semente de tecido e órgãos nobres' (pela incompatibilidade de concordância sintáctica entre singular e plural: '*semente de tecido e órgãos nobres podem dar vida...').
    Espero ter sido esclarecedor na explicitação. A complexidade da frase (com seis orações distintas) e a sua extensão requerem, de facto, um exercício de desmontagem e a consciência de um paralelismo sintáctico visível nas alíneas a) a c).

    Trata-se de um caso que, naturalmente, exige manipulação, treino e uma abordagem progressiva na extensão frásica.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Quando o verbo comanda...

     Voltando ao governo do verbo e dos seus governados.

     As dúvidas persistem, relativamente ao que é modificador ou complemento em determinadas frases.

     Q: Na frase "Os alunos chegaram tarde às aulas", 'tarde' e 'às aulas' são ambos modificadores ou complementos?


    R: Nem uma nem outra hipótese ou, então, uma mistura de ambas. Ou seja, há um modificador e um complemento.
    O ponto de partida é o da consideração da estrutura argumental do verbo 'chegar'. Em termos lógicos, este é um verbo bivalente: selecciona um argumento na posição de sujeito sintáctico, mais outro na de complemento (Alguém / Algo [X] CHEGA a algum sítio [Y]). Independentemente da realização frásica os contemplar ou não, esta é a valência básica seleccionada, a qual satura a dimensão lógico-semântica do verbo em questão, com os papéis semânticos implicados (o agente, por um lado; o alvo ou ponto de destino, por outro).
   Assim, [Y] é configurado por um constituinte na forma de grupo preposicional, com a função de complemento oblíquo (conforme o atestam a interrogação: 'Aonde chegam os alunos? > Às aulas; a pronominalização ou anaforização: 'Os alunos chegam lá / aí' > Às aulas).
   Quanto a 'tarde', trata-se do advérbio que modifica o verbo 'chegar', na função de modificador do predicado. Prova-o não só o facto de não figurar na estrutura argumental mas também o de admitir o teste do pró-verbo 'fazer' (Os alunos chegaram às aulas e fizeram-no tarde).

    E para alguém governar, têm os outros que se deixar subordinar, mesmo que não participem activamente na cena representada. Não é política aquilo de que falo, mas bem que podia ser, no jogo de dependências criado, no teatro composto por protagonistas, actores secundários e meros figurantes.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Camões, grande Camões...

     Há um "tópos" literário cuja ficcionalidade é tão real que faz da vida fonte (mais do que) inspiradora.

       É clássico, com tudo o que isto possa significar.

Hieronymus Bosch, A Nave dos Loucos

ESPARSA

sua ao desconcerto do mundo


    Os bons vi sempre passar
no mundo graves tormentos;
e, para mais m’espantar,
os maus vi sempre nadar
em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
o bem tão mal ordenado,
fui mau, mas fui castigado:
Assi que, só para mim
anda o mundo concertado.


     "Camões, grande Camões", assim o disse Bocage em soneto de cariz autobiográfico, cerca de três séculos depois da escrita camoniana.

     Não é semelhante seu destino ao meu; contudo, no pensamento há grande identidade. Assim o motiva a intemporalidade do mundo (às avessas).

ADD: entre o consistente e o elevado

       Há uma canção de Sérgio Godinho com o título "Pode alguém ser quem não é?"... cada vez a entendo melhor.

     Ao ler uma grelha de avaliação do desempenho docente (ADD), deparei com uns "designados" descritores / evidências que me causaram alguma perplexidade. Ei-los:

  
    Entendo que as duas formulações cimeiras não servem o propósito para que foram produzidas. Falta-lhes luz, claridade, evidência (isto se entender que um descritor de desempenho - para não ser linguagem de moda - se define por um enunciado sintético, preciso e objectivo, indicando o que se espera que o avaliado seja capaz de fazer, no cruzamento de conhecimentos e competências evidenciados em operações de natureza diferenciada, ao nível do saber-fazer, do saber-ser / estar do saber-aprender / formar-se).
    Ora, entre os sinónimos de "consistente", registam-se: sólido, resistente, firme, estável, válido, seguro, coerente (cf. Dicionário de Língua Portuguesa, da Verbo); no mesmo sentido vai o Grande Dicionário da Língua Portuguesa (de Cândido de Figueiredo, publicado pela Bertrand Editora). Acrescenta o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea (da Academia das Ciências de Lisboa) que é a propriedade do que subsiste ou tem duração; que está bem estruturado, que tem uma base bem fundamentada - no fundo, o significado de duradouro previsto no Dicionário Houaiss. Em fonte mais vulgarizada, como o Dicionário de Língua Portuguesa (Porto Editora), o próprio sentido figurado aponta para algo que é credível, constante, estável. Mesmo ao nível do saber popular e coloquial, toma-se tal adjectivo como sendo aquilo que alimenta, que é substancial.
     Torna-se, portanto, dúbio que, num registo de avaliação de desempenho docente, se aponte um 'descritor / evidência', no ponto da realização das actividades lectivas, que inferioriza o 'consistente' ("o docente evidencia consistente conhecimento científico, pedagógico e didáctico inerente à disciplina / área curricular" - patamar 4) face a 'elevado' ("o docente evidencia elevado conhecimento científico, pedagógico e didáctico inerente à disciplina / área curricular" - patamar 5).
   Novamente a consulta de dicionários (na ordem das fontes atrás consideradas) permite concluir que 'elevado' significa aquilo que tem lugar alto, elevação; que é sublime, nobre (isto até me fez lembrar o Peri Hupsous, esse tratado de Pseudo-Longino, descoberto no século XVI, no qual se procurava abordar as origens, as fontes dessa qualidade inefável que é o sublime - princípio tão clássico na abordagem do fenómeno literário); que é superior moral ou intelectualmente (senti a ascese platónica); que tem intensidade, que subiu e atingiu um alto grau; que é forte, excessivo (disto não gostei, por me parecer barroco), subido (não sei até onde, mas por certo não chego lá).
    Em suma, sempre na procura de algum respeito, rigor no sentido das palavras, bem como no que elas reflectem quando de avaliação se trata, deparo com um terreno instável. Devia ser o contrário, até pela necessidade de a avaliação ter de ser o mais transparente possível, para bem dos avaliados e dos próprios avaliadores que necessitam de uma tarefa menos impressiva e pouco clarificada. Qualquer professor entende isto, até pela obrigação e pelo exemplo a dar aos alunos com quem trabalha e avalia; mais ainda, quando está em causa algo que marca um percurso profissional dos seus pares.
    Assim sendo, é de questionar se a pontualidade de um 'elevado' (que possa ser atingido) pode ser preferido relativamente à sistematicidade, à duração implicada no significado de 'consistente'. Voltando ao caso dos alunos, quantos não terão atingido um resultado 'elevado' sem que tenham sido consistentes em resultados posteriores? Não acontecerá o mesmo com professores e com outros profissionais?
     A bem da verdade, é de considerar que um avaliado aprecie bem mais a observação de que desenvolve um trabalho consistente do que a indicação de que teve um desempenho 'elevado' - é, assim, preterido o patamar 5 em favor do 4. Como profissional consciente, atento, preocupado e interessado em avaliar criteriosamente, seria este último patamar (o 4) que gostaria de atingir, sempre na esperança de que não me associassem a um desempenho elevado, o qual significaria que numa, duas, três aulas poderia atingir tal grau (e, possivelmente, não noutras... porque a máquina - que não sou - também falha e avaria); que poderia ser qualificado, no desempenho, de 'sublime', superior moral ou intelectualmente (será esta a elevação que pretendem?) ou mesmo excessivo (eu não queria nada ser assim). De novo, sem qualquer pretensão para tal (a não ser que me achem merecedor disso, o que me honraria) desde já, preferiria o patamar 4. Este garantir-me-ia, pelo menos, que as qualidades seriam duradouras, constantes, credíveis. E que além dos avaliadores, os meus alunos me achariam merecedor de ensinar alguma coisa de uma forma mais contínua e continuada.
     Face ao exposto, e com nova consulta de dicionário, sublinho que matematicamente se diz que algo é consistente quando se apresenta isento de contradição interna (cf. Dicionário de Língua Portuguesa, da Porto Editora). Não é possível entender isto, face ao arrazoado construído. Quando a aprendizagem e a formação são consistentes apontam para uma qualidade que perpassa e até ultrapassa o tempo (que dizer dos velhinhos mestres que tanto nos ensinaram e que nos legaram um saber que a morte não quebrou?). Isso permite construir referenciais. O mesmo não se dirá de um desempenho elevado por si só.
      Apoiado em traços de significado distintos, em critérios heterogéneos, em parâmetros não uniformes, não é evidente (por mais que o descritor se encontre associado a evidências) por que motivo esta grelha de avaliação pretere o 'consistente' ao 'elevado'.
     Conclusão: diz uma expressão popular que a sabedoria da vida está em suportar coisas sem importância (como é o caso desta avaliação de 'faz de conta', proposta por quem quer definitivamente viver de uma imagem pintada com um verniz que estala: a de que tudo se faz, mas sem consistência alguma, e sob a bandeira de uma pretensa qualidade).

     E logo eu tenho que dizer isto, quando sou a favor da avaliação do desempenho docente. Retomo uma expressão do pensamento deste blogue: "luz de fantasia". Resta-me, decididamente, aspirar a mais do que oferece este mundo.