quinta-feira, 25 de abril de 2019

Nesta madrugada... de há 45 anos!

         Foi esta a madrugada, há quase meio século (faltam cinco anos).

       A televisão difundia a notícia, as orientações e os cuidados para um momento histórico. Não eram ainda sete horas da manhã. Em cerca de quatro minutos, com as vozes de Fernando Balsinha e Fialho Gouveia, anunciava-se e afirmava-se a "missão cívica" do movimento das forças armadas:

Noticiário da RTP aquando da Revolução do 25 de abril de 1974

     Prosseguia a emissão com a Sinfonia nº3 de Beethoven - nada mais apropriado para tempos revolucionários (a conhecida "Eroica", frequentemente apontada como obra representativa da passagem musical da época clássica para a romântica, foi inicialmente dedicada a Napoleão Bonaparte; mais tarde, com a ascensão deste à condição de imperador, a página da dedicatória foi rasgada pelo compositor, em reação adversa ao que considerava uma traição aos ideais revolucionários franceses).
    Passados muitos anos, celebra-se a liberdade e a democracia como direitos, diria não adquiridos, mas em constante construção. Entre o muito que se conseguiu e o que esteja ainda por cumprir, cabe-nos dar, em cada dia, o passo necessário para cimentar a conquista feita, mas já por vezes ameaçada. 25 de abril também precisa de açúcar. para esquecer alguns dos momentos amargos, azedos que o sucederam
    Nos excessos e nas deformações que a liberdade democrática acarreta, a possibilidade de regulação e mudança é efetiva. O mesmo já não se podia dizer do anterior regime, despótico, ditatorial, felizmente derrubado. Deste não há só quase cinquenta anos de despedida; há muitos mais de resistência, de sobrevivência (para quem o conseguiu), de memórias que, ainda hoje, persistem e precisam de ser partilhadas, para que a consciência da libertação e/ou das atrocidades e dos silenciamentos vivenciados solidifique o bem que atualmente se tem face ao mal que algumas vozes teimam ainda em desejar / retomar nos momentos mais críticos do que foi alcançado.
      Tempo para lembrar o fim dos tempos de muitas armas, nomeadamente as cantigas. Tempo de diferença e de canto novo.

      Fica o registo de um dia que é de cravos, porque outros houve de espinhos e acúleos, com tanta gente ora à espera ora na luta contra um cinzentismo destruidor das cores bem vivas que a bandeira tem. 

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Nem de propósito...

      Assim se costuma dizer (e, agora, escrevo) quando de coincidências se trata.

      Ainda há dias redigi um apontamento sobre a música de Mendelssohn, a propósito de "Sonho de uma Noite de Verão". Hoje, no programa televisivo "Joker" apresentado por Vasco Palmeirim (concurso - teste de conhecimento, no qual o concorrente responde a um conjunto de doze questões, cada uma na modalidade de escolha múltipla), alguém fez uma má escolha:

Foto  da emissão televisiva do programa "Joker" (na RTP1)

     Caso para dizer que, se tivesse ido ao Coliseu (no passado dia dezoito) ou tivesse lido o apontamento desta "Carruagem 23", o concorrente teria melhor sorte.

       Não foi feliz este "casamento" musical, a julgar pela alternativa selecionada na imagem.

domingo, 21 de abril de 2019

Ovo de Páscoa cracoviano

     Regressado a tempo para a Páscoa
"Grande Ovo do Coração (Foto VO)
     Diretamente de Cracóvia, chega o ovo pascal.
  Na praça central de Cracóvia (Rynek Glowny), encontrei uns ovos de Páscoa ('Os Grandes Ovos do Coração"), símbolo da amizade, do amor e da alegria pascal. Uma dádiva aos olhos dos transeuntes e visitantes de boa vontade na região de Koprivnica-Križevci, à semelhança de exposições análogas em galerias e praças de outras cidades do mundo (Nova Iorque, Pittsburgh, Milão, Ferrara, Roma Bruxelas, Klagenfurt, Graz, Slazburg, Viena, Brno, Bratislava, Lendava, Zagreb, entre outras). Um projeto de pintura em estilo naïve, levado a cabo pelos artistas Josip Gregurić, Đuro Jaković, Stjepan Pongrac e Zlatko Štrfiček.
      Ao Papa Emérito Bento XVI foi oferecido um destes ovos, em 2010; eu trouxe um, em registo fotográfico (claro está!), comigo. Apanhei-o de "passagem", em pleno espírito de Páscoa - esta palavra, na sua origem hebraica (Pessach), significa isso mesmo - “passagem” -, a marcar, na mais natural das religiões panteístas, o final do inverno e a chegada da primavera. Para os cristãos, a Páscoa é a festa da ressurreição de Cristo, ocorrida três dias após a sua morte na cruz - também uma "passagem" para uma nova vida.

     Seja este Ovo de Páscoa o nascimento para um novo ciclo da vida. Boa Páscoa para todos.

sábado, 20 de abril de 2019

Transformar corações (com o livro do Senhor Green)

     Talvez um lema; quiça o objetivo da comédia Green book, vencedora do Óscar de Melhor Filme, Melhor Ator Secundário (Mahershala Ali) e Melhor Argumento Original.

    É, pelo menos, o propósito de uma das personagens - conforme se explicita numa das múltiplas situações, de inspiração factual, retratadas e vividas pelo pianista negro Don Shirley (Mahershala Ali), aquando da sua tourné pelo "Deep South" (Estados Unidos).
   Numa parceria improvável a fazer lembrar Amigos Improváveis (2011), desta feita, o patrão é negro; o empregado, branco. Don Shirley e o seu motorista-segurança Tony Vallelonga (Viggo Mortensen), respetivamente, são antípodas um do outro, quanto à formação, à vida que levam e à posição social que ocupam; contudo, as vivências e as aprendizagens aproximam-nos mais no que têm de semelhante do que nas diferenças que os marcam inicialmente. 
     O empregado branco e o patrão negro são a opção de partida para a desconstrução desejada. A sofisticação e o requinte do segundo contrastam com a limitação superficial e a instintividade do primeiro. Don fica chocado com o linguarejar e a latente discriminação do empregado face aos negros, não obstante a consideração neste observada pelos valores da família, pelo espírito aguerrido e pela irreverência (que acabam por proteger o pianista); Tony reconhece o talento do patrão, bem como a qualidade da sua escrita, acabando por o ajudar nas situações em que, injustamente, a segregação se evidencia, quer entre brancos quer entre negros. Na verdade, o filme aborda não só a desigualdade étnica, baseada essencialmente na questão cor, mas também a diferenciação / representação dos negros entre si - mais especificamente, dos que se encontram relativamente bem posicionados na vida (como Don) e que veem, com distanciamento e rejeição, os que nada têm senão o trabalho forçado, escravo, ou os que se ficam pela camada cultural mais elementar / popular, e vice-versa.
     O roteiro escrito por Farrelly, Brian Hayes Currie e Nick Vallelonga constitui o argumento do filme dirigido por Peter Farrelly, a convocar o livro The Negro Motorist Green Book, abreviada e informalmente conhecido por Green Book - guia turístico para viajantes afroamericanos, redigido por Victor Hugo Green, com o intuito de os auxiliar na procura de dormitórios e restaurantes amigáveis a pessoas de cor, num contexto em que o racismo e o preconceito imperavam no universo americano.

Trailer Oficial de "Green Book - Um Guia para a Vida"

     Entre o cómico de situações e a hipocrisia preconceituosa (nomeadamente a dos brancos que batem palmas ao famoso pianista negro, mas o impedem de frequentar a casa de banho ou de jantar num restaurante para brancos), o filme é uma construção, uma lição de humanidade - uma transformação dos corações e das mentes da década de sessenta nos Estados Unidos da América, inclusivamente os de Tony (que começara por colocar ao lixo dois copos usados por negros) e de Don (que toca para os seus companheiros de cultura negra no registo do jazz).

       A viagem dos protagonistas pelo "Deep South" é o confronto com a segregação dos negros; o regresso ao norte é a afirmação dos valores multiculturais e da integração multiétnica. O final, em época de nevada natalícia, é o sublinhar de um percurso assente nos valores da vida, em qualquer cor; no calor humano, amigo e familiar que permite suplantar diferenças, afastamentos, divisionismos, preconceitos. Mais do que justificados os Óscares!

quinta-feira, 18 de abril de 2019

De Shakespeare a Mendelssohn

      Tempo de música (alemã) e literatura (inglesa) em português.

      SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO: o título é shakespeariano, o de uma comédia cujo início foi inspirador para um espetáculo que, não sendo teatral, se tornou música (a partir da composição do alemão Felix Mendelsshon), canto e leitura expressiva. Da combinação resultou um concerto de sonho numa noite de primavera, sem enganos, sem equívocos ou erros interpretativos, sem o registo hilariante da “comedy of errors”; antes com a melodiosa harmonia de instrumentos de sopro, cordas e percussão, a enlevar o auditório com as reconhecidas ‘Abertura’ e ‘Marcha Nupcial’, entre outras. Foi ontem, no Coliseu do Porto, em harmonia, em melodia e a convocar essa fronteira entre o sonho ou a ilusão (dos efeitos emotivos nos espectadores) e a realidade (do que foi dado a ver na execução). 
     Numa parceria com o Centro Cul-tural de Belém e a Agência Nacional para a Qualificação e o Ensino Profissio-nal, o ‘Festival Dias da Música’ veio ao Porto, tendo o espe-táculo decorrido de um grande estágio de orquestra, orien-tado pelo maestro Cesário Costa e aberto a alunos de música de Conservatórios Oficiais, de Escolas Profissionais e de Ensino Particular e Cooperativo de todo o país. Com a orquestra (setenta músicos), cerca de noventa vozes fizeram-se ouvir: as do Coro Lira, do Coro dos Meninos Cantores da Trofa, do Coro da Academia de Música de Espinho e as das solistas Ana Maria Pinto e Patrícia Quinta. 
    No seio de tantas estrelas, a jovem promissora Catarina Farias fez-se ouvir com a penetrante sonoridade do seu oboé. 
     Um casamento feliz a três: canto, execução musical, mais a leitura expressiva de Pedro Penim, como narrador, a evocar alguns segmentos traduzidos (por Maria João da Rocha Afonso e Diana Afonso) desse texto dramático inglês. Ficou, assim, enquadrada a progressão de trechos musicais e cantos com a obra literária dos finais do século XVI, recuperando esse 'drama' no qual Egeu pretende casar a filha Hérmia com Demétrio, o qual, por sua vez, ama Helena (amiga de Hérmia). Apaixonada que é a primeira por Lisandro e sem direito a escolha, segundo as leis de Atenas, é a partir de Hérmia que se revelam os primeiros desconcertos no amor (cruzados nos universos da corte, do bosque e da representação dos populares). Fugidos os amantes para um bosque (reino fantástico onde Titânia, rainha das fadas, também está em conflito com o esposo Oberon, rei dos elfos), há feitiços e peripécias dramáticas, nomeadamente as vivenciadas com os “mechanicals”, a ensaiarem, no bosque, uma peça para o casamento dos duques Teseu e Hipólita. Como “All’s well that ends well”, é o amor que acaba por prevalecer.

'Festival Dias da Música' - foto do Coliseu do Porto

     Tal como no final da obra shakespeariana – quando Oberon apela para a música como indicador de recomposição da harmonia e fim do “jangling” (fim das confusões na intriga dramática) -, também os que foram à cidade invicta encontraram na música uma porta de luz, saindo encantados nessa ilusão ou nesse sonho de que há mais para além de um mundo por vezes demasiado duro de real. Tempo, música, companhia e poesia para a vida.

terça-feira, 16 de abril de 2019

Passos em memória

        O dia de hoje fica marcado pelos passos em direção ao genocídio.


Entrada do Museu AuschWitz-Birkenau (Foto VO)
        Auschwitz é nome de terror. Birkenau, um pouco mais ao lado, é bem pior.
      Aí chegado, a entrada no campo de concentração é imagem familiar, de tão vista em livros de História ou em documentários televisivos, para não falar de filmes que, a propósito da II Segunda Guerra Mundial e do poder nazi, a impõem aos olhos cinéfilos.
        A linha férrea a passar sob um pórtico-vigia altaneiro, como que a separar a vida pacata de uma localidade dessa morte anunciada para os que a ela chegavam, é símbolo de um caminho que muitos fizeram até ao extermínio mais ou menos imediato. Aqui chegaram muitos judeus, especialmente polacos, em massa, mas também os vindos de toda a Europa conquistada pelo exército nazi, excedendo em grande número para a capacidade das prisões até então existentes. Este foi o maior dos campos de concentração, num complexo constituído por Auschwitz I - Stammlager (campo principal e centro administrativo do complexo); Auschwitz II – Birkenau (campo de extermínio); Auschwitz III–Monowitz, para além de mais de 45 outros campos satélites.

Pórtico de entrada de Birkenau ou Auschwitz II  (Foto VO)

        Para lá do pórtico, prossegue ainda a linha de comboio; veem-se campos com barracões, que foram de cavalos e armamento e se tornaram de pessoas; erguem-se, aqui e acolá, postos de vigia, juntos a uma longa extensão de arame farpado, delimitando largos terrenos, até que, ao fundo, se vê um memorial às vítimas e, atrás, uma pequena fileira de bétulas resistentes ao tempo. Talvez tenham assistido a muito desse cenário hediondo que a Humanidade não pode esquecer. Após a invasão da Polónia (setembro de 1939), os soldados alemães fizeram da cidade Oświęcim (traduzida por Auschwitz) um espaço de horror, configurando a floresta de bétulas (Brzezinka) num espaço de genocídio, de extermínio - o lugar para a Solução Final dos judeus (mais de três milhões aqui foram assassinados).

Galeria-memorial às vítimas dos Nazis, em Birkenau (Foto VO)

        A determinada altura, a cada passo dado, os meus e os dos meus companheiros, soou bem na alma o ruído do cascalho misturado com a terra, como a avisar que aquele era chão de desgraça. Há cerca de oitenta décadas, podíamos ter sido nós a ser conduzidos para o trabalho forçado ou os ensaios médicos, na melhor das hipóteses; para as câmaras de gás da "Pequena Casa Vermelha" ou "Pequena Casa Branca", na pior (ou talvez não, por ser das mortes mais imediatas e libertadoras do terror que era viver). Seis crematórios acabariam por fazer dos corpos pó.

Os quartos nos barracos do campo de concentração de Auschwitz-Birkenau (Foto VO)

       Foi preciso esperar por 27 de janeiro de 1945 para o exército soviético libertar este campo de concentração - facto comemorado mundialmente como o Dia Internacional da Lembrança do Holocausto

        A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), em 2002, declarou oficialmente este local como Património da Humanidade. Um triste Património este nosso, prova da crueldade e da tortura de que os Homens são capazes.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Complementos sim..., mas cada um no seu galho.

         Poderemos até falar de árvores, se elas ajudarem a ver o nível de análise (ou na frase ou no grupo de palavras).

     A propósito de um exercício de um manual de décimo ano de escolaridade e depois de a professora se confrontar com a solução, veio a questão:

      Q: Nos versos camonianos "S'imaginando tanta beleza / de si, em nova glória, a alma s'esquece / que fará quando a vir...", o sublinhado é identificado, nas soluções do manual, como complemento oblíquo. Não pode ser complemento do nome?



   
       R: Pode, sim, tomada a forma verbal 'imaginar' como realização transitiva direta (ALGUÉM IMAGINAR ALGUMA COISA) e 'tanta beleza de si' como o objeto desse exercício de imaginação / idealização. Trata-se de uma leitura possível, na exploração de alguma ambiguidade sintática que o enunciado traz para um leitor menos focado em recursos estilístico-literários do nosso poeta clássico, nomeadamente inversões motivadas por efeitos rimáticos (entre outros efeitos estéticos, temáticos e estilísticos).
     Neste caso, o segmento 'de ti' é encarado como expansão de um núcleo nominal (> "beleza / de si"), pelo que, nessa medida, é face a este núcleo que se impõe determinar o nível de análise e a identificação da devida função sintática interna (ou de segundo nível). Portanto, pela dependência face a um nome (que se expande ou com modificadores ou com complementos internos), interessará saber se este último corresponde ou não aos que se pautam pela seleção de argumentos na sua estrutura lexical (diga-se, aos seguidos por complementos).
      Na tipologia típica dos nomes que selecionam complementos argumentais,  'beleza' é apontado como nominalização de qualidade, isto é, termo tipicamente associado a derivação de adjetivo denotando propriedade (ser belo > ter beleza). As entidades a que esta última se atribui constituem, por norma, os seus argumentos (ex: 'a amabilidade dos anfitriões', 'a beleza da jovem', 'a franqueza do amigo', 'a rugosidade da cortiça', 'a surdez do avô'). Segundo Ana Maria Brito (in Gramática da Língua Portuguesa (coord. Maria Helena Mira Mateus, Lisboa, Ed. Caminho, pp. 330-332), trata-se de um nome lexicalmente relacionado / derivado de um adjetivo (nome deadjetival), traduzível pela sequência 'o facto de ser p' belo > beleza', seguindo-se a este último um grupo preposicional (com valor de genitivo) tomado como complemento de nome.
       Retomando o reconhecido verso de Camões e assumida a beleza de uma entidade (por mais abstrata que seja), no plano da imaginação / idealização petrarquista, esta mesma ('beleza de si') é o resultado de uma relação predicativa ('a entidade é bela') que, por nominalização, se revê na estrutura lexical de um grupo nominal cujo núcleo é expandido por um complemento de nome ('beleza da entidade' > 'beleza dela' ou 'beleza de si').

      Outras leituras poderiam resultar da abordagem destes mesmos versos camonianos (particularmente se a ordem sintática natural fosse mais associada a > 'Se imaginando tanta beleza, em nova glória, a alma se esquece de si'). A multiplicidade de sentidos e a exploração de mecanismos literários (nomeadamente, convocando-se inversões) admitiriam outro tipo de disposições, configurações sintáticas, com implicações  diversas no significado. Nesse outro caso, outros níveis (de análise) e/ou "galhos" surgiriam (e outras funções sintáticas também).

terça-feira, 19 de março de 2019

Vantagens da leitura...?!

    Não gostaria de ter passado pela leitura disto... mas, já que o fiz, escrevo!

    Acredito que já era tempo de se ter aprendido alguma coisa com tanta apologia da leitura. Primeiro, é certo que quem não lê é mais facilmente manipulado pelo que outros digam (a tirania da ignorância sempre foi demasiado perigosa, particularmente para quem não tem acesso às fontes e passa a crer em qualquer inverdade, se não for falsidade, mentira ou erro). A Mafaldinha tem toda a razão. Segundo, não é menos verdadeira a ideia de que a leitura contribui para um melhor domínio da língua. Só que, neste último caso, a leitura tem que ser bem atenta e modelar, assente no bom exemplo do texto; focada nas realizações da língua e no modo como ela é aplicada, para que, depois, esta (também) se possa refletir noutros desempenhos adequados.
      Ora, considerando este último ponto, não é o que se passa com o que a BD dá a ler na réplica da Mafaldinha:

Recolhido da página 'Educação e Transformação'
(https://www.facebook.com/educaretransformar/photos/a.578929008813997/1160233454016880/?type=3&theater)

      Gostava de dizer que toda a gente sabe que um 'porque' atrai os pronomes (tal como um 'que' ou um 'não'): 'faz-se' > não SE faz; 'diga-se' > que SE diga;' di-lo' > porque O diz. Até a Mafaldinha o parece reconhecer em 'no que TE dizem'. Só que aquele 'porque obriga-te' desfaz toda a convicção no saber desta jovem tão contestária, bem como na força do meu gosto. Apetece-me mesmo dizer "MAFALDA! OUVE BEM O QUE DIZES!"
       Prova de que a lei da atração não é só para a Física nem só para o amor.

     Pois é, Mafaldinha, 'porque TE obriga'... é como devia ser! Tão inteligente és e não antecipas o pronome quando necessário / obrigatório. Acho que precisas de ler um pouco mais, para aprender melhor (especialmente uma gramática). Não há paciência! (Começo a perceber o olhar do Filipe, como se não acreditasse no que está a ouvir, vindo de quem vem). Qual educação, qual transformação!

segunda-feira, 18 de março de 2019

Mutações

      Sempre desconfiei dos descontos e das promoções.

    Há quem venda gato por lebre, mas fazer do frango porco (ou vice-versa) é novidade do "Continente" (a par de muitas outras, já reconhecidas neste blogue). Para quem não creia em tal, segue-se a prova:


      Confundir um galiforme com um suíno é caso para dizer 'Aqui há gato!' - nada como juntar um felídeo para a confusão ser bem maior (daqui a pouco, em vez de supermercado, teremos um zoo, com alguma variedade animal). Entre cacarejo e guincho, alguma coisa há de resultar (talvez um cacarincho ou um guincharejo, em modo de amálgama); porém, isso não impede de constatar que a bicharada anda louca com tanta mutação (e não é do preço que falo, obviamente).
     É um verdadeiro bico de obra (para bem do frango que o tem). Mas como só da perna se trata, o superpreço deve ser o reflexo de um combinado: em vez de duas pernas de frango vai só uma, com uma só outra de porco para compensar.

     Metade do preço para um dois em um - num cozido à portuguesa até dá jeito.

quinta-feira, 7 de março de 2019

O empréstimo e o imposto (ou vice-versa)

      Assim que revejo a minissérie Os Maias, de João Botelho (2014), lembro o presente.

     Talvez fosse de lembrar o passado. Porém, este tem características tão comuns com o presente que das duas uma: ou Eça era um visionário (antecipando no século XIX os vindouros) ou a realidade atual não consegue escapar ao que o outrora já ditou. E um pouco das duas também não é hipótese a descurar:

Excerto do 'Hotel Central' na minissérie Os Maias
de João Botelho (2014)

     Entre o empréstimo e o imposto se constrói a conversa ficcionada do Hotel Central, onde Cohen (político) é um dos mascarados e ridicularizados queirosianos; entre um e outro tem ainda e factualmente vivido muito português (se não for de dizer todo um país). Talvez desde sempre e por certo a continuar. É o que se me afigura pensar quando ouço um ministro dizer que o empréstimo feito por um banco da nossa praça não será pago com um cêntimo dos contribuintes; que serão os juros e dividendos da banca a fazê-lo daqui a trinta anos, também graças a um fundo de resolução bancária que mais parece um remédio milagreiro capaz de multiplicar milhões.
    Não sei se cá estarei para o ver nessa altura, mas creio que, muito antes, haverá um novo imposto ou uma outra forma sinónima de "contribuir" para este empréstimo bancário. Não dá para acreditar nas certezas ou afirmações de alguns governantes, quando o (des)governo se evidencia, por exemplo, no apagamento de tempo na carreira de profissionais (refiro-me, claro, a nove anos, quatro meses e dois dias - no mínimo; ao tempo de serviço docente que, por ter existido, não se quer ver como tal, a pretexto de uma dádiva de dois anos, nove meses e dezoito dias ou sob o argumento de que outros congelaram o que, agora, os "benfeitores" repõem, em versão compacta).
     O descrédito na palavra e nos atos é uma evidência presente, quanto mais no que venha a suceder daqui a três décadas (talvez não pelos mesmos, mas por outros afins na cor política ou na falta da verdade que, manifesta e retoricamente, é manipulada em detrimento de quem efetivamente trabalha e se vê espoliado de um tempo trabalhado, pago, descontado e que parece ser tratado como se virtual ou ficcionado fosse). 

     Triste de um país que se vê (des)governado assim - não há seguramente crédito no que se diz nem no que se faz (fez e se fará).

sábado, 9 de fevereiro de 2019

A propósito de sujeitos compostos

   Circula no facebook uma anedota ou resposta de um(a) aluno(a)... criativo(a).

   A questão é gramatical. A resposta é cómica:

Um registo a circular pelo Facebook, a partir de um blogue
(https://compartilhou.net/top-15-alunos-que-tiraram-0-mas-mereciam-10-pela-criatividade/?utm_medium=dbrlm&utm_source=dbrlm)

   Espero bem nunca recebê-la, pois (convenhamos) o comentário do(a) professor(a) bem que podia ter sido o meu. 
   Ainda assim, prefiro a resposta lida àquela que alguns pretendem (professores, explicadores ou materiais ditos didáticos): um sujeito que refere mais do que uma pessoa ou objeto (como se 'Os humanos erram' tivesse sujeito composto em 'Os humanos'). Enfim... não há gargalhada, por certo, que surja (muito menos quando se vê, na instrução, uma vírgula a separar o núcleo verbal ' Explique' do seu complemento 'o que é um sujeito composto ou, então, uma instrução formulada como frase de tipo imperativo pontuada como se de uma interrogação se tratasse). Oh, desgraça de formulação no discurso didático!
   Pelo menos, o(a) aluno(a) em causa brincou com a língua (o mesmo não será suposto que faça o professor, em contexto de avaliação). Pode ele não saber que um sujeito composto é um sujeito coordenado (ex.: 'O campo e a cidade são realidades vivenciais desconhecidas por muitos'); mas, pelo menos, não caiu nessa ilusória e enganosa definição que muitas vezes lhe é apresentada.
    Já de quem construiu o (mau exemplo de) enunciado na instrução, nem sei que diga!

    À sintaxe que explica a noção de sujeito ajusta-se um processo (coordenação) que melhor descreve a função (sintática) na sua construção. Quanto à instrução, não há construção que a justifique.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Conversas reais... destes tempos.

        Um cartoon com muito de verdade.

        São estes os tempos "modernos", com valores muito "seletivos" e poucos agradecimentos.


       Parece ser mais fácil e motivador reclamar. Agradecer, elogiar parecem verbos em desuso. Talvez a natureza conflituosa seja mais característica da nossa condição animal do que propriamente o reconhecimento das qualidades e do bem humanos, bem mais afetivo.

        Eu, porque não gosto de filas, vou continuar a agradecer (mesmo que, por vezes, sinta que devia ser também mais agradecido). 

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Publicação com mais de dez anos

     Retomo-a, por vezes, mas hoje revi-a no Facebook.

   Já lá vão mais de dez anos. No tempo, e em coautoria com quem também dava contributos significativos para a área da educação, esta publicação surgia como conjunto de sugestões orientado para o que eram as "aulas de substituição". Mais do que cem guiões destinados a dar algum sentido a uma dinâmica que também se podia cruzar com as áreas da Formação Cívica, do Estudo Acompanhado ou na complementaridade com atividades letivas.
     Lia-se, na "Introdução", que 

   "Desde o ano lectivo 2005-2006, o tempo escolar transformou-se num dos principais problemas que os professores têm de enfrentar. Todos passam entre 24 e 30 horas semanais na escola. Todos realizam actividades para as quais não tiveram condições de se preparar. Todos (ou quase todos) são obrigados a ocupar os alunos na ausência prevista ou imprevista de um professor. Mas não é só uma maior permanência forçada na escola. É também uma intensificação e complexificação desse tempo. Ser imprevistamente obrigado a ir dar uma aula de substituição a uma turma que não se conhece, de uma disciplina que não se domina; ou mesmo cumprir um plano de aula que um colega deixou no conselho executivo; ou ocupar um grupo mais ou menos numeroso de alunos em diferentes contextos são actividades de enorme pressão psicológica, de grande desgaste, nalguns casos até de grande sofrimento.
       O professor tende hoje a ser tratado como um faz-tudo, a ser obrigado a ensinar, a estimular e a socializar - ao fim e ao cabo as três funções verdadeiramente profissionais. Mas, para além da missão profissional, é empurrado para ser tomador de conta, guardador de crianças e jovens, para fazer o papel de auxiliar da acção educativa, de contínuo, de vigilante e de prefeito. Para fazer face a este problema plurifacetado, as escolas foram procurando e encontrando soluções diversas: a nível da organização escolar (estimulando e organizando permutas docentes dentro do mesmo conselho de turma, à semelhança do que sempre se fez no ensino profissional; distribuindo a turma por vários professores, que trabalham com pequenos grupos em diferentes locais ... ); a nível departamental (organizando um sistema de disponibilização de substituições entre os professores do mesmo departamento, disponibilizando baterias de fichas e actividades por níveis de ensino e por competências-chave); a nível individual (tendo sempre à mão vários planos de aula transversais, passíveis de serem executados em qualquer contexto educativo ).
       Mas qualquer que seja o esquema organizacional, é sempre necessário o recurso a conteúdos e estratégias com intuito pedagógico. A conteúdos que dêem sentido à acção que os alunos e os professores vão realizar. A conteúdos e actividades que possam interessar os alunos e que possam fazer deste difícil tempo de encontro forçado factor de satisfação comum. 
      E é neste contexto que surge este livro-ficheiro. Um banco de recursos da mais variada espécie e natureza, em suporte papel e em suporte digital, que será, estamos certos, um auxiliar valiosíssimo para todas as actividades de substituição.
      Acreditamos que esta publicação vai assim ao encontro de uma necessidade premente. E vai, com a inteligência e a sensibilidade dos professores, ser um instrumento ao serviço das aprendizagens dos alunos e da gratificação profissional.
      São estas as nossas convicções e os nossos votos."

     Trago o texto citado da obra em questão; trago a revisitação do Facebook e do blogue do Professor Matias Alves (um dos coautores) - Terrear.
      Pelo índice da publicação, há atividades para muitos gostos e múltiplas funcionalidades: treino da atenção, abordagem da escrita, escrita criativa, indução e gestão de conflitos, observação e visionamento, narração de histórias maravilhosas para encanto e aprendizagem. Assim se pensava e construía o trabalho para alunos do ensino básico e do secundário - cenários ensaiados, testados, implementados. Experiências práticas efetiva(da)s.
      Parece que querem usar a obra em Timor, aplicando algumas das sugestões / propostas.

    Muitas das ideias permanecem válidas, para uma publicação que, hoje, podia ser intitulada Aulas de implicação e construção de aprendizagens. Obra feita!

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

'Amor de Perdição' em versão muda

      Na procura de materiais que se cruzam com a educação literária.

    Abordar Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, em excertos e na escolha de capítulos avulsos é do pior que um programa de ensino possa propor. Ainda assim, permite uma liberdade (relativa) de ação, confinada apenas por uma gestão que se impõe na articulação / planificação de outros conteúdos.
    A noção da globalidade da intriga desta narrativa passional romântica pode ser conseguida através do visionamento de uma versão fílmica, entre as várias que a obra em particular já inspirou - a de 1943, de António Lopes Ribeiro, a preto e branco, ainda consegue provocar alguns (sor)risos à juventude. Depois virão os propósitos da escrita e do estilo, bem como o foco de análise no registo epistolográfico (citado e marcadamente deítico, nas condições do ato de escrita) que tão relevante se torna para a comunicação dos amantes.
    Foi precisamente na busca de uma dessas versões que me cruzei com um pequeno registo de cinema mudo. Não resisti a estes cerca de dois minutos e meio! Os efeitos expressivos, no mínimo, tornam o drama camiliano numa encenação cómica:

Excerto do programa "Os Anos de Ouro do Cinema Português" 
RTP2

   É verdade que o dramalhão romântico se ajusta a alguma comicidade para os espíritos leitores mais contemporâneos. Pode mesmo dizer-se que esta versão cinematográfica atinge o pleno, com a representação das personagens entre o fantasmagórico e o draconiano.
      Imagino o que seria a totalidade desta película.

     "Adeus! Amor de Perdição. Até à eternidade!"

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

A morte tornada comédia

       Pode lá ser?! No absurdo, a morte transforma-se na maior comédia.

       A vivência dolorosa de quem vê partir os seus nunca é desejada, por mais preparado que se esteja para tal. Outros dizem que falar dela, da morte, é bom sinal e que até a afasta do nosso circuito (quanto mais não seja por sermos nós a falar dela) - como diz o provérbio "Morte anunciada, vida acrescentada". Certo, certo é o facto de que "A morte não escolhe idades" ou o de que "A certeza da vida é a morte" (a dita inexorabilidade da morte, tão à Ricardo Reis). 
    Televisiva ou criticamente, há um tratamento do tema no mínimo inusitado. Basta ler as mais recentes legendas ou notas de rodapé associadas a dois canais da nossa praça:

Correio da Manhã TV - em versão de filme de terror?

Se em dois mortos morrem oitocentas pessoas, 
quantas mortes serão necessárias para dizimar a população nacional?
(Verdadeiro problema matemático!)

      Chega-se ao absurdo, de tão ridículo, ou ao riso, por tamanha tradução do uso humorístico ou indevido da língua. Mais na segunda imagem, diga-se; na primeira, há sempre a manipulação do que foi difundido, numa brincadeira de quem corta a legenda emitida ("Dois mortos em fuga de gás") e quer fazer passar o registo do ridículo face ao noticiado (que, não raras vezes, se põe a jeito para tal).
    Não sendo filme de terror (com a fuga dos mortos), por um lado, nem proporcionalidade ou raciocínio matemáticos (duas mortes para oitocentas pessoas vai ser a crise para armadores e serviços fúnebres), por outro, há registos jornalísticos que são ou podem revelar-se um autêntico susto (de morte) - ou, então, uma comédia sem fim.

       Caso para dizer que, em ambos os casos, é de 'morrer a rir' (salvo seja!).

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Tempo(s) de muito(s) trabalho(s)

      Fecha-se mais um ciclo formativo.

     Hoje foi tempo para concluir mais uma oficina de formação. O balanço é mais do que positivo quando se veem evidências de trabalho com os alunos, dinâmicas e práticas enformadas pelos pressupostos abordados / focados nesta formação específica.
      Houve demonstrações para todos os gostos: oficinas de escrita como projeto, oficinas de escrita na prática letiva, abordagem da escrita com algumas orientações e processos oficinais na revisão e reescrita,... 


    Foi ótimo ouvir que os alunos gostaram, que se sentiram implicados; que querem repetir a experiência, que avaliaram as práticas das aulas como oportunidade de melhorar, de aperfeiçoar, de consciencializar,...
    Não foi menor a satisfação e o espírito demonstrados, não obstante as dificuldades / os constragimentos, nessas conquistas que aconteceram em aulas de várias escolas, com professores motivados no(s) trabalho(s) desenvolvido(s) e apresentado(s). E, para além de tudo, verificaram-se sentidos de ação colaborativa na planificação, na execução e no acompanhamento, na avaliação produzidos...
      No fim, resultou a partilha, a construção de uma identidade profissional que se define pelos desempenhos atentos aos problemas e orientados para a superação de algumas das múltiplas dificuldades que o processo de ensino-aprendizagem naturalmente implica.

         Passadas trinta horas, ficam o reconhecimento e o agradecimento por a mensagem ter passado das palavras aos atos.
         

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Homonímia anglófona

     É o que dá ser viciado!

     Assim o demonstra o cartoon seguinte:

     O jogo homonímico (na semelhança gráfica e fónica das palavras) é evidente no inglês.
     Só mesmo um viciado no tabaco para pensar que se proíbe o vestuário.

     Ou é o que dá andar de smoking no dia a dia.

domingo, 20 de janeiro de 2019

Pelo andar da carruagem

       Pelo jeito que a coisa vai...

     Expressões sinónimas, por certo; mas com o termo "carruagem" há uma identidade da primeira com este blogue que a segunda expressão não tem. 
      Por mais impressiva que seja a situação, deve ser o resultado de uma visita ao Museu Nacional dos Coches (em Belém), depois de ter visto tanta carruagem, coche, berlinda, coupé, sege, liteira, cadeirinha, vitória, phaeton, landau, clarence, charabã, milords, caleça, carrinha, mala-posta... uma vasta coleção de viaturas hipomóveis usada em cortejos de gala ou eventos sociais relacionados com a arte da cavalaria e jogos equestres.
     Muitos foram os exemplares observados neste novo edifício aberto ao público há cerca de três anos, segundo o projeto arquitetado pelo brasileiro Paulo Mendes da Rocha (prémio Pritzker em 2006) em parceria com o arquiteto português Ricardo Bak Gordon.
      Enquanto a guia explicava, apaixonadamente, as características de cada um dos coches expostos e a evolução ocorrida nos transportes ao longo dos séculos, surgia a indicação do significado original da expressão "Pelo andar da carruagem": à medida que a carruagem se aproximava, os observadores locais deduziam acerca da importância, da posição ou da origem social de quem ia dentro dessa carruagem. Seja pelos materiais de construção seja pela quantidade de cavalos que a puxavam, a carruagem era um indicador de quem nela se transportava (rei, rainha, príncipes, nobre, patriarca,...).

Dos sécs. XVI ao XVIII - coches para todo o gosto (Foto VO)

      O acervo museológico contempla dos coches mais antigos do mundo, como o de Filipe II (III de Espanha) ao fundo da foto, aquando da sua viagem de Madrid para Lisboa, em 1619. A designação do transporte ('kocsi' ou 'koci') está relacionada com a cidade húngara de Kotze, origem da construção dos primeiros modelos, posteriormente exportados para Itália, bem como para todas as cortes europeias.
     O nome do Mâgnimo associa-se a vários modelos aparatosos, um dos quais no primeiro plano da foto supra à direita (Coche da Coroa). Este meio de transporte, embora destinado à realeza e às classes aristocratas, teve os seus exemplares mais faustosos usados em momentos solenes da corte, como casamentos reais, batismos de príncipes, aclamação de novos monarcas, embaixadas ao estrangeiro, deslocação de altos dignitários eclesiásticos, receção de soberanos ou figuras de alto prestígio no estrangeiro. Alguns serviram mesmo para um evento singular.

     Coche dos Oceanos - ao centro da foto, 
ladeado à esquerda pelo Coche do Embaixador 
e à direita pelo Coche da Coroação de Lisboa (Foto VO)

    O Coche dos Oceanos é uma das coqueluches do museu, pela espetacularidade ostentatória e faustosa joanina. Restaurado pela Fundação Ricardo Espírito Santo, é um dos três coches do conjunto de quinze que compunham a embaixada enviada por D. João V ao Papa Clemente XI, em Roma (um pouco à imitação do que D. Manuel I fizera ao Papa Leão X, em 1514). A oito de julho de 1716, D. Rodrigo Anes de Sá e Menezes (Marquês de Fontes) fez a sua entrada pública em Roma, antecedido de um magnífico cortejo que espantou não só a população romana como os reis da Europa, que não se atreveram, nos anos seguintes, a repetir o feito. O próprio D. João V mandou que os três coches, construídos em Itália, viessem de barco para Portugal, de forma a que os olhos reais pudessem confirmar a magnificência dos veículos tão comentada em Roma.

Coche da Mesa ou da Troca das Princesas (Foto VO)

    Também dos tempos joaninos é o Coche da Mesa ou o da célebre troca das princesas, junto à fronteira do Caia, a 19 de Janeiro 1729 (de Portugal saía, para Espanha, a princesa Maria Bárbara de Bragança, filha de D. João V, para casar com o príncipe D. Fernando, futuro rei Fernando VI, de Espanha; chegava a Portugal a princesa Mariana Vitoria, filha de Filipe V, para casar com aquele que viria a ser o nosso rei D. José I) - episódio de que se faz uma narração caricatural no segmento XXII de Memorial do Convento, de José Saramago (MC, 17ª ed., Lisboa, Ed. Caminho):

     «Porém, ainda se encontram famílias felizes. A real de Espanha é uma. A de Portugal é outra. Casam-se filhos daquela com filhos desta, da banda deles vem Mariana Vitória, da banda nossa vai Maria Bárbara, os noivos são o José de cá e o Fernando de lá, respetivamente, como se costuma dizer. Não são combinações do pé para a mão, os casamentos estão feitos desde mil setecentos e vinte e cinco. Maria Bárbara tem dezassete anos feitos, cara de lua cheia, bexigosa como foi dito, mas é uma boa rapariga, musical a quanto pode chegar uma princesa, pelo menos não caíram em cesto roto as lições do seu mestre Domenico Scarlatti, que com ela seguirá para Madrid, donde não volta. […] virá Mariana Vitória, uma garotinha de onze anos, que, apesar de pouca idade, já tem uma dolorosa experiência de vida, basta dizer que esteve para casar-se com Luís XV de França e foi por ele repudiada, palavra que parece excessiva e nada diplomática, mas que outra se há de usar se uma criança, na tenra idade de quatro anos, vai viver para a corte francesa a fim de se educar para o dito casamento, e dois anos depois é mandada para casa porque de repente deu a febre ao prometido, ou aos interesses de quem o orientava, de ter rapidamente herdeiros a coroa, necessidade que a pobrezinha, por inabilitação fisiológica, não poderia satisfazer antes de decorridos uns oito anos. Veio devolvida a coitada, magrinha e delicada, um pisco a comer, com o mal inventado pretexto de visitar os pais, rei Filipe, rainha Isabel, e pronto, ficou em Madrid, à espera de que lhe arranjassem noivo menos apressado, calhou ser o nosso José, agora com quinze anos, a fazer.» (pág. 297)
...


     «... quando D. João V atravessou o rio, no dia oito de Janeiro, para principiar a sua grande viagem, havia em Aldegalega, à sua espera, para cima de duzentas viaturas, entre estufas, caleças, seges de campo, galeras, carromatos, andas, uns que tinham vindo de Paris, outros feitos de propósito em Lisboa para a ocasião, sem falar nos coches reais, com as douradas frescas, os veludos renovados, as borlas e sanefas penteadas. Da real cavalariça, só em bestas, eram quase duas mil, não se incluindo nelas os cavalos da guarda do corpo e os dos regimentos da tropa que acompanham o cortejo. (...) João Elvas só vê cavalos, gente e viaturas, não sabe quem está dentro ou quem vai fora, mas a nós não nos custa nada imaginar que ao lado dele se foi sentar um fidalgo caridoso e amigo de bem~fazer, que os há e como esse fidalgo é daqueles que tudo sabem de corte e cargo ouçamo-lo com atenção, Olha, João Elvas, depois do tenente e dos trombetas e atabaleiros que já passaram, (...) vem agora o aposentador da corte com os seus subalternos, é ele quem tem a responsabilidade dos cómodos, aqueles seis a cavalo são correios de gabinete, levam e trazem as informações e as ordens, agora passa a berlinda com os confessores do rei, do príncipe e do infante, (...) depois aparece a berlinda com os moços do guarda-roupa (...) e outra vez não te espantes com essas duas berlindas cheias de clérigos e padres da Companhia de Jesus (...), aí tens a berlinda do estribeiro-mor, as três que vêm atrás são do corregedor da corte e dos fidalgos da casa de el-rei, segue-se a estufa do estribeiro-mor, depois os coches dos camaristas dos infantes, e agora atenção, agora é que começa a valer a pena, estes coches e estufas vazios que passam são os coches e estufas de respeito das reais pessoas, a seguir, a cavalo aparece o estribeiro-mor, enfim, chegou o momento, põe o joelho em terra, João Elvas, que estão passando el-rei e o príncipe D. José, e o infante D. António (...), e agora podes-te levantar, já passaram, já lá vão, iam também seis moços de estribeira, a cavalo, estas quatro estufas, aqui, levam a câmara de sua majestade, depois vem a sege do cirurgião (...), daí para trás é que já não há muito que ver, seis seges de reserva, sete cavalos de mão, a guarda de cavalaria com o seu capitão, e mais vinte e cinco seges que são do barbeiro de el-rei, dos copeiros, dos moços de câmara, dos arquitectos, dos capelães, dos médicos, dos boticários, dos oficiais de secretaria, dos reposteiros, dos alfaiates, das lavadeiras, do cozinheiro-mor, e do menor, e mais e mais, duas galeras que levam o guarda-roupa de el-rei e do príncipe, e, a fechar, vinte e seis cavalos de mão (...)» (pág. 300-303)

...

     «Caía a noite quando as primeiras viaturas da comitiva de D. Maria Ana começaram a entrar em Vendas Novas, mais parecendo um exército em debandada do que um cortejo real. As cavalgaduras, derreadas, mal podiam arrastar as berlindas e os coches, algumas iam-se abaixo das mãos e morriam ali mesmo, presas aos arreios. (...) Foi uma noite de grande desastre. Quisera a rainha seguir para Évora nessa mesma madrugada, mas foi-lhe representado o perigo da empresa, além de virem atrasadas muitas carruagens, o que resultaria em prejuízo da dignidade do cortejo.» (pág. 306-7)

    Depois, com o século XIX, são tantas as variedades de transporte urbano (basta lembrar a diversidade representada nos romances queirosianos, cruzando as ruas lisboetas) que uma ala do museu é praticamente ocupada com os modelos que a aristocracia, os burgueses e classe média mostravam à sociedade. Fico-me pela malaposta (dos inícios do século XIX), a poder dizer que é o transporte público mais remoto, dado o limite de transporte de dezasseis pessoas, entre a primeira e a segunda classes. Ao povo, restava-lhe o tejadilho, junto com as malas do correio (sem cinto de segurança e sem seguro, não obstante as quedas frequentes no trajeto).

     Num quatro rodas, com motor a gasóleo e muitos cavalos, fez-se o regresso a casa em cerca de quatro horas (saber que há pouco mais de um século, sem a hipótese do comboio, a viagem Lisboa-Porto ocupava mais de dia e meio).

sábado, 19 de janeiro de 2019

Aventura dos cinco

      Não se trata dos heróis infantis da Enid Blyton, não! Antes uns leitores adultos e bem queirosianos, reanimados pela Torre da Lagariça.
Rumo à Torre da Lagariça (Foto VO)
      O pretexto é a venda anunciada da Torre. Já que não pode ser comprada pelos próprios, estes vão ao encontro da que se diz ser a torre inspiradora de Eça de Queirós para a construção de A Ilustre Casa de Ramires (AICR). Já sabem que não vão encontrar lá Gonçalo Mendes Ramires nem  o projetado romance, em dois volumes, centrado no antepassado ou "avoengo" Tructesindo Mendes Ramires. O imaginário romanesco é motivo suficiente para juntar cinco amigos, fazê-los viajar pela zona norte de Portugal, dar umas gargalhadas e aproveitar um sábado chuvoso para ficar na história das respetivas memórias. Não há pretensão de escrita (pronto, talvez este singelo apontamento) nem intento genealógico e/ou político (como o de Gonçalinho); talvez o desejo de conhecer um pouco mais do país tão à mão, mas sempre tão ignorado pela sua interioridade. No final, já se sabe que haverá muitas histórias para contar e recontar, acrescentar uma piada, brincar com as palavras e as situações - um pouco como nas narrativas que o protagonista queirosiano lê, revê e reescreve à medida que com elas se cruza.
     Do Porto a Baião, entre curvas e contracurvas, procurou-se esse defensivo e sólido torreão, essa "robusta sobrevivência do Paço acastelado da falada Honra de Santa Ireneia, solar dos Mendes Ramires desde os meados do século X" (AICR, Lisboa, Edições Livros do Brasil, p. 6). Falar da casa de Ramires não parecia ser muito esclarecedor na busca de orientações; em contrapartida, a "Torre da Lagariça" já era tomada pela consabida tradição da marca da defesa da linha do Douro na época da Reconquista; aquela que, mais tarde, perdido o seu interesse e significado militares - com as fronteiras mais a norte - acaba, no século XVI, nas mãos da família Pinto (senhores da Torre da Chã e do Paço de Covelas, descendente de Paio Soares Pinto, que lutara ao lado de Afonso Henriques na Batalha de Ourique).
      Com a sua fachada granítica resistente ao tempo, lá se encontrava ela: a "famosa Torre, mais velha que Portugal" ou "a antiquíssima Torre (...) com uma pouca de hera no cunhal rachado" (AICR, ibidem) no seu formato quadrado e escuro, im-ponente, forte, a contras-tar com o fantasmagórico branco de uma decadência maior no solar anexo. Tal como o dissera uma habitante local, ao seu jeito popular e familiar, esta não tem lá ninguém. Mostra-se, na sua gran-deza, como testemunho histórico-literário da "fre-guesia de S. Cipriano, concelho de Resende, distrito de Viseu... e aqui estou eu".
    Um caminho rural estreito permitiu chegar mais perto. A densa vegetação envolvente, a invadir e bloquear o que foram acessos à casa e à torre, não impediu o calcorrear do miradouro, da muralha em torno do solar, nem a observação das fenestradas paredes de pedra típica nas fortalezas ameadas.
     Persistente, a chuva convidava ao abrigo nessas portas destruídas pelo tempo, a deixarem antever o que seria o espaço solarengo hoje abandonado. A vegetação desordenada, invasiva toma conta do vazio. O que foi um jardim torna-se tão natural quanto o tempo permite. Sobrevivem ali buganvílias entrelaçadas com silvas; folhas e ramos secos, mortos a par ou sobre tufos de musgo viçoso, com verdor.
     A resiliência dos  aventureiros (mais uns do que outros) resultou em registo fotográfico. Talvez, daqui a uns anos ou décadas, a imagem venha a ser diferente. Quem sabe - seria bom que assim não fosse - ausente.
       Hoje ficou esta:

Torre da Lagariça e o solar anexo (Foto VO)

      De regresso ao Porto, os cinco, sem que a imaginação os leve "sempre a exagerar até à mentira", vivenciaram uma viagem bem real, alimentaram o corpo e o espírito com o que de bom a vida também tem, sempre com "A esperança constante nalgum milagre, no velho milagre de Ourique, que sanará todas as dificuldades..." - por ora diria que bastava resolver o interesse em preservar um espaço, uma memória cultural e histórica, um motivo literário do interesse e da especulação imobiliários, no respeito pelo "silêncio e doçura da tarde (...), pedindo a paz de Deus para Gonçalo, para todos os homens, para campos e casais adormecidos, e para a terra formosa de Portugal, tão cheia de graça amorável, que sempre bendita fosse entre as terras" (final de AICR, pág. 362).  
   

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Andar / estar na berlinda

        Hoje cruzei-me com esta expressão, mais concretamente com uma das suas explicações.

     A guia da visita ao Museu Nacional dos Coches (Lisboa), depois de ter apresentado vários exemplares desse que foi ou tem sido (desde há séculos) o meio de transporte da realeza ou da aristocracia nobiliárquica, e também eclesiástica, chegou à demonstração do que era uma berlinda ou, do alemão, uma 'Berline':

Berlinda da Casa Real - Museu Nacional dos Coches (Foto VO)

     Comparativamente ao acervo de viaturas que havia sido anteriormente apresentado (faustoso e destinado a usos muito específicos e, por vezes, singulares), esta era uma carruagem de quatro rodas, leve e, por isso, mais rápida. Distinta do coche pelo tipo de suspensão, a caixa de transporte deixa de estar suspensa, mais comodamente assentando sobre duas fortes correias de couro (que dão maior estabilidade). Construída nas décadas finais do século XVII para Frederico Guilherme I de Brandemburgo, recebeu a designação da capital de Brandemburgo - actualmente capital da Alemanha: Berlim.
    Neste caso, estar ou andar na berlinda significaria dar nas vistas, chamar a atenção, estar em destaque, numa relação sinonímica de ostentação, luxo, riqueza. 
   Há, contudo, uma outra versão para a origem desta expressão: 'berlinda' é também palavra proveniente do italiano para referir um poste de madeira que, em praça pública, servia para expor a cabeça dos condenados ou para executar / açoitar criminosos, expondo-os a escárnio público.

     Em qualquer dos casos seria uma forma de chamar atenção, de evidenciar algo - razões, porém, bem diferentes, por certo, a ponto de se justificar a preferência pela versão do meio de transporte.