domingo, 29 de setembro de 2019

Salvo seja! Abrenúncio!

      Ao término de um fim de semana, ver materiais (que deveriam ajudar na preparação de uma nova semana de trabalho) cansa mais do que construí-los de imediato.

      A questão, já não sendo fácil de abordar, mais complicada se torna quando à nossa frente está o disparate. Trabalhar o complemento de nome (já surgido, na sua identificação, em exames nacionais) não é tarefa bem sucedida com propostas destas em caderno de atividades que acompanha um projeto editorial de manual escolar:

Foto relativa a um exercício proposto no Caderno de Atividades de um projeto editorial

      As frases de partida são:

      a) A foto do meu pai ficou muito boa.
      b) O meu interesse pelo estudo tem-me ajudado muito.
      c) A procura de emprego aumentou imenso.
      d) O irmão do Pedro emigrou.
      e) Ouço muitas vezes a música dessa banda.
      f) Algumas panelas de alumínio têm alguma qualidade.
     g) Estas pinturas do Douro são lindíssimas.
     h) A previsão meteorológica não é muito animadora.
     i) A ideia de frequentar esse curso agrada-me.
     j) O pastel de Chaves é ótimo.

     Ora, a tabela acima pressupõe que todas as frases têm um nome / grupo nominal que surge expandido por um complemento de nome. Nada de mais errado, quando, por exemplo, de panelas (f) ou pastel (j) se trata, para não mencionar outros casos bastante dúbios.

      Com isto termino: sem reconhecimento por quem produziu o exercício nem pela consultoria linguística que aparece como fonte de validação em capa, lá vou ter de trabalhar mais um pouco para compensar a falta de qualidade de quem recebe direitos indevidos (face ao mal que dá ao ensino e à aprendizagem). E depois dizem que o manual é um auxiliar do trabalho docente!

sábado, 28 de setembro de 2019

Enquadramentos

     Hoje, decidi emoldurar o céu e o mar.

     O muro de pedra - que tantas vezes tem feito de banco para os transeuntes mais cansados ou para os que decidem admirar a praia, inspirar o ar iodado e expirá-lo para o mar e o horizonte - tornou-se moldura de um quadro natural que o fim de tarde compôs:


Fotos de pedra, chão e natureza - Granja (Fotos VO)


     Encaixilhada a natureza, o infindável colorido fica nos limites da matéria dura, compacta; vê-se preso num enquadramento que aviva o contraste dos frios e ásperos minerais com as ensombradas partículas a pairar no céu, esperando esse reencontro caloroso com o oceano.

     Um dia, talvez venha a lembrar esse instante, cruzá-lo com outros já vividos, na imagem aqui deixada para o tempo, para a memória e para os sentidos que o quiserem evocar.

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Palavras para quê?!

      Nos últimos tempos, tem circulado no Facebook, com elevado número de visualizações, o exemplo identificado como do melhor dos(as) nossos(as) representantes municipais.

      É isto o que se chama defender uma causa, uma ideia, um princípio. Enfim, persuadir... para o riso ou para o choro, conforme se ache isto construção ou realidade:

Um discurso clarividente - à falta de melhores palavras!

      Identificada como Margarida Bentes Penedo, deputada municipal do CDS por Lisboa, resta saber que o tema da "preleção" é o da "ideologia de género".
     Que mais dizer / escrever? Discurso fluido, coerente, bem fundamentado, numa clareza de ideias e progressão informativa inexcedíveis. O melhor exemplo de oratória, digno dos modelos mais ciceronianos do discurso. A prova categórica de que ser deputado(a) é o reconhecimento de qualidades superiores - no mínimo, a do falar bem.

       Começo a crer que, com tudo isto a ser verdade, o CDS escolhe cada vez melhor! Outro partido que fosse não lhe ficava atrás.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

"Não quero nada. Deixa-me dormir."

       Palavras citadas, palavras ajustadas.

       Eu que o diga. É o que me apetece responder quando me perguntam "Queres alguma coisa?"
     Cada vez mais a vontade é a de dormir, mas não o dormir que deu em morte, quando Cesário Verde proferiu as que, dizem, foram as suas últimas palavras (um dormir eterno, portanto). 


O Livro de Cesário Verde (RTP 2 - da Série Grandes Livros)

       Poeta da cidade e também do campo; transfigurador de uma realidade que o aprisiona e atrofia, buscando alternativas no tempo, no espaço ou na intensidade emotiva; um comprometido com as questões sociais, lutando por um equilíbrio que as desigualdades e injustiças sociais não permitem; um solidário com as vítimas de uma sociedade atroz, sombria, doentia, dominada por poderosos que comprometem a igualdade e a equidade desejadas.
     Outros temas podem ser recuperados na poesia cesariana. O visionamento deste documentário pode ser uma boa oportunidade para complementar experiências de leitura e/ou confirmar recorrências; dar ensejo à verificação da intemporalidade da mensagem poética dos finais do século XIX, bem como à apreciação crítica da leitura de alguns versos.

      Palavras que precisam de ser enquadradas, porque das comentadas sem sentido já bastam as que andam por aí a infernizar a vida.

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Gente que não sabe!

        O título do programa televisivo é "Gente que não sabe estar".

        Ricardo Araújo Pereira brinda-nos, ao domingo à noite, com um programa televiviso de registo cómico, a fazer esquecer, por momentos, que o dia seguinte (hoje) é o de retoma do trabalho. (Bem haja o esquecimento provocado!)
        Ultimamente, em vésperas de eleições legislativas, têm sido entrevistadas figuras partidárias e/ou governativas que têm marcado o nosso panorama político. Desta feita, foi a vez de André Silva, porta-voz do PAN (Pessoas-Animais-Natureza) e deputado da Assembleia da República desde 2015. E quando tudo corria pelo melhor, num estilo bem hilariante, eis que se falou de erros, de touradas sem animais e surgiu o pior, o impensável:

Programa da TVI, emitido ontem na TVI (montagem fílmica)

        Tem sido uma constante esta falha da colocação do pronome, tanto na conjugação verbal no futuro como na do condicional. Típica e corretamente colocado entre a base verbal e a terminação (isto é, no meio da forma verbal), eis que há os que teimosa e erradamente o colocam no final do verbo. Até o Sr. Deputado! Precisava de treinar uns diálogos pronominalizados que eu cá conheço...

         Bem que podia ser "Gente que não sabe falar", a julgar pelo que o convidado diz (mal).

domingo, 22 de setembro de 2019

Ao final de um dia de sol

      (Ou quando essa estrela de luz e calor se foi...)

    O registo fotográfico de um novo final de dia impõe-se, não tanto pelas cores, mas antes pela sugestão do que é dado a ver no firmamento:

Foto de um final de tarde brumoso (Foto VO)

       De novo junto à Granja, parecia erguer-se da espuma das ondas ou do sulcado mar um esguicho de nuvens, projetado e espalhado num céu que ia perdendo o azul e o brilho da tarde. Borrifada a pele de neblina, como se desse repuxo de sombra cinza tivesse vindo, a friagem pedia agasalho. As pinceladas de calor eram poucas, sem força, ténues. Abrumou-se o tempo, o espaço, o ser. 
       Nem o iodado e sorvido ar curam a perda de um instante que foi apaziguador. Não há sal que, por comparação, tempere o que está para vir.
      Qual relógio de areia ou clepsidra que vê a água escoar-se, não há retorno desse instante vivido. Por mais que se torne ou faça parte de novo ciclo, não será jamais o mesmo. Será sempre outro, irrepetível.
       Diz o filósofo Heráclito que o Homem não se banha duas vezes na mesma água do rio. Por maior que seja o oceano, também este não limpa as pegadas de um areal que não chegou a ser pisado.

     Findo o domingo, volta a semana contada nos dedos de uma mão aberta às muitas que a procuram.

sábado, 21 de setembro de 2019

Tempo outoniço

      Hoje, as nuvens, a frescura, o vento e a chuva.

     O apontamento do dia faz-se com uma foto do final do dia de ontem:

Um pôr-do-sol e um barco a flutuar (Foto VO)

    Pareceu a despedida do verão para o outono que hoje se pôs. Um barco flutuava frente ao pôr-do-sol, como anunciando a passagem, a mudança que se impõe nos ciclos desta vida. 

     Ontem, uma tarde de sol, do veraneio que se foi (para mais cedo ou tarde regressar). E a vida flui.

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

O que a mente quer ver / ouvir / dizer

     Quando hoje falava aos meus alunos das representações que fazemos e das perceções que construímos,...

     Não sabia que, chegando a casa, iria cruzar-me com uma imagem a propósito. Teria sido um ótimo exemplo para trazer à discussão, bem para além do copo meio cheio (que também pode ser meio vazio), da referência ao imperador francês ou ao derrotado de Waterloo (Napoleão foi ambos os casos). E, com eles, a língua traduz um posicionamento e um sentido argumentativo imensos (numa clara perceção quando ao modo como as entidades ou as situações são vistas por quem fala).
     A imagem encontrada é fantástica:

Imagem colhida no Facebook

     Dependendo do que se veja  (guitarra ou cenário espacial matizado pelo tempo), e para que tudo não se fique pela metade,  há sempre a possibilidade da fusão de ambas: um final de dia com o ambiente refletido nas margens de um curso de água, na fluidez a que a própria música, em registo harmonioso, não é estranha. Flui a água, flui o tempo, flui a música, flui o ser humano que os vive.

      ... não imaginava que vinha aí a música feita de espelho de água, árvores e luar.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Refugiados, migrações... em debate

      Em modo de produção de materiais.

      Porque antes de debater, há que apresentar exemplos; porque antes de se falar, há que ver modelos e articulá-los com conteúdos que vão ser transversais às aprendizagens (lógica argumentativa e conhecimentos de mundo). A compreensão do oral assim se constrói, em articulação com outras exigências pedagógico-didáticas sublinhadas pelo novo enquadramento legal dos ensinos básico e secundário.
       O tema é atual, a reflexão impõe-se em termos de cidadania e desenvolvimento, a sensibilização é premente para que se mantenham características que nos definem culturalmente, enquanto povo que abre os braços ao mundo.

Montagem de excertos do programa televisivo Prós e Contras (18 de junho, 2018)

      Orientado o visionamento para um conjunto de tarefas (ficha de trabalho), prepara-se uma escuta / um visionamento ativo, reflexivo e formativo, articulado com discursos políticos, e sempre com a língua à mistura.

     Quando feito em colaboração, fica sempre melhor. Obrigado, ARS. Estamos imparáveis.

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Bem precioso!

     Seja a água...

     Saber continua a ser uma forma de poder. Ignorância não ajuda a fazer escolhas.

Desconhecimento - fazer do perto longe

     Quando se sabe escolhe-se melhor. Quando não se sabe, as escolhas são tão erráticas que nem se faz a opção pelo que está mais à mão / mais perto.
     Sem água não há ser vivo que sobreviva por muito tempo, com ou sem conhecimento; sem conhecimento também há quem possa não chegar ao destino atempadamente, pondo em risco a existência.

     ... seja o conhecimento.

domingo, 15 de setembro de 2019

Polissemia

      Quando o dever não dá lugar a pagamento.

    O dever de obrigação (deôntico) difere do de probabilidade (epistémico). Também há o dever das tarefas solicitadas, o do reconhecimento, mais o das dívidas a pagar (não sendo obrigação, bem que o podiam ser em qualquer dos casos, para evitar a falta, o silêncio e a injustiça). E na confluência de todos, vem o cómico:

Cartoon colhido do 'Facebook'

     Se ao primeiro se associa a atribuição e o reconhecimento (daí 'dever' ser sinónimo de 'atribuir-se'), ao segundo é dado o significado do pagamento ('estar em dívida'). É o que dá o termo ser polissémico (ou, então, o sentido de crise andar muito apurado).

    Mais uma razão para se diversificar o vocabulário nas interações, não vá um aluno pretender brincar com a situação (e o significado das palavras).

      

sábado, 14 de setembro de 2019

Pôr-do-sol carregado

      Carregadíssimo de nuvens, como se fossem desabar no mar.

      Ao fim do dia, as cores são tão inspiradoras...
      Talvez não sejam da intensidade já colhida, mas atraem o olhar e guiam as mãos na (re)construção do instante.

Junto ao mar na Granja - (Foto VO)

      Depois da foto, a escrita...

     INSTANTÂNEOS

     Escuro... bem escuro...
     A luz está para o horizonte.
     Não sei o que dizer do futuro.


     Creio nele, nas águas de uma fonte.
     Quando secarem ou o travo for impuro,

     O mar abrir-se-á a novo céu, outra terra, alto monte,
     A longo caminho feito de cada passo sentido como inseguro.

     Há de vir mais um dia. Erguer-se-á uma outra ponte

     para novo tempo, espaço e ser mais maduro.


     Não sei se esta será uma reflexão sobre o tempo, se uma marca da existência. Talvez seja apenas o registo de um momento sensitivivido.

      Versinhos para fechar mais um instante deste dia.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Política?! Sim...

       Em busca de uma política de bem comum.

      Não a dos partidos políticos, porque essa já cansa de tão retórica, ilusória, fingida e desacreditada. É mais a dos seres humanos que, em solidariedade e em esforço conjunto e gregário, convocam a noção etimológica da polis, do ser social que aspira ao bem comum, sem a sede de poder.
     Não se trata de governar um estado (longe de mim tal pretensão), mas de educar para valores sociais que permitam a intervenção na realidade, na sociedade enquanto cidadão livre, responsável e respeitador do outro, particularmente daquele que está em situação crítica.

Diapositivo I de um Powerpoint para abordagem de discursos políticos

Diapositivo II de um Powerpoint para abordagem de discursos políticos

    Nisso a arte também tem o seu papel desencadeador, promovendo a leitura, a discussão, a aproximação a sentidos comuns de realidades por vezes bem distintas. Vieira da Silva, pintora portuguesa, é um caso a considerar neste raciocínio. Há histórias trágico-marítimas muito diversas, de tempos bem contrastivos, mas todos convocando o perigo, a fragilidade humana, o caos social.

      Leia-se a arte, relembrem-se os textos, revivam-se histórias da História e, afinal de contas, o(s) tempo(s) repete(m)-se. 

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Fim do dia em cor de fogo

     O sol põe-se, a noite vem e o céu ainda se pinta de fogo.

    É comum, na Granja, haver este espetáculo de luz e cor(es) no prenúncio da noite. Olhar para a linha do horizonte é perscrutar essa ânsia de buscar o longe, de rumar ao desconhecido. Contemplar o céu no múltiplo colorido que o pôr-do-sol e a noite trazem é desejo de voar, de me libertar da terra, de ascender ao calor que o neblinado instante ameaça apagar. De tão único, singular, nessa hora que todos os dias acontece, o momento inspira(-se) e o fragrante iodado refresca o pensamento, seco e gasto neste enleio de vida tantas vezes sem asas.

Foto do final de uma tarde ou do início de uma noite rasgada por um ângulo de luz

      Queria ter sido o pintor desta tela feita de rochedo, mar, céu e nuvens; de sol fugidio, a esconder-se da lua e das estrelas. Traçaria um ângulo de luz a separar o negrume dos rochedos, banhado pela maré vaza, de um céu manchado de nuvens e de azul a escurecer.
       O fio-de-prumo do horizonte seria linha de bruma, fiada de mar.

       Fica o registo fotográfico para memória das cores de um final de dia (ou do quadro que teria pintado se a inspiração e o sol não fugissem).

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Como se o problema fosse não saber jogar...

      Ao final da tarde de uma terça-feira, ainda se ouve falar dos resultados de futebol.

      Já não basta, ao final de sábado ou domingo, ter mais de seis canais televisivos a falar do mesmo (a derrota do Benfica, na Luz, com o Futebol Clube do Porto), e a semana continua no mesmo tom. Parece ser a crise instalada, como se o campeonato nacional ficasse já decidido à terceira jornada. Enfim!
       E, no meio de toda a inteligência futebolística e tanta teoria clubística, vem a nota de rodapé com o maior dos escândalos:

SIC NOTÍCIAS no seu pior - emissão de 'Mercado Aberto'

      Deste ninguém fala, se é que alguém mais o viu!
      Pior do que o Benfica não saber jogar (se é que tal se pode concluir da derrota num jogo, como se houvesse infalibilidade nos derbies, nos jogadores e nos treinadores) é não se saber escrever, nomeadamente num programa / canal televisivo. Confundir a construção 'haver de + V' com qualquer outra realização inexistente no português (por mais homófono que pareça) é caso para mostrar cartão mais do que vermelho, com expulsão direta.

     Ao final da tarde de uma terça-feira, é lamentável a perda de tempo com tanta conversa de futebol quando da língua, e da forma de a bem escrever, não há quem cuide delas cuide na TV.

sábado, 17 de agosto de 2019

Voltando ao 'Joker'

     Já por várias vezes me referi ao 'Joker' - prova de que o vejo.

     É das poucas coisas televisivas a que vou sendo fiel (pela amplitude de conhecimentos que nele se revê), mas a verdade é a de que o programa não está isento de contínuos reparos. Cá vem mais um, a propósito da emissão de hoje:

Imagem alusiva ao programa televisivo 'Joker' (RTP1 - Foto VO)

    A imagem é a do momento em que o concorrente, para a questão formulada, seleciona a hipótese Álvaro de Campos (um heterónimo pessoano, dos mais conhecidos e versáteis, a par de Alberto Caeiro e Ricardo Reis). Nada a obstar quanto à frase "Minha pátria é a língua portuguesa" ser da autoria de Bernardo Soares - assim a encontramos num dos fragmentos do Livro do Desassossego. O aspeto crítico está mesmo em considerar Bernardo Soares um heterónimo, quando o autor Fernando Pessoa o classificou como semi-heterónimo. Assim o justificou, no último ano de vida, numa carta escrita a Adolfo Casais Monteiro (13 de janeiro de 1935):

    «O meu semi-heterónimo Bernardo Soares, que aliás em muitas coisas se parece com Álvaro de Campos, aparece sempre que estou cansado ou sonolento, de sorte que tenha um pouco suspensas as faculdades de raciocínio e de inibição; aquela prosa é um constante devaneio. É um semi-heterónimo porque, não sendo a personalidade a minha, é, não diferente, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e a afectividade. A prosa, salvo o que o raciocínio dá de ténue à minha, é igual a esta, e o português perfeitamente igual [...]»

       É no fragmento 259 que se lê a frase citada no programa televisivo:

  «Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa.»

     Tão mais simples, rigoroso e certeiro seria apenas perguntar "Quem escreveu / Quem foi o autor da frase 'Minha Pátria é a língua portuguesa'?" (pelo menos, não induziria em erro, para a escolha de um dos heterónimos mais comuns).
   O ajudante de guarda-livros, o morador da Rua dos Douradores, assume um estatuto singular, distinto, privilegiado na escrita pessoana. É o narrador principal do Livro do Desassossego, pensador que não é poeta, mas assume trechos de uma prosa poética, na qual viver sonhando, sonhar imaginando e imaginar sentindo são ecos da poética do ortónimo. Foi uma "personalidade literária" (como Pessoa também o chamou), que vivia num quarto alugado e conversava sobre literatura com o criador, considerando "a vida uma estalagem" onde se demora até que "chegue a diligência do abismo" (uma angústia existencial partilhada com quem lhe deu vida).

     No prefácio ao Livro do Desassossego, Pessoa assume que Bernardo Soares foi "um indivíduo cujo aspeto, não me interessando a princípio, pouco a pouco passou a interessar-me". Daí à identidade foi um grande passo para se ter no primeiro o espelho a deixar ver alguém que está por trás de muita(s) Pessoa(s) - ser um só no seio de muitos, ou seja, um que tem em si o outro.

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Ainda des(cons)truindo mitos

      À nona longa-metragem, Tarantino dá à Sétima Arte um filme com muitos outros dentro.

    Começando pelo fim: após o clássico "The End" e na sequência da apresentação dos créditos fílmicos, numa espécie de making of em registo cómico, surge a personagem central do filme (Rick Dalton, na interpretação feita por Leonardo DiCaprio) a publicitar uma marca de cigarros, até que, repentinamente, o discurso do elogio dá lugar à crítica e à aversão ao produto anunciado. Assim se constrói ilusões, se denuncia como se manipula o público e se dá a ver que a fronteira entre a representação e a realidade pode ser bem expressão do seu contrário. Assim se dá início ao desconcerto.
       A dupla DiCaprio (Rick Dalton) - Brad Pitt (Cliff Booth) assume-se na centralidade de uma intriga focada, respetivamente, na vida de um ator em decadência que luta por manter uma carreira cinematográfica; de um duplo com passado dúbio, tornado assistente de Dalton, por só com este parecer ter emprego. Na vida glamorosa de Hollywood, estes exemplos de anti-heróis parecem evidenciar bem mais as inseguranças e fragilidades humanas do que a realidade fantasiosa e idealizada vendida pelo cinema.
     Começa aqui a quebra de um mito: o de que tudo é bom no brilho da cidade do cinema. Um Dalton com sinais de gaguez, rendido à segurança de uma criança que o acompanha nas gravações de um far-west é um dado apenas; um Booth ensombrado pelo passado, sem nenhum desempenho da sua função (destacando-se por dar comida ao cão ou por desafiar um Bruce Lee fantasioso) é outro; uma Sharon Tate (Margot Robbie), deslumbrada pelos seus desempenhos - que ninguém parece conhecer -, a ressonar no seu sono de ‘bela loura adormecida’ ou a colocar os pés sobre a fila da frente no cinema é mais um; um local que serviu de filmagem para westerns servir de antro de violência, libertinagem desvairada e habitáculo de impuros e rejeitados (metaforizando o habitat dos seguidores de Charles Manson ou de todos aqueles que conseguem, com discursos manipuladores, legitimar o impensável no seio do caos apocalíptico da sociedade em geral) é outro ainda.
     O final da década de sessenta traduz também uma mudança, o fim de um tempo: os acontecimentos do verão de 1969, quando a Família Manson põe fim ao movimento “peace and love” com uma série de assassinatos pela cidade de Los Angeles, espelham essa viragem. O movimento hippie transformado em fonte de serial killers é a fonte para que Tarantino consiga introduzir, na película, o seu estilo excessivo e destrutivo, misturado com o efeito cómico dele resultante; é a oportunidade para destruir o mito da eterna inocência, para questionar o ideal hollywoodesco, ao incorporar em si, o poder influenciador de gerações – e, nestas, não deixam de existir elementos desvairados, desviados e perturbado(re)s.

Trailer do filme de Quentin Tarantino

      Desconstruindo a ilusão e a fantasia, a maior prova de todas dessa intenção é o recurso a atores conceituados que representam personagens que menorizam as estrelas; a aproximação a referências da arte cinéfila, subliminarmente sugerindo atores e filmes das décadas de 50 e 60 do século XX, para não mencionar alguns da carreira do próprio Tarantino; a relativização do trágico ataque à casa Dalton face à socialização dos vizinhos famosos. Em contrapartida, aquelas impõem-se pela reconstrução ficcional de factos da cultura e da vivência norte-americanas: contrariamente ao realmente sucedido, a namorada de Roman Polanski é poupada à morte dos Manson; os Manson morrem, em vez de matar, atacando a casa de Dalton e não a dos Polanski.

     Era uma vez no Oeste (1968)? Não. Era uma vez na América (1986)? Também não. Era uma vez… em Hollywood (2019). Sim, enquanto expressão interfílmica conseguida por Tarantino, trazendo outros filmes para o seu filme ou desmontando e destruindo mitos que (ainda assim) não negam a perceção de Hollywood como espaço de fantasia(s), de alternativa(s), de 'era uma vez' (ou muitas vezes).

domingo, 11 de agosto de 2019

Direito a reclamar

        É estratégico o ato, perante publicidade (que só pode ser) enganosa.

   Quando se lê a ementa e se encontram propostas como as da direita, vindas como sugestão do chefe, apetece-me comer e beber à grande (com escrita devida do acento grave) e pedir o livro de reclamações a seguir. E já não me foco no acento gráfico (sendo já grave a con-fusão com o agudo), no nome que nunca é adjetivo ("carvão"), na abreviatura "c," como se fosse redução de 'com', na perda de nasalidade dos "ro-jões",  nem sequer na grafia incorreta da toponímia. Estou mes-mo atento às entradas e, particularmente, ao camarão.
    Ainda me dou ao trabalho de imaginar a apresentação do dito: suspenso em linha, cosido (com fio, claro está), cru. Assim seria servido, cabendo-me a obrigação de o grelhar na chapa, o fritar ou o colocar em água a ferver com sal. 
     Se aparecesse já cozido (ao lume, na cozinha, por certo), o cenário seria bem outro e, aí, sim, viria o motivo para reclamar: o anúncio é de camarão "cosido", não "cozido".
     Falsa publicidade precisa de ser denunciada. Como o cliente tem sempre razão, mediante a sugestão, a causa só podia ser ganha. Comia o "cozido" (com satisfação) e reclamava pelo que não me foi servido, conforme o escrito.
    Altura de mudar a escrita do cardápio, não?

       A homofonia é crítica, mesmo entre comensais. Chega a não ter graça nenhuma.

domingo, 4 de agosto de 2019

Fundamentalismos tecnológicos

    Num mundo altamente tecnológico...

  Porque a digitalização é preferível à impressão em papel; porque o "pensamento verde" e a sustentabilidade sublinham a importância na redução do consumo de papel; porque já é possível ler sem ser em suporte papel; porque já é possível escrever sem gastar papel; porque é preciso poupar papel (não o poupo eu, até agora, nesta repetição textual tão motivada), não se pense que tal representa a menorização do mesmo. Ele foi, é e será um companheiro do nosso dia-a-dia.

Publicidade inspirada no mais comum da vida
    
     Tão verdadeiro quanto comum ao ser humano. Daí a argumentação publicitária resultar em pleno.
    Por mim, para além do obviamente demonstrado, não resisto definitivamente a ler um jornal ou um livro também em papel. Não há monitor ou tablet que o substituam.

    ... há factos que resultam em argumentos universalmente validados. Necessidades da vida comum que não permitem fundamentalismos.

sábado, 3 de agosto de 2019

'O Rei Leão'... com reflexão de inclusão?

      O remake de 'O Rei Leão' (2019), dirigido por Jon Favreau, não faz esquecer a versão animada da Walt Disney de 1994.

      A expectativa era naturalmente grande. O resultado final é sempre condicionado pela experiência de quem viu o original (já com um quarto de século, dirigido por Roger Allers e Rob Minkoff, com as melodias de Elton John e Tim Rice). O impacto foi maior então; hoje, é sempre uma versão com um visualismo mais natural / real, numa sincronia de movimentos animais e vozes humanas que captam a atenção do espectador, para além da cor das paisagens, da mensagem da intriga e do registo de vitória e felicidade finais para o que é, e sempre será, uma metáfora do ciclo da vida.

       Trailers (montagem) do remake de Jon Favreau

      Sem o efeito total de surpresa, mantém-se algum do encanto da mensagem: um hino ou a apologia dos valores da vida (feliz). Os conflitos que esta propõe, a morte que a finda ou complementa, o confronto com os medos, a sede de poder, o oportunismo e a hipocrisia que marcam a humanidade estão bem representados nesta história. Nem tudo é o virtuosismo de Simba e Nala, Mufasa e Sarabi; nem só de Pumbas, Timons e Zazus se compõe a comédia e a atitude 'Akuna Matata' (diga-se, os problemas são para esquecer), que nos fazem experienciar instantes de felicidade. Há ainda cicatrizes (como a de Scar) e hienas (mais ou menos perversas e ameaçadoras) que complicam o ciclo da existência.
       No final da película, fica sempre a sensação de que estas últimas eram escusadas. Não se perde o ciclo da virtude (pelo menos, em termos da ficção), mas é caso para perguntar se vale a pena tanta perda e tanta dor decorrentes de forças malévolas como as de Shenzi e Scar, ou do egoísmo e distanciamento que outras hienas exploram de forma hilariante, mas não menos crítica. A lição do altruísmo, da amizade, da solidariedade, do amor e da família compagina-se com a do cinismo, do perigo, da falsidade e da traição, quase como se fossem duas faces de uma só moeda.
     Quando no fim se retoma o início (com a apresentação à comunidade do sucessor de Simba), prevê-se e prenuncia-se um futuro apaziguador, mais justo, mais integrador. A diversidade animal e o equilíbrio natural afirmam a legitimidade do rei, mas é bom lembrar que as hienas não deixam de existir. É certo que afastam "Scar", mas a barriga e o apetite delas não são facilmente saciados. 

       Não sei que inclusão poderão estas hienas ter, senão a da sombra (por mais que dê valor à luz) ou a do mal (por mais que sublinhe a necessidade e a vantagem do bem). Não as desejo, senão bem longe de mim.