sábado, 29 de fevereiro de 2020

Ao que chega diminuir - tudo reduzido a diminutivo!

    Isto de ver o programa "Cuidado com a Língua" (na RTP2, numa reposição do que já foi tratado na RTP1 em 2017) antes do jantar é hora crítica (para não dizer do assunto tratado).

    Quando se procura exemplificar a formação do diminutivo com uma sistematização que muito tem que se lhe diga (e ainda por cima acompanhada de uma voz-off a clarificar - será? - o sistematizado), tudo se perde.

Imagem do episódio hoje repetido na RTP2 (o 12º da temporada 9, de 2017)

   Primeiro de tudo, ver esta sistematização como a explicação da formação do "diminutivo" (conforme o proposto no programa) é, no mínimo, inusitado, para não dizer incorreto. Assumido como resultado do processo de derivação (por sufixação) ou do de redução / contração, é demasiado estranho ver o grau diminutivo explicado neste segundo processo como se de uma abreviação se tratasse. 
      Depois, ouve-se no programa que o diminutivo serve para traduzir pequenez, apoucamento, diminuição de tamanho ou valor, além de sugerir valorização afetiva. Aceita-se isto, em termos genéricos; contudo, ver as reduções ou contrações nominais da direita como exemplificativas dessas leituras não é, por certo, nem linear nem aceitável: 'Nando' tem como diminutivo 'Nandinho' e 'Zé', 'Zezinho' (e, por que razão não, 'Gabizinha' para Gabi?).
     Confundir abreviação com 'diminutivo' é risível, tanto quanto ver na diminuição da forma do nome (por truncação ou por amálgama) um sinónimo do grau, quanto ao sentido.
       Por fim, exemplificar a sufixação com '-inho' através da palavra 'mãezinha' é desconhecer, por um lado, que 'inho(a)' e 'zinho(a)' são sufixos distintos (o primeiro empregue em bases radicais; o segundo, em bases palavras); por outro, que 'ito(a)' e 'zito(a)' têm mais um sentido avaliativo do que propriamente diminutivo.
    Assim sendo, um programa com o título que tem requer mais "cuidadinho" (um diminutivo irónico) com a língua - tal e qual como o "Bom Português" que, por vezes, também deixa muito a desejar

      Uma base de consulta linguística mais credível não ficaria mal para um programa como este. É um serviço de interesse público (para o qual todos os telespectadores pagam)!

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Foi Carnaval e é de levar a mal

     Quando julgava já tudo ter visto, concluí que ainda sou crente.

    A notícia não é do melhor assunto (com Plácido Domingo a reconhecer que cometeu abusos sexuais) e, a par, surge o pior que se possa ler. No jornal da TVI, à hora de jantar, o testemunho de uma figura feminina sobre a inusitada e insólita situação dá lugar a uma tradução que nem ao Diabo lembra:

Pormenor televisivo do jornal da noite da TVI (Foto VO)

   A pronominalização que segue verbos terminados em '-r' / '-s' / '-z' adquire a forma 'lo(a)', acompanhada da queda desse som final ("Vimo-lo" deveria ser a construção pronominal devida). Um canal de comunicação da língua portuguesa sugere uma absurda forma "nova" no rodapé. Se fosse um certo deputado da nossa Assembleia diria "Vergonha!". Como não sou, não digo sequer "Chega!".

     É de ficar sem palavras, perante um canal televisivo que tem, entre os seus, quem não saiba o mínimo da língua que, mais do que muitos, deveria dominar da melhor forma. E pagamos nós por tamanha ignorância.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Havia melhor

       A propósito do Óscar para melhor filme. (Não para mim.)

      Não discuto a nomeação. Todavia, a decisão final é estranha (e não entranha). A expectativa de ver um bom filme, até por já ter vivenciado experiências gratificantes (algumas de uma estética e sensibilidade poéticas marcantes da cinematografia oriental), não é completamente defraudada (por alguns momentos e aspetos conseguidos), mas não marca. Demasiado hollywoodesco ou ocidentalizado, para ser alternativo, diferente.
      A nota cómica inicial da intriga, que demonstra como o oportunismo joga com o parasitismo tecnológico, social, pessoal construído em diferentes campos - num aproveitamento de oportunidades propícias a inteligências nada virtuosas, tanto para pobres como para ricos -, evolui para uma ação mais densa, de uma violência cómico-trágica, numa leitura realista da condição social desesperançada:

Trailer do Óscar de Melhor Filme de Hollywood

     Bong Joon-Ho, realizador sul-coreano, propõe bons planos, tonalidades diversas para a cor social contrastante, retratos de realidades bem distintas, reflexões acerca dos limites do oportunismo e dos jogos de essência e de aparência (perspetivados na exploração das metáforas das caves e das realidade visíveis no contraste das classes sociais). Máscaras múltiplas, mentiras e segredos são denunciados; a crítica a regimes políticos não deixa de estar presente (com a primeira governanta dos bem-sucedidos Park a explorar esse tópico, numa cena de reação e revolta à pretens(ios)a ascensão da família de Ki-Woo); a janela de oportunidades resulta numa visão muito difusa: da cave dos pobres para o mundo superior dos também desfavorecidos; do salão de uma mansão luxuosa para um jardim, onde a festa resulta em palco de tragédia. Depois, fica o terror que não o é, a "comedy of errors" que deixou de o ser, a liberdade adiada, o desejo de libertação que se vislumbra, mas está ameaçado (se não estiver condenado). Das personagens da história, pouco resta, não havendo nenhuma que tenha impacto, seja na atuação seja na caracterização. Parecem muitas máscaras para alguns rostos, dominadas por um percurso muito disfórico, no qual a hipocrisia, a mentira, a aparência, a ingenuidade, a revolta, a loucura saem como maiores protagonistas. Delas fica a imagem das que vivem presas a uma circunstância, mais para o definitivo do que para o transitório, aparentemente com algum sinal de recuperação / reversão; porém, este último resulta em breve instante inconsistente e inconsequente (se não for mais desfavorável do que o ponto inicial). Que o digam Ki-Woo, a mãe, o pai, ou mesmo os ricos sobreviventes, tão afetados pelo "cheiro" contínuo a pobreza, a decadência, a podridão ou doença humanas. Afinal, a vida acaba por comprometer os planos que se traçam e a que se aspira. Parece, contudo, que também a inexistência destes não propõe melhor resultado: redunda na quebra da ordem, em atos desesperados e na instauração do caos, da desgraça.
     Desigualdades e ironias de vida subsistem. Sugere-se uma liberdade, face a uma justiça que não a acompanha, mas que não deixa de aprisionar o ser humano. A expectativa de um tempo outro traduz-se numa comunicação virtual, em código morse ou outro, sem muita hipótese de vingar - fica-se pelo desejo, pela expressão de uma intemporalidade que não se compatibiliza com o Homem. A pedra da fortuna não deixa de ser pedra (para um ato agressivo) de uma fortuna, uma sorte, um destino com cores de desaire(s). O "Até um dia!" ameaça ser uma eternidade sem qualquer liberdade, apesar da nota de humanidade.

       Um mal-estar, em círculo fechado, num final tão próximo do início que desconcerta e parece não ter conserto. Desconforto, por certo. Preferia um "Joker" ou "Uma Vez em Hollywood", por mais que a diversidade com um sul-coreano seja expressão de outras oportunidades fílmicas (esperemos que não seja nenhum oportunismo de interesses da Academia da Sétima Arte).

domingo, 9 de fevereiro de 2020

Belezas maiores

      No regresso a casa, uma construção com um cartaz publicitário chama a atenção.

      Tanto chama a construção (cujo projeto é anunciado numa foto interessante) como o cartaz. Uma, por boas razões; o outro nem tanto.
      Assim, se lê no último:

Cartaz publicitário junto à construção de um edifício - Granja (Foto VO)

      Se a qualidade da construção for na proporção da correção linguística, diria que há defeito. A "Beleza" (que até se justifica maiusculizada quando diz respeito à qualidade suprema, na sua dimensão abstrata) fica comprometida com a adjetivação que se lhe sucede. Obviamente, 'óbvio(a)' escreve-se com acento gráfico, na convenção gráfica daquelas "falsas esdrúxulas" que marcam a nossa língua - as palavras terminadas em encontros vocálicos caracterizados por ditongos crescentes (como ´lítio', ´ébrio', 'água').

       É preciso alma, mestria e paixão na escrita, para que esta possa ter efeitos sublimes (ou, no mínimo, convincentes) em quem lê. Caso contrário, a beleza sai minúscula.

sábado, 8 de fevereiro de 2020

Mais um...

      O dia teve direito a dedicatória de música, a foto inspiradora e outras coisinhas boas mais.

      Para além do mais importante (em família), das múltiplas mensagens de amigos, de colegas, de conhecidos, umas últimas surpresas fizeram-se de música e imagem.
     Dedicaram-me a "Barcarolle", composição romântica de Jacques Offenbach. Também designada como a "Belle nuit, oh nuit d'amour", na ópera "Os contos d'Hoffman", havia já sido estreada numa outra ("Les fées du Rhin") neste dia e mês, em Viena, corria o ano de 1864:

Registo musical de "Barcarolle", de Offenbach (finais do século XIX)

      Ouvia-a toda, em versão apenas musicada, e, depois, numa outra já vozeada pelo canto lírico (com os agradecimentos à ARS e à CF):

Versão, em canto lírico, de "Barcarolle" - de Jacques Offenbach

      Veio depois a imagem, que é a minha cara: um espaço natural com porta aberta para o mar e para o horizonte (com agradecimento à MCA):

Uma porta para o mar e novos horizontes (imagem sugerida pela MCA)

     Vieram, então algumas linhas. Com a porta aberta para o mar, vou olhar e abraçar novos horizontes, projetar futuro, fazer do azul cor de destino(s), sempre na expectativa de as verdes heras me prenderem a memórias de outras eras, etapas de vida já passadas.

      E depois disto, a prenda do Futebol Clube do Porto (FCP) com a vitória sobre o Sport Lisboa e Benfica (SLB) - até parece que sou ferrenho adepto do futebol! Não o sendo, sabe sempre bem quando o resultado nos sai risonho.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

75 anos depois

      Para futura memória e para que não se repita a história.

     Na sequência do visionamento do documentário "Depois de Auschwitz", na RTP1, há memórias que se recuperam de um passado, o estudado e o vivenciado.
      Saber o que se sucedeu há 75 anos, pelos livros e registos audiovisuais, é descobrir uma forma de recuperar a liberdade e a visão da dignidade humana que muitos, anos antes, ficara comprometida, ao serem cometidas atrocidades impensáveis. Os testemunhos do tempo vão sendo revelados, partilhados (e, ainda assim, há quem assuma que o holocausto não existiu) e o espanto revoltado não cessa!
   Visitar Auschwitz e Birkenau, depois de já ter passado pelo campo de concentração de Sachsenaushen, é definitivamente uma outra visão dos sinais dos factos. O último impressiona; o primeiro perturba; o do meio (sem qualquer virtude) faz abominar, odiar quem tenha pensado em tal espaço com propósitos tão execráveis.

Entrada do campo de concentração de Auschwitz ("O trabalho liberta") I - Foto VO

 Entrada do campo de concentração de Auschwitz ("O trabalho liberta") II - Foto VO

 Uma janela para os muros, os postes e as redes eletrificados - Foto VO

  O muro dos fuzilamentos - Foto VO

  Os fornos de um crematório - Foto VO

  As camas de cimento e tábuas rompidas para os sobreviventes - Foto VO

       De Auschwitz, ficou-me a memória de entrada no campo, quando um grupo de judeus cobertos com o seu 'talit' branco, com a estrela azul de David, mais o 'kipá' branco na cabeça, solidéu tradicional, orava em círculo. O respeito deles e nosso por eles impunha-se. Não foi o único povo a sofrer as atrocidades nazis, mas, na sua diáspora, tem o segundo quartel do século XX  como um dos seus períodos mais negros e a Humanidade como espectadora de uma perseguição desmesurada, de um genocídio atroz. 
       Uma nota informativa, para os turistas / visitantes, dá conta de que os primeiros prisioneiros foram polacos; seguiram-se os prisioneiros de guerra soviéticos, os ciganos e inúmeros deportados de outras nacionalidades. A partir de 1942, este tornou-se no local de morte maciça nesse plano nazi de exterminar o povo judeu que se encontrava na Europa. A taxa de mortalidade era tão elevada que a única forma de identificar os corpos era através de um número do campo tatuado no corpo (antebraço, braço, perna ou peito), mesmo quando muitos homens, mulheres e crianças eram praticamente dizimados à chegada, tanto em Auschwitz como nas câmaras de gás de Birkenau. Mortos nas câmaras ou em qualquer ponto do campo, feitos cheiro nauseabundo ou pó nos crematórios, marcados de dor e humilhação insanáveis no corpo e na alma.
      Hoje, o fim chegava - há 75 anos - com o exército vermelho a libertar os prisioneiros que não haviam sido deslocados pelos alemães para o interior da Polónia. Um massacre e um morticínio que deixaram marcas aos que conseguiram sobreviver e assistiram à eliminação de inúmeros. 
     Tudo começou menos de uma década antes (seis anos apenas), com discursos de intolerância, de supremacia de raças, de desprezo por quem interessava tirar do caminho para poder usufruir daquilo que deixavam e que alguém tinha instruções de recuperar (desde os dentes de ouro a tudo o que pudesse ser aproveitado).

     Uma história que não pode ser apagada, pela intolerância que foi, pelo excesso de poder que revelou, pela desumanidade que alguns humanos foram capazes de criar e outros de aceitar ou silenciar. Demasiado pesado para não ser divulgado.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Céu grego

       No caminho, entre Espinho e a Aguda, vi a Grécia.

      As sombras escuras do céu noturno deixavam ainda clarear uma península, fazendo lembrar essa terra com Creta ao pé. 

Céu, mar, praia e terra da Granja (Foto VO)

     Era como se o Peloponeso se ligasse a um continente triangulado, limitado pela escuridão dos mares, com o negro Jónico, a oeste, a não se distinguir do Egeu, a este, ou do Mediterrâneo, a sul. Só que o mapa era outro: tinha um rasgo de fogo, também com recortes e sulcos (quais cadeias montanhosas dos Titãs), a separá-los de um Atlântico a ondear até à praia a que Ulisses não aportou. 
     No horizonte, não se via a fina linha contínua desse limite visual; antes o calor de um verão quente e seco em frio inverno.
       Esta é terra de Sophia, dessa poeta que, qual "Menina do Mar", na "Casa Branca", renascerá:

       CASA BRANCA

Casa branca em frente ao mar enorme,
Com o teu jardim de areia e flores marinhas
E o teu silêncio intacto em que dorme
O milagre das coisas que eram minhas.
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

A ti eu voltarei após o incerto
Calor de tantos gestos recebidos
Passados os tumultos e o deserto
Beijados os fantasmas, percorridos
Os murmúrios da terra indefinida.

Em ti renascerei num mundo meu
E a redenção virá nas tuas linhas
Onde nenhuma coisa se perdeu
Do milagre das coisas que eram minhas.

                                                                     in Poesia, 1944

      Foi este o caminho que me deu a Grécia aos olhos, à imaginação, à viagem que, nos meus passos e percursos tão próximos e familiares, se fez bem longe.

     Regressado a casa, revi a foto e lembrei esta noite que ainda tinha alguma luz de cultura, de mitos e de deuses nas cores da praia, do céu e da maresia.

sábado, 18 de janeiro de 2020

Nós contigo

       Hoje, o pensamento deu em versos.

       Assim se quer. Assim se sente. E tudo o mais é o que a vida faz.

Resiste,
Persiste.

É bom ver-te


Rir das nossas graças,
Apesar da dor, do desânimo
Gravados no teu pensamento.

Persiste.
Resiste,

O que vivemos
É para lembrar contigo,
Hoje, amanhã e ainda depois…
A todo o tempo, aqui, ali e longe.

Resiste,
Persiste.

Temos-te agora,
Queremos-te mais tarde,
Para que todos vejamos futuro
A cada passo por ti vivido, sobrevivido.

Persiste,
Resiste.

Dás-nos a graça,
A alegria de te rever;
De te sentir ainda feliz, agora
Ou no reencontro prestes a acontecer.
Resiste,
Persiste.

Vemo-nos em ti,
Nessa luta diária, sempre
À procura da vontade, da saída
Para os árduos (des)caminhos da vida.

Persiste,
Resiste.        


       Assim o queiras. Assim o sintas. E tudo o mais é o que a vida te der.

       Assim vamos, a cada dia vivido. Todos.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Anedota do dia?

      Corre aí por alguns meios de comunicação social (e lamento ter de dizer que isso, hoje em dia, vale o que vale) o propósito de o Ministério da Educação (ME) colocar professores de História no ensino da Geografia, ou os de línguas estrangeiras para Português.

Pormenor de foto da Agência Lusa que acompanha a notícia aqui comentada
    A intenção é a de col-matar a falta de professo-res, que começa a ser gritante em determina-das áreas de saber. A des-considera-ção dos do-centes por parte dos nossos polí-ticos e go-vernantes está, garan-tidamente, a dar frutos (alguns não precisaram deles, dado o carreirismo feito em se-de de asso-ciativismo político; ou-tros conse-guiram cur-sos / licen-ciaturas fal-tando às au-las e fazendo uma espécie de trabalhos; os restantes, as exceções, parecem assistir, impávidos e serenos, ao descalabro e ao tudo vale).
      No reconhecimento de que cursos de línguas bidisciplinares têm profis-sionalização em duas línguas distintas (uma delas Português),  não me espanto que professores de línguas estrangeiras venham a lecionar Português, caso esta última tenha sido uma das implicadas na formação inicial e no exercício de estágio profissional. Não há, aliás, novidade nenhuma aqui, a julgar pela atuação de algumas direções que capitalizam as competências profissionais dos seus recursos humanos nos agrupamentos / organizações escolares. Não sendo esta a situação, tudo se torna bem mais incompreensível. Significaria que, talvez um dia, porque sei cozinhar, viria a ser um "grand chef" (olha... mais duas ou três palavras destas e ainda poderia ensinar francês!) ou, então, porque consigo fazer uns vídeos, ainda me tornaria num grande realizador cinematográfico. Ah! Esquecia-me: como às vezes, confesso, me automedico com sucesso, também poderia pedir equivalência a medicina. Há já quem assuma que, neste contexto de medidas gestionárias excecionais, no âmbito da saúde, poderíamos passar a ter ginecologistas a fazer as vezes de urologistas; os pediatras a ter equivalências na geriatria ou os enfermeiros a passar diretamente para a especialidade de anestesistas. Eu que faço caminhadas e sei nadar deveria estar a um passo do doutoramento em Educação Física ou, quem sabe, de uma especialização ou pós-graduação em Desporto.
      Não sei se devo acreditar neste diz-que-disse tão hipotético e pouco sustentável ou neste penso-que-dispenso. Não quero, pelo menos. Se as fake news (também quero dar inglês!) chegaram à educação e ao ensino há já muito, com a novidade que, supostamente, é a de hoje, pareceria que estávamos a ser conduzidos para o verdadeiro mundo da fantochada.
      Ainda quero acreditar que o ME irá esclarecer os factos ao público em geral e aos docentes em particular, quanto ao verdadeiro significado da Nota Informativa entretanto enviada pela Direção-Geral da Administração Escolar (DGAE) aos estabelecimentos de ensino com necessidades de colocação de professores em áreas específicas (Português, Inglês, Geografia, Informática, entre outras). Com qualificação profissional, alguma coisa da medida até pode ser entendida; sem ela, não fará definitivamente qualquer sentido. Gerir recursos humanos qualificados é uma coisa; sem formação legitimadora, é um contrassenso.
       É verdade que, desde a formação do novo governo português, já me tenho perguntado onde anda o senhor ministro da Educação. Até acho que já ouvi falar dele (chego a demorar na lembrança do nome...🤔) num ou noutro evento desportivo! Não queria concluir que isto é desporto a mais, mas lá que dizem termos voltado aos velhinhos tempos em que todos os professores - sim,... até os de Educação Física davam ou podiam dar Português no primeiro ciclo - é memória que ninguém deseja. Terá o governante em causa a oportunidade de se dar a ver, para justificar a carência de recursos qualificados nas escolas, algo para que tem vindo a contribuir (e muito).
     Para não me ficar pelo Português, acrescento que Geografia a ser lecionada por professores de História (ou o contrário que seja) também não está mal! Terão ambos os grupos profissionais profissionalização afim? Desconheço-o, por ora. A não ser assim, pode ser o começo para o que ainda possa vir a ser o professor multidisciplinar ou de multi-saber(es), um pouco à semelhança dos do primeiro ciclo, até ao nível do secundário. Preparem-se os de Educação Visual para dar Economia e os de Informática para dar Filosofia. Quanto aos de Matemática, talvez se juntem mais às línguas, pela rima com a gramática.
     Entre o mundo alternativo e a realidade prática, espero que não estejamos na maravilha da(s) despolítica(s) educativa(s)! A não ser isto, haveria que assumir que vale tudo: tudo ao molho e fé em Deus (ou deuses que valham)!

    Que não seja esta a altura de dizer "Viva o desgoverno em que nos encontramos!" (e sem alternativas credíveis para tanto desconcerto, sem previsibilidade de conserto perante a cegueira de quem não vê para onde tudo isto nos está a levar).

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Uma questão de comboios

      Meio de transporte ou não, é bom que se escreva com correção.

    Não sei se é fantasma, se alguém o perde ou vai nele. No que toca a comboios, entre viagem e expressão de quantidade não há acentos gráficos. Só assentos para comodamente fazer viagem. Tudo o que vem a mais é excessivo.
      Muito me espanto, portanto, com a legenda televisiva que se segue:

As legendas da nossa televisão (Nem os comboios escapam).

       Voltamos ao primor da escrita na televisão. No seu pior, por certo! COMBOIO, senhores! Nem por serem de diferentes tipos a escrita fica diferente.
     E já que dele falamos, para que não o percamos, aqui fica o esclarecimento de um termo com cerca de quatro séculos, por mais que o transporte não tenha mais de dois.

Excerto do programa "Cuidado com a Língua!"

     De vez em quando a televisão também tem produtos interessantes. E, desta feita, sem erros na escrita.

domingo, 12 de janeiro de 2020

"Eu vejo estradas no céu"

        Assim o diz a letra de canção do rapper Valas e da fadista Raquel Tavares.

       Cito-a pela inspiração da foto tirada junto ao rio Douro, em Valbom:

Estradas no céu I (Foto VO) 

Estradas no céu II (Foto VO) 

      Estradas em espaço aéreo, em aglomerado, num entrecruzamento de viagens a que o fluido rio assiste, espelhando o brilho de um sol luminoso, no calor reconfortante de uma tarde que findará para lá dos arbustivos montes de uma margem, aquém do mar. 

      "Hei de continuar o voo, suspenso na gravidade" - palavras feitas música, também a caber em imagens. 

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Receita da barcarola

     Não é peça musical nem subgénero poético.

     É mais uma peça de "artista". Compra-se a base e, depois, decora-se a gosto:

Uma barcarola personalizada (Foto VO)

     Aplica-se uns búzios e umas conchas, escolhe-se uma fotografia (personalizada ou tirada pelo próprio) de temática afim e está pronto - uma obra que, não sendo completamente de artista, resulta num adorno com mais significado do que a da venda original.

     Pendura-se na divisão da casa que mais aprouver e fica a sugestão para viajar à roda dessa divisão, em barcarola com algum toque mais personalizado.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Quando o tempo para

      Não será propriamente o tempo, mas o aparelho que o mede.

     Muitos foram já os usados, dos mais naturais (o sol, a água) aos mais construídos (o relógio de pulso e o digital, por exemplo). Polémicas são algumas ideias associadas à contagem do tempo; e, no que à educação diz respeito, a falta dele está a ser uma constante.
      Por isso, quando o relógio não funciona é como se o tempo parasse. Assim parece. Porém, este continua a correr. Percecionamo-lo nas mudanças que a natureza nos dá, na memória que se vai construindo, nas tecnologias que tornam tudo cada vez mais rápido (a ponto de a lembrança, o passado não ser frequentemente revisitado), na respiração que se prolonga, nos silêncios que perduram, nos ritmos e cadências de contínuas progressões sonoras, na sequência de instantes que progridem em intervalos mais ou menos alargados, no pensamento que flui num sentido completo (princípio-meio-fim), na consciência de vivências mais ou menos duradouras.
       Fica, então, o objeto sem a funcionalidade da medição do tempo. E, se para isso não serve, dê-se-lhe novo uso (novo na função e para um tempo outro, diferente):

 Era uma vez um relógio I (Foto VO)




















Era uma vez um relógio II (Foto VO)

     Os relógios deixaram de medir o tempo, mas, com tempo, passaram a ter um outro registo e função, mais decorativos, menos úteis para o tempo cronológico, mas talvez para sentir um outro mais psicológico. Uma outra experiência do tempo.

       Agora que a pausa se aproxima do fim, quis fazer uma ilusória tentativa de colocar o tempo nos gonzos (um pouco como no drama shakespeariano, mais precisamente no Hamlet, quando se constata que "O tempo saiu dos gonzos: Que maldição / que me deu ter por missão reordená-lo!").

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Passando

     Já houve receita, música, cinema de animação, poesia,...

     ...  agora é tempo de passagem, de "reveillon" com algumas notas ortográficas (sem acordo) e imagens muito literais ou concretas (do que possa ser chamado por Alberto Caeiro de "virar da esquina").
     Nada como ir à procura de um espaço e dar uma "virada" para o novo ano.
     Na busca do espaço, encontrei um:

Imagem colhida do Facebook

     (Ao que chega o "reveillon"! Ainda bem que há vaga!)
     Para a "virada" que se impõe, num português muito à variedade continental não europeia (do Brasil), já ensaiei uma:

Imagem colhida do Facebook

     (A verdadeira passagem... pelos lençóis!)

     Resta desejar a todos umas boas saídas, melhores entradas e uma vivência de todo um novo ano com saúde e paz. BOM VINTE VINTE.

sábado, 28 de dezembro de 2019

Dois Papas (ou uma realidade cruzada com ficção)

       Título para um filme da Netflix com alguma inspiração na realidade.

      Histórias do Vaticano e das vivências dos Papas ou a visão crítica do poder institucional pontifício têm sido fonte inspiradora para a produção de longas metragens na Sétima Arte. Dois Papas, pelo brasileiro Fernando Meirelles (que conta com produções como Cidade de Deus e Ensaio Sobre a Cegueira), é mais um desses exemplos, no registo de uma dessacralização e humanização louváveis. Apoiado num roteiro do neozelandês Anthony McCarten (de A Teoria de Tudo), baseado no livro O Papa, o filme propõe uma intriga construída a partir de conversas ficcionalmente verosímeis entre o Papa Emérito Bento XVI e o cardeal de Buenos Aires, Bergoglio - hoje o Papa Francisco.
    Recuando aos tempos da eleição de Ratzinger (2005) e de Bergoglio (2013), há dados de "acontecimentos reais" cruzados com ficcionalidade tão plausível quanto os Papas serem humanos, Joga-se mais com os homens do que com a posição santificada que ocupam - homens que dançam tango, comem pizza, torcem por equipas de futebol e falam sobre os ABBA (quando Bergoglio trauteia 'Dancing Queen'), tudo é verdade tão convincente quando a ficção instaurada. A ser verdade, este conjunto de episódios resulta tão caricato que aproxima e familiariza as personalidades representadas de todos os que as conhece(ra)m e delas têm uma imagem com a qual mais ou menos se identificam.

Montagem de Trailers do filme de Fernando Meirelles (2019)

       O dado mais real é o da renúncia factual de Bento XVI e a ascensão do argentino Jorge Mario Bergoglio a Santo Padre. A ficção mais evidente é a da crítica aos sapatos desatacados de Borgoglio, quando foram os vermelho de Bento XVI mais contundente e veridicamente comentados; a do confronto de duas personagens, entre a mais dogmática e erudita e a mais progressista e pragmática, interpretadas por Anthony Hopkins (Bento XVI) e Jonathan Pryce (Francisco), a espelhar vivências e visões de mundo bem distintas, ainda que complementares e convergentes na resolução de uma crise eclesiástica crescente e resultante de sucessivos escândalos (como é o caso dos abusos sexuais, a corrupção moral e financeira, as relações com regimes ditatoriais, entre outros).
     O sigilo do que se passa na Capela Sistina à hora da eleição cardinalícia é de alguma forma desvelado, numa encenação marcada por rituais e formalidades que pairam em registos dispersos a que ninguém, para além dos purpurados, assistiu, mas que foram ora tornados públicos ora sucessivamente desmentidos. No talvez seja, a fronteira entre o ser e o não ser resulta frágil; no filme, é tratada como uma possibilidade de encenação de jogos de influência. Não bastam as relações do poder político com o religioso (e vice-versa); as ascendências e os influxos internos à instituição da igreja são uma imagem bem evidente do(s) poder(es) convocado(s), distinta do sentido religioso mais espiritualmente virtuoso.

Cena do filme 'Dois Papas' (2019), de Fernando Meirelles

       O espírito final do filme, com ambos os papas em amizade estreita, é o da reconciliação, o do perdão, o do reconhecimento que é mais forte e humano o que (n)os une do que as ideias que (n)os possam separar - se é que estas alguma vez foram assim tão diferentes, a julgar pelo espaço que um Papa dá a outro. Afinal, a confraternização e a celebração de um jogo do mundial são pontes de uma aproximação que se faz noutros capítulos da vida, como nos da fé. É possível que os contrários se atraiam, que os diferentes se juntem e que os opostos busquem plataformas de entendimento.

       Entre as reflexões sérias e as confissões fortes das conversas mantidas, há também espaço para o cómico, o caricato, o inusitado e o inesperado - ingredientes necessários à identidade feliz e inteligente da vida humana.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Outra beleza...

     ... ainda assim, bela!

     A par da beleza de ontem, mais rosada,  hoje volta-se ao alaranjado no horizonte. O sol pousa como em espiral, até se tornar um ponto minúsculo e deixar espraiado, no céu, o lastro da sua presença.

Final de tarde com horizonte alaranjado (Foto VO)

      Nova caminhada, com novas cores. A natureza é a mesma, na sua variedade. As semelhanças com outros instantes são evidentes; o céu, o mar, os caminhos são familiares. O olhar é sempre o do encantamento.

     A vontade de guardar estes momentos é tão grande que ainda vou fazer deles um quadro (a minha veia da pintura está a chamar-me!)  

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Final de tarde rosa fogo

      Ao final de uma caminhada.

     Regressando a casa, olhar o mar, o céu, o horizonte é como ver um quadro com paleta de cores entre o inesperado e o encantador.

Final de tarde rosa fogo I (Foto VO)

 Final de tarde rosa fogo II (Foto VO)

  Final de tarde rosa fogo III (Foto VO)

 Final de tarde rosa fogo IV (Foto VO)

     Um pouco de sol traz este conjunto de cambiantes, de tons que, entre o fogo e o rosa, se pintam numa natureza que se dá a ver e faz encantar.

    Uma pausa para café é o instante preciso para admirar o espetáculo que o ar livre permite observar. 

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Um Natal que está para chegar

    Alguns dizem que já chegou há muito!

   Talvez pelas compras, pelos presentes, pelas filas nas lojas, pela azáfama dos preparativos do jantar ou da ceia. A iluminada reunião far-se-á, contudo, na noite escura que chegará. Com mais ou menos embrulho, saco ou laçarote colorido, os fumos das cozeduras mais os cheiros das frituras e doçuras estão para aparecer e animar as casas, cujas janelas embaciadas piscam à luz dos pinheiros enfeitados ou dos candeeiros da rua acesos.
     Hoje, com os votos de boas festas, dou a saber que me cruzei com o Pai Natal:














(Re)Encontro com o Pai Natal,
pelas ruas de Espinho
(Foto VO)


     Cruzei-me com o velho Pai Natal
     numa concorrida rua de Espinho.
     No vermelho e branco do mural,
     faltava o verde tom do azevinho;
     não o da esperança, tão especial,
     adocicada de calor e de carinho,
     no seio de família una, tão igual
     à que de Nazaré a Belém fez caminho.

     Assim (re)nasce o menino, afinal:
     a todo o tempo, com pão e vinho,
     festeja-se, em espírito fraternal,
     a vinda de novo ciclo, tão alvinho
     quanto o inverno queira dar sinal.

   Não vi as renas, não trazia prendas para ninguém, piscava-me o olho e fazia-se pintado de um pensamento a lembrar presença e família.

     Preparando a noite da consoada, sejam a presença e a família razões para ela ser mais celebrada. BOM NATAL!

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Da conversa à foto

      Reinvente-se a gramática, porque 'tá' a chegar o verbo 'tar' (e a preposição 'té')

      Primeiro a conversa:

      - Olá! Onde tás?
      - Já tou no café, onde combinámos.
      - Tou a chegar. Desculpa, tou atrasada.
      - Também cheguei há pouco. Tava cheio de sono e cheguei mais tarde.
      - Olha, ontem tive a trabalhar até às tantas e hoje tou arrasada.
      - A sério? Também tive. Tou farto de trabalhar. Tou morto.
      - Tá. Só mais cinco minutos e já te ajudo, tá bem?
      - Tou à espera.
      - Té já.

      Depois a foto:

Contágio do verbo 'tar' (ou de como é preciso ir além do corpo são)

         ... 'tiver' com vontade... Conjugação imperfeita de 'tar' com vontade! Sim, porque uma coisa é ter vontade (e se eu tiver vontade, vou ao treino; não paro); outra é estar com vontade (e se estiver com vontade de ficar em casa, não há treino que me desvie do sofá).
         É tanto o treino que até o 'estar' perde sílabas (fruto do cansaço, claro está)!

      Diria: os afetados comem sílabas; alguns publicitários ficam-se pelo corpo são (porque da mente...). Sabem que mais: tá tudo doido (na variante de 'tão todos doidos')! Atenção ao contágio!

domingo, 22 de dezembro de 2019

É a minha cara!

      Assim mo disseram quando me deram um postal lindo, chegado de Londres.

    Numa troca de prendas de um Natal antecipado, mas cheiiiiinho de afetos, foi-me ofertado um postal lindo. Vai passar a figurar à entrada do meu escritório: um local de trabalho que não anda longe do representado:
     
Um postal que chegou direitinho vindo de Londres, por mãos amigas (DG)

     Bem que precisava de dar uma profunda limpeza ao espaço, tal como se dá a ver na imagem. Ah, se eu tivesse um espanador igual! Livros, prateleiras (muitas) e escadote tenho eu. 
      À entrada fica a imagem de Roger la Borde, intitulada "The Book Collector".
      
       Com o agradecimento à DG, pela lembrança. É mesmo a minha cara!