segunda-feira, 15 de junho de 2026

Podia ser melhor, para ser "bom".

      Isto de representar sílabas não é fácil.

      Em termos prosódicos, são analisados fenómenos fonéticos e fonológicos envolvendo unidades mais vastas do que os fonemas, como a sílaba, a palavra ou a frase. No caso da sílaba, está em causa uma unidade estruturada e organizada que agrupa os sons dentro da palavra e que pode incluir um ou mais sons, como, por exemplo, nas sílabas das palavras [a][pren][der] ou [en][si][nar] [por][tu][guês]. 
      Os sons integrados numa sílaba podem ocorrer no seu ataque  - consoante(s) à esquerda do núcleo vocálico -, no núcleo vocálico (vogal ou ditongo) ou na coda da sílaba (consoante à direita do núcleo).
    Ora, no início da rubrica "Bom Português" de hoje, quando se procura verificar qual a sílaba destacada na palavra "tenhamos" (caso interessante, porque, definitivamente, resulta na leitura / na produção oral devida da palavra), eis que surge o que não deve:

Há sílabas com amarelo a mais (Foto VO, a partir de emissão televisiva da RTP1)

      Leia-se convenientemente a segunda hipótese como a correta, assumindo a sílaba tónica e a natureza grave da palavra (e não a forma de a tornar esdrúxula, como muitos falantes tendem a oralizar). Até aqui tudo bem.
     O que não está correto é assumir [ten] no primeiro cenário como sílaba. A divisão silábica da palavra é [te][nha][mos], pelo que a primeira sílaba à esquerda não está convenientemente representada, na sua configuração gráfica. O 'n', indevidamente assinalado, é parte constituinte de um dígrafo (duas letras a representar um só som) que está para o ataque da sílaba medial [nha], e não para um som de coda da inicial.

        Quando de "Bom Português" se trata, tem de ser melhor. Haja esperança! E tudo faÇAmos para que consiGAmos, oralmente, produzir discursos corretos.

domingo, 14 de junho de 2026

Nobre causa em língua pobre

       Assim começou a manhã noticiosa: com nobreza e pobreza.

     A nobreza traduz-se na imagem e na ação dos dadores que generosamente dão o que têm a muitos que precisam. Solidariedade fantástica dos dadores, bem como de todos aqueles que cumprem, no seu trabalho, com uma causa que se impõe para a salvação / sobrevivência / manutenção da vida e da dignidade humanas.

Quando a imagem contradiz a legenda, num canal televisivo nacional - RTP Notícias (Foto VO)

       A pobreza encontra-se mesmo na legenda, como se houvesse brigadas contra as populações (ir de encontro a). E o curioso é que ela é imediatamente contradita pela voz da locução noticiosa, assumindo (e bem) que as brigadas vão ao encontro das populações necessitadas (ir ao encontro de).
    Já aqui se apontou, por mais de uma vez, como a simples troca das preposições / contrações dá em significados completamente contrários: respetivamente, o de esbarrar, chocar, ir contra, por um lado; o de aproximar, estar ao serviço de, por outro.

         A deriva do uso da língua (ainda mais em contexto de comunicação de massas), no que à expressão diz respeito, não pode causar incoerência nos atos: tudo vai ao encontro da causa maior; nunca de encontro a ninguém. Persista a nobreza; erradique-se a pobreza.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Mentiras temporalmente agendadas

       Assim me deram a conhecer. É bom saber.

       Se tivesse de contratualizar o serviço, não o requeria ao fim de semana. Melhor: ao domingo.

Uma partilha de feriado, de uma cúmplice na recolha destas falhas na língua (com agradecimento à MPM)

       Com alguma variação, em Portugal, o típico é o cabeleireiro e o barbeiro serem mais baratos à quarta-feira (pelo menos, no local que frequento). No local publicitado, só para me ver livre das mentiras, já saberia o dia em que não faria a barba nem cortaria o cabelo. Restar-me-iam praticamente quase todos os dias da semana. Exceto o dia santo.
       Ainda assim, como a mente é gasta ao longo da semana em trabalhos, mais vale mudar de barbearia (pode até ser que o barbeiro / cabeleireiro tenha nome mais... tradicional ou comum).

          Nem com a homofonia do "somente" isto vai lá. Só pode ser piada (de sorriso amarelo).

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Bodas de ouro para um edifício (e não só)

     50 anos numa noite espetacular, com memórias revistas em escassos minutos.

     Hoje, pelas 21 horas, no Multimeios de Espinho, foi tempo de encerrar uma história que culminou em espetáculo-concerto e contou com a participação da comunidade educativa do Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira (AEML), nomeadamente professores, alunos, pessoal não docente (operacional e técnico-administrativo), encarregados de educação, mais as entidades parceiras que viveram os "50 anos: do Liceu ao Agrupamento" - tema aglutinador de todo um plano de atividades vivenciado desde o ano letivo 2024-2025.

Convite endereçado à Comunidade Educativa do AEML
     
       As bodas de ouro dizem respeito a um edifício construído no início da década de setenta do século passado, para nele ser alocado o Liceu Nacional de Espinho. Entrou aquele em funcionamento no dia 4 de novembro de 1975, conforme ofício redigido pela presidente do conselho diretivo provisório de então: a professora Maria do Céu Beato Oliveira Dias de Sousa. Em tempos marcados ainda pelo espírito revolucionário pós-25 de abril, tudo começou de acordo com decisão unânime assumida em reunião geral de professores (RGP). Assim se lê no documento exarado: "... encontrada uma plataforma de solução... em relação a uma decisão tomada por unanimidade numa anterior reunião sindical, segundo a qual as aulas não seriam iniciadas sem que todos os professores eventuais estivessem colocados...". Nas palavras citadas de quem viveu o momento, a construção foi como que tomada de assalto, para que se cumprisse o desígnio para que havia sido erguida.
        O programa do evento celebrativo iniciou-se com a projeção de um pequeno vídeo, a dar conta do percurso desse estabelecimento escolar que, aberto em novembro de 1975, em 1976-77, passa a ganhar um patrono com a designação "Liceu do Dr. Manuel Laranjeira". Em 1978, chegou a "Escola Secundária Dr. Manuel Laranjeira". Em 2011, o edifício foi objeto de reabilitação por parte da Parque Escolar (hoje, Construção Pública), segundo um projeto arquitetado por Rui Lacerda. Cumprido meio século de um estabelecimento escolar (que, na atual e requalificada escola-sede de agrupamento, apresenta apenas alguns poucos apontamentos dispersos do passado), mantém-se a missão, ainda com futuro.
     Na presen-ça da Diretora do AEML, do Presidente do Conselho Ge-ral e do Vice-  -Presidente da Câmara Muni-cipal de Espi-nho, houve oportunidade para me pro-nunciar acerca do vídeo pro-duzido e de como este pode ser injusto face a uma multiplicidade de projetos, de atividades, de rostos que têm vindo a marcar gerações e que nele não figuram. Não cabem 50 anos em menos de dez minutos e, nessa medida, impõe-se a compreensão e a generosidade de muitos poderem rever-se naquilo que foi editado; encontrarem no que fizeram / fazem interseções, comunhões (re)visitadas no que foi incluído (há impossibilidades óbvias no conceito de memória: desde a perda, ao esbatimento e à recuperação recriada). Importa ainda agradecer a todos os que, saindo, entrando ou permanecendo no agrupamento, deram ou têm vindo a dar o seu melhor a uma instituição que tem servido bem o concelho, para não dizer o país (considerando alguns dos nomes que saíram formados do "liceu", como ainda é familiar e popularmente nomeado).
       Fica aqui o registo vídeo (clicar na expressão destacada) desses menos de dez minutos para uma história que já segue caminho no sentido do século - porque, do meio já vivido, há já provas consolidadas quanto ao papel de-sempenhado na socie-dade, enquanto exem-plo de escola pública focada na qualidade educativa, na inclusão, na multi e interculturalidade, bem como no acompanhamento socialmente empenhado e implicado na ativação de competências (conhecimentos, procedimentos, atitudes e valores) formativas diversificadas.

         Comemorados e encerrados os 50 anos, rode-se a ampulheta e reveja-se a areia a cair, em nova contagem de tempo com atenção à vida e, como o diz o patrono, abrangendo no "mesmo olhar o céu e a terra". Acrescentaria o mar, pela força que detém e pelo horizonte que nos dá, nos caminhos e nas oportunidades a descobrir, a explorar e a conquistar.
        

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Açúcar com retórica

     Nem de propósito: o exemplo do pacote de açúcar.

    Um aluno perguntava, a determinada altura da aula, se as palavras antónimas tinham alguma coisa a ver com antítese. Têm sim, enquanto mecanismo linguístico ao serviço de efeito retórico presente em discursos de natureza diversa.
    Quando se diz que importa fazer da fraqueza força, as palavras antónimas finais configuram um jogo antitético, tal como o enunciado publicitário de um pacote de açúcar que me veio parar às mãos:

Um jogo antonímico ou antitético - leve / forte (Foto VO)

    Não precisa de se enquadrar a questão das figuras de estilo ou figuras de expressão exclusivamente na lógica da produção literária. Poderá ser na comunicação do quotidiano, na linguagem argumentativa e persuasiva da publicidade, da política, da oratória, de textos poéticos ou literários.

       A retórica não se prende apenas a questões de estilo; cumpre-se no(s) uso(s) da língua e no que se evidencia nas figuras de palavras. Mais um caso de evidência da inseparabilidade da língua e da literatura.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Um 'me' que se distingue pelo recurso à terceira pessoa... e não só!

        Chega o tempo de preparar para provas / exames / testes.

     Por vezes, o confronto com respostas indevidas leva a incertezas que, definitivamente, importa eliminar (seja qual for a fonte destas).
       
       Q: Bom dia, Vítor. 
         Preciso da tua ajuda: na imagem que envio, os pronomes "me" desempenham as funções sintáticas de CD e CI, respetivamente, ou são ambos CI?

Testes / técnicas para a distinção do 'me' são precisos(as). E não só!

          R: Olá.
       Na primeira frase destacada, o 'me' assume a função sintática de CD (complemento direto), dado que, no paradigma das diferentes pessoas gramaticais, esse pronome seria substituível por 'te' / 'o' / 'nos' / 'vos' / 'os'. A pronominalização, na terceira pessoa, por 'o(s)' é a prova da função sintática de CD. Analisando a particularidade da primeira realização frásica, é de verificar que se está perante a base nuclear verbal 'ENSINAR+ALGUÉM+A FAZER'; portanto, 'Ensiná-lo a isso' (de novo, a marca de CD na pronominalização acusativa sublinhada) e não '*Ensinar-lhe a fazer / a ler / a isso'. Trata-se de uma construção ou realização análoga a 'OBRIGAR+ALGUÉM+A FAZER' ou 'LEVAR+ALGUÉM+A FAZER' (obrigá-lo a fazer / levá-lo a fazer), também com CD.
        Não há, assim, como confundir esta realização sintática com uma outra mais próxima da estrutura argumental típica do verbo 'ensinar': ENSINAR+ALGO+A ALGUÉM. Nesta última é que seria possível a pronominalização (dativa) do CI (complemento indireto): 'ensinar-me / te / lhe / nos / vos / lhes algo.
       Na segunda frase, o 'me' funciona como CI (complemento indireto), já que a substituição, na terceira pessoa, corresponderia a 'lhe(s)' - a marca de dativo, associada a CI, com o segmento 'de tudo um pouco' (inversão de 'um pouco de tudo') a funcionar como CD.

        O teste de substituição / pronominalização é uma técnica eficaz na consciencialização do que só, aparentemente, parece igual. Contudo, nem tudo o que parece é (inclusive na gramática da língua).

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Dar voz às mulheres

       Hoje e sempre, mesmo com uma voz masculina a abrir. 

    Um final de tarde, pelas 17:30, foi tempo de participar na palestra "Dar Voz às Mulheres", no Auditório Maria Ricardo. Em espaço com nome de mulher, foram recebidas seis ex-alunas e/ou professoras do Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira (AEML), numa oportunidade para recordar a passagem delas pela escola e para falar do percurso profissional que assumiram / têm assumido até hoje. Assim culminou o projeto de Cidadania da turma do 11ºF/F1 (Artes e Humanidades), intitulado "Mulheres que transformam o Mundo: Arte, Voz e Cidadania". No mural da cantina, uma exposição sublinhava o contributo feminino para o mundo; no caso português, havia lugar para as figuras singulares de Maria de Lurdes Pintassilgo (até hoje, a única mulher a desempenhar o cargo de primeiro-ministro), de Paula Rego e de Joana Vasconcelos (artistas contemporâneas de renome internacional).
     Convidaram-me para abrir o evento na qualidade de ex-diretor do agrupamento - uma presença masculina que não deixou de agradecer o convite, a iniciativa, um projeto que protagoniza mulheres nas áreas em que se destaca(ra)m: Carolina Marques (ex-aluna e deputada), Margarida Quaresma (professora aposentada e voluntária), Margarida Fonseca (jornalismo), Maria Resende (ex-aluna e jurista da APAV / Assembleia da República), Patrícia Carvalho (ex-aluna e enfermeira) e Ana Pais Oliveira (ex-aluna e artista / professora de dança).
      No âmbito das comemorações dos "50 anos: do Liceu ao Agrupamento", o evento não deixou de ser tributo aos conceitos de democracia, de cidadania e de república (femininas na língua, com a última a ser simbolicamente representada pela alegoria da Marianne portuguesa); cruzou-se com temas de referência como os dos Direitos Humanos e da Igualdade de Género; da Democracia e Participação Política das Mulheres; do Desenvolvimento Sustentável e Empoderamento Feminino; da Literacia Financeira e do Empreendedorismo Feminino; do Pluralismo e da Diversidade Cultural.
      A atualidade da sessão foi notória e notável, com a questão do género a manter-se premente enquanto tópico de discussão num mundo ainda pautado pelo domínio / poder masculino. Mesmo assim, a afirmação do foco feminino não deixou de ser uma constante, remontando aos tempos da antiguidade. O tema é transversal na cultura e na literatura - assim se pense na poetisa Safo de Lesbos (c.630-570 a. C.), na helénica Corina (quinto século a. C.), na ascensão de Cleópatra, nas figuras das proféticas sibilas, na romana Sulpícia (primeiro século a.C.), na mártir cristã Perpétua (c.182-203 d. C.); assim se leiam cantigas de amigo, obras de Natália Correia, Sophia de Mello Breyner Andresen, Agustina Bessa-Luís, Lídia Jorge ou se representem personagens ficticiamente inspiradoras como Matilde de Melo, Blimunda ou Lídia (clássica e moderna).
     É um facto que, no seio dos grandes feitos e heroísmos masculinos, grandes homens tiveram sempre o apoio e o amparo de grandes figuras femininas: num tempo como o reinado quinhentista de D. Manuel (o Venturoso), teve de existir uma infanta D. Maria na afirmação e expansão da cultura nacional; o século XVIII vincou o papel da poetisa e pedagoga Marquesa de Alorna, ainda com muito por divulgar e reconhecer na sua obra; a democracia e a liberdade do século XX muito devem ao pensamento ousado e feminino / feminista das três Marias (Maria Velho da Costa, Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno), com as suas Novas Cartas Portuguesas, de 1972.
      E na geografia nortenha que nos radica, entre o Minho e o Douro, não é de esquecer o sentido da raiz, da origem, de um matriarcado que se firma nos valores fundacionais, da terra, da resistência e da tradição - simbologia de um género que sublima a mítica Geia ou Gaia.

As convidadas no Auditório Maria Ricardo do AEML, numa lição de testemunhos, vivências e conselhos 
(Foto VO)

      A par de tudo isto, três jovens estudantes conduziram uma palestra que (entre o registo da entrevista, a curiosidade juvenil perante vidas experientes, a partilha de conselhos) resultou numa oportunidade feliz de aprendizagens, de expressão de emoções, de uma lição e afirmação expectante numa mundividência outra para gerações futuras. Só para me manter no feminino.