quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Grave acentuar algumas graves

        É comum o erro de acentuação em palavras da mesma família.

       Não deixa de ser indesejável, quando poucas regras estáveis e elementares são ignoradas.Uma das mais básicas é a de não acentuar palavras graves terminadas em 'a' /'e' / 'o' seguidas ou não de 's'. Se 'autárquica' tem acento (por ser esdrúxula), o mesmo não sucede com 'autarquia' (grave); pelas mesmas razões, 'rápido' tem acentuação gráfica, mas 'rapidamente' já não: 'último' (adjetivo) não se pode confundir com 'ultimo' (forma verbal). São múltiplos estes casos da língua, muitos deles já comentados "nesta carruagem".
     Problema sério, diria, quase a justificar terapia (sem acento, por ser grave) ou abordagem terapêutica (com acento, por ser esdrúxula).

A Porquinha Terapeuta - (com agradecimento à IAA)

        Já no que ao 'terapeuta' diz respeito, volta-se a ter palavra grave, terminada em 'a', seguida ou não de 's'. Daí não ter acento gráfico.
       São tantos os locais que nos expõem ao erro que já chegamos ao ponto de frequentemente o gravar na memória, ou mesmo de grafar o impensável.
        Nos meios de comunicação social deveríamos ter o melhor dos exemplos. Lamentavelmente, não é o caso.

         Por regra, não se acentuam as palavras graves (terminadas em 'a/e/o'), exceto casos outros que escapem à dita regra. 'Terapeuta' não é exceção, por mais excecional que seja a porquinha no tratamento de quem tem medo de viajar de avião.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Troca de palavras

       Bem que se justificava uma troca de palavras com o Sr. Palmeirim!

      Até aprecio o desempenho, o espírito cómico do homem nos programas televisivos que apresenta. Já no que toca aos reparos de seriedade que constrói, nem sempre a coisa cumpre o registo da correção. É demasiado brincalhão e a troca de palavras (não no sentido de conversação, mas de permuta, substituição) acontece de modo errado. 
     Hoje, no programa Joker (RTP1), a seriedade não condisse com a verdade dos factos linguísticos (pode mesmo dizer-se que, quanto a isto, não há novidade face aos apontamentos aqui produzidos sobre o concurso).
      Perante as hipóteses de escolha, a concorrente não é feliz (inclusivamente convocando para o jogo o Acordo Ortográfico, que nada tem a ver com a opção devida). Dizer que "Quezília" é a palavra mal grafada não tem sentido. A explicação do locutor, orientada para a opção correta, não é, porém, a melhor, ao associar 'obcecado' à palavra 'obsessão', chegando mesmo a proferir que «o substantivo obsessão leva o 's', mas quando passamos a 'obcecado' é verdade... [é com 'c']». Deus meu! Qual a relação?!
     Não é por colocar os olhinhos bem arregalados que o dito se torna facto (isto para não falar mesmo daquela classificação gramatical de 'substantivo', já um tanto desajustada em termos terminológicos).
    Obsessão (nome) corresponde ao adjetivo 'obsessivo' (não obcecado), senhor Palmeirim. Obcecado (adjetivo) está para o nome 'obcecação', não 'obsessão'. São famílias de palavras distintas e, nessa medida, justifica-se que a escrita com 's' se verifique em obsessão, obsessionar, obsessivo, obsessivamente; já o 'c' surge em obcecado, obcecador, obcecação, obcecadamente, obcecante, obcecantemente.
     Sem entrar pelo critério morfológico, este contraste de palavras obsessivo / obcecado justifica-se pela etimologia latina: o primeiro advém de 'obsessio, -onis'; o segundo de 'obcaecatus' (relacionado com 'cego', do latim 'caecus, -um'). História da língua, portanto.

       Pois é, senhor Palmeirim! Não tem que saber latim; porém, não aproxime o que, ortográfica e morfologicamente, não tem razão de ser.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Modalidades

     O tempo escasseia, mas lá vai a resposta.

     Um pedido que não podia ficar sem resposta.

     Q: Bem que preciso da tua opinião. Achas que "Fomos autorizados a ver o espólio de Pessoa" é um bom exemplo para a modalidade deôntica (com sentido de permissão)? Tenho sérias dúvidas , mas é o que aparece numa sistematização do manual. Partilha lá comigo essa sapiência! Obrigada.

      R: A sapiência anda fraca e cansada, mas vamos lá a isso. 
    Tens sérias dúvidas e, no caso, tenho a certeza (mais uma modalidade - a epistémica, para qualquer das condições).
    Devo referir que a modalidade deôntica (por alguns linguistas denominada de intersujeitos) é aquela que está presente em enunciados que demonstram a relação do locutor com o seu interlocutor, com o primeiro a expressar sobre o tu / vós uma orientação, um conselho, um pedido, uma questão, uma ordem. Conforme a força e o poder representados, pode dizer-se que o valor modal se situa, neste tipo, entre a permissão e a obrigação.
      Ora, o exemplo proposto dá conta de um locutor que não age sobre o destinatário (nada lhe pede, pergunta ou permite; nada o obriga a fazer; nada o autoriza a nada). Assim sendo, não se trata de modalidade deôntica, por certo. O enunciado traduz uma situação que o eu / nós partilha ou dá a conhecer. Esta intencionalidade de quem fala / escreve não se confunde com o propósito de agir ou requerer algo do destinatário.
       Sem nada que mais o caracterize, vejo o exemplo como a expressão do locutor ou num registo de lamento (que pode ser associado à modalidade apreciativa, se acompanhada por uma entoação devida) ou numa partilha de informação / conhecimento (portanto, modalidade epistémica do certo).

      Em suma, não é um bom exemplo para ilustrar o tipo de modalidade sistematizado no manual nem para os alunos conseguirem classificar (dada a ausência de indicadores que permitam identificar a intenção de comunicação).

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Pelo centenário do nascimento

        À que foi à Grécia pela Granja,...
        
        À poeta que fez aliança com o mar, a praia, a rocha, o azul do céu e chegou ao tempo primordial e civilizacional da Antiguidade, fazendo rimar essa época com o espaço da justiça, com o canto poético em harmonia e refletida emoção, num feixe de luzes e numa paleta de claridades para a Humanidade.
      À arquiteta da palavra, do verso e da prosa que combinou a água e a luz com rochas, conchas, areais e maresias; a que fez da praia e do bosque um só palco para a escrita, qual anfiteatro com letras e sons em notas de paraíso e divindade à espera de serem desveladas.

"Mar Sonoro" de Sophia de Mello Breyner Andresen (Foto e filme VO)

     Sophia de Mello Breyner Andresen, aquela que, cem anos depois de ter nascido, continua prometida às ondas brancas e às florestas verdes, tendo na poesia a sua expressão maior de liberdade. Foi nela e por ela que atravessou "o deserto do mundo", viveu "em pleno vento", lutou "contra o abutre e a cobra" e cantou o amanhecer de abril. 
        Ansiou pelo tempo justo, de verdade e liberdade.

       ...não houve Cnossos, Delfos ou Creta que lhe dessem o berço, já que à vida veio por terras de Luso.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Esquecer o tempo... entre o tudo e o nada.

     É para amanhã, é para hoje, é para ontem...

     A urgência de tudo, porque tudo é importante e tudo é tudo!!!

     Eu, no meio de tudo, não sou nada.
     Começo a sentir que não dou para tudo.
     É tudo muito e eu sou pouco. Sinto-me nada!
     Talvez pretenda tudo, mas estou a achar que mais vale não querer nada.
     Paro com tudo, não faço nada. Fico a olhar o céu, as nuvens...
     Do sol, nada. Tudo molhado pela chuva.
     Até que ele aparece e, do nada, tudo fica diferente.


Paisagens marinhas com um toque de nuvem e sol (Fotos VO)

     As nuvens passaram, a dourada estrela deixa-se ver e torna-se tudo no momento.
     Em tudo o céu, o mar e o dia ficam melhores. Não é preciso mais nada.
     Se me disserem que isto não é nada, agora, eu grito que é tudo.
     Este deixar-se ficar no nada é bom. É tudo!
 
     Tudo começa a ser tão imenso para mim...
   
     Este pedacinho de nada foi tudo o que consegui nas últimas horas.
     De um lado para o outro, com tudo por fazer,
     Nada ou quase nada consigo resolver.
      Amanhã vou arrepender-me por não ter, por momentos, feito nada.
     Tudo me vai cair em cima.
     Nada posso já fazer, por causa do tudo que quis v(iv)er.

Sol escondido na nuvem, a brincar com o céu e o mar (Foto VO)

     Contudo, este momento de nada é bálsamo para tudo.
     Espero agora tudo cumprir para que nada fique por concluir.
     Talvez não tenha tempo para nada, mas foi um instante de tudo e nada.

     Tudo podia ser diferente!
     De nada adianta lamentar.

     Nada para já; tudo para depois...
   
     Por agora é tudo. Volto ao que hoje já devia estar pronto ontem. Por ora, nada!

domingo, 3 de novembro de 2019

Será que a Amélie vem aí?

        Dizem que a tempestade está para chegar a Portugal.

     Podia ter sido uma promessa, para afastar a anunciada intempérie; foi apenas um passeio para afastar as más energias, o cansaço e alguns sintomas doentios que persistem. E, agora, dizem que está a vir depressão! Coisa escusada! São ventos e chuvas que chegam para derrubar qualquer homem. Era bom que se dissipassem.
       A força da natureza está à vista: depois do sol tímido de um sábado e domingo, muda a cor do céu, a névoa surge, o vento esfria e o mar alteia. De longe, o branco das ondas ameaça pintar as paredes de uma capela, erguida sobre um rochedo, de costas voltadas para as fortes ondas. Em Miramar, a capela barroca do Senhor da Pedra não mira o mar; mira a terra. Impõe-se mais do que Pedro: é pedra sobre rocha, local de culto e peregrinação que, segundo um dos painéis de entrada, está erguido num espaço que terá remotamente recebido cultos pagãos de povos pré-cristãos. Persiste essa natureza natural e panteísta, pela envolvência do mar, da terra e do céu.

Capela do Senhor da Pedra, em Miramar (freguesia de Gulpilhares) - Foto VO

      Construída nos finais do século XVII (1686), a igreja é Património Mundial da UNESCO desde 1996. A sua forma hexagonal e a balaustrada exterior circundante, frequentemente rodeadas pela subida das marés, contribuem para um imaginário singular: o de um escolho santificado. A força da crença cruza-se com alguma sobrenaturalidade. Segundo os antigos, uma imagem de Cristo terá sido trazida pelo oceano: “Que num belo dia pousou sobre aquela pedra onde, mais tarde, veio a ser erguida a capela” (lê-se num outro painel, numa espécie de justificação do nome: “Senhor da Pedra”). No registo da lenda, quando os locais se preparavam para construir uma ermida ao Senhor da Pedra num terreiro conhecido por arraial, frequentemente era vista uma luz sobre os rochedos. A cada noite a luz misteriosa brilhava, pelo que os habitantes começaram a acreditar num sinal enviado do Céu. Assim, o ponto luminoso à beira-mar passou a ser o local de construção da capela. 
      O fantástico e o sobrenatural são ainda sulcados pelo espiritual e pelo religioso: na rocha, por atrás da capela, está incrustada uma marca semelhante a uma pegada de boi, que os habitantes da terra dizem ser de um animal bento (o boi que aquecia Jesus na manjedoura) que, também, por ali havia passado.

     As marcas nos penedos são uma constante nas lendas de cariz religioso. Natureza e fé são motivos para dar cor às religiões. A Amélie tem nome que (além de título para filme) dá para depressões.
      

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Halloween dos nossos dias

       Esgotado, não tenho ânimo para festas de bruxas!

     Ainda assim, não deixo passar o dia do "Trick or treat!" (a minha costela anglófona tem destas coisas). Uma imagenzinha sugestiva veio mesmo a calhar:

Imagem colhida do Facebook, para mais um Halloween.

       Qualquer semelhança com a realidade não é pura coincidência. Cuidado com as bruxas high tech! Ainda podem vir de encontro a nós! Enquanto for às árvores, não há tanto problema.

      Fruto de inspiração nos nossos tempos. Já não há bruxas como antigamente (mas "que las hay las hay").

domingo, 27 de outubro de 2019

Passeio em família

      Em pleno domingo, este título faz sentido.

     O que não faz é a família à mesa, cada um dos elementos com o seu dispositivo eletrónico, em modo touch, até que o empregado se aproxima, cumprimenta e aguarda que lhe deem atenção. Os olhos permanecem especados nos aparelhos e os dedos passeiam-se por estes, ora escrevendo ora subindo ora descendo, conforme o que chama a atenção.
    O pedido faz-se quase em monossílabos, vendo-se, de relance, o que tem a ementa e quase sem levantar os olhos. 
      Chegados os pratos, as mãos ficam ocupadas com os talheres, mas, ainda assim, pousa-se a faca para se tocar o ecrã que se iluminou. 
      Depois do almoço em família, continuam juntos, desta feita num passeio pelo parque:


    E assim decorre o domingo, até que, chegados a casa, cada um no seu recanto do sofá, descansam o corpo - não os olhos nem as mãos que, interminavelmente, se passeiam pelo visor ou pelo teclado cada vez mais perto do nariz. 
    Há de chegar o momento de deitar, quem sabe com a mensagem do quarto ao lado a dizer que são horas de dormir - "Boa noite! Até amanhã." -, mais os habituais emojis de despedida:

   
     Depois do conceito de 'amigo', assim fica a atual realidade do 'em família'.

sábado, 19 de outubro de 2019

O Fantasma da Ópera em Concerto

       Coliseu do Porto recebe o musical que há cerca de trinta e três anos estreava em Londres.

      Um dos maiores clássicos do teatro musical esteve no Porto, numa das mais emblemáticas salas de espetáculo da cidade. O Fantasma da Ópera em Concerto, produzido por Armando Calado e encenado por Pedro Ribeiro, arrebatou as palmas do público, que praticamente encheu todo o espaço.


       A cada jogo de vozes e interpretação de sopranos e tenores, no melhor do musical, era inevitável o aplauso. A direção musical de António Vasalo (com a Orquestra Filarmónica das Beiras, o Coro Sinfónico do Porto e o Lisboa Cantat) foi o pano de fundo para uma encenação e representação pautadas por nomes tão sonantes quanto melodiosos (Sofia Escobar, no papel de Christine Daae; Fernando Fernandes ou FF, no de fantasma), a par de outros que se impuseram na mesma linha de qualidade dos primeiros (Bruno Almeida, também como fantasma; David Ripado e Filipe Moura, como Raoul; Lara Martins e Ana Cosme, como Carlotta).

"Think of me" - canção de 'O Fantasma da Ópera'
(interpretação de Sofia Escobar, pelo Natal de 2009, em Laúndos)

       Em dois atos compõe-se a história de um cantor e compositor que esconde a sua deformidade facial por trás de uma máscara. Escapou a uma vida presa numa jaula, como atração de circos e feiras, até ter encontrado refúgio nos subterrâneos da Opera Populaire de Paris. Aí se apaixona por Christine, uma bailarina que aspira a ser cantora. Acaba por o ser, graças à influência do seu "angel of the music" (o professor-anjo que, enquanto a jovem dorme, lhe canta canções na mente, sussurrando-lhe melodias ao longo do dia).
    A sua predileta aluna consegue os papéis principais no teatro, quando 'O Fantasma da Ópera' exige aos administradores do Opera Populaire que assim seja, sob a ameaça de ocorrerem alguns incidentes. Estes surgem sempre que o mestre é contrariado, acabando por conduzir a jovem para o lugar da solista e diva principal (Carlotta),  tornada vítima de alguns percalços. A par disso, sucede o amor de Christine e Raoul (um benfeitor do teatro), deixando o Fantasma louco de ciúmes.
     Todo o enredo começa num leilão em 1905, com a venda de objetos do Opera Populaire. Numa analepse, chega-se ao ano de 1881, a esse momento em que Carlotta ensaia a produção "Hannibal". O desfigurado génio da música conduz Christine ao papel principal, na ópera 'Il Muto'. O amor dela por Raoul é posto à prova no segundo ato, com a encenação de "Don Juan Triunfante" (ópera produzida pelo fantasma, para juntar a sua voz à da amada, ao mesmo tempo que no Opera se procura apanhar o autor das desgraças ou dos incidentes estratégicos vivenciados no teatro). Mestre e aluna confrontam-se e, perante a chantagem por ele criada para salvar Raoul, a discípula reconhece que pior do que a deformidade física é a da alma. Beijando o seu "angel", ela acaba por fugir com Raoul. 
     Dominado pela bondade e compaixão recebidas, o fantasma  deixa os amantes partirem em liberdade, desaparecendo assim que chega a multidão que vai no seu encalço.

Filme com o final musical do espetáculo (no Coliseu do Porto)

       O "anjo da música" esteve no Coliseu, sem incidentes, num espetáculo de qualidade sonora e de representação que parecia ser obra estrangeira. Não foi. Era bem portuguesa e com a qualidade que deixou o público de pé a aplaudir.

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Tronco rendido

         Talvez fosse melhor invadido,... coberto que está pelas heras.

         A vida... flui como rio. Busca o mar, lá mais para ocidente. Ninguém o quer perto, pelo fim que representa. Acaba o que é doce; fica salgado, como a lágrima que sai na despedida.
         No caminho, há pontes, meandros... um tronco que resiste, sem folhas nem seiva.

Tronco rendido, em Gramido, junto ao Douro (Foto VO)

       A vida... é a hera conquistando e embelezando o tronco seco e gasto, ressequido pelo tempo. Este a faz com violeta, verde, azul. Tal como relógio de areia, cai, passa; virando, repassa... até que a hera alastra, sobe e cobre o que já foi caule, tronco de ramos floridos, vivos, lançados para o rio.
      E assim se fazem as eras... ciclos renovados com heras. Era uma vez uma árvore que, tornada tronco, se deixou abraçar pelas heras. Deram-lhe cor e abrigo. Talvez sentido, para que a morte não fosse tão árida, seca, descolorida. 

          Ciclos de vida... ainda... cobrindo a morte com o verde e um toque de cor paixão.

Payassu - o Verbo do Pai Grande

      Na qualidade da oratória, da palavra dita, (ou como o verbo fez a diferença)!

      Hoje, cerca de duzentos alunos puderam experimentar a força do verbo, da palavra, um pouco à semelhança do que Vieira  (o Payassu, ou Pai Grande, para os indígenas brasileiros) terá produzido, em S. Luís de Maranhão, a 13 de junho de 1654. Em dia de Santo António, nunca melhor exemplo: o de um português que, falando aos homens, por estes foi renegado e perseguido no século XIII. Não muito diferente de Vieira, no século XVII.
     Pela Companhia de Teatro Lafontana, chegou esta adaptação do Sermão de Santo António, na encenação e representação de Marcelo Lafontana: um ator em andas, na posição superior que um púlpito lhe daria (caso o houvesse hoje, como no período barroco, para a arte prédica). Numa comunicação e interação plenas com o público, desvendou-se e transmitiu-se o texto vieirino no que tem de oralidade, tal como na sua génese. A Igreja da Anta, em Espinho, foi o local da dramatização - dir-se-ia o melhor espaço para os ouvintes, dispostos em anfiteatro, assistirem a um pregador, a um orador que, à semelhança de Padre António Vieira, procura o efeito acústico; a estratégia persuasiva transmitida pelo olhar, pelo gesto, pela sonoridade, pela entoação ora irónica ora séria; pela intensidade e pela versatilidade que a língua admite na sua realização oral.

"Exórdio" do Sermão de Santo António (pelo ator Marcelo Lafontana)

      O Sermão de Santo António, no seu furor e fúria, parte do conceito predicável bíblico "Vos estis sal terrae (Vós sois o sal da terra)"; glosa-o e cumpre a denúncia, a crítica de como a terra se encontra corrupta. Perante este dado, a argumentação surge, com os peixes a representarem alegoricamente as virtudes (louvadas) e os vícios (repreendidos) que, afinal, são os dos homens.
       A dimensão paraverbal (dos gestos, da tonalidade da voz, dos movimentos no seio dos ouvintes), ressalta neste espetáculo performativo pluridisciplinar (numa fusão entre teatro e recursos multimédia).

     Ao final de cerca de hora e meia de discurso, de sentido tão metafórica quanto alegoricamente intemporal, os "peixinhos"regressaram ao espaço escolar. Da palavra, do Verbo, trouxeram a mensagem que, no âmbito do verbal e do não verbal, se tornou plena, viva, mais natural as sentidos visual e auditivo.

terça-feira, 15 de outubro de 2019

As cores destes dias

       Porque hoje deu para respirar um pouco, ver o céu e ver o mar...

      Agora os dias têm outra cor. É como se, cansados dos quadros com tintas de fogo e luz brilhante, se deixassem pintar de frescura e névoa, aqui e ali deixando uma pincelada de memória da claridade. 

 FOTO VO - Na marginal da Granja

FOTO VO - Ainda na marginal

 FOTO VO - Quando o mar se ergue...

  FOTO VO - Quando o mar se chega, de branco, à terra (pouco brando, mais fera)...

     O mar, mais agitado, invade o areal, cobrindo-o com a brancura da espuma feroz, no rebentamento das ondas; bate nos muros e salpica passeios, molhando-os e salgando-os para quem neles passa saber que há forças que não são eternamente vencidas. O que se conquistou ao mar cedo ou tarde será recuperado, até como prova e afirmação de vida (que dele veio e nele se mantém).
       
       A vida tem destes momentos, daqueles em que o olhar fixa telas vivas, de natureza à espera de ser observada, admirada e desvelada no que tem de sublimado pelas marcas do tempo. 

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Que enjoo (ou mau proveito)!!!

     Não é da francesinha, não!

     Não é pela iguaria (até com bom aspeto). É mesmo pela expressão temporal mal grafada. 

A foto do "crime ortográfico" (com agradecimento ao SPO-AEML) 

     "À quarta-feira", se faz favor! A comezaina pode tornar-se indigesta (aos olhos, no mínimo)!
    Eu sei que "há quarta-feira" na sequência dos dias da semana (tal como há uma segunda, uma terça,...). Na imagem, contudo, não se trata da constatação da existência  - até porque, no absurdo, só haver quarta-feira (e não os restantes dias, principalmente os do fim de semana) seria uma monotonia, uma rotina e uma trabalheira muito escusadas. Escusado é também o erro!
    A expressão precisa de um adverbial temporal faz-se com a contração 'à' ("ao sábado", "à segunda", "à uma hora <no sentido do tempo preciso do relógio>"), não com o verbo 'haver'.
     Sei que sete euros é barato (para comida e bebida), mas é bom que não poupem na correção escrita da língua.

    Se a qualidade da francesinha for na proporção da correção escrita, ela fica muito a desejar. Não há bom proveito, pela certa!
      

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Cuidado em descuido

      Ao jantar, dava quase em indigestão ouvir o "Cuidado com a Língua!"

   Num programa televisivo em que o fundamentalismo contra os empréstimos já soava a algo excessivo, a propósito do mau trato da língua vem o disparate dos outros, mais o descuido de quem produz o programa:

Excerto do programa televisivo exibido na RTP1

     Isto de dizer que 'fala-se' é uma "forma reflexa do verbo falar" não lembra o diabo, para quem deve assumir a postura do cuidado que o título impõe. 
      Lá que se ouvisse "a forma da construção pronominal(izada) do verbo falar", tudo bem; agora, a forma reflexa não faz qualquer sentido, quando nem de um pronome reflexo se trata! O 'se' admite muitas realizações e configurações pronominais. No caso da frase 'Fala-se Português', é de assumir que o pronome 'se' assume a função sintática de sujeito, conforme se depreende da paráfrase 'Alguém (indeterminado) fala Português'; ou, então, conclui-se que se trata de uma marca de 'se' apassivante ("O Português é falado" < Fala-se Português").
      Reflexo não é seguramente, dado que "fala-se" não é "fala a si mesmo / próprio" (como em 'lava a sua pessoa / o seu corpo' > 'lava-se', com o 'se' a configurar o papel de objeto em identidade com o sujeito sintático).
      Também não é recíproco (pois não se trata de "fala um com o outro").

       Assim sendo, vai confiar-se em quê / quem? Na "Flor" não é, porque "murchou"; em quem fez o trabalho para a "Flor" também não, porque não a "regou" bem. Quando o cuidado resulta em descuido / erro gramatical, mais se impõe que alguém acompanhe, linguisticamente, o que se difunde.

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Uma conferência tão atual... na educação

    "Não deixar nenhuma criança para trás" (ou a ironia de um discurso que não deu em ação feliz, apesar da grandeza de princípio).

     Num artigo acerca de "Questões polémicas no debate sobre políticas educativas contemporâneas: o caso da accountability baseada em testes estandardizados e rankings escolares" (publicado na obra Do Currículo à Avaliação, da Avaliação ao Currículo, organizada por Maria Palmira Alves e Jean-Marie De Ketele, com a chancela da Porto Editora), Almerindo Janela Afonso refere o No Child Left Behind Act, do tempo de George W. Bush, salientando como os efeitos de tal normativo se revelaram indesejáveis e bastante insuficientes, ao ser aplicado sem estruturas nem procedimentos consentâneos, nomeadamente com a aplicação de testes estandardizados como forma de verificação do sucesso escolar.
     Sir Ken Robinson, conselheiro internacional de educação com mais de trinta anos de obra publicada, há cerca de seis anos participou num encontro, no qual conferenciou sobre os fatores que contribuem para a evolução e o progresso humanos. Concluiu, também, que a escola tem funcionado ao contrário do que são os conceitos-chave associados a tais fatores (diversidade, curiosidade e criatividade). Conformidade, padronização e testagem, marcando a ação educativa em termos genéricos, estão em desalinho, definitivamente, e refletem uma conceção de escola mecanicista, apriorística nos propósitos e fechada à alternativa.
   A lógica de todos a fazer o mesmo (sem diferenciações), e na cegueira completa face à potencialidade que cada um poderia trazer, é tão rotineiro quanto desmotivante, promovendo condições de insucesso e abandono:

TED 1: Sir Ken Robinson (professor de Artes da Universidade de Warwick)

TED 2-3: Sir Ken Robinson (professor de Artes da Universidade de Warwick)

     A metáfora do Vale da Morte e a exploração das sementes de possibilidade perspetivam-se, no final do excerto, como sentidos de oportunidade e desafio, com a alternativa a assumir-se como realidade visada para prática comum.

    Na ironia que a lei americana representou e que Sir Ken Robinson desconstruiu, diria que há coincidências desconcertantes e interpelantes com o contexto educativo e normativo atual português (num sentido de inclusão que o tempo dirá se não foi mais de exclusão).

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

De novo, a avaliação

       Alguns anos depois, volto à formação no âmbito da avaliação (do processo de ensino-aprendizagem).

        O novo contexto normativo introduzido pelos Decretos-lei nº 54 e 55 (de 6 de julho de 2018), a solicitação da direção do Agrupamento Dr. Manuel Laranjeira e a construção de uma oficina de formação, bem como de ações de curta duração, fazem-me regressar ao tema da avaliação. Na companhia de uma colega que decidiu entrar comigo neste desafio, relembro alguns contributos que já dei sobre o tema; adaptamos ao novo contexto; construímos um percurso a partilhar com outros profissionais, visando a produção de documentos orientadores para o agrupamento escolar (sempre com o intuito de incorporar os resultados de uma reflexão que se pretende consensual, comprometida, empenhada na ação educativa).
       Esta semana serão três grupos de trabalho a refletir sobre a "Avaliação nas práticas escolares: dos princípios normativos aos princípios orientadores da escola / do agrupamento".
     A questão de base e o percurso a fazer nesta sessão inicial implica os pontos de abordagem seguintes:


Dois dos slides da apresentação das sessões de trabalho desta semana

     Em três horas, far-se-á um percurso de enquadramento para o que virão a ser as sessões de trabalho sobre 'Critérios, domínios e instrumento de avaliação' (mais três horas) e 'Descritores, indicadores e níveis de desempenho' (quatro horas). No horizonte, há sempre a noção do Perfil de Competências do Aluno. Num total de dez horas, três ações de curta duração para três grupos de profissionais distintos - muito trabalho consentido e, esperemos, com sentido.

     Faz-se o caminho, em conjunto, na senda do que venha a ser a construção de referenciais de trabalho num agrupamento escolar, com uma cultura orgânica própria e sentidos que se pretendem convergentes na a(tua)ção docente - e sempre com o agradecimento devido e reconhecido à MGR, pela parceria conseguida.

domingo, 6 de outubro de 2019

É melhor manter-se fechado

      Aquele momento em que recebes uma mensagem de uma amiga.

      Ela sabe que gosto de ver fotos com erros singulares, daqueles que ninguém pensa que possam ser cometidos por alguém. E eis que eles aparecem, quando menos se espera:

A prova do erro (Foto com agradecimento à EP)

      Assim sendo, apetece-me dizer que mais vale não reabrir. Quando o fizer, que seja com anúncio correto, devidamente escrito. É uma imagem de qualidade, de rigor, de reabertura sem o segundo 'e' em reabrir, nem em nenhuma das formas conjugadas do verbo.
       Ainda há tempo de corrigir o erro e abrir em grande (apesar de ser do 'ativokids').

      De momento, não há condições (para reabrir)!
      

sábado, 5 de outubro de 2019

(Sor)riso desconcertante

     Agora Joker, o filme (não o programa televisivo).

    É daquelas películas em que saímos desconcertados: na qualidade de produção, caracterização e composição fílmicas, persiste aquele lado sombrio, violento e grotesco da cidade, já por si intolerante e preconceituosa; aquele perverso, deprimente e destrutivo enredo, na linha do caótico e aterrorizador; aquele insano, ameaçador e vilanesco palhaço com um eterno sorriso pintado.

Trailer do filme da Warner Bros. Pictures ('Joker' - 2019)

     Um retrato da psique e das forças  sociais / ambientais que se impõem na sua construção é o que Todd Phillips propõe nesta produção, a destacar a interpretação e a caracterização de Joaquin Phoenix no papel de Arthur Fleck. Este é um palhaço desolado e desolador, que ora vê o riso arrancado da dor e da doença que o minam ora o vê falhado no exercício do comediante que deseja ser, mas sem futuro. É assim que 'Feliz' (conforme a mãe o chama, nessa condição irónica por ele sofrida, em termos neurológicos, de se rir quando se encontra emocionalmente instável) vive a infelicidade de uma existência só aqui e além pintada de um afeto e de um sorriso genuinamente estampados no rosto limpo. A todo o tempo constrói um percurso na fronteira do bem e do mal, constantemente ameaçada - ou não fossem as cores da desgraça e da má sorte os ingredientes mais explorados no seio da hipocrisia nas relações humanas, nos jogos de poder e no confronto com o próprio espectador. Inclusivamente, este último é colocado, no filme, a viver frequentemente nesse fio de navalha que é o ato de rir perante o sórdido, o maquiavélico e o brutal (a cena do anão que quer abrir a porta e não consegue, precisando da ajuda do palhaço que acabara de matar cruelmente um outro, é um dos exemplos: impõe-se o riso depois de um violento e sangrento momento de morte).

Joker, o Feliz (interpretado por Joaquin Phoenix)

     Arthur, ou "Carnival", é assumidamente uma vítima do que outros malevolamente lhe fizeram (nomeadamente a mãe) na maior parte da vida. É o enganado, o humilhado tornado vilão, que, na queda para um progressivo abismo pessoal, prenuncia o suicídio e acaba ripostando, de modo fatal, em todos os que o violentaram e desdenharam. 
      Na destruição infernal em que Gotham City se encontra, a exaltação e "a revolta do(s) palhaço(s) (que lutam contra os poderosos que nada fazem para melhorar as condições de vida na cidade) surgem (dir-se-ia que está feito o aviso político para os tempos atuais). A vingança dá-se, surgindo, nomeadamente, no final, pintada com passos de sangue, num corredor prisional que culmina num vaivém de movimentos de um louco, de um rei de crimes que fará da cidade antro do mal. Alimentando-se deste estado de coisas, vive qual psicopata-rei do e no mundo das trevas.

    Tempo, entretanto, de rever Batman (ou o pequeno Bruce que vê os pais serem assassinados em Gotham City), para se pôr fim ao carisma do crime e à heroificação do mal.

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

O grau da desgraça

       E outra vez o Joker!

     De tantas vezes que escrevi sobre o programa televisivo Joker, e por más razões, haverá quem pense que tenho alguma coisa contra o programa. Não é verdade. Antes pelo contrário. Porém, continuo a achar que era escusado difundir o erro
       Hoje foi a vez de mais um, para acrescentar aos já apontados noutras ocasiões:

Programa Joker, exibido hoje na RTP1 (Foto VO)

      Isto de se concluir que 'homem' é um adjetivo pode constituir, desde logo, questão crítica quando se entende que, na maior parte das realizações do português, estamos perante um nome (tipicamente identificável pela possibilidade de ser antecedido por um determinante ou quantificador). Se é verdade que a variação em grau é uma propriedade comum nos adjetivos (ainda que não exclusiva), isso não permite concluir em definitivo que 'homem' (variando em grau) pertence à classe dos adjetivos.
      É de aceitar que a realização de frases como 'Ele é muito homem' ou 'Ele é tão homem como qualquer outro', ou mesmo 'Ele mais / menos homem do que outros que eu conheço' configura o termo sublinhado como propriedade / característica do 'ele'  - ou seja, um adjetivo, numa espécie de conversão, admitindo graduação superlativa (analítica, na primeira realização) e comparativa (nas seguintes). Já não tão aceitável é a superlativa relativa (* o mais / menos homem) ou até a superlativa absoluta sintética (? homenzíssimo).
     Seja como for, as possibilidades atrás mencionadas são as que mais se ajustam à classe dos adjetivos. Não é o caso de 'homenzarrão' nem de 'homenzinho', que, respetivamente, evidenciam a variação típica (e não criativa) do nome no grau aumentativo e no diminutivo (não é a mais produtiva para adjetivos, nestes ocorrendo apenas ocasionalmente).
      Em suma, para não chorar, a questão apresentada no programa Joker só me permite reagir em modo de filme e à Joaquin Phoenix:

Excerto do filme Joker (2019), de Todd Philips

     Depois venham dizer-me que a televisão é muito educativa e que cumpre serviço público! E pensar que pagamos para esta nódoa! Se não fosse o Palmeirim...

domingo, 29 de setembro de 2019

Salvo seja! Abrenúncio!

      Ao término de um fim de semana, ver materiais (que deveriam ajudar na preparação de uma nova semana de trabalho) cansa mais do que construí-los de imediato.

      A questão, já não sendo fácil de abordar, mais complicada se torna quando à nossa frente está o disparate. Trabalhar o complemento de nome (já surgido, na sua identificação, em exames nacionais) não é tarefa bem sucedida com propostas destas em caderno de atividades que acompanha um projeto editorial de manual escolar:

Foto relativa a um exercício proposto no Caderno de Atividades de um projeto editorial

      As frases de partida são:

      a) A foto do meu pai ficou muito boa.
      b) O meu interesse pelo estudo tem-me ajudado muito.
      c) A procura de emprego aumentou imenso.
      d) O irmão do Pedro emigrou.
      e) Ouço muitas vezes a música dessa banda.
      f) Algumas panelas de alumínio têm alguma qualidade.
     g) Estas pinturas do Douro são lindíssimas.
     h) A previsão meteorológica não é muito animadora.
     i) A ideia de frequentar esse curso agrada-me.
     j) O pastel de Chaves é ótimo.

     Ora, a tabela acima pressupõe que todas as frases têm um nome / grupo nominal que surge expandido por um complemento de nome. Nada de mais errado, quando, por exemplo, de panelas (f) ou pastel (j) se trata, para não mencionar outros casos bastante dúbios.

      Com isto termino: sem reconhecimento por quem produziu o exercício nem pela consultoria linguística que aparece como fonte de validação em capa, lá vou ter de trabalhar mais um pouco para compensar a falta de qualidade de quem recebe direitos indevidos (face ao mal que dá ao ensino e à aprendizagem). E depois dizem que o manual é um auxiliar do trabalho docente!