quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Legendas televisivas muito dúbias

     A estranheza instalada, ainda que de português se trate.

   Na variabilidade que as construções com 'até' possam apresentar em Português, no uso enquanto expressão de delimitação temporal podem ocorrer diversas configurações. No caso do Português do continente europeu, são admissíveis duas realizações:

(i) A candidatura decorre até dia 2 de outubro.
(ii) A candidatura decorre até ao dia 2 de outubro.

      O mesmo não se aplica ao segmento da legenda televisiva seguinte, particularmente no contexto de um meio de comunicação social de Portugal, para falantes maioritariamente da variedade do continente europeu:

Fosse numa televisão ou canal televisivo do Brasil até podia ser (foto VO)

    Já a Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra (14.ª ed., Lisboa, Edições João Sá da Costa, 1998, p. 561), se refere ao uso generalizado da preposição 'até' acompanhada da contração da preposição 'a' com o (determinante) artigo definido 'o/a(s)', no caso do português europeu, enquanto no do Brasil se verifica a ausência da contração.
       Assim, deveria ler-se, na legenda, a construção proposta em (ii), com contração; eventualmente, (i) sem contração nem determinante. O televisivamente assinalado está mais para um registo produzido em variedade do continente não europeu.

       Em período de férias, perguntei se me encontrava algures pelo Brasil. Né, cara?!

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Mais obras do 'artista'

      Passear pela praia dá nisto.

     Há sempre uma pedra na caminhada pelo areal, algumas revelando formas interessantes e atraindo as mãos que as transportam até casa.
     Depois, com um pouco de brilho, cor e aplicações de outras artes, produz-se um adorno a evocar lembranças, trazendo para dentro da casa um pedaço de céu e de mar, mais o sol que hoje eclipsou.

Uma "barcarola ou marinha" numa das estantes com muito estudo da literatura portuguesa (foto VO)

      Mais uma obra do 'artista' para a coleção decorativa da casa.

      Haja vontade, porque matéria prima não falta, a par de alguma criatividade.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Mais um de Marguerite Yourcenar

        Entre um histórico e um autobiográfico com muito que se lhe diga.

Edição lida, em tradução de Maria Lamas     
    É considerada uma das obras maiores da literatura do século XX, pela erudição da autora, pelo conteúdo da obra, pela grandiosidade humana, humanista e humanizadora da personagem central - um homem que foi grande no seu tempo (séculos I e II), a ponto de Yourcenar o retratar (nos apontamentos dedicados a Grace Frick, partilhados com o leitor no final do romance) da seguinte forma: "Se este homem não tivesse mantido a paz do mundo e renovado a economia do império, as suas felicidades e os seus infortúnios pessoais interessar-me-iam menos".
      Publicado em 1951, o romance Memórias de Adriano dá-se a ler num registo confessional e no formato de uma longa carta autobiográfica (ainda que imaginada e mediada pelas pesquisas da autora) cujo destinatário é o jovem Marco Aurélio. Será este o sucessor escolhido ("neto") para o império romano, preparado e acompanhado pelo fiel Antonino ("pai"). A narrativa cumpre um balanço da vida de Publius Aelius Hadrianus, desde as suas origens, à ascensão ao poder, aos seus amores, à sua visão do mundo. Contrariamente a outros imperadores assumidamente conquistadores, este revela-se um líder mais orientado para a paz, focado na manutenção das fronteiras do império e não propriamente na sua expansão. Tendo viajado largamente pelo território, na expressão de um domínio atento e empenhado em compreender os povos dominados, procurou manter um equilíbrio que não se identifica com a dominação brutal das conquistas expansionistas; antes com a afirmação da dimensão humana, espiritual e cultural.
       Enquanto obra a versar a consciência da doença e da morte, a reflexão sobre a passagem do tempo, a progressiva degradação do físico, as fragilidades e inseguranças da existência humana, bem como tudo o que de verdadeiro se deixa com a morte, estão assim assumidos os temas que pautam a intemporalidade e universalidade da obra, num exercício de inteligência da personagem (da autora ou de qualquer outro ser humano pensante) que reflete sobre si mesma num tempo em que a liberdade de pensamento não deixou de existir. A escritora belga chega a reconhecer, nos seus apontamentos, o interesse por uma vida e um tempo inspiradores: "Este século II interessam-me porque foi, durante muito tempo, o dos últimos homens livres. Pelo que nos diz respeito, estamos talvez já muito distantes desse tempo". Era o tempo em que já não se acreditava propriamente nos deuses romanos, com o Cristianismo ainda por se afirmar, a despertar apenas curiosidade - ou seja, um tempo de entremeio, de transição, com alguns sinais de liberdade necessários à descoberta e à construção da humanidade.  
Uma das grandes obras assumidas por Adriano (montagem e foto VO)
      O livro encontra-se organizado em seis par-tes, acompanhadas de apontamentos finais e de uma nota explicativa quanto à génese da escrita, distinguindo-se o que é facto e o que é ficcional na construção (da) históri(c)a. “Ani-mula vagula blandula” (Alminha errante, deli-cada) retrata o limiar entre a vida e a morte (“…eu começo a avistar o perfil da minha morte.”), expressando-   -se a tentativa de viver um dia após outro, sem medo nem agonia - a constatação da matéria de que o Homem é feito, perante as limitações que progressivamente o assolam; “Varius multiplex multiformis” (Diverso, múltiplo, multiforme) evidencia as origens (avô feiticeiro, pai, educação e formação na cultura e sociedade gregas, paixões, visão política, morte de Trajano e sucessão de Adriano ao poder); “Tellus stabilita” (Terra estabilizada) expõe o clima de instabilidade social e as medidas necessárias para a resolução (assassinato de quatro cônsules conspiradores, rejeição do título de “Pai da Pátria”, a proibição dos banhos mistos, fundição da baixela de ouro maciço e a sua introdução nos cofres do Estado, diminuição da quantidade de escravos da casa imperial, uso público da toga, visão do feminino, previsões para um futuro longínquo, sendo de destacar ideias tão atuais como: “Duvido que toda a filosofia do mundo consiga suprimir a escravatura: o mais que poderá suceder é mudarem-lhe o nome”; “Uma parte dos nossos males provém de haver demasiados homens excessivamente ricos ou desesperadamente pobres”); “Saeculum aureum” (Idade de ouro) é capítulo central do romance, no qual se dá conta da relação com o amado jovem grego Antínoo, a paixão do imperador, cuja morte trágica o marca de forma profunda, mostrando-se aí a sensibilidade de uma personalidade angustiadamente apaixonada, sofrida com a perda incompreendida; “Disciplina augusta” faz várias referências a Antínoo e à forma a perpetuar a sua lembrança no tempo, à revolução dos judeus e como esta foi abolida (Judeia cortada do mapa, passando a designar-se Palestina), à nomeação de Antonino como sucessor e Marco Aurélio como seu "neto"; “Patientia” (Paciência) consciencializa acerca da falta de forças para prosseguir, do desespero, da conformação face ao fim inexorável (tendo vivido de forma intensa e fervorosa e tendo conhecido vários aspetos do mundo terreno: o amor, a amizade, a fidelidade, a alegria…).
Outra das grandes obras de Adriano em Roma (montagem e foto VO)
    Uma narrativa fundada na recons-trução / recriação da verdade da História (ou, como diria Yourcenar: "Sucede com essa verdade o mesmo que com todas as outras: enganamo-nos mais ou menos") e uma autobio-grafia que poderá ter existido (mas não passa da máscara de um Narciso que se espelha na água bebida das fontes inspiradoras da autora) - este é um romance que propõe uma reflexão sobre os ideais e os limites de governação, sobre os sentidos de responsabilidade desse poder, sobre o alcance da ação humana e de como tudo é encarado não necessariamente pela perspetiva da glória ou da glorificação, mas pelo exercício frágil, submetido aos erros e aos enganos, com lugar à questionação e interrogações próprias da existência e da condição humanas. Desta forma, também se desafia a versão oficial da História, aproximando-a, quem sabe, de um real mais autêntico (porque do humano comum).
       Palavras finais: "Procuremos entrar na morte de olhos abertos..."

    Apaga-se, assim, a dimensão da personagem histórica para dar lugar ao indivíduo comum, dominado por uma sabedoria intemporal, transformando a história numa reflexão universal, misturada com erudição e humanidade. Fosse Zenão (ou Sebastião Théus), evocaria liberdade; é Adriano, tomo-o no poder da vida pela filantropia, pela cultura e pela humanidade.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Corrigindo os erros

    Na 'Grande Entrevista' (RTP1), com Vítor Gonçalves e o Sr. Ministro da Educação, falou-se de erros e também os houve.

   Na muita informação que, quarta-feira passada, pôde aí ser colhida, vou ficar-me por um erro, conforme uma colega mo fez chegar:

Vítor Gonçalves não está a gostar. Será do erro da legenda? (Foto partilhada, com agradecimento à CF)

     Em todos os processos de avaliação há erros, dizia-se um pouco antes. O mesmo acontece com a escrita, particularmente para quem desconheça a natureza convencional e etimológica de muita dela ('corrigir' vem do latim 'corrigere' - com 'g', antes de 'i/e'). Portanto, quando ao minuto 5:45 da entrevista, surge a legenda com erro, a sintonia do tema de discussão e da forma verbal participial erradamente grafada é notória.
      Na prossecução do diálogo, e com mérito para a revisão da RTP1, chega a correção que se impõe: "Os erros são corrigidos de uma forma mais rápida". Efetivamente, em pouco mais de meio minuto (entre as 5:45 e as 6:24), "corrigido" aparece como deve:

   Citação das palavras do Sr. Ministro da Educação, Fernando Alexandre, com a correção devida na RTP1 
(Foto VO)

     Assim se comprova, também, a necessidade de revisão no processo de escrita. A RTP1 teve-a em conta, em pouco tempo, avançando com a grafia correta da palavra.

      Seja a revisão da escrita tão rápida e eficiente como a da avaliação (nos exames nacionais) discutida. A bem de todos.
       

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Essa é à Eça!

     Verdade ou não, assim se lê no Facebook.

     Mudam-se os nomes e acho que já li isto algures:  
 


    Fosse Carlos Eduardo e Maria Eduarda, creio que estaríamos perante mais um dos "Episódios da Vida Romântica" a (re)visitar com a leitura de Os Maias, de Eça de Queirós. É verdade que ambos não tiveram descendência, como diz a imagem; contudo, não deixaram de praticar o que lhe dá origem, no sentido pleno de "filhos". 

     Se a fonte do TVI-IOL for credível, afinal, Eça mantém-se contemporâneo. E não só pelo tópico das relações incestuosas. Garanto!

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Antes dos 70

     Na preparação do meio século de carreira.

     A voz dos Trovante, a voz de um percurso a solo pode continuar a cada vez que se cantar com o ritmo e a cadência musical familiar das canções que, coletivamente, se reconhecem. A marca deixada no cancioneiro da música portuguesa acompanha lutas grandes e pequenas, dentro e fora de portas.
    O dia nasce com a notícia da morte de Luís Represas, na discrição do que foi uma doença prolongada a pôr fim ao espetáculo ao vivo. Persistirá na memória dos que veem e ouvem as suas composições, letras e canto, mesmo estando agora "Fora de mão" (álbum de 2003):

Da voz que nos deixa à música que nos faz ouvir há décadas

    Sem querer trair a autoria inspiradora, diria que "As ruas da minha cidade abriram" não os olhos, mas os ouvidos, para se ficar a saber o que não se queria: partiu "sem deixar destino ou direção."

DA PRÓXIMA VEZ

As ruas da minha cidade 
abriram os olhos de encanto para te ver passar
As pedras calaram os passos 
e as casas abriram janelas só para te ouvir cantar
Porque há muito muito tempo não vinhas ao teu lugar
Ninguém sabia ao certo onde te procurar
Da próxima vez não vás sem deixar destino ou direção
Se houver próxima vez não esqueças leva contigo recordação
E um beijo pendurado ao peito do teu coração

Quisemos saber como estavas, 
se a vida tinha tomado bem conta de ti
Ou se a vida teve medo 
e eras tu que a levava refugiada em ti
Cada verão que passava sentíamos-te chegar
Como era possível que o sol se atrevesse a brilhar
Da próxima vez não vás sem deixar destino ou direção
Se houver próxima vez não esqueças leva contigo recordação
E um beijo pendurado ao peito do teu coração

Deves trazer tantas histórias, 
tantas que algumas ficaram caídas por aí
Outras, eu tenho a certeza, 
o teu fogo na alma queimou, deixaram de existir
Só queremos saber se és a mesma que vimos partir
Não existe mundo lá fora que te possa destruir
Da próxima vez não vás sem deixar destino ou direção
Se houver próxima vez não esqueças leva contigo recordação
E um beijo pendurado ao peito do teu coração

     Lembro-o por terras de Espinho, num palco junto ao casino, em concerto de verão, há mais de quinze anos. Soam muitas cantigas de sucesso, nas melodias e pelos propósitos da composição (por todos nós, por Cuba ou por Timor).

     "Se houver próxima vez não esqueças / leva contigo recordação...". Um dia, a festa será algures no universo. RIP.

domingo, 19 de julho de 2026

Manipulações

     Não são feitas com mãos, mas com tecnologias "de ponta" (aguçada por intenções dúbias).

     A circulação de uma foto com legenda televisiva imprópria (porque manipulada por Inteligência Artificial - IA), e com impropério, dá conta de como a palavra "pauta" se aproxima bastante de uma outra, retirando-se o grafema 'a' da primeira sílaba. O certo é que o confronto com a emissão do programa difundido quinta-feira passada (dia 16) permite confirmar que de "pautas" se fala e se escreve, sem qualquer confusão possível:

A prova do que o Ministro admite: as pautas; não o que outros querem dar a ler (Foto VO) 

     Contrastada a foto mencionada (que evito expor pela leitura explícita do que nunca realmente existiu) com a agora apresentada, seja para quem se ria / ri da situação seja para quem via /vê o que não pode ser lido, fica o aviso: o assunto motivador da brincadeira não merece o tratamento dado, por um lado; lamentavelmente, atesta-se que não se pode acreditar em tudo o que se lê, por outro. Há que confirmar as fontes, e a que é necessária está ao alcance de muitos, recuando-se no tempo e verificando-se o que foi efetivamente escrito na legenda do canal televisivo "Now" (fosse outro e diria que havia matéria para a rubrica do "Polígrafo SIC", dedicada à constatação da veracidade / falsidade de notícias e conteúdos virais). 
       Tal como diria Camões, "vi claramente visto"; melhor, "li claramente lido". Despistada, portanto, qualquer intenção outra que não a do que foi escrito, apesar de a possibilidade poder ser considerada (na base de legendas insólitas já verificadas).
       Tenho pena que, na mesma emissão, ainda abordando o tema da crise dos exames nacionais e a questão da publicitação dos resultados, surja o «famigerado verbo 'meter'» (hoje tão vulgarmente utilizado, mesmo nos contextos em que para tal não deve ser convocado):  

A crise dos exames nacionais a par de uma outra bem mais alargada: 
a do uso da língua nos canais televisivos (Foto VO)

     'Pôr em risco' / 'colocar em risco' perde, com a legenda escrita, a configuração de expressão fixa, pelo recurso de "meter". Lá diz o povo, "entre marido e mulher não metas a colher", o que deve ser relativizado em contextos muito críticos. Eu digo aos alunos que não se mete no quadro, no papel,... Também embirro com 'mete em risco', pela sua coloquialidade ou familiaridade, pouco desejáveis na comunicação social. Entre as expressões e/ou as combinações mais comuns no uso (assumir, aumentar, avaliar, controlar, correr, estimar, evitar, gerir, identificar, minimizar, mitigar, reduzir o risco), o verbo 'meter' não parece ter lugar; evitá-lo-ia, portanto, para que não se 'meta' em lugares / expressões que não se deve utilizar ou se deve evitar.
     Portanto, enquadro 'meter notas em risco' em construções que evidenciam inadequação nas legendas televisivas, a tocar a impropriedade lexical (das penalizações maiores na escrita dos alunos, a par dos erros sintáticos), face ao exemplo que deveriam assumir. 
      Entre os variadíssimos exemplos que já foram contemplados neste blogue, pode já dizer-se que há matéria para demonstrar / analisar tais falhas em vários domínios linguísticos.

      E continua a questão: a da responsabilidade editorial. Não há quem verifique, sugira, corrija, cumpra o que deve ser uma obrigação na difusão correta e adequada da língua (seja lá qual for o canal).