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sábado, 24 de janeiro de 2026

Acentuar o que não se deve

       Dizem as gramáticas (sim)...
       
       Nem a palavra nem a sílaba são graficamente acentuadas. 
    Monossílabos tónicos terminados em "u" (por exemplo, "tu") não são acentuados; só os terminados em "a", "e", "o" (seguidos ou não de "s" - como  "vás", "pés", "cós"). Registe-se: nada a ver com "u"(s).
     "Recuo" (conforme o contexto frásico, ora nome ora forma verbal na primeira pessoa do singular do presente do indicativo) também não tem acento. Trata-se de uma palavra paroxítona (grave), tipicamente não acentuada, terminada com o hiato "uo" a não receber acentuação gráfica, tal como outras afins: "arguo", "atuo", "amuo", "duo", "usufruo".
        Espantosamente (ou não), leio em noticiário televisivo (da TVI) o que não devo:

Razões e lições do absurdo: sejam as de Trump sejam as de quem escreve na televisão (Foto VO)

      Se linguisticamente o erro está instalado, fica a positividade do anunciado: o disparate "trumpesco" (de querer comprar a Gronelândia ou de simplesmente tomar posse dela) parece não vir a ter lugar (Será?). Assim deve ser (ao contrário da acentuação)!
       Tanto pelo que o "trumpalhão" pretendia como pelo que se escreveu, há razões e lições que nem ao diabo lembra.

       ... o que certos utilizadores não fazem (pena)!

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Noite ou manhã escuras à espera do templo

      Acordar com a prisão de Nicolás Maduro.

      Seja essa a expressão para pôr fim a quem encabeçava, até ontem, na ação ou na concessão, uma situação que não dignificava todo um povo a gritar por liberdade; a mostrar a possibilidade de um outro caminho, entretanto barrado pelo autoritarismo imposto por um regime pouco ou nada democrático; só discursivamente popular.
     A esperança e a resistência venezuelanas são a afirmação da possibilidade; são o sentido daquilo que não se quer vivido e se deseja mudar: despotismo, injustiça, desigualdade, oportunismo.
      Seja esta a oportunidade que não se quer perdida!
     Ainda assim, no meio das celebrações, quero continuar a acreditar que os fins não justificam os meios usados. Nascido o dia, sinto que continuo na escuridão. Por isso, lembro vozes e música portuguesas a sinalizar o caminho: "que o amor nos salve nesta noite escura".

Composição para as "noites escuras" vividas fora do "templo do mundo", com as vozes de
Pedro Abrunhosa e Sara Correia (programa televisivo "Em Casa d' Amália", 10-11-2023 - RTP1)

      Mais um passo para a "trumpalhada" que vivemos - uma noite muito escura, onde as estrelas tudo têm de brilho falacioso, pautado por interesses extremados e extremistas: "uma luz que cala". Quero acreditar que "ninguém nesta terra é dono do templo", que "ainda há frutos sem veneno".
       Seja este o dia feito "semente [que] será fruto pela vida fora."

     Não se aplauda ou legitime o que, sendo dito, não é senão o interesse de alguns ou de quem o diz - afinal, não muito diferente do que já existia e, talvez, se tenha derrubado ilusória ou momentaneamente.

quarta-feira, 30 de abril de 2025

Literatura a antecipar a realidade

   Quando há dois dias, pelo final da manhã, se viveu o apagão em Portugal e na Espanha, lembrei-me de um livro.

    O incidente foi anunciado como "cyber attack", sinal de guerra, conspiração, falha de satélite, quebra de energia (prolongada) que não deixou de gerar pânico, preocupação, surpresa, consciência de que estamos muito mal habituados nessa garantia de que tudo temos e a todo o tempo nos vemos desarranjados na vida.
   A estabilidade da rede elétrica nacional foi vivida como incerta, e há quem afirme que a Inteligência Artificial (IA) já prenuncia novas ocorrências nos próximos anos. Um verdadeiro pandemónio (depois da pandemia que nos atrofiou)!
    Leitor atento diria que não precisa das "tecnologias sapientes" que tantos idolatram. Não há razão para espanto, quando, já em 1986, Saramago tinha escrito na sua Jangada de Pedra o seguinte (terceira divisão narrativa, na edição de 1986, páginas 37-38):

Excerto do romance do Nobel português, prenunciador do "apagón" peninsular

     O que aconteceu a 28 de abril do ano corrente teve repercussões ibéricas transversais, deixando a península à deriva e com impactos significativos em vários setores (nas casas, nas escolas, nos hospitais, nas empresas, no país, na península). Comunicações, proximidades e imediatismos ficaram comprometidos - certezas, dados adquiridos que deixaram de o ser e revelaram como nos tornamos frágeis e instáveis de um momento para o outro.
     Não se separou a península do resto da Europa, como na obra do Nobel português (por isso, não se pode afirmar que se tenha feito jangada), mas parecia termos recuado a um tempo (parecia ser o da pedra) feito de nada, com tudo à mão, mas por funcionar.
     Qual personagem romanesca, num fim de dia em que chegava a casa sem energia nem luz, revi-me numa passagem ilustrativa de alguns gestos e instantes já vividos, lidos e relembrados:
 
Mais um excerto do romance saramaguiano, prenunciador do "negrum" e da retoma da normalidade

     Quase quarenta anos depois, a página de um livro deixou de ser ficção. Qualquer semelhança com a realidade não foi pura coincidência nem puro exercício de imaginação. Durou mais do que quinze minutos e foi em abril (que dizem ter águas mil e ficou sem luz)! Não espanta que, como epígrafe do romance saramaguiano e citando Alejo Carpentier, se possa ler e dizer "Todo futuro es fabuloso".

sábado, 1 de março de 2025

A cegueira dos trapos, dos retalhos (ou dos fatos)

     Depois do dia de ontem e do tema dos fatos no encontro Trump - Vance / Zelenksy, lembrei-me da "importância" dos trapos.

      Cerca de 470 anos depois, a leitura do Sermão de Santo António (produzido a 13 de junho de 1654, em S. Luís de Maranhão) ganha uma configuração contextual distinta, mantendo a atualidade do tema dos "trapos" (hoje diria, dos fatos) e de como estes "cegam" alguns homens (que mais parecem tubarões brancos ou tigres, bem irracionais para qualquer ser humano).
     Porque não usa um fato? - pergunta um jornalista próximo de uns vaidosos galhofeiros - com mania de poderosos -, enfatuado, numa postura tão doentia e viciosa quanto "cega" dos afins. Atirando areia para os olhos dos (tel)espectadores, procura fazer crer que no "trapo" está a diferença. Triste vaidade ou presunçosa autoridade que nem todos seguem. Ainda bem!
       Lembre-se o trecho vieirino, no capítulo IV (Repreensões em geral):
 
  "Toma um homem do mar um anzol, ata-lhe um pedaço de pano cortado e aberto em duas ou três pontas, lança-o por um cabo delgado até tocar na água, e em o vendo o peixe, arremete cego a ele e fica preso e boqueando, até que, assim suspenso no ar, ou lançado no convés, acaba de morrer. Pode haver maior ignorância e mais rematada cegueira que esta? Enganados por um retalho de pano, perder a vida? Dir-me-eis que o mesmo fazem os homens. Não vo-lo nego. Dá um exército batalha contra outro exército, metem-se os homens pelas pontas dos piques, dos chuços e das espadas, e porquê? Porque houve quem os engodou e lhes fez isca com dois retalhos de pano. A vaidade entre os vícios é o pescador mais astuto e que mais facilmente engana os homens. E que faz a vaidade? Põe por isca nas pontas desses piques, desses chuços e dessas espadas dois retalhos de pano, ou branco, que se chama Hábito de Malta, ou verde, que se chama de Avis, ou vermelho, que se chama de Cristo e de Santiago, e os homens por chegarem a passar esse retalho de pano ao peito, não reparam em tragar e engolir o ferro. E depois disso que sucede? O mesmo que a vós. O que engoliu o ferro, ou ali, ou noutra ocasião ficou morto; e os mesmos retalhos de pano tornaram outra vez ao anzol para pescar outros. Por este exemplo vos concedo, peixes, que os homens fazem o mesmo que vós, posto que me parece que não foi este o fundamento da vossa resposta ou escusa, porque cá no Maranhão, ainda que se derrame tanto sangue, não há exércitos, nem esta ambição de Hábitos.
     Mas nem por isso vos negarei que também cá se deixam pescar os homens pelo mesmo engano, menos honrada e mais ignorante-mente. Quem pesca as vidas a todos os homens do Maranhão, e com quê? Um homem do mar com uns retalhos de pano. Vem um Mestre de Navio de Portugal com quatro varreduras nas lojas, com quatro panos e quatro sedas, que já se lhe passou a era e não têm gasto; e que faz? Isca com aqueles trapos aos moradores da nossa terra: dá-lhes uma sacadela e dá-lhes outra, com que cada vez lhes sobe mais o preço; e os Bonitos, ou os que o querem parecer, todos esfaimados aos trapos, e ali ficam engasgados e presos, com dívidas de um ano para outro ano, e de uma safra para outra safra, e lá vai a vida. Isto não é encarecimento. Todos a trabalhar toda a vida, ou na roça, ou na cana, ou no engenho, ou no tabacal; e este trabalho de toda a vida, quem o leva? Não o levam os coches, nem as liteiras, nem os cavalos, nem os escudeiros, nem os pagens, nem os lacaios, nem as tapeçarias, nem as pinturas, nem as baixelas, nem as jóias; pois em que se vai e despende toda a vida? No triste farrapo com que saem à rua, e para isso se matam todo ano.
      Não é isto, meus peixes, grande loucura dos homens com que vos escusais? Claro está que sim; nem vós o podeis negar. Pois se é grande loucura esperdiçar a vida por dois retalhos de pano, quem tem obrigação de se vestir, vós, a quem Deus vestiu do pé até à cabeça, ou de peles de tão vistosas e apropriadas cores, ou de escamas prateadas e douradas, vestidos que nunca se rompem, nem gastam com o tempo, nem se variam ou podem variar com as modas; não é maior ignorância e maior cegueira deixardes-vos enganar ou deixardes-vos tomar pelo beiço com duas tirinhas de pano? Vede o vosso Santo António, que pouco o pôde enganar o mundo com essas vaidades. Sendo moço e nobre, deixou as galas de que aquela idade tanto se preza, trocou-as por uma loba de sarja e uma correia de Cónego Regrante, e depois que se viu assim vestido, parecendo-lhe que ainda era muito custosa aquela mortalha, trocou a sarja pelo burel e a correia pela corda. Com aquela corda e com aquele pano, pescou ele muitos, e só estes se não enganaram e foram sisudos."

       Não é um fato que põe fim à guerra nem a ausência dele a alimenta. Também não é um fato que faz de algum ser um senhor respeitável - alguns há que o vestem e não fazem jus nem à posição que têm nem à hombridade ou urbanidade que deveriam revelar enquanto seres humanos. Porém, há quem nele queira ver o mal do mundo.
    A inteligência humana não é forte, poderosa, quando encontra subterfúgios, estratagemas, ardis humilhantes (como os da retórica centrada em pedaços de pano, de um fato, ou de qualquer outra peça de roupa encarada como suposto sinal de seriedade, respeito ou dignidade).
     Felizmente, ainda há quem não se deixe iludir pelo "fato", pelo retalho de um tecido, que, na verdade, não passa de engodo; alguém que tem a determinação e a coragem de assumir uma indumentária que, no seu profundo simbolismo, diz mais do que a fatiota nas "negociatas" de uns vaidosos (Vieira diria "Bonitos", só ironicamente maiusculizados e/ou assim considerados) a impor acordos de minérios (tal qual o ferro do anzol, na matança de muitos peixes), em sala tão ovalada quanto a de ovo de serpente. Autênticos energúmenos.

      O visionário Padre António Vieira abordou metafórica e alegoricamente, num sermão, a corrupção da sociedade do seu tempo, muito dispersa por espaços intercontinentais; hoje persiste quem procure engodar, também na intercontinentalidade, a rendição de um país e de um povo recorrendo à necessidade de um fato, enquanto sinal de legitimidade e dignificação nos atos. Não sejam os "homens de fato", estes sim, a conduzir a humanidade para outra(s) guerra(s)!

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

Final do mês com espetáculo triste, indigno, revoltante

      Fevereiro não podia terminar na pior forma.

      Depois de assistir ao espetáculo televisivo oferecido na Sala Oval dos Estados Unidos da América, a trumpalhada é notória: suspeição, manipulação, humilhação, traição e descrédito completos por quem acusa uma vítima da maior das atrocidades. Se alguém é responsável por brincar com nova guerra mundial, não é necessariamente Volodymyr Zelensky.
       Neste dia, só me apetece registar que a Europa, pelo azul da bandeira e pelas estrelas amarelas, tem de se unir por um povo seu:

Bandeira da Ucrânia com o tridentado brasão nacional

     Saber que tudo começou há três anos é consciência de um mal, de um inferno que a humanidade tem vivido, nada podendo apagar a perda de vidas causada por quem procura defender-se de uma invasão ilegal. 
     O episódio televisivo indigno de hoje tem de sublinhar como uma monstruosa bicefalia vestida de fato procurou tragar, vender valores e princípios de um país e de um povo democráticos, em detrimento de um imperialismo autoritário e/ou de uma negociata de minérios que, felizmente, não foi concretizada.
     Pensar que os Estados Unidos da América têm origem numa constituição inspirada na procura, na busca da "Terra Prometida"; num "Go West" feito de aspiração, conquista, liberdade, felicidade e oportunidade! 
      Tudo começa a parecer uma miragem. Ou será já marca de um Puritanismo (re)mascarado de que os "Pilgrim Fathers" se quiseram afastar? 

     Talvez os portadores dos bonés "Make America Great Again" - frequentadores da Sala Oval, com / sem crianças ou criancices - necessitem de, primeiro de tudo, respeitar o lugar que ocupam e aqueles que recebem ou convidam para o seu território.

domingo, 3 de novembro de 2024

Da ilusão do poder

    No cruzamento de várias teorias sobre o poder nas organizações, há (tem de haver) sempre o momento da relativização, da discussão e da contestação do mesmo.

      Autores como French Jr. e Raven, no final dos anos cinquenta, identificaram cinco tipos de poder assentes numa perspetiva social (tendo em conta a fonte de poder, bem como a relação entre o seu portador e um outro agente / ator organizacional): poder de recompensa, coercitivo, legítimo, do especialista e de referência. 
       A ilustração seguinte exemplifica bem, no foco do portador, o que se denomina de coercitivo:


Uma reflexão "poderosa" acerca do exercício de poder

    Há algum sentido de justiça e de recompensa, pelo foco de uma contingência que o portador não considerou e, nesse sentido, o fez perder autoridade legítima / legitimada (por mais racional-legal ou tradicional que fosse, de acordo com o modelo organizacional de Weber). 
     Sem o poder de especialista ou de referência configurado, num eventual exercício de controlo de recursos (raros), pode lá uma flor ou planta  sobreviver com "líderes" do calibre de Calvin!
      Reconheça-se que, nas organizações, existem sentidos difusos de poder, a vários níveis; de partilha, de concertação em que a comunicação pode e faz a diferença. Entenda-se que nenhum "poderoso" tudo controla e que fatores contingenciais podem contribuir para a regulação de excessos. 

       Neste mundo, tem de haver (esperança vã?) chuva a limpar quem se revela ditadorzeco e manipulador de opinião, com evidentes sinais de egocentrismo, de atos e de linguagem rude, grosseira, desacreditada pelos valores democráticos, de participação e inclusão (mesmo quando alguém o[s] legitima para o exercício de poder).

segunda-feira, 30 de setembro de 2024

Caminhada literária com Sophia

       A fechar setembro, o sol e a poesia animaram os caminhantes, fazendo a diferença dos dias.

     Éramos mais de quarenta. Seis quilómetros de ida e vinda, ao longo do passadiço marítimo a ligar Espinho à Granja, foram o percurso traçado, na passada poética de uma obra em vários pontos declamada - uma atividade promovida pela Coordenadora e pelas professoras bibliotecárias do Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira, no âmbito da Rede Interconcelhia de Bibliotecas Escolares de Entre Douro e Vouga. Estiveram presentes a Coordenadora Interconcelhia, Diretores do Centro de Formação do AVECOA e de Terras de Santa Maria, a representante para a Autonomia e Flexibilidade Curricular do Centro de Formação Aurélio da Paz dos Reis, representantes do SABE de Santa Maria da Feira, Vale Cambra e Oliveira de Azeméis, bem como professores bibliotecários da área do Douro e Vouga.

   Pequena brochura com alguns poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

    Levei comigo o Livro Sexto (1962), para dar visibilidade a um livro e lembrar a contemplada com o "Grande Prémio de Poesia da Sociedade Portuguesa de Escritores", atribuído em 1964 (sessenta anos); o "Prémio Camões", pela primeira vez ganho por uma escritora, em 1999 (vinte e cinco anos); o "Prémio Rainha Sophia da Poesia Iberoamericana", em 2003 (vinte um anos). Autora há vinte anos falecida; há dez no Panteão Nacional. Recordaram-se histórias.
    Tudo começou com Poesia (1944), esse título de há oitenta anos que o crítico e professor de Literatura Pedro Eiras sublinhou como o mais justo dos títulos, para uma obra onde «Assim surgia uma língua, nova e límpida».
   Aproveitei o facto de estarmos junto ao mar; de inspirarmos esse sal de vida trazido por ondas, conchas e corais; de estarmos banhados de uma luz matinal; de nos dirigirmos a um lugar vivido por Sophia e os seus; de sentirmos uma Geografia (1961) feita de tempo, de sentimento, de humanidade.
       Evoquei "Manhã" (in Livro Sexto):

Como um fruto que mostra
Aberto pelo meio
A frescura do centro

Assim é a manhã
Dentro da qual eu entro.

       Assim, o fizemos. Entrámos na manhã (luz) e nessa maresia que é cheiro e toque desse elemento que inspira "Inscrição" (in Livro Sexto):

Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar.

     Uma imensidão que a limitação humana só pode atingir pela imaginação, pelo humanismo, pela humanidade, pela cultura, pela antiguidade greco-latina e pelo sentido de liberdade que a poeta (como se designava) também versou, narrou, representou na versatilidade de géneros e modos literários produzidos.
     Desafiei o grupo à leitura de pequenas composições, tantas vezes despercebidas entre poemas mais longos.  Tão pequenos (dísticos, tercetos) e tão poderosos na mensagem, no pensamento - quase parecem "haikus", no trabalho de uma palavra a traduzir a justaposição de imagens, de temas, interligados na experiência de vida, na sensorialidade do natural e da natureza, na sonoridade simples (in Ilhas, 1990):

Cumpridos os deveres compridos deixaram
De assediar minhas horas

Doce a liberdade retoma em si minha leveza antiga

      A sabedoria constrói-se também com movimento, do mar ou outro - vento, tempo, pessoas -, como se antevê em "Coral" (in Coral, 1950):

Ia e vinha
E a cada coisa perguntava
Que nome tinha

    A reflexão social plasmada na denúncia dos desfavorecidos e na ironia destinada aos seres racionais não impede que as origens aristocratas de uma biografia rimem com um apurado sentido de justiça, de luta pelo bem comum, de partilha e de generosidade (in "Epidauro 62" de Ilhas, 1989):

Oiço a voz subir os últimos degraus
Oiço a palavra alada impessoal
Que reconheço por não ser já minha

     Recuperei os cinquenta anos do "25 de Abril", nesse poema inicial dos tempos de liberdade e democracia, de luz e limpidez, afastando a noite e o silêncio.
     Numa irmandade de leitores, deu-se voz à obra que todos tinham à mão. Leituras singulares, experiências em coro, animadas por esquemas que não precisaram de qualquer ensaio. Só a vontade de ler, de viver a palavra, o ritmo, a voz, a companhia. A poesia uniu o que de melhor havia em todos. 
    Culminou a atividade num almoço concluído com a "Cantata da Paz" (in Canções com aroma de abril) - nunca melhor poema para os tempos de guerra que (ainda) vivemos.

       "Vemos, ouvimos e lemos / Não podemos ignorar ", repetidamente declamado a cada estrofe de lamento, violência e destruição, parecia uma oração trazida para o seio dos crentes, nessa religião tão necessária e tão nossa: a da paz e da poesia.

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Uma questão de imaginar!

        Circulam pelo Facebook imagens inspiradoras.

       Uma delas tem o título da canção de John Lennon, mais a imagem de rosto deste músico, com uma "anomalia narina". Há quem diga ser obra desse famoso desconhecido contemporâneo - Banksy -, mas nada tem sido provado nesse sentido (antes pelo contrário).

Arte de rua, lembrando a utopia (imagem colhida do Facebook: Imagine | Ha! Tea 'n' Danger (wordpress.com))

       Seja como for, é obra de parede, de arte urbana, bem ajustada aos nossos tempos: um hino a uma utopia, sempre necessária ao ser humano. Hoje, por razões óbvias, a imaginação está para um mundo sem pandemia:

 Imagine all the people
Living life in peace

...

Imagine all the people
Sharing all the world

        As palavras de Lennon, na sua voz ou na de Chris Martin, são um elixir para os dias tristes dos últimos tempos.

        Imagina o dia em que nos veremos livres da Covid-19!

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Depois do confinamento, o confinamento.

      Passa o tempo. O que muda?

      Mudaram os dias, as semanas, os meses e o ano. Mudou o clima. Como diria Camões, "Todo o mundo é composto de mudança".
      Passado o confinamento geral anterior, vem aí o confinamento, de novo. Dizem que é geral, mas até o sentido do 'geral' mudou. O certo é que também mudou (para muitos mais) o número de infetados, de internados, de mortos. Parece é que não mudou o comportamento inconsciente de algumas pessoas, das que promovem e insistem em celebrações, festas, ajuntamentos e proximidades impensáveis.
    Até ao final do mês (por ora), voltamos a um mesmo que não é bem o mesmo; permanecem a preocupação, o distanciamento, o isolamento, o receio, a angústia. 
      Apetece já a mudança, que não pode acontecer.
      Por isso...

Estratégias de sobrevivência 

       Digamos que a perspetiva é já outra. Vamos em frente, com a esperança de que é possível fazer melhor, para todos nós.

      Aproveita, Snoopy, enquanto não te mandam para dentro da casota!

domingo, 8 de novembro de 2020

Na perceção dos dias...

       O que os nossos olhos nem sempre deixam ver.

       Uma amiga partilhou uma foto que bem reflete os tempos que vivemos: o que vemos?

O olhar para além da foto (gentilmente cedida pela VL)

        Vi a flor, que a corola, as pétalas não enganam. A amiga acrescentou que viu pólen a brotar. 
       Diria que vimos a vida. É disso de que precisamos: não ficar condicionados pelo tempo e ver, em vez da beleza, a pior das fealdades. Doenças e vírus entorpeçam-nos, matam o nosso olhar, fazendo esquecer recortes e cores; atingem-nos na nossa vulnerabilidade.
      Houve, porém, quem não deixasse de reconhecer o coronavírus, de tão exposto que está (estamos) ao perigo, aos "espinhos" dos tempos. 
         A perceção é tão difusa! Vemos o que queremos, o que sentimos, o que está e o que não está.
    Então lembrei-me de Gedeão (não sei se pela física ou pela química pressentidas) e da sua "Impressão Digital":
António Gedeão (1906-1997)
Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não veem escolhos nenhuns.

Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns veem luto e dores,
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.

Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns veem pedras pisadas,
mas outros gnomos e fadas
num halo resplandecente.

Inútil seguir vizinhos,
que ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.

Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.

      Entre Sancho Pança e D. Quixote de La Mancha, tenho-os a ambos: vejo a flor sem deixar de admitir a associação ao mal vivido.

      Há, todavia, quem na sua arte de fotografia tenha olhos e a magia para nos deixar ver a poesia, a maravilha dos "gnomos e fadas". Obrigado, VL.

sábado, 7 de novembro de 2020

Depois da Liberdade, o Redentor...


      Apetece-me cantar o "That's the way / ha ha ha ha / I like it / ha ha ha ha..." (Ti ri ri ri ri ri ri ri ri).
      Tempo para dar o passo em frente: vamos lá, Brasil!

Liberdade e Cristo Redentor cumprindo a salvação!

     Tem que se aprender que a arrogância, a prepotência, a presunção, a boçalidade, o autoritarismo e a mentira não são virtudes nem exemplo para ninguém. Por mais que às vezes ganhem, precisam de saber que "não há mal que nunca acabe" (mesmo que o bem nem sempre dure).

      ... vamos tratar de um vizinho que gosta muito de imitar o mal.

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Está quase...!

       A cada dia, à espera...

       Será hoje?! Seria uma boa forma de acabar a semana: pôr fim ao circo político que há muito dura.
      A cada dia a brincadeira já começa a custar. É bom que alguém lhe ponha um fim. Espero que seja um americano, um só que faça a diferença! (Se forem mais, melhor!)
      Um pequeno filme resume bem o que fazer: pôr fim ao gozo do "trumpalhão".

Um herói para tirar a bola ao "trumpalhão" (transferido do Facebook)

     É verdade que quem espera desespera, mas prefiro a versão positiva: quem espera sempre alcança (venha a liberdade de toda a trumpalhada a que temos assistimos de há quatro anos para cá).
       Prepare-se a máscara para afastar o vírus:

A boa ação da Liberdade - cartoon de Vasco Gargalo

      Vá lá! Só mais uma esticadinha e depois...

      Largar!

terça-feira, 20 de outubro de 2020

De novo, as gavetas (sem Dalí)

         Percorria o Facebook, quando deparei com uma foto que me fez lembrar Dalí.

      Há tempos, foi postada imagem de um estudo, ensaio do pintor catalão surrealista, sublinhando-se o que ela sugeria de multiplicidade, diversidade na pessoa que cada um é. Ver a diversidade na unidade, o múltiplo no uno é um sinal da arte moderna. Na poesia, Fernando Pessoa também revisitou o tema, tanto pela linha da fragmentação do eu como pela abordagem da criação heteronímica.
       Mais contemporaneamente, a expressão surrealista do polaco Igor Morski (ilustrador, artista gráfico e pintor) apresenta variações do que me parece ser esse estudo de Dalí:

Exemplo de uma ilustração de Igor Morski (da série "Falha no Sistema")

        Somos gavetas de registos e de tempo, a todo o instante revividos, por nós ou por outros. Delas, mais ou menos abertas, vêm notas, apontamentos, memórias que, com maior ou menor organização, fazem parte de nós; fazem o miolo de um livro de que frequentemente só se vê a capa ou a lombada.
     Quando atrofiados ou confinados a um espaço ou uma prisão (seja ela mais real seja ela mais metafórica), tornamo-nos sombras do que pudéramos ter sido ou do que ainda somos.

        Da sensual postura à ilusória sombra, faz-se reflexão acerca da vida e de uma sociedade que vê no ser as gavetas que só a ela interessam.

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Tão a (des)propósito!

        Há coisas que, de tão sérias, acabam por se tornar ridículas. Alguém assim as faz.

      Com a crescente taxa de infetados do Covid-19, tornam-se necessárias algumas medidas que façam parar a proliferação deste vírus que se alastra, afeta, infeta, mata, sem que se consiga perceber por onde anda. Daí, contudo, a considerar que uma aplicação eletrónica pode ser a panaceia, nem ao Diabo lembra (particularmente quando a aplicação só é ativável em smartphones, nem para todos acessível, ou quando ela depende dos registos nela reportados).
      Anunciá-la como medida fundamental é, no mínimo, questionável; no máximo, discutível e inútil. Diria intolerável, quando de concretização prática não generalizável ou controlável.
      Começo a acreditar na razão de uma letra de canção:

Uma letra de canção "futurista" com uma máscara já anunciada no cantor (imagem colhida do Facebook)

      Conan Osíris, foste um visionário!
    Tudo porque o Stayaway Covid é encarado como uma solução estruturante para a questão. Enfim! (Entre os milhões que vêm da Europa, deve haver verba para entregar a cada português um smartphone compatível com a decisão governamental).

      Não sendo assim, é bom que se saiba que há quem não tenha comida para subsistir quanto mais para ter um smartphone. Há prioridades de ação human(itári)a que não podem passar por decisões segregadoras dos mais vulneráveis. Conceitos e decisões de democracia pouco sociais, viáveis ou sustentáveis.

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Quino: criador, crítico, cartoonista

      A morte chegou aos oitenta e oito anos e vai ficar na memória pela criança que criou.

    É incontornável a associação do argentino Joaquín Salvador Lavado (Quino) à criação da Mafaldinha, essa figura imaginada para um anúncio publicitário (que não chegou a ser difundido) a uma marca de eletrodomésticos. Não publicitou nada, mas acabou por conquistar o mundo da BD e do cartoon.
      Nascido em Espanha, aos dezoito anos (1954) Quino passou a viver em Buenos Aires, em condições que se diz terem sido precárias; cerca de dez anos depois veria algum sucesso com o nascimento dessa criatura infantil na idade, mas adulta nas reflexões - uma menina que quer ser tradutora da ONU (para transformar, no governo do mundo, os insultos em elogios); odeia sopa; idolatra os Beatles; gosta muito da paz, dos direitos das crianças e de ler.
      Com os olhos e as falas desta desconcertante personagem, sábia e contestatária, emerge muito do pensamento do autor, numa reflexão atenta e crítica da atualidade não só argentina como também internacional, com temas como a (des)ordem e o (des)governo do mundo; a luta de classes, o capitalismo e o comunismo; a pobreza e as injustiças sociais; a liberdade e a reivindicação de direitos, entre outros.
        Em tempos de gripes e de contágios, uma tira do diálogo Mafalda-Filipe é bem exemplificativa de uma atualidade e pertinência evidentes:

Tira da Mafalda 1 - Quino

        Ao contrário do Filipe, hoje gostaria de evitar algumas "modernices" nos sacrifícios que se nos impõem. Apetece-me ser Mafalda e gritar:

O grito da revolta da Mafalda em tempos de contágio

    Distinguido com o Prémio Príncipe das Astúrias de Comunicação e Humanidades (2014), eis um crítico do mundo a ver a balbúrdia deste e a reconhecer que não deixa de valer a pena nele viver. RIP.

sábado, 11 de julho de 2020

O "Arcus" do céu

    Ao final do dia, a imagem do céu era estranha.

  Mais propriamente via-se nele uma nuvem tão diferente do comum! Era uma espécie de rolo entrelaçado, vindo das profundezas do mar, subindo ao ar e esticando-se no sobrevoo da terra.

O 'Arcus' nos céus de Espinho (Foto VO)

  Tempos houve em que se podia falar de um monstro ou de uma serpente marinha, pronto(a) a tragar marinheiro, pescador ou humano que desafiasse domínio que não é naturalmente seu.
    Hoje diz-se que é um fenómeno atmosférico geralmente associado a uma nuvem baixa e horizontal, tipicamente surgindo como “frente de rajada” à saída de uma tempestade. Só que não havia tempestade. Apenas um dia quente, com alguns sinais aqui e ali de uma trovoada seca.

    Era tempo de final de dia, com uma brisa de mar agradável e as marcas de que um belo dia de praia não está livre dos sinais das intempéries.

terça-feira, 5 de maio de 2020

Dia Mundial da Língua Portuguesa - Língua-Mar

     Enquanto idioma dos mais falados no planeta, já merecia a consagração de um dia.

   Hoje, por iniciativa da Organização das Nações Unidas para a Educação Ciência e Cultura (UNESCO), celebra-se pela primeira vez o Dia Mundial da Língua Portuguesa. A partir daqui, o 5 de maio consagra o nosso idioma no panorama dos calendários internacionais, projetando-o numa comunhão e comemoração a todo o tempo renovadas, enquanto símbolo maior da comunicação e cooperação entre a comunidade lusófona. 

Imagem colhida do Portal de Promoção da Língua Portuguesa 
(Reitoria da Universidade do Porto)

     De origem no hemisfério norte, é a língua mais falada do hemisfério Sul; é uma das que, no mundo global criado desde os Descobrimentos, tem deixado marcas e palavras em línguas de outros países e povos; é uma das que se renova no conjunto de interações promovidas à escala mundial, no campo político, económico-social, educativo, cultural; é a que regista o tom da saudade com as cores da fraternidade, tanto voltados da terra para o mar como acolhidos dos que por este e por ela a nós venham.

A lusa fraternidade linguística nos quatro cantos do mundo

       É som, é fala, é ato, em prosa ou em verso, banhado por mar e a espelhar o céu. É língua-mar:

Fotomontagem (VO) com poema de Adriano Espínola

     Também a minha; também uma voz plural que comunica, comunga, constrói as pontes e os laços necessários ao entendimento da humanidade.

      Que este seja o primeiro de muitos outros dias a celebrar, inclusive aqueles que vão fazer a cada novo ano chegar.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Voou deste mundo? Voa com quem o lê.

         A notícia do dia veio inesperada!

       Já se sabia que se encontrava doente, infetado pelo Covid-19, pouco depois de ter participado, em Portugal, num evento literário. Entre informação e desinformação, deu-se conta do estado crítico, da melhoria, de como regrediu, voltou a melhorar... E, agora, a morte.
      A de qualquer humano tem de ser pesarosa, particularmente a que resulta da luta contra um vírus desconhecido e ameaçador, capaz de afetar subrepticiamente o mundo. A do chileno Luis Sepúlveda (1949-2020) é-o seguramente para quem o leu, lê ou tem vindo a ler.
    Escritor ecologista, que cronicou e contou histórias de quem esteve neste mundo (marginais ou não); de quem existiu enquanto houve luz; de quem alimentou sonhos ansiados em qualquer lugar da terra, do ar ou do mar. Escritor que produziu obra na apologia da vida, da dignidade humana, da justiça social, de exotismos que sublinham sentidos múltiplos de viagem, de amor e de guerra, de utopias e mistérios que se cruzam com o Ser Humano, para não dizer com o Ser Vivo. Escritor que viu na diferença o complemento necessário à união e ao projeto da vontade.
     Qual "gaivota", não pode lançar-se mais em novo voo, apanhado que foi por uma maré, uma "peste negra" que assolou a Humanidade.

Leitura de um excerto de 
História de uma Gaivota e do Gato que a ensinou a voar (2008)

    Outros, contudo, o farão voar, porque, como bem o escreveu em As Rosas de Atacama (no original, Historias Marginales, 2000), “As feridas dos heróis da literatura são rapidamente curadas com o bálsamo da leitura.”
      A morte será suplantada por qualquer leitor que recupere a sua obra e lhe dê vida.

    Há que voar, pois ainda há gatos que ensinem; há que aceitar que “Em todo o lado se vive e se morre – como diz o tango morir es una costumbre” (Patagónia Express, 1995).

domingo, 5 de abril de 2020

Em modo quarentena... sem poder ir ao cinema.

      Agora que temos de ficar por casa (pelo menos os que têm), há que ocupar o tempo.

     A televisão (que dizem vir a ser a solução para tudo, até para o ensino-aprendizagem) lá vai cumprindo o seu papel... repetindo as mesmas notícias, os mesmos filmes, os programas em que há público a assistir, todo ele juntinho... aos saltinhos ou em bailarico, agarradinho aos apresentadores. Enfim!
      Agora que se aproxima a Páscoa, pouco ou nada diferente do Natal, talvez ainda se lembrem de passar, pela ésima vez, o Música no Coração. Bem... é melhor não!

Julie Andrews (ou a irmã Maria) não viu a fitinha de bloqueio

      Já não fui a tempo de avisar! As montanhas estavam bloqueadas com a fitinha colocada entre duas árvores. A irmã Maria e as crianças Von Trapp entraram pelo lado errado.

       Canta, canta,... mas EM CASA.   

terça-feira, 31 de março de 2020

E vão passando os dias

       As línguas têm destas coisas associadas aos dias.

      Com a nova rotina dos dias, ao final de mais de uma quinzena, prossegue o tempo da quarenta.
      Na língua inglesa, há já quem conte os dias naquilo que têm de mais indiferenciado:

A indiferenciação dos dias - só com 'day' (by day)

     É todos os dias o mesmo!
    Já na língua portuguesa, excetuam-se o sábado e o domingo. De resto, fica tudo "feira" (sem segunda, nem terça, quarta, quinta ou sexta). Talvez por isso algumas pessoas teimem no passeio e nos encontros, sem distanciamentos.

      Fica a "feira" e perdem-se as horas da oração. Os nossos dias da semana parecem mais divertidos, mesmo em tempos de contenção.