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sábado, 15 de maio de 2021

As boas escolhas (que estão por acontecer)

      Serão sempre bem-vindas, quando feitas em consciência.

      Não é o que se passa quando se apresenta rodapés televisivos como o seguinte, tão comuns aos nossos olhos (na variedade polifacetada com que nos surgem):

Agende-se a vacina da língua (para quem já 'ESTEVE' e 'ESTÁ' infetado com o vírus da incorreção).
Jornal da Tarde, na RTP1. Hoje. À hora da foto. (Foto VO)

     Vai mal a utilização da língua em circuitos de comunicação responsáveis pela sua qualidade. Maltratá-la, com a frequência com que tem sido, impõe que se cumpra formação e informação - que deviam ser pressupostas -, a bem de quem a deve dominar na perfeição do "Bom Português". Contrariamente à versão que diz "À mulher de César não basta ser honesta; deve parecer honesta", este é um claro caso em que o parecer não chega. Deve primar pelo ser.
      Em consciência, deve assumir-se que alguém não só deve escolher o local de vacinação como também precisa de escolher bem a vacina urgente a tomar: a da língua e a da sua correção (tanto oral como escrita). Isto é no que dá falar com reduções, como a do verbo '(es)tar'. A um pequeno e breve passo se escreve 'teve' - ou outras variações correlatas em pessoa e número -, não a forma do verbo ter, mas a do 'tar' que alguém errada e afetadamente produz

         Por isso eu digo que se deve falar bem para se escrever melhor.

       Ora, conclua-se: quem está (ou fala de modo) afetado precisa de ser vacinado. Isto no dia da família da língua portuguesa. Era escusado!

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Refugiados, migrações... em debate

      Em modo de produção de materiais.

      Porque antes de debater, há que apresentar exemplos; porque antes de se falar, há que ver modelos e articulá-los com conteúdos que vão ser transversais às aprendizagens (lógica argumentativa e conhecimentos de mundo). A compreensão do oral assim se constrói, em articulação com outras exigências pedagógico-didáticas sublinhadas pelo novo enquadramento legal dos ensinos básico e secundário.
       O tema é atual, a reflexão impõe-se em termos de cidadania e desenvolvimento, a sensibilização é premente para que se mantenham características que nos definem culturalmente, enquanto povo que abre os braços ao mundo.

Montagem de excertos do programa televisivo Prós e Contras (18 de junho, 2018)

      Orientado o visionamento para um conjunto de tarefas (ficha de trabalho), prepara-se uma escuta / um visionamento ativo, reflexivo e formativo, articulado com discursos políticos, e sempre com a língua à mistura.

     Quando feito em colaboração, fica sempre melhor. Obrigado, ARS. Estamos imparáveis.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Precisa-se de explicações a Português

      A mais mediática fonte de erros do Português, na sua produção oral.

      Falasse o homem como ganha a treinar futebol, e seria um bom exemplo da retórica e da oratória. Ganhasse o treinador conforme fala, e a pobreza seria extrema.
      Só a título de exemplo, nada como ler o que terá sido dito pela figura - pérola atrás de pérola, cada qual a mais brilhante:

Uma citação escusada - Ai, Jesus!

      É só somar pontos: a péssima combinação do 'a gente' com a primeira pessoa do plural (quando deveria ser a terceira do singular) e a consequente desconexão ou discordância do singular e do plural; a utilização do presente do conjuntivo (estejamos) numa sequencialidade e temporalidade mais associada ao futuro do conjuntivo (estivermos), este último combinado com lógicas de proporcionalidade. (E não falo do 'tamos', porque quero crer que seja mera gralha gráfica de quem registou a citação, pensando que escrevia 'temos').
     Perante alguns casos críticos da oralidade da nossa língua, caso para dizer (metaforicamente) que assim não se marca golos. Só pontapés na gramática.

      A par disto só a máxima proferida numa das suas conferências de imprensa desta semana: "Os titulares é todo o plantel". Do melhor! (Ou, como dizem os nossos jovens, "Ai JASUS!").

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Em modo de formação...

      Dia de encontro formativo para falar de... oralidade.

     O encontro resultou de um convite para dinamizar uma sessão de formação sobre a oralidade, o papel deste domínio nas aulas de línguas e a algumas formas de a(tua)ção para o seu ensino e a sua avaliação.
      Assim, desloquei-me até à Escola Secundária Eça de Queirós, na Póvoa do Varzim. A imponência do edifício faz-se sentir, a do nome referencial da cultura e literatura oitocentista também. A impressão foi francamente positiva, num edifício que não sofreu intervenção da Parque Escolar E. P. E.; que tem aspeto para dar e durar (contrariamente às que foram objeto de remodelação e/ou reconstrução); que deixa transparecer uma organização, um clima profissional e uma atenção à formação dignos de apontamento, até pela iniciativa desenvolvida (em termos tanto de departamento como de divulgação junto de outros docentes de escolas circundantes).

Imagem da fachada da Escola Secundária Eça de Queirós (no diploma de participação / dinamização da ação)

    Ao longo de duas horas, procurei cumprir o que anunciei como a articulação de um domínio ao serviço de outros saberes, explorando pontes que, sem descon-siderar especifici-dades do oral, contribuem para práticas de ensino-aprendizagem mais integradas (para que não se encare este último como algo mais a trabalhar e ao qual ora se resiste, pela inevitável argumentação da falta de tempo, ora se toma como menos indispensável face às exigências dominantemente escritas nas avaliações interna e externa).
    Na sequência de outras experiências formativas, de reflexões partilhadas com vários docentes, não deixaram de ser facultados materiais e instrumentos que põem em relevo a necessária atitude analítica, avaliativa das realizações fa-cultadas; a cons-trução de critérios e indicadores de de-sempenho na orien-tação dos processos de ensino-aprendizagem; a consideração de que o oral admite áreas de convergência com o escrito, de modo a que as oportunidades de trabalho criadas perspetivem ambos os domínios como as duas faces de uma mesma moeda que é a língua.
   Ainda que o encontro formativo tenha sido reduzido e pontual no tempo dispensado, fica a expectativa de que ele venha a multiplicar-se nas reflexões e nas orientações capazes de enformar futuras opções práticas. 

      Depois de ter dinamizado uma experiência com vinte horas de formação sobre este mesmo tema, senti-me, neste par de horas, como que a meter o Rossio numa betesga; ainda assim, pode ser que esta última fique sempre mais povoada com os rumores da praça.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Conclusão de uma ação, com oralidade na poesia

      Que a poesia, desde a sua origem, tem o registo da oralidade já não é nenhuma novidade!

      Desde os primórdios poéticos, música e canto acompanham os poemas. Na literatura portuguesa, a existência das cantigas (de amor, de amigo, de escárnio e maldizer) e a dos cancioneiros provam-no. Se ler uma notícia de jornal não é o mesmo que ler um poema, é porque a modulação da voz e a impressão de um ritmo (musical) se impõem.
      Além de tudo isto, uma das entradas para o entendimento de um texto há de sempre ser a representação da voz que corre no pensamento, mesmo na mais silenciosa das leituras.
     Este foi o desafio criado com o separador que distribuí na última sessão do "Ensino-Aprendizagem da oralidade: princípios, campos de trabalho, estratégias e práticas avaliativas". A escolha poética incidiu sobre Jorge de Sena e dois dos seus poemas marcados pelo experimentalismo linguístico que moldou, por exemplo, a produção dos quatro poemas a Afrodite Anadiómena. Um deles, "Pandemos" (o primeiro dos quatro, publicado em Metamorfoses ou Poesia II), foi inicialmente apresentado no formato da prosa e sem identificação da autoria:


     Ler com os sinais que a escrita convencionou é seguramente pouco quando a disposição gráfica ganha outra orientação e recupera outros códigos que a literatura potencia:


     No final, pela forma de soneto e com a identificação do verdadeiro autor, houve palmas para a voz que leu; que fez dos sons, da intensidade, da entoação, do ritmo e da fluência um potencial significado.
   Assim que este último foi perguntado, a questão foi devolvida para recreação ou recriação, sem esquecer as palavras que o poeta deixou a propósito, conforme se pode ler numa citação que Gastão Cruz faz das palavras do próprio Sena:

      “O que eu pretendo é que as palavras deixem de significar semanticamente, para representarem um complexo de imagens suscitadas à consciência liminar pelas associações sonoras que as compõem."

CRUZ, Gastão - “Jorge de Sena na poesia do seu tempo ou ‘a arte de ser moderno em Portugal’”
 in Relâmpago - Revista de poesia, Lisboa, nº 21, outubro de 2007, p.33-54.
     
     Assim se concluiu uma formação, na consciência das vantagens que o trabalho e a avaliação do oral incutem na aprendizagem das línguas (materna e estrangeiras).

domingo, 6 de outubro de 2013

Ser Português

     É com este título que acordo no fim de semana, a propósito do evento Escritarias.

    Fundado em 2007 na cidade de Penafiel, este sucesso cultural tem vindo a afirmar-se anualmente pelos discursos artísticos promovidos fora dos circuitos habituais associados à homenagem de autores da cultura, literatura e da língua portuguesa. Nomes como Urbano Tavares Rodrigues, José Saramago, Agustina Bessa-Luís, Mia Couto e António Lobo Antunes juntam-se ao de Mário de Carvalho, este ano o indicado como autor inspirador de um grande número de iniciativas pela cidade.
    A par dos grandes nomes literários, outros surgem como o do jornalista Mário Galego, premiado com a reportagem radiofónica "Ser Português" (Antena 1). A este propósito fica aqui o registo do que pode bem ser objeto de trabalho didático, em termos da compreensão oral (para escuta ativa) e/ou de eventual integração noutras dinâmicas de trabalho relativos ao ensino da língua (na sua relação com o escrito, por exemplo).

Registo disponível nos arquivos online da Rádio Antena 1 (in http://www.rtp.pt/antena1/index.php?t=Ser-Portugues-reportagem-de-Mario-Galego.rtp&article=6693&visual=11&tm=12&headline=13), última consulta a 07/09/2013 às 14:00)

     Em cerca de doze minutos, resume-se o percurso realizado pelos repórteres Rita Colaço e Mário Galego, durante o mês de junho, desde o Gerês até Vila Real de Santo António - sem deixar de passar pelos Açores e pela Madeira.
      Um caminho para a descoberta, tanto da inovação como da tradição, do que compõe esta condição de "Ser Português".

    Um contributo para a nossa identidade cultural e, daí, um bom documento para utilizar nas aulas de língua, de literatura e de cultura.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Regresso à oralidade e às sonoridades originais

   Na primeira sessão de "Ensino-aprendizagem da oralidade: princípios, campos de trabalho, estratégias e práticas avaliativas", regressou-se às origens.

      Iniciei hoje mais um programa de formação para o Agrupamento de Escolas de Gondomar nº 1, desta feita sobre o ensino-aprendizagem da oralidade. Vinte horas para um grupo de cerca de também vinte formandos, interessados em reflectir sobre o âmbito do trabalho, as orientações pedagógico-didáticas a ele associadas, mais as práticas avaliativas.
     Para abrir a sessão de trabalhos, e focando o nível da compreensão oral, propus um exercício que consistiu na escuta ativa de uma brevíssima história. A pré-tarefa era clara: registar uma lista de palavras que, no ritmo da escuta, era  (no indicativo para ser mais factual) possível captar. Preparação feita, discurso escutado, os primeiros risos impuseram-se.
      Insistência na escuta (há que apurar o sentido auditivo). À segunda, surgiram as tentativas de listagem (umas mais extensas do que é outras, para não falar daquelas que se ficaram pelo vazio). Na verificação da tarefa, surgiu a pergunta: significado? Como os destinatários são professores de línguas, obviamente os sons ouvidos foram associados a palavras do inglês, do alemão, do neerlandês, do latim; mas houve quem dissesse que era uma algaraviada irreconhecível; quem tentasse reproduzir sons que não entendia. Alguém chegou a acusar uma colega de ter inventado uma língua; uma outra proposta foi a de se passar o registo do fim para o princípio; por fim, não deixou de aparecer a observação "Que é isto?" Resposta: "Há de ser alguma coisa".
      As primeiras tentativas de reproduzir sons, quando se é bebé, não andará longe do que se passou nesta experiência, por mais que já sejam ativados (re)conhecimentos e aproximações que um público especializado domina por certo. Este último só não sabia que estava a ouvir a língua das origens: uma versão do proto-indo-europeu (PIE), um idioma que investigadores e linguistas têm vindo sucessivamente a reconstruir e a atualizar em termos de som.
     A revista nova-iorquina Archaeology divulgou a contribuição mais recente do que seria a sonoridade deste idioma (extinto) falado há cerca de cinco mil anos:


     Confrontados com a versão escrita em inglês e o título, chegou-se ao reconhecimento do latino 'equus' (cavalo), quando a língua escutada corresponde a um estádio bem anterior.
       Assim reza a narrativa escutada, traduzida em inglês, segundo o que foi escrito pelo linguista alemão August Schleicher (1868):

                                           The Sheep and the Horses

      A sheep that had no wool saw horses, one of them pulling a heavy wagon, one carrying a big load, and one carrying a man quickly. The sheep said to the horses: "My heart pains me, seeing a man driving horses." The horses said: "Listen, sheep, our hearts pain us when we see this: a man, the master, makes the wool of the sheep into a warm garment for himself. And the sheep has no wool." Having heard this, the sheep fled into the plain.

     Falantes de línguas que descendem do PIE, todos experienciaram a dimensão material, fonética (percetiva e articulatória) de um continuum cujo significado não é (ainda completamente) partilhado.

      Assim se iniciou o percurso na "oralidade" que nos une na diversidade linguística que nos carateriza como herdeiros de um passado (por mais remoto que seja).

domingo, 28 de julho de 2013

O primeiro dos últimos

      Apetecia-me ser o rei Juan Carlos de Espanha e dizer "Por qué no te callas?"

      Palavras... para quê?
    Na utilização do modo conjuntivo do verbo 'ter' a coisa até saiu bem, em termos de acentuação fónica; contudo, no caso do verbo 'ser' (que, por acaso, é morfologicamente da mesmíssima flexão verbal face ao verbo anterior - ou seja, de vogal temática 'e' ou da segunda conjugação) a crise instalou-se:


       Com um incendiário destes na língua não há bombeiro que possa combater o fogo. É uma lástima!
      Com os "altos" dignitários da nação a comportarem-se desta forma (e já não foi nem uma nem duas), não há política da língua que resista nem falante que creia no que é dito (atendendo a quem o diz).

      Sem crédito (e a vários níveis), para nossa completa infelicidade linguística (para não falar de outras).

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Camões... está para chegar

    Aproxima-se o feriado do dia de Camões (10 de junho), hoje mais conhecido pelo 'Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades'.

     Até lá, alguns alunos meus terão de falar sobre a obra do poeta quinhentista, preparar a leitura expressiva de um poema que escolheram, justificar a seleção feita, destacar um ou dois versos que os tenham chamado a atenção e justificar a escolha, relacioná-los com a mensagem do poema. Entre três a cinco minutos, têm que formular um discurso oral estruturado, segundo as diretrizes facultadas e, assim, talvez (dar a) conhecer um pouco mais da poesia camoniana.
    Hoje, no seu discurso, uma aluna fez-se acompanhar da imagem do escritor e afixou-a na sala. 
    Anunciava a estudante que desta forma se ia prestar uma homenagem ao poeta, falando dele e da poesia que escreveu. Acrescentou, no seu entendimento, que essa homenagem se conseguia fazendo-se o que não é costume: os jovens lerem poesia.
    Serviu a sessão de trabalho para isto, com alguns jovens a escolherem versos por aquilo que estes lhes diziam (uns, fazendo paráfrase; outros, estabelecendo identidades com experiências de vida; outros ainda, reafirmando as ideias-chave do texto).
    Para que não pensem que são só eles, deixo aqui mais umas vozes, tão distintas, a divulgar um soneto que, do século XVI, se revela tão atual quanto pertinente para qualquer tempo - o de ontem, o de hoje, o de amanhã.

Declamação do cantor Rui Reininho, realizada no programa televisivo "Um poema por semana" 
(programa de "Paula Moura Pinheiro, na RTP2) 

Declamação da cantora Ana Deus, realizada no programa televisivo "Um poema por semana" 
(programa de "Paula Moura Pinheiro, na RTP2)

Declamação do editor-livreiro Marc Figueiredo, realizada no programa televisivo "Um poema por semana" 
(programa de "Paula Moura Pinheiro, na RTP2)

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, 
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.


   E, para concluir, a recriação musicada da mesma composição poética, por José Mário Branco, trocando-lhe "as voltas" quando "o dia é uma criança".


      Concluída a lição, lá ficou a imagem na sala, a ver-nos sair. Amanhã, por certo, lá estará de novo - no fundo cinza do placard, com os diferentes cinzas da fotocópia recortada. Cor... só o laranja dos pioneses e a homenagem que a aluna diz ter feito.
    

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Em diálogo

     Cerca de uma hora e meia para, em workshop, refletir sobre essa condição que nos permite construir aproximações e contribuir para a formação de cidadãos participativos e críticos.

     Sob o título "Promover e gerir o diálogo em sala de aula", foi dinamizada uma sessão de sensibilização ao diálogo. A iniciativa promovida pelo Centro de Formação Júlio Resende contou com a participação de professores de vários grupos disciplinares e decorreu na Escola Secundária de Gondomar.
    Um grupo de aproximada-mente trinta professores interagiu com o orientador da sessão, Tomás Magalhães Carneiro. Foi uma experiência de diálogo participado que visou os seguintes objetivos:
. reconhecer o diálogo em sala de aula como ferramenta pedagógica;
. saber promover e gerir o diálogo na sala de aula como instrumento de desenvolvimento pessoal e de cidadania;
. reconhecer o diálogo como instrumento de reflexão e participação crítica.
     Partindo da consciencialização do que possam ser condicionantes, bloqueios ao diálogo, foi solicitado um enunciado que traduzisse uma verdade absoluta (que, uma vez escrita, foi partilhada: "Eu existo", alguém disse). No percurso e na procura do que melhor pudesse rebater / refutar "uma" dessas verdades ("O que é existir?" / "Existes para os que te conhecem, não para os que te desconhecem"), simulou-se e explicitou-se todo um conjunto de constrangimentos ao funcionamento do diálogo, por um lado; reconheceram-se as "invasões" ao espaço e ao tempo de quem dialoga, mesmo quando tal sucede no pretendido auxílio à interação, por outro lado; e, ainda, refletiu-se sobre alguns processos que a problematização pode ativar, trazer para a construção do diálogo, numa espécie de exercício filosófico.
      Houve quem buscasse neste trabalho a solução para problemas; outros procuraram e promoveram o confronto de ideias - algumas delas partilhadas, a par de outras que pareciam não ter sentido. Houve tempo para todos se confrontarem com o que podem evitar ou moldar, de modo a viver situações mais participativas e participadas, independentemente de ter de se conduzir para um saber e um fazer que requerem maior estruturação.
      Colocarmo-nos na posição e no raciocínio que outros desenvolvem é aspeto relevante na interação, pela atitude de abertura criada; encarar o exercício de argumentação como oportunidade de (co)construção de sentidos e de saberes é posição que fomenta a participação e o envolvimento; apostar na moderação de falas / discursos e assumir menos o protagonismo na transmissão são opções educativas capazes de fomentar cidadãos mais compromissivos, disponíveis para uma maior abertura e maior aceitação face à diversidade e à multiplicidade.

       No tempo disponível e no momento em que surgiu, esta sessão foi um contributo positivo, uma experiência que fechou um dia de trabalho de uma forma animada e bem disposta, sem deixar de nos fazer rever nalguma situação vivida ou a (re)viver.
     

sábado, 24 de novembro de 2012

Do valor dos terraços - pouco caros à língua.

     Não me rendi à publicidade nem à compra de imóveis.

     Há, contudo, um interesse que me leva a divulgar esta pequena nota publicitária retirada de um panfleto da empresa imobiliária "ERA". O propósito da venda pode ser grande, o valor proposto também; mas, no que toca à utilização da língua, estamos no domínio do zero.
     A questão crítica é a da translineação da palavra 'terraço'. É de consabido saber que, nos casos de grafemas duplos, a partição da palavra se faz de modo a colocar a letra duplicada em locais separados: uma no final da linha; outra no início da linha seguinte. Assim, adotando uma notação convencional para exemplificar essa partição (marcação de ponto), ter-se-ia 'ter.raço' como a forma correta de translinear a palavra.
     Esta convenção ortográfica é recorrentemente contrariada por alguns alunos e, também, por materiais escolares que induzem à confusão do que, por um lado, é a realização gráfica da língua (em termos da escrita e das convenções ortográficas) e, por outro, a realização fónica (em termos de silabação e produção sonora, oral). É, aliás, esse exemplo de confusão que esta nota publicitária também evidencia.
    Há poucos dias, uma colega perguntava-me se tinha havido alguma mudança nas normas da translineação, porque tinha reparado num material que propunha a divisão de 'passado' como 'pa-ssa-do'. Naturalmente, esta proposta está errada. E uma outra, sem exemplo, perguntava-me como é que eu fazia a divisão silábica das palavras, se era da mesma forma que translineava. Em tão pouco tempo, a preocupação comum fazia-me lembrar a necessidade de um apontamento sobre a questão.
      Desde logo, proponho que a notação a utilizar não recorra ao uso de hífen, pela confusão que pode criar, em termos ortográficos, com contextos de tmese (mesóclise) ou mesmo de pronominalização justaposta a formas verbais / formas pronominais (e cria, por certo, tantas vezes quantas as de haver alunos que separam as terminações dos verbos, por exemplo). A notação de pontos ou de parêntesis retos é, assim, mais adequada. 
    Acresce a isto a necessidade de se consciencializar dois níveis de análise da língua, os quais, esquematicamente, podem ser demonstrados da seguinte forma:

      Distinguir as convenções da oralidade relativamente às da escrita requer cuidados notacionais, além de se assumir fundamentalmente a diferença entre o que é percecionar auditivamente um som (que se procura reproduzir, na escrita, por vezes com mais do que uma letra) e o que é ler uma letra (convenção escrita).

    Caso para dizer que já era! Estivesse eu interessado na compra e pedia já um desconto, por falta de credibilidade no anúncio publicitário.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Quando a gripe ataca a língua...

    Em contexto de ameaça da Gripe A, nem a própria língua está livre de ataques virulentos, denunciadores dos descuidos e das interferências que uma oralidade desregulada pode criar na própria escrita.

     Ao folhear uma revista de publicação semanal, chamado à atenção pelas "5 medidas para evitar a gripe A na escola", deparo com a terceira das cinco:


Digitalizado a partir de uma revista semanal, publicada para o período 14-20/09/2009, pág. 71

      Esta frequente confusão entre o verbo auxiliar 'ter' e 'estar' é apenas uma gota de água, a ponta de um icebergue, em grande parte submerso e a reclamar o trabalho da oralidade (entre a análise do que seja a sua realização mais informal, económica, despreocupada na sua realização imediata, não planificada, e a que explora produções mais atentas à correcção da língua, numa clara aproximação ao que sejam cuidados que não andam muito longe do que se pretenda para a escrita). Assim acontecesse e os reducionismos fonéticos e/ou silábicos nas palavras (por mais socialmente reconhecidos que sejam nas formas de um verbo 'tar', que não existe, ou na confusão com um verbo 'ter', que não se adequa ao enunciado) seriam evitados num discurso oral mais regulado; talvez desse modo também o escrito beneficiasse de uma maior reflexão e correcção.

     Quisera eu saber que medidas seguir na gripe e fiquei-me aquém das intenções; a leitura, ficou a meio... onde não está a virtude.

sábado, 25 de abril de 2009

Quando ter é estar

      Bem que podia ser um texto escrito por um(a) aluno(a)...

    Não fosse o facto de se tratar de um texto apresentado numa revista semanal, bem que parece uma daquelas produções em que muitos alunos transpõem, da oralidade para o escrito, o modo como falam (mal):


Digitalizado a partir de revista de imprensa semanal, editada para o período 24-30/04/09

      Entre os erros mais frequentemente cometidos, a confusão entre 'estivesse vivo' e 'tivesse vivo' é um sinal da perda da integridade do verbo auxiliar, numa redução silábica inicial que a oralidade não formal cumpre por várias razões (economia articulatória, despreocupação maior com a correcção da língua, registo socialmente identificado com uma classe de falantes que tende a neutralizar a oposição 'ter' / 'estar', entre outras). Quando passa a escrito, e em meios de difusão de massa, a avaliação é feita noutros termos (considerando, nomeadamente, as condições que a mediação do suporte escrito permite, por oposição ao meio oral).

     Efeitos de imediatismo telenovelesco... a evitar.