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domingo, 17 de abril de 2022

Um grande ovo de Páscoa cracoviano

       Sucedem-se as Páscoas, ano após ano, e os ovos.

      Entre as várias explicações para o ovo e para o coelhinho da Páscoa (que não "foi com o Pai Natal, no comboio ao circo"), a multiplicidade dá para todos os gostos - os mais religiosos, tradicionais, simbólicos, culturais, regionais e até os mais fantasiosos.
       Encontrei uns bem artísticos em Cracóvia, no conhecido Mercado de Páscoa, realizado anualmente na praça central da Cidade Velha, Rynek Główny (praça principal de Kraków). Em cerca de dez dias, as festividades da Semana Santa concretizam-se na exposição de ovos gigantes decorados e na confeção das tradicionais "palms" artesanais de flores e plantas secas, para serem abençoadas no Domingo de Ramos - informações colhidas e vividas em memórias de viagens bem passadas. O colorido da praça é festivo. Os ovos, dispostos em vários pontos da praça, são atração visual assegurada, numa composição e num enfeite de versatilidade cromática notáveis.

Um ovo cracoviano à altura de um ser humano (Foto VO)

      A presença do ovo, desde a Antiguidade persa, traz consigo a perceção do símbolo do renascimento. De regiões como a Ucrânia (muito antes da chegada do cristianismo) ou a China, vem a leitura do alimento e da origem da vida - e, por extensão, da criação do mundo - até à comemoração do fim do inverno. Daí o entendimento do "Páscoa" como "passagem".
       Dos ovos de galinha (cozidos) pintados à mão (que persistem) aos de chocolate (mais recentes e comerciais), muitos séculos aprimoraram o que pôde ter sido a celebração de uma passagem mais familiar e doméstica até se chegar aos requintes da doçaria e pastelaria francesas, sem esquecer que Eduardo I de Inglaterra banhava ovos em ouro para presentear os seus súbditos favoritos - uma espécie de inspiração para o que Peter Carl Fabergé viria a produzir com os valiosíssimos Ovos Fabergé.
      Numa perspetiva mais literária, sustentada no que o escrito e um trabalho humanista permite ver, dir-se-ia que a origem panteísta dos credos é aquela que se funda e remete para um passado quando podiam ser vistos, nos campos, em época primaveril, muitos coelhos e lebres. Um mito popular referenciado pelo alemão Georg Franck von Franckenau, no século XVII (cerca de 1670), na obra Disputatione Ordinaria Disquirens de Ovis Paschalibus, ganha dimensão criativa e literária ao ser traduzido, na escrita, pela figura de uma Lebre de Páscoa, a trazer prendas para os mais novos que melhor se comportaram. Da Alemanha para o Reino Unido e daqui para os Estados Unidos, dissemina-se um universo entendível à libertação das agruras do inverno, à passagem e aos ritos primaveris, numa acomodação ética e moral conjugada com a ressurreição da natureza. A isto mesmo o cristianismo se havia já ajustado, numa visão libertadora e configuradora de outras passagens (histórico-filosóficas, éticas e religiosas).

       E com mais esta curiosidade, passemos a um novo ciclo: o da primavera que chegou e prepara a vinda do verão. Pelo menos, com a mudança da hora, os dias parecem mais alegres e luminosos (ou luminosos e alegres). Por ora, uma boa Páscoa para todos.

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Uma ponte de cores

        No enlameado estaleiro da avenida, via-se uma ponte de cores.

       Ao final de uma tarde, ainda com sol, mas a chuva anunciada e os trovões a rasgar o céu, surgiu um arco-íris para chamar a atenção e fazer esquecer o cinza das nuvens que se impuseram:

O estaleiro da avenida 8 de Espinho dominado pelas cores do arco-íris - (Foto VO)

      No mar caíam os relâmpagos; nos ouvidos entrava o som retardado das descargas elétricas. E neste espetáculo natural, parecia que estavam a chegar sinais dos deuses para uns tempos que não estão fáceis.

      Íris, que nas suas tarefas de mensageira deixava um rastro arqueado e colorido no firmamento, foi uma espécie de arauto divino, segundo a mitologia grega. Bom seria que nos deixasse novas tão multicolores quanto o brilho do pote de moedas de ouro maciço, da mitologia irlandesa, a representar os sonhos que todos temos.

        Prestes a terminar o verão, os sinais outoniços vieram mais cedo.


sábado, 24 de novembro de 2018

Diarinhando... bom título!

      A tarde foi de apresentação de um livro especial. Entre amigos, no Centro de Recursos da Secundária de Gondomar.

    Uma capa bonita, um título inovador, uma apresentação entre o elogio fundado na qualidade estético-literária e as cores da amizade, uma obra à espera de ser lida. E a autora?


    Já figura nalguns apontamentos desta 'Carruagem', por nos ter dado Histórias para Lermos Juntos e nos ter brindado com O Tesouro. Na companhia e na amizade. Assim foi, assim continua a ser, com os ingredientes geradores de uma família de leitores que Maria Clara Miguel tem vindo a construir. No caso de alguns dos presentes (inclusivamente de alguns ausentes), mais do que leitores, por certo.
      Nada é por acaso, diria a nossa Isaura. O (re)encontro com Maria Clara Miguel aconteceu. E uma Lúcia está para se dar a conhecer. Não foi 'encontro feito poesia', porque de narrativa se trata. Mas nas máscaras de Narciso (nesse mito que se compõe do eu que também é outro, no espelho da água), o que se narra é um ato de escrita metamorfoseado em diário, em prosa poética, em fragmento reflexivo, em apontamento breve, em opinião ou gosto que se querem partilhados.
      Dizia o apresentador do livro - o colega, escritor e amigo Manuel Maria - que nas páginas lidas há suspense, surpresa e sedução. As personagens e as ações narradas convocam espiritualidade e intuição, conformes à tonalidade lilás da capa, a essa cor metafísica propícia à purificação e à cura do físico, emocional e mental. A criação artística é um dos caminhos, nessa elevação de intuição, inspiração e criação espiritual. É mistério a expressar-se pela individualidade, pela personalidade, numa relação plena com a espiritualidade.
      De tudo isto se compõe a obra hoje dada a público, páginas configurando nove semanas de um diário que Lúcia (também Isaura e/ou Maria Clara Miguel) escrevinhou - não se trata de escrever mal nem de produzir algo sem valor (bem pelo contrário); talvez fingir um registo solto, natural, com um fim diverso (mais do que determinado), entre o entretenimento criativo, a oportunidade aproveitada, a vontade sem compromisso e a necessidade de revisitar tempos, gostos, pessoas, memórias que em todos nós vivem - umas comungadas, outras só de alguns, muitas só do 'eu' plasmado num discurso por natureza calendarizado, datado à cabeça (o Homem é tempo; dá-lhe a mão e larga-o, conforme a força, a vontade e a capacidade de o acompanhar).
      Diarinhando é amálgama para um ato encarado como processo, talvez por pretender culminar numa construção de identidades e entidades fictícias que só a vida pode vir a (re)criar pelo que já deu a (re)ver ou a imaginar.

     Ao folhear o livro, parei em algumas datas (8 de fevereiro foi uma delas) e em alguns segmentos (um deles, logo a abrir: "Está aí alguém?"). Talvez seja Narciso a recriar-se, a rever-se num universo de palavras, num fluir do tempo, num espelho de interrogações, reflexões, intrigas que de vida (também) se fazem.

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Convergindo, divergindo

     Depois de um dia de muito trabalho...

     ... busco o mar, ânsia de partir até à linha do horizonte, a todo o momento renovado. Se outra terra me acolhesse...

Porque há ir e voltar (Foto VO)

   Os passos, no vai-e-vem da busca, ficam lá, na areia, à espera que o vento apague as marcas da minha presença, os sinais desse encontro que tive, que fiz, que vivi e de que me afastei.
     Fui, vim e, daqui a pouco, é como se lá não tivesse estado. E assim a vida corre...

    Regressado a casa, vou a mais trabalho, até que a noite chegue e a possa dormir para recomeçar o que não houve tempo de acabar. Qual Sísifo, empurro a pedra, pesada... que teima rolar ao meu encontro.

domingo, 25 de janeiro de 2015

De novo, com os olhos e ouvidos nas origens.

    Hoje gostava de estar em Atenas a gritar SYRIZA.

     Espero que amanhã, num tempo mais alargado do que o dia, o grito ecoe para cada medida ou decisão feitas da honestidade e do dever cumprido para o prometido. Basta de sufoco, a bem de alguma esperança. Por maior que tenha sido o erro do passado, para que haja presente com sentido há que abrir a caixa de Pandora.
     Assim se construirá verdade, confiança, referência, ao contrário de muitos que continuamente desdisseram o que os levou ao poder. 
    Assim se alimentará tempo novo, com uma outra forma de fazer as coisas, mais atenta ao Homem e menos ao capitalismo sufocante e castrador em que as instituições de crédito financeiro se tornaram.
    Curioso (ou talvez nem tanto) que tudo esteja a acontecer na Grécia, nesse berço do pensamento democrático original. Se foram muitos os erros anteriores, se ainda há quem não cumpra o que é necessário para o bem comum grego (e, por consequência, europeu), tudo tem que ser feito para responsabilizar os que prevaricam; mas também há que criar vontades, novas vozes, novas caras e dinâmicas de futuro, apostadas na mudança (não no 'statu quo' ou no 'dejá vu').
    Em tempo de novo protagonismo, de um pioneirismo que se quer exemplar para a Europa - continente que muito lhe deve o nome -, gera-se uma causa de dimensão nacional com sentidos e efeitos muito para além da fronteira grega; revê-se o próprio continente, aquele que da Grécia recebeu toda uma civilização (a qual esteve na origem de tudo), segundo rezam a História e os mitos.
"O rapto da Europa", de Peter Paul Rubens (1628-9)
   Nesses tempos dos primórdios, dos deuses da anti- guidade clássica, uma princesa fení- cia se impôs pela beleza, chamando a atenção e as paixões do poderoso deus grego: Zeus. Disso não gostou Hera, a ciumenta mulher do deus principal da mitologia grega. Daí este ter-se transformado num touro, para se apro- ximar da princesa, que, maravilhada, coroou o animal com uma grinalda de flores e acabou por saltar para o seu dorso. Ao senti-la nas suas costas, o taurino e supremo morador do Olimpo desatou a correr em direção ao mar, só parando quando chegou a uma pequena ilha: Creta. Aí, à sombra de um plátano, revelou-se na sua verdadeira forma. Acabaram ambos por dar vida a três crianças: Minos (futuro rei de Creta e um dos juízes do inferno, que ouvia as confissões dos mortos), Radamanto (rei das Cíclades, conhecido pela sabedoria e justiça) e Sarpedão (príncipe da Lícia).
      Hoje, em tempos de crescentes individualismos, fala-se na necessidade de um espírito gregário, de uma natureza associativa (pretendida e nem sempre alcançada) para ultrapassar problemas e crises comuns, numa inspiração apoiada no modelo das ágoras e das ligas que instituíam a união de esforços. Os tempos são efetivamente outros, à espera mais de Radamantos do que de grupos que não pugnam pela felicidade comum.
       Talvez aqui a Grécia ainda tenha uma palavra a dizer. Eu gostava que fosse SYRIZA, pelo que esta coligação possa representar de exemplo para uma saída humanizada e feliz para a austeridade; para a afirmação de uma nacionalidade mais interessada no seu povo do que nas prioridades especulativas de grupos mais focados nas próprias bolsas (e nos respetivos bolsos), em detrimento do bem social comum.

    Num país que tanto deu à Europa (cultural e linguisticamente), talvez ainda esteja a ser preparada (mais) uma lição. Que assim seja, a bem dos homens que nela moram e para que os mesmos, ou outros ainda, saibam que há uma forma diferente de fazer as coisas (sem ter de se cair em igualitarismos duvidosos nem em controlos ameaçadores, perversos e desumanos).

domingo, 23 de março de 2014

Regressou: Odysseus

      O herói ansiado chegou, no período mais crítico em que a rainha de Ítaca é feita prisioneira.

      Falo de Ulisses (ou Odysseus, no grego), personagem homérica recuperada da literatura para uma série televisiva em exibição na RTP2 - aqui revista no trailer exibido no canal francês "Arte":


       No segundo episódio, foi anunciada a chegada de um navio com uma vela idêntica à da embarcação de Ulisses. Não era o que Penélope e Telémaco desejavam, a braços com as intrigas de Leócrito para casar com a mulher de Ulisses e, assim, ascender a um trono há muito sem rei. Tratava-se apenas da chegada do poeta recitador Eucaristos, portador da notícia de que Ulisses estava vivo. A troco de uma escrava (Cléa) que quer para si e que Penélope havia entregado a Eucaristos (como recompensa das novidades recebidas), Telémaco consegue que o poeta tenha um encontro privado com a rainha. Esta é, entretanto, denunciada pela aia Eurínome: Leócrito prometera a esta última a liberdade, se ela o informasse de qualquer encontro masculino com Penélope. Crente na fidelidade da sua rainha a Ulisses, Eurínome prefere, contudo, a liberdade. Penélope é acusada na assembleia de homens e é feita prisioneira de Antinoo, que entretanto se rebelara contra Leócrito e acabou por usurpar o trono. 
      É o adivinho Tioscos que, na praia, acaba por encontrar os vestígios de um naufrágio e o corpo de um homem no areal. E assim se cumpre o reconhecimento do soberano, com o regresso deste após dez anos de viagens.

Alessio Boni e Caterina Murino nos papéis de Penélope e Ulisses

      Mantenho, ao final do quarto episódio, o registo avaliativo de uma produção muito interessante para divulgar uma história que faz parte do legado cultural mediterrânico e que tantas referências mantém com outras obras da literatura ocidental europeia.

quinta-feira, 6 de março de 2014

É de Luso (e nada tem a ver com água)

    Tomada a região da Lusitânia como província romana, recebeu esta o nome por causa dos habitantes guerreiros (os 'lusitani') que longamente resistiram ao povo do Lácio. 
A Hispânia Romana
     Há ainda quem se refira a um rio grego (Lousios), pela matriz cultural grega, ou a uma figura mitológica (Luso) derivada de um erro de tradução da expressão latina «lusum enim Liberi patris», na obra Naturalis Historiae (de Plínio, o Velho), tomando a palavra 'lusum' ou 'lusus' como nome próprio. Segundo o eborense latinista André de Resende, Luso seria um companheiro ou um filho do deus do vinho, Baco - leitura proposta por Camões na estrofe 22 do Canto III d'Os Lusíadas (“Esta foi Lusitânia, derivada / De Luso, ou Lisa, que de Baco antigo / Filhos foram, parece, ou companheiros...").
       Atualmente, o termo luso é usado para referir tudo o que seja relativo a Portugal (daí o povo luso ou a nação lusa), nomeadamente nas palavras compostas que o integram (por exemplo, tratado luso-americano).
     No que toca à composição de palavras, a base autónoma 'luso' ganha entretanto uma configuração fónica distinta no som vocálico final, como se de uma vogal de ligação se tratasse. Ainda assim, a existência autónoma da palavra é o que justifica a grafia proposta pelo Acordo Ortográfico (AO) para os compostos com hífen. Daí ler-se neste último o seguinte (Base XV - artigo 1º):

«BASE XV
Do hífen em compostos, locuções e encadeamentos vocabulares 

1.º Emprega-se o hífen nas palavras compostas por justaposição que não contêm formas de ligação e cujos elementos, de natureza nominal, adjetival, numeral ou verbal, constituem uma unidade sintagmática e semântica e mantêm acento próprio, podendo dar-se o caso de o primeiro elemento estar reduzido: ano-luz, arcebispo-bispo, arco-íris, decreto-lei, és-sueste, médico-cirurgião, rainha-cláudia, tenente-coronel, tio-avô, turma-piloto; alcaide-mor, amor-perfeito, guarda-noturno, mato-grossense, norte-americano, porto-alegrense, sul-africano; afro-asiático, afro-luso-brasileiro, azul-escuro, luso-brasileiro, primeiro-ministro, primeiro-sargento, primo-infeção, segunda-feira; conta-gotas, finca-pé, guarda-chuva.»

      Pelos sublinhados da minha responsabilidade, conclui-se que será de escrever 'luso-africano', 'luso-americano', 'luso-britânico', 'luso-canadiano', 'luso-chinês', 'luso-descendente', 'luso-francês', 'luso-indiano', 'luso-venezuelano' e outros lusos mais.

       Luso, lusitano, lusíada... é português, e (para citar o slogan publicitário) o que é nacional é bom. Talvez.

terça-feira, 4 de março de 2014

Odisseia de Homero, na RTP2

       É mesmo da obra de Homero, aquilo de que aqui se trata.

Caterina Murino, representando a personagem Penélope (rainha de Ítaca)
     De novo o bom exemplo da RTP2, ao exibir uma série realizada por Stéphane Giusti e que merece a atenção do espectador, por várias razões: da obra aos atores que a dão a conhecer.
      Domingo passado foi emitido o primeiro episódio de "Odysseus", história que remonta ao século VIII a. C. e que tem no título o próprio protagonista (Odisseu ou Ulisses, como era conhecido na mitologia romana) de uma das grandes epopeias na cultura da humanidade. A obra atribuída ao escritor grego Homero é abordada nesta série, numa coprodução da RTP com uma produtora de origem francesa e uma outra italiana. Gravada na íntegra em Portugal (Serra da Arrábida), a adaptação do texto homérico conta com a participação de mais de sessenta atores nacionais (entre os quais Diogo Dória, Luís Gaspar, Nuno Lopes, entre outros).
     A cena inicial do príncipe Telémaco na praia de Ítaca à espera da comida que escasseia, da promessa que não se cumpre, daquele que não chega - há cerca de dez anos - é o ponto de partida para a representação de uma intriga escrita originalmente sob a forma de poema e que dá conta do regresso de um herói (lê-se na proposição que é a história do “herói de mil estratagemas que tanto vagueou, depois de ter destruído a cidadela sagrada de Troia, que viu cidades e conheceu costumes de muitos homens e que no mar padeceu mil tormentos, quanto lutava pela vida e pelo regresso dos seus companheiros”). 

Fotograma a partir da exibição televisiva da série, na RTP2

     A situação de Penélope e Telémaco em Ítaca é crítica, na presunção da morte de Ulisses, sendo aqueles obrigados a lidar com um grupo de pretendentes insidiosos - os Mnesteres ou Proci -, em contínua competição pela mão de Penélope. Resta a esta última retardar os ímpetos dos que a rodeiam com sede de poder, sob o estratagema de tecer a mortalha de Laertes (pai de Ulisses) - que formula o desejo de se juntar ao filho, assim que souber da sua morte.

     Por mais certo que seja o princípio de que não se deve ajuizar as obras pelos filmes ou séries que nelas se baseiam, não deixa esta série televisiva de constituir uma boa aproximação a uma referência cultural de que alguns ainda falam / ouvem falar a propósito de outros textos.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

No dia seguinte...

    Na sequência da festividade, a criação...

    Inspirado no mito que alimenta a vida, Eros ressurgiu.

Montagem de versos à margem da pintura de Edvard Munch: "Cupido e Psiquê" (1907)

    Porque não há dia nem precisa de haver festa - só quem ame e seja amado.
    Verso e poesia.

  Seja Eros seja Cupido, há setas que atingem os frecheiros (independentemente dos nomes e dos 'desastres de amor' que possam causar), quais feitiços que se viram para os feiticeiros. E assim nascem alguns versos.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Porque é Natal

      Cumpre-se o ciclo, marca-se o tempo...

     ... e na contínua passagem da vida - mesmo quando nela tudo esfria e se apaga -, há sempre o nascimento.
      Naquele que foi o décimo mês do ano (detetável ainda na sua etimológica designação), prepara-se o fecho de um ciclo, para que nova porta se abra (tal como janeiro o sugere, nessa aproximação a Jano - o deus romano das portas, do fecho e do início de tudo). É o tempo da terra coberta no rigor do frio e na brancura que queima e se derrete para bem do futuro. Talvez por isso tenha havido quem fez deste o tempo para nascimento do "ungido", do libertador da adversidade - em suma, do Messias.
      Entre o mal e o bem, a escassez e a fartura, o vivido e o ansiado, a natureza humana procura comungar nas diferenças e na crença de que, na união, se acha a força e a esperança de encontrar o que mais nos aproxima.
       E assim passamos...


       ... resistimos...
       ... duramos...

       No frio e na chuva deste dia, encontre-se o calor e o valor deste tempo que dará lugar a novas primaveras. Votos de um bom Natal para todos.

sábado, 2 de novembro de 2013

Sena e Afrodite Anadiómena, mais outras experiências.

    Afrodite, saída das ondas, é mito clássico para figurar na mais criativa expressão da modernidade.

      Uma pintura anónima do primeiro século (79. d.c.) encontra-se em Pompeia, representando a divindade sobre as águas. A ascendência mítica remonta à civilização egípcia e à deusa Neith ou Nepte, Naus, Nuk ou Nut, numa nau celestial.


     Os versos de Arthur Rimbaud traçam-na com alguma abjeção, mesmo quando a figura poética tenha gravados, nas nádegas, os nomes Clara Vénus. A desconstrução do mito ou a sua reconfiguração preparam uma visão estética e poética assentes na metamorfose, na afirmação do desconhecido e na reinvenção da imagem cultural do mito.
    Na literatura portuguesa, Jorge de Sena tomará a poesia como a possibilidade de transformar o mundo e também a própria linguagem. Os 'Quatro Sonetos a Afrodite Anadiómena' escritos em 1961 são disso exemplo, além de outras experimentações em verso publicadas, por exemplo, em Peregrinatio ad loca infec-ta (1969), em Exorcismos (1972) ou, postumamente, em Visão Perpétua (1982) - todas elas rela-cionadas com a metamorfose da própria língua ao nível do sig-nificante (recorrendo a apócopes, síncopes, formações neológicas das palavras, colagens de segmentos, recuperação de arcaísmos e eruditismos, inversões, invenções lexicais, epítetos clássicos para referências mitológicas).
      Há quem veja neste trabalho criativo a aproximação de Sena a projetos de poesia experimental (na linha de Ernesto de Melo e Castro). Todavia, mais do que produções orientadas para uma dimensão semiótica a construir - nomeadamente, com signos não vocabulares -, a reconstrução da linguagem seniana não apaga muita da materialidade que a língua traz consigo, antes apostando na reminiscência de sonoridades e raízes gregas e/ou alatinadas; na possibilidade significativa da sugestão sonora e da organização morfossintática na própria dimensão sintagmática da língua; na invenção vocabular, potencial no português. 
   Graças a estes mecanismos, visa-se atingir uma significação nova, uma outra semântica, para a qual o poeta orienta, por exemplo, com as «Notas a alguns Poemas» (in Trinta Anos de Poesia, de 1972) ou ainda com as palavras citadas num ensaio de Gastão Cruz (cimo, à direita).

       Na recriação proposta, nas entradas que o leitor ativa para aceder à associação de imagens evocadas no texto (sonora, morfológica, sintática, conhecimentos enciclopédicos), a decifração do enigma faz-se, qual peregrino perseguindo locais e motivos poéticos que, na tensão do aparente nulo significativo, conduzem ao pleno infinito da significação; permitem a experiência radical de, pela conjugação de entradas de leitura, (re)construir um código feito do jogo poético composto de forças e redes de reiteração e dissonância.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Depois da vinda do Pai Natal

       Isto de o Natal ter Pai tem muito que se lhe diga, para não falar da festividade em si.

      É costume referir-se Nicolau, bispo turco da cidade de Myra, no século IV, como a figura que terá dado origem ao Pai Natal, recuperando-se neste último, e de forma mais abrangente, o gosto que o primeiro tinha de ajudar pobres e crianças, dando-lhes presentes.
      Anteriores à cristianização são os rituais pagãos de caça no inverno, que povos nórdicos e germânicos associavam ao deus Odin - deus supremo, da guerra e da sabedoria, apresenta-se forte e com longas barbas brancas, viajando pelos céus num cavalo esvoaçante; libertará o mundo do caos, no fim dos tempos. A absorção destas vivências nórdicas e pagãs pelos festivais cristãos relativos ao nascimento de Jesus terá feito aparecer a figura de Santa Claus no Norte, em tudo semelhante ao lendário Pai Natal da cultura ocidental.
       Hoje discute-se também o presépio, particularmente a presença ou não do burro e da vaca (ou boi).
     É um dado que a questão do presépio é distinta dos factos bíblicos, os quais são por si só já uma representação bem distinta do que historicamente possa ter acontecido. Aí não havia presépios - terá que se avançar até ao século XIII para mais um motivo natalício aparecer, algures pelas terras amalfitanas. Da Bíblia, todos sabemos a composição textual tão diversa nos géneros e registos quanto multifocada, ao apresentar e representar variadíssimos autores, mentalidades, povos, culturas. Entre o poético e literário, o inspirado, o profético e o testemunho histórico, há de tudo um pouco. Porém, referências a burros e vacas no nascimento de Jesus é que não, pelo menos no evangelho segundo S. Lucas, o mais extenso quanto ao tópico - capítulo 2, versículos 1-9. Aí apenas se mencionam pastores e rebanhos. Só os livros proféticos, precisamente o de Isaías, predizem o nascimento do salvador em Belém com os ditos animais: "O boi conhece o seu dono, e o jumento a manjedoura do seu senhor, mas Israel não me conheceu" (Is 1, 3). Entre a analogia construída para relevar a discrição no nascimento predito e a indicação de que havia bois e jumentos no presépio foi um pequeno passo para estes aí figurarem.
       Como a questão da fé ultrapassa o ponto relativo aos animais, muito mais tem que o fazer relativamente ao próprio calendário. 
     Se é a 25 de dezembro que se celebra o dia de Natal, ninguém sabe ao certo em que dia terá ocorrido o nascimento de Jesus. Muito improvável é que seja esta data festiva, a julgar pelas evidências seguintes: seria inusitado que nesse frio mês houvesse pastores a vigiar os seus rebanhos (o normal seria entre a primavera e o outono); não se fariam viagens de longa duração com pessoas grávidas em condições climatéricas e locomotivas adversas (de Nazaré a Belém a distância é superior a cem quilómetros, num tempo sem carros nem aviões); seria mais provável uma deslocação dessas nos finais de setembro, por altura das chamadas festas dos tabernáculos, segundo costumes pagãos; a tradição de apresentar os bebés num templo religioso mais a purificação das mulheres, a ocorrer até aos vinte e um dias após o parto, coincidem com o facto de Jesus ter sido levado ao templo de Zacarias, segundo registos locais, num sábado de setembro - com os censos em Belém, no tempo de Herodes, a acontecer entre 10 e 24 de agosto, o sábado de apresentação situar-se-ia 21 dias depois, ou seja, em pleno setembro. 
    Suplantam-se estas evidências com uma decisão da igreja: a calendarização do nascimento de Jesus adaptada ao período das festas pagãs ao deus Sol. O solstício de inverno a 21 de dezembro aponta para o dia mais curto do ano a dar lugar, quatro dias depois, a uma celebração ou ritual associados à consciência de que os dias se tornavam maiores, com o regresso do sol por um período maior. Nascia, assim, um novo ciclo da natureza.

      Perante tudo isto, é questão de somenos importância a existência de uma vaca / um boi ou de um jumento (ou por que razão não uma jumenta) na história. Permanece a magia do natal para quem a toma como sinal de fé para o nascimento de um novo ciclo, uma nova vida, liberta dos males ou das contingências que a possam de algum modo ameaçar.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Doze em dose tripla

     O dia fez-se do "doze", inclusive no mês e no ano.

     Tanta coincidência causa alguma estranheza, curiosidade. Há quem veja nisso sinal de qualquer coisa (não sei se boa, se má).
      É um dado que a vida humana se encontra marcada por este número: o calendário anual apresenta doze meses (o gregoriano, por contraste com o juliano, que só tinha dez meses); o povo babilónico estabeleceu a sua base numérica em torno do doze (não do dez, como o nosso sistema numérico atual); doze signos associam-se a doze casas do zodíaco; doze eram os apóstolos, bem como as tribos de Israel; havia doze portas na cidade de Jerusalém; a Bíblia refere o número dos eleitos como sendo 12 vezes 12.000 (cifra representativa da totalidade dos santos).
     Nos arcanos maiores do Tarot, XII é a carta do Enforcado - símbolo da sujeição e servidão. Suspenso pelo pé, a posição antinatural do homem é entendida como provação, malogro em toda e qualquer busca de aquisição material. A única saída parece ser da ordem do espiritual.
    O 12 é, efetivamente, o fecho de um ciclo: fim e evasão fora da matéria; tudo o que foi adquirido de material deve ser abandonado, numa espécie de renúncia forçada, de sacrifício (ofício sacro) pessoal e de desapego capaz de conduzir ao espírito.
      No abandono do material, do físico, a libertação é possível, mas pela ordem do abandono voluntário, do recuo, do castigo que se impõe como saída para uma dimensão distinta.

    Não bastasse tudo isto, diz-se ainda que 21.12.12 vai ser, segundo a civilização maia, a data do fim do mundo - o primeiro não é um doze, mas o seu inverso. 

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Ciclos de vida docente

      É já dos anos oitenta do século passado um estudo sobre os ciclos de vida docente.

     Refiro-me ao estudo da professora Sharon Feiman-Nemser (Massachusetts), desenvolvido ao longo dos anos 80 e 90 e com várias publicações nestas duas décadas no âmbito da formação docente.
     Na linha dos "Teachers as Learners" (Professores como aprendentes / formandos), de 2012, a estudiosa já em 1983(1) havia reconhecido a existência de três fases no percurso desenvolvimental docente, caracterizadoras dos ciclos destes profissionais:

- a fase de sobrevivência: marcada por expectativas, pelos primeiros contactos com alunos, com pares e com estruturas organizativas das escolas; centrada em questões associadas à gestão interacional e ao controlo, bem como às competências interpessoais (no que possam ter de eficácia para a regulação do espaço aula);
- a fase situacional: encarada por um domínio da situação de ensino e por sinais de confiança assentes na rotinização de momentos de controlo da interação; focalizada em questões de ensino e nas pressões que estas refletem por pressões de tempo; preocupada com as realidades específicas que comprometam o trabalho na sala de aula (por exemplo, o excesso de alunos, a adequação de materiais, o repertório de experiências e de práticas capazes de promover aprendizagens);
- a fase de mestria e de resultados: caracterizada pelo domínio dos pressupostos de ensino, de comunicação e da gestão interpessoal / interacional; assente na questionação sistemática das necessidades sociais e emocionais dos alunos; focada em atitudes de ajustamento e adaptação necessárias à eficácia das práticas de ensino-aprendizagem; orientada para questões de maior justiça social e de reconhecimento das oportunidades de integração na escola).
      Independentemente da representação que cada um faça da fase em que dominantemente se encontra, a verdade é que o percurso docente se faz de todas elas e em diferentes momentos, em recuos e avanços que sublinham a recursividade dessas fases ou estádios. Virginia Richardson e Peggy Placier assim o assumem, em "Teacher Change" (2001), sublinhando como qualquer alteração ao percurso construído ou mesmo a perspetivação contingencial e evolutiva da docência acarretam indicadores típicos da fase de sobrevivência ou da situacional, mesmo que se diga que um profissional se encontre num típico estádio de mestria.

(1) Feiman-Nemser, S. (1983: 150-70) - "Learning to teach" in L.  Shulman & G.  Sykes (eds.) - Handbook of teaching and policy, New York:  Longman
(2) Handbook of research on teaching, Washington, DC: American Educational Research Association

     É destes tempos o reconhecimento desse estudo, destacando um dado menos estável: é cíclico e recursivo tal faseamento, ao longo de toda a vida docente. Somos sísifos, por mais astutos que nos vejam, empurrando, para um lugar cimeiro, a pedra que teima em rolar para baixo.

domingo, 29 de abril de 2012

"De que sofre esta cidade?"

     Esta cidade, Tebas (velha cidade de Cadmo) ou outra, maior ou mais pequena, remota ou atual, deveria sempre ter esta pergunta, para a busca da resposta.

     A tarde foi passada no auditório da Academia Contemporânea do Espetáculo (ACE) - Teatro do Bolhão, em boa companhia e com grande representação.
    Num anfiteatro (qual encosta de degraus não de terra nem de pedra, mas de cadeiras - quase poltronas - voltadas para um palco), frente a um palco dominado pela essencialidade minimalista de um cenário e por um grupo de ótimos atores (a que não faltou um coro, enquanto personagem múltipla, cujo canto ritmado servia de comentário à ação dramatizada), assisti a Édipo, de Sófocles. Com encenação de Kuniaki Ida, o elenco contava com as participações de António Capelo (Édipo), João Paulo Costa (Tirésias, Jocasta e Servo), João Cardoso (Creonte e Mensageiro), além de Pedro Lamares (Corifeu) e um coletivo de jovens artistas.


    Nas primeiras décadas do século XXI reencontrei-me com alguns sinais do último quartel do século V a.C. Foi o caso da representação assente em três atores masculinos (o protagonista, o deuteragonista e o tritagonista);  da figura do Corifeu liderando o coro; do tom e do conteúdo trágicos do texto; da conciliação dos opostos (um homem que se sente livre, mas que só o é enquanto percorre um caminho fatalmente determinado; a modernidade de adereços conjugada com a clássica máscara em Jocasta mais a sugestão de trajes e o calçado de sola espessa dos sacerdotes que prestavam culto a Dionísio; o conhecimento e a consciência portadores da desonra fatal, das maldições que fazem sucumbir o Homem). Junta-se-lhes o sentido didático e emocional da peça (com confrontos explicitamente demonstrados e publicamente partilhados, suscitando, perlocutoriamente, o terror e a piedade), a força do destino que aprisiona o Homem àquilo de que o próprio possa tentar fugir ou contrariar - tudo ingredientes típicos para um género marcado como a maior expressão literária da antiguidade, conforme o evidenciavam as práticas teatrais dionisíacas (as mais conhecidas), com representações diárias de três tragédias, fechadas com a apresentação de uma comédia.
      Sófocles foi grande figura nestes eventos tão religiosos quanto cívicos. Édipo foi um dos seus textos, do ciclo tebano (acerca da fundação da casa real de Tebas, por Cadmo), retratando a tragédia de caracteres, composta pela pretensa individualidade espelhada na vida social da pólis.
     Desde o início da obra, a questão da atualidade impõe-se, pelo diálogo mantido entre o Corifeu e Édipo. É a crise, o drama da cidade revelados:


«Visto que desejas continuar no trono, 
bem melhor será que reines sobre homens
do que numa terra deserta. 
De que vale uma cidade, de que serve um navio, 
se no seu interior 
não existe uma só criatura humana?»

     O percurso cénico do despojamento de Édipo - da túnica do poder ao pé descalço de uma figura voluntariamente cega e desamparada - é o caminho de um decifrador de enigmas que tudo quer saber e se agarra à vontade de não fugir à verdade; o do conhecimento ou da consciência que se revela ignorância, na interpretação errada de sinais e na fuga que não dá lugar ao afastamento ou à distância do indesejável - antes à proximidade e à concretização trágica das profecias dos oráculos. 
      Entre a cegueira do Homem e a insegurança da condição humana revê-se um dos mitos gregos de maior relevo.

     Assim se traça a complexa procura e revelação da identidade de um herói lendário grego (que matou o pai e procriou com a mãe), mais ajustado ao que de anti-herói tem (pelo entrecruzamento da fragilidade humana no sacrifício supremo do autoconhecimento, com a marca do fatalismo, da crueldade e da determinação do destino).

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Para quando o renascer das cinzas?

       Heranças barrocas estas... que nos (re)lembram o ciclo natural da vida (com a morte).

A ave Benu, para os antigos egípcios, é uma das representações
do mito da Fénix

      A Fénix ou Phoenicoperus, como era conhecida na época da Antiguidade grega, é uma figura mitológica associada a uma ave semelhante a uma águia, de plumagem pluricromática em tons de avermelhado, alaranjado e amarelo incandescente.
    Caracterizada como fabulosa, tinha uma longa vida que se consumia por acção do fogo, a cada quinhentos / mil anos, num ninho preparado para o efeito por ela mesma. Daí muitos também a designarem de 'Pássaro de Fogo'. A partir dela, mais propriamente das respectivas cinzas, renascia, até sete vezes sete, numa outra ave mais jovem. Assim se construiu o mito e o símbolo dos ciclos periódicos, da ressurreição na Eternidade.    
     Pode verificar-se esta ideia de início, término e reinício na vida de homens, de nações, de planetas num cumprimento sucessivo de ciclos (tais como, períodos de dificuldades e posteriores transformações). E assim se aspira ao desejo de, após a vivência de situações-limite, se conseguir "renascer" para uma nova fase, dita mais feliz.

     Diante da perspectiva da morte, esta ave era considerada um símbolo de esperança, de persistência e de transformação face a tudo o que existe; um sinal da vitória, de sublimação da vida e de superação do que a limitava ou do que a fazia findar.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Novas abordagens para velhos mitos

      Um filme que se vê...
   
      Este é o balanço do visionamento de 2012, sempre com a noção de que se trata de um "dejá vu".

  Trailer do filme de Roland Emmerich (2009)

     Para quem já viu 'The Day After', 'The Day After Tomorrow', 'The Independence Day' e outros do género, '2012' pouco traz de novo. É o regresso do mito do fim do mundo, ficcionalmente tomado por alguma esperança na humanidade (pena que esta seja vista sempre após um período de crise e de catástrofe).
     Registo, contudo, algumas notas:
. o ressurgir de um mito fértil na ficção dos tempos, desta feita sob a égide da leitura, da profecia, das premonições que a civilização Maia deixou à Humanidade;
. a retoma de motivos bíblicos (desta feita com a Arca de Noé, símbolo da preservação das espécies, e os tempos recuperados do dilúvio, no Velho Testamento), como sinal do renascer dos tempos ou marca romântica do eterno retorno;
. a recuperação do tópico de África como o continente-berço da humanidade (num renascimento da Humanidade e numa releitura 'up-to-date' do que seja o 'Cabo da Boa Esperança');
. a numeralogia a fazer das suas (21-12-2012), num jogo entre "Saltimbanco" (I), símbolo da origem das coisas e de um valor solar, e "Papisa" (II), símbolo do crescimento e do indefinido que se repete a partir da unidade; sem esquecer "A Imperatriz" (III), símbolo do sentido de comando e de acção numa iluminação benéfica ao espírito pela possibilidade de ensinamento (a força mental à disposição do ser), nem "O Papa" (V), poder espiritual e força de acção sobre o plano material (graças ao qual o poder material, físico se redime, salva, redefine);
. a glorificação dos tempos de esperança, de que este século de Obama parece ser sintoma, tanto na ufania do Nobel da Paz deste ano como na messianização ou no toque de esperança em que o primeiro presidente negro dos EUA tem vindo a ser envolvido... ou se tem vindo a envolver (basta ver quem são os bons da fita).

      Sem a espectacularidade ou a novidade dos antecessores no género, com algum registo de cómico nas situações visionadas no seio da catástrofe, este é mais um filme para encher algumas salas de cinema.