Espera . Procura . Encontros, Desencontros e Reencontros . Passagem com muitas Viagens . Angústias e Alegrias . Saberes e Vivências . Partilhas e Confidências . Amizades sem fim
A máxima do "Trick or treat!" (traduzida como "Doçuras ou travessuras") deixa-me, por vezes, confuso e indeciso na escolha, seja porque gosto de doces seja porque uma travessura também sabe bem.
Em dia de Halloween, cruzo-me com a imagem de uma abóbora (que não é menina):
Uma "pumpkin"..., ou melhor, "trumpkin
E na ordem da nova máxima, só me resta uma escolha:
Não há "trumpalhada" que resulte doce. É azeda, amarga, áspera. Nem com o espírito do Halloween é suportável. É bruxedo a mais! Não há "treat"! Contudo, se o que resta é "trump",...
... venha o "treat", apesar de apetecer ser travesso ("tricky"). Porque "Trump" não é alternativa para coisa nenhuma.
Entre a flexão, o traço semântico e os subentendidos pragmáticos.
Assim que ouvi a anedota, pensei que a linguística explica tudo neste diálogo que parece existir entre um(a) professor(a) e um aluno chamado Manuel (mas que poderia também ter outro nome qualquer, nomeadamente o espertalhão do Zezinho):
- Manuel , diga o presente do indicativo do verbo caminhar. - Eu caminho... tu caminhas... ele caminha... - Mais depressa! - Nós corremos, vós correis, eles correm!
A flexão verbal em tempo, modo, pessoa e número é um dos dados de análise regular em termos morfológicos. Quanto aos traços sémicos [+rápido] e [+movimento] conjugados, dão por certo para reformular a palavra de partida e chegar a um outro verbo.
Quanto à pragmática, ainda ali pela interpretação coerente e motivada pelo(s) subentendido(s) implicado(s) no "Mais depressa!". E caminhar mais depressa pode ser perfeitamente correr.
Sou Haddad, porque não posso ser a favor de quem pense com base no preconceito, na desconsideração das minorias ou na diferenciação assumidamente sexista, religiosa, rácica, xenófoba, quanto mais quando alguém os explicita e defende publicamente.
Sou Haddad, porque não é pela falta de referências e pela descrença na ação dissimulada e hipócrita de alguns políticos que se pode legitimar tudo, mesmo os que, tendo palavras bem distintas da política perversa que nos tem dominado, caem no erro do fundamentalismo, do extremismo, da marginalização, da repressão e de um 'one best way' (que não é para todos, garantidamente) para se responder ou sair de algumas adversidades.
Sou Haddad, porque a corrupção reinante (de hoje e de tempos remotos) não pode destituir ou corromper o pensamento da busca de um ideal, de uma utopia ou de princípios mais humanistas, inclusivos, tolerantes, respeitadores da dignidade de todo e qualquer ser humano que pretende ser feliz e atingir o bem comum. Lutar contra a degração moral e social não pode ser sinónimo de agrilhoar a felicidade e a liberdade humanas.
Sou Haddad, porque nenhum(a) país, sociedade, partido ou grupo pode ser avaliado(a) na base da generalização de que algumas das suas negações são espelho de que tudo falha ou de que tudo obrigatoriamente faz parte de uma só farinha no mesmo saco.
Sou Haddad, porque, apesar de não ser brasileiro, sou falante de uma língua que já teve outros que declaradamente a usaram para deixar passar mensagens de intolerância, hipocrisia, desrespeito, prepotência, cegueira, promovendo mais desvalidos e revoltados do que protegidos e estimados no que, pela sua singularidade, de bom e de bem podem dar à sociedade.
Sou Haddad, porque esta pode ser a alternativa a tudo o que de mais consabido há nas posições e nos discursos assumidos por quem com ele diretamente concorre.
Sou Haddad, porque a História me ensinou que os democraticamente eleitos em situações críticas e com discursos marcados pela defesa nacionalista e pela afirmação de superioridade de alguns relativamente a outros acabam por sustentar e utilizar o poder em favor próprio, com tiranias e sinais de despotismo, típicos de regimes ditatoriais que só guerras, revoluções, resistências, vítimas, mártires e mortes permitiram a muito custo ultrapassar.
Apartado pelo azul de um oceano que brilha sob as estrelas, revejo-me na terra desse verde (da esperança) e amarelo (de acautelado otimismo); da Ordem e do Progresso, a firmar-se para lá da bandeira; do grito do Ipiranga, que reconfigura 'Independência ou Morte' em 'Liberdade democrática ou Jugo autoritário'. Quanto aos fins, que sejam os da crença na humanidade e na escolha sensata que se impõe, por mais inspiradas que sejam numa fé que as transcende.
Hoje a questão é sobre sintaxe, no âmbito das funções sintáticas.
Chegada a pergunta (como "dúvida não existencial"), a resposta impõe-se, sem qualquer incómodo.
Q: Na frase “A lei que regulava
as liberdades e restrições desse povo revelava-se inútil enquanto não fosse
evitada a intervenção civil na sua cristianização”, qual a função sintática da oração que vem
na sequência de um predicativo do sujeito… modificador do GV ou segundo
predicativo do sujeito? Obrigada.
Entrada do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa Online (adaptado)
R: A sequência sublinhada configura a menção a uma lógica de temporalidade condicionada (o intervalo de tempo coincidente com a inutilidade revelada pela lei), segundo um processo sintático de subordinação (adverbial temporal). Neste sentido, essa sequência não é, seguramente, um segundo predicativo do sujeito. Se 'inútil' é uma propriedade ou característica do sujeito ('A lei que regulava as liberdades e restrições desse povo'), o mesmo não sucede com o sublinhado. Trata-se de um modificador do grupo verbal (ou do predicado), dada a informação lida de temporalidade.
A questão é sobre funções; o exemplo é característico de um processo de composição frásica (subordinação adverbial) - em suma, sintaxe no seu melhor.
Consultado sobre o processo de formação de uma palavra, diria que nem ao diabo lembra.
A palavra é "velhaco". E o processo de formação?
A semântica e o léxico responderiam logo que "velhaco" nada tem a ver com velho.
A morfologia, mesmo admitindo a inusitada hipótese de ter 'velh+aco', não veria, por certo, 'aco' como sufixo para, com regularidade, formar novas palavras. Não havendo tal sistematicidade sufixal (pouco mais além se vai de 'austríaco', 'dionísiaco', 'demoníaco' ou 'maníaco') nem se estabelecendo qualquer relação com 'velho', logo haveria razões para suspeitar da formação por derivação.
A consulta de alguns dicionários com informação etimológica faria o resto: 'velhaco' vem do castelhano / espanhol 'bellaco'. Trata-se, portanto, de um empréstimo, aportuguesado, mas não formado no português; constitui-se como palavra-base ou derivante para as derivadas 'velhacaria', 'velhacagem', 'velhacaz' ou 'velhacão', entre outras.
Entrada de dicionário: Priberam Dicionário Online
(cf. https://dicionario.priberam.org/velhaco)
Pede um dos manuais do ensino básico (8º ano de escolaridade), dos mais adotados da nossa praça editorial (com todos os requisitos de revisão, consultoria científica e qualidade atestada por sabe-se lá quem), que se veja em 'velhaco' uma palavra derivada por sufixação.
Coitadas das crianças! Perdoai, pois há quem não saiba o que anda a fazer.
Trocar a ordem das letras / sons numa sílaba é um dado comum para quem ainda está a aprender as regras da escrita; talvez até para quem tenha ou revele problemas de processamento da escrita ou de reconhecimento de sons, com a sílaba PRE / PER a ser dos casos mais frequentes na confusão. Contudo, o mesmo não se pode dizer para quem tem a responsabilidade de divulgar produtos e jogar com a linguagem / a língua, com efeitos persuasivos (nomeadamente, os de levar à compra de algo).
Anúncio publicitário FNAC no seu pior!
Tivesse eu a intenção de adquirir uma máquina fotográfica e teria logo desistido da ideia, perante o que um certo espaço comercial me deu a ler. Numa só linha, dois erros - troca de sílabas numa palavra; falta de acento gráfico noutra. Teria razão para pedir o livro de reclamações ou exigir um bom desconto. Reclamação oral garantida. Não haver uma pessoa, desde o chefe ao empregado, que seja capaz de verificar os erros, no mínimo, é vergonhoso / fraudulento.
A PERSpetiva precisa de ser corrigida. Porque não há erro que constitua um bom negócio nem foto que resulte com a PERSpetiva errada. Triste de quem não evita baldrocas e as dá a ler ao público em geral. Não é caso único, mas situação garantidamente a evitar, para a boa imagem da empresa em questão. Pode lá haver partilha possível!
Quando, ao final do dia, se consegue o que a manhã e a tarde não deram.
Em espaço aberto, ao ar livre, os passos levam-me a destino incerto. Simplesmente vou.
Interessa caminhar, libertar-me, dar tempo àquilo de que gosto e não do que outros precisam. Deixo o sul, rumo ao norte, olho para este. Há um ponto de luz a dar cor ao céu e ao horizonte brumoso. Do mar, vem a ressalga das pulsantes ondas rumorosas, a atropelar e cobrir os rochedos, quase esquecendo que, depois destes, a areia espera o que delas ainda resta.
Inalo a frescura nebulizada dos sais marinhos e, por momentos, esqueço a prisão e o vai-e-vem das muitas horas já passadas. O instante faz-se do que devia ser mais lasso no tempo, duradouro pelo bem que faz.
Não sei se por ânsia de agarrar o breve momento tomado ao tempo, se por desejo de o tornar mais meu e perene, registei-o em foto, antes que se apagasse da memória, entre o cansativo muito que está para vir e o apaziguador pouco que vai faltar.
Um instante marinho em tempo de outono (Foto VO)
Quis granjear o prazer do descanso merecido e fixei o que, em breve, deixaria de ser nota de luz e cor.
Num pôr-do-sol de céu, entre o nacarado e o alaranjado, sobre oceâneo e ondulado leito, num átimo, fiz parar o tempo, para o re(vi)ver sempre que dele precisar. É outubro e o tempo aperta.
Quando o discurso ou a retórica da excelência e do sucesso me são dados a ouvir ou a ler, espero sempre pela coerência dos atos ou das palavras. Nada como ir das palavras aos atos. Pena é quando tal não acontece. Gosto pouco de palavras vazias, sem sentido ou que não refletem a mensagem pretendida. É disso exemplo o anúncio seguinte:
Publicidade enganosa no que dá a ler (Foto VO)
O superlativo não tem o acento gráfico devido (finíssimo); esplêndidos, a ser bem pronunciado, nunca daria lugar no escrito à sílaba 'ex'; a maiúscula de 'bolos' só por destaque ao produto se compreende, ainda que sem razão gramatical; a ausência de vírgula à esquerda do vocativo intercalado resulta em erro grave de pontuação ("Olha, minha amiga, são...").
E no meio de tudo isto, uma exclamação sem o ponto gráfico do sinal é o absurdo na representação gráfica.
A contar pelas versões do filme, já não chega dizer que não há duas sem três.
2018 é o ano para o 'remake' em terceira versão de "A Star is Born", depois do original datado de 1937. Mais de oito décadas passadas, Janet Gaynor dá lugar a Lady Gaga (depois de Judy Garland e Barbra Streisand). Um tanto de musical com um outro tanto de romantismo são ingredientes para misturar e derivar numa receita a ver na tela.
Trailer Oficial de 'A Star Is Born' (remake de 2018)
A história consabida do músico, em final de carreira, que estimula e vê ascender artisticamente a mulher amada é o pano de fundo melodramático comum para um enredo quase secular, desta feita composto também pelo protagonismo que a música dá a ouvir na banda sonora. Os planos de 'backstage' de alguns dos concertos ou os preparativos para os shows conjugam-se nesse propósito de representar o percurso regressivo de Jack(son) e a ascensão de Ally (essa 'aliada' que se afirmou e se singularizou como estrela). Se a versão de 1976, com o par Barbra Streisand-Kris Kristofferson, tornou Evergreen melodia oscarizada, o mesmo se prenuncia com muitas das canções agora interpretadas pela dupla Lady Gaga-Bradley Cooper.
Talvez o dueto de "Shallow" seja um dos casos a considerar:
Montagem imagem-música (VO) para "Shallow" de 'A Star Is Born' (2008)
SHALLOW
Tell me something, girl Are you happy in this modern world? Or do you need more? Is there something else you’re searching for?
I’m falling In all the good times I find myself longing for change And in the bad times I fear myself
Tell me something, boy Aren’t you tired trying to fill that void? Or do you need more? Ain’t it hard keeping it so hardcore?
I’m off the deep end, watch as I dive in I’ll never meet the ground Crash through the surface Where they can’t hurt us We’re far from the shallow now
In the sha-ha- sha-ha-ha -llow, In the sha-ha- sha-ha-ha- llow, In the sha-ha- sha-ha-llow, We’re far from the shallow now
Também a cantiga final da película - "I'll never love again", numa homenagem a Jack(son) Maine (Bradley Cooper) e na interpretação de Ally Maine (Lady Gaga) - cumpre a marca de um fecho arrasador, para uma narrativa emocionalmente crescente, com a dupla romântica a afirmar-se para lá do que a morte possa impor. Uma breve analepse final traduz essa declaração de amor de Jack, num sentimento que se vê ameaçado pela doença, por um ciúme mitigado de incapacidade e perda progressivas, por jogos de interesse colaterais, por (pres)supostas experiências ou representações que o passado não deixa(ou) apagar.
A música aproximou Jack de Ally (mesmo quando a necessidade do álcool parecia ser maior); pela música ambos sofreram, vivendo (na composição e na voz) numa entrega que nem sempre se revelou harmoniosa, mas fez vingar o que os uniu. O sonho, tornado real, revelou-se duro, intenso, sofrido, com a "luz" a incandescer o que de mais doloroso e irónico a vida (também) tem.
Assim nasce(u) uma estrela, dando brilho também a uma outra que a morte não conseguiu apagar.
Acompanhada que foi das grandes vozes do século (como os tenores Luciano Pavarotti, Josep Carreras ou Placido Domingo), esta foi uma das sopranos mais reconhecidas mundialmente. Negado por ela mesma o estatuto de diva da ópera, o canto lírico marcou-a e deu-lhe a projeção que a sua cristalina e pianíssima voz conquistou.
Manteve-se a humildade e a simplicidade, que não deixaram de a engrandecer, como se dá a ver num pequeno documentário biográfico difundido no país vizinho:
Breve documentário biográfico (televisão espanhola)
O dueto com Freddy Mercury, com "Barcelona" (1987), talvez seja dos seus momentos musicais mais significativos para o comum dos apreciadores da primeira de todas as artes; muito espetáculo marcou a sua vida, pelos palcos do mundo, num reconhecimento dessa voz possante equiparada a Maria Callas e a Renata Tebaldi.
Aos mais de vinte minutos de aplauso que teve no início da carreira, segue-se a gratidão eterna para os que viram em "La Superba" (como também era conhecida) uma digna vocalista, merecedora das imensas honrarias recebidas (desde o Prémio Príncipe das Astúrias, em 1991, à Grã Cruz da Ordem de Mérito da República Italiana, em 2009).
No descanso merecido, a eternidade do canto para sempre consagrar.
Que se pode dizer, senão isto, quando música rima com morte?
A notícia da morte de Charles Aznavour chega com o início do mês e da semana - forma desagradável de começar, por certo, quando se fala de quem é uma das lendas vivas da canção francesa.
Nascido em Paris (a 22 de maio de 1924), aos 94 anos mantinha-se no ativo musical, ainda com espectáculos para o grande público, como o de há cerca de dois anos em Portugal (no Altice Arena). Cantor, compositor, cantautor, ator, ativista e diplomata, foi multifacetado na sua intervenção social e artística, inclusivamente na defesa política dos mais desfavorecidos e desprotegidos (como os seus irmãos, por ascendência, arménios).
Na minha memória ficam, entre outras, duas melodias na incontestada e reconhecida voz:
Montagem de imagem-som (VO), com 'La Bohème'
LA BOHÈME
Je vous parle d'un temps Que les moins de vingt ans Ne peuvent pas connaître Montmartre en ce temps-là Accrochait des lilas Jusque sous nos fenêtres Et si l'humble garni Qui nous servait de nid Ne payait pas de mine C'est là qu'on s'est connu Moi qui criait famine Et toi qui posais nue
La bohème, la bohème Ça voulait dire On est heureux La bohème, la bohème Nous ne mangions
qu'un jour sur deux
Dans les cafés voisins Nous étions quelques-uns Qui attendions la gloire Et bien que miséreux Avec le ventre creux Nous ne cessions d'y croire Et quand quelque bistro Contre un bon repas chaud Nous prenait une toile Nous récitions des vers Groupés autour du poêle En oubliant l'hiver
La bohème, la bohème Ça voulait dire Tu es jolie La bohème, la bohème Et nous avions tous du génie
Souvent il m'arrivait Devant mon chevalet De passer des nuits blanches Retouchant le dessin De la ligne d'un sein Du galbe d'une hanche Et ce n'est qu'au matin Qu'on s'asseyait enfin Devant un café-crème Épuisés mais ravis Fallait-il que l'on s'aime Et qu'on aime la vie
La bohème, la bohème Ça voulait dire On a vingt ans La bohème, la bohème Et nous vivions de l'air du temps
Quand au hasard des jours Je m'en vais faire un tour À mon ancienne adresse Je ne reconnais plus Ni les murs, ni les rues Qui ont vu ma jeunesse En haut d'un escalier Je cherche l'atelier Dont plus rien ne subsiste Dans son nouveau décor Montmartre semble triste Et les lilas sont morts
La bohème, la bohème On était jeunes On était fous La bohème, la bohème Ça ne veut plus rien dire du tout
Montagem de imagem e som de Tous les visages de l'amour (ou 'She')
SHE
She may be the face I can't forget
The trace of pleasure or regret
May be my treasure or the price I have to pay
She may be the song that summer sings
Maybe the chill that autumn brings
Maybe a hundred different things
Within the measure of a day
She may be the beauty or the beast
May be the famine or the feast
May turn each day into a Heaven or a Hell
She may be the mirror of my dreams
A smile reflected in a stream
She may not be what she may seem
Inside her shell
She, who always seems so happy in a crowd
Whose eyes can be so private and so proud
No one's allowed to see them when they cry
She may be the love that cannot hope to last
May come to me from shadows in the past
That I remember 'till the day I die
She maybe the reason I survive
The why and wherefore I'm alive
The one I'll care for through the rough in many years
Me, I'll take her laughter and her tears
And make them all my souvenirs
And where she goes I've got to be
The meaning of my life is
She, she
Huum, she
"La Bohème", de 1965, e "Tous les visages de l' amour" (mais conhecida na versão inglesa "She"), de 1974, são sons de marca para o mundo musical e para muitas gerações de apreciadores. Em francês ou inglês... não interessa; na língua universal da música, a beleza sente-se. Se a primeira - com um pintor a relembrar os seus anos de juventude em Montmartre - sugere uma despedida que o tempo acaba por impor, a segunda é uma das maiores e mais eternizadas expressões do amor ao feminino e à vida.
Partiu Aznavour para a sua última viagem; ficam as letras e melodias que leitores e ouvintes farão reviver neste tempo que sempre passa.
Acabaram-se as férias. Não sei se por cansaço (já!) se por falta de vontade, ou ainda por não ter entrado no ritmo que se impõe, a chegada do primeiro fim de semana pós-retoma do trabalho está a revelar-se como o 'grito do Ipiranga'. Quando dizia isto, alguém perguntava: "De quem?".
Pois... isto de utilizar referências ou expressões que nem todos dominam pode comprometer a comunicação. No caso, deu lugar a explicação, começando pela reformulação da pergunta "De quem?" para "De onde?". Não se trata de alguém, mas de um lugar, junto às margens de um rio - Ipiranga -, onde aconteceu o que ficou conhecido como a declaração de independência do Brasil, em 1822. Os universos de referência ou conhecimentos de mundo determinam os efeitos comunicativos - assim o diz a pragmática. A História também ajuda.
O universal (só para alguns) "Independência ou morte", proferido pelo então príncipe regente D. Pedro do Brasil (a governar em nome do seu pai, o rei D. João VI), fez-se ouvir no centro da atual cidade de S. Paulo, onde corria um pequeno "rio vermelho" (na língua tupi 'Ipiranga').
Independência ou Morte, do pintor paraibano Pedro Américo (óleo sobre tela, 1888).
Facto ou lenda, o grito associa-se ao dia de hoje, considerado feriado nacional no Brasil e celebrado, oficialmente, como o Dia da Independência. Três anos demorou o reconhecimento da independência da colónia pela metrópole (entre 1822-25). Digamos, contudo, que o grito teve o seu efeito.
Vem o fim de semana - só dois dias; não vou ficar independente do trabalho, inclusive neste curto período de tempo de suposto descanso. Ainda assim o grito de libertação resulta em alívio, face a "essenciais", "flexibilização", despachos e decretos surgidos em período de férias para lançar o arranque de mais um ano letivo.
Após alguns dias de calor intenso, eis que, ao fim da tarde, se anuncia a chuva leve e alguma trovoada - não ribombada, mas num longínquo e sufocado troado surgido logo após um breve clarão disparado no escuro da noite.
Nuvem para multiplicação de luz (Foto - VO)
No cimo, um foco de luz que a ensombrada nuvem não apaga; depois desta, ao fundo, há feixes, raios multiplicados, estendidos para o mar.
Um final de tarde com uma paleta de cores muito diversificada.
Sem medo dos humanos, há aves que se avizinham das mesas e dos caminhos que a elas levam - não vá uma migalhita perdida das mãos e bocas dos clientes servir para debicar e, quem sabe, levar para o ninho, onde outro bico esteja a aguardar alimento.
Petiscando, na esplanada (Foto - VO)
Patinhando em cuidado e sempre atentando nas redondezas, nos intervalos das pequenas pedras do passeio há petiscos que um cliente deixou cair ou um empregado limpou das mesas. Desperdícios humanos; sustento da ave.
Da banda sonora da telenovela Deus Salve o Rei (Globo, 2018), o par romântico Afonso-Amália vivencia toda uma rede de complicações e intrigas palacianas (entre os reinos de Montemor e Artena) que se revê na letra desta canção:
Música do álbum Hearts on Fire (2017), de Gavin James Montagem do filme com imagens da novela 'Deus Salve o Rei' (TV Globo)
WATCH IT ALL FADE
When you let go of love all gone
Save the world or write a story
No one has ever heard, before I knew
When I saw her heart over mine
Fear over somebody, fighting that fear
That you just can't believe
But you need it by living
Castles and islands
All the crowns and the diamonds
I don't think I can find them now
Stay if you want to
Leave if you need to
And watch it all fade
A disputa de tronos e de reinos parece uma versão brasileira de Game of Thrones, na qual as temáticas do poder, do ocultismo, da paixão entre uma plebeia e um nobre, da inevitabilidade do destino, da escassez da água e da afirmação do livre arbítrio e dos valores dignificantes do ser humano (em contraste com as perversões dos maus da fita) se cruzam com registos de comédia bem firmados no carácter de algumas personagens.
No seio de lutas insanas, tudo se dissipa - uma verdade que tem algo mais do que enquadramento telenovelesco.
Publicidade no seu pior... produzida e autorizada por quem não é melhor!
Dificilmente se percebe como alguém deixa que a sua imagem seja "colada" a um cartaz publicitário que deseduca, denigre instituições e resulta no pior do que sejam as virtudes de um "ensino gratuito e subsidiado":
in https://www.facebook.com/photo.php?fbid=1965815846772122&set=a.414110765275979.93757.100000311761998&type=3&theater
Não há curso que resista nem instituição que o legitime. Também não sei quem possa "fazer-se à vida" (a não ser que seja a má vida) com um péssimo exemplo destes - porque quem autoriza uma publicidade destas presta o pior serviço de educação. Já não bastam os casos apontados neste blogue, recorrentes no mesmo tipo de erro, e tinha de vir de Souselas a gota de água a fazer transbordar o copo (conforme se dá a ver na Circular Externa de Coimbra). Um instituto educativo deve preservar-se mais. Nem tudo vale - e separar a terminação 'ste' da base verbal conjugada no pretérito perfeito da segunda pessoal do singular é mais do que repreensível para quem se outorga do direito de trabalhar no futuro de estudantes.
Uma operação de marketing que falhou e que devia ser retirada do circuito, para não falar que alguém devia ser processado por ter prestado um serviço a não repetir.
Desconcertante, no mínimo.
O Instituto Educativo de Souselas perde credibilidade - na língua e na educação que pretensamente quer dar a quem terminou o 9º ano de escolaridade. Não se augura bom futuro.
Há tempos (mais precisamente, há cerca de dois anos e meio) andei por lá.
Fachada e jardins do Vidago Palace (fotos VO)
Prova disso são algumas das fotos que marcaram o momento, imagi-nando o que teriam sido os anos trinta do século XX, com todo o glamour, o imaginário das clas-ses abastadas que frequentavam o es-paço. Na verdade, talvez não seja ina-dequado dizer 'que frequentam', dada a seletividade que persiste, atualmente, no acesso ao interior do hotel. Fiquei-me pelos jardins (e já foi muito bom), por uns momentos breves (que valem para a vida, pelas memórias que o tempo permite reavivar na beleza natural envolvente). O resto foi pura imaginação!
De imaginação e ficção vive também a série reposta esta semana na RTP1: Vidago Palace. Produzida em 2015, com autoria e realização de Henrique Oliveira, ela conta, na contracena, com nomes conceituados nacionais (como Margarida Marinho, João Didelet, Marcantónio Del Carlo e Anabela Teixeira, mais Custódia Gallego, Pedro Barroso, Mikaela Lupu) e da Galiza (entre outros, David Seijo, Eva Fernández, Xosé Antonio Touriñán). Num registo composto por paixões, conflitos políticos, comédia, mistério e suspense, assiste-se a uma intriga localizada no verão de 1936 e nesse espaço homónimo ao título da série - uma das estâncias europeias mais prestigiadas desse período.
Trailer de Vidago Palace - série exibida pela RTP1
No circuito de personagens portuguesas, espanholas, inglesas e alemãs, as férias no hotel espelham o clima fascista de Salazar, as ameaças de Hitler, a guerra civil de Espanha, num prenunciado tempo a preparar a Segunda Guerra Mundial. Central é a relação amorosa de Pedro e Carlota, jovens de classes bem distintas, mas unidos no sentimento e no sentido de vida comuns. Entre os inúmeros obstáculos que têm de superar, há o jogo de interesses familiar cruzado com um casamento negociado e com tudo para falhar; a perseguição política a todos os que ameacem a força fascista reinante; a separação e a distância forçadas; as desigualdades sociais pretensamente calibradas por aparências, vícios e moralismos falsos.
Nos desconcertos da história, reina, entretanto, o espírito cómico de alguns núcleos de personagens (como as coscuvilheiras, risíveis e pedinchonas irmãs Perliquitetes, Cremilde e Gertrudes) e de ações (como o casamento final da histriónica brasileira Benvinda de Fátima com o novo-rico burguês e bonacheirão Bonifácio da Silva), a lembrar bem alguns filmes dos anos quarenta (com Vasco Santana, Ribeirinho, António Silva e Beatriz Costa).
Uma série que diverte, que ensina sobre um tempo, que afirma princípios e valores que dão à vida (por ficcional que seja) um toque de final feliz.
Um encontro intrigante (uma personagem com um passado por desvendar e uma realidade tão fictícia quanto aproximada ao vivido em Moçambique) conduz José António para a (re)descoberta de alguns dos enigmas que a guerra, a experiência de alfarrabista e a vivência de homem comum propõem à vida.
Cruzam-se neste enredo pensamentos literários e filosóficos, além de toda uma gama de conhecimentos a convocar futebol, política, arte plástica, ensino, coordenadas de tempo e de espaço em muito coincidentes com o real que alguns leitores possam (re)ver no dia-a-dia que foi ou mesmo naquele que ainda é (ou pode ser). Enquanto um desses leitores, vejo a ficção entretecida com uma realidade conhecida, esbatendo-se uma fronteira muito ténue a anunciar essa terra de todo o mundo e ninguém, uma "nowhere land" de muitos (se não for de todos) conhecida.
Revisto o Portugal dos finais do século XX / inícios do XXI, cabem nele a consciência do que foram os tempos de guerra colonial em Moçambique; os jogos político-estratégicos do regime ditatorial; os dilemas de quem cumpria um dever nem sempre reconhecido no poder que o impunha.
Cronotopicamente plural, o romance propõe uma rede de personagens e de relações que convergem maioritariamente para um local de convívio e alimento: ACozinha do Martinho. À mesa (e no jogo) se vê a educação, diz o povo. Há quem nela também faça grandes negócios e nela ponha as cartas. Em ACozinha do Martinho, à mesa surgem (re)encontros, resoluções, reuniões e (re)equilíbrios de situações narrativas, numa reconfiguração simbólica da generosidade do próprio santo que dá nome ao restaurante; ao chefe do espaço e à festividade celebrada no capítulo final.
Concluída a leitura e fechado o romance, tenho a impressão de já me ter cruzado com alguns dos espaços e algumas das personagens, embora ela tenha sempre de ser matizada, particularmente nos humanos, por traços fictivos de um José António, de uma Silvana (Sissi), de um Manuel Maria e de um Sr. Laurindo que (con)vivem nas páginas de um livro. E, de novo, nos confins da ficção ou da realidade, há uma espécie de limbo a alimentar dúvidas: pode o Man(u)el Maria de carne e osso que conheci ser o professor de ensino secundário (que também o foi, é e será) lido no papel? Pode qualquer semelhança da obra com a realidade não ser apenas mera coincidência, dando-me a ler um Sr. Laurindo que recupero das minhas memórias e revejo no próprio dia de apresentação do romance? É José António um múltiplo de Manuel Maria? É a carta do primeiro (que, não existindo, foi sendo) aquela que o segundo, pelo ato criativo de escrita, produziu com efeitos de real, a ponto de aparecer reproduzida num manual de Português (que existiu, sem dúvida)? E fico-me pelas figuras masculinas, porque de algumas femininas não diria menos.
É nesta espécie de "mise en abîme" - de uma História que daria um Livro a evocar Checa é pior que Turra; de um José António tão familiar(izado) no espelho de Manuel Maria; de uma ficção a gerar uma outra, ainda que tão aproximada do real nas contextualizações epocais evocadas - que o romance se impõe.
A fechar, há um "happy end" de uma história que, no ponto de arranque, "nunca encaixou na cabeça" de José António; que, na fase de resolução, Silvana reconheceu como enigmaticamente fantástica; que Carlos Vladimiro, no fim, confessadamente apresentou como desvelamento de identidade. Tudo acabou por dar em livro... e em vida com oportunidade de felicidade.
Em suma, e similarmente às palavras do Chefe Martinho quando se refere à comida do seu restaurante, digo desta obra que "temos coisinha boa!"
Renovado agradecimento ao Man(u)el pela dedicatória, pelo convite formulado para assistir à apresentação pública do livro, pela evocação de vivências e projetos que nos aproxima(ra)m e pelos momentos de leitura proporcionados. Nem penosos nem penalizadores, meu caro. Uma obra "maningue" interessante!
A quantificação do plural vale por dois: pelo bom jornalismo que vale por muitos, na seriedade, na responsabilidade e na qualidade de escrita que “agarram" qualquer leitor; pelo que, na falta das virtudes anteriores, cai no erro, no mínimo, e induz quem lê a opinar sobre dados falsos. Em vez de informação, propaga-se a ignorância da fonte, multiplicada pelas vozes que, do assunto, pouco ou nada sabem.
O furo jornalístico de que Os Maias deixam de ser leitura obrigatória para os alunos do ensino secundário sai tão “furado" e falso quanto a obra não ter sido tal desde a implementação dos então novos programas de 2010/2011. Agora, na discussão pública das “Aprendizagens Essenciais” para o 11° ano, mantém-se como possibilidade, conforme os programas em vigor desde 2015-16 (leia-se Os Maias ou, sublinhe-se 'ou', A Ilustre Casa de Ramires).
Perante o absurdo da conclusão jornalística, não será de esperar que tivesse havido leitura do documento nem sequer uma investigação que fundamentasse a posição de muitos professores que optam pela abordagem do primeiro romance face a qualquer outro queirosiano, em termos de lecionação. Também não sei se haveria capacidade para reconhecer que uma obra tão madura e excecionalmente construída por Eça seja uma mais-valia acumulada de sensibilidades estéticas, muito para lá da expressão realista-naturalista a que o autor tem andado associado; uma produção romanesca que tanto retrata criticamente a sociedade da segunda metade do século XIX como reflete comportamentos e percursos de desilusão tão comuns ao século XXI; uma narrativa que ensina mais pelo que dá a ler (no conteúdo e na língua) do que por qualquer análise mais estrutural ou estilística que dela se faça.
Sendo assim, quase como Eça criticamente o aponta nas primeiras páginas de Uma Campanha Alegre, assumo que, a exemplo de notícias como a identificada, e repetida por congéneres, a imprensa está longe de cumprir o seu papel. Se nos finais de oitocentos, cito, "A imprensa é composta de duas ordens de periódicos: os noticiosos e os políticos", nas primeiras décadas do século XXI persistem as mesmas (talvez acompanhadas por uma terceira ordem, mais desportiva), na generalidade com a inegável falta de qualidade seja de escrita seja de informação. Será este um caso de noticioso (sensacionalismo inútil) ou de político (talvez politiqueiro)? Seja qual for, muito terá a aprender com as raríssimas exceções de jornalismo de qualidade (para as quais, obviamente, estas palavras não são destinadas), por talvez se terem inspirado em Os Maias e/ou, definitivamente, terem descoberto como afastar-se do mau exemplo que o jornal "A Tarde" ou "A Corneta do Diabo" representam.
Casos como os destas notícias, divulgando e fomentando conclusões contrárias às "Aprendizagens Essenciais", só podem resultar de jornalistas que ou não leram a obra queirosiana (nem o documento educativo em discussão pública) ou, se o fizeram, não conseguiram ver nela mais do que uma simples história de incesto (nem as implicações educativas que ousaram noticiar). E de língua, nada aprenderam, a ponto de não saberem o significado de um 'ou'. Diria, uma aprendizagem essencial.
"Alguns jornais contaram este mês, com uma indignação ingénua, que na devota cidade Braga alguns missionários vendiam aos fiéis cartas inéditas da Virgem Maria" (Uma Campanha Alegre - XXXVII, pág. 223) - escreveu Eça. Um jornal contou hoje, entre o espanto e a indignação ingénuos, que Os Maias iam deixar de ser leitura obrigatória no ensino secundário - escrevo eu. Heresias (quando não são mentiras declaradas)!