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sexta-feira, 24 de novembro de 2023

Dia Nacional da Cultura Científica

         Poucos minutos, mas para minha memória futura.

       Uma turma de 10º ano, uma lição de Físico-Química A e o motivo do Diretor na sala de aula: um cartaz assinado que havia motivado dois dedos de conversa sobre Rómulo de Carvalho e o Dia Nacional da Cultura Científica, mais uns poemas que importava partilhar. O convite "Queres vir à aula, amanhã?" foi imediatamente aceite.

Saberes que cruzam letras, planetas, forças e número em abraço

        Há 117 anos, nascia aquele que viria a ser professor de físico-química do ensino secundário no Liceu Pedro Nunes, Liceu D. João III (Coimbra) e no Liceu Camões; pedagogo, investigador da história da ciência em Portugal... e poeta, sob o pseudónimo de António Gedeão. Há 25 anos celebra-se o "Dia", inspirado neste professor e divulgador de ciência. Também escritor literário. Razões mais do que suficientes para o homenagear. "Pedra Filosofal", "Lição da Água", "Lágrima de Preta" são das mais reconhecidas produções poéticas.
         Li "Impressão digital".
      A propósito dos "olhos", lembrei Camões e "Se Helena apartar / do campo seus olhos / nascerão abrolhos" - os efeitos do olhar de Helena na natureza são transformadores (sejam olhos verdes da "cor do limão" sejam de outra cor, mas "olhos do meu coração"). Os olhos de Gedeão são outros. Mais próximos dos contemporâneos, por certo, com abordagem e orientação temática bem distintas, sublinhando e definindo o que nos singulariza, o que nos faz ser diferentes, tal como uma "impressão digital".
      O tema da relativização do que se vê, da perceção das coisas, do copo meio cheio / meio vazio, da visão otimista em confronto com a pessimista são lições para a vida, para o crescimento do entendimento do universo. É / são saber(es) que o texto / poema dá, vindo(s) de alguém que se fez Homem da Ciência e das Letras, mostrando que a fronteira entre conhecimentos não faz sentido.
António Gedeão, no Parque dos Poetas (Oeiras)
     Ficou o convite para se deslocarem a Oeiras, ao Parque dos Poetas, e verificarem como uma estátua em honra do poeta António Gedeão não desdiz o físico Rómulo de Carvalho, mais os seus tubos de ensaio. Com física ou química, há lugar para a poesia, nas palavras que se atraem, noutras que se afastam - forças que a física designa de atração e de repulsa. Também há flores e escolhos (que rimam com os camonianos abrolhos); pedras pisadas, gnomos e fadas; moinhos e gigantes.

        Um dia que se marcou pela diferença, nas ciências que se complementam, por cruzarem saberes e darem outro sabor - um halo diferente na vida. Obrigado, AMT.

sábado, 22 de maio de 2021

Hoje, depois de ontem, com versos de séculos

     Ontem foi o Dia Mundial da Diversidade Cultural para o Diálogo e o Desenvolvimento; hoje fica a lembrança da celebração.

      A ocorrência do dia celebrado a 21 de maio, segundo proclamação da Assembleia Geral da ONU há dezanove anos (com a "Declaração Universal da UNESCO sobre a Diversidade Cultural", onde se reconhece esta última como património comum da humanidade), deve repetir-se a cada dia pelo significado que tem para o bem-estar de todos em todos os tempos. 
    Celebrar a diversidade cultural é respeitar e defender valores fundamentais como a liberdade, a democracia, a tolerância, a igualdade, a não discriminação, o respeito pelo estado de direito, os direitos humanos, a solidariedade entre povos, o sentido de paz e de fraternidade harmoniosas.
  Enquanto imperativo ético, no respeito pela dignidade humana e pela aceitação de valores diversos e multiculturais, sublinha-se com esta efeméride a aprendizagem do que é a vivência conjunta, integrada e inclusiva; a luta contra estereótipos culturais, preconceitos e fundamentalismos, num diálogo contínuo enquanto garante de um generalizado desenvolvimento sustentável.
      Assim também o pensou Camões, como o sugere, por exemplo, "Endechas a Bárbara Escrava":

Montagem de imagens e declamação do poema camoniano "Endechas a Bárbara Escrava".

     Uma composição poética contraposta às tendências dominantes dos padrões de beleza num tempo clássico, quando os traços da pele clara e dos cabelos louros se impunham; a singularidade de uma "Pretidão de Amor", de uma negritude que, afinal, não é bárbara (por mais que desta tenha o nome próprio). Assim se marcava a diferença nessa expressão versificatória da corrente tradicional, bem distinta da medida nova (mais superlativizadora do ideal feminino dos "Ondados fios de ouro reluzente"):

Padrões de beleza camoniana bem contrastivos 
("Endechas a Bárbara Escrava" e o soneto "Ondados fios d'ouro reluzente")

    Numa versão musicada por Zeca Afonso e interpretada por Sérgio Godinho, a conhecida trova escrita em redondilha menor progride numa melodia que se vai intensificando na harmonização sonora, sem deixar de sublinhar a excecionalidade da figura retratada.

Interpretação de Sérgio Godinho, para a letra de Camões e a música de Zeca Afonso

     O canto poético quinhentista traduziu um pensamento que se mostra atual, contemporâneo, liberto de preconceitos, feito dessa universalidade revista num "Todos diferentes, todos iguais". Nada melhor para literariamente relembrar o dia que passou.

sexta-feira, 21 de maio de 2021

Fragilidade da vida

      Tema mais do que atual face aos tempos pandémicos que se vivem.

      Camões, no final do canto I, reflete sobre esse tema, mencionando o "... Caminho de vida nunca certo: / Que aonde a gente põe sua esperança, / Tenha a vida tão pouca segurança". Enquanto "fraco humano" ou "bicho da terra tão pequeno", há forças que nos superam (no mar, na terra, no Céu). Não há domínio que nos deixe de testar, a ponto de a pergunta surgir: "Onde pode acolher-se um fraco humano, / Onde terá segura a curta vida...?" Mais do que interrogação (retórica), será a constatação da pequenez e da insignificância humanas face ao poder das forças que gravitam em seu torno, fazendo-as cair de um pedestal antinatural e a todo o momento questionável. E, assim, da temática quinhentista rapidamente se dá o passo para a contemporaneidade.
"Shattering", de Leon Keer
   Leon Keer, artista holandês reconhe-cido pela sua 3D Street Art - essa capacidade de trans-formar uma superfí-cie plana numa obra-prima multiní-vel -, criou um mural para o festival de arte de rua em Helsingborg, na Suécia. Retratando quatro chávenas de chá empilhadas de modo instável, aca-bou por descrever a obra conseguida com as seguintes palavras: "A vida é tão frágil quanto uma xícara de chá"; "Quero mostrar que a nossa vida pode mudar repentina-mente. Podemos perder um ente querido. Ou a nossa casa. Ou outros grandes artistas mundiais, expoentes da cultura. Por isso, nas xícaras de chá, pintei todos os cenários apocalípticos." 
       Desta forma, as chávenas que figuram no mural (as Rörstrand, uma conhecida marca de cerâmica centenária muito popular na Suécia) passam a representar uma realidade aumentada, cada uma delas a propor, metaforicamente, um episódio ilustrativo dos efeitos decorrentes, por exemplo, das mudanças climáticas; das falhas e das perdas que fazem com que a terra e o ser humano estejam prestes a "cair".

       Um caso evidente de arte pedagógica, consciencializadora, preventiva e intemporal na mensagem a transmitir. Na aproximação com Camões, Leon Keer é mais um exemplo contemporâneo de pintura a rimar com literatura.

segunda-feira, 12 de abril de 2021

Uma farsa vicentina muito atual

     Numa intemporalidade que se impõe, com mais semelhanças do que coincidências.

    Hoje fala-se da emancipação da mulher, de jogos de interesse, de violência doméstica, de máscaras sociais - um tempo contemporâneo que não deixa de viver as heranças de outros séculos, e que Gil Vicente também experienciou no seu.
      
Representação do texto dramático quinhentista vicentino pela Spotlight Produções 
(encenação de João Ascenso)

   Persiste a deceção, quando se opta por ideais, ilusões que, a todo o tempo, caem. Descobrem-se os pretensiosos. Denunciam-se os desajustados, os ingénuos e os inocentes que não veem o mal que está à frente. Fazem-se também aprendizagens, mas o que de mais criticável existe (não se olhar a meios para atingir os fins) não deixa de alimentar a farsa que o comportamento social e humano ainda tem.
     Lida ou visionada a representação da obra, cedo se descobre quem representa o quê, para não referir outras linhas temáticas tão comuns no dramaturgo quinhentista: a crítica ao clero, o casamento como negócio, os subalternos oprimidos, o confronto do profano e do sagrado, o preconceito para com os judeus.
     Além do "Mais quero asno que me leve que cavalo que me derrube", a prova de que as aparências enganam faz sentido para quem se deixa viver nelas, nos ideais ou nas ilusões com que se engana; ou, então, para quem mascara uma vivência que só um "cego" não consegue ver. De tudo isto é feita a Farsa de Inês Pereira (1523), um texto a chegar aos 500 anos com um sentido bem presente.

      Assim se revê a obra vicentina tão atual que chega a parecer que nada mudou na metade de um milénio.

sábado, 10 de abril de 2021

Entre piratas e Alexandres (e outros nomes mais)

     Não sei porquê, mas hoje pensei muito em Pre. António Vieira.

    Há tempos, redigi um apontamento a propósito do Sermão do Bom Ladrão (1655), no qual se reflete sobre a "arte de roubar".
     Direi que há artistas no ofício, com toda a perícia; outros há que os ensinam ou defendem nessa "arte" tão injusta.
     No meio de tanta "dedicação artística", há comparações inevitáveis:

   "Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador?
    Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza; o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres."
      
P.e António Vieira, in Sermão do Bom Ladrão

     Tenho lido (não porque o faça muitas vezes, mas porque é o resultado final da leitura)!
      Entre pirata ou Alexandre, salva-me o facto de ter outro nome - não sei se para louvar, mas nunca para roubar.

      Há ladrões..., perdão,... sermões que ganham sentido com que o dão a ver... melhor... a ler (particularmente no que lembram da "grandeza do roubar").

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Diz que são 'ecos'

      Haverá, por certo, razões para tal.

      Isto de ver os heterónimos pessoanos como diferentes do ortónimo só em certa medida faz sentido. De resto, é natural que nos primeiros haja ecos do último e vice-versa (quanto mais não seja, porque Caeiro é assumido por Pessoa como o Mestre).
      A ilustração de João Viegas é sintomática destas relações entre criador e seres criados:

Ilustr. João Viegas, in: Um outro lado de Fernando Pessoa (2016)

    Entre o que um pensa e o(s) outro(s) recupera(m), compõem-se as duas faces de uma moeda: na diferença e na diversidade não deixa de se sentir a unidade.

      As pessoas que o autor tem são tantas que qualquer ser humano nelas se reconhece bem.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Ainda Lídia...

        Depois de um primeiro apontamento, persiste a curiosidade sobre Lídia (seja ela quem for,... ou não)!

      Tudo a propósito de uma pergunta avançada por alguém que "viaja nesta carruagem": quem é Lídia nas Odes de Horácio e em Sophia de Mello Breyner Andresen?
    A construção da figura é precisamente isso: uma construção poética, literária, simbólica, um tópos delineado como personagem que autores, ao longo dos tempos, foram e vão configurando na memória coletiva da literatura universal. No fundo, constitui-se como uma espécie de código para representar temas, ideias que transcendem o tempo e traduzem uma herança cultural e literária da Europa latina.
        Lídia não é ninguém, com a possibilidade de, potencialmente, ser toda e qualquer pessoa. É o resultado criativo de um autor clássico - Horácio - que associou à criação o que deixa ler nos seus versos, mais precisamente, uma conceção do que é o amor e a paixão amorosa na vida de qualquer um. Entre a expressão explícita de um sentimento numa visão conformada de sentido estoico-epicurista e o retrato polifacetado de uma personagem que, à moda pessoana, pode implicitamente ser a descentração do próprio 'eu' criador, tudo pode caber no jogo do fingimento artístico que a literatura, em geral, e a poesia, em particular, são.
      Nas Odes horacianas, Lídia é objeto de recomendações, avisos, chamadas de consciência no domínio amoroso (o amor que se transforma, numa espécie de feitiço que se vira contra o feiticeiro; que faz negligenciar o dever, os compromissos, percursos de vida mais dedicados ao esforço e à disciplina; que se revê nos perigos ora da sedução - de que Lídia é mestre - ora do abandono - dos por ela seduzidos; que, irascível e leviano, desconcerta, mas já permitiu vivências de comunhão entre amantes tão diferentes; que se molda numa expressão tensa, dramática e, por isso, também fonte de ação e de vida). É também ela sujeito de uma voz diretamente representada, no diálogo com um 'eu' (na ode nona do livro III), a sublinhar que o presente bem diverso nas representações do amor não impediu um passado de conjugação e felicidade partilhadas. 
       Em suma, mais do que quem é, Lídia representa a súmula dos diferentes matizes de um sentimento plasmado, na sua diversidade, desde as letras da Antiguidade. Neste sentido, ela é ciclicamente revisitada por autores que leram Horácio e/ou pertencem a uma tradição cultural e literária comuns, mesmo quando eles se assumem como distintos, mas nem sempre distantes, de uma cosmovisão clássica (como é o caso do romântico Garrett, cuja educação não deixou de ser por ela marcada).
     Sophia está neste percurso de revisitação, tanto por alguma referencialidade e inspiração clássicas da sua obra como pela experiência de leitura que espelhou influências e reações. Seja por acesso direto a autores clássicos seja por leitura mediada (por exemplo, do heterónimo pessoano Ricardo Reis), a autora de Dual (1972) recuperou essa personagem horaciana, que Reis retomara, acrescentando-lhe cambiantes um pouco desafiadores face à (re)visão proposta por quem havia escrito "Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio". Diferente deste, Sophia alerta Lídia para os perigos da resignação, do comedimento, de uma ataraxia que impedem a ação ou a vontade de agir; avisa-a de que não pode acreditar naquilo que outros fizeram crer ("Não creias, Lídia, que nenhum estio / Por nós perdido possa regressar"). Ao contrário de Reis, não é desejável que ela fique pela contemplação do rio, com as mãos desenlaçadas, numa tranquilidade ou serenidade estagnantes. O convite, agora, é para ela se atirar ao rio e acompanhar o fluir da vida. Nova é a mensagem: aquela que permite a mudança, a celebração, o festejo, o carpe diem que o heterónimo pessoano conheceu, mas evitou (enquanto estratégia de sobrevivência), para obsessivamente não sofrer ou não perder muito à hora da morte.

      À pergunta 'Quem foi Lídia?', uma bem mais importante interessa considerar: 'o que esta representa na tradição artística, cultural, literária, nessa herança latina a todo o tempo revisitada?' Onomasticamente, diz-se que Lídia significa 'aquela que tem as dores do parto'. É, portanto, aquela que traz e origina vida. Metaforicamente é aquela que se identifica com a vida e como esta é percecionada por quem dela / para ela escreve.
 

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Gramido: a casa branca

       Junto ao Douro, no concelho de Gondomar (Valbom), há uma casa histórica.

     É a Casa Branca de Gramido, edifício solarengo do século XVIII (1789) com características de um neoclássico rural. Nela ocorreu, em 29 de junho de 1847, a assinatura da Convenção de Gramido, que assinalou o final de uma época de conflitos entre liberais e absolutistas, nomeadamente os que se sucederam às sublevações populares e burguesas conhecidas, respetivamente, como Maria da Fonte e Patuleia. 

Casa Branca de Gramido I, após requalificação com o programa POLIS (Foto VO)

Casa Branca de Gramido II, após requalificação com o programa POLIS (Foto VO)

     Ainda durante o século XIX, o espaço foi armazém de cereais, comercializados pelos proprietários «Cazas Brancas» para a atividade da panificação (de Valongo e Avintes, essencialmente). Os grãos de trigo trazidos rio abaixo pelos barcos rabões (de aspeto mais claro do que aqueles que transportavam carvão) eram desembarcados nesse armazém. Por extensão da designação da família proprietária e pela imagem clara dos barcos, popularmente chegou-se à denominação de "Casa Branca".

Convenção de Gramido (1847)

  A projeção e imponência visuais do solar duriense, progressivamente ampliado ao longo do século XIX e restaurado quase século e meio depois, revestem-se da importância histórica de que o local é exemplo, com a afirmação da paz após a Guerra Civil da Patuleia. A Convenção, assinada entre comandantes dos exércitos espanhol e britânico (entrados em Portugal ao abrigo da Quádrupla Aliança), mais os representantes da Junta do Porto e as forças do governo mais conservador, selou a derrota dos setembristas (revoltosos) frente aos cartistas (apoiados pela rainha) numa guerra civil que vinha a assolar o país desde a década de vinte e, mais particularmente, nos anos de 1846-1847. Menos de cinco anos depois, a concórdia viria a sofrer algum revés, com a força governamental apoiada por D. Maria II a retirar aos revoltosos poderes e influências em prol de um maior conservadorismo.

   A recuperação da casa, depois de uma fase de crescente degradação e de um incêndio que praticamente a abandonou a um estado de desleixo e decadência inevitáveis no século XX, ocorre no período 2005-2006, sendo a inauguração da sua requalificação datada de 31 de maio de 2008.

Marginal do Douro, em Gondomar (Foto VO)

      Enquadrada num espaço reabilitado, a Casa Branca de Gramido faz relembrar o romance Uma Família Inglesa ([1867] 1868), de Júlio Dinis, quando Manoel Quintino, guarda-livros da família Whitestone, se refere à zona da marginal como não havendo "outro passeio assim nos arredores do Porto". Desse passeio, em manhã mais soalheira, se faz aqui registo, em tempos mais contemporâneos.

       Na marginal do Douro, a Casa Branca de Gramido vigia o curso do rio.    

domingo, 1 de março de 2020

Amor de Perdição (versão compacta)

       O filme é antigo (1943), a preto e branco, mas ainda com a cor e o tom cómicos da atualidade.

      A versão fílmica aqui apresentada é um compacto para dar a conhecer a intriga geral de uma história que, enquanto narrativa a ser lida no ensino secundário (11º ano), está mais desarticulada nas orientações programáticas da disciplina de Português do que qualquer outra forma de encontrar algum fio condutor para a obra camiliana dos programas de Português - Secundário.
     O melhor é sempre ler o livro na íntegra. A ter que dar alguns textos soltos, ao menos que se perceba em que sequência da ação narrativa se encontra o excerto a abordar.
     Apresentar a estrutura global da obra, por exemplo, é sempre um ponto de referência para qualquer localização do segmento a ler:

Slide 1: a estrutura global da obra Amor de Perdição
(Powerpoint acerca da narrativa camiliana) 

Slide 2: o título e subtítulo da obra camiliana
(Powerpoint acerca da narrativa camiliana) 

      A estratégia de ver o filme (numa das suas versões, na íntegra ou em compacto) permitirá enquadrar a leitura de qualquer excerto narrativo na intriga, na consideração do que acontece antes / depois do texto lido. Vai neste sentido o compacto proposto.

Compacto fílmico de Amor de Perdição 
(na versão cinematográfica de 1943)

        Entre os vários aspetos que possam ser focados no visionamento, sugerem-se os seguintes:
     a) a evolução do comportamento no protagonista Simão;
     b) a construção romântica do par Simão - Teresa;
    c) o discurso epistolográfico na construção da intriga (qual carta, de quem, para quem, qual propósito comunicativo, que referências deíticas associadas à sua produção escrita); 
     d) o(s) sentido(s) de vida representado(s) no percurso dos protagonistas;
     e) força(s) opositora(s) na vivência dos protagonistas.

      Relacionar o que foi visto com a leitura de uma ou duas das cartas dos protagonistas na relação amorosa (Simão-Teresa) é uma extensão natural da proposta c), tomando o género e formato textual como marca relevante da incidência romântica da obra.

       Mais do que romântica, diria mesmo ultrarromântica - num excesso que resulta em paródia, se for considerada a dimensão interartística que resulta do visionamento de uma versão cinéfila dos anos vinte do século passado

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Recursos...

      ... expressivos, anote-se.

      A questão é pertinente, merecendo apontamento nesta "carruagem".

       Q: Bom dia, caro Vítor.
       Só um pequeno esclarecimento sobre esta questão: "E como anoitecia cedo, havia outro remédio senão ir agora a mata - cavalos a correr contra o tempo e contra a idade, com o coração a refilar." Considerando a instrução "Identifica um recurso expressivo presente na expressão 'com o coração a refilar', considero metáfora, mas posso também considerar personificação? Abraço. Grato

     R: É assumida como natural, no campo literário, a relação de várias figuras de estilo, em termos do pensamento traduzido, às duas figuras-mãe: a metáfora e a metonímia. Dificilmente se falha quando uma destas é convocada.
      No caso em concreto, e uma vez que se trata apenas de uma instrução de identificação, deverão ser aceites ambas as respostas (metáfora e personificação). Na verdade, se a metáfora se encontra associada ao termo "coração", por motivos do sentimento e da emoção (coração como metáfora de sentimento), a personificação está focada na intencionalidade relacionada como o termo "refilar". O coração a refilar é a ideia de um sentimento personificado, com características humanas e o sentido da intencionalidade - com a intenção de contrariar, criticar, reagir.
       Fosse a questão outra, com os alunos a terem de explicitar a expressividade da figura de estilo, haveria a possibilidade de condicionar a resposta em função da justificação a dar.


      Não raras vezes nos deparamos com segmentos textuais, nos quais confluem vários recursos expressivos e/ou estilísticos. Sempre que tal acontece, a abertura a vários cenários de resposta é atitude a assumir, desde que os argumentos aduzidos na resposta sejam compatíveis com o recurso / a figura selecionada. Daí que, mais do que a identificação, seja desejável a explicitação da expressividade ou dos efeitos obtidos com o uso de tal recurso na mensagem.

       Claro que 'recursos expressivos' é uma designação mais abrangente para processos bem além das figuras de estilo; porém, no que a estas últimas diz respeito, personificação e metáfora andam bem alinhadas no exemplo transcrito.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

"Não quero nada. Deixa-me dormir."

       Palavras citadas, palavras ajustadas.

       Eu que o diga. É o que me apetece responder quando me perguntam "Queres alguma coisa?"
     Cada vez mais a vontade é a de dormir, mas não o dormir que deu em morte, quando Cesário Verde proferiu as que, dizem, foram as suas últimas palavras (um dormir eterno, portanto). 


O Livro de Cesário Verde (RTP 2 - da Série Grandes Livros)

       Poeta da cidade e também do campo; transfigurador de uma realidade que o aprisiona e atrofia, buscando alternativas no tempo, no espaço ou na intensidade emotiva; um comprometido com as questões sociais, lutando por um equilíbrio que as desigualdades e injustiças sociais não permitem; um solidário com as vítimas de uma sociedade atroz, sombria, doentia, dominada por poderosos que comprometem a igualdade e a equidade desejadas.
     Outros temas podem ser recuperados na poesia cesariana. O visionamento deste documentário pode ser uma boa oportunidade para complementar experiências de leitura e/ou confirmar recorrências; dar ensejo à verificação da intemporalidade da mensagem poética dos finais do século XIX, bem como à apreciação crítica da leitura de alguns versos.

      Palavras que precisam de ser enquadradas, porque das comentadas sem sentido já bastam as que andam por aí a infernizar a vida.

segunda-feira, 12 de março de 2018

Gi-George-Georgina

    Afinal, (também) Maria Judite de Carvalho.

    Na sequência da abordagem do conto "George", nada como apresentar a autora da narrativa, a partir de um pequeno documentário sobre a vida e obra daquela que, na escrita literária, se (re)viu mulher em diferentes idades e se compôs na solidão.

Documentário da RTPN (2011)

    Um visionamento que prossegue o tratamento de um pequeno texto informativo (para deteção de linhas temáticas, marcas de construção narrativa e registos de inspiração biográfica) e incide sobre uma pré-tarefa a dar continuidade / complemento à recolha de dados relativos ao trabalho anterior.
     Dos muitos dados contemplados, sublinham-se os seguintes:
"As Três Idades do Homem e Três Graças", 
de Hans Baldung Grien, 1539 (Museu do Prado)
a) consciência em movimento (interior da alma) de personagens, dimensionada no âmbito do psicológico;
b) vertente realista de retrato de uma sociedade frustrada, oprimida, isolada, marginal;
c) consciência da velhice e dos idosos (que todos seremos) no ciclo da vida;
d) técnica do monólogo interior (na expressão de uma consciência partilhada do pensamento);
e) exigência da colaboração do leitor (corresponsável na construção de imagens narrativas, por exemplo, a do espelho, no caso de 'George');
f) vivência no estrangeiro (França, Bélgica), tal como George (em Amesterdão);
g) crença mais no talento de pintora (tal como George) do que no de escritora.

      Vamos, então, a "George" (que já foi Gi e será Georgina), narrativa epónima marcada por essa consciencialização do encontro do 'eu' consigo mesmo, pela representação do que foi e do que será, numa espécie de despersonalização, distanciamento, descentração para se poder ver na memória, ao espelho ou n(um)a bola de cristal.

     Uma narrativa tão reflexiva e deambulante quanto o que Bernardo Soares fez com Pessoa (ou o último no primeiro). Porque a consciência da vida é feita de procura, numa viagem que nos faz estar atentos ao que há à volta de todos nós e que nos leva a revermos o percurso já feito e/ou a prevermos o que estará para além de nós a cada instante.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Ainda o desassossego

      Desta vez, fico-me pelo Livro do Desassossego (que já teve versão fílmica).

    Trabalhados alguns fragmentos, fica a sensação de um Bernardo Soares que ecoa o ortónimo, bem como os heterónimos, num registo prosaico feito da poesia e do pensamento plasmados em alguns versos familiares aos olhos dos leitores pessoanos.
     Na proximidade com o criador, Bernardo Soares é um semi-heterónimo (no seio de outros dois) que muito contribuiu para a dimensão reflexiva da obra completa do criador poético; um prosador que observa e transfigura a cidade, os ambientes, o quotidiano à semelhança de Cesário; que trabalha e reflete sobre a língua (pois gosta de "palavrar"); que explora o sonho como libertação do sono da vida (ou da "salada coletiva da vida").
     É na dualidade de um Pessoa-Soares ou de um Fernando-Bernardo que o ser-sombra se compõe, como se pode depreender do documentário seguinte (a abordar um livro, que é simultaneamente vida, de desassossego):

Documentário com montagem a partir da série televisiva "Grandes Livros" (RTP-1)

     Mais do que um Vicente Guedes (aristocrata falido que ganha a vida como empregado de escritório) ou o Barão de Teive (com morte anunciada, e que decide escrever antes de se matar), Bernardo Soares é o pensador moderno na reflexão sobre o abismo da alma humana, reportando uma vivência de angústia, numa sociedade feita de desalento e numa época tão crítica quanto criativa. Nesta, a alma do escritor é "uma orquestra oculta", sem saber "que instrumentos tange e range, cordas e harpas, tímbales e tambores"; só se conhece como sinfonia e vê a infância como saudade da emoção desse momento de "grande certeza sinfónica".

       Sem sentimento político ou social, Bernardo Soares assume-se pelo alto sentido patriótico: a sua pátria é a língua portuguesa.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Quase a terminar janeiro e...

      ... vem aí mais do mesmo.

      Quem construiu o programa de 12º ano da disciplina de Português, de facto, ou gosta muito de Pessoa ou contribui definitivamente para alguma saturação: ele é ortónimo - nas construções poéticas curtas e na obra Mensagem -, mais heterónimos; junta-se o semi-heterónimo Bernardo Soares e, para fechar, volta-se, com Saramago, a um universo pessoano com O Ano da Morte do Ricardo Reis. Faltou algum doseamento, num indisfarçável propósito de ver em Pessoa toda uma literatura, porque ele é todo um conjunto de poetas em verso, contista e prosador exímio, dramaturgo de uma peça ou cena com faces / máscaras / caracterizações "em gente".
        A riqueza e diversidade do poeta modernista são enormes, por certo. Falta saber se a adesão à multifacetada obra se consegue com a insistência na leitura de tanto verso, pensamento e (re)construído, criativo universo. Por mais que a multiplicidade se verifique, não deixa de comparecer a unidade: a de um criador que ecoa nas suas criações ou a da convergência de sensibilidades várias e aglutinad(or)as no escrito. É um Pessoa que se exprime, por fingimento artístico, através de várias pessoas e estéticas ou estilos diversos, numa representação feita em um só palco, mas com a fragmentação do ser própria do artista que se confronta com múltiplas verdades.

       Um Fernando Pessoa(s) acompanha os nossos dias, até não sei quando, à espera de uma linha de fronteira que se esbata no jogo do real ficcionado ou da ficção que tem muito de real concentrado num romance.

sábado, 10 de junho de 2017

Famílias poéticas ou da língua

     Feriados ao sábado são um desperdício (ao domingo também).

    Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas foi dia celebrado entre o Porto e o Rio de Janeiro, a falar português, esse idioma que une continentes e se fez pátria - pelo menos, assim o dita essa citação poética revista em azulejo:



     Em dia de Camões, não é heresia nenhuma citar Pessoa, este que parecia ver-se no espelho como esse "supra-Camões" sugerido numa sequência de artigos sobre a nova poesia portuguesa, escritos em 1912 para a revista A Águia (órgão do movimento da Renascença Portuguesa). Talvez não seja muito rigoroso dizer-se que o pensamento é de Fernando Pessoa, quando de Bernardo Soares se trata, o semi-heterónimo do Livro do Desassossego.

      Num feriado dedicado (também) ao poeta, é a língua e a cultura que se reveem nessa identidade de comunidades e famílias poéticas feitas de um mesmo material que é, simultaneamente, objeto e construção, em aberto, às potencialidades (re)criadas na e pela arte.

sábado, 5 de dezembro de 2015

Do rio para o mar: no caminho dos modernos

     Por várias vezes me cruzei com ele, mais propriamente com o que escreveu, para não falar da estátua-homenagem que, na Foz, vê o casamento do rio e do mar.
Monumento na Foz do Douro a Raul Brandão,
de Henrique Moreira e Rogério Azevedo (pelo centenário do nascimento) -  Foto VO
       Assim o li ou revi noutras formas de expressão artís-tica nele inspiradas.
   Há oitenta e cinco anos morria Raul Germano Brandão. Quase ninguém dele fala, até por causa dos oitenta anos de um outro contem-porâneo do autor de Húmus (1917) ou O Pobre de Pedir (1931) - refiro-me, naturalmente, a um Fernando Pessoa, que não apaga os demais, mas se impõe pela grandiosidade que deles também colheu.
     Do prosador, dramaturgo e pintor nascido na Foz do Douro (a 12 de março de 1867) ficaram soberbas páginas plenas de uma paisagem geográfica, física e humana que respeita e resiste ao mar (ou não fosse ele descendente de quem com este conviveu). Subscritor do manifesto "Nefelibatas" (que sai no Porto, no findar de 1891), "andou nas nuvens" pela idealização e reflexão construídas, numa alternativa a um contexto finissecular e a uma sensibilidade pessimista e decadente que se impunham no período da sua existência.
     Num pensamento focado sobre a condição humana, o sofrimento, a angústia, o mistério e a morte, várias são as personagens traçadas pelo negrume dos ofendidos e humilhados, de uns miseráveis que (de humildes e espezinhados) se revelam num grito de sensibilidade ferida pelo espetáculo degradante do mundo; pelo gosto literário novo da apreensão dos matizes da vida psicológica, na sua complexidade e evanescência.
      Aproximando a escrita poética e filosófica, muita da prosa brandoniana coloca em causa os modos de representação do real, sublinhando, preferencialmente, uma meditação sobre a metafísica da dor, o absurdo da condição humana. As categorias narrativas do tempo, do espaço, da ação / intriga e das personagens esboçam simbolicamente um universo mais abstrato do que concreto, como pano de fundo para o drama secular da luta do homem entre o sonho e a desgraça. Assim a vila / vida de Húmus se apresenta; a árvore, enquanto símbolo simultâneo de prisão terrena e ascensão celestial, se mostra sustentada de desgraça ("As suas raízes alimentaram-se deste húmus - a vida dos pobres, das prostitutas, dos gebos", in Os Pobres, de 1906); o discurso fragmentado se compõe e recompõe, refletindo o reconhecimento da densidade psicológica, divagante e divagadora no(s) tema(s) pensado(s); o pluricódigo literário, artístico se afirma, numa combinação de reflexão, sensibilidade e produção escrita orientadas para um discurso coerentemente sincopado, fragmentado, típico de uma existência (e por que razão não já dizer de um existencialismo avant la lettre) em crise, para um gosto estético do tempo.

      Na sua obra poética, Verlaine escreveu "Il pleure dans mon coeur / comme il pleut sur la ville
"; na vila / vida de Raul Brandão, "O Homem é tanto melhor quanto maior quinhão de sonho lhe coube em sorte. De dor também". Eis uma visão e conceção modernas, prenunciadas num tempo ligeiramente anterior ao Primeiro Modernismo português.

domingo, 1 de novembro de 2015

Ai, Pessoa! Como nos desafias!

      Começa bem o mês que, no seu final, tem Pessoa bem marcado.

     Nada como principiar com o poeta da Geração de Orpheu. Na sequência do trabalho com um poema, impôs-se a dúvida:

      Q:  Pode tentar classificar-me a oração "Que eu fosse outro" em "Tivesse Quem criou / O mundo desejado / Que eu fosse outro que sou,”Dei um nó.

      R: Os versos pessoanos transcritos (in "Guia-me só a razão") fazem parte de uma composição poética pautada pela constatação ora da consciencialização dos limites e do exercício da racionalidade ora da afirmação do plano da transcendência.


       É na segunda quadra que eles podem ser lidos, numa construção sintática densamente complexa cheia de hipérbatos, de anástrofes e de elipses, Nesta sequência, interessa, pois, reconstruir a ordem típica das palavras e explicitar a lógica discursiva associada ao pensamento transmitido. Ter-se-ia, então, na ordem padronizada, a frase 'Quem criou o mundo ter-me-ia criado outro, (se) tivesse desejado que eu fosse outro (diferente do) que sou'. 
       "Que eu fosse outro", na reconstrução feita, corresponde a uma oração subordinada substantiva completiva (a funcionar como complemento direto, introduzido pela conjunção completiva ou integrante 'que'), relativamente ao verbo 'desejar' configurado no pretérito mais-que-perfeito do conjuntivo ("tivesse... / ... desejado").

      No meio de tanta subordinação sucessiva (para a subordinante 'ter-me-ia criado outro'), há todo um processamento retórico e lógico-discursivo a complexificar a classificação de uma pequena palavra ("que") colocada no meio de um mar de complicações. Espero ter ajudado a desatar o nó.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Em tempo de "Folhas Caídas"

      É verdade que estamos em pleno outono...

    A polissemia da expressão "Folhas Caídas" pode ser explorada na evocação desta estação; na desorganização de registos em papéis dispersos (espalhados pelo chão); na metáfora e no anúncio do ciclo final de uma vida. De tudo isto se compõe o título da coletânea poética de Almeida Garrett, enquanto obra associada à expressão outoniça, serôdia do sentimento e vivência românticos.

Uma outra forma de ler Folhas Caídas, de Garrett, segundo a (cerc)ARTE

     Perante um "Ignoto Deo" (poema de abertura) a funcionar como prólogo de toda a compilação, prenuncia-se a temática de uma idealidade, de um misticismo e um pendor religioso a todo o tempo pautados pela referência a termos maiusculizados (Deus, Nada, Beleza, Verdade, Essência, Existência > Ignoto Deo), sugerindo a dimensão abstrata, ideal, perfeita. 
    Contrariamente a esta linha, há que considerar a menção à beleza, ao amor e ao prazer (minúsculos e com a adjetivação "real beleza", "puro amor"), a par da referência a um ser marcado por um "espírito agitado", que "Só vive do eterno ardor", a "olho nu", a enganar e a errar. Estes são conceitos-chave para traduzir uma experiência relacional do 'eu' com um 'tu', em tudo semelhante à vivência homem-mulher. Assim, a noção de um amor eterno, moral e idealmente equacionado dá lugar a uma realidade e experiência mais terrenas do que celestiais, naquilo que se resume como uma "combatida / Existência".
    Em síntese, encontra-se aqui a trajetória, o percurso do herói romântico: dramaticamente dilacerado pelos conflitos e pelas oposições entre o céu / a terra, a idealização / a realidade, o tu / o eu, o encontro / a despedida. Ao encontrar um amor, o sujeito romântico vivencia e alimenta a instabilidade, o desequilíbrio que colocam o sentimento na iminência de uma despedida ("Adeus"). Esta é a ironia romântica revista em poemas construídos com a narratividade própria de um "eu" que experiencia situações e sentimentos feitos de estados antitéticos (sonho / ausência de amor; realidade / presença do amor, acompanhados de dor). Leia-se "Quando eu sonhava", "Aquela noite" e "Anjo Caído" - três poemas feitos de uma narratividade que mostra o sujeito poético nessa condição conflituante.
    Surge, então, o ciclo dramático de toda uma sequência de outras composições líricas que sublinham a contínua inquietação do "eu", a mover-se no terreno da contradição, da tensão e da constante procura. E porque no percurso feito há perigo e sedução, fica essa nota com o poema e a canção:


     BARCA BELA

Pescador da barca bela, 
Onde vás pescar com ela? 
      Que é tão bela, 
      Ó pescador!

Não vês que a última estrela 
No céu nublado se vela? 
      Colhe a vela, 
      Ó pescador! 

Deita o lanço com cautela, 
Que a sereia canta bela... 
      Mas cautela, 
      Ó pescador! 

Não se enrede a rede nela, 
Que perdido é remo e vela, 
      Só de vê-la, 
      Ó pescador!

Pescador da barca bela, 
Inda é tempo, foge dela 
      Foge dela 
      Ó pescador!

      Depois da composição romântica, a evocação da memória e da experiência de leitura com as cantigas de amigo é inevitável, numa aproximação ao cenário das barcarolas ou marinhas, à estrutura de refrão e ao gosto romântico pelo imaginário medieval.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

'Os Lusíadas' e o número da besta

     Estudos sobre numerologia e simbologia numérica associados à literatura são inúmeros e Os Lusíadas são mais um exemplo de obra a isso destinado.

     Tudo começa porque, ontem, um aluno me perguntou qual era o verso da epopeia camoniana que estava relacionado com o número da besta, o 666. Uns riam-se; outros estavam expectantes e todos esperavam ouvir a explicação de uma curiosidade que a professora de Português lhes tinha incutido, mas que, parece, o professor de Literatura estava mais destinado a responder. Não sei se é bem o caso, mas assim passou a ser.
     Hoje foi a aula para se chegar à resposta e contei com a colaboração de alguns estudantes que tentaram chegar à solução, na procura que fizeram (disseram-me) pela internet. Dois cenários surgiram: um relacionado com o Canto VII; outro com o IX. Afinal, não era o verso, porque há mais do que um. E, no final da aula, foram muitas mais as referências, todas elas contribuindo para uma leitura reveladora de alfabetos muito diversificados para o conhecimento, com os números a constituirem-se como um processo de o Homem aceder e compreender a coerência do mundo, pela construção de um sentido a atribuir ao universo.
     Começados com a obra literária por excelência (a Bíblia) - na súmula de tradições, de culturas, de saberes e acontecimentos que marcam a humanidade -, orientou-se para a leitura do último livro, o 'Apocalipse' (termo grego para 'Revelação'). No fim dos tempos (críticos), anuncia-se uma mudança, um novo tempo. No capítulo 13, versículo 18, lê-se: 

“Aquele que tem sabedoria calcule o número da besta, pois é o número de um homem e seu número é seiscentos e sessenta e seis”

     A leitura de um (sentido ou tipo de) "Homem" coincide com a cosmovisão antropocêntrica que o Renascimento traz para o Mundo - refletida em Os Lusíadas, num ideário que subjaz à própria arquitetura e construção da epopeia. E na tríplice configuração do "6" não será estranha toda uma simbologia que as próprias línguas de cultura sublinharam.
      No hebraico, as letras apresentavam valores numéricos; o mesmo sucedia na antiga Grécia (séc. IV a. C.), comparecendo a letra clássica do dígamo para representar o '6' (cf. tabela à direita), numa configuração gráfica próxima do atual "S" do alfabeto. Por outro lado, é sabido que, até ao século XVII, a Europa conviveu com cálculos matemáticos baseados na numeração romana (os algarismos árabes aparecem em textos portugueses pelo século XV e só se vulgarizam um século mais tarde).
     Nesta medida, a associação da grafia latina aos números sugerirá uma relação que - à exceção dos zeros para letras que não representam algarismos romanos - conduzirá a escrita da palavra 'sol' para o número seis; o mesmo sucede com a redação do nome 'Jesus'. Caso para dizer que, ora numa orientação mais pagã ora noutra mais cristã, a "revelação" simbólica e numerológica acontece. 
     O aparecimento das cartas do Tarot pelos séculos XIV-XV trouxe também consigo a leitura de sinais, no que aos vinte e um arcanos maiores diz respeito. O número seis corresponde à carta dos Enamorados, dos Amantes e traduz o caminho da escolha (segundo o livre arbítrio), da encruzilhada e da hesitação, com risco de erro e dispersão. Ao contrário do três (carta da convergência e da unidade), o seis (3 x 2) convoca a divergência de forças (dois sentidos) - é o reflexo dessa dualidade composta de corpo Vs espírito. Desta dupla dimensão (revista no contraste 'feritas / divinitas', materialidade / espiritualidade) se compõe o conteúdo de Os Lusíadas, publicados em 1572 (ano que, na operação matemática familiar dos 'noves fora', resulta em seis). Os 8816 versos da obra, nas 1102 estâncias, foram já largamente estudados por Jorge de Sena numa perspetiva numerológica. Não o fez com o foco no número da besta, mas a possibilidade existe, atendendo aos seguintes dados:

i) a leitura do título da epopeia, segundo uma configuração alatinada e numa aproximação ao grego antigo (particularmente ao dígamo), revela a presença de três números seis, para não falar na presença do cinco e do um (que também somados resultam no número seis);

ii) o sexto verso de cada uma das três estrofes da Proposição (Canto I) - 6 6 6 - reflete um conjunto de características relacionado com a excecionalidade do humano herói lusíada, associada à força, à intemporalidade e à divinização (“Mais do que prometia a força humana”; “Se vão da lei da Morte libertando”; “A quem Neptuno e Marte obedeceram”);

iii) as oitavas somadas até ao verso 666 conduzem até ao segundo verso da estância 84 de cada canto e, no caso do canto I ("Já o raio apolíneo visitava / Os Montes Nabateios acendido, / Quando o Gama cos seus determinava / De vir por água a terra apercebido"), remete para o espaço terrestre  dos Montes Nabateios (onde o Gama está prestes a ser traiçoeiramente atacado, por influência de Baco), espaço elevado e posicionado entre a referência a um deus (Apolo) e um homem (Gama), como que prenunciando a divinização deste, assim que superar a prova que lhe está destinada;

iv) o canto VI é o do segundo consílio (convocado por Baco) - que colocará os portugueses novamente à prova, pela congeminação divina que criará uma tempestade marítima - e tem no verso 666 (estrofe 84) a marca da força a enfrentar ("Assi dizendo, os ventos, que lutavam / Como touros indómitos, bramando, / Mais e mais a tormenta acrecentavam");

v) a estância 666 é precisamente a do início do canto VII, aquela que dá conta da concretização do caminho da escolha, do objetivo da viagem - a chegada dos marinheiros à Índia (“Já se viam chegados junto à terra / Que desejada já de tantos fora, / Que entre as correntes Índicas se encerra / E o Ganges, que no Céu terreno mora. / Ora sus, gente forte, que na guerra / Quereis levar a palma vencedora: / Já sois chegados, já tendes diante / A terra de riquezas abundante”) - ou o cumprimento do feito planeado;

vi) a chegada à Índia, por mais que seja desejada, constitui uma desilusão (por ser local onde se troca a vida humana do Gama por dinheiro) só (re)compensada no canto IX com a Ilha dos Amores (num plural que conjuga a dimensão corpórea - das relações mantidas entre marinheiros e ninfas - com a espiritual - no prémio e na glória simbolicamente representados) - o segundo verso da estância 84 do canto IX (o 666) é precisamente o que explicita a união dos marinheiros e das ninfas ("Destarte, enfim, conformes já as fermosas / Ninfas cos seus amados navegantes, / Os ornam de capelas deleitosas / De louro e de ouro e flores abundantes."), na realização corpórea e espiritual dos amantes (relembre-se a carta VI do Tarot), na ascensão humana à "divinitas", depois de um percurso em busca do local onde o "bicho da terra tão pequeno" não "indigne o Céu sereno".

     Na linha do exposto, revê-se a escrita das letras numa configuração numérica simbólica, traduzindo uma mentalidade que, desde os tempos medievais, procura compreender o(s) sentido(s) oculto(s) do Universo e tentar determinar o destino humano. Não será por acaso que o verbo 'contar' (números) e 'contar' (histórias) apresentam raiz etimológica comum.
     A numerologia, com cálculos de previsões, interpretações e até  especulações transcendentes ou mágicas surge, impondo-se com a Idade Média e o Renascimento, quando a ordem universal se baseava na razão numérica (filosofia derivada de Santo Isidoro: "A razão dos números não deve ser desprezada. Na realidade em muitas passagens das Sagradas Escrituras, quanto mistério eles revelam" - in Etimologias, III, iv, i). Consagrado como fator de configuração na Criação Divina, o número assumiu-se com lugar de destaque na criação artística, em geral, e na literatura, em particular.

    Na arquitetura de Os Lusíadas não deixa, pois, de perpassar a ideia de que as relações numéricas são relevantes para o significado da obra; para a interligação da natureza com a vida humana e, consequentemente, para a expressão da arte. Nesta última, os números são mais um alfabeto para o conhecimento.

domingo, 23 de março de 2014

Regressou: Odysseus

      O herói ansiado chegou, no período mais crítico em que a rainha de Ítaca é feita prisioneira.

      Falo de Ulisses (ou Odysseus, no grego), personagem homérica recuperada da literatura para uma série televisiva em exibição na RTP2 - aqui revista no trailer exibido no canal francês "Arte":


       No segundo episódio, foi anunciada a chegada de um navio com uma vela idêntica à da embarcação de Ulisses. Não era o que Penélope e Telémaco desejavam, a braços com as intrigas de Leócrito para casar com a mulher de Ulisses e, assim, ascender a um trono há muito sem rei. Tratava-se apenas da chegada do poeta recitador Eucaristos, portador da notícia de que Ulisses estava vivo. A troco de uma escrava (Cléa) que quer para si e que Penélope havia entregado a Eucaristos (como recompensa das novidades recebidas), Telémaco consegue que o poeta tenha um encontro privado com a rainha. Esta é, entretanto, denunciada pela aia Eurínome: Leócrito prometera a esta última a liberdade, se ela o informasse de qualquer encontro masculino com Penélope. Crente na fidelidade da sua rainha a Ulisses, Eurínome prefere, contudo, a liberdade. Penélope é acusada na assembleia de homens e é feita prisioneira de Antinoo, que entretanto se rebelara contra Leócrito e acabou por usurpar o trono. 
      É o adivinho Tioscos que, na praia, acaba por encontrar os vestígios de um naufrágio e o corpo de um homem no areal. E assim se cumpre o reconhecimento do soberano, com o regresso deste após dez anos de viagens.

Alessio Boni e Caterina Murino nos papéis de Penélope e Ulisses

      Mantenho, ao final do quarto episódio, o registo avaliativo de uma produção muito interessante para divulgar uma história que faz parte do legado cultural mediterrânico e que tantas referências mantém com outras obras da literatura ocidental europeia.