Espera . Procura . Encontros, Desencontros e Reencontros . Passagem com muitas Viagens . Angústias e Alegrias . Saberes e Vivências . Partilhas e Confidências . Amizades sem fim
Após alguns dias de calor intenso, eis que, ao fim da tarde, se anuncia a chuva leve e alguma trovoada - não ribombada, mas num longínquo e sufocado troado surgido logo após um breve clarão disparado no escuro da noite.
Nuvem para multiplicação de luz (Foto - VO)
No cimo, um foco de luz que a ensombrada nuvem não apaga; depois desta, ao fundo, há feixes, raios multiplicados, estendidos para o mar.
Um final de tarde com uma paleta de cores muito diversificada.
Sem medo dos humanos, há aves que se avizinham das mesas e dos caminhos que a elas levam - não vá uma migalhita perdida das mãos e bocas dos clientes servir para debicar e, quem sabe, levar para o ninho, onde outro bico esteja a aguardar alimento.
Petiscando, na esplanada (Foto - VO)
Patinhando em cuidado e sempre atentando nas redondezas, nos intervalos das pequenas pedras do passeio há petiscos que um cliente deixou cair ou um empregado limpou das mesas. Desperdícios humanos; sustento da ave.
Da banda sonora da telenovela Deus Salve o Rei (Globo, 2018), o par romântico Afonso-Amália vivencia toda uma rede de complicações e intrigas palacianas (entre os reinos de Montemor e Artena) que se revê na letra desta canção:
Música do álbum Hearts on Fire (2017), de Gavin James Montagem do filme com imagens da novela 'Deus Salve o Rei' (TV Globo)
WATCH IT ALL FADE
When you let go of love all gone
Save the world or write a story
No one has ever heard, before I knew
When I saw her heart over mine
Fear over somebody, fighting that fear
That you just can't believe
But you need it by living
Castles and islands
All the crowns and the diamonds
I don't think I can find them now
Stay if you want to
Leave if you need to
And watch it all fade
A disputa de tronos e de reinos parece uma versão brasileira de Game of Thrones, na qual as temáticas do poder, do ocultismo, da paixão entre uma plebeia e um nobre, da inevitabilidade do destino, da escassez da água e da afirmação do livre arbítrio e dos valores dignificantes do ser humano (em contraste com as perversões dos maus da fita) se cruzam com registos de comédia bem firmados no carácter de algumas personagens.
No seio de lutas insanas, tudo se dissipa - uma verdade que tem algo mais do que enquadramento telenovelesco.
Publicidade no seu pior... produzida e autorizada por quem não é melhor!
Dificilmente se percebe como alguém deixa que a sua imagem seja "colada" a um cartaz publicitário que deseduca, denigre instituições e resulta no pior do que sejam as virtudes de um "ensino gratuito e subsidiado":
in https://www.facebook.com/photo.php?fbid=1965815846772122&set=a.414110765275979.93757.100000311761998&type=3&theater
Não há curso que resista nem instituição que o legitime. Também não sei quem possa "fazer-se à vida" (a não ser que seja a má vida) com um péssimo exemplo destes - porque quem autoriza uma publicidade destas presta o pior serviço de educação. Já não bastam os casos apontados neste blogue, recorrentes no mesmo tipo de erro, e tinha de vir de Souselas a gota de água a fazer transbordar o copo (conforme se dá a ver na Circular Externa de Coimbra). Um instituto educativo deve preservar-se mais. Nem tudo vale - e separar a terminação 'ste' da base verbal conjugada no pretérito perfeito da segunda pessoal do singular é mais do que repreensível para quem se outorga do direito de trabalhar no futuro de estudantes.
Uma operação de marketing que falhou e que devia ser retirada do circuito, para não falar que alguém devia ser processado por ter prestado um serviço a não repetir.
Desconcertante, no mínimo.
O Instituto Educativo de Souselas perde credibilidade - na língua e na educação que pretensamente quer dar a quem terminou o 9º ano de escolaridade. Não se augura bom futuro.
Há tempos (mais precisamente, há cerca de dois anos e meio) andei por lá.
Fachada e jardins do Vidago Palace (fotos VO)
Prova disso são algumas das fotos que marcaram o momento, imagi-nando o que teriam sido os anos trinta do século XX, com todo o glamour, o imaginário das clas-ses abastadas que frequentavam o es-paço. Na verdade, talvez não seja ina-dequado dizer 'que frequentam', dada a seletividade que persiste, atualmente, no acesso ao interior do hotel. Fiquei-me pelos jardins (e já foi muito bom), por uns momentos breves (que valem para a vida, pelas memórias que o tempo permite reavivar na beleza natural envolvente). O resto foi pura imaginação!
De imaginação e ficção vive também a série reposta esta semana na RTP1: Vidago Palace. Produzida em 2015, com autoria e realização de Henrique Oliveira, ela conta, na contracena, com nomes conceituados nacionais (como Margarida Marinho, João Didelet, Marcantónio Del Carlo e Anabela Teixeira, mais Custódia Gallego, Pedro Barroso, Mikaela Lupu) e da Galiza (entre outros, David Seijo, Eva Fernández, Xosé Antonio Touriñán). Num registo composto por paixões, conflitos políticos, comédia, mistério e suspense, assiste-se a uma intriga localizada no verão de 1936 e nesse espaço homónimo ao título da série - uma das estâncias europeias mais prestigiadas desse período.
Trailer de Vidago Palace - série exibida pela RTP1
No circuito de personagens portuguesas, espanholas, inglesas e alemãs, as férias no hotel espelham o clima fascista de Salazar, as ameaças de Hitler, a guerra civil de Espanha, num prenunciado tempo a preparar a Segunda Guerra Mundial. Central é a relação amorosa de Pedro e Carlota, jovens de classes bem distintas, mas unidos no sentimento e no sentido de vida comuns. Entre os inúmeros obstáculos que têm de superar, há o jogo de interesses familiar cruzado com um casamento negociado e com tudo para falhar; a perseguição política a todos os que ameacem a força fascista reinante; a separação e a distância forçadas; as desigualdades sociais pretensamente calibradas por aparências, vícios e moralismos falsos.
Nos desconcertos da história, reina, entretanto, o espírito cómico de alguns núcleos de personagens (como as coscuvilheiras, risíveis e pedinchonas irmãs Perliquitetes, Cremilde e Gertrudes) e de ações (como o casamento final da histriónica brasileira Benvinda de Fátima com o novo-rico burguês e bonacheirão Bonifácio da Silva), a lembrar bem alguns filmes dos anos quarenta (com Vasco Santana, Ribeirinho, António Silva e Beatriz Costa).
Uma série que diverte, que ensina sobre um tempo, que afirma princípios e valores que dão à vida (por ficcional que seja) um toque de final feliz.
Um encontro intrigante (uma personagem com um passado por desvendar e uma realidade tão fictícia quanto aproximada ao vivido em Moçambique) conduz José António para a (re)descoberta de alguns dos enigmas que a guerra, a experiência de alfarrabista e a vivência de homem comum propõem à vida.
Cruzam-se neste enredo pensamentos literários e filosóficos, além de toda uma gama de conhecimentos a convocar futebol, política, arte plástica, ensino, coordenadas de tempo e de espaço em muito coincidentes com o real que alguns leitores possam (re)ver no dia-a-dia que foi ou mesmo naquele que ainda é (ou pode ser). Enquanto um desses leitores, vejo a ficção entretecida com uma realidade conhecida, esbatendo-se uma fronteira muito ténue a anunciar essa terra de todo o mundo e ninguém, uma "nowhere land" de muitos (se não for de todos) conhecida.
Revisto o Portugal dos finais do século XX / inícios do XXI, cabem nele a consciência do que foram os tempos de guerra colonial em Moçambique; os jogos político-estratégicos do regime ditatorial; os dilemas de quem cumpria um dever nem sempre reconhecido no poder que o impunha.
Cronotopicamente plural, o romance propõe uma rede de personagens e de relações que convergem maioritariamente para um local de convívio e alimento: ACozinha do Martinho. À mesa (e no jogo) se vê a educação, diz o povo. Há quem nela também faça grandes negócios e nela ponha as cartas. Em ACozinha do Martinho, à mesa surgem (re)encontros, resoluções, reuniões e (re)equilíbrios de situações narrativas, numa reconfiguração simbólica da generosidade do próprio santo que dá nome ao restaurante; ao chefe do espaço e à festividade celebrada no capítulo final.
Concluída a leitura e fechado o romance, tenho a impressão de já me ter cruzado com alguns dos espaços e algumas das personagens, embora ela tenha sempre de ser matizada, particularmente nos humanos, por traços fictivos de um José António, de uma Silvana (Sissi), de um Manuel Maria e de um Sr. Laurindo que (con)vivem nas páginas de um livro. E, de novo, nos confins da ficção ou da realidade, há uma espécie de limbo a alimentar dúvidas: pode o Man(u)el Maria de carne e osso que conheci ser o professor de ensino secundário (que também o foi, é e será) lido no papel? Pode qualquer semelhança da obra com a realidade não ser apenas mera coincidência, dando-me a ler um Sr. Laurindo que recupero das minhas memórias e revejo no próprio dia de apresentação do romance? É José António um múltiplo de Manuel Maria? É a carta do primeiro (que, não existindo, foi sendo) aquela que o segundo, pelo ato criativo de escrita, produziu com efeitos de real, a ponto de aparecer reproduzida num manual de Português (que existiu, sem dúvida)? E fico-me pelas figuras masculinas, porque de algumas femininas não diria menos.
É nesta espécie de "mise en abîme" - de uma História que daria um Livro a evocar Checa é pior que Turra; de um José António tão familiar(izado) no espelho de Manuel Maria; de uma ficção a gerar uma outra, ainda que tão aproximada do real nas contextualizações epocais evocadas - que o romance se impõe.
A fechar, há um "happy end" de uma história que, no ponto de arranque, "nunca encaixou na cabeça" de José António; que, na fase de resolução, Silvana reconheceu como enigmaticamente fantástica; que Carlos Vladimiro, no fim, confessadamente apresentou como desvelamento de identidade. Tudo acabou por dar em livro... e em vida com oportunidade de felicidade.
Em suma, e similarmente às palavras do Chefe Martinho quando se refere à comida do seu restaurante, digo desta obra que "temos coisinha boa!"
Renovado agradecimento ao Man(u)el pela dedicatória, pelo convite formulado para assistir à apresentação pública do livro, pela evocação de vivências e projetos que nos aproxima(ra)m e pelos momentos de leitura proporcionados. Nem penosos nem penalizadores, meu caro. Uma obra "maningue" interessante!
A quantificação do plural vale por dois: pelo bom jornalismo que vale por muitos, na seriedade, na responsabilidade e na qualidade de escrita que “agarram" qualquer leitor; pelo que, na falta das virtudes anteriores, cai no erro, no mínimo, e induz quem lê a opinar sobre dados falsos. Em vez de informação, propaga-se a ignorância da fonte, multiplicada pelas vozes que, do assunto, pouco ou nada sabem.
O furo jornalístico de que Os Maias deixam de ser leitura obrigatória para os alunos do ensino secundário sai tão “furado" e falso quanto a obra não ter sido tal desde a implementação dos então novos programas de 2010/2011. Agora, na discussão pública das “Aprendizagens Essenciais” para o 11° ano, mantém-se como possibilidade, conforme os programas em vigor desde 2015-16 (leia-se Os Maias ou, sublinhe-se 'ou', A Ilustre Casa de Ramires).
Perante o absurdo da conclusão jornalística, não será de esperar que tivesse havido leitura do documento nem sequer uma investigação que fundamentasse a posição de muitos professores que optam pela abordagem do primeiro romance face a qualquer outro queirosiano, em termos de lecionação. Também não sei se haveria capacidade para reconhecer que uma obra tão madura e excecionalmente construída por Eça seja uma mais-valia acumulada de sensibilidades estéticas, muito para lá da expressão realista-naturalista a que o autor tem andado associado; uma produção romanesca que tanto retrata criticamente a sociedade da segunda metade do século XIX como reflete comportamentos e percursos de desilusão tão comuns ao século XXI; uma narrativa que ensina mais pelo que dá a ler (no conteúdo e na língua) do que por qualquer análise mais estrutural ou estilística que dela se faça.
Sendo assim, quase como Eça criticamente o aponta nas primeiras páginas de Uma Campanha Alegre, assumo que, a exemplo de notícias como a identificada, e repetida por congéneres, a imprensa está longe de cumprir o seu papel. Se nos finais de oitocentos, cito, "A imprensa é composta de duas ordens de periódicos: os noticiosos e os políticos", nas primeiras décadas do século XXI persistem as mesmas (talvez acompanhadas por uma terceira ordem, mais desportiva), na generalidade com a inegável falta de qualidade seja de escrita seja de informação. Será este um caso de noticioso (sensacionalismo inútil) ou de político (talvez politiqueiro)? Seja qual for, muito terá a aprender com as raríssimas exceções de jornalismo de qualidade (para as quais, obviamente, estas palavras não são destinadas), por talvez se terem inspirado em Os Maias e/ou, definitivamente, terem descoberto como afastar-se do mau exemplo que o jornal "A Tarde" ou "A Corneta do Diabo" representam.
Casos como os destas notícias, divulgando e fomentando conclusões contrárias às "Aprendizagens Essenciais", só podem resultar de jornalistas que ou não leram a obra queirosiana (nem o documento educativo em discussão pública) ou, se o fizeram, não conseguiram ver nela mais do que uma simples história de incesto (nem as implicações educativas que ousaram noticiar). E de língua, nada aprenderam, a ponto de não saberem o significado de um 'ou'. Diria, uma aprendizagem essencial.
"Alguns jornais contaram este mês, com uma indignação ingénua, que na devota cidade Braga alguns missionários vendiam aos fiéis cartas inéditas da Virgem Maria" (Uma Campanha Alegre - XXXVII, pág. 223) - escreveu Eça. Um jornal contou hoje, entre o espanto e a indignação ingénuos, que Os Maias iam deixar de ser leitura obrigatória no ensino secundário - escrevo eu. Heresias (quando não são mentiras declaradas)!
Convenhamos: não a oferta, mas o texto que a anuncia.
Depois de atualizar a conta e receber a box UMA em casa, a NOS decidiu ofertar-me uns canais premium e um pack de karaoke. É verdade que quem canta seus males espanta, mas a empresa começou a mensagem muito mal.
Logo a abrir o registo, três atropelos na escrita:
Excerto de uma mensagem que, na primeira linha, dá logo má imagem
Um 'ç' antes de 'e' (Como é possível?Não é o único caso!), uma maiúscula sem sentido (por não iniciar frase nem dar conta de nome próprio) e uma junção gráfica do que devia estar separado (a falta de espaço é um mal geral, mas, na língua, dá aglutinações inusitadas). Erro, lapso ou engano é, em qualquer dos casos, uma absoluta inconveniência (que rima com incompetência) para uma empresa que se diz pautar pela qualidade. Da língua não é, por certo.
No meio disto, apetece-me denunciar o contrato e ir para a concorrência. E das ofertas, diria que quem oferece em termos errados dá aos clientes brindes muito escusados (não há em toda uma empresa alguém com visão capaz de detetar a má imagem em que se coloca?!).
Uma foto de uma amiga apanhada bem a jeito (a foto, não a amiga... registe-se).
Quando menos se espera, chega o Continente... que não rende:
Pormenor de uma foto tirada num estabelecimento da rede Continente
Do publicitário ao diretor de imagem da empresa em causa (que, por mais de uma vez, já deu a ler o que não deve), entre os muitos outros que ajudaram a expor o erro, ninguém repara que perde(u) a razão para o que dá a ler. Fala-se de 'exemplo' e só pode ser o mau, definitivamente. É um péssimo exemplo mostrar às crianças (e aos adultos) a escrita de um 'ç' antes de 'e' (ou de 'i' que fosse). Torna-se mesmo indigesta a presunção, a ignorância, a pretensão de quem se acha com a autoridade de dar a saber algo e desconhece um conhecimento elementar da língua, que devia usar bem. Nem de interferência (interlingual) se trata. Lamentável!
Pois é, meus senhores, as crianças não aprendem com o mau exemplo e a saúde da língua está comprometida: não há alimento que a salve, quando a escrita evidencia mais o erro do que o exemplo a seguir ou a dar. COMECEM a ler uma gramática.
O assunto da notícia era o seguro de vida, mas bem que podia ser outro.
Quando se leem as notas de rodapé dos programas televisivos, a desagradável surpresa não raras vezes surge. Ainda bem que a locutora está de olhos fechados! (Não se expõe ao erro.)
Quem redige as legendas nas notas de rodapé não está seguro na língua. Está a precisar de um seguro, não sei se de vida; de língua, por certo (para que consiga poupar-se a erros desnecessários).
Já escrevi sobre esta minha embirração: a do verbo 'tar'. Já também sobre ela falei a muitos alunos. E antes que me digam que têm razão, que podem escrever 'tou, tá(s), tamos, tais, tão' ou 'tive, tiveste, teve, tivemos, tivestes, tiveram' na conjugação do verbo 'estar', é bom que se lembrem que na oralidade informal, em casa ou com os amigos muita coisa pode acontecer; com o professor de Português é que não (só em jeito de brincadeira)! Como as aulas e os exames não são para brincar, faça-se a devida chamada de atenção, para que não haja surpresas na avaliação / classificação.
Todo o excurso surge a propósito da imagem à esquerda e do título lido. Tudo ficaria mais simples se a jornalista em questão colocasse um apóstrofo no início da palavra ('tão), sugerindo que algo (uma sílaba) estaria elidido; ou, então, as aspas convenientes para dar conta de uma citação, de um verso transcrito de uma letra de canção. Não que, neste último caso, não seja de se escrever 'estão'; porém, no contexto de uma letra que sugere uma conversa com um "amigo", com vocabulário e expressões conjugadas com o destinatário e a situação (familiar, cúmplice), tudo se torna mais aceitável. Basta ouvir a canção e, em particular, a letra de Chico Buarque:
Chico Buarque, do álbum Meus Caros Amigos (1976)
MEU CARO AMIGO
Meu caro amigo, me perdoe, por favor
Se eu não lhe faço uma visita
Mas como agora apareceu um portador
Mando notícias nessa fita
Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate o sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta
Muita mutreta pra levar a situação
Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça
E a gente vai tomando que também sem a cachaça
Ninguém segura esse rojão
Meu caro amigo, eu não pretendo provocar
Nem atiçar suas saudades
Mas acontece que não posso me furtar
A lhe contar as novidades
Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate o sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta
É pirueta pra cavar o ganha-pão
Que a gente vai cavando só de birra, só de sarro
E a gente vai fumando que, também, sem um cigarro
Ninguém segura esse rojão
Meu caro amigo, eu quis até telefonar
Mas a tarifa não tem graça
Eu ando aflito pra fazer você ficar
A par de tudo que se passa
Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate o sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta
Muita careta pra engolir a transação
Que a gente tá engolindo cada sapo no caminho
E a gente vai se amando que, também, sem um carinho
Ninguém segura esse rojão
Meu caro amigo, eu bem queria lhe escrever
Mas o correio andou arisco
Se me permitem, vou tentar lhe remeter
Notícias frescas nesse disco
Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate o sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta
A Marieta manda um beijo para os seus
Um beijo na família, na Cecília e nas crianças
O Francis aproveita pra também mandar lembranças
A todo o pessoal
Adeus!
Com esta modinha brasileira 'tão' e 'tá' fazem todo o sentido, nas palavras (ousadas) dirigidas ao "meu caro amigo", aquele confidente com quem se desabafa, numa intimidade que se pauta pela amizade, pela cumplicidade e pela confiança (mas que não convém a uma ditadura militar brasileira, criticada e denunciada como "esse rojão", para não falar em qualquer outro contexto político brasileiro coincidentemente crítico e adverso). Fora dela, fiquemo-nos pela adequação de uma norma a situações mais regradas e formais - para que a coisa não fique "preta!" As variedades da língua devem ser consideradas no pluriformismo e na versatilidade que os falantes dela revelam, não esquecendo a avaliação, a adequação e o ajustamento que nelas se impõem.
A bem de quem está em contexto de avaliação e de classificações (internas ou externas) que podem marcar uma vida. (Es)tá?
Das relações mais práticas às mais simbólicas, de tudo se compõe a vida no jogo das letras e dos números. Acrescente-se a geometria, quando se lê o seguinte:
Perante estas lições de vida, quase diria que se impõe uma 'volta de 360 graus', se não puder ser evitada qualquer uma das anunciadas "geometrias" (ainda que a volta pareça vir dar ao mesmo sítio). Mais vale mesmo 'dar a volta por cima', para ver se tudo 'fica às mil maravilhas' (quantificação com tanto de hiperbólico quanto não se poder fazer outra coisa a ter de se contar as ditas).
Antes de fazer disto um quebra-cabeças (um verdadeiro "trinta e um") e de dar voltas à "tola" até 'ficar feito num oito', não vou mais longe. Não fecho o assunto 'a sete chaves', nem quero ficar tal qual 'um zero à esquerda'. Simplesmente, não vou fazer disto 'uma espiral de loucura ou de problemas'.
Língua e matemática têm tanto de aproximação que as provas são já 'favas contadas'.
Um dia depois de uma amiga ver o seu livro publicado nas mãos de alguns dos leitores e de ter assistido a uma apresentação da obra por alguém que a lera (e muito bem), ficou-me a vontade de apreciar mais a narrativa matizada de oral e poesia, com boa literatura à mistura.
Um registo diarístico ficcionado; uma personagem (Madalena) cheia de vida, dando à palavra 'reformada' o sentido de mulher (bem) formada e com oportunidade(s) de reformular, retomar e reformar percursos e projetos; marcas de espaço e de tempo que se (re)visitam para se lhes dar novas cores, sabores e vivências, sem esquecer os tons, as pessoas e as memórias que a novidade faz e traz na (re)criação afetiva do lugar, das estações ciclicamente retomadas e renovadas, do fluir e do fluxo de vida e de comunhão com os outros e consigo própria - de tudo isto o livro se compõe, num jogo de ficção e realidade em que qualquer semelhança (ou coincidência) sai motivada e inspirada por lembranças, pela condição de presente e pelo desejo de futuro.
E porque este último se complementa com presente e com passado, na linha do tempo, os projetos também se compõem de vivências e de memórias, inclusivamente aquelas que se revisitam pela tradição oral numa literatura feita em verso familiar, popular, universal pelas lições e pelos exemplos de vida configurados:
Poema da D. Marieta (in A Velha Casa e Outros Dias)
"Os Velhos" (in A Velha Casa e Outros Dias)
Porque o ser humano se faz de, no e com tempo; porque também ele ocupa um espaço mais ou menos difuso, real, virtual ou fictivo; porque ele se (re)vê num espelho em que a imagem observada fica aquém da que verdadeiramente se expõe ou reflete, busca-se, nas linhas da narrativa, os traços de que uma mulher é feita, num retrato e numa vivência com sinais de passado recordado, de presente em ação e de futuro projetado.
Liberta das contingências de uma vida entregue aos vários papéis que plenamente desempenhou, Madalena é feita de dores (etimologicamente de 'dolores'), de perdas, de conquistas, de ganhos, mas sempre de afetos e de expectativas, na demanda dessa utopia de felicidade que, na vida, não pode ter fim.
... porque o outono da vida há de sempre dar em novas primaveras, não obstante as intensidades do inverno e do verão.
E este pode ser encontrado em função do foco daquilo que é modificado.
Q: Olá, Vítor! Desculpa estar a incomodar-te, mas concordas com a classificação de complemento do nome para o constituinte "graças ao degelo do Ártico", em "Fósseis encontrados na Gronelândia graças ao degelo do Ártico"?
R: Olá.
Não posso concordar, mesmo que a sequência em análise fosse apenas o segmento 'degelo do Ártico'. Sendo 'degelo' uma forma nominal decorrente do verbo 'degelar' (verbo tipicamente intransitivo), não há lugar a complemento do nome; portanto, a função sintática de 'do Ártico' é a de modificador do nome (por se tratar de uma expansão do nome 'degelo') restritivo (limitando a referência de 'degelo' apenas ao contexto 'do Ártico'; não assinalado por vírgula).
A sequência proposta é representativa de enunciados típicos dos títulos (oração não finita participial), numa redução do que deveria ser uma construção frásica passiva: "Fósseis (foram) encontrados na Gronelândia graças ao degelo do Ártico". Assim, "graças ao degelo do Ártico" (que eu faria anteceder de vírgula, já agora) funciona como modificador do grupo verbal (ou do predicado). Trata-se de uma sequência de lógica causal que faz parte do predicado ("[foram] encontrados na Gronelândia, graças ao degelo do Ártico"); portanto, um modificador do grupo verbal.
Se este último modificador se analisa ao nível superior da frase, relembro que o modificador do nome mencionado no primeiro parágrafo desta resposta é função sintática analisada a nível interno de um grupo nominal (que teria 'degelo' como núcleo) - ou seja, não ao nível da frase matriz, mas de um elemento que, a um segundo nível, teria na sua dependência uma expansão especificativa.
Feito o esclarecimento, é caso para dizer que quem se mete com modificadores chama para si algumas "dores" (ara complicar ou "doer" mais, só faltava tratar também os modificadores da frase).
A propósito de um artigo que serve para reflexão na formação docente.
Refiro-me a uma recensão sobre uma vasta literatura acerca do ensino da leitura, da escrita e do cálculo matemático: "Quelles sont les stratégies d'enseignement efficaces favorisant les apprentissages fondamentaux auprès des élèves en difficulté de niveau élémentaire? Résultats d'une méga-analyse".
Publicado em 2010, na Revue de Recherche Apliquée Sur l'Apprentissage, vol. 3, artigo 1 (páginas 1 a 35), é o resultado de uma pesquisa e investigação desenvolvidas com base em onze meta-análises editadas na década inicial do século XXI, sobre o tema. Steve Bissonnette, professor do Departamento de Psicoeducação e Psicologia da Universidade do Québec; Mario Richard, professor da Tele-universidade do Québec; Clermont Gauthier, titular da cadeira de investigação no Canadá sobre a formação no ensino, na Universidade de Laval; Carl Bouchard, doutorado em Psicologia na Universidade de Montréal são nomes com obra sustentada no campo da psicologia, da educação, da psicologia orientados para o estudo da eficácia e acabaram por concentrar um variedade de dados relevante para a análise do contexto educativo do Canadá, em particular, e da América do Norte, em geral (dadas as similitudes atestadas e citadas por relatórios consultados), no encalço de estratégias eficazes para o ensino de matérias essenciais para um grupo-foco (alunos com dificuldades no nível primário).
Entre as várias conclusões - centradas em métodos de ensino diferenciados (instrução direta, ensino de estratégias, combinação dos dois modelos anteriores, outros), em estratégias ou intervenções diversificadas (ensino explícito de conteúdos, conceitos / procedimentos; ensino recíproco, com estratégias de grupo ou entre pares; percurso de aprendizagem apoiado na autoquestionação, aprendizagem mediada orientada, ensino assistido por computador, comunicação de indicadores específicos de desempenho aos professores e aos alunos; comunicação de informações específicas aos pais sobre informações precisas associadas ao sucesso dos educandos) -, sublinham-se algumas das mais significativas e concordantes, independentemente das três competências visadas:
. o ensino direto e o centrado na autoquestionação são os que se revelam mais eficazes no contexto de ensino-aprendizagem em estudo, mais do que a aprendizagem mediada e guiada; . o ensino apoiado pelo computador revela-se menos eficaz do que o de tipo presencial; . as novas abordagens pedagógicas como a aprendizagem guiada não apontam para estratégias de ensino que melhorem o rendimento dos alunos que apresentam dificuldades de aprendizagem; . o ensino recíproco é moderadamente eficaz, no caso do cálculo matemático, quando se tem em vista a melhoria dos desempenhos dos alunos em dificuldade; . o ensino explícito favorece a aprendizagem de diferentes componentes implicadas no processo de leitura (estratégias metacognitivas, consciência fonémica, reconhecimento lexical, compreensão de textos, decifração da mensagem), bem como as relacionadas com o processo de escrita (planificação, textualização, revisão e tipologia textual); . as modalidades pedagógicas que mais influenciam o rendimento dos alunos são o ensino explícito e o ensino recíproco.
Quando paradoxalmente muitas reformas educativas privilegiam ou apontam para abordagens pedagógicas bem distintas do concluído por estes investigadores, os mais de trezentos trabalhos de investigação levados a cabo num período de dez anos - num contexto de diferenciação e multiculturalidade evidentes -, cruzam-se convergentemente com cerca de quarenta anos de literatura a espelhar um estado de coisas com constâncias muito representativas.
Retirar-se-ão daqui ilações para as práticas e os desempenhos profissionais docentes, por certo, nomeadamente quando um relatório canadiano publicado em 2001 se posiciona favoravelmente face à universalidade de conclusões: «Les pratiques employées dans les écoles efficaces canadiennes sont semblables à celles répertoriées dans la littérature internationale sur l’efficacité des écoles» (Henchey, N., Dunnigan, M., Gardner, A., Lessard, C., Muhtadi, N., Raham, H. et Violoto, C. (2001 - p. ii) - Schools that make a difference: Final report twelve canadian secondary schools in low-income settings. Kelowna, B.C.: Society for the Advancement of Excellence in Education, (SAee)).
Sem excluir a posição de que, na educação, para situações excecionais uma resposta excecional pode conduzir para a solução de um problema, não nego que algumas constâncias, regularidades são necessárias, seja para um docente poder agir perante a diversidade com que se depara seja para os próprios alunos poderem integrar-se, socializar-se com conhecimentos e competências reconhecidos como fulcrais pela sociedade. Uma generalização, por certo, não pode resultar daqui: os alunos que não são contemplados pelo estudo focado podem já ter uma estruturação que não requeira modalidades pedagógicas tão diretivas e explícitas.
Entre "Todos iguais, todos diferentes", cabe ao professor avaliar a situação que terá de ajustar às condições que lhe são facultadas para trabalhar. E estas últimas nem sempre se coadunam com os requisitos que os modelos pedagógicas, os métodos de ensino, as estratégias e as formas de intervenção preconizam.
Uma questão a dirimir, por certo, a bem de quem trabalha com funções sintáticas.
Q: Olá, Vítor. Na frase "É bom que faças o que te mandam" o sublinhado é um exemplo de complemento do adjetivo? Quando puderes, dá-me a tua opinião. Obrigada.
R: Viva. Perante frase com conteúdo tão "autoritário", vou começar por contrariar o pressuposto da interrogação.
Não se trata de uma questão de opinião: o sublinha-do corresponde ao sujeito sintático da frase (um dos casos de sujeito invertido) para o predicado 'É bom'. As frases que iniciam com a construção 'Verbo Ser + Adjetivo' (ex.: É importante... / São fantásticas... / É horrível... / São discutíveis...) prosseguem habitualmente com o sujeito, conforme se evidencia tanto pela concordância sintática como pela reconstrução com 'algo' ou com pronominalização ('É horrível não ter que comer' > ALGO [não ter que comer] é horrível; 'São discutíveis as decisões tomadas por força' > ELAS [as decisões tomadas por força] são discutíveis).
A utilização de um complemento do adjetivo ocorre nos casos em que este último - formado ou associado a um verbo transitivo (a requerer complemento) - adquire o mesmo comportamento desse verbo (ex.: inscrito/a > alguém inscreve alguma coisa em algum local; aborrecido/a > alguém se aborrece com algo; apaixonado/a > alguém se apaixona por alguém / por algo; interessado/a > alguém interessa-se em/por algo / alguém).
No caso em concreto, nem 'bom' é um destes exemplos adjetivais nem a subordinada substantiva completiva ('que faças o que te mandam') é forma de complementação. Ambos são casos de configuração sintática ao nível da frase-matriz (contrariamente ao complemento do adjetivo, que é uma função sintática interna, de segundo nível, dependente do adjetivo e da função por este desempenhada).
Há sujeitos que fecham as frases. Dizem-se invertidos por não obedeceram à ordem padronizada, direta, natural, canónica do português (SVO).
Não se trata da expressão de um desejo pessoal; antes o refrão de uma canção.
De tanto nos habituar a qualidade, a surpresa não deixa de chegar sempre que a voz se faz ouvir - é o caso de Mariza, tanto na expressão de poetas (inclusive, a de Pessoa) como na de outros escritores de cantigas, tão ao jeito de um Português nacional quanto ao de um idioma variado que se projeta no mundo. É o nosso Fado!
Vídeo oficial do fado "Quem me dera", voz de Mariza e letra de Matias Damásio
QUEM ME DERA
Que mais tem de acontecer no mundo
Para inverter o teu coração pra mim
Que quantidade de lágrimas devo deixar cair
Que flor tem que nascer
Para ganhar o teu amor
Por esse amor meu Deus
Eu faço tudo
Declamo os poemas mais lindos do universo
A ver se te convenço
Que a minha alma nasceu para ti
Será preciso um milagre
Para que o meu coração se alegre
Juro: não vou desistir
Faça chuva faça sol
Porque eu preciso de ti para seguir
Quem me dera
Abraçar-te no outono, verão e primavera,
Quiçá viver além uma quimera
Herdar a sorte e ganhar teu coração
Será preciso uma tempestade
Para perceberes que o meu amor é de verdade
Te procuro nos outdoors da cidade, nas luzes dos faróis
Nos meros mortais como nós
O meu amor é puro... é tão grande e resistente como embondeiro
Por ti eu vou onde nunca iria
Por ti eu sou o que nunca seria
Eu preciso de um milagre
Para que o meu coração se alegre
Juro: não vou desistir
Faça chuva faça sol
Porque eu preciso de ti para viver
À qualidade interpretativa juntam-se a letra, a composição musical, as imprevisíveis harmonias que tocam quem ouve. Matias Damásio escreveu, Mariza canta e nós escutamos, embalados entre sonhos, quimeras, utopias, esperanças face à vida e ao amor que alimentem / alimentam a nossa existência.
Há cerca de um ano percorri um dos locais, na zona que foi Berlim comunista.
Há oitenta e cinco anos desapareciam aí os livros que se revelavam opositores ao espírito alemão nazi. Corria o ano de 1933 e, em Berlim, acontecia a queima dos livros, de autores ditos 'não-alemães' (ainda que alguns deles o fossem), levada a cabo pela Liga de Estudantes Alemães Nazis, em OpernPlatz (hoje BebelPlatz).
Tratou-se de uma campanha de propaganda, repetida em muitas cidades alemãs, contra os que se revelavam opositores ao espírito alemão (os chamados "Undeutsch"). Nomes como os de Sigmund Freud, Karl Marx, Albert Einstein, Franz Kafka, Bertolt Brecht, Walter Benjamin, Marcel Proust, Emile Zola, Máximo Gorki e Ernest Hemingway figuravam entre os que tinham obras queimadas. Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazi, assumiu que, a partir de então, nasceria o novo homem alemão, livre da influência e do intelectualismo judaicos. Por ironia, o país que tinha inventado a prensa tipográfica móvel há cerca de meio milénio assistia a uma tragédia cultural, provocada pelo nacionalismo irracional, destruidor de memórias, ideias, histórias.
Imagem alusiva à queima de livros (Bücherverbrennung)
Trinta e três anos depois (1966), o filme Grau de Destruição (no Brasil, Fahrenheit 451) recuperava o tópico, ao adaptar o romance homónimo de Ray Bradbury, sob a direção de François Truffaut, e ao mostrar como um regime totalitário proibia os livros e toda a forma de escrita, acusando-os de tornar as pessoas descontentes e não produtivas (a resistência ao regime era apenas feita na terra dos homens-livro, uma comunidade de pessoas que destruía os livros depois de os memorizar; a perseguição era inevitável para quem era apanhado na posse de um livro, mas o propósito de o decorar era o de o republicar quando aqueles não fossem mais proibidos).
Excerto fílmico de Grau de Destruição (ou Fahrenheit 41), de 1966
Atualmente, frente ao prédio da Faculdade de Direito da Universidade de Humboldt fica o chamado Book Burning Memorial: uma abertura de vidro colocada no chão da praça, a permitir aos transeuntes a visão, no subsolo, de uma sala com uma grande estante de livros branca, vazia. Recorda-se, assim, o dia em que, durante a ocupação nazi, 20.000 livros foram queimados, num só dia, numa pira que consumiu obras de cientistas, filósofos, escritores e pensadores de renome. Por extensão, a ausência dos livros simboliza a falta dos milhões mortos pelo nazismo, para além dos perseguidos, torturados e humilhados por pensa-rem de modo distinto.
Organizada pelas estruturas governamen-tais nazis e pelo Comité Geral dos Estudantes da União Nacional-Socialis-ta, a "Queima dos Livros" foi acompanhada por reitores, professores universitários, líderes estudantis, mais os altos representantes de Hitler. Mais de trinta cidades universitárias alemãs colaboraram e fizeram estender a campanha a outros pontos do país, graças à divulgação feita pela rádio, pelas telas de várias salas de cinema e pela cobertura de imprensa. Os dias seguintes assistiram à criação de outras fogueiras, alimentadas pelos livros e documentos escritos que os soldados nazi retiraram, à força, de casas, livrarias e bibliotecas.
Em tempos de fraca memória, interessa relembrar os perigos do fundamentalismo, dos nacionalismos exagerados, da miséria humana e dos horrores que a História deu a conhecer e que o presente teima em fazer persistir. Os livros também cumprem esse papel (que o diga Saramago, com o seu O Ano da Morte de Ricardo Reis).
Espetáculo internacional em Portugal. É a Eurovisão na canção. Em Lisboa.
Depois da vitória de Salvador Sobral em 2017, a capital portuguesa recebe o certame musical de maior projeção musical no mundo. Realizada a primeira semifinal, diria que se trata de uma realização televisiva que não fica atrás de produções de anos anteriores - balanço de um show que bem podia ser o da final do festival. Um evento que abre o país ao mundo e a uma audiência à escala global.
Fica o registo da que podia ser a canção vencedora:
A representação da Áustria na primeira semifinal da Eurovisão (RTP1)
NOBODY BUT YOU
Lord I’m gonna get so high tonight I’m gonna let the floodgates open wide I’m in open water This is what I need And though I try to get you off my mind
And I get no sleep I’m in too deep I can’t let you leave
It wouldn’t be right letting you go running away from love Ain’t nobody but you I can hold onto So am I wrong giving my all making you stay tonight? Ain’t nobody but you I can hold onto
Lord, I’m gonna bring you back tonight
Oh you’re running circles round my mind After your words have been my bible How could I search for someone new? When I really want you by my side
And I get no sleep I’m in too deep I can’t let you leave
It wouldn’t be right letting you go running away from love Ain’t nobody but you I can hold onto So am I wrong giving my all making you stay tonight? Ain’t nobody but you I can hold onto
Don’t make me tear my heart out I’m shaking till I fall down Don’t make me tear my heart out Don’t make me tear my heart out I’m shaking till I fall down Don’t make me tear my heart out
It wouldn’t be right letting you go running away Ain’t nobody but you I can hold onto So am I wrong giving my all making you stay tonight? Ain’t nobody but you I can hold onto It wouldn’t be right letting you go running away from love Ain’t nobody but you I can hold onto Ain’t nobody but you
Uma entrada musical suave (em piano) a deixar ouvir uma voz grave (a de Cesár Sampson) para uma melodia rythm & blues que cresce, faz vibrar, num enquadramento cénico e de efeito televisivos surpreendente. No apoio vocal, há uma voz portuguesa (a de Ricardo Soler) a marcar a sonoridade do gospel, do soul, junto de outras vocalistas femininas.
O resultado é uma música de força negra, de refrão contagiante e de letra que, por mais comum no tema, sublinha a persistência no amor.
Não pediria mais para ser espetáculo. Sem necessidade de excentricidades, revirar de olhos, cacarejos ou uma "chicken dance" para chamar a atenção, este é um exemplo digno de vencedor. Se não o for, será música que fica (como muitas outras que não chegaram a vencer e marcaram a diferença).
É (foi e esperemos que continue a ser) abril, tempo de mudanças.
Em tempos de democracia (de cravo), interessa ver o que abril nos trouxe, por mais cinzentos e pardos que andem os dias. O que se conquistou não se pode perder. Importa da flor não perder a cor.
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Certo é que ditadura rima com escravatura. Talvez tenhamos saído de uma e entrado noutra(s); talvez por isso algum tempo de amargura.