sexta-feira, 28 de outubro de 2022

E assim se falou dela...

     Terminou a semana com as palavras do patrono.

     Adjetivada de "outoniça", a semana culminou com as palavras do patrono (Manuel Laranjeira).
   Na obra Comigo (1912), entre vários poemas reveladores de uma atitude de ensimesmamento e introspeção, busca-se um incessante sentido da existência. Numa visão que busca a ilusão e se confronta com a consciência trágica e definitiva da existência, resta a jornada, o percurso, o caminho, a viagem - palavras que marcaram a mensagem transmitida, na qual se cruzaram conhecidos e alguns ainda por conhecer, todos unidos num momento e numa iniciativa singulares.
    No dialogismo das cartas, assistiu-se à encenação de um Laranjeira e de um Unamuno, numa prova de amizade (pessoal, intercultural e interlinguística). Foi uma oportunidade de encontro e um momento de partilha de leituras, de reflexões e de versos para a vida.
      Falou-se dela... dessa jornada...

Montagem com poema de Manuel Laranjeira e música de Debussy (Filme VO)

     Foi uma atividade para (re)lembrar, na Biblioteca Escolar, com trabalhos produzidos pelos alunos, uma exposição sobre o autor de Às Feras (1905), com e para lá dos textos.
    A vida é uma jornada, uma lição composta de bons e maus instantes, mas, acima de tudo, de caminho, de jornada.

     Em dia de nuvem, sombra, chuva e trovejo, não se deixou de falar de sol e de como neste há calor, há esperança (porque tudo é passagem) e deve ser dado tempo a que estes últimos se (nos) revelem.

domingo, 23 de outubro de 2022

Negócios da China?

      Uma coisa é certa: não traz lucro para ninguém.

    Não me refiro ao assunto noticiado, apesar de dizer respeito à China e a um comportamento, pelos vistos, inusitado. Aludo, em concreto, a essa confusão que, por um lado, parece existir entre a 'ESpera' e a 'EXpectativa' (ou não fosse esta última palavra oriunda do francês - "expectative"), mas que nunca deve dar lugar à desordem ortográfica que grassa pela televisão; por outro lado, entre tirar e colocar 'c' nalgumas sílabas com som vocálico aberto e que o Acordo Ortográfico (1990) acabou por motivar alguma deriva (legitimando que a representação gráfica se justificasse, nalguns casos, pela realização fonética):

Da China ou não, o negócio é muito dúbio na escrita do Jornal das 8, na TVI (Foto TJ)

      Estranho a escrita de 'EXpectativa' (além de mal escrita na primeira sílaba) sem 'c', porque o digo / o leio no som [k] (tanto em francês como nas 'EXpeCtations' do inglês), tal como em 'faCto' (muito bem escrito, por sinal). Não reconheço o 'c' de 'afecta', por não o ler nem o dizer; logo, não o escrevo.

     Fica a credibilidade televisiva afetada e não sei se tenho muita expectativa quanto ao futuro da escrita do português correto (também já sem 'c').

sábado, 22 de outubro de 2022

Pomba negra

         Pelo que não se alcança e tanto se deseja.

      Os tempos estão difíceis, por mais que se tematize o ano como sendo de paz e de harmonia globais (como, por exemplo, o faz a Federação Internacional de Associações e Instituições Bibliotecárias [IFLA], organismo internacional que representa os interesses dos serviços de biblioteca e informação e dos seus utilizadores ou usuários). Tudo parece ficar pela intenção, pelas palavras, sem os atos.

POMBA NEGRA
À falta de pomba branca ou do que ela representa
Queria pintar-se da brancura que,
negada na cor, dá sempre espaço
a todas as outras - qual solitário braço
ansiando por abraço; por toque
feito de Amor, lembrando regaço.

Queria o voo azul, livre, solto,
sem a ameaça de opacas nuvens
ou sombria noite; sem as passagens
de ruidosos e bélicos aviões velozes
ou de impulsionados mísseis algozes.

Queria planar sem pressa, ao vento,
esperando pelo ritmado bater de asas
a cumprir distâncias, viagens rasas
às copas, aos telhados, à humanidade.
Seria esta a sua instintiva felicidade!

Passado o espaço, cumprido o tempo,
chegaria ao pouso, ao ninho sedento
de paz, conforto, cuidado, alimento.
Cega à nascença, teve a visão capaz
de que nem todo o Homem se vê sagaz.

Seria assim menor o negrume,
maior a tonalidade da esperança:
ter no céu pássaros em volante dança.
Porém, há dor, ferida, fogo, lume
a arder, a queimar quem, na terra,
brinca com o poder e deste faz guerra.

Espinho, 22-10-2022

         Estranha esta pomba, que mais parece humana, nos desejos e nas vontades, relativamente àqueles que, na terra, se dizem feitos de poder e de razão.

         Bom seria que a pomba (branca, negra ou de qualquer outra cor) em paz volteasse, de novo, os céus da humanidade.

sexta-feira, 21 de outubro de 2022

Politicamente correto, boas maneiras e sentido(s) das palavras

    Dando continuidade a apontamento anterior.

    No mesmo contexto de um encontro a propósito do Clube de Leitura, Ricardo Araújo Pereira discute o conceito de 'politicamente correto', de 'boas maneiras' e dos sentido(s) das palavras.

Novo excerto com novas lições sobre o correto, as boas maneiras e a linguagem

    Um excerto muito significativo pela problematização levantada quanto às fronteiras do que é correto / incorreto e ao entendimento dessa zona que o 'politicamente correto' possa representar.
    Como alguns exemplos remetem para o(s) sentido(s) das palavras, volta-se a um pequeno capítulo de uma teoria da linguagem, assente no(s) uso(s) do comum dos falantes.


domingo, 16 de outubro de 2022

Citando Agustina, a propósito de ontem

     Muito se tem falado de Agustina Bessa-Luís e do centenário do seu nascimento.

   Quando em 1995 lia Os Meninos de Ouro, fazia-o na descoberta não da exemplaridade de uma personagem masculina, mas de um menino do Douro cujo percurso servia para traçar não o papel forte que poderia (ou, em certa medida, viria a) ter, mas a limitação, a fraqueza, a raiz arrancada à força da natureza, da terra, do Norte e das grandes famílias rurais nortenhas.
     Publicado em 1983, o foco romanesco começa por estar depositado em José Matildes, um político do período pós-revolucionário, evocando semelhanças com a figura de Francisco Sá-Carneiro; com o sentido messiânico de que a figura se viria a revestir; com uma vida a espelhar dificuldades relacionais e sentimentais. Contudo, é a afirmação do feminino que se virá a assumir no romance, roubando-se ao (anti)herói o protagonismo narrativo. Assim se salienta Rosamaria, figura duriense trocada no casamento, por não ser prefigurada como a grande mulher que se diz estar por trás de um grande homem. A força desta última vinga e assenta num orgulho firmado na seriedade e na luta enquanto razões de existência e de identidade construídas na interioridade humana.
     Este lado matricial da obra de agustina traduz o sublinhar de uma energia, de uma força, de uma fonte, de uma geografia e de uma terra (todas femininas) que veem na Natureza (genesíaca e venusiana) valor maior. Residem aqui a importância e a coerência da epígrafe a abrir a obra: "A Natureza, ela mesma é a doença, e só ela sabe o que é a doença" (Paracelso), recuperando-se com ela o princípio decisivo de toda a cura, encontrada no interior da própria Natureza.
     Neste arrazoado, lembro-me de ter sublinhado, logo nas primeiras páginas, o seguinte:

    "Diferente do que pensam os economistas, uma área produtiva não se destina apenas a ser rentável; sobretudo é uma área onde a vida se condensa e se transmite. Representa uma condi-ção histórica que se reflecte e se repercute, pondo a tónica principal não no lucro, mas sobretudo na circulação da energia, que implica o lucro também, mas que acentua a persuasão da inteligência, do investimento moral."

      Numa espécie de hino à terra e à natureza, finda o romance com uma referência a 

   "... um lírio azul, planta endémica e maravilhosa. (...) Penso nela como sendo um olhar que a terra ergue das suas profundezas e que nos empresta para que os segredos novos nos sejam apontados. Pois é a terra quem nos persuade aos caminhos que ela tem ainda invioláveis. Um lírio azul que parece perdido nas alturas roqueiras é talvez mais do que a Iris boissieri; é um olhar que nos vigia, passe a candura poética."

    Hoje cito-a, porque há pensamentos que, entre os valores ecológicos, telúricos e panteístas (com algum paganismo genesíaco e venusiano) da escrita literária, deviam ser relembrados na vida de todos nós, para que à nobre "raça humana" não falte a "Velha amiga que é a terra" nem a interioridade que nos define - a natureza humana ou da humanidade.

sábado, 15 de outubro de 2022

Passear pelo jardim

       Depois do dever (com prazer) o prazer (sem dever).

      A manhã mantém o registo do trabalho, apesar de ser fim de semana. É tempo para lembrar o já cumprido, encarar novos desafios e alguns princípios que valem para qualquer ação educativa:

Apresentação do Projeto 'Geração+' na LIPOR - I (Foto VO)

Pensamento aristotélico na apresentação do Projeto 'Geração+' na LIPOR - II (Foto VO)

     Após uma deslocação até à LIPOR (Serviço Intermunicipalizado de Gestão de Resíduos do Grande Porto, entidade responsável pela gestão, valorização e tratamento dos Resíduos Urbanos produzidos pelos oito municípios que a integram: Espinho, Gondomar, Maia, Matosinhos, Porto, Póvoa de Varzim, Valongo e Vila do Conde), em Valongo, e a propósito do projeto "Geração +" e do "Coração Verde", mal se pode, procura-se que o dever dê lugar ao prazer de...
... respirar,
... alongar o olhar,
... passear,
... estar com quem se quer,
... (re)encontrar antigo(s) aluno(s) e vê-lo(s) bem e com vontade de futuro,
... recuperar vivências passadas na presente  lembrança,
... tomar um pequeno-almoço decente.

Montagem fotográfica - I (Foto VO)

Montagem fotográfica - II (Foto VO)

Montagem fotográfica - III (Foto VO)

Montagem fotográfica - IV (Foto VO)

      No meio da cidade, há um encontro de natureza e humanidade, lembrando que a naturalidade humana ou a humanidade naturais são possíveis, nesse cruzamento em que a expressão natureza humana pode ir do sentido mais literal ao mais metafórico, algures entre o paisagístico e a essência ou a existência do ser.

      Ver coisas bonitas ajuda a "limpar" a alma e o cérebro, mesmo que o cinzento de dia traga um sol matutino feito da luz que as nuvens e o nevoeiro escondem.

sexta-feira, 14 de outubro de 2022

Escrita de latrina, melhor, de mictório

     Qualquer uma não é das melhores, garantidamente (por mais que não se saiba o que é).

     Quando menos se espera, encontra-se o erro em local que, não sendo dos mais agradáveis, não deixa de ser necessário frequentar pela condição humana que nos aproxima. Entrando num WC público (restaurante), é possível ler o seguinte aviso:

Isso, isso... não reparem (n)o serviço! (Foto VO)

     Cumprido o alerta, apetece dizer que o escrito não anda longe da natureza excrementícia do local, não fosse este último mais para mictório ou urinol. Caso para dizer que se assemelha a cloaca atirada aos olhos, embora o sítio se identificasse mais com o popularmente designado mijarete (do que com a retrete, só para manter alguma rima).
     Para quem escreveu o texto, parece ser difícil reconhecer a típica regra de que a letra 's' entre vogais se lê como [z]. Para quem lê, não obstante o entendimento da mensagem, não há contemplação possível com um serviÇO mal cumprido, em espaÇO que não afasta o embaraÇO, e algum cansaÇO, por ver aquilo por que não tenho nenhum apreÇO.

      Até gostava de, à sexta-feira, dizer que estava "Fora de serviÇo". Todavia, não me deixam!