segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

75 anos depois

      Para futura memória e para que não se repita a história.

     Na sequência do visionamento do documentário "Depois de Auschwitz", na RTP1, há memórias que se recuperam de um passado, o estudado e o vivenciado.
      Saber o que se sucedeu há 75 anos, pelos livros e registos audiovisuais, é descobrir uma forma de recuperar a liberdade e a visão da dignidade humana que muitos, anos antes, ficara comprometida, ao serem cometidas atrocidades impensáveis. Os testemunhos do tempo vão sendo revelados, partilhados (e, ainda assim, há quem assuma que o holocausto não existiu) e o espanto revoltado não cessa!
   Visitar Auschwitz e Birkenau, depois de já ter passado pelo campo de concentração de Sachsenaushen, é definitivamente uma outra visão dos sinais dos factos. O último impressiona; o primeiro perturba; o do meio (sem qualquer virtude) faz abominar, odiar quem tenha pensado em tal espaço com propósitos tão execráveis.

Entrada do campo de concentração de Auschwitz ("O trabalho liberta") I - Foto VO

 Entrada do campo de concentração de Auschwitz ("O trabalho liberta") II - Foto VO

 Uma janela para os muros, os postes e as redes eletrificados - Foto VO

  O muro dos fuzilamentos - Foto VO

  Os fornos de um crematório - Foto VO

  As camas de cimento e tábuas rompidas para os sobreviventes - Foto VO

       De Auschwitz, ficou-me a memória de entrada no campo, quando um grupo de judeus cobertos com o seu 'talit' branco, com a estrela azul de David, mais o 'kipá' branco na cabeça, solidéu tradicional, orava em círculo. O respeito deles e nosso por eles impunha-se. Não foi o único povo a sofrer as atrocidades nazis, mas, na sua diáspora, tem o segundo quartel do século XX  como um dos seus períodos mais negros e a Humanidade como espectadora de uma perseguição desmesurada, de um genocídio atroz. 
       Uma nota informativa, para os turistas / visitantes, dá conta de que os primeiros prisioneiros foram polacos; seguiram-se os prisioneiros de guerra soviéticos, os ciganos e inúmeros deportados de outras nacionalidades. A partir de 1942, este tornou-se no local de morte maciça nesse plano nazi de exterminar o povo judeu que se encontrava na Europa. A taxa de mortalidade era tão elevada que a única forma de identificar os corpos era através de um número do campo tatuado no corpo (antebraço, braço, perna ou peito), mesmo quando muitos homens, mulheres e crianças eram praticamente dizimados à chegada, tanto em Auschwitz como nas câmaras de gás de Birkenau. Mortos nas câmaras ou em qualquer ponto do campo, feitos cheiro nauseabundo ou pó nos crematórios, marcados de dor e humilhação insanáveis no corpo e na alma.
      Hoje, o fim chegava - há 75 anos - com o exército vermelho a libertar os prisioneiros que não haviam sido deslocados pelos alemães para o interior da Polónia. Um massacre e um morticínio que deixaram marcas aos que conseguiram sobreviver e assistiram à eliminação de inúmeros. 
     Tudo começou menos de uma década antes (seis anos apenas), com discursos de intolerância, de supremacia de raças, de desprezo por quem interessava tirar do caminho para poder usufruir daquilo que deixavam e que alguém tinha instruções de recuperar (desde os dentes de ouro a tudo o que pudesse ser aproveitado).

     Uma história que não pode ser apagada, pela intolerância que foi, pelo excesso de poder que revelou, pela desumanidade que alguns humanos foram capazes de criar e outros de aceitar ou silenciar. Demasiado pesado para não ser divulgado.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Céu grego

       No caminho, entre Espinho e a Aguda, vi a Grécia.

      As sombras escuras do céu noturno deixavam ainda clarear uma península, fazendo lembrar essa terra com Creta ao pé. 

Céu, mar, praia e terra da Granja (Foto VO)

     Era como se o Peloponeso se ligasse a um continente triangulado, limitado pela escuridão dos mares, com o negro Jónico, a oeste, a não se distinguir do Egeu, a este, ou do Mediterrâneo, a sul. Só que o mapa era outro: tinha um rasgo de fogo, também com recortes e sulcos (quais cadeias montanhosas dos Titãs), a separá-los de um Atlântico a ondear até à praia a que Ulisses não aportou. 
     No horizonte, não se via a fina linha contínua desse limite visual; antes o calor de um verão quente e seco em frio inverno.
       Esta é terra de Sophia, dessa poeta que, qual "Menina do Mar", na "Casa Branca", renascerá:

       CASA BRANCA

Casa branca em frente ao mar enorme,
Com o teu jardim de areia e flores marinhas
E o teu silêncio intacto em que dorme
O milagre das coisas que eram minhas.
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

A ti eu voltarei após o incerto
Calor de tantos gestos recebidos
Passados os tumultos e o deserto
Beijados os fantasmas, percorridos
Os murmúrios da terra indefinida.

Em ti renascerei num mundo meu
E a redenção virá nas tuas linhas
Onde nenhuma coisa se perdeu
Do milagre das coisas que eram minhas.

                                                                     in Poesia, 1944

      Foi este o caminho que me deu a Grécia aos olhos, à imaginação, à viagem que, nos meus passos e percursos tão próximos e familiares, se fez bem longe.

     Regressado a casa, revi a foto e lembrei esta noite que ainda tinha alguma luz de cultura, de mitos e de deuses nas cores da praia, do céu e da maresia.

sábado, 18 de janeiro de 2020

Nós contigo

       Hoje, o pensamento deu em versos.

       Assim se quer. Assim se sente. E tudo o mais é o que a vida faz.

Resiste,
Persiste.

É bom ver-te


Rir das nossas graças,
Apesar da dor, do desânimo
Gravados no teu pensamento.

Persiste.
Resiste,

O que vivemos
É para lembrar contigo,
Hoje, amanhã e ainda depois…
A todo o tempo, aqui, ali e longe.

Resiste,
Persiste.

Temos-te agora,
Queremos-te mais tarde,
Para que todos vejamos futuro
A cada passo por ti vivido, sobrevivido.

Persiste,
Resiste.

Dás-nos a graça,
A alegria de te rever;
De te sentir ainda feliz, agora
Ou no reencontro prestes a acontecer.
Resiste,
Persiste.

Vemo-nos em ti,
Nessa luta diária, sempre
À procura da vontade, da saída
Para os árduos (des)caminhos da vida.

Persiste,
Resiste.        


       Assim o queiras. Assim o sintas. E tudo o mais é o que a vida te der.

       Assim vamos, a cada dia vivido. Todos.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Anedota do dia?

      Corre aí por alguns meios de comunicação social (e lamento ter de dizer que isso, hoje em dia, vale o que vale) o propósito de o Ministério da Educação (ME) colocar professores de História no ensino da Geografia, ou os de línguas estrangeiras para Português.

Pormenor de foto da Agência Lusa que acompanha a notícia aqui comentada
    A intenção é a de col-matar a falta de professo-res, que começa a ser gritante em determina-das áreas de saber. A des-considera-ção dos do-centes por parte dos nossos polí-ticos e go-vernantes está, garan-tidamente, a dar frutos (alguns não precisaram deles, dado o carreirismo feito em se-de de asso-ciativismo político; ou-tros conse-guiram cur-sos / licen-ciaturas fal-tando às au-las e fazendo uma espécie de trabalhos; os restantes, as exceções, parecem assistir, impávidos e serenos, ao descalabro e ao tudo vale).
      No reconhecimento de que cursos de línguas bidisciplinares têm profis-sionalização em duas línguas distintas (uma delas Português),  não me espanto que professores de línguas estrangeiras venham a lecionar Português, caso esta última tenha sido uma das implicadas na formação inicial e no exercício de estágio profissional. Não há, aliás, novidade nenhuma aqui, a julgar pela atuação de algumas direções que capitalizam as competências profissionais dos seus recursos humanos nos agrupamentos / organizações escolares. Não sendo esta a situação, tudo se torna bem mais incompreensível. Significaria que, talvez um dia, porque sei cozinhar, viria a ser um "grand chef" (olha... mais duas ou três palavras destas e ainda poderia ensinar francês!) ou, então, porque consigo fazer uns vídeos, ainda me tornaria num grande realizador cinematográfico. Ah! Esquecia-me: como às vezes, confesso, me automedico com sucesso, também poderia pedir equivalência a medicina. Há já quem assuma que, neste contexto de medidas gestionárias excecionais, no âmbito da saúde, poderíamos passar a ter ginecologistas a fazer as vezes de urologistas; os pediatras a ter equivalências na geriatria ou os enfermeiros a passar diretamente para a especialidade de anestesistas. Eu que faço caminhadas e sei nadar deveria estar a um passo do doutoramento em Educação Física ou, quem sabe, de uma especialização ou pós-graduação em Desporto.
      Não sei se devo acreditar neste diz-que-disse tão hipotético e pouco sustentável ou neste penso-que-dispenso. Não quero, pelo menos. Se as fake news (também quero dar inglês!) chegaram à educação e ao ensino há já muito, com a novidade que, supostamente, é a de hoje, pareceria que estávamos a ser conduzidos para o verdadeiro mundo da fantochada.
      Ainda quero acreditar que o ME irá esclarecer os factos ao público em geral e aos docentes em particular, quanto ao verdadeiro significado da Nota Informativa entretanto enviada pela Direção-Geral da Administração Escolar (DGAE) aos estabelecimentos de ensino com necessidades de colocação de professores em áreas específicas (Português, Inglês, Geografia, Informática, entre outras). Com qualificação profissional, alguma coisa da medida até pode ser entendida; sem ela, não fará definitivamente qualquer sentido. Gerir recursos humanos qualificados é uma coisa; sem formação legitimadora, é um contrassenso.
       É verdade que, desde a formação do novo governo português, já me tenho perguntado onde anda o senhor ministro da Educação. Até acho que já ouvi falar dele (chego a demorar na lembrança do nome...🤔) num ou noutro evento desportivo! Não queria concluir que isto é desporto a mais, mas lá que dizem termos voltado aos velhinhos tempos em que todos os professores - sim,... até os de Educação Física davam ou podiam dar Português no primeiro ciclo - é memória que ninguém deseja. Terá o governante em causa a oportunidade de se dar a ver, para justificar a carência de recursos qualificados nas escolas, algo para que tem vindo a contribuir (e muito).
     Para não me ficar pelo Português, acrescento que Geografia a ser lecionada por professores de História (ou o contrário que seja) também não está mal! Terão ambos os grupos profissionais profissionalização afim? Desconheço-o, por ora. A não ser assim, pode ser o começo para o que ainda possa vir a ser o professor multidisciplinar ou de multi-saber(es), um pouco à semelhança dos do primeiro ciclo, até ao nível do secundário. Preparem-se os de Educação Visual para dar Economia e os de Informática para dar Filosofia. Quanto aos de Matemática, talvez se juntem mais às línguas, pela rima com a gramática.
     Entre o mundo alternativo e a realidade prática, espero que não estejamos na maravilha da(s) despolítica(s) educativa(s)! A não ser isto, haveria que assumir que vale tudo: tudo ao molho e fé em Deus (ou deuses que valham)!

    Que não seja esta a altura de dizer "Viva o desgoverno em que nos encontramos!" (e sem alternativas credíveis para tanto desconcerto, sem previsibilidade de conserto perante a cegueira de quem não vê para onde tudo isto nos está a levar).

domingo, 12 de janeiro de 2020

"Eu vejo estradas no céu"

        Assim o diz a letra de canção do rapper Valas e da fadista Raquel Tavares.

       Cito-a pela inspiração da foto tirada junto ao rio Douro, em Valbom:

Estradas no céu I (Foto VO) 

Estradas no céu II (Foto VO) 

      Estradas em espaço aéreo, em aglomerado, num entrecruzamento de viagens a que o fluido rio assiste, espelhando o brilho de um sol luminoso, no calor reconfortante de uma tarde que findará para lá dos arbustivos montes de uma margem, aquém do mar. 

      "Hei de continuar o voo, suspenso na gravidade" - palavras feitas música, também a caber em imagens. 

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Receita da barcarola

     Não é peça musical nem subgénero poético.

     É mais uma peça de "artista". Compra-se a base e, depois, decora-se a gosto:

Uma barcarola personalizada (Foto VO)

     Aplica-se uns búzios e umas conchas, escolhe-se uma fotografia (personalizada ou tirada pelo próprio) de temática afim e está pronto - uma obra que, não sendo completamente de artista, resulta num adorno com mais significado do que a da venda original.

     Pendura-se na divisão da casa que mais aprouver e fica a sugestão para viajar à roda dessa divisão, em barcarola com algum toque mais personalizado.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Quando o tempo para

      Não será propriamente o tempo, mas o aparelho que o mede.

     Muitos foram já os usados, dos mais naturais (o sol, a água) aos mais construídos (o relógio de pulso e o digital, por exemplo). Polémicas são algumas ideias associadas à contagem do tempo; e, no que à educação diz respeito, a falta dele está a ser uma constante.
      Por isso, quando o relógio não funciona é como se o tempo parasse. Assim parece. Porém, este continua a correr. Percecionamo-lo nas mudanças que a natureza nos dá, na memória que se vai construindo, nas tecnologias que tornam tudo cada vez mais rápido (a ponto de a lembrança, o passado não ser frequentemente revisitado), na respiração que se prolonga, nos silêncios que perduram, nos ritmos e cadências de contínuas progressões sonoras, na sequência de instantes que progridem em intervalos mais ou menos alargados, no pensamento que flui num sentido completo (princípio-meio-fim), na consciência de vivências mais ou menos duradouras.
       Fica, então, o objeto sem a funcionalidade da medição do tempo. E, se para isso não serve, dê-se-lhe novo uso (novo na função e para um tempo outro, diferente):

 Era uma vez um relógio I (Foto VO)




















Era uma vez um relógio II (Foto VO)

     Os relógios deixaram de medir o tempo, mas, com tempo, passaram a ter um outro registo e função, mais decorativos, menos úteis para o tempo cronológico, mas talvez para sentir um outro mais psicológico. Uma outra experiência do tempo.

       Agora que a pausa se aproxima do fim, quis fazer uma ilusória tentativa de colocar o tempo nos gonzos (um pouco como no drama shakespeariano, mais precisamente no Hamlet, quando se constata que "O tempo saiu dos gonzos: Que maldição / que me deu ter por missão reordená-lo!").