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terça-feira, 4 de outubro de 2022

Símbolos das 'Jornadas Mundiais da Juventude' em Espinho

      Uma manhã de sol e de símbolos para a juventude (de qualquer idade).
     
    Na sequência da solicitação da Diocese do Porto e da Paróquia de Santa Maria Maior de Espinho, para que o Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira recebesse, no seu espaço escolar, os símbolos da Jornada Mundial da Juventude (cruz peregrina e ícone mariano 'Salus Populi Romani'), hoje de manhã, pelas 11 horas, procedeu-se à divulgação / demonstração dos mesmos na escola sede do agrupamento, no âmbito do espírito ecuménico e do entendimento etimológico do termo: do ou para o mundo inteiro; que reúne pessoas de diversas religiões ou ideologias.
    Trata-se de uma iniciativa de e para a juventude (independentemente do credo ou da fé professados), pelo que se contou com a colaboração de alguns dos estudantes (atuais e alguns outros em percursos de vida já para lá do ensino secundário), para a sensibilização e mobilização para essa Jornada Mundial da Juventude.

Jornadas Mundiais da Juventude no AEML (montagem de fotos)

   Na sequência de outras iniciativas que têm trazido jovens de vários credos ao espaço escolar, pretendeu-se viver esta experiência com esse sentido congregador, de união, num caminho, num percurso, numa sensibilização para o que mais une o Homem enquanto ser tomado pelo que de mais humano e humanista o caracteriza. Que os tempos de guerra, de confronto e de conflito deem lugar ao sentido máximo desse princípio universal que sublinha como, sendo diferentes, todos somos bem mais e maiores naquilo que nos aproxima - eis o pensamento matriz.
    Nesse mesmo espírito ecuménico e jovem que também deve pautar a escola, houve uma cruz, tocada por milhões, com a energia e a alegria que nela quiseram depositar; uma imagem mariana, observada nos tons dourados e azul, com o Menino Jesus nos braços, a segurar um livro dourado.
    O sol brilhou e concentrou quem quis aderir a um espírito que sabe contrariar a conhecida letra de canção de António Variações (na voz de Marisa Liz): "Já esqueceram o cantar e o sorriso / Já não são homens de boa vontade / A loucura está a vencer o juízo, / O ódio, a amizade / Estão-se a despir de toda a humanidade".

    Um breve evento que marcou os dois agrupamentos escolares do concelho e a passagem dos símbolos peregrinos pela cidade de Espinho.

quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Cantigas... com música (pois está claro!)

      É o que pode ser feito para não se ficar pela letra.

     Quando tanto se fala de cantigas de amor e de amigo e se fica pela letra (poema), nada como apresentar algumas propostas cantadas, para que a noção da poesia enquanto texto e música seja validada.
   Com um breve registo fílmico, compõe-se a exemplificação de quatro trechos musicais, com sonoridades medievas:

Quatro cantigas da lírica trovadoresca (de amor e de amigo)

     Solicita-se a audição na base de algumas pré-questões:
     (i) identificação da cantiga (pelo verso inicial) e do autor;
     (ii) classificação quanto ao género;
     (iii) indicação sumária do assunto tratado;
   (iv) caracterização da melodia escutada (recorrendo a adjetivos sugestivos, a construções do tipo 'Esta música parece-me X', ou outra);
   (v) sentimentos vivenciados pelos alunos aquando da audição e devida justificação.

     Tomadas as notas devidas, conduz-se o resultado para a construção de uma apreciação crítica (isto depois de se ter exemplificado este género textual, com a leitura de um exemplo e a sistematização dos aspetos mais relevantes).
      Passa-se do modelo à planificação de um texto a produzir: um parágrafo com a descrição objetiva do objeto (a atividade de escuta das melodias abordadas em i-iii); outro com o comentário crítico (associado às tarefas iv-v); um final, numa espécie de balanço acerca da atividade dinamizada.
      Segue-se a textualização (a ocorrer na modalidade de oficina; a acontecer em tempo complementar, com a definição de um intervalo de tempo razoável para produção e posterior entrega).
       E assim se dinamiza um trabalho que pode ser intitulado "Notas medievais em pleno ano 2021" ou "Aura medieval em plena aula do século XXI".

        No mínimo, ouviram-se músicas para as tão faladas "cantigas", que vinham só com texto.

sábado, 9 de maio de 2020

"Enquanto houver ventos e mar"

       Também podia ser "Enquanto houver estrada para andar".

       Nestes tempos, há sempre um momento para dar atenção a belíssimas letras de canção.
       E quando delas se fazem ótimas interpretações, repete-se a audição.

Jorge Palma ao vivo - Coliseu dos Recreios (20.11.2007)

A GENTE VAI CONTINUAR

Tira a mão do queixo, não penses mais nisso 
o que lá vai já deu o que tinha a dar 
quem ganhou, ganhou e usou-se disso 
quem perdeu há-de ter mais cartas para dar 
e enquanto alguns fazem figura 
outros sucumbem à batota 
chega aonde tu quiseres 
mas goza bem a tua rota 

Enquanto houver estrada para andar 
a gente vai continuar 
enquanto houver estrada para andar 
enquanto houver ventos e mar 
a gente não vai parar 
enquanto houver ventos e mar 

Todos nós pagamos por tudo o que usamos 
o sistema é antigo e não poupa ninguém 
somos todos escravos do que precisamos 
reduz as necessidades se queres passar bem 
que a dependência é uma besta que dá cabo do desejo 
e a liberdade é uma maluca 
que sabe quanto vale um beijo 

Jorge Palma (letra e música)

Versão de Mafalda Veiga, acompanhada ao piano por Jorge Palma.

       Esta é uma canção de momento, de poesia a responder à realidade; a ensinar-nos a sobreviver.

       Isso mesmo - entre o poder ser e o ser fica o título: "A gente vai continuar".

sábado, 25 de abril de 2020

Celebrar a liberdade (ansiando pela libertação)

       Há sempre razões para celebrar a liberdade surgida da ditadura.

       Para que não se esqueça o passado mal vivido e se tenha presente as conquistas conseguidas, faz sentido celebrar este dia, aquele que "acordou" sem o peso dos grilhões do autoritarismo e do despotismo; do controlo e do poder ditatoriais que não dão felicidade nem permitem afirmar a dignidade humana; do medo da perseguição.
       Hoje, sem a liberdade de movimentos desejada, persiste a liberdade da democracia. Confinados, sim, mas livres do jugo político que alguma ideologia possa representar - aspirando à libertação, porém, com a liberdade garantida.
       Este é o 25 de abril dos tempos da pandemia. Ainda assim, 25 de abril: aquele que precisou de vítimas, de heróis, de canções e de poemas "de guerra" em "vozes de rebate" (com o diria Antero de Quental, em "A um Poeta"); de luta contra a resignação; de espírito de resistência.
      A poesia e o canto, comprometidos com a revolução (seja esta qual for), fazem ainda sentido. Hoje também é preciso "acordar" as mentalidades para a mudança de comportamentos; para os cuidados que trarão o desconfinamento necessário a uma vida com mais cor, dando-nos maior liberdade. 
   Por isso, relembro "Acordai", canção heroica, um dos hinos nacionais de resistência, que contribuíram para exaltar a liberdade e motivar quem lutava contra o salazarismo. Inicialmente publicada em 1946, foi silenciada pela Censura; contudo, muitos resistentes a divulgaram, de forma subreptícia, em encontros clandestinos ou em países de exílio. Hoje partilho-a sem "a dor / dos silêncios vis" de outrora; antes com a distância dos que, limitados, não são servis:

ACORDAI

Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raiz

Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações

Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!

A voz de Teresa Salgueiro 
com os versos de José Gomes Ferreira e a música de Fernando Lopes Graça

       Acordai ou a cor dai a este dia (sem frenesins), pelo que foi, pelo que é e pelo que poderá e deverá continuar a ser, sem que nada acinzente a democracia.

       Outro dia poderá ser mais feliz, mas tem este a liberdade há quarenta e seis anos conquistada.
        

terça-feira, 19 de novembro de 2019

"Do Porto / muito mais vivo que morto"

        No dia em que morre, celebra-se a música, a poesia, as artes.

      A herança de José Mário Branco é a do testemunho da qualidade musical e a da defesa dos valores democráticos e da liberdade. O compromisso com a música e a ideologia política é o exemplo de um homem para as gerações futuras, o de alguém que esteve preso por se ter engajado com um ideal de cultura e de política livres, contra um tempo de ditaduras e fascismos reinantes.
      Com o seu contributo e o de muitos outros companheiros de luta (Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Sérgio Godinho, entre outros), numa clandestinidade que ansiava pela mudança, lutou contra um regime, recorrendo às palavras do poeta Camões e a um refrão feito de (outras) "voltas" trocadas.

Filme com imagens de José Mário Branco (com poema camoniano)

       1942-2019, um percurso de 77 anos com essa amante que foi a música, que lhe deu muitas cantigas, algumas das quais encaradas como "uma arma contra a burguesia", um "alerta, às armas" ou a procura de "um mundo à justa medida".

       "Qual é a tua, ó meu?" Foste para longe, "P'ra muito longe / Onde nos vamos encontrar (/Com o que temos p'ra nos dar)". RIP.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Um dia depois... Dylan (um Nobel para o Bob)

    Hoje começo a escrever em inglês (em ‘American English’), da pergunta à resposta: Are these times a-changing?! The answer, my friend, is blowing in the wind / The answer is blowing in the wind!
Bob Dylan num concerto há quatro anos 
(© KI PRICE / REUTERS)
   Comoção geral. Assim parece pela frequência do tema de conversa: Bob Dylan é Nobel da Literatura.
  Para o choque de uns, a satisfação de outros, sem deixar de mencionar os que indiferentemente olham para o assunto como mais um, no meio de tantos outros provavelmente mais críticos ou interessantes (porque mais determinantes na vida de cada um).
    Interessa-me particularmente a reação que vai sendo revelada pelos que no campo literário (ora por serem conceituados escritores ora por estarem relacionados com o ensino da literatura) se vão pronunciando sobre a questão.
   Entre as argumentações produzidas (música, canções não são literatura; os autores de canções não são poetas; chegou a banalização, a relativização ou menorização da literatura face a outras artes; há tempos de mudança na produção literária ou de falta de critérios para o que é literatura), quase todas esbarram em duas evidências: uma, a de que muitos poemas acabaram por ser musicados, tornando-se o suporte textual de belíssimas letras de canção (com autores tão diversos como Camões, Florbela Espanca ou Pessoa, para me ficar por Portugal e apenas por alguns poetas mais canónicos); outra, a de que muitas letras de canção refletem autênticas pérolas poéticas (pelos mecanismos de construção sonora, sintática, semântica, estilística; pela densidade metafórica associada aos motivos / temas [re]criados; pelos efeitos pragmáticos, cultural e simbolicamente reconstruídos nos planos da intervenção, da formação, da sugestão, da criação artística, do gosto, da emoção e da ficção, numa memória tão ou mais afetivamente coletiva quanto as que são reproduzidas de cor [ou, como dizem os ingleses, “by heart”]).
   Pelo cérebro ou pelo coração, chega-se ao estético, por mais variáveis que os tempos, as contingências históricas e os gostos sejam. Neste sentido, muitas letras de canção revelam conteúdos, trabalho de linguagem e processos de (re)construção poéticos, a ecoar outros textos / outras artes / outras realizações linguísticas / outras dimensões culturais. Encarados como poetas ou não, nomes como Carlos Tê, Sérgio Godinho, Chico Buarque, Vinícius de Moraes, Djavan, Dorival Caymmi marcam muita da escrita musicada na língua portuguesa “d’aquém e d’além mar”, numa qualidade reconhecida como literária.
    Uma letra de canção pode constituir-se como um belo poema, se for literalmente rica, (re)ativa na leitura que dela se faça. Escrita para ser acompanhada da música, ela não fica, por norma, no papel. O poema até poderá não sair dele; contudo, na sua leitura original, não anda longe da voz que, mais ou menos silenciosa, é bem distinta da representada na leitura de uma notícia de jornal ou da linha de uma comum prosa, em ritmo diferente do verso. Isto para não falar de alguma prosa que, de tão poética, está por certo mais próxima da entoação do canto.
    Entre a poesia feita canção ou a canção redigida em jeito poético, a história literária confirma essa interação que música e literatura sempre tiveram desde as origens. A tradição oral dos bardos, a homérica ou, ainda, na história da literatura portuguesa, as compilações dos cancioneiros são o exemplo dessa convergência, registando cantigas (de amor, de amigo, de escárnio e de maldizer) que são poemas produzidos para serem cantados no contexto de animação das cortes medievais.
    Por tudo isto, Bob Dylan ser o Nobel da Literatura deste ano é um dado que não me choca nem polemizo, enquanto cantautor de relevo na tradição cultural da música norte-americana, escritor de prosa poética e autor de uma obra autobiográfica. É mais conhecido como músico; ainda assim, mais influente na sua escrita do que muitos outros nomes agraciados com o mesmo prémio.
     Por mais marginais que possam ser perspetivadas no seio da obra literária, as letras de canção não deixam de ser um género de escrita entre os muitos que a literatura tem. No seu sentido mais elevado (‘stricto sensu’) ou no âmbito da paraliteratura / literatura popular (também “folk”) / infraliteratura, há sentidos estéticos de variação e variedade muito difusos, por certo; mesmo assim, literatura (no seu ‘lato sensu’), próxima que seja dessa proveniência derivante de ‘littera’ (letra) e da arte da escrita.

 Vídeo e letra de "Blowin' in the Wind", de Bob Dylan

     Parafraseando “Blowin' in the wind” (nessa metáfora dos anos sessenta do século XX, tão marcada pelo registo de protesto e intervenção, na procura da justiça social por que se lutava nesses tempos de inconformismo), apetece perguntar ‘How many roads must a man walk down / Before you can call him a ‘nobel’?


segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Fuga à vida ou vida à morte?

      104 anos depois, mantém-se a questão.

    Nome de referência local e nacional, Manuel Laranjeira é hoje lembrado pela morte que escolheu ao final de quase 35 anos de vida.
   Nascido no concelho de Vila da Feira (Mozelos) e oriundo de uma família pobre, Manuel Laranjeira teve um percurso de vida a tentar contrariar algum determinismo sociológico. Mais de três décadas de vida singraram-no à condição de médico, de intelectual ligado à escrita, à intervenção artística, social e política de então. Era o tempo entre a Geração de 70 (à data de nascimento) e os anos 20 do século seguinte, num Portugal saído da I Guerra Mundial (marcado pela crise constante em que vinha a sobreviver).
    Numa convergência de fatores (desde motivos mais contextuais a razões de carácter mais pessoal), não contrariou um pessimismo tão crítico para o país como fatal para uma visão da vida conjugada num misticismo e numa perspetivação estética, feitos de valores que tanto marcam o seu tempo como estão aquém e além dele.
  Disso mesmo trata a letra do "Fado Rezende (Ao morrer os olhos dizem)", recentemente identificada como produção de Manuel (Fernandes) Laranjeira. Investigações de Anjos de Carvalho, realizadas na década de 90 do século XX no âmbito do fado de Coimbra, e a publicação das quadras no livro Comigo. Versos dum Solitário (1912) atestam-no.
    Às palavras do escritor espinhense juntou-se a música do compositor Alexandre Rezende:

Vídeo de um espetáculo no Café de Santa Cruz (Coimbra)

 Ao morrer, os olhos dizem:
- «Pára, Morte, e espera aí!
Vida não vás tão depressa
Que eu inda te não vivi...»

E a Vida passa e a Morte
É que responde em vez dela:
- «Mas que culpa tem a vida
De que não saibam vivê-la?

    Um fado (ao estilo e registo da academia de Coimbra) para uma letra cujo autor ficou por largos anos incógnito. Quase como se fosse o fatum a negar-lhe a existência da obra, e talvez da vida. Ainda assim,  esta última acabou por ser determinada pelo próprio ser que, de alguma forma, traçou, por antecipação, o seu fim.

     Quem pode avaliar se alguém soube ou não viver a vida? Miguel de Unamuno, no prefácio das Cartas de Manuel Laranjeira, considerou que, ao seu amigo (que via mais como um "sentidor" do que pensador), "Matou-o a vida" e que, "ao matar-se, deu vida à morte!"

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Aproxima-se o Natal ou o natal

      Este é o natal que eu não queria.

     Vendo os que correm atrás da(s) última(s) compra(s), são também visíveis os que não saem à rua nem vão atrás dela(s); os que não correm porque permanecem deitados sobre um cartão (talvez de uma caixa de encomendas desses bens que outros compram numa loja qualquer), na melhor das hipóteses sob um cobertor, a esconder o frio, a fome e a vergonha.
     Então recordo a voz de Paulo de Carvalho, a música de Fernando Tordo e os versos de Ary dos Santos:

 
Vídeo de Fernando Filipe, para uma versão de "(Natal) Quando o Homem Quiser"

       QUANDO UM HOMEM QUISER

Tu que dormes à noite na calçada do relento 
numa cama de chuva com lençóis feitos de vento 
tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento 
és meu irmão, amigo, és meu irmão 

E tu que dormes só no pesadelo do ciúme 
numa cama de raiva com lençóis feitos de lume 
e sofres o Natal da solidão sem um queixume 
és meu irmão, amigo, és meu irmão 

Natal é em Dezembro 
mas em Maio pode ser 
Natal é em Setembro 
é quando um homem quiser 
Natal é quando nasce 
uma vida a amanhecer 
Natal é sempre o fruto 
que há no ventre da mulher 

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar 
tu que inventas bonecas e comboios de luar 
e mentes ao teu filho por não os poderes comprar 
és meu irmão, amigo, és meu irmão 

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei 
fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei 
pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei 
és meu irmão, amigo, és meu irmão 

Ary dos Santos, in As Palavras das Cantigas
([1989] 1995)

     Outras versões (e outras vozes) noutros tempos... e permanece o natal que já antes existia:

Versão do projeto musical 'Rua da Saudade'
(Gentes da Gente, numa montagem de César Azeitona)

     E, afinal, este natal persiste (há muito)...

     E não devia.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Em tempo de "Folhas Caídas"

      É verdade que estamos em pleno outono...

    A polissemia da expressão "Folhas Caídas" pode ser explorada na evocação desta estação; na desorganização de registos em papéis dispersos (espalhados pelo chão); na metáfora e no anúncio do ciclo final de uma vida. De tudo isto se compõe o título da coletânea poética de Almeida Garrett, enquanto obra associada à expressão outoniça, serôdia do sentimento e vivência românticos.

Uma outra forma de ler Folhas Caídas, de Garrett, segundo a (cerc)ARTE

     Perante um "Ignoto Deo" (poema de abertura) a funcionar como prólogo de toda a compilação, prenuncia-se a temática de uma idealidade, de um misticismo e um pendor religioso a todo o tempo pautados pela referência a termos maiusculizados (Deus, Nada, Beleza, Verdade, Essência, Existência > Ignoto Deo), sugerindo a dimensão abstrata, ideal, perfeita. 
    Contrariamente a esta linha, há que considerar a menção à beleza, ao amor e ao prazer (minúsculos e com a adjetivação "real beleza", "puro amor"), a par da referência a um ser marcado por um "espírito agitado", que "Só vive do eterno ardor", a "olho nu", a enganar e a errar. Estes são conceitos-chave para traduzir uma experiência relacional do 'eu' com um 'tu', em tudo semelhante à vivência homem-mulher. Assim, a noção de um amor eterno, moral e idealmente equacionado dá lugar a uma realidade e experiência mais terrenas do que celestiais, naquilo que se resume como uma "combatida / Existência".
    Em síntese, encontra-se aqui a trajetória, o percurso do herói romântico: dramaticamente dilacerado pelos conflitos e pelas oposições entre o céu / a terra, a idealização / a realidade, o tu / o eu, o encontro / a despedida. Ao encontrar um amor, o sujeito romântico vivencia e alimenta a instabilidade, o desequilíbrio que colocam o sentimento na iminência de uma despedida ("Adeus"). Esta é a ironia romântica revista em poemas construídos com a narratividade própria de um "eu" que experiencia situações e sentimentos feitos de estados antitéticos (sonho / ausência de amor; realidade / presença do amor, acompanhados de dor). Leia-se "Quando eu sonhava", "Aquela noite" e "Anjo Caído" - três poemas feitos de uma narratividade que mostra o sujeito poético nessa condição conflituante.
    Surge, então, o ciclo dramático de toda uma sequência de outras composições líricas que sublinham a contínua inquietação do "eu", a mover-se no terreno da contradição, da tensão e da constante procura. E porque no percurso feito há perigo e sedução, fica essa nota com o poema e a canção:


     BARCA BELA

Pescador da barca bela, 
Onde vás pescar com ela? 
      Que é tão bela, 
      Ó pescador!

Não vês que a última estrela 
No céu nublado se vela? 
      Colhe a vela, 
      Ó pescador! 

Deita o lanço com cautela, 
Que a sereia canta bela... 
      Mas cautela, 
      Ó pescador! 

Não se enrede a rede nela, 
Que perdido é remo e vela, 
      Só de vê-la, 
      Ó pescador!

Pescador da barca bela, 
Inda é tempo, foge dela 
      Foge dela 
      Ó pescador!

      Depois da composição romântica, a evocação da memória e da experiência de leitura com as cantigas de amigo é inevitável, numa aproximação ao cenário das barcarolas ou marinhas, à estrutura de refrão e ao gosto romântico pelo imaginário medieval.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

A cantiga que esteve para ser arma

      A cantiga é uma arma - assim se diz das que estão comprometidas com atos revolucionários.

    Em contexto de véspera do 25 de abril, muito se fala de "E depois do adeus" (cantada por Paulo de Carvalho), "Tourada" (por Fernando Tordo), "Grândola Vila Morena" (por Zeca Afonso). Muitas outras poderiam ser mencionadas, entre as que soaram ora nos dias anteriores ora nos que sucederam à revolução que fez vingar a democracia, pondo fim a uma ditadura de quase cinquenta anos.
     Documentado com os registos (de há quarenta anos) para memória futura, o radialista Manuel Tomás evocou-os hoje em entrevista televisiva (no Jornal 2). Tornados presente, neles se relembra como a canção "Grândola Vila Morena" esteve para ser "Venham mais cinco". A primeira, que foi a senha para a saída das forças armadas dos quartéis, só o foi pelo exercício de censura previsível sobre esta última.


         VENHAM MAIS CINCO

Venham mais cinco
Duma assentada
Que eu pago já
Do branco ou tinto
Se o velho estica
Eu fico por cá

Se tem má pinta
Dá-lhe um apito
E põe-no a andar
De espada à cinta
Já crê que é rei
D'àquém e D'àlém Mar

Não me obriguem
A vir para a rua
Gritar
Que é já tempo
D'embalar a trouxa
E zarpar

A gente ajuda
Havemos de ser mais
Eu bem sei
Mas há quem queira
Deitar abaixo
O que eu levantei

A bucha é dura
Mais dura é a razão
Que a sustem
Só nesta rusga
Não há lugar
Pr'ós filhos da mãe

Bem me diziam
Bem me avisavam
Como era a lei
Na minha terra
Quem trepa
No coqueiro
É o rei

     De um passado de que nos libertaram, seria bom que o presente não revivesse sinais dele, para bem de um futuro com esperança. 

      Começa na noite de hoje a manifestação popular em memória dos 40 anos do 25 de abril. A associação homónima, dos militares que lideraram o MFA (Movimento das Forças Armadas), fará amanhã uma cerimónia pública no histórico Largo do Carmo, homenageando Salgueiro Maia. Com eles é que o povo deveria estar, deixando orgulhosamente sós aqueles que vão mutilando o exemplo e o modelo de liberdade conquistados (pois, como diz a canção, "...há quem queira / Deitar abaixo / O que eu levantei") e que gostam da retórica que já nada significa para os governados.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Acordai... e... a cor dai

       Em tempos cinzentos escuros, de tanta crise, é preciso cor.

      Se nos anos sessenta do século XX havia a expectativa e nada mudava; se hoje se espera e pouco ou nada se alcança, o tempo repete-se.
     Também nos anos sessenta, Luís de Stau Monteiro, no seu Felizmente Há Luar!, punha na voz dos populares a frustração face às mudanças que não aconteciam. E na ânsia ou no temor da liberdade, lá figuram os interesses relacionados com a música: 


Sequência de slides sobre Felizmente Há Luar! - Entre o tempo representado e o(s) tempo(s) transposto(s) 
produção de Vítor Oliveira

     E ainda nos anos sessenta Fernando Lopes Graça e José Gomes Ferreira conjugaram a música e a poesia, para um "Acordai" que é um dos mais belos exemplares das cantigas de intervenção da história nacional.

Exibição do Coro de São Domingos

       ACORDAI

Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raiz

Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações

Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!
     
       Era tempo... melhor... É tempo de não só nos livrarmos de quem nos (des)governa mas também nos recordarmos de quem nos colocou neste desgoverno - duas faces para uma mesma moeda ou, então, muitas caras que não nos têm dado nenhuma moeda em troca. Só no-la tiram.

domingo, 10 de junho de 2012

Tudo muda...

    Em dia de Camões, de Portugal e das Comunidades, poderia centrar-me no Português e mostrar esta singularidade que o nosso país tem de apresentar um feriado para o seu dia e o do seu poeta universal.

    Ora, o condicional já tudo disse: não vou restringir-me à nossa língua, à nossa cultura nem ao nosso poeta, apesar de o feriado assim o indicar.
   Tempos houve em que Camões, hoje celebrado como símbolo de uma língua, de um país e de uma comunidade, era conhecido como o príncipe dos poetas da "Hispânia", numa referência clara à Península Ibérica e ao que na época quinhentista era mais proximidade do que distância. Na corte portuguesa conviviam as duas línguas (português e castelhano), em tempos que havia bons ventos e bons casamentos.
    Neste sentido, e relembrando o soneto camoniano "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades", revisito o espanhol e o poeta chileno Julio Numhauser, mais o poema "Todo cambia" (1982) na voz da argentina Mercedes Sosa ("La Negra").


        
    TODO CAMBIA

Cambia lo superficial
Cambia también lo profundo
Cambia el modo de pensar
Cambia todo en este mundo

Cambia el clima con los años
Cambia el pastor su rebaño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño

Cambia el más fino brillante
De mano en mano su brillo
Cambia el nido el pajarillo
Cambia el sentir un amante

Cambia el rumbo el caminante
Aunque esto le cause daño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño

Cambia, todo cambia
Cambia, todo cambia

Cambia el sol en su carrera
Cuando la noche subsiste
Cambia la planta y se viste
De verde en la primavera

Cambia el pelaje la fiera
Cambia el cabello el anciano
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño

Pero no cambia mi amor
Por mas lejos que me encuentre
Ni el recuerdo ni el dolor
De mi tierra y de mi gente

Y lo que cambió ayer
Tendrá que cambiar mañana
Así como cambio yo
En esta tierra lejana. 


Vídeo com a interpretação de Mercedes Sosa

   A mudança de um regime ditatorial, a mudança de um tempo que subsiste a desgosto de muitos (os que assistem à passagem dos dias, os que se apartam, os que dão paz em troca de tormento, os que desistem para viver de lembranças).

   Porque o tema camoniano é tópoi da literatura universal; porque este se faz de música e poesia; porque o desejo da mudança é uma constante, porque a mudança na terra e no país se impõem, porque o que muda também pode ficar...
    

terça-feira, 24 de abril de 2012

Sonho, vontade, vida...

    Na véspera da revolução e nos tempos anteriores a ela, muitas eram as mensagens voltadas para a ação - a vontade da realização, da afirmação de abril.

    A manhã e o dia viriam, depois de muitas lutas, de muitos sofrimentos e de se fazer sublinhar que "o sonho comanda a vida".


    Nestas palavras de António Gedeão (pseudónimo do professor de Física Rómulo de Carvalho) ecoava a vontade da mudança. Se a pedra filosofal (Lapis Philosophorum) era um dos principais objetivos dos alquimistas humanos medievais (em geral na Idade Média), muito se devia ao facto de se pretender, através dela, transmutar qualquer metal inferior em ouro ou mesmo seres do reino animal sem sacrífico de qualquer natureza. Outros viam nela o elixir da vida eterna, para lá de interpretações que a libertavam do físico e a posicionavam no plano espiritual. Era o plano do desejado, da forte vontade de concretização de um ideal.
    No poema, refere-se a Passarola Voadora, a lembrar Memorial do Convento, de Saramago - esse espaço alternativo onde ciência, trabalho, amor puro, visão e harmonia se conjugaram numa sociedade (a dos três Bs: Baltasar, Blimunda e Bartolomeu) construída a partir de um sonho, da vontade de constituir uma dimensão livre das desigualdades sociais, do ocultismo, da profanação dos valores humanistas, da farsa do poder, da perseguição dos que pudessem ter um entendimento distinto do oficialmente estabelecido. 
    É certo que o sonho comanda a vida, tal como a falta dele, do desejo, da vontade antecipa a morte. Faz, como o diz Blimunda, parecer morto aquele que na vida está.
    Abril veio. Terá ficado?

    Palavras sábias de quem tem uma perspetiva, uma visão, uns olhos que veem para além do comum mortal (e que tem tudo de verdade, por mais que elas surjam na dimensão do ficcional). Talvez a morte não esteja nem antes nem no fim da vida. Está na própria vida e no que nela e dela se perde. 

sábado, 6 de novembro de 2010

Canto poético (para o optimismo): No teu poema

      Reencontro com um poema, uma voz e uma melodia feitos para seduzir.

     Pouco há para dizer quando o que é conhecido, de repente, faz diferença.
    Embalado pela melodia, dando atenção às palavras e apreciando a interpretação, a sedução acontece. Desvela-se a beleza do que sempre esteve ao pé e na memória, na composição e na letra de José Luís Tinoco.


      NO TEU POEMA 

No teu poema
Existe um verso em branco e sem medida
Um corpo que respira, um céu aberto
Janela debruçada para a vida

No teu poema
Existe a dor calada lá no fundo
O passo da coragem em casa escura
E, aberta, uma varanda para o mundo.

Existe a noite
O riso e a voz refeita à luz do dia
A festa da Senhora da Agonia
E o cansaço
Do corpo que adormece em cama fria.

Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.

No teu poema
Existe o grito e o eco da metralha
A dor que sei de cor mas não recito
E os sonos inquietos de quem falha.

No teu poema
Existe um canto, chão alentejano
A rua e o pregão de uma varina
E um barco assoprado a todo o pano.

Existe um rio
O canto em vozes juntas, vozes certas
Canção de uma só letra
E um só destino a embarcar
No cais da nova nau das descobertas.

Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.

No teu poema
Existe a esperança acesa atrás do muro
Existe tudo o mais que ainda escapa
E um verso em branco à espera de futuro.


    Interpretações como as de Carlos do Carmo, Simone de Oliveira, Dulce Pontes ou Mafalda Arnauth são a prova de como há palavras que, em diferentes vozes, não perdem qualquer beleza ou nota de optimismo nos versos (também feitos dos seus reversos).

     Em tempos críticos, o canto poético convoca alguma da magia que se perde... e a esperança de "um verso em branco à espera do futuro".   


segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O Outro (Português e Brasil de mãos dadas)

       As palavras são de um português; a música de uma brasileira. Em comum a língua e o Homem.

      Pessoa dizia, de Mário de Sá-Carneiro, que não teve biografia, só génio; que viveu o que disse. O companheiro pessoano no Modernismo, que se autocaracterizou como um "castrado de alma", explorou o tema da angústia até ao final da vida, à qual pôs término com apenas 26 anos. 
      A ideia do Eu e do Outro tornou-se tema para expressão do desconhecimento face à representação de si mesmo; da aspiração à diferença do ser na existência; da partilha angustiada e entediada "do que está ao pé".


    Eu não sou eu nem sou o outro,
    Sou qualquer coisa de intermédio:
    Pilar da ponte de tédio
    Que vai de mim para o Outro.
Lisboa, Fevereiro de 1914

    Quatro versos para um narcisismo sacrificado a ponto de, tal como na expressão de Plauto - em Báquides (IV, 7-18) -, morrer jovem o que os deuses amam. Não tinha de necessariamente ser assim.
    

domingo, 1 de agosto de 2010

Poesia, voz e fado

   Para lembrar que "Há palavras que nos beijam".
  
    Nos versos de Alexandre O'Neill combinam-se os sons e a voz que Mariza faz chegar aos nossos ouvidos, na composição musical de Mário Pacheco. Assim se casa poesia, voz e fado.


          Há palavras que nos beijam

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.


De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.


(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)


Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Alexandre O'Neill, in No Reino da Dinamarca (1958)

      A mesma composição surge com um outro casamento vocálico e rítmico, que pode ser encontrado neste fado de Cristina Branco:


      Em cinco quadras de verso livre, alguns a rimar e outros nem por isso, ressalta uma linguagem acessível na apologia das palavras, das que são portadoras dos sinais de afetividade e felicidade; das que não dão lugar ao desgosto; das que materializam "O nome de quem se ama" (independentemente do suporte).
        Entre a expressão do bem e o sentido de liberdade, surgem as palavras positivas, como se de amor, de poesia e de magia se tratasse. E na confluência destes há cor, sensações que libertam / valorizam o Homem.

       Mais uma razão para se passar "Das palavras aos actos" (que, feitos de palavras que nos beijam, são menos moralistas e mais afectivos).

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Chamar a música

     Alguns dias depois de "Quem me quiser", aí vai uma forma de reencontro.

     Depois da poesia, a música... Chamar a música.


   CHAMAR A MÚSICA

Esta noite vou ficar assim
Prisioneira desse olhar
De mel pousado em mim
Vou chamar a música
Pôr à prova a minha voz
Numa trova só p'ra nós

Esta noite vou beber licor

Como um filtro redentor
De amor, amor, amor
Vou chamar a música
Vou pegar na tua mão
Vou compor uma canção

Chamar a música
A música
Tê-la aqui tão perto
Como o vento no deserto
Acordado em mim
Chamar a música
A música
Musa dos meus temas
Nesta noite de açucenas
Abraçar-te apenas
É chamar a música

Esta noite não quero a TV
Nem a folha do jornal
Banal que ninguém lê
Vou chamar a música
Murmurar um madrigal
Inventar um ritual

Esta noite vou servir um chá
Feito de ervas e jasmim
E aromas que não há
Vou chamar a música
Encontrar à flor de mim
Um poema de cetim


     A música, a letra, a voz. Um exemplo de como poesia casa com música e voz. Assim chegámos à Europa, em 1994.

     Poetisa? Rosa Lobato de Faria, a mesma que, na simplicidade das palavras que dominou, escreveu a multiculturalidade de um povo a que pertenceu: "Que povo é este que partiu / E foi dobrar o Bojador? / Este povo que sentiu o feitiço, o desafio / De inventar um novo amor. / Das mãos unidas nasce a flor / E cada beijo sabe a paz. / Quando a alma sente o amor / Tenha o corpo qualquer cor / Preto ou branco tanto faz."

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Entre Sena e Sara

     Entre o aniversário de um grande poeta e uma belíssima música de Sara Tavares.


    Faria anos um dos grandes poetas da língua portuguesa - Jorge de Sena. Noventa anos para alguém acabado de regressar à sua terra pátria e que nos deu a conhecer...


      Uma pequenina luz

Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla... em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indefectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha.
Jorge de Sena, 25 /09/1949
in Fidelidade (1958)

      Encontro-me, entretanto, com um "Ponto de luz" que apazigua o ser.




  PONTO DE LUZ

Escutando no vento
Tua voz secreta
Que me sopra por dentro
Deixa-me ser só ser

No teu colo eu me entrego
Para que me nutras
E me envolvas
Deixa-me ser só ser

Um ponto de luz
Que me seduz
Aceso na alma

Por trás dessa nuvem
Ardendo no céu
O fogo do sol rai
Eternamente quente
Liberta-me a mente
Liberta-me a mente

Sara Tavares

     Ambos na senda da luz - da pequenina luz ao ponto de luz. A voz e o verso dos grandes, nessa poesia também feita de música libertadora. Luz para os nossos dias feitos de cansaço.


sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Povo, Pessoa e Fado

   Palavras de um poeta na voz de uma fadista.

   No cenário mítico de Belém, um dos sinais dessa Lisboa (pre)destinada ao "Quinto Império".


Há uma música do Povo,
Nem sei dizer se é um Fado
Que ouvindo-a há um ritmo novo
No ser que tenho guardado

Ouvindo-a sou quem seria
Se desejar fosse ser
É uma simples melodia
Das que se aprendem a viver

Mas é tão consoladora
A vaga e triste canção
Que a minha alma já não chora
Nem eu tenho coração

Sou uma emoção estrangeira,
Um erro de sonho ido
Canto de qualquer maneira
E acabo com um sentido!


                                                              Fernando Pessoa

   O tópico da música, pela harmonia e pela fluidez que sugerem, é para Pessoa um traço do universo idealizado, da inconsciência (pretendida) liberta dos sentidos. É a entrada para o plano do "sou quem seria / se desejar fosse ser". Porém, como ser não é desejar, é existir, a música é ouvida (captada pela dimensão física dos sentidos) e processa a transformação no ser: caminha da existência e consciência limitadoras para a essência, a alma inconsciente e libertadora. O coração, o sentimento, a emoção dão lugar à intelectualização do sentir ("uma emoção estrangeira") - não a emoção vivida, mas uma outra, imaginada, feita do "sentir com a imaginação". E, assim, o fingimento poético se afirma -  na construção de uma alternativa ao real.

   Silêncio: porque se cantou e orquestrou o fado, com voz alada, sobre um terraço virado para o Tejo (e sobre esse "outra coisa ainda. /Essa cousa é que é linda!", como o diria Pessoa em 'Isto').

sábado, 8 de agosto de 2009

... Longe como o mar está no céu

       A vida faz-se de reencontros...

   São pessoas, são leituras, são sentimentos, são músicas... muitas vezes feitos com problemas de expressão.



   PROBLEMAS DE EXPRESSÃO

só para dizer que te amo
nem sempre encontro o melhor termo
nem sempre escolho o melhor modo

devia ser como no cinema
a língua inglesa fica sempre bem
e nunca atraiçoa ninguém

o teu mundo está tão perto do meu
e o que digo está tão longe
como o mar está do céu

só para dizer que te amo
não sei porquê este embaraço
que mais parece que só te estimo

e há até um momento em que digo o que não quero
e o que sinto por ti são coisas confusas
e até parece que estou a mentir
as palavras custam a sair
não digo o que estou a sentir
digo o contrário do que estou a sentir

o teu mundo está tão perto do meu
e o que digo está tão longe
como o mar está do céu

e é tão difícil
dizer amor
é bem melhor dizê-lo a cantar

por isso esta noite fiz esta canção
para resolver o meu problema de expressão
p'ra ficar mais perto
bem mais de perto
ficar mais perto

bem mais de perto

    A solução estará na música, nessa harmonia de sons que apazigua o ser? Assim o sugeriu Shakespeare quando, no discurso da loucura do seu Richard II, lembrou que aquela pode aquietar e dignificar; trazer a serenidade, o equilíbrio ("it have holp madmen to their wits").