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domingo, 1 de março de 2026

Nova edição de 'As Fadas do Bosque das Cores e das Estórias'

      É a segunda. E aconteceu ontem à tarde.

      Foi a reapresentação, pela segunda edição, de um livro já aqui tratado.
   Li-o há alguns anos, ainda nos tempos da pandemia. Continuo a achá-lo maravilhoso, no texto da Dolores Garrido e nas ilustrações da Cristina Pinto.
     Não tendo estado, desta feita, presente no evento, lembrei-me do encontro de há cerca de quatro anos e voltei a pegar na edição original, achando que lhe podia dar outro fôlego, num projeto de leitura a dinamizar na escola e em associação à fluência de leitura, junto de alunos do 1º Ciclo.
   Fica um apontamento audiovisual, para o projeto a desenvolver: facultar o texto, propor um modelo de leitura expressiva, promover a leitura silenciosa, avançar com dinâmicas de oralização do texto (em segmentos distribuídos por vários alunos).

Montagem de fotos e áudio, para um projeto de fluência leitora 

     Quanto à mensagem transmitida, mantenho a ideia de que se trata de uma publicação para miúdos com mensagens também para graúdos. Portanto, há que explorar oportunidades merecidas de (maior) partilha.

      Porque há temas que importa educar sempre junto de todos. No meu caso, há umas pequenas fadas que circundam cá pela casa (deve ser por isso que o encantamento do livro por cá paira).

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Uma questão de torres

       Conheço a de Pisa, a de Londres, a dos Clérigos...

    ... mais as de alguns monumentos e igrejas nacionais e não só. Não figuram nesta ilustração, encontrada no Facebook:

As torres que nos fascinam (sendo que a primeira e a última são as mais belas, para meu espanto)

     Por isso, são análogas ao que Caeiro escreve quando se refere ao Tejo: "O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, / Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia / Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia."
     Assim sendo, devo assumir que as torres conhecidas são, para mim, as mais belas, porque as vi(vejo) e estive(estou) junto delas. As outras podem fazer pensar; podem ser grandiosas e fenomenais, mas... só me fazem pensar, pelo que possa (não) saber delas e porque as não vi.
    Das que constam no gráfico, a primeira e a última são-me familiares: a Torre Eiffel é linda! Já teve várias cores, subi ao topo dela (ora a pé ora por elevador) e até vi o "escritório" do engenheiro, mais a panorâmica de Paris.

A Torre Eiffel e a panorâmica de Paris a partir do escritório do engenheiro (montagem de fotos - VO)

       A dos livros que não li e quero ler é, por sua vez, também a maior de todas e a que conheço melhor. E está a aumentar, a julgar pelos que estão espalhados pela casa, à espera que pegue neles, os folheie, neles sublinhe as frases / os pensamentos que me espantam,  neles anote o que me faz aprender.

        Venha o tempo para que possa dedicar-me a eles e vá diminuindo a torre mais bela do gráfico.


quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

O temporal que (por) aí anda!

    Ele é a Ingrid, o Joseph, a Kristin...

    É a vez de vir um(a) "L".
    Pode ser Língua. É tempestade declarada, a julgar pelo que se lê:

Temporal em Portugal e tempestade na língua - sem bonança! (foto VO)

    Até parece que a concordância se faz da direita para a esquerda (ao contrário do habitual no esquema de lateralidade de leitura europeu): o plural "vários dias" a combinar com "devem demorar"! Tudo do avesso, ao contrário, com o carro à frente dos bois.
    Isto de o singular ("trabalho de limpeza") concordar com o plural ("devem...") é tão tempestuoso que soa a raios e coriscos na sintaxe. Se ainda fosse o sujeito composto ("trabalho e limpeza"), vá que não vá! Só que limpeza dá trabalho e o trabalho de limpeza não fica atrás: DEVE demorar bastante, se for bem feito.

     O que não é bem feito é anunciar uma intempérie no país, esquecendo a sua língua, tão maltratada! Estas legendas televisivas são pérolas recorrentes na desgraça que por aí grassa (sem qualquer graça).

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Animar... a leitura

       Fui convidado a ler, numa turma de 10º ano, um texto sobre o natal... tempo de nascer...

    A proposta da Biblioteca AEML consistia num breve momento de leitura em todas as turmas, enquanto dinâmica enquadrada na feira do livro, mais a abordagem temática do natal e do nascer. 
     Ao final de uma primeira experiência, veio a segunda e, porque não há duas sem três, lá chegou mais uma.
      Inscreveram-se as turmas que quiseram receber o(a) leitor(a). Eis que lhes surge o diretor... para ler.
     Levei comigo o livro (Quinze Poetas Portugueses do Século XX, com seleção e prefácio de Gastão Cruz), apresentei o autor (Jorge de Sena), pedi que me dissessem se o poema trazido tinha alguma coisa a ver com o natal, o nascer; mas, acima de tudo, quis que partilhassem comigo a leitura a fazer. 
     Ensaiado um esquema de animação (escrita a palavra "BRILHA" no quadro; lida em voz alta e em coro, marcando a força, a vontade e a luminosidade que importa ter neste mundo; combinado o momento em que a diriam), foi só oralizar o texto:

"Uma Pequenina Luz", de Jorge de Sena, in Fidelidade (1958), com voz e vídeo de VO

     No final, depois de partilharmos a voz na leitura, pronunciaram-se sobre a (in)adequação da escolha; refletiram sobre o que "nasceu" no momento viv(enc)i(a)do; explicaram aproximações e afastamentos de opiniões; concluíram que, no ato de ler, é possível a união, o gosto da emoção, o (re)nascimento do que vale na vida.
       Tiveram cinco minutos (talvez dez) de, espero, luz com a poesia.

   Também eu vivi a luz, o calor, o gosto de estar na sala de aula, com todos eles. Esqueci dores, agruras, urgências, sufocos e senti que todos merecemos experienciar momentos destes mais vezes. 

sábado, 15 de março de 2025

Fim de 'A Obra ao Negro'

    Aquele momento em que terminas um romance que te acompanhou anos.

   Foram quase dez. Diria que foi um arrastar de tempo para a leitura quanto o foi para a génese do romance (a bem da verdade nem tanto, já que este ocupou mais de trinta anos de escrita - entre 1934 e 1968 -, segundo a autora).
    Por isso, entre as várias reflexões lidas, a que mais me chamou a atenção, pela oportunidade e pela identidade, foi aquela do protagonista Zenão, no final do seu percurso, a assumir, perante o seu mestre, que

  "O homem é uma empresa que tem contra si o tempo, a necessidade, a sorte, a imbecil e sempre crescente primazia do número (...) Os homens hão de matar o homem."

   Nunca nada tão pertinente e coincidente com os tempos hodiernos, apesar de a réplica ser de personagem antiga, feita de traços que, em muito, relembram o pensamento de Erasmo de Roterdão, Leonardo Da Vinci, Paracelso, Copérnico, Giordano Bruno - homens perseguidos que marcaram a Humanidade e que, desde o final da Idade Média até ao Renascimento, sublinharam um sentido de liberdade, de saber e de espírito crítico que só alguns outros, livres, isentos e descomprometidos do poder ou do lugar que ocupam, poderiam compreender. Diria que são homens demasiado avançados para o tempo em que viveram.
    Num imaginário de ideal humanista, Zenão, um clérigo tornado filósofo, médico e alquimista, partilha muito do seu conhecimento num percurso de vida errante, com as suas atividades científicas, as suas publicações, bem como o seu espírito crítico a desafiarem o poder da Igreja. Sob nome falso, desenvolve o que o preconceito, o ocultismo e os poderes legitimados do tempo não permitiram. Nas conquistas que faz e no reconhecimento que tem, perde a possibilidade de prosseguir, por efeito colateral de um escândalo, a ponto de ser preso, julgado pela Inquisição e condenado à fogueira.
     Nas três partes da obra romanesca (A vida errante; A vida imóvel; A prisão), Marguerite Yourcenar constrói Zenão (Sebastião Théus) como homem curioso, inteligente; ser que procura, mas não pode apresentar a verdade que domina entre os seus contemporâneos; filósofo que assume a liberdade (se esta existir, quando alguém se encontra natural ou contextualmente condicionado) de decidir o momento e o local do fim (enquanto porta a abrir-se para a inconsciência, afastada dessa consciência marcada por ostracismos, injustiças e perseguições). 

     Segundo tratados alquímicos, A Obra ao Negro é expressão para a fase de separação e dissolução, que era, diz-se, a parte mais difícil da Grande Obra. Com o romance, resulta em título para também indiciar experiências audaciosas, encaradas por muitos como excessivas sobre a própria matéria, as provações do espírito quando o propósito é o de livrar o mundo de rotinas estéreis, de ideias feitas e repetidamente inúteis, com o intuito de se alcançar o bem comum.

segunda-feira, 30 de setembro de 2024

Caminhada literária com Sophia

       A fechar setembro, o sol e a poesia animaram os caminhantes, fazendo a diferença dos dias.

     Éramos mais de quarenta. Seis quilómetros de ida e vinda, ao longo do passadiço marítimo a ligar Espinho à Granja, foram o percurso traçado, na passada poética de uma obra em vários pontos declamada - uma atividade promovida pela Coordenadora e pelas professoras bibliotecárias do Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira, no âmbito da Rede Interconcelhia de Bibliotecas Escolares de Entre Douro e Vouga. Estiveram presentes a Coordenadora Interconcelhia, Diretores do Centro de Formação do AVECOA e de Terras de Santa Maria, a representante para a Autonomia e Flexibilidade Curricular do Centro de Formação Aurélio da Paz dos Reis, representantes do SABE de Santa Maria da Feira, Vale Cambra e Oliveira de Azeméis, bem como professores bibliotecários da área do Douro e Vouga.

   Pequena brochura com alguns poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

    Levei comigo o Livro Sexto (1962), para dar visibilidade a um livro e lembrar a contemplada com o "Grande Prémio de Poesia da Sociedade Portuguesa de Escritores", atribuído em 1964 (sessenta anos); o "Prémio Camões", pela primeira vez ganho por uma escritora, em 1999 (vinte e cinco anos); o "Prémio Rainha Sophia da Poesia Iberoamericana", em 2003 (vinte um anos). Autora há vinte anos falecida; há dez no Panteão Nacional. Recordaram-se histórias.
    Tudo começou com Poesia (1944), esse título de há oitenta anos que o crítico e professor de Literatura Pedro Eiras sublinhou como o mais justo dos títulos, para uma obra onde «Assim surgia uma língua, nova e límpida».
   Aproveitei o facto de estarmos junto ao mar; de inspirarmos esse sal de vida trazido por ondas, conchas e corais; de estarmos banhados de uma luz matinal; de nos dirigirmos a um lugar vivido por Sophia e os seus; de sentirmos uma Geografia (1961) feita de tempo, de sentimento, de humanidade.
       Evoquei "Manhã" (in Livro Sexto):

Como um fruto que mostra
Aberto pelo meio
A frescura do centro

Assim é a manhã
Dentro da qual eu entro.

       Assim, o fizemos. Entrámos na manhã (luz) e nessa maresia que é cheiro e toque desse elemento que inspira "Inscrição" (in Livro Sexto):

Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar.

     Uma imensidão que a limitação humana só pode atingir pela imaginação, pelo humanismo, pela humanidade, pela cultura, pela antiguidade greco-latina e pelo sentido de liberdade que a poeta (como se designava) também versou, narrou, representou na versatilidade de géneros e modos literários produzidos.
     Desafiei o grupo à leitura de pequenas composições, tantas vezes despercebidas entre poemas mais longos.  Tão pequenos (dísticos, tercetos) e tão poderosos na mensagem, no pensamento - quase parecem "haikus", no trabalho de uma palavra a traduzir a justaposição de imagens, de temas, interligados na experiência de vida, na sensorialidade do natural e da natureza, na sonoridade simples (in Ilhas, 1990):

Cumpridos os deveres compridos deixaram
De assediar minhas horas

Doce a liberdade retoma em si minha leveza antiga

      A sabedoria constrói-se também com movimento, do mar ou outro - vento, tempo, pessoas -, como se antevê em "Coral" (in Coral, 1950):

Ia e vinha
E a cada coisa perguntava
Que nome tinha

    A reflexão social plasmada na denúncia dos desfavorecidos e na ironia destinada aos seres racionais não impede que as origens aristocratas de uma biografia rimem com um apurado sentido de justiça, de luta pelo bem comum, de partilha e de generosidade (in "Epidauro 62" de Ilhas, 1989):

Oiço a voz subir os últimos degraus
Oiço a palavra alada impessoal
Que reconheço por não ser já minha

     Recuperei os cinquenta anos do "25 de Abril", nesse poema inicial dos tempos de liberdade e democracia, de luz e limpidez, afastando a noite e o silêncio.
     Numa irmandade de leitores, deu-se voz à obra que todos tinham à mão. Leituras singulares, experiências em coro, animadas por esquemas que não precisaram de qualquer ensaio. Só a vontade de ler, de viver a palavra, o ritmo, a voz, a companhia. A poesia uniu o que de melhor havia em todos. 
    Culminou a atividade num almoço concluído com a "Cantata da Paz" (in Canções com aroma de abril) - nunca melhor poema para os tempos de guerra que (ainda) vivemos.

       "Vemos, ouvimos e lemos / Não podemos ignorar ", repetidamente declamado a cada estrofe de lamento, violência e destruição, parecia uma oração trazida para o seio dos crentes, nessa religião tão necessária e tão nossa: a da paz e da poesia.

sexta-feira, 22 de março de 2024

Questões de lateralidade

     Seja pela leitura (que não foi feita) seja pela perspetiva (que depende de quem vem e de quem vai).

   A imagem diz tudo: os parcos utilizadores da esquerda, caso se cruzassem com os da orientação contrária, ficariam impedidos no caminho. 
    Assim, os que em grande número desobedecem às instruções e caminham pela direita estão certos de que vão melhor dessa forma, já que estão todos no mesmo sentido, rumo a Gaia.
    Só uma senhora parece estar prestes a cumprir o que deve ser feito: atravessar a rua, chegar à esquerda (anunciada como direção a seguir) e, quem sabe, calcorrear a ponte D. Luís pelo piso dos automóveis (e não os dos transeuntes), para não impedir os que vêm ao seu encontro de prosseguir para a grande cidade invicta.
     Não sei se isto tem leitura de opções políticas, mas os resultados eleitorais de há dias apontam para uma maioria de direita. Será esta uma contrariedade assumida, reflexo dos tempos, trazida para a travessia da ponte?

      Está difícil a construção do caminho, mas ou muitos estão enganados ou, então, preferem a esquerda do vir enquanto seguem para Gaia. Confusão? Nada que não esteja no apontamento fotográfico, à direita, com tanto peão!
 

quarta-feira, 6 de março de 2024

Indecisões

      Os tempos são, para alguns, de bastante indecisão.

    No sobe e desce das sondagens diárias que apresentam partidos e números de deputados como se fossem resultados finais de eleições (por acontecer), lá vem o elevado número de indecisos que, dizem, tudo vai resolver à hora das urnas.
      Nem os carros escapam, a julgar pela "leitura" de certas matrículas:

Uma matrícula muito indecisa

     Da leitura de letras à da palavra percecionada, até os números parecem instáveis, quando "apanhados na curva".

    Na celebração dos cinquenta anos de liberdade e democracia nacionais, que domingo próximo seja a afirmação consciente de um direito e de um dever que a todos assiste, para calar o circo mediático das sondagens, a cansar a paciência de qualquer espectador televisivo. 

segunda-feira, 23 de outubro de 2023

Um pensador... com sangue português.

       Fecha-se a leitura de um romance de escrita nacional.

     Abre-se o conhecimento a uma personalidade seiscentista que os séculos teimam em não desvelar a larga escala. É ela a protagonista da narrativa, do início ao fim (da infância à morte).
      Assim termina o romance:

      "As ideias que deixara registadas em papel, as ideias que plantara no espírito de tantos e tantos homens, essas ideias ficariam, floresceriam, perdurariam e espalhar-se-iam por toda a humanidade. Ele morria, mas viveria nelas. Desaparecia como homem, é certo, mas o seu espírito eram as suas ideias, e se essas sobreviviam então ele de certo modo também sobreviveria, e o que era isso senão a verdadeira imortalidade?"

        Palavras para um denominador comum: Bento de Espinosa. 
    Criado na comunidade luso-judaica de Amesterdão, depois de a família ter abandonado Portugal pela ação da Inquisição, Espinosa veio a desenvolver ideias altamente controversas a respeito da autenticidade da Bíblia Hebraica e da natureza do Divino, podendo afirmar-se que foi uma racionalista muito além da dominante cartesiana da época, se não, no limite, um panteísta, ao tomar Deus pela natureza, não os diferenciando: "Se o mundo é regido por leis naturais e tudo o que ele contém é natural, então Deus é natural." (pág. 504)
       Eis um filósofo que José Rodrigues dos Santos nos dá a conhecer em O Segredo de Espinosa, obra ficcional narrativa, publicada neste ano de 2023 e inspirada em acontecimentos verídicos feitos de perseguição, de busca de verdade, de pensamento teológico, político e ético sustentado no racionalismo  do século XVII, com ingredientes que ultrapassaram o modelo de Descartes e cativaram todos os que estavam para lá do convencionalismo do tempo, ainda que de liberalismo conturbado.

        Há um tanto de Espinosa no heterónimo pessoano Caeiro, o "guardador de rebanhos" que joga com o conceito do pensador. Também o primeiro o foi, enquanto um dos grandes filósofos de todos os tempos para o autor e jornalista português. Na opinião deste, três povos podem reclamar Espinosa como um dos seus maiores: o neerlandês, o judeu e o português.

sábado, 3 de junho de 2023

Felicidade(s)

      Aprender a ver o positivo: uma questão de perceção, sem o propósito de reclamação.

   Quando o sentido crítico surge pela negativa e se fica pela declaração de impossibilidades injustificáveis, o foco do pessimismo instala-se (condicionado ou limitado  a ver e a ler o que não traz esperança).
      E se o que parece menos se tornasse mais?
      Tudo se revela com a seguinte imagem de "As Filas da Vida":

Imagem colhida do Facebook, à espera de uma leitura da esperança.

    Procurar na esquerda a confirmação do comum impede de ver na direita o que esta ainda consegue (de)mo(n)strar. Poucos, mas bons, aí estão os que interessam: os que ajudam e os que incentivam.
     No meio não está a virtude (e garanto que nada tem a ver com a construção "brasileira" do título da porta, que escancaradamente é aberta por quem frequentemente nada tem a ver com o assunto). 
     Entre os que fofocam (bisbilhotam ou mexericam - venha o Diabo e escolha o léxico!) ou criticam, domina essa maioria por vezes tão inoperante, tão improdutiva! Está aí para estagnar, impedir avanços, dificultar caminhos, adiar o que interessa alterar a pretexto de formalismos e formalidades desajustados. Como se um papel fosse só por si mais importante do que o que nele pudesse estar escrito. 

      Prefiro a lateralidade de leitura que, iniciando na direita, destaca o que importa. Seguir para a esquerda é consciencializar dessa evidência de peso improdutiva. Não me fico pelo que esta última dá (ou melhor, não dá), particularmente quando o bem de muitos e/ou dos que mais precisam fica à mercê de uma não resposta. 

domingo, 16 de outubro de 2022

Citando Agustina, a propósito de ontem

     Muito se tem falado de Agustina Bessa-Luís e do centenário do seu nascimento.

   Quando em 1995 lia Os Meninos de Ouro, fazia-o na descoberta não da exemplaridade de uma personagem masculina, mas de um menino do Douro cujo percurso servia para traçar não o papel forte que poderia (ou, em certa medida, viria a) ter, mas a limitação, a fraqueza, a raiz arrancada à força da natureza, da terra, do Norte e das grandes famílias rurais nortenhas.
     Publicado em 1983, o foco romanesco começa por estar depositado em José Matildes, um político do período pós-revolucionário, evocando semelhanças com a figura de Francisco Sá-Carneiro; com o sentido messiânico de que a figura se viria a revestir; com uma vida a espelhar dificuldades relacionais e sentimentais. Contudo, é a afirmação do feminino que se virá a assumir no romance, roubando-se ao (anti)herói o protagonismo narrativo. Assim se salienta Rosamaria, figura duriense trocada no casamento, por não ser prefigurada como a grande mulher que se diz estar por trás de um grande homem. A força desta última vinga e assenta num orgulho firmado na seriedade e na luta enquanto razões de existência e de identidade construídas na interioridade humana.
     Este lado matricial da obra de agustina traduz o sublinhar de uma energia, de uma força, de uma fonte, de uma geografia e de uma terra (todas femininas) que veem na Natureza (genesíaca e venusiana) valor maior. Residem aqui a importância e a coerência da epígrafe a abrir a obra: "A Natureza, ela mesma é a doença, e só ela sabe o que é a doença" (Paracelso), recuperando-se com ela o princípio decisivo de toda a cura, encontrada no interior da própria Natureza.
     Neste arrazoado, lembro-me de ter sublinhado, logo nas primeiras páginas, o seguinte:

    "Diferente do que pensam os economistas, uma área produtiva não se destina apenas a ser rentável; sobretudo é uma área onde a vida se condensa e se transmite. Representa uma condi-ção histórica que se reflecte e se repercute, pondo a tónica principal não no lucro, mas sobretudo na circulação da energia, que implica o lucro também, mas que acentua a persuasão da inteligência, do investimento moral."

      Numa espécie de hino à terra e à natureza, finda o romance com uma referência a 

   "... um lírio azul, planta endémica e maravilhosa. (...) Penso nela como sendo um olhar que a terra ergue das suas profundezas e que nos empresta para que os segredos novos nos sejam apontados. Pois é a terra quem nos persuade aos caminhos que ela tem ainda invioláveis. Um lírio azul que parece perdido nas alturas roqueiras é talvez mais do que a Iris boissieri; é um olhar que nos vigia, passe a candura poética."

    Hoje cito-a, porque há pensamentos que, entre os valores ecológicos, telúricos e panteístas (com algum paganismo genesíaco e venusiano) da escrita literária, deviam ser relembrados na vida de todos nós, para que à nobre "raça humana" não falte a "Velha amiga que é a terra" nem a interioridade que nos define - a natureza humana ou da humanidade.

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

"Uma aventura" junto à praia

      Chegando ou saindo da praia...

     Há uma barraquinha junto à entrada da Praia / Bar do 37, em Espinho, à espera que uma mãozinha abra a porta e escolha um livro. Para todos os gostos e vontades, o convite ao "mergulho" é feito:

Uma aventura pela leitura

      Em tempo de calor, qual gelado apetecido, abre-se a porta (que mais parece de uma arca frigorífica) para um "self service" de livro(s) à espera de ser(em) lido(s).
      Podia ser deixado no assento de um transporte público, num banco, no areal, numa mesada de esplanada... Fica a sugestão de uma barraca refrescante, mesmo à mão e aos olhos dos transeuntes. Um acesso facilitado para leitores potenciais que, no meio da parafernália que possam levar para a praia, se tenham esquecido desse bem que nos alimenta e refresca a mente.

      ... é tempo de leitura, quando as férias convidam à aventura.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Tempo de palíndromo

       A data é palíndroma: 22-20-2022.

      Do grego 'palíndromos', diz-se que é aquilo que corre em sentido inverso. Num processo de leitura, diz-se que se trata da palavra, do grupo de palavras, do verso ou número que se lê da mesma maneira da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda (ex.: 'sopapos' é um palíndromo, tal como a expressão 'amor a roma').
Imagem mais quiasmática, mas com alguma coisa palíndroma 
  Há exemplos para todos os gostos e alguns bem mais extensos, nomeada-mente no registo do português do Bra-sil: 'Socorram-me, subi no ônibus em Marrocos!'. 
  Desconsiderados, na escrita, os espa-ços, sinais de pon-tuação ou de acen-tuação, bem como outros de natureza gráfica, há palíndromos tematicamente muito variados: os de teor mais desportivo ('Anotaram a data da maratona'), os comestíveis e alimentícios ('ovo'), os culinários ('Eva, asse essa ave!'), os zoológicos ('arara'), os da escrita ('ata', 'Rota de redator'), os mais relacionais social e afetivamente ('ama', 'aia'), os espaciais ('salas', 'A rua Laura', 'A sacada da casa'), os auditivos e universais ('Som, só com o cosmos!'), os temporais ('Adias a data da saída', 'Após a sopa'), os de indumentária ('saias'), os vazios ('oco'), os onomásticos ('Ana'), os pronominais ('ele', 'esse'), os apelativos ('Ajudem Edu já!), os poéticos ('Ame o poema'), os dramáticos ('Amar dá drama'), os mamíferos ('mamam'), os ossados ('osso'), os agressivos ('socos', 'Ódio do doido'), os estéticos ('Ser belo: lebres'), os aniquiladores ('matam'),  os cómicos ('rir', 'Irene ri'), os libertos ('Livre do poder vil'), os tirânicos ('Ana Rita, a tirana'), os abandonados ('sós'), os ilegais ('A Daniela ama a lei? Nada!'), os dependentes ('A gorda ama a droga'), os dermatológicos ('Ele padece da pele'), os vencidos ('A torre da derrota'), os educativos ('Aula é a lua'), os internacionais ('o céu sueco', 'dogma I am god'), os profissionais ('O Cid é médico'), os mais ginastas ('Roda esse corpo, processe a dor!'), os míticos ('O mito é ótimo'), os que voam ('asa') e até os que voltam a ler ('reler') e a viver ('reviver').
   Sator arepo tenet opera rotas é apontado como o palíndromo conhecido mais antigo, redigido em latim ('lavrador diligente conhece a rota do arado') - um enunciado a traduzir uma sabedoria de vida (de quem e para quem lavra, e não só).

    Se aos números palíndromos se atribui popularmente a designação de 'capicua' (do catalão 'cap' <cabeça> e 'cua' <cauda>), hoje estamos numa delas. Tudo uma questão de combinação, do verso e seu inverso. E já, agora, registe-se que não deixamos de ter um ambigrama (com os números a refletirem o seu contrário na leitura vertical ou, como se costuma dizer, 'de pernas para o ar').

quinta-feira, 10 de junho de 2021

Do melhor e do pior que a mulher tem

       A realidade será a mesma? A forma de ler é bem distinta.

       No dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, partilho um texto daquele que é hoje celebrado - poeta com feriado no calendário, reconhecido como um dos três universais, homem de armas e das letras (conforme o ideal renascentista). Trata-se de uma trova que admite leitura dupla: 

Trova camoniana "[Vós] sois ũa dama" - entre o horrível e o perfeito.

      Da negação para a negatividade do retrato (leitura vertical) à negação para a afirmação da beleza (numa espécie de lítotes, na leitura horizontal), parece que a base de inspiração é bem contrastiva. Dama é por tratamento, por mais ficcionada que seja. 
    Seja na linha do jogo poético trovadoresco do "Ai, dona fea, foste-vos queixar" (Joam Garcia de Guilhade) seja no da construção da imagem perfeita da mulher, compôs o poeta texto aberto a leitura duplicada, conforme arranjo gráfico em colunas (e sem os sinais de pontuação) o permite.

        Perdoe Camões este abuso nas suas rimas, mas são tempos em que o jogo poético se desconstrói na redescoberta de leituras dos versos, em interação com outros poemas - uma forma de lembrar o escritor numa rede de aproximações com a escrita criativa (do próprio e de outros que nele se revejam).

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Da importância de educar para a leitura

       Uma questão tão intemporal quanto necessária à (sobre)vivência.

     Saber ler foi decisivo para se aceder ao conhecimento, ao sentido crítico das coisas, ao modo de viver lúcido e consciente, capaz de distanciar o homem de alguma instintividade. Relembre-se o momento histórico decisivo de traduzir a Bíblia do latim para as línguas vulgares: o poder do conhecimento detido por alguns elementos do clero foi passível de discussão e questionação, para que não houvesse adulteração de sentidos nem de informação; caíram os dogmas, reform(ul)ou-se a crença.
     Atualmente, o âmbito de discussão é bem mais lato (político, científico, social, educativo,...). Educar para a leitura é uma questão de consciência e de consciencializar o outro.
     Um apontamento fílmico ("O Substituto" - 2012) relembra-o:

Excerto fílmico de 'O Substituto' (2012, de Tony Kaye)

      Um professor substituto (Henry Barthes, interpretado por Adrien Brody) faz a diferença: introduz o tópico, motiva a participação, inclui os contributos dos alunos, avança com a reflexão, desperta atenções, estabelece relações, muda conceções / visões. 
      Dá sentido(s) à educação - mesmo sendo um professor desligado de si, mas preso ao mundo (isto para quem viu o filme). Tem consciência e consciencializa para o mundo complexo em que vivemos.

      Há professores que marcam a diferença. Felizmente, nem todos são personagens fílmicas.

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Gramido: a casa branca

       Junto ao Douro, no concelho de Gondomar (Valbom), há uma casa histórica.

     É a Casa Branca de Gramido, edifício solarengo do século XVIII (1789) com características de um neoclássico rural. Nela ocorreu, em 29 de junho de 1847, a assinatura da Convenção de Gramido, que assinalou o final de uma época de conflitos entre liberais e absolutistas, nomeadamente os que se sucederam às sublevações populares e burguesas conhecidas, respetivamente, como Maria da Fonte e Patuleia. 

Casa Branca de Gramido I, após requalificação com o programa POLIS (Foto VO)

Casa Branca de Gramido II, após requalificação com o programa POLIS (Foto VO)

     Ainda durante o século XIX, o espaço foi armazém de cereais, comercializados pelos proprietários «Cazas Brancas» para a atividade da panificação (de Valongo e Avintes, essencialmente). Os grãos de trigo trazidos rio abaixo pelos barcos rabões (de aspeto mais claro do que aqueles que transportavam carvão) eram desembarcados nesse armazém. Por extensão da designação da família proprietária e pela imagem clara dos barcos, popularmente chegou-se à denominação de "Casa Branca".

Convenção de Gramido (1847)

  A projeção e imponência visuais do solar duriense, progressivamente ampliado ao longo do século XIX e restaurado quase século e meio depois, revestem-se da importância histórica de que o local é exemplo, com a afirmação da paz após a Guerra Civil da Patuleia. A Convenção, assinada entre comandantes dos exércitos espanhol e britânico (entrados em Portugal ao abrigo da Quádrupla Aliança), mais os representantes da Junta do Porto e as forças do governo mais conservador, selou a derrota dos setembristas (revoltosos) frente aos cartistas (apoiados pela rainha) numa guerra civil que vinha a assolar o país desde a década de vinte e, mais particularmente, nos anos de 1846-1847. Menos de cinco anos depois, a concórdia viria a sofrer algum revés, com a força governamental apoiada por D. Maria II a retirar aos revoltosos poderes e influências em prol de um maior conservadorismo.

   A recuperação da casa, depois de uma fase de crescente degradação e de um incêndio que praticamente a abandonou a um estado de desleixo e decadência inevitáveis no século XX, ocorre no período 2005-2006, sendo a inauguração da sua requalificação datada de 31 de maio de 2008.

Marginal do Douro, em Gondomar (Foto VO)

      Enquadrada num espaço reabilitado, a Casa Branca de Gramido faz relembrar o romance Uma Família Inglesa ([1867] 1868), de Júlio Dinis, quando Manoel Quintino, guarda-livros da família Whitestone, se refere à zona da marginal como não havendo "outro passeio assim nos arredores do Porto". Desse passeio, em manhã mais soalheira, se faz aqui registo, em tempos mais contemporâneos.

       Na marginal do Douro, a Casa Branca de Gramido vigia o curso do rio.    

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Voou deste mundo? Voa com quem o lê.

         A notícia do dia veio inesperada!

       Já se sabia que se encontrava doente, infetado pelo Covid-19, pouco depois de ter participado, em Portugal, num evento literário. Entre informação e desinformação, deu-se conta do estado crítico, da melhoria, de como regrediu, voltou a melhorar... E, agora, a morte.
      A de qualquer humano tem de ser pesarosa, particularmente a que resulta da luta contra um vírus desconhecido e ameaçador, capaz de afetar subrepticiamente o mundo. A do chileno Luis Sepúlveda (1949-2020) é-o seguramente para quem o leu, lê ou tem vindo a ler.
    Escritor ecologista, que cronicou e contou histórias de quem esteve neste mundo (marginais ou não); de quem existiu enquanto houve luz; de quem alimentou sonhos ansiados em qualquer lugar da terra, do ar ou do mar. Escritor que produziu obra na apologia da vida, da dignidade humana, da justiça social, de exotismos que sublinham sentidos múltiplos de viagem, de amor e de guerra, de utopias e mistérios que se cruzam com o Ser Humano, para não dizer com o Ser Vivo. Escritor que viu na diferença o complemento necessário à união e ao projeto da vontade.
     Qual "gaivota", não pode lançar-se mais em novo voo, apanhado que foi por uma maré, uma "peste negra" que assolou a Humanidade.

Leitura de um excerto de 
História de uma Gaivota e do Gato que a ensinou a voar (2008)

    Outros, contudo, o farão voar, porque, como bem o escreveu em As Rosas de Atacama (no original, Historias Marginales, 2000), “As feridas dos heróis da literatura são rapidamente curadas com o bálsamo da leitura.”
      A morte será suplantada por qualquer leitor que recupere a sua obra e lhe dê vida.

    Há que voar, pois ainda há gatos que ensinem; há que aceitar que “Em todo o lado se vive e se morre – como diz o tango morir es una costumbre” (Patagónia Express, 1995).

sábado, 14 de março de 2020

Já vi ou li isto algures…

      E agora que alguma da nossa vida fica como suspensa, revisita-se uma leitura.

     Chega aquele momento em que te lembras de ter lido uma passagem de um livro de ficção tão cheio de realidade! Na altura, era tudo tão carregado de referências históricas, culturais e científicas que chegava a duvidar se haveria presente ou futuro para reconfirmar o que acabava de ler:
Capa do romance Inferno
de Dan Bown (2013)
     "Langdon tentou afastar da sua mente as imagens da peste, mas não conseguiu. Sempre quisera saber como fora aquela cidade [Veneza] incrível no seu auge... antes de a peste a ter enfraquecida o suficiente para poder ser conquistada pelos otomanos e depois por Napoleão... quando Veneza reinara gloriosamente como o centro comercial da Europa. Dizia-se que não havia cidade mais bonita no mundo, que a riqueza e a cultura da sua população não tinham precedentes.
      Ironicamente foi o gosto da população por luxos estrangeiros que levou à sua queda - a peste mortal viajara da China para Veneza nas ratazanas transportadas nos navios comerciais. A mesma peste que dizimou uns abismais dois terços da população da China chegou à Europa e rapidamente matou um em cada três - jovens e velhos, ricos e pobres.
       Langdon lera descrições da vida em Veneza durante os surtos da peste. Com pouca ou nenhuma terra seca onde enterrar os mortos, os cadáveres inchados flutuavam nos canais, com algumas áreas tão densamente cheias de corpos que os trabalhadores tinham de os empurrar para o mar. Não havia orações que conseguissem diminuir a ira da peste. Quando as autoridades municipais perceberam que eram as ratazanas que estavam a causar a doença, já era demasiado tarde, mas Veneza ainda decretou que todos os navios recém-chegados tinham de ancorar no mar durante quarenta dias antes de serem autorizados a descarregar. Até hoje o número quarenta - quaranta em italiano - serve como lembrete sombrio das origens da palavra quarentena."
in Inferno, Bertrand Editora 2013, pág. 360

     O passado veste-se de presente e inquieta. O excerto é tão oportuno e coincidente com o que se vive hoje! É como se o Covid-19 fosse mais um exemplo da peste que veio dos finais da Idade Média, onde não faltam as máscaras - podiam ser as do Carnaval de Veneza, que, afinal, tudo tiveram a ver com a Peste Negra:
Máscara veneziana
      Langdon explicou rapidamente que, no seu mundo de símbolos, a única forma de máscara com um bico comprido era quase sinónimo de Peste Negra -  a peste mortífera que grassou na Europa no século XIV, matando um terço da população em algumas regiões. A maior parte das pessoas acreditava que a designação da peste como "negra" era uma referência ao enegrecimento da carne das vítimas por causa da gangrena e das hemorragias subepidérmicas, mas na verdade a palavra negra era uma referência ao profundo terror que a pandemia espalhou entre a população.
       - Essa máscara com um bico comprido - disse Langdon - era usada pelos médicos que tratavam a doença na época medieval, a fim de manter a pestilência longe das suas narinas enquanto cuidavam das pessoas infetadas. Hoje em dia, só são usadas durante o Carnaval de Veneza... uma lembrança sinistra de um período sombrio na história da Itália."
idem, pág. 63

     Não vou dizer que a obra Inferno, de Dan Brown, foi premonitória face ao tempo presente; mas que há coincidências demasiadas da contemporaneidade com a época histórica mencionada... isso é inegável.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Ler o que não está escrito

     Volto ao Joker, mas, desta feita, nada a dizer do locutor ou da produção do programa.

     A questão é mesmo com o concorrente. Ao ler o que estava escrito na questão da ronda bónus, fê-lo erradamente. Leu conforme habitualmente se fala... mal.

Imagem da emissão de hoje do 'Joker', na RTP1 (Foto VO)

     Lá está o acento gráfico (agudo) na escrita da palavra; lá se identifica (e bem) a palavra como esdrúxula (ou proparoxítona). Ou seja, deve ler-se a palavra com incidência na sílaba destacada: diÓSpiro. Não como o concorrente a disse: diósPIro. É verdade que o comum dos falantes assim o faz (erradamente); até eu o fazia, por vezes, quando ia à feira e comprava nos agricultores da terra ou nas vendedoras de fruta. Se não o fizesse, ainda corria o risco de me dizerem "Olha, olha... o professor que não sabe falar". Eu até acho que sei, mas, se falasse como devia ser, ainda me atiravam com um diÓSpiro à cara.
    Há dias, cruzando-me com um ex-aluno na rua, dizia-me ele que ainda se lembra da aula em que aprendeu, no 12º ano, a dizer diÓSpiro. Se tiver visto o programa televisivo, também terá reparado como a escrita (cara) não bateu com a leitura (careta).

     Talvez seja uma questão de deriva da língua, da mudança que está em curso. Enquanto isso, vou à cozinha buscar e comer um diÓSpiro. Em pleno outono... o tempo dele.

sábado, 5 de janeiro de 2019

Apontamentos do Senhor Américo

      Continuando no registo da comédia e da sátira.

      O jogo do Senhor Américo / Apontamentos Europa América tem efeito cómico, numa crítica a um auxiliar de estudo a que muitos estudantes recorrem para, em vez de ler uma obra, poderem saber qualquer coisa (mesmo qualquer coisa) sobre esta. Não é louvável a escolha e Ricardo Araújo Pereira (RAP) sabe-o bem. Denunciou-o numa rubrica transmitida pela Rádio Comercial, há cerca de seis anos, intitulada "Mixórdia de Temáticas" - uma concorrenciazita bem humorada, com o contributo e o registo do Senhor Américo (mais económico e acessível do que os próprios resumos).
       Ainda por cima, tudo feito a propósito do romance queirosiano Os Maias:

Montagem fílmica baseada em registos da 'Mixórdia de Temáticas' (2012)

      Um apontamento que até pode dispor bem, mas que não serve o propósito do estudo, por certo. A nota de humor visa aqueles estudantes que, não gostando de ler obras literárias, também não perdem tempo com os resumos destas. E, assim, um clássico da Literatura Portuguesa é reinventado num uso de língua tão informal que, entre o dó e o riso, pouco tem de auxiliar.
    Para quem conhece o romance, é possível entender o cómico, na perspetivação crítica fundamentada; para quem ainda não o leu, o (sor)riso fica-se pelo absurdo, pelo insólito, pelos comentários paralelos - humor superficial.

      De novo, o interesse de ler o romance queirosiano impõe-se, quanto mais não seja para que se descodifique o humor convenientemente, no que tem de propósito e também de inusitado.