sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Em tempo de "Folhas Caídas"

      É verdade que estamos em pleno outono...

    A polissemia da expressão "Folhas Caídas" pode ser explorada na evocação desta estação; na desorganização de registos em papéis dispersos (espalhados pelo chão); na metáfora e no anúncio do ciclo final de uma vida. De tudo isto se compõe o título da coletânea poética de Almeida Garrett, enquanto obra associada à expressão outoniça, serôdia do sentimento e vivência românticos.

Uma outra forma de ler Folhas Caídas, de Garrett, segundo a (cerc)ARTE

     Perante um "Ignoto Deo" (poema de abertura) a funcionar como prólogo de toda a compilação, prenuncia-se a temática de uma idealidade, de um misticismo e um pendor religioso a todo o tempo pautados pela referência a termos maiusculizados (Deus, Nada, Beleza, Verdade, Essência, Existência > Ignoto Deo), sugerindo a dimensão abstrata, ideal, perfeita. 
    Contrariamente a esta linha, há que considerar a menção à beleza, ao amor e ao prazer (minúsculos e com a adjetivação "real beleza", "puro amor"), a par da referência a um ser marcado por um "espírito agitado", que "Só vive do eterno ardor", a "olho nu", a enganar e a errar. Estes são conceitos-chave para traduzir uma experiência relacional do 'eu' com um 'tu', em tudo semelhante à vivência homem-mulher. Assim, a noção de um amor eterno, moral e idealmente equacionado dá lugar a uma realidade e experiência mais terrenas do que celestiais, naquilo que se resume como uma "combatida / Existência".
    Em síntese, encontra-se aqui a trajetória, o percurso do herói romântico: dramaticamente dilacerado pelos conflitos e pelas oposições entre o céu / a terra, a idealização / a realidade, o tu / o eu, o encontro / a despedida. Ao encontrar um amor, o sujeito romântico vivencia e alimenta a instabilidade, o desequilíbrio que colocam o sentimento na iminência de uma despedida ("Adeus"). Esta é a ironia romântica revista em poemas construídos com a narratividade própria de um "eu" que experiencia situações e sentimentos feitos de estados antitéticos (sonho / ausência de amor; realidade / presença do amor, acompanhados de dor). Leia-se "Quando eu sonhava", "Aquela noite" e "Anjo Caído" - três poemas feitos de uma narratividade que mostra o sujeito poético nessa condição conflituante.
    Surge, então, o ciclo dramático de toda uma sequência de outras composições líricas que sublinham a contínua inquietação do "eu", a mover-se no terreno da contradição, da tensão e da constante procura. E porque no percurso feito há perigo e sedução, fica essa nota com o poema e a canção:


     BARCA BELA

Pescador da barca bela, 
Onde vás pescar com ela? 
      Que é tão bela, 
      Ó pescador!

Não vês que a última estrela 
No céu nublado se vela? 
      Colhe a vela, 
      Ó pescador! 

Deita o lanço com cautela, 
Que a sereia canta bela... 
      Mas cautela, 
      Ó pescador! 

Não se enrede a rede nela, 
Que perdido é remo e vela, 
      Só de vê-la, 
      Ó pescador!

Pescador da barca bela, 
Inda é tempo, foge dela 
      Foge dela 
      Ó pescador!

      Depois da composição romântica, a evocação da memória e da experiência de leitura com as cantigas de amigo é inevitável, numa aproximação ao cenário das barcarolas ou marinhas, à estrutura de refrão e ao gosto romântico pelo imaginário medieval.