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segunda-feira, 9 de março de 2026

A liberdade no (uso do) acento gráfico

     A observação surgiu perante a estranheza do uso.

     É verdade que é mais comum ler-se a palavra sem acento gráfico. Por isso, a mensagem surgiu:

     A: Olá, Vítor!
         De quem me lembrarei, sempre que me deparar com algo como o que está abaixo?
       Guia Geral de Exames 2026: «(...) obrigatoriamente, de atestado médico de incapacidade multiúso (...)»
          É por isso que, por muitos olhos que passem no que escrevemos, nunca são demasiados.

     Tive de responder a desfazer um pouco a certeza nessa estranheza de um 'multiúso', que faz todo o sentido existir, atendendo às convenções ortográficas e de acentuação gráfica contemporâneas.

     B: Bom dia.
         As convenções ortográficas, por vezes, são complicadas. Este é um dos casos.
      Ainda que o uso comum permita a utilização consensualizada da grafia 'multiuso' (com o elemento latino 'multi' e a palavra 'uso' aglutinados), o certo é que, na escrita, há uma regra de acentuação gráfica a determinar que duas vogais juntas em situação de hiato (lidas não como ditongo, numa só emissão de som, mas como vogais diferenciadas foneticamente) fazem com que 'u' ou 'i' sejam graficamente acentuados. É o que acontece, por exemplo, com 'reúne', 'saúde', 'suíça', 'país', 'baú' entre outras palavras.
       Assim, convivem as escritas 'multiuso' e 'multiúso' na língua portuguesa: a primeira, na consciência morfológica e etimológica da (re)composição de um elemento latino com uma palavra atual; a segunda, na ativação das convenções de ortografia e acentuação gráfica. 
     Importa, portanto, que a escrita de uma ou de outra formas surjam coerente e consistentemente nos textos.

Muito uso com ou sem acento - um caso de liberdade na acentuação gráfica (montagem VO)

     Pronto: lá terão que se lembrar de mim na complexidade das relações fonético-grafológicas da nossa língua em combinação com a perspetiva morfológica e algum toque de história da língua e etimologia em deriva.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Triálogos em família

     Conversações linguísticas a três.

     Pergunta o filho qual o contrário de mérito: se desmérito se demérito.
     A mãe está para o primeiro, o filho pretende o segundo. O pai aceita os dois.

Preferível o mérito ao de(s)mérito - a negação instaura a dúvida pela presença de um 's'

    Na verdade, se 'merecer' está para o antónimo 'desmerecer' (com o acrescento do prefixo 'des-'), o mesmo pode aplicar-se, morfologicamente, no par 'mérito/desmérito'.
    Numa perspetiva etimológica, recorrendo à história da língua, encontra-se a razão do 'demérito': no latim, usava-se o termo 'demeritus, -a, -um' (particípio passado de demereo, -ere, com o significado de 'ganhar, merecer, cativar').
   Ambos os termos estão registados em vários dicionários, encontrando-se 'demérito' atestado em textos portugueses desde o séc. XVI; 'desmérito' é mais evidente desde o século XIX. O primeiro está mais para o etimológico e a via erudita com o recurso ao latim (com a família de palavras a destacá-los, por exemplo, em 'demeritório'), enquanto o segundo assenta mais numa consciência morfológica da língua. 

   Se entre marido e mulher não metas a colher, bom é que entre mãe e filho não se crie sarilho. Linguisticamente, quanto a este tópico, reina a paz entre todos.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

De tirar o "chapéu"

     Literalmente; sem mais.

    Dizem os franceses que o acento circunflexo semelha um "petit chapeau"; os portugueses referem-se a ele como "chapeuzinho". De uma forma ou de outra, há que o retirar, quando sinaliza uma sílaba que não é a tónica. Se 'presidencial' não tem [den] como a sílaba mais forte, para quê o acento gráfico sinalizador de sílaba tónica com som fechado?

Presidente e presidencial, sem; só presidência com (com agradecimento da foto à AC)

    Não há que confundir 'presidência' com 'presidencial'. Embora da mesma família de palavras (questão morfológica), fonicamente são termos silabicamente bem distintos quanto à intensidade: a primeira é grave; a segunda, como todas as palavras terminadas em 'l', é aguda. Neste último caso, assim o ditam as regras gramaticais, não há razão para acento gráfico (ex.: mal, fatal, crucial, essencial, fundamental).  

    Ao segundo dia do ano, não me interessa se são oito, onze ou até catorze: os candidatos são presidenciais (sem acento, por certo). Votem no que vos aprouver, sempre tirando o "chapéu" ao que vos parecer mais presidencial (por respeito ou por gramática).

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Confusão de pessoas... e não só.

     Não. Não eram muitas; uma apenas, erradamente identificada.

    Todos sabemos que, tipicamente, existem três pessoas gramaticais na conjugação verbal (primeira, segunda, terceira), numa relação com o número (singular / plural). Convém é não dizer que uma é outra, particularmente quando do "Bom Português" se trata.
     Fantástico é o facto de todos os interrogados terem assumido que a forma correta, no caso crítico indicado, é "discutirmos". Todos souberam a resposta. Então aquele grupo que afirma "Sem hífen, não há dúvida", "Tem que ser sem hífen, não há hipótese", "A sério?" (insiste a repórter), "Sim" é verdadeiramente do melhor!
     
Da foto, nada a dizer; do que se ouviu televisivamente, foi um susto! (Foto VO)

     Segue-se, então, a explicação: "A forma correta é 'discutirmos' tudo junto" (vá lá!), "Trata-se da terceira pessoa do plural..." (como é que é?!!! De novo?!), "... do infinito pessoal do verbo discutir" (infinito?!!! A sério?!). E lá vem o fecho clássico da rubrica televisiva: "Assim se escreve em Bom Português".
      Ora ainda bem que se escreve em bom português, porque, no que toca ao que se ouve ou se diz, vai muito mal. Péssimo! Não fosse 'nós' a primeira (qual terceira?!!!) pessoa do plural e o 'infinito' estar mais para o finito de conversa, quando não se consegue referir a forma / o modo verbal devidamente (pois de 'infinitivo' se trata).

      Mau momento garantido para o português, que pouco ou nada tem de bom por parte da locução. Às 6:27 da matina, até um ensonado acorda. E já não é a primeira vez que o mal acontece. Lamentável.

sábado, 8 de novembro de 2025

Diminuir não é acrescentar

     Isto de colocar um 's' onde ele não existe é, no mínimo, crítico.

   Numa consciência sincrónica de procedimentos morfológicos na língua, é verdade que a negação, a inversão e/ou o contrário do que uma palavra significa se conseguem, frequentemente, com o prefixo 'des-' (alento > desalento; alinhar > desalinhar; amparo > desamparo; atento > desatento; aparecer > desaparecer; atenção > desatenção; calçar > descalçar; construção > desconstrução; crer > descrer; culpar > desculpar; dizer > desdizer; enterrar > desenterrar; encanto > desencanto; entupir > desentupir; fazer > desfazer; instalar > desinstalar; ligar > desligar; necessário > desnecessário; preocupar > despreocupar; provido > desprovido; tratar > destratar; viver > desviver), seja na formação de nomes, verbos ou adjetivos.
    O mesmo não sucede com algumas outras palavras, não obstante o uso destas em rodapé ou legenda televisivos:

Estas legendas andam uma negação completa... na língua (agradecimento à MPM, pela atenção)

    Por certo algo diminui (progressivamente); é o inverso ou o contrário de 'crescer', mas não se constrói, na verdade, com o prefixo 'des-'. Enquanto antónimo de 'crescer', 'decrescer' requer uma abordagem que não pode escapar à história da língua e à noção etimológica do termo: remonta ao latim 'decrescere', que significa "crescer menos, diminuir." Nele há um prefixo latino ('de-'), que indica "afastamento", cuja consciência corrente não está na mesma linha da consciência morfológica sincrónica.
   Neste sentido, é mais por via etimológica ou da história da língua que 'decrescer, decrescendo, decrescido, decrescente, decrescimento' se explicam; complementarmente, o conceito morfológico da família de palavras, neste caso em intersecção com a etimologia, é o que pode ser convocado para que não surjam, na escrita, erros como o assinalado na imagem.
    Enquanto afixo dos mais produtivos no português contemporâneo, “des-” convoca inevitavelmente, para o seu estudo, uma plataforma entre morfologia e etimologia, num entrecruzamento de diversos estádios da língua (com semelhanças formais e semânticas, entre ambos os afixos), na senda do que se prefigura como prefixo neolatino (“des-”) em interseção com alguns elementos formativos de origem latina ('de-', 'dis-' e 'ex').

     Se 'decrescente' se cruza com a 'descida' de algo, não se confundam as sílabas iniciais nem se misture a primeira com um prefixo que, podendo aparecer em muitas palavras portuguesas atuais, está historicamente distante de qualquer crescimento. 

segunda-feira, 7 de abril de 2025

Sem santos nem milagres na língua

    Não podia ser de outra forma, quando se repete o erro.

  Que dizer daquele algoritmo que vai comandando a nossa vida, ao clicar-se num produto / assunto / tema / apontamento, e tem um "agente inteligente" que não vê a ignorância perpetuada num convite que só pode ter uma resposta?!

Até pode ser o bom Portugal, mas, no que toca ao Português, vai muito mal (colhido do Facebook)

Além do país, adore-se também a língua, para que não seja incorretamente usada (colhido do Facebook)

Nem com Santo António isto lá vai! Não há santo que valha ao bom uso da língua (colhido do Facebook)

   Claro que não me sentaria - eis a resposta!
  Sentar-me-ia se houvesse a consciência de como fazer um convite corretamente. Não adianta  a referência a terras, a santos; a apresentação de carinhas larocas e comidinhas apetecíveis, de chorar por mais. Nada disso me convence. Está em causa o mau uso do português, que, no condicional ou no futuro, é mal falado ou escrito até por ministros.

E não é que insistem?! Mudam as caras e as iguarias, mas mantém-se o erro crasso (colhido do Facebook)

  O condicional pronominalizado tem, tipicamente, o pronome entre a base verbal e a sua terminação. "Sentar-te-ias" devia ser a forma a ler; não aquela que a inteligência artificial (AI) e um algoritmo infeliz não descobriram, ainda, para usar corretamente na fala e/ou na escrita. 

Nossa Senhora de Fátima nos acuda, nos salve da persistência declarada no erro (colhido do Facebook)

  Caso para dizer que não há ruralidade nem iguaria que resistam. 
  Futuro e condicional pronominalizados são deveras casos críticos da língua
  Nem com a AI isto vai lá!

    Triste daqueles que não veem nalguns registos da inteligência artificial, sublinhe-se, a artificialidade que só o espírito humano pode melhorar / corrigir / fazer vingar como virtuosa.

segunda-feira, 3 de março de 2025

Assim não brinco!

       Quando está tudo preparado para...

       ... entrar na brincadeira e ter alguma diversão, eis que falha uma das regras:

Brincadeira nos seus primeiros sete passos (montagem fotográfica I, com agradecimento à PN)

Desafio dos passos finais, mais dois colocados por mim (montagem fotográfica II)

     Falo da regra da correção escrita, tanto no "*Encontras-te" (que devia estar sem hífen) como no "*autoculante" (que, numa sequência de formação de palavras, deveria sempre considerar, como base original, o que pode "colar"; ou seja, cola(r) > colante > autocolante).
        Apetece dizer: assim não brinco!

      ... ler dez vezes o mesmo erro! Como são dois erros constantes, chega-se a vinte. Removam já o autocolante do espaço público. Que brincadeira!

sexta-feira, 16 de agosto de 2024

Falhas no (arranque do) discurso

     No Pontal, a correção não esteve na ponta da língua.

   A falha do microfone no início do discurso foi questão de somenos importância, resolvida em sete minutos. Bem pior foi o anúncio da medida do suplemento das pensões, pelo modo como foi feito. Na variação existente, o presidente do PSD e atual primeiro ministro afirma o seguinte: "Quem tiver uma pensão entre estes 1018.52 euros e 1527 euros e 78 cêntimos será-lhe [CREDO!!!!] paga uma verba, a título de suplemento extraordinário, no valor de cem euros."
    Acrescenta a jornalista que dito assim agradará aos beneficiários.
   É bem possível, perante a miséria de algumas reformas existentes no país. Não agradará, por certo, a quem percebe alguma coisa da nossa língua materna e ouve um "será-lhe" que faz arrepiar o cérebro.

Foto de um momento crítico na língua 
(não no lido, mas no ouvido e atestado hoje televisivamente no "Jornal" da SIC Notícias)

    Há quem diga que alguém "puxou a manta e os pés ficaram de fora", a propósito dos efeitos da medida proclamada. Acrescentaria que alguém precisa de um suplemento bem maior na língua, para que o futuro do verbo, na conjugação pronominal utilizada, resulte no devido "SER-LHE-Á". A conjugação do futuro e do condicional, para não regressar ao estádio linguístico do galaico-português, tem particularidades que atualmente são ensinadas aos alunos (para se evitar um erro morfológico típico), as quais não devem entrar de férias, muito menos por quem deve estar instruído no bom uso da língua oficial; muito menos num período de grande visibilidade (e audição) naquela que se diz ser a "rentrée" política.

     Não foi só no arranque e nem tudo é culpa do microfone. É a meio e no modo como se fala. E todos aplaudem, sorridentes, o que se anuncia, bem como o modo impróprio desse anúncio. Salvos sejamos deste politiquês que nos dão a ouvir!

sábado, 9 de dezembro de 2023

Nova falha... já antiga.


       E não foi, por certo, por causa da chuva - que não para.
      Hoje, logo ao acordar, depois do empate e da crise do Benfica, vem a guerra de Israel-Hamas e, para não variar, a desgraça da língua escrita (prioridades!):

       Sem equilíbrio na escrita e no mundo (Foto VO)

     A inconsciência ortográfica assenta numa outra: a morfológica. Trata-se de um caso clássico de erro ortográfico proveniente da inconsciência morfológica. Não sabendo a palavra base (equilibrada), por parte de quem escreve, o acrescento do prefixo 'des' deriva numa escrita fonética mais do que problemática.

       Efetivamente, o DESEQuilíbrio é evidente... na língua e nos líderes mundiais (chega a parecer que a guerra é preferível). Santo Deus!

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

Estamos nisto! Ortografia do melhor...

      Quando estás preparado para ser informado sobre o que se passa no mundo, ...

       ... as notícias aparecem na sua pior escrita.
    Dúvidas houvesse acerca da influência da oralidade na escrita, os erros comuns na ortografia de palavras como 'feminino', 'ministro', 'príncipe' e afins demonstram-na. Daí que, no plano da correção escrita, seja de abordar estes casos críticos, para que resultem em domínio mais consciente e correto do ato de escrever.
    A televisão começa a dar sinais de como esta competência parece já não ser apanágio do bom exemplo do serviço público e da exposição ao bom uso da língua:

Eis a razão para, sem dúvida(s), preferir o favorecimento, bem escrito (com agradecimento à AC) 

    Claro que não é necessário dominar a etimologia e reconhecer a base latina "PRIvilegium" (embora ajudasse): a leitura de vocabulário frequente permite ver bem as sílabas de "PRIvilégio" (desde logo a primeira de todas); a família de palavras assinala recorrências evidentes em "PRIvilegiar", "PRIvilegiado", "PRIvilegiadamente", "desPRIvilegiado" (pela consciência repetitiva da base); a consulta de um dicionário, hoje, está à mão de qualquer telemóvel ou computador pessoal (com palavras bem grafadas).
      Tão bom seria ver / ler palavras, em primeiro plano, para uma comunicação feliz!

     Talvez por causa do mau exemplo, prefira o favorecimento ao outro termo que, em vez de 'pre', deveria ter 'pri' na sílaba inicial.

sexta-feira, 22 de setembro de 2023

Fatalidades: do filme ao erro

       No pouco tempo de que disponho, deixei-me levar por um filme...

      Já não me lembro do título nem do canal televisivo que o difundiu - por certo um dos TVCine. Era um daqueles que apelam à simpatia por um casal que tudo faz para salvar a filha de uma doença fatídica e que, à última hora, vê um milagre acontecer. Antes assim, para o final feliz do enredo e dos espectadores que se reveem nos sinais de esperança.
        Felicidade, contudo, não existe quando se lê, nas legendas, o seguinte:

Legenda fatídica em filme de esperança (quanto à língua...!)

       É fatídica a confusão da grafia '-se' e da sequência 'V[ogal]sse'. Caso para dizer que não há crença que resista já ao pretérito imperfeito do conjuntivo, escrito com esta última sequência e não com a primeira (hifenizada). A construção "se não cresse" (à semelhança de outras: "se não acreditasse, se não fizesse, se não tivesse, se não fosse...") não tem qualquer hífen a separar a forma verbal de base da sua terminação com a amálgama do modo-tempo-pessoa-número.

    A felicidade (ficcional) da personagem não tem associação possível ao mal-estar (factual) do espectador que vê a língua tão erradamente tratada na sua grafia.

terça-feira, 19 de setembro de 2023

Um tesourinho (com multiplicação de letras)

       Assim, mo foi apresentado: um tesourinho para a carruagem.

     Há leitores(as) atentos(as) e que vão partilhando, à semelhança do que aqui faço, os seus encontros com o mau exemplo da escrita televisiva.
       Este tem o seu requinte:

Um descanso nada repousante (com agradecimento à IP, pela partilha)

     Entre a escrita correta do duplo 's' na terminação verbal do imperfeito do conjuntivo e o erro do duplo 's' na palavra base, resta pensar que foi a preocupação na sílaba final que se estendeu, por antecipação, à penúltima. Nem 'cans(aç)o nem descanso admitem a grafia que a legenda televisiva dá a ler. A simples estratégia da família de palavras assim o dita (descansar, descanso, descansado, descansasse).

     Por mais que o cansaço seja sentido e experienciado, não é pela multiplicação de 's' que o descanso se torna a recuperação desejada. Na escrita da palavra não o é, garantidamente.

quarta-feira, 6 de setembro de 2023

A tripla faceta do plural numa só palavra

      Numa breve passagem pelo Facebook, relembrei o plural de 'ancião'.

      Numa imagem simples, lia-se:

Variação morfológica no contraste de número

      Uma palavra com três plurais possíveis - muita variação morfológica, diria. O mesmo acontece com 'alão', 'aldeão', 'ermitão', 'sultão', mesmo que, correntemente, a preferência dos falantes vá para a terminação em 'ões'.
     Algumas outras há que admitem apenas duas formas (em 'ães' e 'ões', como é o caso de 'alazão', 'deão', 'rufião', 'truão'; em 'ãos' e 'ões', como 'anão', 'castelão', 'corrimão', 'hortelão', 'verão' e 'vilão'; em 'ães' e 'ãos', como em 'refrão'), ainda que, a par da tese etimológica de formação destes plurais (recorrendo ao latim) ocorra uma outra que a consciência dos falantes assume como mais sincrónica e menos diacrónica, liberta da consciência etimológica que muitos perde(ra)m.

      Já de outros exemplos não vale a pena escrever, agora; já foram denunciados como o que não se deve ler nem ouvir

sexta-feira, 5 de maio de 2023

No Dia Mundial da Língua Portuguesa...

      Fizeram-me chegar a desgraça que grassa pela televisão (não tem graça, não)!

      Imagine-se a qualidade linguística da nossa comunicação televisiva, a partir dos exemplos que me fizeram ler precisamente hoje! Chega a ser constrangedor.
    Comecemos com a incapacidade de acertar no adjetivo relacionado com o ato de asserir e com a força das asserções. E porque, (orto)graficamente, de 'ss' se trata, veja-se no que a CNN não acerta:

Notícias de última hora que deveriam dar lugar ao fim de legendas infelizes.

     Isto de ser assertivo pode ter a ver com 'pontarias', mas de atos de fala. Diria que é preciso não ter mira linguística para falhar. É o que faz um órgão de comunicação social (à semelhança de outros).
      Segue-se o clássico desrespeito da morfologia: se o verbo é 'incendiar', previsivelmente as formas da conjugação mantêm a base (excetuando, naturalmente, as do singular no presente do indicativo e do conjuntivo). Portanto, onde se lê o errado 'e' da terceira sílaba veja-se o expectável 'i' da base de formação / variação da palavra:

Interferências... não dos manifestantes, mas da pessoa e número gramatical (foto AMT)

      Convenhamos: a legenda tornou a situação mais incendiária, pelo mau uso da língua. Inconsciências morfológicas, para não dizer desconhecimento ou ignorância.
      E como não há duas sem três (bom é que não se avance mais), assinale-se outra manifestação de desrespeito morfológico: ignorar a conjugação de 'vir' e sua projeção nas formas verbais de 'intervir'.

Se "*interviu", não salvou! Falhou redondamente. (Foto e agradecimento à AMT)

       Isto de querer 'ver' (viu) o que não é possível é uma forma de cegueira (da pior espécie). É questão de 'vir' (veio) e era bom que tivesse chegado na forma correta.

      Em dia que devia ser de celebração, fica o registo da aberração (múltipla).

domingo, 19 de março de 2023

Foge! ou Fogo! (interjetivos)

      Engraçado ver que, mal começo, vem uma chuva de exemplos.
   
   É o que acontece sempre que, por aqui, menciono um erro ou outro nos nossos canais televisivos. Dos mais repetitivos na tipologia de erro aos mais originais, lá me vão facultando fotos do que "corre" nalgumas legendas.
      Desta feita, chegou-me às mãos / aos olhos o seguinte:

Sem pânico na machadada perpetrada na língua - assim vão as notícias (com agradecimento à AD)

     No âmbito comum da ortografia, este é um erro que pode instalar-se pela natureza de alguma irregularidade morfológica do verbo, nomeadamente no contraste 'o/u' de algumas formas (foge, foges, fujo, fugimos, por exemplo). A fonética, contudo, ainda permite distinguir o que alguma convencionalidade gráfica pode fazer perigar (mais no contraste 'j/g' do que nos casos vocálicos em concreto).
     Ver este erro em contextos de aprendizagem da língua ou de utilizadores menos esclarecidos poderá (ainda) ser compreensível e uma boa oportunidade para mostrar regularidades no reconhecimento do léxico (como é o caso da família de palavras evidenciada em 'fugir > fujo > fugimos > fuga > fugido > ...'). Nos meios de comunicação social, é impensável ler o que nos é dado a ver.

      Apetece-me exclamar: "Foge!"

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

A propósito de 'lerdismo'

      Assim alguém falava de (outro) alguém ou algo que não atava nem desatava.

      Foi então o momento de se questionar a origem da palavra. 
    Diga-se que não a encontro dicionarizada, mas faz parte daquela criatividade e potencialidade da língua, morfologicamente motivada até!
   O sufixo 'ismo' permite formar nomes abstratos tradutores do sentido de 'teoria', 'doutrina', 'movimento (artístico, estético, filosófico, político, entre outros)', 'tendência'. E porque não se trata propriamente de algo singular, é de considerar que há vários implicados na questão ou situação, mesmo quando de individualismo se trata (são muitos os que defendem este último e cada vez mais, a julgar pelo que se vai vendo a cada dia). A par da 'lerdeza' e da 'lerdice' (também nomes) ou do 'lerdíssimo' (grau superlativo absoluto sintético do adjetivo), tomaria o 'lerdismo' como mais um derivado sufixal nominal (revelador de uma tendência ou movimento caracterizador dos que são 'lerdos').
     Daí que, para se entender o potencial 'lerdismo' se recorra à base 'lerdo': caraterística depreciativa daquele que é pouco ativo, preguiçoso, que se movimenta lentamente, de modo pouco diligente. No que à inteligência e ao rasgo intelectual dizem respeito, não se distingue muito de quem se assume como parvo, estúpido, tonto, tolo; ou seja, nada esperto.
Entre a preguiça e o caracol, alguém que diga de sua justiça!
      Para quem recorre ou cria a palavra, parece que há alguns assim, ao ver que as coisas sucedem de forma vagarosa, pesada, lenta, numa espécie de inação declarada.
   Entre a hipótese dúbia de que 'lerdo' vem do castelhano trecentista, sinónimo de 'bobo'; do itálico 'lordo', a significar sujo ou porco; do francês quinhentista 'lourd', para referir o que é pesado e estúpido, não andará longe a fonte etimológica latina que, em 'lordus', apontava para movimentos lentos, numa variante de 'lurdus', isto é, aquele que tropeça, que vacila ao andar”, ou de 'luridus', cujo significado inicial era “sujo”.

      Em síntese, fiquemos pelo termo criado para denotar algo que não é desejável, mas que alguns partilham nessa condição do que ou de quem nada faz avançar, mudar, transformar, resolver o que se impõe. Contrariemos a tendência, pois!

sábado, 7 de janeiro de 2023

Um conselho com defeito

    No arranque de novo ano, podia ser conselho a ter em consideração.

    Lá poder podia, mas... falta-lhe a qualidade da correção:

Um momento sem sucesso, por conselho tão avesso (Foto VO)

   Formulado a partir de uma forma do verbo 'desfrutar', reflete a ortografia esse princípio morfológico do reconhecimento da base da palavra. Conselho, pedido, aviso, ordem que seja, escreve-se "Desfruta". 
    Faça-se, portanto, acompanhar o conselho defeituoso da virtude corretiva:

Um momento com revisão, para superar falha na confeção (Foto VO)

  Se, por acaso, alguém receber esta mensagem na forma de avental de cozinha, não o lave, para poder "desfrutar" do acrescento produzido na prenda recebida. É a prova do momento vivido na amizade, mas sempre como professor(a) de Português.
  
    O dever do ofício é uma obrigação, acompanhado do devido código de correção, para compensar o defeito de produção.

sábado, 10 de dezembro de 2022

A propósito de mensagens

     Hoje alguém me escrevia, lembrando-se de mim e da "Carruagem 23".

     Não sei bem por que razão, quando a fonte de tudo é a "Amarguinha". 
    Esta publicidade do conhecido licor tradicional algarvio é do melhor na denúncia de erros que podem comprometer uma relação:

Publicidade inteligente I (com agradecimento à AMT, pela lembrança)

        Ora cá está um bom critério para selecionar quem seja namoradeiro: que fale e escreva bem e não leve ninguém ao inferno (sim, porque o Hades é rio que não leva a mar paradisíaco). 'Hás de' (e sem hífen) leva a melhor caminho.

Publicidade inteligente II (ainda com agradecimento à AMT, pela lembrança)

      Cá está a prova de que a beleza não é tudo! Pelo menos, há que ser giro e escrever bem - e mais vale a beleza do saber, pensando que o final da mensagem é bem revelador de que mais vale ser feio, sólido (e não líquido, a ponto de se beber) e escrever 'bebeste'.

Publicidade inteligente III (desta feita sem agradecimento, porque selecionada por mim)

    Nada contra ser "poli", ou outra coisa qualquer, desde que "o sono" e "a preguiça" sejam acompanhados de "a vontade" (pela regularidade sintática conveniente na coordenação) e o "permanente" (adjetivo) dê lugar, por exemplo, a "permanentemente": 'estar de férias' (quem não quer!) é expressão verbal cuja modificação está mais para um advérbio (com valor de modo, de tempo ou de lugar). 
      Digamos que, neste caso, a estratégia publicitária não resultou em pleno, na sua construção, porque isto de ter vários amores não pode fazer esquecer que a ortografia, a morfologia e a construção sintática são áreas muito exigentes no uso da língua e todas requerem muito cuidado e muita atenção.
      Conclusão: terá sido a lembrança por me acharem amargo (já que, de "Amarguinha", nem vê-la nem cheirá-la)?! Por me pensarem homem com muitas relações (estou mais para as ralações)?!
      Vamos lá levar a "carruagem" no trilho, antes de a fazer parar a meio do percurso ou a imobilizar na estação!

     "Errare humanum est" (errar é humano) já diziam os clássicos latinos. Acrescentaria "Perseverare autem diabolicum" (perseverar no erro é diabólico). Se a "Amarguinha" ajudar, ... (conclua-se o que não vou sequer ajuizar).

quinta-feira, 22 de setembro de 2022

Acerca do outono

    Perguntavam há dias de onde vinha o outono.

    Não se trata do 'onde' locativo, mas da origem etimológica. O latino 'autumnus, -i' dita a formação do adjetivo 'autunal', também proveniente do 'autumnalis, -e', como tudo o que é relativo ao outono.
    E então: é autunal, outonal ou outoniço? 
    Valem os três. O primeiro mais próximo do étimo latino; o segundo com algumas evoluções fonéticas assimilativas em pontos articulatórios vocálicos [+altos]; o terceiro decorrente de um processo morfológico cuja base derivante nominal ('outono') é acrescida de um sufixo que, no português, tem a produtividade significativa de referir aquilo 'que nasce em' (outoniço < nasce no outono); aquilo que indica facilidade ou tendência para (fronteiriço < próximo ou tendente para a fronteira; esquecidiço < tendência para ser esquecido; inverniço < tendência para inverno; reboliço < facilidade para rebolar; gadiço < facilidade para ser domado como gado).

Colorido outoniço com o "intenso colorista"

  Em termos de significado, o outono é polivalente: refere-se à estação do ano, à transição / transitoriedade / mudança / viagem dos ciclos, à época das colheitas, ao tempo da gratidão, ao equilíbrio e descanso terrenos, à reflexão e introspeção, à despedida, à aproximação da velhice, à decadência.

    Viva-se o outono, cumpra-se o ciclo e enriqueça-se o tempo com a variedade dourada das cores outoniças.

domingo, 19 de junho de 2022

Fatiga, fadiga... que cansaço!

       Tempos de canseira.

      Perguntavam-me há dias se o nome associado a quem anda fatigado é fadiga ou fatiga. Respondo que são os dois (e para quem anda cansado é questão que já pouco interessa). Digam ou escrevam como quiserem.
        Claro que o mais habitual é falar ou ler sobre "FADIGA" (mesmo que o adjetivo esteja mais para 't' do que para 'd' - fatigado). Dizer-se 'fadigado' não é impossível, até pela derivação que decorre de 'fadiga' (nome) e 'fadigar' (verbo), isto é, causar ou sentir fadiga ou cansaço; logo, o 'fadigado' torna-se mais do que compreensível.
          Fatigado está mais para o sentido etimológico, que atesta o verbo latino 'fatigare' e o nome 'fatigo'.
     Entre 't' ou 'd' direi que o primeiro está mais para a origem; 'd' para a variação evolutiva, nomeadamente a sonorização que se evidencia na posição intervocálica de [t], com o som surdo lábiodental inicial a ganhar o traço sonoro por influência vocálica. Foi já o que analogamente sucedeu com totu(m) > todopotes > podes, na passagem do latim para o português, só para mencionar exemplos nos quais, também e pelo mesmo motivo, [t] evoluiu para [d]. 
         E, assim, 'fatiga' chega a 'fadiga'. Fica a primeira pela via erudita; vem a segunda por via popular. Reconhecida esta última, se ficarmos por aquela também não está mal. Explica-se, portanto, a possibilidade do apontamento lido nos destaques noticiosos da Microsoft Edge:

Colhido do Microsoft Edge, em "Notícias ao Minuto"

         Com ou sem Boris Johnson, é um dado que a guerra Rússia-Ucrânia já cansa. Bastariam Vladimir Putin e Volodymyr Zelensky para nos atormentar a mente com o conflito que a todos aflige. Vem também o primeiro ministro britânico contribuir, com a citação feita, para o desalento, afadigando o espírito com sinais dos perigos que não dão esperança.

      Fadiga ou fatiga, o tempo é declaradamente, e por vários motivos, de cansaços (lembrando Campos e "Sobretudo cansaço").