quarta-feira, 29 de maio de 2019

Ganhado ou ganho... para não perder

      Chegou-me há dias uma dúvida... ou um pedido de confirmação.

    Já lá vão uns anos, quase uma década! Quem diria! E ainda se lembra de mim. Três anos de parceria, outros três de companhia e muitos mais para a vida. É isto o que ainda dá sentido a uma profissão que alguém colocou nas ruas da amargura, mas que, por certo e na grande generalidade, não foram professores nem alunos.

     Q: Boa noite, professor ! Pode esclarecer-me uma dúvida? Sempre nos ensinou que se diz, por exemplo, “tinha ganhado” e não “tinha ganho”! Após o acordo ortográfico, isso mudou?

    R: Olá. "Tinha ganhado", enquanto realização do pretérito mais-que-perfeito composto, não mudou, em termos de gramática normativa / prescritiva. Se na gramática do uso a construção "tinha ganho" é aceitável, em termos de rigor e correção formal é com a primeira que se lida. 
      Isto nada tem a ver com o acordo ortográfico, que só convenciona regras para a forma da escrita, da grafia propriamente dita; não para conteúdos de natureza gramatical.
     O contraste 'ganhado / ganho' é uma evidência do duplo particípio no verbo 'ganhar' (um verbo abundante na flexão), com a forma fraca ou regular - ganhado - e a forma forte ou irregular - ganho. Esta última, mais marcada pelo uso, é, porém, a gramaticalmente assumida para acompanhar os verbos auxiliares 'ser' / 'estar' (ser ganho / estar ganho). Com os auxiliares temporais 'ter' / 'haver', é a forma fraca que é apontada como correta em termos de formalidade, de gramática normativa (ter / haver ganhado). 
      Outra questão será o aspeto resultativo e perfetivo de uma dada situação: ter a corrida ganha (e não ganhada) significa que esta foi / está ganha. É como ter a conta paga (e não pagada), porque esta foi / está paga. Mas é bom lembrar que eu tenho pagado as minhas contas a tempo e horas (numa temporalidade que já vem de trás e, pelos vistos, não terminará tão cedo).
      Assim sendo, uma construção é a temporalidade do 'verbo auxiliar+verbo principal [no particípio passado]' (ter ganhado / ter pagado); outra é o aspeto resultativo / perfetivo de 'Ter+Grupo Nominal+Adjetivo' (ter X ganho[a] / ter X pago[a]).
      Aliás, continuando, tenho gastado algum tempo com esta explicação. Não se a explicação está gasta ou se tenho a explicação gasta. Seja como for, é sempre bom relembrar o que já foi feito, dito, ensinado.

      Portanto, mantenho o que disse e ensinei. Há mudanças que só o tempo dirá se virão a marcar a norma da língua. Não que eu queira ser muito normativo, mas há referências que, por princípio e alguma estabilidade, têm de ser assumidas, mesmo que o uso molde bastante o funcionamento da língua. E, já agora, obrigado pela lembrança deste seu humilde professor (quem sabe se, no futuro, a ficar nas suas mãos, aos seus cuidados).

terça-feira, 28 de maio de 2019

A Magda anda aí!

         Só para quem via / vê o "Sai de baixo!"

       Anunciado que está o filme baseado numa das mais cómicas séries televisivas da TV Globo (transmitida pela SIC, pelos anos 2000), o encontro com Caco Antibes (Miguel Falabella), Magda (Marisa Orth) e Ribamar (Tom Cavalcante) parece ter sido antecipado. Os insólitos de linguagem de Magda parecem inspirar a foto seguinte:


       Isto de "embriagar" obras é típico de Magda, mulher "impolerada", que quer o "triplex" do que lhe querem dar:

Trailer do filme, realizado por Cris D'Amato (2019)

       Para quem achar que não há comédia que resulte, há que ter calma: não somos deficientes visuais (por isso, não ouvimos nada)!
       "Há males que vão para Belém!"

       No caso da foto reproduzida, é caso para dizer que a obra não sobe, não "sai de baixo"!

segunda-feira, 27 de maio de 2019

Depois das eleições

      Findo o ato eleitoral para o Parlamento Europeu...

      Entre palmas, palminhas, abraços, sorrisos e beijinhos, temo a evolução do que nisto vai dar, mesmo quando há colorido a mais. E a julgar por alguns locais de voto, nem sei que escreva!


(Fotografia de Cristina Carvalho, junto a uma secção de voto lisboeta)

 Circula pelos 'posts' do Facebook (https://www.facebook.com/photo.php?fbid=217738442528374&set=a.109575993344620&type=3&theater); dizem que o registo fotográfico foi feito lá para os lados da capital. No mínimo, anedótico; no máximo, um aumentativo ortograficamente mal resolvido (mas lá que o grafema 'x' pode ser lido como [ks], não há dúvida nenhuma).
       Nem assim se contraria a abstenção (não muito distinta, segundo o escrevente em causa, do conceito de abstinência).

       Só falta ouvir dizer que a culpa é do Acordo Ortográfico (AO).

domingo, 26 de maio de 2019

Clarezas muito nebulosas

       Em jeito de balanço das eleições para o Parlamento Europeu.

    Muito anuviado anda o contexto eu-ropeu: a questão da imigração, da solida-riedade e do acolhi-mento de refugiados não-europeus, por vezes, mais retórica do que prática, criando divisionis-mos que se afiguram inultrapassáveis nas diversas sensibilida-des governativas; a afirmação de ideologias de extrema direita, com focos estruturais em países de referência (económica e/ou cultural), necessariamente preocupante para o ideário de liberdade europeu; os movimentos independentistas que evidenciam orientações distintas face a algum sentido de paz e de integração dos países e do continente; a regressão económica que a Europa tem revelado à medida que as décadas avançam e o alargamento / a adesão à união cresce; as desigualdades territoriais e sociais que persistem, na constatação de que os piores mercados estão alocados naquela que é a união monetária com mais sinais de crise (pelo menos para alguns dos países que dela fazem parte); um Brexit com mais dissensos do que soluções à vista; um olhar para uma Turquia tendencialmente autocrática enviesado por interesses geopolíticos, militares e económicos que pouco têm de pacíficos, tolerantes, solidários ou integradores. Tudo isto se reflete em resultados eleitorais que, em Portugal, pouco ou nada têm de claro.
     Nenhum partido pode, em consciência, declarar-se verdadeiramente vencedor, não obstante o maior número de votos nas urnas para um deles. A abstenção é de uma percentagem enorme, essa sim, mais do que clara, colocando os candidatos a deputados europeus (e os partidos que os propuseram) a responsavelmente refletir sobre a sua representatividade no que ao país diz respeito. Além disso, movimentação de votos, ora para o PAN (Pessoas, Animais e Natureza) ora para o BE (Bloco de Esquerda), para não falar da própria abstenção, é também visão estratégica de insatisfeitos, por mais que esta última possa parecer pouco consistente. Não o é, por certo, para quem vê a inconsistência de algumas cores partidárias, na ação governativa ou na oposição, deslegitimando / apagando, por exemplo, o tempo de trabalho exercido por várias profissões ditas "especiais" do funcionalismo público (tão assim que a "especialidade" se torna mais do que discutível - só retórica, mesmo).
       Porque não posso ter uma Europa a pactuar com políticas deste tipo, não contribuo para uma(s) cor(es) que, em Portugal, acha(m) ou aceita(m) que trabalhadores vejam o seu tempo de exercício profissional apagado, seja em que ofício, função, serviço ou profissão for. Voto e faço-o pelo dever de construir ou, no mínimo, expressar a escolha, o desejo de alternativas a considerar face ao mal-estar presente - que, de lá para cá ou de cá para lá (não interessa), só permite a felicidade de alguns poucos, não desse bem comum mais ajustado ao sentido mais lato de política.
      Para quem fala em vitórias claras ou expressivas, muitas são as nuvens ofuscantes. A brincadeira das guerrinhas políticas só diverte quem nelas participa. Quem assiste a este deplorável espetáculo começa a perder a paciência (já a perdi há muito)! Para quem teve derrotas, foram mais do que merecidas - boa oportunidade para repensarem as orientações políticas, tanto nacionais como internacionais. Dizer que os portugueses perceberam a mensagem com os resultados obtidos, limitada à leitura quantificada da vitória, só pode ser exercício retórico ou cegueira na afirmação de poder (vão e tão volátil, que deita por terra e no descrédito qualquer deslumbrado, mais cedo ou mais tarde). Não percebem, senhores, seja pelo que cá acontece seja pelo que a Europa dá a ver. E, pelos vistos, não são os únicos.Uma abstenção superior a sessenta e cinco por cento é a maior prova disso - lamentável não o querer ver ou, com sorrisos e alegrias inconvenientes, afirmar que não é isso o que se deve destacar. É colorido a mais, adjetivo excessivo.
       E, depois, não insistam em refletir sobre o problema da abstenção. É melhor passar aos atos que permitam diminuí-la.

      Valha, ainda assim, a pluralidade de cores que se antevê no círculo do Parlamento Europeu, a motivar negociações, compromissos plurais e de sensibilidades (esperemos) mais focadas nos valores da dignidade social e humana.

sábado, 11 de maio de 2019

Arcade - um jogo feito canção

      A julgar pelo sucedido no ano passado, espero que não se repita a morte à beira da praia.

      A qualidade da canção de Cesár Sampson, no Eurofestival de Lisboa, foi por mim destacada e elogiada. Ficou em terceiro lugar. Este ano, faço-o pela melodia de 'Arcade', a representar a Holanda. O jovem intérprete Duncan Laurence (pseudónimo artístico de Duncan de Moor) é mais um dos cantores que vingam em programas de talentos musicais (estilo The Voice) e que preenchem a representação dos diferentes países contemplados no certame. Porém, há técnica no canto, para além de a canção ter o registo do feérico na entrada suave (ao piano); do ritmar dos dedos estalando e prenunciando a impactante batida de percussão; da progressão de uma sussurrante balada ao grito interpretativo de quem vive um jogo de amor, alternadamente entrecortado pelo relaxante acorde do piano.
     E se o coro parece vir de um universo mágico, a voz de Duncan combina com ele, dando-lhe também vivacidade, força, projeção, até ao retomar do ciclo (fechando como abriu, numa pianíssima voz a contrastar com os momentos mais altos). É uma montanha russa vocálica e musical à semelhança do amor cantado:

Vídeo oficial da música da Holanda 
no Eurofestival da Canção, em Tel Aviv (2019) 

          ARCADE 


A broken heart is all that's left
I'm still fixing all the cracks
Lost a couple of pieces when
I carried it, carried it, carried it home

I'm afraid of all I am
My mind feels like a foreign land
Silence ringing inside my head
Please, carry me, carry me, carry me home

I spent all of the love I've saved
We were always a losing game
Small-town boy in a big arcade
I got addicted to a losing game

Ooh, ooh...
All I know, all I know
Loving you is a losing game

How many pennies in the slot?
Giving us nothing and take a lot
I saw the end before it begun
Still I carried, I carried, I carried on

I don't need your games, game over
Get me off this rollercoaster



        Seja jogo estratégico seja de quebra-cabeças, este "Loving you is a losing game" é viciante para a audição, talvez por causa de um amor que pode ser tão universal quanto o de um casal ou como o do Homem pela Terra.

      Oxalá vença em Tel Aviv (Israel), para fazer esquecer os efeitos cacarejantes da vencedora do ano passado.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Nesta madrugada... de há 45 anos!

         Foi esta a madrugada, há quase meio século (faltam cinco anos).

       A televisão difundia a notícia, as orientações e os cuidados para um momento histórico. Não eram ainda sete horas da manhã. Em cerca de quatro minutos, com as vozes de Fernando Balsinha e Fialho Gouveia, anunciava-se e afirmava-se a "missão cívica" do movimento das forças armadas:

Noticiário da RTP aquando da Revolução do 25 de abril de 1974

     Prosseguia a emissão com a Sinfonia nº3 de Beethoven - nada mais apropriado para tempos revolucionários (a conhecida "Eroica", frequentemente apontada como obra representativa da passagem musical da época clássica para a romântica, foi inicialmente dedicada a Napoleão Bonaparte; mais tarde, com a ascensão deste à condição de imperador, a página da dedicatória foi rasgada pelo compositor, em reação adversa ao que considerava uma traição aos ideais revolucionários franceses).
    Passados muitos anos, celebra-se a liberdade e a democracia como direitos, diria não adquiridos, mas em constante construção. Entre o muito que se conseguiu e o que esteja ainda por cumprir, cabe-nos dar, em cada dia, o passo necessário para cimentar a conquista feita, mas já por vezes ameaçada. 25 de abril também precisa de açúcar. para esquecer alguns dos momentos amargos, azedos que o sucederam
    Nos excessos e nas deformações que a liberdade democrática acarreta, a possibilidade de regulação e mudança é efetiva. O mesmo já não se podia dizer do anterior regime, despótico, ditatorial, felizmente derrubado. Deste não há só quase cinquenta anos de despedida; há muitos mais de resistência, de sobrevivência (para quem o conseguiu), de memórias que, ainda hoje, persistem e precisam de ser partilhadas, para que a consciência da libertação e/ou das atrocidades e dos silenciamentos vivenciados solidifique o bem que atualmente se tem face ao mal que algumas vozes teimam ainda em desejar / retomar nos momentos mais críticos do que foi alcançado.
      Tempo para lembrar o fim dos tempos de muitas armas, nomeadamente as cantigas. Tempo de diferença e de canto novo.

      Fica o registo de um dia que é de cravos, porque outros houve de espinhos e acúleos, com tanta gente ora à espera ora na luta contra um cinzentismo destruidor das cores bem vivas que a bandeira tem. 

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Nem de propósito...

      Assim se costuma dizer (e, agora, escrevo) quando de coincidências se trata.

      Ainda há dias redigi um apontamento sobre a música de Mendelssohn, a propósito de "Sonho de uma Noite de Verão". Hoje, no programa televisivo "Joker" apresentado por Vasco Palmeirim (concurso - teste de conhecimento, no qual o concorrente responde a um conjunto de doze questões, cada uma na modalidade de escolha múltipla), alguém fez uma má escolha:

Foto  da emissão televisiva do programa "Joker" (na RTP1)

     Caso para dizer que, se tivesse ido ao Coliseu (no passado dia dezoito) ou tivesse lido o apontamento desta "Carruagem 23", o concorrente teria melhor sorte.

       Não foi feliz este "casamento" musical, a julgar pela alternativa selecionada na imagem.