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segunda-feira, 21 de novembro de 2022

Falha nas previsões

     Futebol e política à parte,...

     Lá vem o desconhecimento do Acordo Ortográfico (AO), a vigorar desde 2009.
     O acento circunflexo aparecia na grafia do plural com duplo 'e', no acordo de 1945; após 2009, lê-se o seguinte na Base IX, intitulada "Da Acentuação Gráfica das Palavras Paroxítonas", no seu ponto 5:

     «c) As formas verbais têm e vêm, 3.ª­s pessoas do plural do presente do indicativo de ter e vir, que são foneticamente paroxítonas (respetivamente /tãjãj/, /vãjãj/ ou /têêj/, /vêêj/ ou ainda /têjêj/, /vêjêj/; cf. as antigas grafias preteridas, têem, vêem), a fim de se distinguirem de tem e vem, 3ªs pessoas do singular do presente do indicativo ou 2ªs pessoas do singular do imperativo; e também as correspondentes formas compostas, tais como: abstêm (cf. abstém), advêm (cf. advém), contêm (cf. contém), convêm (cf. convém), desconvêm (cf. desconvém), detêm (cf. detem), entretêm (cf. entretém), intervêm (cf. intervém), mantêm (cf. mantém), obtêm (cf. obtém), provêm (cf. provém), sobrevêm (cf. sobrevém).

          Obs.: Também neste caso são preteridas as antigas grafias detêem, intervêem, mantêem, provêem, etc.»

        Sendo "preteridas", diria que não são as preferidas. Ou seja, a distinção gráfica vem / vêm motiva a manutenção da acentuação com o circunflexo; o mesmo não se justifica em vê / veem (ou prevê / preveem e afins), dado que a dupla grafia de 'e', no plural, já constitui distintividade suficiente quanto à pessoa e número nas respetivas formas verbais.
        Portanto, o que se lê na legenda da SIC Notícias não acompanha a orientação que o AO prevê ou que as orientações preveem que se faça:

Um acento a mais a falhar na previsão (Foto VO)

        Corrija-se, portanto, a legenda e leia-se a forma "preveem" (sem confusão com qualquer outra), para que a previsão resulte mais correta.
       
          ... é necessário maior acordo com o... ACORDO!

domingo, 23 de outubro de 2022

Negócios da China?

      Uma coisa é certa: não traz lucro para ninguém.

    Não me refiro ao assunto noticiado, apesar de dizer respeito à China e a um comportamento, pelos vistos, inusitado. Aludo, em concreto, a essa confusão que, por um lado, parece existir entre a 'ESpera' e a 'EXpectativa' (ou não fosse esta última palavra oriunda do francês - "expectative"), mas que nunca deve dar lugar à desordem ortográfica que grassa pela televisão; por outro lado, entre tirar e colocar 'c' nalgumas sílabas com som vocálico aberto e que o Acordo Ortográfico (1990) acabou por motivar alguma deriva (legitimando que a representação gráfica se justificasse, nalguns casos, pela realização fonética):

Da China ou não, o negócio é muito dúbio na escrita do Jornal das 8, na TVI (Foto TJ)

      Estranho a escrita de 'EXpectativa' (além de mal escrita na primeira sílaba) sem 'c', porque o digo / o leio no som [k] (tanto em francês como nas 'EXpeCtations' do inglês), tal como em 'faCto' (muito bem escrito, por sinal). Não reconheço o 'c' de 'afecta', por não o ler nem o dizer; logo, não o escrevo.

     Fica a credibilidade televisiva afetada e não sei se tenho muita expectativa quanto ao futuro da escrita do português correto (também já sem 'c').

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Com ou sem acento

      Hoje uma colega dizia-me que estava a falar com outra sobre o Português.

    Isto de falar (em) Português é para todos os que o têm como língua materna e instrumento de discurso e pensamento; falar sobre ele não é só para alguns, mas, convenhamos, há uns que estão mais apetrechados do que outros para o efeito.

     Q: Agora, todos os 'ói' deixaram de ter acento, não é? Por exemplo, em 'celulóide' (> celuloide), 'asteróide' (> asteroide)? Este novo Acordo Ortográfico...

      R: Não é correta a generalização; estão certos os exemplos.
      'Ói' continua a ser grafado, por exemplo, em 'herói', dada a acentuação (fónica e gráfica) aguda da palavra. Já a palavra 'heroico(a)' perde o acento gráfico, por se tratar de uma palavra grave. Genericamente, as palavras graves não são acentuadas graficamente na língua portuguesa, pelo que o acordo ortográfico segue essa orientação geral para este caso, em concreto, bem como para os exemplos dados e afins.
      Digamos que a terminação 'óide', proveniente do grego 'eîdos' e designativo de forma ou semelhança, perde o acento gráfico, uma vez que está presente na formação de termos fonicamente graves - ex.: fungoide / intelectualoide / lipoide / ovoide / ulceroide).

       Lá que seja bom falarmos sobre o Português, nada a obstar. Devíamos mesmo fazê-lo todos (fosse pela grafia alterada pelo Acordo Ortográfico de 1990 fosse por razões mais comuns ao comum dos falantes, se me permitirem a repetição, para frisar alguma transversalidade que se impõe na questão).

domingo, 30 de outubro de 2016

Com ou sem hífen?

      De novo, a questão do Acordo Ortográfico (AO).

      Dúvidas que só o uso pode vir a resolver, com alguma leitura e/ou consulta do Acordo (que, por certo, não é o melhor exemplo de literatura).

      Q: 'Personagem-tipo' perde o hífen com o AO?
Personagens-tipo queirosianas
    R: Não. Voltando à base XV do AO - intitulada "Do hífen em compostos, locuções e encadeamentos vocabulares" -, é assumido que se emprega o hífen nas palavras compostas por justaposição que não contêm formas de ligação e cujos elementos, de natureza nominal, adjetival, numeral ou verbal, constituem uma unidade sintagmática e semântica e mantêm acento próprio,
    Trata-se, assim, de um composto na mesma linha de 'ano-luz' e 'turma-piloto', também grafados com hífen (justapostos e com contraste de número no primeiro termo).

       Porque 'personagem-tipo' é um tipo de personagem, tal como 'ano-luz' é um tipo de medida / distância e 'turma-piloto' é um tipo de turma. e se mantêm os acentos próprios dos termos (daí a justaposição). 

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Toca a andar. Não para!!!!!!

       Pergunta-me um aluno por que motivo "para" deixou de ter acento.

       Não! Não é o "para" preposição ou conjunção (que nunca teve acento gráfico).
   É o verbo "parar" mesmo, na sua forma conjugada do presente do indicativo (terceira pessoa do singular) ou na do imperativo (segunda pessoa do singular). Para não se confundir com as configurações anteriores, antes tinha acento gráfico; com o Acordo Ortográfico (AO), deixa de o ter. Diz-se que, pelo contexto, serão feitas as devidas distinções. Mesmo assim, em termos de processamento de leitura, não será uma questão tão pacífica - conforme já o indiquei em apontamento anterior -, por concorrer com outras palavras graficamente afins.
   Uma razão na base do desaparecimento do acento está associada ao facto de "para" ser uma palavra grave. Tipicamente, tais palavras não são graficamente acentuadas na língua portuguesa, pois partilham com ela a propriedade fónica de base (a tonicidade grave).
     E, se mais não houvesse, uma razão maior (?!) assiste a toda a mudança: a decisão política para um normativo que alguém disse ser importante para a projeção internacional da língua, para a economia de meios e para a estabilização do relevo que o idioma tem já no mundo.

     Entre o ser e o dizer, a distância é grande. Assim, mais vale ficar pelo motivo linguístico mais consistente (porque as razões políticas são, no mínimo, mais do que dúbias).
        

terça-feira, 27 de maio de 2014

Entre preposições e conjunções, e outras classes mais

    É verdade que a palavra parece ser a mesma, mas nem tudo o que parece é!

   E não o sendo, é bom que se faça a distinção devida. Há que pensar e aplicar testes de verificação. Procurar a resposta nas soluções não chega.

     Q: Professor, na frase "Os alunos pediram para adiar o teste", como se classifica o "para"? E porquê? Vi nas soluções que é uma conjunção, mas gostava de saber a razão para não ser uma preposição. Pensava que era.

     R: Percebo a questão, mas, de facto, o "para" da frase proposta é uma conjunção.
     Há que reparar que "para" segue o verbo 'pedir', o qual pede um complemento. A estrutura argumental do verbo é a seguinte: "Alguém PEDE alguma coisa". Parar a frase em "Os alunos pediram" resulta numa sequência incompleta, pelo que é de esperar que alguém pergunte qualquer coisa como "Os alunos pediram... O QUÊ?" Ora, esta última é a pergunta associada ao complemento direto. A resposta "para adiar o teste" contempla precisamente essa função sintática, configurada numa oração subordinada introduzida por uma conjunção completiva (completa o sentido do verbo com um complemento) ou integrante (integra o predicado).
    Seja "Os alunos pediram para adiar o teste" seja "Os alunos pediram que se adiasse o teste", tanto o "para" como o "que" assumem-se como conjunções subordinativas completivas, pela razão atrás indicada.
     Por norma, a preposição "para" distingue-se da conjunção atendendo ao facto de a primeira poder ser seguida por um grupo nominal substituível por um pronome na forma oblíqua (isto é, "mimti / ele, ela / nós / vós / eles, elas").
     "Para" é, efetivamente, um caso muito camaleónico da língua portuguesa, ainda mais com o que o mais recente Acordo Ortográfico introduziu (ao eliminar o acento gráfico de algumas formas do verbo 'parar'):

i) Antes de fazer asneira, para.
   < verbo parar, no modo imperativo>

ii) Para pensar, é necessário parar.
     < conjunção subordinativa final, a introduzir uma oração subordinada adverbial final - retirável da frase e que funciona como modificador >

iii) Ele falou para mim; não para ti.
     < preposição, seguida de um pronome pessoal na forma oblíqua - o comportamento típico das preposições quando combinadas com pronomes pessoais>

iv) Peço a todos para manterem a calma.
     Peço que todos mantenham a calma.
     < conjunção subordinativa completiva ou integrante, a introduzir uma oração subordinada substantiva completiva - que funciona como complemento direto selecionado pelo verbo 'pedir' e que não pode ser retirado da frase, sob pena de esta ficar incompleta e incorreta >
   
   Conclusão: o contexto da frase determina a classificação das palavras, quanto à classe a que pertencem, para além de se poder contar com alguns testes que auxiliam na identificação desta última.

terça-feira, 25 de março de 2014

Uma questão de técnica com alguma tática

        De novo o Acordo Ortográfico (AO), pela composição que se faz nalgumas palavras.

     A questão surge mais por causa do hífen, mas outros dados são igualmente relevantes. Tudo uma questão de treino.

       Q: Agora como se escreve 'técnico-táctico'?

    R: Atendendo isoladamente aos termos que compõem a palavra, nada a registar de alteração com 'técnico' (uma vez que se diz o som [k] da primeira sílaba, mantém-se a grafia do 'c'); o mesmo não sucede com 'tático' (que perde o grafema 'c', na lógica da eliminação das consoantes não lidas na escrita).
       A grafia da composição, na totalidade, regista a mesma utilização de hífen anterior ao AO.
       À semelhança de casos já aqui apontados, cada um dos elementos da composição apresenta autonomia léxica, com entrada dicionarizada. Não obstante a leitura do composto com a vogal de ligação típica na sílaba final da primeira base de composição, figura aqui um outro caso similar aos exemplos indicados para manter o sinal gráfico do hífen.

    Assim sendo, nada como um treino técnico-tático para haver maior familiaridade com o Acordo Ortográfico.

quinta-feira, 6 de março de 2014

É de Luso (e nada tem a ver com água)

    Tomada a região da Lusitânia como província romana, recebeu esta o nome por causa dos habitantes guerreiros (os 'lusitani') que longamente resistiram ao povo do Lácio. 
A Hispânia Romana
     Há ainda quem se refira a um rio grego (Lousios), pela matriz cultural grega, ou a uma figura mitológica (Luso) derivada de um erro de tradução da expressão latina «lusum enim Liberi patris», na obra Naturalis Historiae (de Plínio, o Velho), tomando a palavra 'lusum' ou 'lusus' como nome próprio. Segundo o eborense latinista André de Resende, Luso seria um companheiro ou um filho do deus do vinho, Baco - leitura proposta por Camões na estrofe 22 do Canto III d'Os Lusíadas (“Esta foi Lusitânia, derivada / De Luso, ou Lisa, que de Baco antigo / Filhos foram, parece, ou companheiros...").
       Atualmente, o termo luso é usado para referir tudo o que seja relativo a Portugal (daí o povo luso ou a nação lusa), nomeadamente nas palavras compostas que o integram (por exemplo, tratado luso-americano).
     No que toca à composição de palavras, a base autónoma 'luso' ganha entretanto uma configuração fónica distinta no som vocálico final, como se de uma vogal de ligação se tratasse. Ainda assim, a existência autónoma da palavra é o que justifica a grafia proposta pelo Acordo Ortográfico (AO) para os compostos com hífen. Daí ler-se neste último o seguinte (Base XV - artigo 1º):

«BASE XV
Do hífen em compostos, locuções e encadeamentos vocabulares 

1.º Emprega-se o hífen nas palavras compostas por justaposição que não contêm formas de ligação e cujos elementos, de natureza nominal, adjetival, numeral ou verbal, constituem uma unidade sintagmática e semântica e mantêm acento próprio, podendo dar-se o caso de o primeiro elemento estar reduzido: ano-luz, arcebispo-bispo, arco-íris, decreto-lei, és-sueste, médico-cirurgião, rainha-cláudia, tenente-coronel, tio-avô, turma-piloto; alcaide-mor, amor-perfeito, guarda-noturno, mato-grossense, norte-americano, porto-alegrense, sul-africano; afro-asiático, afro-luso-brasileiro, azul-escuro, luso-brasileiro, primeiro-ministro, primeiro-sargento, primo-infeção, segunda-feira; conta-gotas, finca-pé, guarda-chuva.»

      Pelos sublinhados da minha responsabilidade, conclui-se que será de escrever 'luso-africano', 'luso-americano', 'luso-britânico', 'luso-canadiano', 'luso-chinês', 'luso-descendente', 'luso-francês', 'luso-indiano', 'luso-venezuelano' e outros lusos mais.

       Luso, lusitano, lusíada... é português, e (para citar o slogan publicitário) o que é nacional é bom. Talvez.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Mau exemplo no serviço público do 'Bom Português'

      Hoje, o mau exemplo repete-se, para mal de todos os escreventes.

    Na rubrica 'Bom Português' do programa 'Bom dia Portugal' (que já por si era título que devia levar vírgula, a bem do vocativo que o fecha), o locutor começa por indicar que não há dúvidas de que amanhã é sábado (Graças a Deus!). A seguir, lá vem a habitual voz-off abrir o espaço para a questionação dos transeuntes, proferindo o seguinte enunciado: "Com o Acordo Ortográfico, a palavra sábado escreve-se com inicial maiúscula ou minúscula?"
     Sobre a diversidade de respostas dos inquiridos, registo o facto de haver respostas para todos os gostos (nomeadamente, o do senhor que diz estar "habituado ao antigo" que nunca o foi - ou seja, à grafia com maiúscula). Impõe-se, portanto, a indicação da hipótese correta, pela exibição gráfica de uma bolinha verde a marcar a resposta aceitável.


      E, pelo que se dá a ver, até aqui fica tudo bem. Contudo, no melhor pano cai a nódoa!
     Lamentável é mesmo o que se ouve, à medida que é mostrada a imagem acima: "Os nomes dos dias da semana passam a ser escritos com inicial minúscula." Apetece mesmo responder à simpática vozinha e dizer: "Não, menina. Não passa nada. Sempre foi. Nesse aspeto o Acordo Ortográfico não altera coisa nenhuma".
      Oh, santa paciência!

    Neste caso, interessa dizer que o silêncio seria de ouro e que a voz-off caladinha, ao jeito do cinema mudo, fazia melhor figura (isto só para mencionar quem dá a voz ao que lhe fazem chegar erradamente às mãos, ou aos olhos, para ler).

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Informações úteis com erro na língua

    É sempre positiva a informação antecipada, que ajuda o cliente - particularmente em época consumista como esta.

    Pena que este seja o exemplo da informação necessária na sua pior forma:


    Isto de confundir a terminação de um verbo (não separada da base verbal) com a contração de dois pronomes ('me' e 'os', separados por hífen) está a tornar-se incorreção comum na língua, já tratada de forma sistemática nesta "carruagem". Bem ensino aos meus alunos que, sempre que puderem colocar um 'nós' antes de verbo conjugado na primeira pessoa do plural, não há separação do 'mos' associado à terminação verbal.
     E, já agora, os meses do ano escrevem-se com minúscula, a não ser que estejamos com uma empresa adepta de ortografia associada ao antigo acordo (que, ainda assim, não pactuava com erros como o primeiro).
     Por fim, uma virgulazinha no final da primeira linha, a marcar a presença do vocativo, também não ficava nada, mas mesmo nada mal.

     Espero que a empresa em questão não tenha contratado um aluno meu que possa ter sido responsável por tão infeliz registo escrito. Valha apenas a utilidade da informação.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Todos ralham e ninguém tem razão

     E importa acrescentar que quem mais ralha não é porque não tenha o pão que (já) vai faltando.

    Esta reflexão surge na sequência de uma notícia hoje comentada no Jornal da Noite da SIC, num diálogo pouco ou nada esclarecedor do jornalista Rodrigo Guedes de Carvalho e o comentador Miguel Sousa Tavares.

Cartoon do cubano Angel Boligan, "El Universal".

    O facto diz respeito à tomada de decisão do juiz Rui Teixeira relativamente à utilização do Acordo Ortográfico (AO) nos documentos processuais do Tribunal de Torres Vedras. Segundo a notícia, o magistrado obrigou os serviços do Ministério da Justiça a reescreverem o relatório social de um detido, expurgando o texto das alterações introduzidas pelo AO. Na defesa de que os tribunais não estão obrigados ao cumprimento da resolução do Conselho de Ministros (acerca da adopção das novas regras em todos os serviços da administração pública), Rui Teixeira terá escrito que "Nos tribunais, pelo menos neste [de Torres Vedras], os 'factos' não são 'fatos', as 'actas' não são uma forma do verbo atar, os 'cágados' continuam a ser animais e não algo malcheiroso e a Língua Portuguesa permanece inalterada até ordem em contrário".
     Deste último registo, é absurdo fazer menção a situações completamente despropositadas: 'facto' mantém-se como sempre foi (dado que o 'c' é pronunciado na variedade portuguesa do continente europeu); a acentuação das palavras esdrúxulas não sofre qualquer mudança, pelo que é ridículo o exemplo adiantado do 'cágado'. Certeira é apenas a homonímia resultante entre o nome 'ata' e a forma verbal do verbo 'atar' (cf. "Ele ata").
     Não menos inconsistente é a orientação dos comentários: por um lado, a sapiência de Sousa Tavares a referir-se ao deputado "Mitchel Seufert" (que deve ser 'Michaele', a bem da sua ascendência paterna alemã) e à redação de um relatório que, entre outros pontos críticos, assume a falta de consenso social alargado sobre o AO; por outro, o jornalista e apresentador a despedir-se até à próxima segunda-feira, cito, "com maiúscula". É, portanto, do desconhecimento deste último (também escritor) que os dias da semana sempre se redigiram com minúscula (por razões de História da Língua) - à exceção dos contextos de abertura de frase / período -, e que não é o Acordo a mudar o 'statu quo'.
       Perante tão desinformadas e desacreditadas fontes jornalísticas e comentaristas, apetece continuar com um registo mais cómico e brincalhão que se lê no circuito das redes virtuais. Se Michael Seufert tem no seu blogue ("À vontade do freguês") escritos "sem acordos horrográficos", há outros jogos de palavras que se mostram mais coloridos pela sugestão - é o caso do que circula pelo Facebook, num apontamento intitulado

            «A cor do horto gráfico

                                                            já aprovado pelo novo Ministro do Saber

Última actualização do dicionário de língua portuguesa - novas entradas:

Arbusto: Busto com um certo ar
Testículo: Texto pequeno (embora, ache que devesse mais ser um teste pequeno)
Abismado: Sujeito que caiu de um abismo
Pressupor: Colocar preço em alguma coisa
Biscoito: Fazer sexo duas vezes
Bigode: Duplo Deus britânico
Coitado: Pessoa vítima de coito (por desconhecimento do que é a 'coita de amor')
Padrão: Padre muito alto
Estouro: Boi que sofreu operação de mudança de sexo
Democracia: Sistema de governo do inferno (cada vez mais verdadeiro!)
Barracão: Proibição de entrada de caninos
Homossexual: Sabão em pó para lavar as partes íntimas
Ministério: Aparelho de som de dimensões muito reduzidas
Detergente: Acto de prender seres humanos
Eficiência: Estudo das propriedades da letra F
Conversão: Conversa prolongada
Halogéneo: Forma de cumprimentar pessoas muito inteligentes
Piano: Ano Internacional da descoberta de Pi (3,1416)
Expedidor: Mendigo que mudou de classe social
Luz solar: Sapato que emite luz por baixo
Cleptomaníaco: Mania por Eric Clapton
Tripulante: Especialista em salto triplo
Contribuir: Ir para algum lugar com várias tribos (índias)
Aspirado: Carta de baralho completamente maluca
Assaltante: Um 'A' que salta
Determine: Prender a namorada do Mickey Mouse
Vidente: O que o dentista diz ao paciente
Barbicha: Bar frequentado por gays
Ortográfico: Horta feita com letras
Destilado: do lado contrário a esse
Pornográfico: Sinónimo de colocar no desenho
Coordenada: Que não tem cor
Presidiário: Aquele que é preso diariamente
Ratificar: Tornar-se um rato
Violentamente: Viu com lentidão

E

Língua "perteguesa"... PORQUE O SABER NÃO OCUPA LUGAR!

Prontus
Usar o mais possível. É só dar vontade e podemos sempre soltar um 'prontus'! Fica sempre bem.

Númaro
Também com a vertente 'númbaro'. Já está na Assembleia da República uma proposta de lei para se deixar de utilizar a palavra NÚMERO, a qual está em claro desuso. Por mim, acho um bom númaro!

Pitaxio
Aperitivo da classe do 'mindoím'.

Aspergic
Medicamento português que mistura Aspegic com Aspirina.

Alevantar
O acto de levantar com convicção, com o ar de 'a mim ninguém me come por parvo!... alevantei-me e fui-me embora!'.

Amandar
O acto de atirar com força: 'O guarda-redes amandou a bola para bem longe'

Assentar
O acto de sentar, só que com muita força, como fosse um tijolo a cair no cimento.

Capom
Tampa de motor de carros que quando se fecha faz POM!

Destrocar
Trocar várias vezes a mesma nota até ficarmos com a mesma.

Disvorciada
Mulher que diz por aí que se vai divorciar.

É assim...
Talvez a maior evolução da língua portuguesa. Expressão que não quer dizer nada e não serve para nada. Deve ser colocada no início de qualquer frase.

Entropeçar
Tropeçar duas vezes seguidas.

Êros
Moeda alternativa ao Euro, adoptada por alguns portugueses.
Também conhecida por "aéreos"

Falastes, dissestes...
Plural de 'tu falaste', como dois em um. Ex.: eu falei, tu falaste, TU FALASTES, ele falou

Fracturação
O resultado da soma do consumo de clientes em qualquer casa comercial. Casa que não fractura... não predura.

Há-des
Verbo 'haver' na 2ª pessoa do singular: 'Eu hei-de cá vir um dia; tu há-des cá vir um dia...'

Inclusiver
Forma de expressar que percebemos bem um assunto. E digo mais: eu inclusiver acho esta palavra muita gira. Também existe a variante 'Inclusivel'

A forma mais prática de articular a palavra MEU e dar um ar afro à língua portuguesa, como 'bué' ou 'maning'. Ex.: Atão mô, tudo bem?

Nha
Assim como Mô, é a forma mais prática de articular a palavra MINHA. Para quê perder tempo, não é? Fica sempre bem dizer 'Nha Mãe' e é uma poupança extraordinária.

Parteleira
Local ideal para guardar os livros de Protuguês do tempo da escola.

Perssunal
O contrário de amador. Muito utilizado por jogadores de futebol. Ex: 'Sou perssunal de futebol'. Dica: deve ser articulada de forma rápida.

Prutugal
País ao lado da Espanha. Não é a Francia.

Quaise
Também é uma palavra muito apreciada pelos nossos pseudo-intelectuais... Ainda não percebi muito bem o quer dizer, mas o problema deve ser meu.

Stander
Local de venda. A forma mais famosa é, sem dúvida, o 'stander' de automóveis. O 'stander' é um dos grandes clássicos do 'português da cromagem'...

Tipo
Juntamente com o 'É assim', faz parte das grandes evoluções da língua portuguesa. Também sem querer dizer nada, e não servindo para nada, pode ser usado quando se quiser, porque nunca está errado, nem certo. É assim... tipo, tás a ver?

Treuze
Palavras para quê? Todos nós conhecemos o númaro treuze.»

      Apetece mesmo dizer que mais vale ler uma brincadeira com a língua do que tomar a sério o que querem dela fazer: caso televisivo sério sem nenhumas evidências de confiança no que é dito. Como diria Jorge Palma, "Deixa-me rir! Essa história não é tua!"

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Uma questão de prefixos no AO

     Há generalizações que não podem ser feitas.

       A questão surgiu e a cooperação (vem mesmo a propósito) estabeleceu-se.

     Q: Mantém-se o hífen nas palavras cuja vogal final do prefixo é igual à que abre a palavra seguinte, não é? Então fica "co-obrigação"?

      R: Resposta positiva para a primeira questão; não para a segunda.
      O prefixo 'co-' tem um estatuto especial, no Acordo Ortográfico, conforme se pode ler na observação da alínea b) do primeiro ponto da base XVI (acerca da hifenização). Aí se explicita que este prefixo normalmente aparece aglutinado à palavra-base, o mesmo sucedendo com as iniciadas por 'o'. 
       Aliás, a ocorrência (e lembrei-me, agora, também da "coocorrência") desse prefixo em várias palavras frequentemente utilizadas é uma constante: coordenação, cooperação (e termos da mesma família de palavras).
       Assim, há 'coobrigação' quando alguém é 'coobrigado' a cumprir algo. Sem hífen.

      O mesmo sucede com a cooptação, na coocupação ou na cooposição.

sábado, 19 de outubro de 2013

Espaço + Tempo = ???

      Isto é o que dá quando se quer fazer misturas.
   
     Quando a propósito de cronotopo (conceito que Michael Bakhtine, no estudo da narrativa, avançou para se referir à junção das duas categorias numa aproximação funcional e simbólica, por elas convocadas para a leitura literária e significativa assumida num conto, novela ou romance) alguém se lembrou da composição habitual do termo, a questão impôs-se:

      Q: Como é que se escreve espácio-temporal? Com hífen ou já o perdeu?

     R: Talvez já o tivesse perdido antes, ou talvez não. Na verdade, este é um dos termos compostos que introduz alguma instabilidade ortográfica, inclusivamente pelo uso que, anteriormente ao Acordo Ortográfico atual (datado de 1190 e com as alterações aprovadas em 2008), já admitia as grafias espaciotemporal e espácio-temporal (dependendo de se encarar, respetivamente, 'espacio' como redução do adjetivo 'espacial' ou o nome 'espácio' com entrada dicionarizada).
     Após o acordo, alguns dicionários têm optado por manter a  diferenciação: 'espaciotemporal' (Dicionário da Língua Portuguesa Houaiss, do Instituto Houaiss; Grande Dicionário da Língua Portuguesa, da Porto Editora); 'espácio-temporal (Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa).
      O facto de alguns destes dicionários adiantarem a entrada 'espácio' (como palavra autónoma) e a leitura do artigo primeiro da Base XV do Acordo são as razões para entender a última proposta (espácio-temporal) como a mais concordante com a letra do Segundo Protocolo Modificativo, aprovado na Assembleia da República em 2008 e a seguir transcrito (sendo o sublinhado da minha responsabilidade):

«BASE XV 
Do hífen em compostos, locuções e encadeamentos vocabulares 
1.º Emprega-se o hífen nas palavras compostas por justaposição que não contêm formas de ligação e cujos elementos, de natureza nominal, adjetival, numeral ou verbal, constituem uma unidade sintagmática e semântica e mantêm acento próprio, podendo dar-se o caso de o primeiro elemento estar reduzido: ano-luz, arcebispo-bispo, arco-íris, decreto-lei, és-sueste, médico-cirurgião, rainha-cláudia, tenente-coronel, tio-avô, turma-piloto; alcaide-mor, amor-perfeito, guarda-noturno, mato-grossense, norte-americano, porto-alegrense, sul-africano; afro-asiático, afro-luso-brasileiro, azul-escuro, luso-brasileiro, primeiro-ministro, primeiro-sargento, primo-infeção, segunda-feira; conta-gotas, finca-pé, guarda-chuva

     Caso para dizer que, até lei em contrário, as categorias espácio-temporais se manterão hifenizadas, a bem da autonomia de 'espácio' contemplada por alguns dicionários de referência.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Acordo tem limites

      A propósito do Acordo Ortográfico, hoje surgiu uma questão a que o dito não se aplica.

      Há frutos que deixam de o ser (se é que alguma vez o foram).

     Q: Olá,Vítor. Tenho uma dúvida de "Acordo". O miúdo na composição escreveu Armação de Pera (e não Pêra), ao qual foi assinalado erro. Ele continua a justificar, com o Acordo, a palavra 'Pera'. Como ele começou logo com o "acordo" incorporado no ADN linguístico percebo a justificação. Andei a pesquisar na net..., mas confesso que, nestes casos, nada melhor que perguntar a quem sabe do assunto. Se puderes dar-me uma ajuda, agradeço. 

     R: Ora viva. O miúdo teria toda a razão se estivéssemos a considerar a peça de fruta. Não é o caso. O Acordo Ortográfico não prevê alterações nas assinaturas legalmente registadas de nomes associados a pessoas (antropónimos), localidades (topónimos), além de marcas, títulos, nomes de sociedades ou firmas comerciais. Daí manter-se a escrita Armação de Pêra, enquanto nome de localidade que os usos e costumes estabilizaram.

     Um dos limites das convenções terá sempre a ver com o que os falantes de uma língua identificam como comummente fixado nos hábitos e costumes. No que às designações dos locais diz respeito, a questão é cultural, histórica e temporalmente marcante; legalmente identificada nos e pelos registos formais produzidos nesses mesmos lugares.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Completo DesAcordo

      Em tempos (ainda) de discussão do Acordo Ortográfico (AO), cumpre-se serviço público televisivo em completo desacordo.

       Na rubrica "Bom Português" do programa "Bom Dia Portugal" (RTP1), lançou-se hoje uma questão relacionada com a formação do plural de um nome composto. Até aqui nada a apontar (numa área com alguma instabilidade), não fosse o facto de se radicar o exemplo à divulgação do Acordo Ortográfico. A pergunta emitida na "lição" chegou mesmo a ser introduzida com o seguinte discurso: "Com o Acordo Ortográfico, o plural da palavra 'leão-marinho' é 'leões-marinhos' ou 'leão-marinho'?" Não bastasse a oralidade, a própria imagem do escrito acaba por o confirmar:


    Pronunciaram-se os transeuntes, uns, pela primeira, outros, pela segunda hipótese. No final, foi estabilizada a resposta com o 's' acrescido nos dois termos da palavra formada por composição (à semelhança do que acontece com a generalidade dos compostos constituídos por um nome mais um adjetivo).
    Ora, não sendo a primeira vez que esta mesma questão é formulada, torna-se bastante crítica a inconsistência repetidamente produzida. Falar do plural das palavras não é um assunto para relacionar com a ortografia, em sentido lato, e muito menos com o AO. Se o foco tivesse a ver com a escrita propriamente dita do vocábulo (com / sem hífen, por exemplo), faria algum sentido a introdução criada; não tendo, o "bom português" devia manter-se na resolução de um aspeto frágil apenas associado à morfologia (no capítulo da flexão em número).

    Lamentável, pois, a desinformação criada, para não dizer mesmo o serviço público mal prestado, confundindo-se um tema de natureza linguístico-gramatical com uma área estritamente do domínio convencional da escrita. Se o tópico do AO já é de si polémico, trazê-lo à praça por questões que não lhe dizem respeito mais agudiza a situação (quando, supostamente, o objetivo é o oposto).

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Ao contrário da vanguarda

      No sentido oposto da vanguarda fica a retaguarda.

    Durante muito tempo foi fonte de problema a grafia desta que se diz encontrar-se em posição recuada, posterior ou no lado de trás.
     A confusão inevitável com o 'recto' dava frequentemente para se escrever o que não se devia. A prova cá fica:

Fotografia tirada na habitação do caseiro da Fundação Casa Museu Aquilino Ribeiro (VO)

      Escusado o erro logo a abrir o excerto. RETAGUARDA deve ser a escrita correta e é bom que não se diga que a minha proposta é o resultado do Acordo Ortográfico. Nada a ver. É mesmo uma questão de origem do termo (do italiano 'retroguardia', do século XIV, para, por empréstimo, se referir os movimentos militares orientados para o fundo do exército, de modo a poder dar resposta ao ataque inimigo).

     Não creio que Aquilino Ribeiro tivesse errado nesse estudo etnográfico que data de 1962. A questão está mesmo em quem transcreveu o texto e o expôs na morada do caseiro da Fundação e Casa-museu Aquilino Ribeiro. E, por ora, o Acordo Ortográfico auxilia, sim, evitando um erro ortográfico do passado que nunca interessou preservar.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

'Bom Português' sem acordo

      Já não é a primeira vez que comento um programa / uma rubrica que poderia ser bom/boa se fosse mais correto(a) e verdadeiro(a).

        Hoje, na RTP1, o programa 'Bom Português' tratou uma questão importante: a do verbo 'haver' e sua concordância. Nem sempre a explicação é dada da melhor forma, mas reconheça-se que aqui está um bom tema para abordar e divulgar. 

        À questão "Diz-se 'havia vários livros' ou 'haviam vários livros'?", alguns transeuntes responderam de forma algo hesitante, a maioria escolhendo a hipótese errada. A voz da locução trouxe, entretanto, a solução: "A forma correta é 'havia vários livros'". Como razão, veio o argumento do significado: o verbo 'haver' com o sentido de 'existir' só deve ser utilizado na terceira pessoa do singular.
       Todavia, não se trata de uma questão de sentido, mas sim do papel sintático do verbo: 'haver' está a ser utilizado como principal. Fosse verbo auxiliar e a resposta já não faria nenhum sentido, pois neste último caso há concordância tanto para o singular como para o plural.


      Além disto, um outro dado causa maior espanto: para quê a questão a encabeçar a imagem inicial ("Com o A.O. como se escreve?"). Este não é um problema de escrita associado ao Acordo Ortográfico. É apenas uma regra sintática da língua já com assente tradição na gramática.

     Assim, hoje a lição do "Bom Português" não contribuiu definitivamente para uma maior consciência do uso da língua. Havia razão (e haveria , no singular, se também fossem muitas mais) para que os transeuntes e os responsáveis da rubrica houvessem acertado muito mais.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Mente sem acento

      Ainda li  textos em que os advérbios terminados em 'mente' apareciam escritos com um acento grave (cf. ponto 23 das Bases analíticas do Acordo Ortográfico de 1945)...

      Já lá vão os tempos em que se grafava 'invariàvelmente', com acento grave, na base derivante e anterior ao sufixo 'mente' que provém de formas adjetivais com acento agudo: (benéfica >) benèficamente, (contígua >) contìguamente, (diária >) diàriamente, (agradável >) agradàvelmente, (heróica >) heròicamente, (só >) sòmente. Deixou esta acentuação de existir com o Decreto-lei nº 32/73 (de 6 de fevereiro).
     Hoje deparei com um anúncio, num corredor, à entrada de uma sala de aula. Lá voltava o advérbio a ter acento gráfico (e desta vez, para mal de todos os pecados, agudo). Mais um exemplar para a coleção de erros ortográficos que tem sido depositada nesta "carruagem", nomeadamente casos de derivação que dão lugar à perda de acento entre a base derivante e a palavra derivada.
    Seja lá quem tiver sido o autor de tal registo, esqueceu-se de uma regra que muitos alunos frequentemente também desconhecem e que sistematicamente relembro: os advérbios terminados em 'mente' não têm acento gráfico, pois este sufixo tem como sílaba tónica [men], tornando grave ou paroxítona (incidência fónica na penúltima sílaba) qualquer palavra que o incorpore. E diz a regra que a língua portuguesa é fónica e predominantemente de acentuação grave, pelo que não se utiliza normalmente acento gráfico nas palavras com tal tendência.
   Assim, a título de exemplo, saiba-se que o termo derivante (adjetivo na forma feminina) pode ter acento; o mesmo não acontecerá com o derivado (advérbio):


      ..., mas há quem o queira tornar agudo. Nem um nem outro. Sem acento, tão-SÓ... ou melhor, tão-SOMENTE.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Em que pé está o Acordo?

       As resistências são algumas, os dissensos são bastantes e...

    Serve a expressão "em que pé estão as coisas?" para questionar, ou melhor, para saber o ponto de uma determinada situação, numa espécie de balanço. 
    No que ao Acordo Ortográfico (AO) diz respeito, a condição não é pacífica. Agora que se aguarda pela posição da Presidente do Brasil face ao documento, muito se discute, além do que já se debatia. E se houver algum volte-face, nada há para espantar, até por não ser novo na história dos acordos.
     Haverá quem diga que nada disto tem nem pés nem cabeça; que interessaria pôr os pés ao caminho, para que tudo ficasse mais claro. O certo é que, por ora, o AO está aí (desde 2011/2012 no sistema educativo português) e em período de moratória até 2016.
      Uma colega dizia, há dias, que isto ainda vai dar um pé de vento...
      E a pergunta surgiu: com ou sem hífen?
      Segundo o AO, este é mais um caso de composição que perde o hífen, à semelhança de muitos outros formados por Nome+Preposição+Nome.  Entram aqui os casos de 

pé de alferes 
pé de altar 
pé de amigo 
pé de atleta 
pé de banco 
pé de boi 
pé de cabra 
pé de cana 
pé de candeeiro 
pé de cantiga 
pé de cavalo 
pé de chumbo 
pé de dança 
pé de vento

       Exceção para 'pé-de-meia' - tal como em 'cor-de-rosa' (em contraste com 'cor de vinho' e 'cor de laranja') -, que mantém hífen por razões consagradas ao uso (por mais discutível ou variável que esta justificação possa ser).
      É o que dá haver expressões que acabam por já estar tão fixas que resultam em conceitos distintos dos termos que as compõem.

      ... e o tempo dirá em que pé tudo isto vai ficar.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Voltando ao quase ou à metade

      A estranheza lança a dúvida, mas o acordo é claro...

      Já houve oportunidade de falar, neste espaço, do comportamento do pseudoprefixo 'semi'.
      Os casos, contudo, surgem a cada palavra que se revele estranha aos olhos da escrita. Como diria o publicitário Fernando Pessoa (a propósito da Coca-Cola), primeiro estranha-se e depois entranha-se.
      Quanto ao Acordo Ortográfico, hoje estranham-se algumas grafias; talvez um dia entranhem. Todavia, por ora, nada como perguntar ou procurar alguma sustentação. No caso da terminologia específica das áreas disciplinares, então o cuidado impõe-se. No âmbito da geometria, há um termo para designar o conceito da região do espaço determinada por um plano. E a grafia é... SEMIESPAÇO.
      Por estranho que pareça, a ortografia é esta mesma: o pseudoprefixo terminado em vogal junta-se SEM HÍFEN ao segundo termo que começa com vogal diferente. O mesmo, aliás, sucede com
semieixo
semiembriagado
semierudito
semiescuro
semiesfera
semiespaço
semiespecializado

     ... porque I e E são vogais (na grafia) diferentes; fossem iguais, a situação seria outra.