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sexta-feira, 5 de junho de 2026

Bodas de ouro para um edifício (e não só)

     50 anos numa noite espetacular, com memórias revistas em escassos minutos.

     Hoje, pelas 21 horas, no Multimeios de Espinho, foi tempo de encerrar uma história que culminou em espetáculo-concerto e contou com a participação da comunidade educativa do Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira (AEML), nomeadamente professores, alunos, pessoal não docente (operacional e técnico-administrativo), encarregados de educação, mais as entidades parceiras que viveram os "50 anos: do Liceu ao Agrupamento" - tema aglutinador de todo um plano de atividades vivenciado desde o ano letivo 2024-2025.

Convite endereçado à Comunidade Educativa do AEML
     
       As bodas de ouro dizem respeito a um edifício construído no início da década de setenta do século passado, para nele ser alocado o Liceu Nacional de Espinho. Entrou aquele em funcionamento no dia 4 de novembro de 1975, conforme ofício redigido pela presidente do conselho diretivo provisório de então: a professora Maria do Céu Beato Oliveira Dias de Sousa. Em tempos marcados ainda pelo espírito revolucionário pós-25 de abril, tudo começou de acordo com decisão unânime assumida em reunião geral de professores (RGP). Assim se lê no documento exarado: "... encontrada uma plataforma de solução... em relação a uma decisão tomada por unanimidade numa anterior reunião sindical, segundo a qual as aulas não seriam iniciadas sem que todos os professores eventuais estivessem colocados...". Nas palavras citadas de quem viveu o momento, a construção foi como que tomada de assalto, para que se cumprisse o desígnio para que havia sido erguida.
        O programa do evento celebrativo iniciou-se com a projeção de um pequeno vídeo, a dar conta do percurso desse estabelecimento escolar que, aberto em novembro de 1975, em 1976-77, passa a ganhar um patrono com a designação "Liceu do Dr. Manuel Laranjeira". Em 1978, chegou a "Escola Secundária Dr. Manuel Laranjeira". Em 2011, o edifício foi objeto de reabilitação por parte da Parque Escolar (hoje, Construção Pública), segundo um projeto arquitetado por Rui Lacerda. Cumprido meio século de um estabelecimento escolar (que, na atual e requalificada escola-sede de agrupamento, apresenta apenas alguns poucos apontamentos dispersos do passado), mantém-se a missão, ainda com futuro.
     Na presen-ça da Diretora do AEML, do Presidente do Conselho Ge-ral e do Vice-  -Presidente da Câmara Muni-cipal de Espi-nho, houve oportunidade para me pro-nunciar acerca do vídeo pro-duzido e de como este pode ser injusto face a uma multiplicidade de projetos, de atividades, de rostos que têm vindo a marcar gerações e que nele não figuram. Não cabem 50 anos em menos de dez minutos e, nessa medida, impõe-se a compreensão e a generosidade de muitos poderem rever-se naquilo que foi editado; encontrarem no que fizeram / fazem interseções, comunhões (re)visitadas no que foi incluído (há impossibilidades óbvias no conceito de memória: desde a perda, ao esbatimento e à recuperação recriada). Importa ainda agradecer a todos os que, saindo, entrando ou permanecendo no agrupamento, deram ou têm vindo a dar o seu melhor a uma instituição que tem servido bem o concelho, para não dizer o país (considerando alguns dos nomes que saíram formados do "liceu", como ainda é familiar e popularmente nomeado).
       Fica aqui o registo vídeo (clicar na expressão destacada) desses menos de dez minutos para uma história que já segue caminho no sentido do século - porque, do meio já vivido, há já provas consolidadas quanto ao papel de-sempenhado na socie-dade, enquanto exem-plo de escola pública focada na qualidade educativa, na inclusão, na multi e interculturalidade, bem como no acompanhamento socialmente empenhado e implicado na ativação de competências (conhecimentos, procedimentos, atitudes e valores) formativas diversificadas.

         Comemorados e encerrados os 50 anos, rode-se a ampulheta e reveja-se a areia a cair, em nova contagem de tempo com atenção à vida e, como o diz o patrono, abrangendo no "mesmo olhar o céu e a terra". Acrescentaria o mar, pela força que detém e pelo horizonte que nos dá, nos caminhos e nas oportunidades a descobrir, a explorar e a conquistar.
        

segunda-feira, 16 de março de 2026

Presença distanciada, muito comprometida

      Há que explorar as possibilidades que a tecnologia permite.

     É a presença sem estar no espaço; é o agora sem o aqui, com tempo(s), instante(s) em paralelo. Foi desta forma que, posso afirmar, estive com o Sr. Ministro da Educação Ciência e Cultura; com o Sr. Diretor do Banco de Portugal e com as altas individualidades da Conselho Nacional de Supervisão Financeira. Impossibilidades de exercício de funções e limitações na distância geográfica não podem comprometer a participação e a representação do Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira (AEML) num momento de orgulho singular: a atribuição do primeiro prémio nacional do ensino secundário na 14.ª edição do Concurso "Todos Contam".
     A sessão solene de anúncio dos vencedores desta edição do concurso ocorreu pelas 14h00, na Comissão do Mercado de Valores Mobiliários, em Lisboa, e o convite feito tanto pela Comissão de Coordenação do Plano Nacional de Formação Financeira como pelo Departamento de Ciências Sociais e Humanas do AEML tinham de dar lugar a resposta positiva.

Evidência da presença distanciada, com orgulho no AEML (Foto cedida pela CMVM)

    Num discurso de reconhecimento a quem mais diretamente levou a cabo o projeto vencedor (grupo docente de Economia e Contabilidade), a par de todos os que deram o seu contributo implicado e empenhado (e foram muitos), fica a nota audiovisual do dito:

A prova do dito: do prémio atribuído e do discurso pronunciado (excerto do vídeo público da CMVM)

     "Desafio de Literacia Financeira - joga e aprende" é o exemplo do envolvimento de muitos e de variadas competências. Articular e integrar é possível, numa conjugação de propósitos afins, levados a cabo em várias iniciativas dinamizadas no âmbito da educação e da escola públicas, implicando professores e alunos desde o pré-escolar ao ensino secundário, nas múltiplas inteligências e competências que confluíram nas áreas linguísticas, matemáticas e das expressões.

    Um momento feliz para o agrupamento e para quem faz dele entidade de referência nacional. A gratidão é o valor de ordem e a representação do AEML é um dever a cumprir, como sinal natural do orgulho e do agradecimento por (me) colocarem (com) Laranjeira, enquanto marca institucional, na senda da excelência educativa.

quarta-feira, 7 de junho de 2023

Balanço do dia

     Aqueles momentos que marcam o dia... a vida.

   No termo de um dia de trabalho exaustivo, no qual nem vale a pena contar as horas passadas em azáfama contínua - entre o sufoco e as múltiplas situações a que importa dar resposta(s) -, chega o momento em que o sofá deixa rever o vivido e o sentido.
    E o que verdadeiramente importa é recordar aquele momento em que te chamam para registar numas T-Shirts brancas a mensagem de que houve atos e afetos suficientes para, após algum tempo e nem com um ano completo de trabalho conjunto, me acharem merecedor de tal honra; ou aquele em que, depois de doze anos, recebo a visita de quem, como ex-aluna, me quis visitar na escola que não foi dela e fez sublinhar que ser diretor não é tão importante como ser professor (não me esqueço, nem quero esquecer disto, apesar da função em que, por ora, estou); e também o que me fez dar um abraço a quem, pelo prémio recebido, eu quis demonstrar o orgulho que um agrupamento e um antigo professor têm pelo bem e (muito) bom que fez. Revivo, inclusive, aquele instante de um final de ano letivo, quando, na avaliação que fazia dos desempenhos de um jovem, lhe transmiti que o classificava com uma nota acima do que havia demonstrado, embora eu sentisse que poderia ser ainda mais. Confirmei-o, algum tempo mais tarde.
      No final deste mesmo dia, bem para lá das horas razoáveis de permanência no local de trabalho, ainda houve tempo para um sorriso de um assistente operacional que vinha lembrar "está quase!", dando a força necessária para o que estava por cumprir - um gesto não muito diferente de outros que me vêm tirar do gabinete e das comunicações urgentes, para me levar a instantes que, agora, recupero como sinais de que algo devo ter feito (bem) para tanta recompensa.

        De uma forma ou de outra, os cansaços dissipam-se com tantos desses sinais. Felizmente, vivo-os.

sexta-feira, 29 de abril de 2022

Dia Internacional / Mundial da Dança

      Entre os muitos que a consideram como a 4ª arte, para outros é a 6ª.

    Para lá da sequenciação numérica, importa que a dança é uma das expressões da humanidade a conjugar movimentação do corpo com ritmo, num compasso motivado de tempo e espaço. Entre impulsos nervosos e musculares, expressam-se sentimentos; anima-se o espírito, através de passos e gestos, num casamento musical que chega muitas vezes à dimensão da arte.
       É neste âmbito, geral, que o Dia Internacional ou Mundial da Dança é celebrado, há quarenta anos, neste dia, numa data criada pelo Comité Internacional da Dança (CID) da UNESCO, a propósito do nascimento de Jean-Georges Noverre - um dos grandes nomes mundiais da dança nascido em 1727.
 apelando a uma configuração da dança onde também cabem as que dão a imagem cultural de um povo,      Com as suas marcas mais ou menos codificadas em géneros diversificados e recorrentemente combinados (rituais e religiosos, mundanos e populares, guerreiros e de paz, de espetáculo), há danças para cobrir uma grande diversidade de situações - das danças da chuva às da sedução, bem como às do festejo dos eventos humanos,  numa universalidade de causas a todo o tempo convocadas. Desde logo, as do espírito,  as da alma da da busca de poder(es) que, na origem, também evocam o espetáculo, a dimensão do apelo e do mistério sagrado (seja este mais natural seja ele mais associado a entidades mais abstratas). 
     Do sapateado, volteio, balanço, genuflexão, contorção de peito e de cabeça, há uma linguagem, uma gramática da dança que não é estranha à expressão da vida (mesmo quando esta se compõe, também, pelo fim de ciclos).
     Na consciência da passagem do tempo, figuram aqui algumas sonoridades e passos de dança que nos acompanha(ra)m nas últimas décadas:

Estilos de dança contemporâneos ao som de músicas deste e do passado século.

      O escritor e teórico da arte francês oitocentista Charles Baudelaire, afirmou que "A dança consegue revelar tudo o que a música esconde misteriosamente, tendo mais mérito de ser humana e palpável. A dança é poesia com braços e pernas, é a matéria, graciosa e terrível, animada, embelezada pelo movimento". Se a literatura, nas suas origens, tem a expressão poética combinada com a música, desta à dança pouco falta - que o digam as bailias ou bailadas das cantigas de amigo trovadorescas.
       Claro que interessa "Dançar conforme a música" e descobrir que / se "Bem dança a quem a fortuna canta / a quem a fortuna faz som". E se há quem acrescente "Quem pode toca, quem não pode dança" ou "Como se toca, assim se dança", é de constatar que se está perante expressões ou enunciados paremiológicos a traduzir bem esta nossa" dança da vida".

       Numa variação ao "Quem canta seus males espanta", hoje recrio o provérbio "Quem dança muitos bens alcança" - o da animação e o de uma libertação salutar que sejam. 

terça-feira, 26 de abril de 2022

Gestos simples para grandes causas

       Assim se evocam e marcam os dias.

      Ontem celebrou-se o 25 de abril. O dia seguinte, o de hoje, começou com poesia à porta: Zeca Afonso, Jorge de Sena.

Da poesia ao canto, afixados à porta (Foto VO)

      Prosseguiu-se, à hora de almoço, com a voz: ouvir poesia dita a um público atento, partilhando os valores da liberdade que se vivenciam e testemunham na causa pública que (n)os une. Foi o momento de Sophia, de Torga e de quem fez do verso base de expressão para um ideal lutado, conquistado e reafirmado.
     No regresso ao trabalho, na minha secretária, dois cravos vermelhos e uma pequena nota, em caligrafia cuidada, fizeram-me sorrir, libertaram-me de algumas tensões do dia; fizeram acreditar que vale a pena acreditar, apostar e correr o caminho da esperança e pelo bem que se traz à vida.
   Impõe-se agradecer a quem fez do 26 de abril continuação da celebração: ao 11º E pela presença, pela poesia e pela voz; à Joana Rocha e à Leonor Oliveira, do 11º L, pela procura, pela oferta e pelas flores verdes rubras; às professoras que fizeram recordar a liberdade de ontem como herança de hoje (a todo o tempo retomado), pelo exemplo e pelo empenho testemunhados. 
    Assim se revê e se (re)vê História e histórias que importa ter presente(s).

       Abril é para todos os dias que o Homem queira ver celebrado com as cores da liberdade.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

História de um agente entre a gente

     Em tempos de confinamento, nem sempre as paredes aguentam comigo.

    Poupo-as, por uns instantes, ora dando uma caminhada no meio de ninguém (e em horas de pouco movimento) ora indo de carro ver o mar. Estaciono, mantenho-me dentro, fazendo dele uma casa móvel e abrindo os vidros para um mundo maior. Leio ou trabalho; vou vendo o mar, contemplando algumas gaivotas passageiras, observando nuvens deslizantes a acinzentar o céu ou o torná-lo aqui e além manchado de flocos cotonosos.
    Por vezes, passa um camião carregando um painel publicitário, no qual se lê o convite para todos ficarem em casa, a bem de muitos. Um altifalante complementa a mensagem estampada no painel: "Fique em casa. É tempo de confinamento, por causa do Covid-19. Fique em casa, pela sua saúde e pela de todos". Compassadamente, circulam ainda agentes policiais, a pé ou de carro, dissuadindo aqueles que pretendem chegar ao areal interdito ou correr pelos passadiços bloqueados, fitados com uma cruz impeditiva de circulação. Mesmo os que, como eu, estão fechados no habitáculo do automóvel não estão livres de abordagem persuasiva da autoridade.
    Aconteceu-me hoje que, estando a trabalhar com o computador, fui abeirado, com o distanciamento social devido, por um agente que, simpaticamente, me perguntou se estava tudo bem e se pretendia ficar naquele local (aprazível) por muito tempo. Pelo suspiro que soltei e pelo meu ar de desagrado, de saturação face à previsível sugestão de voltar para as minhas paredes, o polícia apercebeu-se da minha necessidade de respirar outros ares e, com toda a compreensão, justificou a sua atuação: sensibilizar para os cuidados a ter e para evitar que muita gente se concentrasse junto ao mar (evitando os ajuntamentos críticos). Agradeci a atitude e o serviço que estava a ser cumprido. E talvez por isso, de seguida, veio a concessão: assim que concluísse o trabalho e fizesse uma possível caminhada solitária, solicitava o recolhimento a casa. Voltei a agradecer, pelo cuidado e pela compreensão, ao que assentiu que tínhamos ambos de ser compreensivos e reconhecidos nas palavras e nos bons atos.
     Apreciei bastante a postura e o exercício compassivo da autoridade. Solicitei apenas uns minutos mais. Respondeu que não havia problema, desde que não infringisse as interdições visíveis a todos na praia. Sosseguei-o quanto a isso, pois não pretendia sair da "minha concha". Disse-me, então, para eu estar à vontade e, por fim, acrescentou que "Se todos cumprirmos, quando contermos o vírus, vamos poder mais rapidamente aproveitar a vida em conjunto". A ideia era perfeita, mas o "contermos"...
    O futuro do conjuntivo do verbo 'conter', na primeira pessoa do plural, é 'contivermos', senhor agente - isto foi o que pensei; o que gostava de ter dito. No entanto, achei por bem fazer igualmente uma concessão. Valorizei mais a atitude do que a correção do discurso. Eu podia ter concordado, repetindo a mensagem com a forma correta, como normalmente o faço em situações análogas ("Sim, se CONTIVERMOS o vírus, vamos todos ser mais felizes"). Não o fiz, porém, atendendo à qualidade da interação, na qual uma falha gramatical não comprometeu o interesse nem o foco da comunicação.

       Lá diz o provérbio que "No melhor pano cai a nódoa" - acidentes que acontecem a todos os que também usam "boas palavras" (mesmo que estas não sejam as gramaticalmente mais corretas).

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Revendo 'A Lista de Schindler'

     Foi dos filmes mais marcantes do final do século XX, obra-prima de Steven Spielberg.

    Já há um tempo andava com vontade de rever este filme. As interpretações de Liam Neeson (Oskar Schindler), Ben Kingsley (o contabilista judeu Itzhak Stern) e Ralph Fiennes (o comandante alemão Amon Goeth) são marcantes, bem como produção feita a preto e branco maioritariamente (só aqui e ali com uma nota de cor). No enredo, situado entre 1939 e 1945, revê-se a Polónia nazi, o genocídio dos judeus, a Checoslováquia da fábrica e do campo de concentração de Schlinder (Brünnlitz). Em mais de três horas, retratam-se, de forma mais ou menos ficcionada, episódios de vida de um Justo entre as Nações mais o périplo de um povo que, na II Grande Guerra, viveu mais uma etapa trágica na sua diáspora.

Compacto de A Lista de Schindler (1993)


    Inspirado no livro homónimo de Thomas Keneally, é seguramente um dos filmes da minha vida, desde que há mais de vinte e cinco anos ficaram imagens fortes como a da irritante criança loura que assiste ao desfile de judeus nas ruas polacas e grita "Goodbye, Jews!"; a do professor de História e Literatura que não é considerado "trabalhador essencial", mas acaba por o ser quando diz ser "polidor de metais"; a dos soldados alemães que discutem se a música tocada por um outro é da autoria de Bach ou de Mozart, enquanto ocorre o fuzilamento de vários judeus; a da criança vestida de vermelho, que se esconde do exército nazi, mas acaba junto de outros corpos; a do intolerável comandante Amon Goeth a fazer "tiro ao alvo" da sua varanda para alguns judeus que se encontram no campo de concentração de Płaszów; a de crianças que se escondem nas sanitas conspurcadas, na esperança da sobrevivência; a de uma outra criança insuportável a simular, com a mão, o corte de pescoço para as mulheres que chegam ao campo de Auschwitz-Birkenau; a do banho ameaçador das mulheres numa câmara que, em vez de água, bem podia ter sido de Zyclon B; a do comovente Schindler a chorar por não ter conseguido salvar mais judeus. O percurso deste povo é representado na pior das agonias.
     Mais significado ganha o filme quando, apesar da distância no tempo, se contacta com os locais nele retratados: a fábrica de Schindler e a judiaria, em Cracóvia; o campo de Auschwitz-Birkenau.

Praça Bohatérow Getta (ou dos Heróis do Gueto), no distrito de Podgorze, 
no gueto judaico de Cracóvia, com Monumento das Cadeiras, diz-se, pago por Roman Polanski
 (local onde eram selecionados os judeus para os campos de concentração) - Foto VO

Fachada da fábrica de Schindler, em Cracóvia - Foto VO

Janela à entrada da Fábrica de Schindler 
(com fotos e nomes dos trabalhadores judeus) - Foto VO 

Monumento Judeu junto ao bairro Kazimierz, onde este povo vivia na cidade, antes da II Guerra
(colocação de pedras como prática nas sepulturas judaicas, lembrando a época do Antigo Testamento) - Foto VO

Pórtico da Sinagoga Remuh, ao fundo do bairro Kazimierz
(nome a lembrar o rei Casimiro, fundador do espaço judaico na Baixa Idade Média) - Foto VO

    O bairro Kazimierz foi local da gravação cinematográfica, tendo-se, a partir desta última, conseguido a recuperação do espaço (dado o interesse turístico que o tem marcado). Quem por ele passeia não deixa de sentir o peso da História, os sinais da tragédia, o espírito de uma revolta contra quem pôde alguma vez defender o genocídio judeu, o holocausto.
      Na confluência de sentimentos, quando percorri estes locais, dizia para comigo que tinha de rever A Lista de Schindler. Entre a revolta do vivenciado com as políticas antissemitas e a admiração por um homem, no meio de outros iguais, dominou um sentido de compaixão e de gratidão muito forte. A cena final do filme (homenagem dos judeus salvos por Schindler junto à campa, em Jerusalém, no Monte Sião) é a representação maior da figura dessa gratidão, uma espécie de pacto ou princípio que, aliás, atravessa toda a película, ainda que numa multiplicidade de sentimentos bem difusos: o de Schindler para com Stern, no reconhecimento do trabalho deste; o de Amon para com Schindler, enquanto parceiros de negócios pautados por suborno e contrabando; o de Schindler para com uma judia, beijando-a num dos aniversários dele, quando lhe é ofertado um bolo; o dos judeus para com Schindler, à hora da rendição alemã incondicional, oferecendo-lhe um anel a partir de um dente de ouro fundido, a partir dos bens de muitos, e trabalhado à hora do final da guerra.
        Hoje o Ser Humano não pode deixar de estar, quase por ironia, agradecido a um partidário inicialmente nazi, o único que tem sepultura em território judeu, pelos mais de mil que ajudou a salvar.

      De oportunista interessado em ganhar dinheiro a herói tomado pela humanidade (sem escolha) ao salvar judeus, Oskar Schindler fica para a memória de muitos como um dos protagonistas da Sétima Arte, num filme que recebeu sete óscares, um deles o de Melhor Filme (1994). E foi tudo, na base inspiradora, tão real!

terça-feira, 31 de março de 2020

E vão passando os dias

       As línguas têm destas coisas associadas aos dias.

      Com a nova rotina dos dias, ao final de mais de uma quinzena, prossegue o tempo da quarenta.
      Na língua inglesa, há já quem conte os dias naquilo que têm de mais indiferenciado:

A indiferenciação dos dias - só com 'day' (by day)

     É todos os dias o mesmo!
    Já na língua portuguesa, excetuam-se o sábado e o domingo. De resto, fica tudo "feira" (sem segunda, nem terça, quarta, quinta ou sexta). Talvez por isso algumas pessoas teimem no passeio e nos encontros, sem distanciamentos.

      Fica a "feira" e perdem-se as horas da oração. Os nossos dias da semana parecem mais divertidos, mesmo em tempos de contenção.

domingo, 15 de março de 2020

Beleza natural em tempos críticos

       Apartado do mundo, por uma ameaça que anda por aí à solta, fui ao encontro  do sol, do céu, do mar...

      Quando quase tudo se recolhe, pelo frio e pelo crescente escurecer, vou ao encontro do resto de sol que paira no céu enevoado, a ameaçar chuva.
        Registo, progressivamente, o momento:

Quando ainda o céu fogueava com o sol ensombrado (Foto I - VO)

Quando as nuvens ensombravam a luz do fim de tarde (Foto II - VO)

Quando a luz deu lugar a uma nuvem de ameaçadora chuva (Foto III - VO)

       Hoje, ver o sol ocultando-se numa e noutra nuvem foi como participar num jogo de esconde-esconde, até que, cansado e rendido, esse companheiro do dia se deixou cair num leito oceânico que foi, é e sempre será vida.
        No meio de tanto sinal de desgraça e de arautos do fim do mundo, prefiro as cores e o silêncio naturais, tão multiformes e plásticos, como de pintura feita a traço e guache, à espera de que toda a miséria e todo o infortúnio sequem, para renovação da felicidade na humanidade.
        É tanto  o discurso sinistro, trágico que é imperativo fugir da deprimência. Em tempos críticos, são necessárias alguma serenidade, alguma racionalidade (quem sabe uma nota de sorriso, uma gargalhada), até para poder tomar-se decisões o mais sensatamente possível. Para alarmismo e dramatismo, já bastam os vividos por quem realmente sofre ou trata do problema que o Covid-19 trouxe a todos. A todos, e bem para lá de qualquer país ou de alguém que ache que cantar o hino nacional vale para animar quem quer que seja. Pedissem-me para bater palmas a quem cuida dos que sofrem e fá-lo-ia pela segunda vez, numa varanda para a rua e numa noite como muitas as que têm vindo a invadir o espírito e a vida dos seres humanos. Ainda assim, há que combatê-la(s), ir em frente, na busca da luz que mitigue ou neutralize o medo.

    E, no entanto, ele move-se (o sol); ela também (a terra). Possamos nós acompanhar e testemunhar esses movimentos.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

75 anos depois

      Para futura memória e para que não se repita a história.

     Na sequência do visionamento do documentário "Depois de Auschwitz", na RTP1, há memórias que se recuperam de um passado, o estudado e o vivenciado.
      Saber o que se sucedeu há 75 anos, pelos livros e registos audiovisuais, é descobrir uma forma de recuperar a liberdade e a visão da dignidade humana que, muitos anos antes, ficaram comprometidas, ao serem cometidas atrocidades impensáveis. Os testemunhos do tempo vão sendo revelados, partilhados (e, ainda assim, há quem assuma que o holocausto não existiu) e o espanto revoltado não cessa!
   Visitar Auschwitz e Birkenau, depois de já ter passado pelo campo de concentração de Sachsenaushen, é definitivamente uma outra visão dos sinais dos factos. O último impressiona; o primeiro perturba; o do meio (sem qualquer virtude) faz abominar, odiar quem tenha pensado em tal espaço com propósitos tão execráveis.

Entrada do campo de concentração de Auschwitz ("O trabalho liberta") I - Foto VO

 Entrada do campo de concentração de Auschwitz ("O trabalho liberta") II - Foto VO

 Uma janela para os muros, os postes e as redes eletrificados - Foto VO

  O muro dos fuzilamentos - Foto VO

  Os fornos de um crematório - Foto VO

  As camas de cimento e tábuas rompidas para os sobreviventes - Foto VO

       De Auschwitz, ficou-me a memória de entrada no campo, quando um grupo de judeus cobertos com o seu 'talit' branco, com a estrela azul de David, mais o 'kipá' branco na cabeça, solidéu tradicional, orava em círculo. O respeito deles e o nosso por eles impunham-se. Não foi o único povo a sofrer as atrocidades nazis, mas, na sua diáspora, tem o segundo quartel do século XX como um dos seus períodos mais negros e a Humanidade enquanto espectadora de uma perseguição desmesurada, de um genocídio atroz. 
       Uma nota informativa, para os turistas / visitantes, dá conta de que os primeiros prisioneiros foram polacos; seguiram-se os prisioneiros de guerra soviéticos, os ciganos e inúmeros deportados de outras nacionalidades. A partir de 1942, este tornou-se no local de morte maciça nesse plano nazi de exterminar o povo judeu que se encontrava na Europa. A taxa de mortalidade era tão elevada que a única forma de identificar os corpos era através de um número do campo tatuado no corpo (antebraço, braço, perna ou peito), mesmo quando muitos homens, mulheres e crianças eram praticamente dizimados à chegada, tanto em Auschwitz como nas câmaras de gás de Birkenau. Mortos nas câmaras ou em qualquer ponto do campo, feitos cheiro nauseabundo ou pó nos crematórios, marcados de dor e humilhação insanáveis no corpo e na alma.
      Hoje, o fim chegava - há 75 anos - com o exército vermelho a libertar os prisioneiros que não haviam sido deslocados pelos alemães para o interior da Polónia. Um massacre e um morticínio que deixaram marcas aos que conseguiram sobreviver e assistiram à eliminação de inúmeros. 
     Tudo começou menos de uma década antes (seis anos apenas), com discursos de intolerância, de supremacia de raças, de desprezo por quem interessava tirar do caminho para poder usufruir daquilo que deixavam e que alguém tinha instruções de recuperar (desde os dentes de ouro a tudo o que pudesse ser aproveitado).

     Uma história que não pode ser apagada, pela intolerância que foi, pelo excesso de poder que revelou, pela desumanidade que alguns humanos foram capazes de criar e outros de aceitar ou silenciar. Demasiado pesado para não ser divulgado.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Uma questão de tempo (do visível e também do invisível)

      A propósito do programa televisivo 'Prós e Contras' (RTP-1) e da reflexão sobre o tempo.

    Talvez, melhor dizendo, dos tempos. Afinal, foram abordados muitos, numa perspetivação tão multifocada quanto representativa de como estar ou ver a vida.
      Reconheço que tenho assistido a vários programas televisivos cuja temática e discussão têm sido perdas de tempo - a sensação que me fica é a de que muito se discute nos "Prós e Contras" e, no fim, de nada vale, porque tudo rola da mesma forma, como se nada tivesse adiantado tanta argumentação. O de hoje, por ser mais reflexivo e equacionador da própria perceção do que é o tempo, não se me revelou tão improdutivo; pelo contrário, tomei-o como mais informativo, mais enriquecedor nessa versatilidade percetiva do que o 'tempo' é. Alguns momentos foram mesmo intensos na discussão, nomeadamente o da relação do tempo com a educação:

Excerto do programa 'Prós e Contras' (RTP1)

      O momento em que se discute que é preciso tempo na educação e que alguém parece não o querer dar - até como forma de manipular as mentalidades - surgiu-me como a oportunidade de sublinhar que ensinar a pensar, encarar a educação como um processo são conceções desafiadoras para os nossos tempos. E quando José Gil refere que o Estado não tem tempo e não dá tempo a quem dele precisa (do tempo, porque do Estado e do governo a discussão será muito outra), muito fica explicado de algum do desgaste e do insucesso educativo nos últimos tempos.
    O tempo que não se dá, o tempo que se retira, o tempo que se satura, o tempo que se ocupa inutilmente e, pior do que tudo, o tempo da ingratidão (quando, na relação educativa, devia ser bem o contrário). Uma ingratidão que acontece a vários níveis nessa relação entre o topo e os que dele dependem.
   O professor David Rodrigues mencionou a gratidão como "a grande provedora do tempo", fundamental na relação de alteridade (para com o outro) que a educação é. Ousaria acrescentar uma outra: a presença. Saber que alguém se mostra e está presente, atento e focado na melhoria do outro e da relação com ele.

      Quando em vez de gratidão e presença se dá lugar a ingratidão e ausência, não há ministério que seja bem sucedido. Ainda assim, muito do trabalho da escola será feito quase numa lógica de missão, de ação (re)construída, qual fénix renascida, a partir do clima de desencanto e desilusão. Porque há que lembrar que alguém vai sobreviver a políticas de ingratidão e de ausência.

terça-feira, 2 de julho de 2019

"Isto não vai lá com Oficinas de Escrita"!!!!!!!!!

        E agora que ando a dinamizar formações sobre o tema, só me faltava ouvir esta!

    A opinião é de António Carlos Cortez, que, no programa Prós e Contras (RTP1) sobre a 'Revolução Digital na Educação', profere, por duas vezes, que as oficinas de escrita não são a solução para os problemas no ato redacional dos alunos.
        Revejam-se os momentos:

Montagem de excertos do programa 'Prós e Contras' 
(RTP1 - emissão 01.07.19)

      No meio de tanto posicionamento crítico sobre a era digital na educação - a maior parte dele a ser subscrito por mim no que à "esquizofrenia" da supremacia  tecnológica diz respeito -, o tópico da oficina de escrita tocou-me ('Quem não se sente não é filho de boa gente, dizem') e critico (reconhecendo que 'Quem critica os defeitos é porque ainda não viu as virtudes', se as houver). Discordo que 'isto não vá lá' com oficinas de escrita, se estas resultarem de projetos estruturados; de dinâmicas faseadas, progressivas e moldadas pelos pressupostos da pedagogia da escrita; de oportunidades de instrumentação sistemática da escrita (com explicitação e consciencialização de técnicas redacionais).
     Só parcialmente compreendo a ideia, no caso de o conceito de 'oficina de escrita' ser redutoramente perspetivado no âmbito da escrita lúdica e recreativa. Podendo esta última constituir uma oportunidade de indução e exposição à escrita, não é garantidamente suficiente para a aprendizagem deste domínio fundamental às disciplinas que nela se apoiam e dela fazem depender a avaliação - isto é, quase todas.
         A aprendizagem da escrita faz-se, sim e também, com oficinas de escrita, quando estas são dinamizadas na consciência da aplicação de instrumentais e de processos que a escrita requer e uma pedagogia da escrita preconiza. Planificar uma sequência de aulas que visa o ensino de mecanismos de escrita (passando pela planificação, textualização e revisão, na progressão e na retoma sucessiva das etapas); orientar o ato de escrever segundo metodologias que permitam passar de focos a nível macro (planificação, gestão de informação, conhecimentos de mundo e universos de referência, domínio lexical, coerência) para focos a nível micro (sequencialização e textualização a nível de ortografia, pontuação, sintaxe); fasear procedimentos que, uma vez revistos e consciencializados, permitam integração e articulação em desempenhos mais consistentes, não sei por que razão não pode este percurso ser designado de 'oficina de escrita' (prefiro às cozinhas, de Cassany, ou aos estaleiros, de Jolibert), quando tal significa colocar os alunos em trabalho orientado, continuado, progressivo, integrado e partilhado com os professores.
        Diria mesmo que desta forma ou trabalhando a escrita com alguns pressupostos oficinais se criam condições de ensino-aprendizagem desejáveis, porque motivacionais e capazes de implicar professores e alunos em ação / atividade conjunta, na explicitação e na consciencialização de técnicas conducentes a desempenhos mais consistentes.

        Em suma, com oficinas de escrita ou escrita com alguma oficina constroem-se oportunidades estratégicas de ensino-aprendizagem participados e implicados em percursos de maior sucesso (porque de maior condução para desempenhos crescentemente autónomos). Interessa ensinar e aprender a escrever.
  

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Uma nova estrela.

      Depois das estrelinhas recolhidas do mar, desta feita foi-me atribuída uma grande estrela.

   Prestes a terminar um período letivo, fui honradamente condecorado com uma estrela produzida à pressa (disseram-me), mas com a qualidade distintiva e merecida de uma mais que ponderada estrela Michelin. E como não há "chef" do ano que sobreviva a tudo sozinho, tinha ao lado a "funcionária do mês", com outro exemplar tão primorosamente concebido e tão provocador da boa disposição de quem nos via com a condição, espetada ao peito, de 'garçon' e 'garçonette', em pleno exercício de serviço de cafetaria.
      Claro que há que sublinhar as diferenças: eu, "do ano", ora pois então. Como alguém o apontou, e bem, tudo em conformidade com o sexismo que se impõe: o ano e a posição de 'chef' para o masculino; o mês e o estatuto de funcionária para o feminino.
    Com duas estrelas na copa, muitas outras ficaram por dourar: todas aquelas que ajudam num projeto tão caro à escola - o Bar Solidário - e que alguém, certo dia, teve a ideia de partilhar e testemunhar, dando corpo ao manifesto. Hoje, com uma simples maquinazinha da Buondi, cumpre-se plenamente o pedido de cafezinho, pingo, meia de leite, descafeinado, a que acrescentamos sempre o molete, papo seco ou vulgar pão, com queijo, manteiga, fiambre e/ou marmelada, conforme as combinações desejadas (sem esquecer o requintado pãozinho de nozes que, à sexta-feira, a nossa prestimosa "funcionária do mês" nos oferta).
    Todavia, além destas figuras, e desde o início, muitas outras há a merecer o estrelato, inclusivamente todas aquelas que reagiram muito galhofadamente à entrega destes 'galardões' e se assumiram logo como "gatas borralheiras". Que seria da história sem elas? Não existiria, por certo. 
    Há quem diga que o atendimento é 5 estrelas, de meter inveja a qualquer Clooney (que está para descobrir, saber o verdadeiro sabor do café da ESG, na sala de professores). Ainda assim, a constelação é bem mais real e visível no facto de, em cerca de três meses, todos estarmos prestes a atingir a quantia de dois mil euros, para auxiliar uma família que viu a sua estrelinha um pouco mais apagada no brilho que irradiava.


     Entre os muitos que ajudam e os outros tantos que consomem, contribuem e dão razão a tudo isto, há que agradecer o gesto. É fácil ser 'Chef' e ser 'Funcionária(o)', quando há uma causa grande (a da Maria do Céu) e muitos colegas espetaculares, solidarizados no espírito e nos atos para que tudo corra pelo melhor. Além disto, dá-se sempre utilidade a um espaço morto de uma escola "nova", restaurada e disfuncional, que se vai ajustando e procurando sentidos para manter a vida e a esperança.

      Na brincadeira em que tudo isto resultou, houve um dia de escola para lembrar.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

És mulher...

     O dia foi intenso, na alegria que se cruza com a dor.

    É difícil aceitar o que a injustiça impõe. Mais uma razão para viver com a vontade de imaginar, ultrapassando os limites que nos prendem à condição de sofrer.


ÉS MULHER...

Disseram que não eras mais bebé,
com o amor de quem te vê mulher...
Tudo mudou. Ficou a mesma fé,
devoção de um grato pai que te quer

presente; de dois irmãos que te mimam;
de uma mãe que, chorando, te tem viva.
Estiveram os amigos que te estimam,
os familiares que te querem... Diga

o tempo o que disser, "Já és mulher!"
Estejas como estiveres, onde puder
ser, haverá anos a celebrar:

'Parabéns a você' há de soar,
contido - mas sentido -, por haver
mágoa pelo que te fizeram perder.


    Pessoa escreveu "quem dera / Volver a sê-lo!", pensando no que pudera ter sido. Noutros casos, diria que era bom volver ao que (já) se foi. Na impossibilidade, que se seja! Além de tudo, há sempre os que se acham de si partidos e que podem (re)descobrir a existência dos que são ou estão pelo que muitos querem. 

     Eis a prova da esperança do querer, misturado com a força do crer.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Uma forma de felicidade

     Assim o dizia, da literatura e da poesia, por outras palavras, citando Jorge Luís Borges.

    Ficam as palavras, a voz, o rosto, num pequeno excerto de uma entrevista a Manuel António Pina, (realizada para o programa 'Porto Escrito', divulgado na Página Literária do Porto) - um pequeno apontamento de vida para o escritor falar sobre a arte com que nos conseguiu encantar.


     Da poesia e da literatura fala esta voz, qual arauto que, na mensagem trabalhada, vê como a palavra se recria e transfigura. Ficam, assim, para saber, "Algumas coisas":

Algumas Coisas

A morte e a vida morrem
e sob a sua eternidade fica
só a memória do esquecimento de tudo;
também o silêncio de aquele que fala se calará.

Quem fala de estas
coisas e de falar de elas
foge para o puro esquecimento
fora da cabeça e de si.

O que existe falta
sob a eternidade;
saber é esquecer, e
esta é a sabedoria e o esquecimento.
 

 in "Aquele que Quer Morrer"

     Desta forma se revelou quem anunciou que "A Poesia Vai Acabar" ou que "...os poetas / vão ser colocados em lugares mais úteis. / Por exemplo, observadores de pássaros / (enquanto os pássaros não / acabarem)."