quarta-feira, 2 de julho de 2014

Uma poeta no Panteão

     Por etimologia, Panteão é o templo dedicado aos deuses greco-romanos. Sophia lá está, a partir de hoje, na Igreja de Santa Engrácia (Lisboa) - a mesma cujas obras de restauro outrora nunca mais terminavam e deram lugar à expressão "obras de Santa Engrácia".

    Passados dez anos da sua morte, os restos mortais de Sophia de Mello Breyner Andresen deram entrada  no que é atualmente identificado como monumento da memória coletiva de cidadãos ilustres nacionais.
     A autora de muita prosa - A Menina do Mar e A Fada Oriana (1958), Noite de Natal (1959), Contos Exemplares (1962), O Cavaleiro da Dinamarca (1964), O Rapaz de Bronze (1965), A Floresta (1968), A árvore (1976), Histórias da Terra e do Mar (1984), O Bojador (2000) - e muito verso irá estar junto de outros escritores - Luís de Camões, Almeida Garrett, Guerra Junqueiro, Aquilino Ribeiro - e várias outras personalidades portuguesas também reconhecidas. Entre as mais recentes Amália Rodrigues e o General Humberto Delgado. É na mesma sala deste lutador contra o fascismo ditatorial que estará a criadora dos versos anunciadores da liberdade democrática do 25 de abril.
    Na luta que empreendeu pela causa pública, vários foram os poemas que a espelharam. Na obra Mar Novo (1958) encontra-se "Porque", um dos mais significativos na defesa da justiça e da verdade - valores assumidos como instrumento de denúncia da adversidade, de uma sociedade que, nas suas palavras, não se responsabiliza pelos mais fracos ou mais vulneráveis.


     No ideal de uma sociedade em que todos não ganhassem mais dinheiro, mas em que todos precisassem menos dele, Sophia compôs um universo poético com coordenadas muito solidárias, humanistas. Na compilação da Obra Poética, editada pela Editora Caminho (2010), há feixes de luz clássica; o perfume, os sons e a cor do mar; o grito de liberdade e a busca atenta do que o mundo oferece de esplendor e dor. A escrita poética materializa a sua observação, participação e convivência com a realidade; o encontro com vozes, personagens e imagens que tão generosamente deu a ler com a palavra "alada impessoal / Que reconheço por não ser já minha" (Epidauro 62, in Ilhas, 1989).
   Da escritora nascida no Porto (1919), que cria na poesia pré-existente na natureza (sendo apenas necessário saber ouvi-la) e nela pensava como forma de construção e transformação do mundo, fica a memória eterna na capital, no Panteão Nacional.
   
    Entende-se o reconhecimento de uma figura cimeira da literatura portuguesa, ainda que o maior deles nunca seja a alocação num espaço de pedra nem nos discursos dos políticos e governantes que, tal como enaltecem a escritora, também ignoram a obra, ao legitimarem programas de ensino (como o novo programa de Português do Ensino Secundário) que não a contemplam entre os autores do século XX. Ironia da educação destes tempos, em que a aparente "luz que nos rodeia é como grades". Felizmente, há formas de desfazer ironias e grades muito enferrujadas.