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terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Dia ou noite... de reis e de rainhas..., com príncipes e princesas

     Há quem diga que devia ser feriado; pelo vivido hoje, não.

     Até porque, se o fosse, não teria, por princípio, acontecido o que registo.
     Não foi a noite de reis. 
   Foi a noite do dia de reis, com muitas rainhas e outros tantos muito especiais - o primeiro dia de entrega dos diplomas no Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira (AEML), para os 4º, 5º e 6º anos, na Escola Básica Integrada Sá Couto (EBISC). 116 alunos(as) a receberem o aplauso e o diploma pelo sucesso de qualidade conseguido (excelência académica, mérito desportivo e reconhecimento de valores) em três das escolas do AEML. 

Um dos diplomas atribuídos (Excelência Académica), a par de outros.

       Outros dias e outros anos de escolaridade virão com o decorrer da semana; mas tudo começou com grande emoção.
     Falhou a intensidade da música, mas a dança ensaiada sem qualquer barreira, a tímida melodia, o gesto e o ritmo demonstrados, a mensagem do "Gosto de ti" (de André Sardet) e uns jovens encadeirados a dançar com quem não aparenta tais limitações foram ingredientes para um momento comovente, magnífico, a fazer acreditar que o mundo pode ser tão melhor! Todos unidos por uma t-shirt branca com um coração rubro se mostraram conquistadores de um público que assistia no respeito do silêncio, da diferença, na consciência de que estavam juntos por e para uma causa maior, independentemente das fragilidades existentes.
       As palmas pelos diplomas atribuídos não apagaram um silêncio construído em união e com coração.
     Não ouvi chamar nenhum Belchior, nem Gaspar, nem Baltazar, mas havia muitos nomes de pequenos reis e rainhas que, no ano letivo 2024-2025, trouxeram, do ouro, o brilho do orgulho sentido; da mirra, o aroma da humanidade; do incenso, o exemplo do esforço e da transcendência de todos os que procuram superar-se no estudo, no desporto, nos valores que a escola pública assume na formação integral e integrada de futuros cidadãos (respeitáveis, trabalhadores, colaborativos, inclusivos, solidários). Já o são e prometem continuar a ser.
       Hoje, no dia da adoração de reis (e por que motivo não acrescentar rainhas?), a todos os presentes, importou destacar a estrela da gratidão: aos(às) alunos(as) reconhecidos(as)  pelo mérito / sucesso de qualidade no desempenho das aprendizagens feitas; aos(às) professores(as) envolvidos(as) no acompanhamento dessas aprendizagens, representados(as) pelos(as) Diretores(as) de Turma presentes, alguns(mas) vindos(as) de outras escolas, após um dia de trabalho(s); aos assistentes técnicos e operacionais, tantas vezes a dar a mão e o coração nos corredores, no recreio e nos espaços que nem sempre são letivos. Gratidão também aos (às) Encarregados(as) de Educação e familiares das crianças e jovens que, entre esforços e cansaços, têm sabido ir além do esfumar dos dias, lembrando que a verdadeira fama requer esforço; que o sucesso só aparece antes de trabalho no dicionário; que o alimento serve não só o corpo mas também o espírito, engrandecendo todos os que sabem olhar para a esquerda, a direita, para a frente e para trás, encontrando o outro, aquele que caminha junto, em grito de apoio, de solidariedade, de inclusão (sem egoísmos e com foco no bem comum).
       Manuel Laranjeira, patrono do agrupamento, enquanto escritor, afirmava, numa carta ao amigo Luiz Pinto Ribeiro (05.03.1904), que não aspirava a "homem célebre"; que "escrevia para satisfazer uma necessidade pessoal que é dizer aos outros o que pensa da vida e dos homens" (in Cartas, Lisboa, Relógio d'Água, [1943] 1990, p.26).
    Penso da vida e dos homens... que o orgulho (bom) assenta na realização, no reconhecimento e na felicidade pessoais em prol do bem comum; que a ambição (boa) se funda no que possa fazer-se para o bem da comunidade; que o percurso a cumprir, independentemente das pedras no caminho, se quer na continuidade do bem que se viva e das aprendizagens que se querem conquistadas na vida para a felicidade todos.

      Por todos os momentos e por um especial, logo o inicial, este foi um verdadeiro dia de reis e rainhas. Com a gratidão devida a quem organizou, participou e permitiu viver um instante que fez a diferença do dia no AEML.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Animar... a leitura

       Fui convidado a ler, numa turma de 10º ano, um texto sobre o natal... tempo de nascer...

    A proposta da Biblioteca AEML consistia num breve momento de leitura em todas as turmas, enquanto dinâmica enquadrada na feira do livro, mais a abordagem temática do natal e do nascer. 
     Ao final de uma primeira experiência, veio a segunda e, porque não há duas sem três, lá chegou mais uma.
      Inscreveram-se as turmas que quiseram receber o(a) leitor(a). Eis que lhes surge o diretor... para ler.
     Levei comigo o livro (Quinze Poetas Portugueses do Século XX, com seleção e prefácio de Gastão Cruz), apresentei o autor (Jorge de Sena), pedi que me dissessem se o poema trazido tinha alguma coisa a ver com o natal, o nascer; mas, acima de tudo, quis que partilhassem comigo a leitura a fazer. 
     Ensaiado um esquema de animação (escrita a palavra "BRILHA" no quadro; lida em voz alta e em coro, marcando a força, a vontade e a luminosidade que importa ter neste mundo; combinado o momento em que a diriam), foi só oralizar o texto:

"Uma Pequenina Luz", de Jorge de Sena, in Fidelidade (1958), com voz e vídeo de VO

     No final, depois de partilharmos a voz na leitura, pronunciaram-se sobre a (in)adequação da escolha; refletiram sobre o que "nasceu" no momento viv(enc)i(a)do; explicaram aproximações e afastamentos de opiniões; concluíram que, no ato de ler, é possível a união, o gosto da emoção, o (re)nascimento do que vale na vida.
       Tiveram cinco minutos (talvez dez) de, espero, luz com a poesia.

   Também eu vivi a luz, o calor, o gosto de estar na sala de aula, com todos eles. Esqueci dores, agruras, urgências, sufocos e senti que todos merecemos experienciar momentos destes mais vezes. 

quinta-feira, 8 de maio de 2025

Pedro Lamares na Laranjeira

       Chegou o momento de o rever: um ex-aluno da escola.

      O reencontro aconteceu graças à iniciativa do grupo disciplinar de Português, que preparou, junto com a Coordenadora da Biblioteca do Agrupamento e o Departamento de Línguas, uma sessão para o programa que constituiu a celebração da Semana da Língua Portuguesa (onde se inclui o dia 5 de maio, o Dia Mundial da Língua Portuguesa).

Reencontros num "Passei por aqui" que honra o AEML (com Pedro Lamares)

     Um ex-aluno da Escola Secundária Dr. Manuel Laranjeira deu-se a conhecer aos que hoje frequentam o agrupamento, numa interação que se pautou pela abordagem de vários tópicos: a formação, as opções académicas e profissionais, o posicionamento político, o gosto pela poesia, a apresentação de programas televisivos, entre outros.
        Nascido em Portimão, Pedro Lamares cedo mudou para a Granja, tendo estudado em Espinho. Cruzou-se com as artes plásticas, a escola de jazz do Porto (1996/97), o curso de preparação para licenciatura em música sacra, até que chegou ao teatro (com formações em vários pontos do mundo). Conta, no seu currículo, a participação no Filme do Desassossego, de João Botelho (2010), onde assumiu o papel de Fernando Pessoa. Em 2015, é convidado para apresentar o programa televisivo Literatura Agora (RTP2), onde "diz" (e não declama) poesia.

Interação de Pedro Lamares com o público que assistiu ao (re)encontro

    Foram praticamente duas horas de uma conversa próxima, à qual assistiram alunos e professores, brindados com a simpatia de quem partilhou o gosto pela leitura (nesse encontro feliz do leitor com os textos, pela janela do sentido e não pelos formalismos de análise tecnicista), a natureza expressiva do discurso teatral e das experiências de leitura poética (mais ou menos marcadas por escolas e por diferentes modos de oralizar os textos), o elogio da aposta nos cursos das literaturas e humanidades. No princípio de tudo, uma visão e uma posição face ao mundo, focadas no exercício de uma cidadania comprometida com os valores que dignificam a pessoa. Em suma, uma lição para muitos, na qual a experiência de vida se cruza com o sentido (inter)artístico e político das causas comuns.
     Não terminou o encontro sem que fosse dada a conhecer uma poetisa a descobrir: Filipa Leal (jornalista, escritora portuense). Lido o poema "Manual de Despedida para Mulheres Sensíveis", ecoaram os rituais desse 'topus' literário da partida, seus motivos (imigração) e efeitos (autocontrolo), junto das que muito a sentem.
     
Espaço de cidade, espaço de mundo para o ser humano do século XXI 
(poema de Filipa Leal dito por Pedro Lamares)

       Realidade tão atual em texto tão contemporâneo: "É tanto o que se pede a um ser humano no século XXI!" 

        Manual de despedida para mulheres sensíveis 

Ser digna na partida, na despedida, dizer adeus com jeito, 
não chorar para não enfraquecer o emigrante, 
mesmo que o emigrante seja o nosso irmão mais novo, 
dobrar-lhe as camisas, limpar-lhe as sapatilhas 
com um pano húmido, ajudá-lo a pesar a mala 
que não pode levar mais de vinte quilos 
(quanto pesará o coração dele? e o meu?), 
três pares de sapatos, um jogo de lençóis, o corta-vento, 
oferecer-lhe a medalha que a Mãe usava sempre que partia 
e que talvez não tenha usado quando partiu para sempre, 
ter passado o dia à procura da medalha pela casa toda 
(ninguém sai mais daqui sem a medalha, ninguém sai mais daqui), 
pensar que a data escolhida para partir é a da morte da Mãe, 
pensar que a Mãe não está comigo para lhe dobrar as camisas 
e mesmo assim não chorar, nunca chorar, 
mesmo que o Pai esteja a chorar, mesmo que estejam todos a chorar, 
tomar umas merdas, se for preciso: uns calmantes, uns relaxantes, 
uns antioxidantes para não chorar; andar a pé para não chorar, 
apanhar sol para não chorar, jantar fora para não chorar, conhecer gente, 
mas gente animada, pintar o cabelo e esconder as brancas, 
que os grisalhos são mais chorões, dizer graças para não pôr também
os amigos a chorar, os amigos gostam é de nós a rir, ver séries cómicas 
até cair, acordar mais cedo para lhe fazer torradas antes da viagem, 
com manteiga, com doce de mirtilo, com tudo o que houver no frigorífico, 
e não pensar que nunca mais seremos pequenos outra vez, 
cheios de Mãe e de Pai no quarto ao lado, 
cheios de emprego no quarto ao lado quando ainda existia Portugal. 

É tanto o que se pede a um ser humano do século vinte e um. 
Que morra de medo e de saudade no aeroporto Francisco Sá Carneiro. 
Mas que não chore. 
                                                  
                                                   in Vem à Quinta-feira (2016: 48)

        E, no fim de tudo, despediu-se com o sorriso e a empatia que o caracterizam. Sem chorar.

    Mais uma figura de relevo nacional passou pelo agrupamento (ontem e hoje) e deixou o seu testemunho a quem o acompanhou.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

Surpresa boa

      Na semana dos afetos e da empatia (Ubuntu).

     Um assistente abeira-se de mim e pede autorização para que uma jovem venha ao meu encontro e possa entregar-me uma prenda. Entre o desconcerto, a surpresa, o insólito, digo sim, apesar da sensação de estranheza instalada.
     O encontro acontece, a explicação surge: a semana dos afetos, da empatia (Ubuntu) no agrupamento. Cumpre-se a oferta: um texto manual e uma manualidade feita na base de um poema que nos liga.
      Apenas consegui ficar preso à palavra da gratidão, ao abraço que substantivou o apreço e o afeto do momento e do gesto.

Dois textos... com Camões à mistura (montagem de fotos VO)
     
   Quando alguém inesperadamente se lembra de nós fica aquele sentimento indefinido que nos faz perguntar "O que é que eu fiz?", "Que gesto tive?", "Que palavra disse?", "Que olhar correu sem que visse o que foi criado?"
     Na roda viva do dia-a-dia, arrastado que sou por uma torrente que me vai desgastando / tirando sono, saúde e tranquilidade; que me faz por vezes mostrar aquilo de que não gosto, há vida e momentos de felicidade que (ainda e) até fazem acreditar que devo andar a fazer qualquer coisa que mereça o que de bom recebo.

    Resta a gratidão, pelo conforto, pelo afeto e pela consideração de quem (ainda) me faz seguir em frente. O 10 de junho fica na memória por um outro sinal. Muito obrigado, LS e quem nos fez aproximar.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

Mensagem do patrono

      A semana da excelência académica e do mérito desportivo.

   O agrupamento começou hoje a viver o reconhecimento público dos que, no ano letivo anterior, revelaram sucesso(s) no percurso e no desempenho escolar, com mente sã em corpo são (totalidade e valores clássicos; por isso, também perenes).
   Em tempos de endeusamento da Inteligência Artificial, é a oportunidade de destacar a Inteligência Humana, que, na devida escala, se revela determinante para a formação integral humana, a avaliação e o sentido críticos, o aprimoramento no tratamento da informação, a opção e a tomada de decisão consistentes e fundamentadas, bem distintas de imediatismos, facilitismos e verdades populistas, frequentemente coladas à ilusão e à falsidade.
     Há cento e vinte anos, o patrono afirmava:

Laranjeira nas sessões de entrega de diplomas de Excelência Académica e Mérito Desportivo 

      Espírito e coração: intelecto e emoção - uma outra totalidade que, na complementaridade dos termos, não deixa de incluir, considerar o diverso, atentar no afeto, num "sinto, logo existo" (que António Damásio reformulou, face a um "Penso, logo existo" cartesiano).
     No regresso ao coração, à emoção, ao afeto, ao reconhecimento, cruza-se o ser com a gratidão. E muitos há a agradecer, na prova de que o caminho se faz caminhando e não sozinho. Premiados os alunos, assim se (re)vejam os Encarregados de Educação, os Professores, os Assistentes - uma comunidade empenhada em sucesso(s), alguns dos quais de qualidade.
       Em plena semana dos afetos, e no espírito Ubuntu que inspira saberes e gestos, cruze-se o momento com o que também dignifica a existência: saber, sentir, elogiar, aplaudir, agradecer.

     Assim (também) se revive o pensamento do patrono, mais de um século depois do que (nos) deixou escrito.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

Olhando para os astros

    No âmbito do Projeto Ciência Viva do Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira (AEML), realizou-se uma sessão de observação astronómica.

      Pelas 21 horas, apareceram os resistentes à tentação de ficar no acolhimento do lar ou de ficar a ver um mais do que anunciado e disputado jogo de futebol, intitulado 'derby' para os mais aficionados.
     Preparados para um Plano B (apresentação e conversa no Auditório Maria Ricardo), eis que a chuva não caiu. Sempre se podia avançar para olhar o céu noturno, apesar da densidade de algumas nuvens. Com o seu apontador luminoso, a professora Carla Pereira foi guiando os presentes para a observação da Lua, de alguns planetas, bem como de constelações de Inverno, todos captados a olho nu.

Cartaz de divulgação da atividade (com um 'se' que, felizmente, não deu lugar a concretização)

      As condições atmosféricas, não sendo as mais favoráveis, ainda permitiram a instalação do telescópio no espaço exterior da escola, entre os pavilhões B e C, para que todos conseguissem vislumbrar - no meio de copas de árvores, dos prédios circundantes e dos vazios nebulosos que foram surgindo - Orion (o cinturão composto por três estrelas alinhadas), Touro (a brilhante estrela Aldebarã) e Gémeos (as estrelas gémeas Castor e Pólux), entre outros.

Montagem com vários apontamentos fotográficos da sessão de observação astronómica noturna (Fotos VO)

      O céu não estava limpo, o local era escuro o suficiente e foi-se além do equipamento básico, com professores, assistentes, pais e alunos a ajudarem na montagem do dispositivo que permitia "ver mais longe". Juntos, em comunidade, viveu-se uma noite muito apreciável. Contrariamente à famosa letra de canção,  houve estrelas no céu a dourar o caminho e ninguém se sentiu sozinho. 

     Caso para dizer que estrelas e planetas se ordenaram, harmonizaram para que, cá na terra, muitos alinhassem na aventura de observar os corpos celestes.

quinta-feira, 14 de março de 2024

A propósito de uma exposição... o reencontro com História(s)

    O convite foi formulado, imediatamente aceite... e assim voltei a tê-los comigo.

   Na sequência do Dia da Mulher (e porque este deve acontecer todos os dias), a Biblioteca do Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira (AEML) tem o seu espaço ocupado pela presença de uma poeta: Sophia de Mello Breyner Andresen.
    À entrada da escola, nos corredores do edifício, a presença feminina evidencia-se, assim todos possam educar-se com os contributos que muitas mulheres têm deixado, em diversas áreas, para a Humanidade, por razões de abril ou outra que afirme a construção de valores dignos para qualquer ser humano.
     Convidaram-me a partilhar, com alunos de 12º ano, a minha leitura de alguns poemas de Sophia, da minha visão acerca da sua vida e obra. Tarefa difícil, por certo, dada a grandeza de quem foi falado e dado o relevo formativo, poético-literário a salientar para quem ia ouvir. Muitas caras familiares suavizaram o registo, pela lembrança do bem vivido.
    Enquadrada no tema do Plano Anual de Atividades deste ano letivo ("74:24 - o que cabe em 50 anos"), a poesia é tópico de destaque, na expressão comprometida e transfiguradora da sociedade. Se com Antero de Quental a máxima foi "A poesia é a voz da revolução", com a autora de Poesia (1944), Dia do Mar (1947), Coral (1950), Livro Sexto (1962), Grades (1970), O Nome das Coisas (1977), Ilhas (1990), entre muitos outros contributos poéticos, conjugaram-se as forças da terra, da natureza, do mar, da cultura e da erudição para a luz da libertação e da liberdade.
    Sublinhei os traços biográficos da ascendência aristocrática da primeira mulher a receber o maior galardão literário de expressão portuguesa - o Prémio Camões (1999) num puzzle criativo onde generosidade, humildade e sabedoria se refletem em poemas breves com mensagens eternas, como a da entrega e da dádiva poéticas ao leitor:

     EPIDAURO 62

Oiço a voz subir os últimos degraus
Oiço a palavra alada impessoal
Que reconheço por não ser já minha
                                                                   (in Ilhas, 1990)

       Três a cinco versos bastam para trazerem a vida, o(s) tempo(s), a cultura, a pátria, os valores da justiça, da verdade e da dignidade humana à reflexão - motivos mais do que suficientes para que, também, a escritora portuguesa tenha sido reconhecida, no país vizinho, com o Prémio Rainha Sofia (maior galardão para a expressão literária iberoamericana), em 2003.
       2004, 2014, 2024 são datas para Sophia: o ano da morte, o da trasladação do corpo para o Panteão Nacional, o de celebração de cinquenta anos do 25 de abril - facto histórico que a poeta eternizou em quatro simples versos:

        25 DE ABRIL

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo.
                                                             (in O Nome das Coisas, 1977)

Obra de Sophia numa das secções da exposição, na Biblioteca do AEML (foto JR)

    Na versatilidade da obra (em modo lírico, dramático ou narrativo), há imaginário(s) rico(s) portador(es) desses valores que compõem uma ética de apelo ao imaginário, à cultura, à viagem, à descoberta, à origem da luz, do cristalino, da concha, da onda, da força que o ser humano transporta como "O super-homem" (que cada um de nós é no labirinto da vida).
      As flores da celebração eram as da primavera, do jardim, mas também as da liberdade - que se (re)viram nos poemas, no mar, na madrugada (25 de abril) que quebrou a noite e o silêncio (do regime ditatorial). 
      Assim foram evocados os versos da escritora, lidos, partilhados na mensagem de energia, de passagem, de crença e de luta pelo progresso das coisas, de aprendizagem e de vida, sugeridas na diversidade de matizes do coral:

     CORAL

Ia e vinha
E a cada coisa perguntava
Que nome tinha.
                                       (in Coral, 1950)

        Do mais que se dissesse e do muito que Sophia viajou (física e espiritualmente), pode afirmar-se que Sophia, neste território espinhense tão próximo da Granja e marcado pelo mar, é personalidade para um roteiro que não pode esquecer esse leito original de vida:

       INSCRIÇÃO

Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar.
                                        (in Livro Sexto, 1962)

       Se não tiver ficado a vontade de voltar a Sophia (na poesia, no passeio junto à Granja, na visita ao Panteão, na descoberta do Epidauro, na ironia que perpassa em "As Pessoas Sensíveis"), que esta tenha sido a razão para a vivência de uma libertação; de um momento de recordação; de reencontro com um tempo passado, num presente a caminho de futuro. Com História e com o agradecimento à MCB.

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

E assim se falou dela...

     Terminou a semana com as palavras do patrono.

     Adjetivada de "outoniça", a semana culminou com as palavras do patrono (Manuel Laranjeira).
   Na obra Comigo (1912), entre vários poemas reveladores de uma atitude de ensimesmamento e introspeção, busca-se um incessante sentido da existência. Numa visão que busca a ilusão e se confronta com a consciência trágica e definitiva da existência, resta a jornada, o percurso, o caminho, a viagem - palavras que marcaram a mensagem transmitida, na qual se cruzaram conhecidos e alguns ainda por conhecer, todos unidos num momento e numa iniciativa singulares.
    No dialogismo das cartas, assistiu-se à encenação de um Laranjeira e de um Unamuno, numa prova de amizade (pessoal, intercultural e interlinguística). Foi uma oportunidade de encontro e um momento de partilha de leituras, de reflexões e de versos para a vida.
      Falou-se dela... dessa jornada...

Montagem com poema de Manuel Laranjeira e música de Debussy (Filme VO)

     Foi uma atividade para (re)lembrar, na Biblioteca Escolar, com trabalhos produzidos pelos alunos, uma exposição sobre o autor de Às Feras (1905), com e para lá dos textos.
    A vida é uma jornada, uma lição composta de bons e maus instantes, mas, acima de tudo, de caminho, de jornada.

     Em dia de nuvem, sombra, chuva e trovejo, não se deixou de falar de sol e de como neste há calor, há esperança (porque tudo é passagem) e deve ser dado tempo a que estes últimos se (nos) revelem.

quinta-feira, 19 de maio de 2022

Rumo ao mar

      Comemorando o Dia da Escola Azul.

     Ficam uns versinhos para a ocasião, quando céu e mar se tornaram mais azuis, na humanidade de um cordão com olhos postos no horizonte:

      Saíram da escola e das salas de aula,
      animados com uma bandeira na mão.
      Desceram a cidade, foram até ao mar,
      com vontade de formar um cordão.
 
Apontamentos de um dia frente ao mar em cordão humano (montagem vídeo - VO)

     Assim se resume a celebração do Dia Escola Azul, levada a cabo pelo Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira, em parceria com o programa Escola Azul (Ministério do Mar), a Estação Náutica de Espinho e a Câmara Municipal. 
     O propósito de formar um cordão humano pelo Oceano permitiu juntar alunos, professores, famílias, entidades parceiras da comunidade local - uma rede que se pretende coesa no ato de educar e no propósito de alertar para o que mais nos tem de aproximar para haver futuro
   Ver o mar e sensibilizar para a importância da preservação ambiental e dos ecossistemas marítimos, enquanto património da humanidade e do bem comum, foram objetivos conseguidos, num dia que, abrilhantado pelo sol e pelo calor, convidou a população a juntar-se, a dar mão a uma causa conjunta.

     Porque o mar é origem de vida, este foi dia vivo, tomado dessa energia que torna o espírito livre e  dedicado a movimentos de preservação e sustentabilidade ambiental.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Revivalismos infantis... ou de infância

     Há momentos que se revelam pelo insólito.

    É o caso de se estar a apresentar o mito de Tristão e Isolda, falar-se de que há várias versões da história, nomeadamente as que estão para lá dos livros - por exemplo, as de filmes.
    Quando se propõe a verificação deste cenário com outras grandes obras literárias, entre os múltiplos exemplos, vem à coleta a referência a Alexandre Dumas e Os Três Mosqueteiros (1844). A par das personagens Athos, Porthos e Aramis, não fica esquecido D'Artagnan, o quarto mosqueteiro, que o romancista francês tornou famoso numa trilogia narrativa (com o já citado romance, mais Vinte Anos Depois e O Visconde de Bragelone), cuja intriga versa os reinados de Luís XIII, Luís XIV e do período da Regência instaurado entre estes monarcas. Surge, assim, a menção a alguns exemplos cinematográficos, até que, num registo cómico, aparece a adaptação televisiva infantil do D'Artacão (e dos três moscãoteiros).
     Foi o mote para, lembrados da série tão comum a várias gerações, os alunos fazerem ouvir o trautear de uma melodia que lhes é familiar:

Genérico da série infantil "D'Artacão e os Três Moscãoteiros" (dos anos 80 do século XX)

      Recordados o lema do 'Um por todos, todos por um' mais o amor da Julieta, deu para rir; também para lembrar a música, a animação, o prazer desses instantes.

     No inesperado de uma aula, foram revividas memórias - que, por certo, deram alguma felicidade. Soube bem trazê-las para o presente.

sexta-feira, 18 de junho de 2021

Gestos de quem se gosta

      Fecha-se um ciclo, um tempo feito de muitos momentos...

     Para alguns talvez mais do que para outros: há quem tenha vivido um ciclo de três anos; quem se tenha ficado por dois ou, ainda, quem não passou além de um só. Independentemente disso, o dia foi de intensa e comum despedida sentida por e para todos.
     Houve rosa sem espinhos; houve postais escritos a mostrar que, no afeto, há mais do que correção; houve lembrança dedicada a quem quis ensinar a todos, sem exceção; houve recordação de palavras, de vivências, de reações de um antes que deu lugar a um depois tão diferente! Houve ainda a foto para memória futura, aquela que já faz sentir saudades de tudo o que se experienciou aula a aula e fora dela (quando se pôde e quando se quis).
    Num ano particularmente difícil, continuei a ter a felicidade de estar acompanhado daqueles que, dia-a-dia, me souberam respeitar; me tiveram em mente, apesar de algumas ausências; me fizeram sentir grato, ganhar forças e ver que, na medida do possível, colaboravam com o lema do "trabalho, trabalho e mais trabalho". Uns pela qualidade demonstrada, outros pelas descobertas conseguidas, uns mais pelos erros cometidos que também ajudavam a ensinar, outros ainda pelos comentários que (no fundo da sala, em surdina, mas com voz bem reconhecida) permitiam construir cumplicidades e afinidades além do estatuto e do papel devidos, sem esquecer os que reservada e timidamente assistiam ao espetáculo de todos... esta foi a soma construída que nos foi aproximando.
     Ouviu-se "Queremos ficar aqui! Não queremos ir embora!" (Como?!); "Vou ter de ir mais vezes à Carruagem 23!" (O que fazem as saudades!); "Que dia tão triste!" (Não, senhor! É bonito!).
    Circularam T-shirts que deixaram de ser apenas brancas - simples, do clube desportivo da terra ou da junta de freguesia -, para ter dedicatórias que, em jeito de finalistas, revelavam sentimentos, desejos que o tempo (re)fez e fará recordar. 
     Citaram-se alguns versos de uma ode camoniana (Ode IX):

«Porque, enfim, tudo passa;
Não sabe o Tempo ter firmeza em nada;
E nossa vida escassa
Foge tão apressada
Que quando se começa é acabada.»

      Quando tudo parecia chegar ao fim, veio o "Sabe, eu queria um abraço!"
      À distância, foram-se abrindo os braços, como se fosse possível sentir toque apenas com o que se vê. Um íman parecia estar em cada um de nós. Por maior que a sala fosse, o campo magnético fez-se de vontades humanas (se Blimunda soubesse, vinha colhê-las para o seu frasco, a fim de que a Passarola voltasse a voar).
    Chegado a casa, pouso os livros, um ou outro caderno (com quadrículas, números, nomes, notas, apreciações, registos), a pasta, um romance... Releio um pequeno texto que me foi entregue a medo, não houvesse alguma falha: "Esperamos ter marcado tanto a sua vida como o professor marcou a nossa". Ficaram felizes quando lhes disse que não havia nenhum erro. Não podia, simplesmente. Era uma pequena grande frase.

       É tão clara a certeza do que é esperado! Obrigado, por terem estado comigo. (E mais não digo, porque sabem bem quem são).

sábado, 22 de maio de 2021

Hoje, depois de ontem, com versos de séculos

     Ontem foi o Dia Mundial da Diversidade Cultural para o Diálogo e o Desenvolvimento; hoje fica a lembrança da celebração.

      A ocorrência do dia celebrado a 21 de maio, segundo proclamação da Assembleia Geral da ONU há dezanove anos (com a "Declaração Universal da UNESCO sobre a Diversidade Cultural", onde se reconhece esta última como património comum da humanidade), deve repetir-se a cada dia pelo significado que tem para o bem-estar de todos em todos os tempos. 
    Celebrar a diversidade cultural é respeitar e defender valores fundamentais como a liberdade, a democracia, a tolerância, a igualdade, a não discriminação, o respeito pelo estado de direito, os direitos humanos, a solidariedade entre povos, o sentido de paz e de fraternidade harmoniosas.
  Enquanto imperativo ético, no respeito pela dignidade humana e pela aceitação de valores diversos e multiculturais, sublinha-se com esta efeméride a aprendizagem do que é a vivência conjunta, integrada e inclusiva; a luta contra estereótipos culturais, preconceitos e fundamentalismos, num diálogo contínuo enquanto garante de um generalizado desenvolvimento sustentável.
      Assim também o pensou Camões, como o sugere, por exemplo, "Endechas a Bárbara Escrava":

Montagem de imagens e declamação do poema camoniano "Endechas a Bárbara Escrava".

     Uma composição poética contraposta às tendências dominantes dos padrões de beleza num tempo clássico, quando os traços da pele clara e dos cabelos louros se impunham; a singularidade de uma "Pretidão de Amor", de uma negritude que, afinal, não é bárbara (por mais que desta tenha o nome próprio). Assim se marcava a diferença nessa expressão versificatória da corrente tradicional, bem distinta da medida nova (mais superlativizadora do ideal feminino dos "Ondados fios de ouro reluzente"):

Padrões de beleza camoniana bem contrastivos 
("Endechas a Bárbara Escrava" e o soneto "Ondados fios d'ouro reluzente")

    Numa versão musicada por Zeca Afonso e interpretada por Sérgio Godinho, a conhecida trova escrita em redondilha menor progride numa melodia que se vai intensificando na harmonização sonora, sem deixar de sublinhar a excecionalidade da figura retratada.

Interpretação de Sérgio Godinho, para a letra de Camões e a música de Zeca Afonso

     O canto poético quinhentista traduziu um pensamento que se mostra atual, contemporâneo, liberto de preconceitos, feito dessa universalidade revista num "Todos diferentes, todos iguais". Nada melhor para literariamente relembrar o dia que passou.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Triangulações gramaticais

      Depois de dois a falar de gramática, interessa lembrar que, segundo expressão idiomática, não há dois sem três.

     O desafio é lançado por uma aluna que, neste contexto de ensino à distância, aproveita a oportunidade para dialogar comigo por mail:

      Q: Olá, professor. Boa noite. Estive a ajudar um amigo com uns exercícios de gramática sobre funções sintáticas e estamos ambos com dúvidas numa alínea. Nesta está escrito "Dói-me a cabeça" e é preciso indicar a função sintática de "me" e "a cabeça". Eu acho que "me" é sujeito e que "a cabeça" é complemento direto, mas o meu amigo diz o contrário. Pode fazer-me o obséquio de me dizer quem está certo? Boa noite, novamente, e obrigada por ler. :)

       R: Olá. Creio que não vou dar razão a nenhum (ai, ai, ai...).
      Nessa frase, 'a cabeça' é o sujeito sintático. Repara que eu poderia substituir esse grupo nominal pelo pronome 'ela' - 'Ela dói-me' > 'A cabeça dói-me'. É o melhor teste de identificação / comprovação.
     Quanto ao 'me' trata-se de um pronome com a função, neste caso, de complemento indireto. A cabeça dói a alguém. "A quem?" - esta seria a pergunta para obter a resposta do elemento que funciona como complemento indireto. Mais: sei que é o complemento indireto porque, no caso da primeira pessoa, é usado o 'me'; no caso da segunda pessoa, seria o 'te' (> Dói-te a cabeça) e, no caso da terceira, seria o 'lhe' (> Dói-lhe a cabeça). Ora, o 'me' aparece na mesma distribuição de um 'lhe' que, na terceira pessoa, é a marca pronominal do complemento indireto. Portanto, 'me' exerce esta função equiparada ao 'lhe'; 'a cabeça' é o sujeito (invertido) da frase.
       Lamento, mas nenhum dos dois está correto!
       Toca a fazer as pazes e façam o favor de ser felizes, com a gramática certa.
       Espero ter ajudado no raciocínio.
       Boa noite.

       Não ficando por aqui, prosseguiu o diálogo assíncrono nestes termos:

        Q: Obrigado pelo esclarecimento, professor.
       Mas ainda tenho uma dúvida: "A cabeça" poderia ser complemento oblíquo? Penso que dizer apenas "Dói-me" não está correto, pois falta algo.

     R: Não, não poderia. Tens razão quando pensas que falta algo. A verdade é que falta o sujeito sintático da frase, enquanto elemento normalmente presente numa oração. Alguma coisa dói; neste caso, a cabeça. Ela (o sujeito da frase, ainda que invertido, pois não se encontra no local típico de início de frase). É este teste de pronominalização que assegura estarmos perante o sujeito sintático.
       O que te deve estar a confundir, a ponto de ainda pensares em complementos, é a posição do sujeito na frase: não é a mais comum (normalmente abre uma frase), mas não te esqueças que há sujeitos invertidos na sintaxe do português. Na verdade, o verbo 'doer' é tipicamente intransitivo. Daí não selecionar obrigatoriamente nenhum complemento. No caso da frase que estás a trabalhar, esse verbo, porém, apresenta uma realização transitiva indireta, ou seja, uma realização na qual se assume um complemento indireto: o 'me' (que aparece no mesmo local de um 'lhe', na terceira pessoa).
       Espero ter satisfeito e esclarecido a tua dúvida.

      E fico-me por aqui, para não ter de explicar que o 'me', noutras frases e com outros verbos, assume também a função de complemento direto. Antes de dar nó, é melhor gerir a informação a transmitir. Não vá isto tornar-se no triângulo das Bermudas e ficar tudo em desgraçada confusão.

domingo, 7 de fevereiro de 2021

Regresso às aulas

        O título faz lembrar campanha publicitária,...

        É tempo de recomeçar um período letivo que ficou suspenso.
     Ainda assim, houve quem trabalhasse para que a retoma se faça em condições que, não sendo as desejáveis, são as possíveis, para bem de muitos.
    Algumas orientações de partida podem ser a base para que todos se esforcem e tudo se faça para ultrapassar problemas.
       Colaboração e compromisso de todos, exploração de possibilidades, adaptação à situação e não fazer das falhas e faltas a impossibilidade de aprender - eis as palavras e as expressões de ordem destes tempos.
       Estas são algumas orientações essenciais:

(Produção dos Cursos Técnico-Profissionais da ESML)

       A partir de amanhã, volta-se a estar on e com a esperança de que vamos ficar bem.

      ..., mas não se trata disso. Há mais vida para além de redes e grandes empresas comerciais. A rede de educação tem (outros) valores que também interessa partilhar.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Dia de muitas perguntas...

     ... e eu a precisar de respostas!

    Eu a entrar na sala, a vê-los sentados e a procurarem o meu olhar; a senti-los em ânsia... à espera do melhor momento. E, mal puderam,...
     - Não vai haver mais aulas?
     - Vamos todos para casa?
     - E o teste vai ser presencial?
     - Agora, o que fazemos? Quando é que recomeçamos?
     - Sempre é verdade?
     - Afinal, fecha ou não fecha? 

     Com tanta interrogação, respondia eu com reforço positivo: 
     - Boa pergunta, sim senhor!
     - Respondo-te já, pode ser?
     - Muito bem! Aguarda.
     - Duas perguntas?!... Estás curioso(a)? Também eu!
    - Ah se eu soubesse o que é a verdade! À Caeiro, diria que a verdade é o sol, mas também há a mentira, que é a noite.
     - Essa vai ser respondida à Ricardo Reis.

     Quando começavam a rir, agradeci-lhes o melhor dos sorrisos que me deram, apesar da máscara.
    Dei-lhes, então, a resposta, dizendo que o ia fazer de forma poética, citando as palavras de Ricardo Reis:

Uns, com os olhos postos no passado,
Veem o que não veem; outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, veem
O que não pode ver-se.

Porque tão longe ir pôr o que está perto —

A segurança nossa? Este é o dia,

Esta é a hora, este o momento, isto

É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora

Que nos confessa nulos. No mesmo hausto

Em que vivemos, morreremos. Colhe

O dia, porque és ele.


28-8-1933

Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) 

Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). 

 - 154

"Colhe / o dia, porque és ele"

      Perguntei-lhes, então, se tinham percebido a resposta. Um disse logo que sim: que não nos devíamos preocupar demasiado com o passado ou com o futuro (um porque já passou, outro porque está por vir). Nada como viver o presente, o que está perto, passo a passo, para não o perdermos.
     Conclusão: para que fazem eles perguntas, se já sabem a resposta. É esta uma estratégia de sobrevivência de todos nós, para não nos deixarmos levar por recordações, memórias nem por ansiedades.

        Nestes tempos, Ricardo Reis, como te percebo (percebemos)!

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Da imprescindibilidade de um dicionário

        Sou do tempo em que se pedia um, em suporte livro, para cada sala de aula.

    Hoje, basta um computador ou telemóvel para facilmente se ter acesso ao dito material imprescindível para qualquer aula (de língua ou não).
     Direi que, quando falo de ósculos ou amplexos, os alunos julgam que os estou a insultar. E estou a ser tão afetivo! Só não o sou quando sistematicamente usam o verbo 'meter' onde não devem ou dizem para eu esperar 'um bocado'. Nem tanto ao mar nem tanto à terra.

Pintura do poeta Bocage 
no Palacete do Conde de Carcavelos (Braga)
    «Conta-se que Bocage, ao chegar a casa, um certo dia, ouviu um barulho estranho vindo do quintal. Chegando lá, constatou que um ladrão tentava levar os seus patos de criação. 
 Aproximou-se vagarosamente do indivíduo e, surpreendendo-o a tentar pular o muro com os seus amados patos, disse-lhe:
-Oh, bucéfalo anácrono! Não te interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes, mas sim pelo ato vil e sorrateiro de profanares o recôndito da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa. Se fazes isso por necessidade, transijo... mas, se é para zombares da minha elevada prosopopeia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com a minha bengala fosfórica bem no alto da tua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei à quinquagésima potência que o vulgo denomina nada!
    E o ladrão, confuso, diz:
    - Doutor, afinal levo ou deixo os patos?»

      Sinto-me qual ladrão sem saber o que fazer. Não quero roubar ninguém, mas vou tratar de ir à procura de algumas palavras tão eruditas, tão arcaicas e (neo)clássicas.

      Neo..., sim, seja pelo tempo representado em que foram supostamente ditas (na segunda metade do século XVIII) seja por aquele em que podem vir a ser recuperadas. Amplexos!

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Café com tempo(s) e Pessoa(s)

        Eles sabem quem são e como fica(ra)m no coração.

           Fechou-se um ciclo; um outro estará prestes a abrir. 
        Tem sido insólito este tempo: impede aquilo a que se tem direito depois de tanta entrega e trabalho conjuntos. Fica o agridoce dos afetos, que não puderam ser expressos pelo que de mais natural têm: a proximidade do abraço, o beijo na face, o toque da mão (tudo merecido e, por segurança, negado); ainda assim, o convite, a presença.
        Ficou o olhar. O sorriso, incompleto (porque vedado pela máscara), viu-se ainda no brilho  dos olhos. Ficou o (re)encontro num local tão familiar quanto diferente de tudo o que antes foi vivido e agora (re)lembrado. 
          Ficaram as palavras também tornadas atos, no que estes puderam ser.

Uma lembrança em palavras, pessoal e pessoana, com um "cotovelo gigante" (Foto VO)

      Chegou uma lembrança para recordar outras tantas de uma "bagagem invisível" (cito as palavras gentis de um postal tão manual quanto feito de entrega) que todos levamos deste encontro de três anos. Na minha, há uma jornada conjunta, remando contra adversidades; construindo compromissos, cumplicidades, identidades. Conquistas comuns.
       Foi muito bom o ciclo cumprido. Melhor ainda o reconhecimento recebido, ao ler "Todos nós sentimos que, através da sua paixão pela nossa língua, pela literatura, pelo ensino, aprendemos e crescemos enquanto alunos e, principalmente, enquanto pessoas. Consigo descobrimos que a escrita, partindo de nós, apenas vive connosco temporariamente, sendo o propósito último a partilha". Os meus olhos retêm o pensamento, tão oportuno! Como lhes ensinei isto, não sei bem. Sei que não foi com nenhuma planificação, nenhuma grelha ou nenhum plano prévio. Ou talvez com isso tudo e muito mais (bem mais importante): foi a cada dia, com a vontade de estar e o desejo de que me dessem o que de melhor tinham. E todos tinham! Uns mais, outros menos; uns dias mais felizes, outros nem tanto; com mais ou menos dúvidas; entre respostas fantásticas e outras que davam oportunidade para ensinar e aprender. No meio da postura séria, da responsabilização, do "puxar de orelhas", do riso e da gargalhada comuns aos cúmplices, assim se compuseram dias, semanas, meses e anos, dando tempo e atenção a todos.
        Lê-se, no pires, "o perfeito é o desumano". Espero ter conseguido ser deveras imperfeito! 
      (Ai aquele PS - «Nunca esqueceremos o lema 'Trabalho, trabalho e mais trabalho!'» - faz-me lembrar qualquer coisa...!). 

      Tempo de encher a chávena e beber um café, sem açúcar, mas com a doçura e o cheirinho já das saudades. Obrigado pelo tempo dos saberes, dos sabores e dos afetos. O nosso tempo.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Função sintática do 'que'

         E na base do estudo vem a dúvida: o 'que' tem função sintática!!! Como chegar a ela?

       São necessárias algumas dicas, para garantir alguma eficácia de resposta. "Gostava de acertar", dizem alguns. Outros dizem que não acertam mesmo, já na desistência. Há mesmo quem diga "Não percebo!"

      Q: Não percebo muito bem como é que um 'que' pode ter função de sujeito. A de complemento direto ainda entendo, mas a de sujeito...!!!

       R: Primeiro de tudo, interessa saber o seguinte: o 'que' tem função sintática enquanto pronome relativo, não como conjunção. Esta última pode fazer parte de uma oração subordinada que, toda ela, assume uma determinada função (não o "que" conjuncional):

         i) Penso que esta matéria é fácil
           ('que': conjunção subordinativa completiva > 'que esta matéria é fácil': função de complemento direto)

    Quando se está perante o pronome relativo (a retomar um antecedente), ele sozinho desempenha uma função na oração subordinada.
    Para chegar a tal função, interessa fazer o seguinte percurso: (i) assinalar a subordinada, (ii) verificar o elemento retomado pelo 'que', (iii) reconstruir a oração subordinada com princípio-meio-fim, mais o elemento retomado, (iv) identificar a função do elemento retomado pelo 'que' nessa reconstrução (é essa a função sintática do 'que').
       Veja-se o raciocínio para um primeiro caso:

     (i) Frase com subordinada sublinhada: 'O miúdo aproximou-se do cão que ladrou.'
      (ii) 'que' retoma 'o cão'
      (iii) A oração subordinada, com o elemento retomado, ficaria 'O cão ladrou'
      (iv) Como 'O cão' é o sujeito da oração subordinada, então o 'que' desempenha a função de sujeito (dessa oração subordinada; ou seja, um sujeito sintático de segundo nível de análise).

      Repare-se, agora, noutro exemplo:

      (i) Frase com subordinada sublinhada: 'O exame que os alunos vão resolver pode ser fácil.'
       (ii) 'que' retoma 'O exame'
      (iii) A subordinada com o elemento retomado, ficaria 'Os alunos vão resolver o exame'
      (iv) Como 'o exame' é o complemento direto da oração subordinada' o 'que' tem essa mesma função (na subordinada, sublinho).

     Deve, portanto, considerar-se que, neste tipo de questão, está em jogo um segundo nível de análise das funções - não ao nível da oração subordinante, mas, sim, da subordinada. Por sua vez, e porque o 'que' é um pronome (relativo), este desempenha uma função nessa subordinada (que deve ser objeto de reconstrução com o elemento retomado da subordinante).

      Ler a instrução do que vai ser resolvido é demasiado importante, para todas as situações e neste caso em particular. Não se trata de classificar a oração subordinada (toda), mas apenas de uma palavra nela incluída: o "que". Caso para dizer que um 'que' (pronome relativo) pode fazer a diferença.

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Encontro (mais cedo) com o Pai Natal

      Aquele momento em que te pedem para fazer troca de prendas na aula.

    Dizem que é a magia do tempo, a forma de sedimentar laços... talvez um modo de construir memórias para lá destes dias. Surge, então, aquele instante no qual se dá expressão ao nascimento de algo mais importante do que as caixas, os laços, os papéis coloridos que envolvem um objeto mais ou menos igual a muitos outros vendidos ou comprados numa loja qualquer:

Encontro com o Pai Natal - I (Foto VO)

Encontro com o Pai Natal - II (Foto VO)
Com agradecimento à IC, IS, BR e LR

     Chegou-me às mãos e aos olhos, em múltiplos sorrisos, um postal num envelope dourado, com uma mensagem que só nós entendemos. Foi uma belíssima prenda de natal! Daquelas que são nossas, que têm a marca de vivências cúmplices, que se fazem com aulas e fora delas.

      Com o agradecimento especial àquelas a quem "martelo" todos os dias (bem..., na verdade, só alguns) para que me deem o que têm de melhor. E não é que o deram!

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

O Violino de Auschwitz

      Não é o conhecido título do livro de M. Àngles Anglada (romancista catalã), mas uma atividade escolar (e educativa) que fez relembrar um passado trágico.

 Uma conferência-concerto multimédia, promovida pelo grupo disciplinar de História da Escola Secundária Dr. Manuel Laranjeira (ESML - Espinho), contou com a presença / dinamização do violinista / relator / investigador Maurizio Padovan. No Dia Internacional dos Direitos Humanos, este homem-espetáculo lembrou, a toda uma plateia de alunos e professores, um tempo que não pode ser esquecido. 
      Como contador de histórias e da História, comunicador eficiente e cativante, executante de peças musicais da época do holocausto, o professor Maurizio compôs a sua apresentação de uma forma tão impressionante e entusiasmante que a concentração do público era tão notória quanto respeitosa para a memória de todos aqueles que foram vítimas de outras concentrações - bem mais terríficas e fatais (as dos campos de genocídio nazi).
       Numa amplitude diversa de registos (do mais sério ao mais irónico e cómico; do mais grave ao mais anedótico), a História fez-se ouvir no que de mais grotesco, hediondo tem para a Humanidade, mesmo que mascarada, disfarçada de ilusões, na forma mais propagandística que os regimes fascistas também puderam construir. 
      Se a moda das meias de vidro (lançada a 27 de outubro em 1938, na Feira Mundial de Nova Iorque) abrilhantou, com grande sucesso, a beleza feminina, a Segunda Guerra Mundial não deixou de ver no nylon o material adequado para o fabrico bélico de pára-quedas, pneus, tendas, cordas, fatos impermeáveis. Quase fez com que, praticamente, desaparecesse a produção de meias. A fronteira do belo e do grotesco é tornada ténue. Se a música é arte de sons, melodias, harmonias e ritmo no e para o(s) tempo(s), é também prática cultural humana matizada de efeitos e sentidos inusitados - que o digam o 'tango da morte' ou a 'música da mentira'. São memória de um drama humano em várias línguas (alemão, checo, hebraico, iídiche, polaco, romeno), tantas quantas a tortura e o sofrimento fizeram ouvir. 

Demonstração-vídeo de "Violino de Auschwitz" (conferência-concerto na ESML)

      Se ouvir música / cantar fazia enfrentar e relativizar a sensação de fome e dor; se trazia notas de uma esperança a todo o tempo ameaçada, também com ela se anunciava a morte e se disfarçava o futuro irrevogavelmente fatídico na forca, nas valas ou nas câmaras de gás. Na condição de prisioneiros condenados à morte pela raça, ideologia e/ou religião, inúmeros judeus, ciganos, "diferentes" cavaram fundo, nas suas almas e na busca de inspiração, para criar e interpretar pautas de absurdo e de abismo, frequentemente culminadas em crematórios ou valas de morte.
     Aristides de Sousa Mendes não deixou de ser lembrado - um português nos "Justos entre as Nações" e nessa luta que foi a de salvar judeus e outras potenciais vítimas às mãos nazis. Um herói que terminou os seus dias em desgraça, depois da desobediência em consciência.
     Disto e doutras curiosidades se fez acompanhar o violino, instrumento cuja construção no concelho de Espinho data de 1924 com o artista Domingos Capela, jovem marceneiro, natural da freguesia de Anta. Arte e dedicação levaram-no a ser conhecido mundialmente. O filho Joaquim Capela tem mantido o interesse e o mérito / reconhecimento internacional, colocando Espinho no centro de uma tradição geracional e familiar voltada para o mundo. 

      Um violino que trouxe música para homenagear vozes que o Holocausto silenciou; que também convocou memórias pessoais de uma viagem que marcou; que deu as notas necessárias à evocação de um dia que, desde 1948 (quando a Assembleia Geral das Nações Unidas proclamou a Declaração Universal dos Direitos do Homem), se mantém atual. Um agradecimento ao grupo de História da ESML, que tornou esta manhã mais luminosa e celebrada.