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sábado, 18 de julho de 2026

Crise(s)

     Depois da crise e da novela sem fim da digitalização dos exames nacionais,...

     ... outra crise mais duradoura grassa por aí: a da língua nas legendas televisivas. Desta feita, é no CNN Portugal, e no âmbito da sintaxe e do princípio da concordância:

Quando há outro sistema em falha e também tudo tem a ver com correção... da língua (Foto VO)

     Um sujeito singular (Professor) para um núcleo verbal conjugado no plural (apontam)! É erro muito grave para quem aprende português e para quem resolve os famigerados exames; na televisão, parece ser entendido como simples gralha e desatenção, em canais diversos.

     Reescrevo a legenda: Professor aponta falha a domínio da língua. Se quiserem 'apontam', façam com que 'professor' esteja configurado no plural (com 'e+s'), por favor. É uma questão de conhecimento, com o cérebro e o digital (porque, etimologicamente, é com os dedinhos que se escreve).

domingo, 14 de junho de 2026

Nobre causa em língua pobre

       Assim começou a manhã noticiosa: com nobreza e pobreza.

     A nobreza traduz-se na imagem e na ação dos dadores que generosamente dão o que têm a muitos que precisam. Solidariedade fantástica dos dadores, bem como de todos aqueles que cumprem, no seu trabalho, com uma causa que se impõe para a salvação / sobrevivência / manutenção da vida e da dignidade humanas.

Quando a imagem contradiz a legenda, num canal televisivo nacional - RTP Notícias (Foto VO)

       A pobreza encontra-se mesmo na legenda, como se houvesse brigadas contra as populações (ir de encontro a). E o curioso é que ela é imediatamente contradita pela voz da locução noticiosa, assumindo (e bem) que as brigadas vão ao encontro das populações necessitadas (ir ao encontro de).
    Já aqui se apontou, por mais de uma vez, como a simples troca das preposições / contrações dá em significados completamente contrários: respetivamente, o de esbarrar, chocar, ir contra, por um lado; o de aproximar, estar ao serviço de, por outro.

         A deriva do uso da língua (ainda mais em contexto de comunicação de massas), no que à expressão diz respeito, não pode causar incoerência nos atos: tudo vai ao encontro da causa maior; nunca de encontro a ninguém. Persista a nobreza; erradique-se a pobreza.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Mentiras temporalmente agendadas

       Assim me deram a conhecer. É bom saber.

       Se tivesse de contratualizar o serviço, não o requeria ao fim de semana. Melhor: ao domingo.

Uma partilha de feriado, de uma cúmplice na recolha destas falhas na língua (com agradecimento à MPM)

       Com alguma variação, em Portugal, o típico é o cabeleireiro e o barbeiro serem mais baratos à quarta-feira (pelo menos, no local que frequento). No local publicitado, só para me ver livre das mentiras, já saberia o dia em que não faria a barba nem cortaria o cabelo. Restar-me-iam praticamente quase todos os dias da semana. Exceto o dia santo.
       Ainda assim, como a mente é gasta ao longo da semana em trabalhos, mais vale mudar de barbearia (pode até ser que o barbeiro / cabeleireiro tenha nome mais... tradicional ou comum).

          Nem com a homofonia do "somente" isto vai lá. Só pode ser piada (de sorriso amarelo).

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Um 'me' que se distingue pelo recurso à terceira pessoa... e não só!

        Chega o tempo de preparar para provas / exames / testes.

     Por vezes, o confronto com respostas indevidas leva a incertezas que, definitivamente, importa eliminar (seja qual for a fonte destas).
       
       Q: Bom dia, Vítor. 
         Preciso da tua ajuda: na imagem que envio, os pronomes "me" desempenham as funções sintáticas de CD e CI, respetivamente, ou são ambos CI?

Testes / técnicas para a distinção do 'me' são precisos(as). E não só!

          R: Olá.
       Na primeira frase destacada, o 'me' assume a função sintática de CD (complemento direto), dado que, no paradigma das diferentes pessoas gramaticais, esse pronome seria substituível por 'te' / 'o' / 'nos' / 'vos' / 'os'. A pronominalização, na terceira pessoa, por 'o(s)' é a prova da função sintática de CD. Analisando a particularidade da primeira realização frásica, é de verificar que se está perante a base nuclear verbal 'ENSINAR+ALGUÉM+A FAZER'; portanto, 'Ensiná-lo a isso' (de novo, a marca de CD na pronominalização acusativa sublinhada) e não '*Ensinar-lhe a fazer / a ler / a isso'. Trata-se de uma construção ou realização análoga a 'OBRIGAR+ALGUÉM+A FAZER' ou 'LEVAR+ALGUÉM+A FAZER' (obrigá-lo a fazer / levá-lo a fazer), também com CD.
        Não há, assim, como confundir esta realização sintática com uma outra mais próxima da estrutura argumental típica do verbo 'ensinar': ENSINAR+ALGO+A ALGUÉM. Nesta última é que seria possível a pronominalização (dativa) do CI (complemento indireto): 'ensinar-me / te / lhe / nos / vos / lhes algo.
       Na segunda frase, o 'me' funciona como CI (complemento indireto), já que a substituição, na terceira pessoa, corresponderia a 'lhe(s)' - a marca de dativo, associada a CI, com o segmento 'de tudo um pouco' (inversão de 'um pouco de tudo') a funcionar como CD.

        O teste de substituição / pronominalização é uma técnica eficaz na consciencialização do que só, aparentemente, parece igual. Contudo, nem tudo o que parece é (inclusive na gramática da língua).

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Nem sei que pense

     Fizeram-me chegar um "tesourinho". Ou melhor, dois!

     Convenhamos que é necessário muita imaginação, só para pensar nos produtos anunciados:

Nem com "glúteos" nem com sintaxe se faz boa composição de produtos 
(com agradecimento à MPM)

         Que estes tenham o publicitado, soa-me a tendências canibais. No mínimo!
        Acrescente-se a não concordância sintática ("todos os produtos"[plural] e "contém" [singular]).
     É composição explosiva para um cartaz publicitário que deixa muito a desejar. Caso claro de intolerância (e não é alimentar).

     Isto de confundir glúten com glúteos nem com paronímia lá vai. É mais comédia, mesmo!

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Entre a desgraça e a desgraceira

      Assim correm estes tempos. Tão mal!

     Primeiro, acorda-se com notícias de mais um conflito, outro ataque ou nova agressão a um país - o que começa a parecer banal, como se de um jogo estratégico se tratasse. Estratégia até pode ser (a favor de quem se sabe); porém, de jogo nada tem, pela desgraça que resulta para todos.
   Depois, não fosse isto suficiente, lá vem mais uma nota de rodapé / legenda televisiva para a desgraceira dos erros que invadem os olhos dos espectadores / leitores:

Citação de palavras, no mínimo, explosivas... pela construção errada na conjugação do verbo 'haver' 
(com agradecimento pela foto à GR)

    Triste é o desconhecimento de que o verbo 'haver' , enquanto principal, não admite conjugação no plural, inclusivamente com os verbos auxiliares que o acompanham (como é o caso de 'estar', no caso concreto do que se lê no rodapé). 
      Não menos desagradável é a expressão "estar a haver explosões". Sem 'haver', a opção 'acontecer', 'ocorrer' resultaria melhor e já sem problemas no plural de 'estão'.
      Como uma amiga o diz, e bem, "É a loucura!"

     A da guerra, a da língua e a de muitas outras situações que haverá (no singular, sim!) a considerar nos dias de hoje, para desgraça da humanidade.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

O temporal que (por) aí anda!

    Ele é a Ingrid, o Joseph, a Kristin...

    É a vez de vir um(a) "L".
    Pode ser Língua. É tempestade declarada, a julgar pelo que se lê:

Temporal em Portugal e tempestade na língua - sem bonança! (foto VO)

    Até parece que a concordância se faz da direita para a esquerda (ao contrário do habitual no esquema de lateralidade de leitura europeu): o plural "vários dias" a combinar com "devem demorar"! Tudo do avesso, ao contrário, com o carro à frente dos bois.
    Isto de o singular ("trabalho de limpeza") concordar com o plural ("devem...") é tão tempestuoso que soa a raios e coriscos na sintaxe. Se ainda fosse o sujeito composto ("trabalho e limpeza"), vá que não vá! Só que limpeza dá trabalho e o trabalho de limpeza não fica atrás: DEVE demorar bastante, se for bem feito.

     O que não é bem feito é anunciar uma intempérie no país, esquecendo a sua língua, tão maltratada! Estas legendas televisivas são pérolas recorrentes na desgraça que por aí grassa (sem qualquer graça).

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

A começar o ano

     Se o início for indício do que aí vem, ...

     2026, à semelhança de anos anteriores, é celebrado com o primeiro banho de mar, na praia grande do Ferragudo
   No apontamento jornalístico, segundo repórter e entrevistados televisivos, o mar está espetacular, melhor do que no verão (apesar das baixas temperaturas do inverno) e não há frio ("Não está frio! Você tem frio? Eu não tenho frio nenhum. Está impecável, está espetacular!").

Legendas infelizes na televisão a abrir o novo ano (foto VO)

     Registo eu que fiquei gélido só de ler a legenda, por várias vezes acionada, ao longo da reportagem.

Muda a imagem, mantém-se o erro. Antes fosse o contrário (Foto VO)

    Alguns dirão que se trata de uma pequena falha no acento; todavia, as implicações sintáticas são mais gravosas, ao colocar-se um sujeito plural em discordância com o singular da forma verbal (mantém - singular; mantêm - plural).

    Boas energias e o bom arranque dos banhos deviam servir para o bom uso da língua. Melhores concordâncias (sintáticas), diria.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

Lei da falta de atração

      A ocorrência de erros televisivos está a mudar (o que não significa necessariamente felicidade).

   Em termos estatísticos, pode concluir-se que a maioria dos erros lidos nas legendas ou nos rodapés televisivos está para questões de desrespeito da ortografia, de impropriedade na seleção vocabular / lexical ou de incorreção morfológica.
  Não deixa de aparecer um ou outro caso distinto, nomeadamente no que à falha sintática diz respeito, particularmente na concordância de número. Hoje deparo com um outro:

No seio dos aproveitadores, há quem aproveite muito mal na SIC Notícias (Foto VO).

     É a declarada falta de atração.
    É comum assumir-se que a presença de um 'não' ou de um 'que' faz com que os elementos clíticos colocados junto a um verbo sejam atraídos, a ponto de os antecipar na construção da frase (ex.: 'Estuda-se' vs 'Não se estuda' / 'Faz-se algo' vs 'Diz-se que se faz algo').
   Ora, quando tal não acontece (como exemplificado na foto), viola-se definitivamente a correção no uso do português (variedade continental europeia), o que significa que seria bom os comunicadores sociais ou quem trabalha nessa área consultarem uma gramática. Não faria arrepiar tanto os leitores das legendas ou dos rodapés.

     Falha a atração, deforma-se a construção, distrai-se a intenção e compromete-se a comunicação.

terça-feira, 15 de outubro de 2024

Canhão... apontado ao erro.

       Guerra declarada, para que se escreva bem.

      Casos em que a fonética não permite percecionar bem a segmentação da palavra / expressão não permitem validar o desconhecimento de como se deve processar a escrita.
        A sistemática dificuldade em distinguir ' afim' de 'a fim (de)' é questão paradigmática. Entre o que é 'afim' (semelhante ou com afinidade) e 'a fim de' (expressão / conector de finalidade, sinónimo de 'com o objetivo / propósito de') nada há de parecido (ou afim) senão a sonoridade (uma aproximação homofónica que não resulta em homografia). 
      A fim de (ou para) se escrever bem, reconheça-se a segmentação gráfica de 'a fim', bem separada, nem sempre reconhecida na fluência da realização oral da língua. Fica ainda a nota seguinte: o adjetivo 'afim' tipicamente seleciona a preposição 'a' (ser afim a / idêntico a / semelhante a), enquanto a expressão conectiva integra 'de' (a fim de / com a finalidade de / com o propósito de / com o objetivo de). 
     Outro exemplo crítico é o exemplificado no excerto de um aviso de condomínio, no qual se anuncia um novo canhão na porta de entrada e, consequentemente, se informa a entrega das chaves novas (que, coincidentemente, também são novas chaves, porque diferentes):

Um negrito mais separado do que devia; um 'a partir' tão junto que até irrita (Foto VO)

        A confusão entre 'aparte' (fazer um comentário, um aparte) e 'à parte' (colocar alguém ou algo à parte, separado) não chegava! Com o que se dá a ler, junta-se o 'a partir de' (a indicar o ponto de que se parte, o ponto inicial de um estado ou de uma situação).
        Ler o anúncio logo de manhã, fez-me colocar imediatamente uma barra oblíqua entre os termos da expressão, separando o que ninguém (nem Deus) podia ter unido:

Qual é a diferença, qual é ela? Não é só a cor, não! 

       Um canhão novo, chaves novas (não completamente igual a 'novas chaves', mas, enfim...) e um erro que importa evitar, a bem da escrita com correção.

       Não fosse eu ficar à porta, apetecia-me não ir ao escritório onde alguém escreveu o que não devia.

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

Constância... já foi mais constante

       O nome da localidade anda presentemente pelas ruas da amargura.

      Cheguei a lá ir em tempos, com alunos, na senda de alguns sinais da presença camoniana, sempre em articulação com outras áreas de saber (particularmente quando o poeta não deixou de ser exemplo de homem completo nos saberes, tendo numa mão a espada e noutra a pena).
      Hoje parece não haver muita constância, estabilidade económica numa terra que apresenta sinais de fragilidade, com uma grande empresa de tupperwares em condição de insolvência. Assim o foi noticiado e (pasme-se!) legendado:

Incertezas televisivas com orientações / nivelações distintas 
(na legendagem da RTP1, captada pelo olhar atento da ARS, a quem agradeço o contributo)

       Caso para dizer que nem constância nem coerência, pelo menos no que à língua diz respeito.
   "Pairar" combinado com "sob" aponta para incompatibilidade de níveis (superior e inferior, respetivamente). Nada como 'pairar' com outra preposição, de modo a escapar à incoerência criada.

       As incertezas ou 'pairam sobre' ou 'pairam em' (uma questão de seleção a partir do verbo usado).
      

sábado, 17 de fevereiro de 2024

Classificações... a quanto (n)os obrigam!

      Veio a pergunta e logo se ativaram os focos de análise.

      Por mais respostas que se queira dar, há vários pontos de vista analíticos a considerar, alguns dos quais conduziriam à que se revela mais aceitável / adequada / correta.

      Q: Olá, Vítor. Quando puderes, diz-me, por favor, como classificas as orações na frase: "Ouve o CD do Pedro Abrunhosa, que é muito bom." A professora de uma explicanda minha diz que é subordinada adjetiva relativa explicativa. Se não fosse adjetiva relativa, só poderia ser adverbial causal.

       R: Viva. Perante a minha divergência face às respostas citadas, direi o seguinte: 

       i) a hipótese de uma subordinada adjetiva relativa (explicativa), eu colocá-la-ia de parte, uma vez que o suposto pronome relativo "que" me levanta questões de forte ambiguidade quanto à construção sintática da complexidade na frase e quanto ao referente retomado (será "o CD do Pedro Abrunhosa", que não sei qual é apesar da determinação e que necessitaria de uma relativa restritiva para a sua identificação precisa, ou será "[d]o Pedro Abrunhosa", que não vou apreciar na forma e nos termos apontados no enunciado);

      ii) o cenário de a segunda oração ser uma adverbial causal levanta-me sérias reservas quanto ao facto de as subordinadas adverbiais tipicamente admitirem inversão dos termos da construção (*"Que é muito bom, ouve o CD do Pedro Abrunhosa" resultaria numa clara construção agramatical);

    iii) a expressão lógica da causalidade-explicação do enunciado é admissível, conforme se encontra introduzida na segunda oração, configuradora de uma explicação / justificação para o que se enuncia na primeira oração; porém, não tomaria esta última como subordinante nem aquela como subordinada;

    iv) o foco de análise pragmático a colocar no segmento "Ouve o CD do Pedro Abrunhosa" permite entender este último como um ato diretivo (conselho, sugestão) na interação produzida entre um 'eu' e um 'tu', conforme se depreende do modo verbal imperativo usado em 'ouve'; simultaneamente, a apreciação feita com a segunda oração resulta numa orientação justificativa (assente numa apreciação) / explicativa de um 'eu' para o ato de fala assumido na primeira oração.

Problemáticas de identidade (e classificação) do 'QUE'

   Assim, numa perspetiva de análise pragmático-sintática, assumo que a oração inicial é uma coordenada (que não admite troca na ordem sintática com a segunda oração), seguida de uma coordenada explicativa introduzida pelo conector 'que' (a iniciar a oração coordenada explicativa). 

  Desta forma, concluo o seguinte: um "que" sinónimo de "pois" aponta para construções coordenativas; um "que" sinónimo de "porque" nem sempre corresponde a uma subordinação, a qual, sintaticamente, apresenta propriedades típicas não confirmadas com o enunciado em análise.

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

A propósito de escândalos (no plural)

     Não bastava um, tinha de aparecer outro.

    É o que dá não distinguir verbos principais de verbos auxiliares. No caso de 'haver', é a diferença, respetivamente, entre a forma exclusiva do singular e a que admite o contraste de número com plural.
     Por isso, quando o verbo é principal, como em...

Escândalo atrás de escândalo (com agradecimento à CF)

     ..., não há plural. Há um, há dois, há mil. No caso, havia (dois telemóveis que sejam).
     Entre o escândalo noticiado e a forma verbal escandalosa, não há telemóveis que escapem. Numa semana em que, numa só reunião de trabalho, os discursos oficiais permitiram ler e ouvir "*Alguns de vós não esteve presente" (credo!) e "*Ainda que não tenhemos dados..." (salvo seja!), já espero tudo, no mal em que a língua anda.

      Atrocidades à visão e à audição, para o comum dos mortais.

terça-feira, 14 de novembro de 2023

Conjugações pronominais (e outras coisas mais)... no seu pior.

        Pasmo com alguns documentos oficiais (pois quanto aos que não o são...)

     De erros e pontapés na gramática estão os media cheios, bem como alguns falantes da língua, mesmo o intitulado 'Bom Português', que, por vezes, deixa muito a desejar.
       Com documentos oficiais, a questão torna-se bem mais grave, assumo. Assim o penso sempre que me cruzo com pérolas (asneiras) deste tipo:

Da língua mal dirigida na educação, ainda por cima quando vem da Direção-Geral!

    E tenho eu que ler isto, quando ensinava que, na conjugação / construção pronominal, os verbos terminados em 's' perdiam esta consoante em contexto de sequência de pronome pessoal átono:

       Encontramos + nos > ENCONTRAMO-NOS
       Fizemos + o (trabalho) > FIZEMO-LO
       Deténs + o (juízo necessário) > DETÉM-LO
       Lavais + vos > LAVAI-VOS
       Convidamos + vos > CONVIDAMO-VOS

     E quando dizia que uma vírgula não separa o complemento do seu verbo, no predicado. Se ainda fosse com duas (uma depois de " a participar e a divulgar" mais aquela colocada antes de "o desafio"), tudo estaria bem, com o encaixe da sequência "..., junto de todos... Escola Não Agrupada,..." entre vírgulas (uma antes e outra depois, para haver encaixe e não ter uma vírgula a separar o núcleo verbal dos seus complementos). 
     E, como não há duas sem três, que dizer daquele apontamento final "Toda a informação e regulamento disponível"!!! A informação (disponível) e o regulamento (disponível) não estarão para uma coordenação nominal com concordância no plural ("Toda a informação e regulamento disponíveis...")?!

     Vai mal a língua ou o conhecimento dela (que tende para o desconhecimento). Como irá a educação que dela e nela se dá?!

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

Umas traseiras de pouca cor

      Quem vai atrás vê / lê o que não deve.

     A publicidade é fraca, do negrume do transporte ao negro da mensagem - e logo a abrir com a primeira palavra:

Um negócio "muito escuro" (com agradecimento à CF, pela foto enviada)

       Isto de confundir a terminação da primeira pessoa do plural (Damos) com a construção pronominal da segunda ou da terceira, aglutinando o complemento direto com o indireto (Dá-mos), é caso para dizer que "na melhor pintura cai o borrão". Se o imperativo justifica a forma verbal pronominalizada na segunda pessoa ([Tu,] Dá-me os teus sapatos > [Tu,] Dá-mos) ou se o presente do indicativo traduz a constatação de um ato levado a cabo por terceiros (Ele /ela dá-me os resultados > Ele / ela dá-mos), a conjugação da primeira pessoa do plural não admite a separação da sua terminação ([Nós] Damos cor à sua casa!).

    Convenhamos que ficava bem uma pinturinha na viatura, para apagar o erro na porta traseira, que não augura bons negócios. Sempre era uma outra cor (sem erros).

sábado, 10 de dezembro de 2022

A propósito de mensagens

     Hoje alguém me escrevia, lembrando-se de mim e da "Carruagem 23".

     Não sei bem por que razão, quando a fonte de tudo é a "Amarguinha". 
    Esta publicidade do conhecido licor tradicional algarvio é do melhor na denúncia de erros que podem comprometer uma relação:

Publicidade inteligente I (com agradecimento à AMT, pela lembrança)

        Ora cá está um bom critério para selecionar quem seja namoradeiro: que fale e escreva bem e não leve ninguém ao inferno (sim, porque o Hades é rio que não leva a mar paradisíaco). 'Hás de' (e sem hífen) leva a melhor caminho.

Publicidade inteligente II (ainda com agradecimento à AMT, pela lembrança)

      Cá está a prova de que a beleza não é tudo! Pelo menos, há que ser giro e escrever bem - e mais vale a beleza do saber, pensando que o final da mensagem é bem revelador de que mais vale ser feio, sólido (e não líquido, a ponto de se beber) e escrever 'bebeste'.

Publicidade inteligente III (desta feita sem agradecimento, porque selecionada por mim)

    Nada contra ser "poli", ou outra coisa qualquer, desde que "o sono" e "a preguiça" sejam acompanhados de "a vontade" (pela regularidade sintática conveniente na coordenação) e o "permanente" (adjetivo) dê lugar, por exemplo, a "permanentemente": 'estar de férias' (quem não quer!) é expressão verbal cuja modificação está mais para um advérbio (com valor de modo, de tempo ou de lugar). 
      Digamos que, neste caso, a estratégia publicitária não resultou em pleno, na sua construção, porque isto de ter vários amores não pode fazer esquecer que a ortografia, a morfologia e a construção sintática são áreas muito exigentes no uso da língua e todas requerem muito cuidado e muita atenção.
      Conclusão: terá sido a lembrança por me acharem amargo (já que, de "Amarguinha", nem vê-la nem cheirá-la)?! Por me pensarem homem com muitas relações (estou mais para as ralações)?!
      Vamos lá levar a "carruagem" no trilho, antes de a fazer parar a meio do percurso ou a imobilizar na estação!

     "Errare humanum est" (errar é humano) já diziam os clássicos latinos. Acrescentaria "Perseverare autem diabolicum" (perseverar no erro é diabólico). Se a "Amarguinha" ajudar, ... (conclua-se o que não vou sequer ajuizar).

quarta-feira, 12 de outubro de 2022

Esperteza... nem saloia nem sintática

       Se a necessidade faz os homens espertos, o desconhecimento torna-os ineptos.

    Digamos que o sentido proverbial da primeira parte (subordinada) do pensamento anterior sai combinado, no fim, com o valor intencional crítico da sequência principal (subordinante). 
     Subordinado ao pagamento das compras feitas, impôs-se o registo fotográfico perante a leitura do inadmissível. Entre tanto sítio nas frases onde possa aparecer uma vírgula, há quem insista em colocá-la onde não deve: entre o sujeito da frase e o predicado. 
       Eis a prova do desconhecimento e da inépcia:

Publicidade enganosa? No mínimo, errada na escrita da pontuação (Foto VO)

         Só quem ainda é herdeiro de métodos errados no ensino da pontuação (os que generalizadamente dizem, por exemplo, que a vírgula marca uma pausa) é causador deste erro. 
      Além de uma representação fonética e/com algumas implicações semânticas, a verdade é que a pontuação é eminentemente uma representação gráfica da linearização de enunciados, ou seja, da natureza sintática que os carateriza. As vírgulas, nesta medida, marcam a presença de vocativos (chamamentos), de enumerações, de anteposições de elementos na ordem sintática, de modificadores não restritivos / explicativos / apositivos (com ou sem encaixe nas frases). Não podem é nunca separar sujeitos de predicados nem os verbos dos elementos que contribuem para a sua complementação (sejam complementos sejam predicativos).
      "Quem compra no sítio certo" é o sujeito (oracional, frásico) do predicado "parece logo mais esperto". Uma vírgula não pode separar estas duas sequências. Duas até poderiam, com a introdução de um encaixe (cf. "Quem compra no sítio certo, sem sombra de dúvida, parece logo mais esperto).

     Podendo eu estar no sítio certo, a verdade é que quem publicita tem, no mínimo, esperteza duvidosa.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Notícias rápidas não aliviam ninguém

      São mais títulos do que notícias, mas... enfim...

      A designação "Notícias ao minuto" prepara-nos para a rapidez da leitura (com chamada de atenção para o que nem sempre são factos só pelo título). Era, porém, escusada a rapidez da escrita, a fazer esquecer a acentuação devida. É o que dá para concluir do texto na imagem seguinte:

A maravilha do acento grave no 'à'; a desgraça da ausência do agudo em 'alívio'.

   Confundir 'alivio' (forma verbal) com 'alívio' (nome) é o que interessa evitar - isto porque 'copia' não é 'cópia', nem 'fabrica' é 'fábrica'; 'noticia' não é 'notícia'; 'pratica' não é 'prática', só para citar alguns casos. Estas são oposições básicas de palavras pertencentes a classes diferentes e com realização sintática distinta, com o acento agudo a marcar graficamente a distintividade.
     Mantive-me no contraste forma verbal / nome. Poderia fazer o mesmo com outras classes, como em 'celebre' (forma verbal) / 'célebre' (adjetivo); 'critica' (forma verbal) / 'crítica' (nome ou adjetivo); 'publica' (forma verbal) / 'pública' (adjetivo).

     Faz o acento diferença, por certo. Coitado do cágado (nome) se perdesse o acento e ficasse em particípio passado de verbo! Iria, garantidamente, cheirar mal.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

Publicidade azeda

      E quando há virtudes na publicidade, eis que fica tudo estragado.

     Um regalo para os olhos e para a saúde, quando se anunciam bolos sem açúcar (até se torna aceitável a inusitada maiúscula):

      Come-se com os olhos, mas azeda-se a gramática (ou como os bolos e doces ficam uma desgraça)

      Agora, "Os bolos e doces... não leva..." não lembra ao Diabo! A falta de concordância entre o plural do sujeito (composto, ainda por cima) e o singular na forma verbal é de bradar aos céus e aos infernos (já que mencionei o maléfico).

      Acho que vou buscar um pouco de açúcar para adoçar algum do meu azedume. Nem saúde nem natural (na língua)!

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Da esquerda à direita, os particípios da desgraça!

    Nos tempos de antena política, com os debates em curso, as figuras representantes dos partidos deixam muito a desejar (também) na língua.

     Para começar, antes do confronto Costa (PS) - Ventura (CHEGA), na RTP1, a receção feita a António Costa dá lugar a uma pequena entrevista, na qual o ainda primeiro-ministro produz a primeira das falhas:

Fotomontagem a partir da imagem difundida na RTP Play (com citação das palavras de António Costa)
     
     Na SIC, com Catarina Martins (BE) e João Cotrim de Figueiredo (INICIATIVA LIBERAL) é a vez de chegar a segunda:

Fotomontagem a partir da imagem difundida na SIC (com citação das palavras de João Cotrim de Figueiredo)

      Digamos que os verbos com duplo particípio são questão crítica no uso da língua, com o costume de se indiferenciar muitas vezes a forma fraca e a forma forte do particípio. Numa perspetiva de gramática normativa, está identificada a primeira como sendo a utilizada com os verbos auxiliares 'ter' e 'haver'; a segunda, com 'ser' e 'estar'.
    Ora, no caso da réplica de Costa, o verbo 'eleger' (com os particípios elegido / eleito), há que reconhecer a predicação 'SER ELEITO' (e não 'ser elegido', considerada agramatical) - daí a correção que se impõe: ter sido eleito. Poderíamos sempre abordar também a escolha do verbo 'eleger' (por se referir uma situação que não deu lugar a eleição, mas, sim, a consideração / julgamento / avaliação), mas isso seria outra questão que, por ora, não é para aqui chamada.
      Já a fala do líder da Iniciativa Liberal é reveladora da clássica confusão entre, por um lado, os verbos 'morrer' e 'matar', ambos com admissão do particípio passado 'morto'; por outro, do contraste 'matado / morto' no que toca ao verbo 'matar'. Pragmaticamente reagindo à insinuação de que o seu partido estaria a 'matar' portugueses com as opções defendidas no passado,  João Cotrim de Figueiredo profere a frase que deveria ter a seguinte configuração final: "teria matado". É o verbo auxiliar 'ter' que está em questão, o qual seleciona a forma fraca ou regular de matar (matado). 'Morto' seria para a construção com auxiliar 'ser' ou 'estar'.

     Portanto, independentemente dos programas políticos que nem sempre são claros, a língua está a revelar alguns pontos muito escuros e escusos.