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sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Triálogos em família

     Conversações linguísticas a três.

     Pergunta o filho qual o contrário de mérito: se desmérito se demérito.
     A mãe está para o primeiro, o filho pretende o segundo. O pai aceita os dois.

Preferível o mérito ao de(s)mérito - a negação instaura a dúvida pela presença de um 's'

    Na verdade, se 'merecer' está para o antónimo 'desmerecer' (com o acrescento do prefixo 'des-'), o mesmo pode aplicar-se, morfologicamente, no par 'mérito/desmérito'.
    Numa perspetiva etimológica, recorrendo à história da língua, encontra-se a razão do 'demérito': no latim, usava-se o termo 'demeritus, -a, -um' (particípio passado de demereo, -ere, com o significado de 'ganhar, merecer, cativar').
   Ambos os termos estão registados em vários dicionários, encontrando-se 'demérito' atestado em textos portugueses desde o séc. XVI; 'desmérito' é mais evidente desde o século XIX. O primeiro está mais para o etimológico e a via erudita com o recurso ao latim (com a família de palavras a destacá-los, por exemplo, em 'demeritório'), enquanto o segundo assenta mais numa consciência morfológica da língua. 

   Se entre marido e mulher não metas a colher, bom é que entre mãe e filho não se crie sarilho. Linguisticamente, quanto a este tópico, reina a paz entre todos.

domingo, 25 de janeiro de 2026

Preferências...

       Hoje disse uma delas, por diversas vezes.

    Lembro-me  da virtude que existe no equilíbrio, no comedimento, na moderação. Há quem fale em demasia e, por isso, diz o povo, pouco acerta.
   Recorrendo ao sentido etimológico da palavra, pode dizer-se que, inclusivamente, 'moderação' (derivada do latim "moderationis") significa ação de regular ou governar.
      Assim, construo o pensamento:

Tomo o equilíbrio por seguro, 
para não cair na desventura.

      Tenho dito; ou melhor, escrito. 
    Evocando Alexandre O'Neill, diria que "há palavras que nos beijam"; outras são "sem cor". Se o poeta falava da construção poética, digo que também vale para simples pensamento.
     Pareço um clássico, é certo. Na vida, há momentos assim - particularmente quando se sente que há situações ou pessoas com as quais não se pode nem se deve contar nem no presente nem no futuro.

      Sinto-a como necessária nestes tempos, para não cair em excessos (que não trazem felicidade a ninguém).

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

São Martinho, com castanhas, sem vinho

       Não foi no dia (a 11 / 11), mas é como se fosse.

     Um dia depois, as castanhas de São Martinho chegaram-me generosamente à mão, em saquinho funcional e motivadamente decorado, bem como ao paladar, entre o faminto e o sedento.
      Nem dei conta do santo. Foi-me anunciado, é certo, mas, na azáfama do dia, ele não me valeu, com o seu manto de aconchego e conforto. Ainda assim, há quem não se esqueça de mim e me traga o "mimo" da tradição, lembrando o magusto.
       Fico-me pelo comer.

Um saquinho de castanhas que valeu pelo santo esquecido, na voragem do dia 
(Fotografia VO)

       Do vinho, nem vê-lo! É como o verão: nos dias outoniços de chuva e da depressão Cláudia recentemente chegada a Portugal, lá se vai o provérbio que ditava "Verão de São Martinho são três dias e mais um bocadinho." 

      Sim, ditava. Neste ano, nem um bocadinho, quanto mais três dias! Grato pelas castanhas que alimentaram a alma e, por momentos, fizeram esquecer as agruras do dia. (Com agradecimento à SF).

quarta-feira, 2 de abril de 2025

Variantes doces de provérbios

     Não consumindo açúcar, mas recriando provérbios.

     Do princípio ao fim do dia, vou colecionando pacotes de açúcar, à conta do número de cafés tomados. 
     Ultimamente, chegam às mãos (e aos olhos) provérbios que vou completando à medida da variação que o café inspira:
      
Pacotes de açúcar muito proverbiais com motivos sabendo a café (Foto VO)

      Não são os enunciados paremiológicos clássicos, é certo, mas a tradição também já não é o que era; logo, com rima ou sem rima, recriem-se os mesmos a partir do que a experiência de vida dita.

      No que toca à minha experiência, é menos açucarada; é mais cafeinada (já que não sou adepto do descafeinado).

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

Grande Mês!

    Depois de um janeiro que nunca mais acaba(va), começa o mês mais pequeno de todos, mas muito proverbial.

    É o costume: quando se é a menos nalguma coisa, apuram-se outras qualidades.
    Fevereiro é pequeno no número dos dias, mas grande nos provérbios (e nos saberes que se lhe associam):

Se o inverno não faz o seu dever em janeiro, fá-lo em fevereiro.

Quer no começo, quer no fundo, em fevereiro vem o entrudo.

Quando não chove em fevereiro, nem bom prado nem bom centeio.

Os dias bons de janeiro enganam o homem em fevereiro.

O sol de fevereiro matou a mãe ao solheiro.

Neve em fevereiro é mau para o celeiro.

Luar de janeiro faz sair a galinha do poleiro; lá vem fevereiro que leva a galinha e o carneiro.

Lá vem fevereiro, que leva a ovelha e o carneiro.

Janeiro geoso, fevereiro nevado, março frio e ventoso, abril chuvoso e maio pardo fazem o ano abundoso.

Fevereiro quente traz o diabo no ventre.

Fevereiro coxo, em seus dias vinte e oito.

Fevereiro afoga mãe no ribeiro.

Chuva de fevereiro vale por estrume.

Bons dias em janeiro enganam o homem em fevereiro.

Até ao Natal salto de pardal, de Natal a janeiro salto de carneiro e de janeiro a fevereiro salto de outeiro.

Água de fevereiro mata onzeneiro.

      Depois disto, registe-se também que 'fevereiro' vem do latim (februarìu-), «o mês das purificações», de februáre, «purificar; fazer purificação religiosa»). Há quem defenda que era tempo dedicado a "Februus", a quem os romanos dedicavam sacrifícios para compensar / evitar a escassez do ano.
     Ao estudar o calendário egípcio, no qual constavam 365 dias, Júlio César trocou o calendário lunar pelo solar. Janeiro e fevereiro foram colocados no início da contagem e o imperador distribuiu os dez dias de diferença face ao calendário anterior por vários meses. Claro que julho (o mês de 'julius') não podia ser menor do que outros; mas o de César Augusto também não (agosto). Na alternância dos trinta e dos trinta e um dias nos diferentes meses, dois sucessivos ficaram com trinta e um (os imperiais); o mais pequeno ficou fevereiro, que, de quatro em quatro anos, tem vinte e nove dias, por o ano solar ser um pouco maior do que 365 dias.
      As mudanças de calendário, entre os cálculos precisos dos astrónomos (considerados entre dois equinócios solares) e as decisões dos imperadores romanos ou as dos papas, marcaram fevereiro sempre como o segundo mês (introduzido com o inicial janeiro) num arranjo temporal que nunca se revelou equilibrado nas alternâncias ou no número de dias contados. 

    Purificado ou não, este é mês diferente: "dos gatos" como popularmente se diz; pequeno quanto baste para cedo se chegar à primavera, apesar do inverno que faça sentir.

quarta-feira, 12 de outubro de 2022

Esperteza... nem saloia nem sintática

       Se a necessidade faz os homens espertos, o desconhecimento torna-os ineptos.

    Digamos que o sentido proverbial da primeira parte (subordinada) do pensamento anterior sai combinado, no fim, com o valor intencional crítico da sequência principal (subordinante). 
     Subordinado ao pagamento das compras feitas, impôs-se o registo fotográfico perante a leitura do inadmissível. Entre tanto sítio nas frases onde possa aparecer uma vírgula, há quem insista em colocá-la onde não deve: entre o sujeito da frase e o predicado. 
       Eis a prova do desconhecimento e da inépcia:

Publicidade enganosa? No mínimo, errada na escrita da pontuação (Foto VO)

         Só quem ainda é herdeiro de métodos errados no ensino da pontuação (os que generalizadamente dizem, por exemplo, que a vírgula marca uma pausa) é causador deste erro. 
      Além de uma representação fonética e/com algumas implicações semânticas, a verdade é que a pontuação é eminentemente uma representação gráfica da linearização de enunciados, ou seja, da natureza sintática que os carateriza. As vírgulas, nesta medida, marcam a presença de vocativos (chamamentos), de enumerações, de anteposições de elementos na ordem sintática, de modificadores não restritivos / explicativos / apositivos (com ou sem encaixe nas frases). Não podem é nunca separar sujeitos de predicados nem os verbos dos elementos que contribuem para a sua complementação (sejam complementos sejam predicativos).
      "Quem compra no sítio certo" é o sujeito (oracional, frásico) do predicado "parece logo mais esperto". Uma vírgula não pode separar estas duas sequências. Duas até poderiam, com a introdução de um encaixe (cf. "Quem compra no sítio certo, sem sombra de dúvida, parece logo mais esperto).

     Podendo eu estar no sítio certo, a verdade é que quem publicita tem, no mínimo, esperteza duvidosa.

sexta-feira, 29 de abril de 2022

Dia Internacional / Mundial da Dança

      Entre os muitos que a consideram como a 4ª arte, para outros é a 6ª.

    Para lá da sequenciação numérica, importa que a dança é uma das expressões da humanidade a conjugar movimentação do corpo com ritmo, num compasso motivado de tempo e espaço. Entre impulsos nervosos e musculares, expressam-se sentimentos; anima-se o espírito, através de passos e gestos, num casamento musical que chega muitas vezes à dimensão da arte.
       É neste âmbito, geral, que o Dia Internacional ou Mundial da Dança é celebrado, há quarenta anos, neste dia, numa data criada pelo Comité Internacional da Dança (CID) da UNESCO, a propósito do nascimento de Jean-Georges Noverre - um dos grandes nomes mundiais da dança nascido em 1727.
 apelando a uma configuração da dança onde também cabem as que dão a imagem cultural de um povo,      Com as suas marcas mais ou menos codificadas em géneros diversificados e recorrentemente combinados (rituais e religiosos, mundanos e populares, guerreiros e de paz, de espetáculo), há danças para cobrir uma grande diversidade de situações - das danças da chuva às da sedução, bem como às do festejo dos eventos humanos,  numa universalidade de causas a todo o tempo convocadas. Desde logo, as do espírito,  as da alma da da busca de poder(es) que, na origem, também evocam o espetáculo, a dimensão do apelo e do mistério sagrado (seja este mais natural seja ele mais associado a entidades mais abstratas). 
     Do sapateado, volteio, balanço, genuflexão, contorção de peito e de cabeça, há uma linguagem, uma gramática da dança que não é estranha à expressão da vida (mesmo quando esta se compõe, também, pelo fim de ciclos).
     Na consciência da passagem do tempo, figuram aqui algumas sonoridades e passos de dança que nos acompanha(ra)m nas últimas décadas:

Estilos de dança contemporâneos ao som de músicas deste e do passado século.

      O escritor e teórico da arte francês oitocentista Charles Baudelaire, afirmou que "A dança consegue revelar tudo o que a música esconde misteriosamente, tendo mais mérito de ser humana e palpável. A dança é poesia com braços e pernas, é a matéria, graciosa e terrível, animada, embelezada pelo movimento". Se a literatura, nas suas origens, tem a expressão poética combinada com a música, desta à dança pouco falta - que o digam as bailias ou bailadas das cantigas de amigo trovadorescas.
       Claro que interessa "Dançar conforme a música" e descobrir que / se "Bem dança a quem a fortuna canta / a quem a fortuna faz som". E se há quem acrescente "Quem pode toca, quem não pode dança" ou "Como se toca, assim se dança", é de constatar que se está perante expressões ou enunciados paremiológicos a traduzir bem esta nossa" dança da vida".

       Numa variação ao "Quem canta seus males espanta", hoje recrio o provérbio "Quem dança muitos bens alcança" - o da animação e o de uma libertação salutar que sejam. 

domingo, 28 de novembro de 2021

Quando faz frio...

         ... vêm as saudades do verão.

     Nada como o frio para virem aquelas expressões tão típicas que o caraterizam na língua. 
   Os franceses falam do tempo frio e cinzento (gris), mas connosco "Está cá um griso que nem te passa!". Costuma dizer-se que "Deus dá o frio conforme a roupa, mas mais a quem tem pouca" - em versão mais reduzida, ficamo-nos por "Cada um sente o frio conforme a roupa" ou "Dá Deus o frio conforme a roupa" (ficando ao homem a escolha desta última, diga-se, para que Ele não seja responsabilizado por determinismos ou injustiças sociais). 
    "Que briol!" ou a versão "Que barbeiro!" não são menos populares, bem mais intensos na frialdade e na invernia, quando acompanhadas de vento. 

Quem tem brio não tem frio?

     Tem sido isto (ou próximo) nos últimos dias, com a acentuada queda nos valores da temperatura. 
   Lá se foi o verão! Mesmo que se diga "Em (fins de) Agosto dá o frio no rosto", não é o mesmo sentido de sensação. O de novembro e o de dezembro chegam a doer, a gelar, a 'cortar' na pele. Por isso é bom aquecer as mãos nas chávenas, usar os carapins nos pés, proteger as orelhas com o carapuço (até a máscara, tão escusada, resguarda lábios e nariz). Não sejam os alarmismos "amarelos" e "laranjas" com que nos brindam, estão aí os sinais de um outono comum a anunciar inverno.
     "Ande o frio por onde andar, no Natal vem cá parar". Já não estamos longe, portanto. Assim que passar o ano poderá dizer-se "Chuva em janeiro e sem frio vai dar riqueza  ao estio"; ainda assim, e à cautela, bom é que se saiba: "Janeiro frio ou temperado, passa-o enroupado". Não vá o Diabo tecê-las e entre "Noite fria, dia quente, fica o homem doente" (e a mulher, também). Digamos que é princípio válido para qualquer altura do ano. No que toca  a frio, este existe em todo o tempo, a todo o mês. Há mesmo quem defenda março friorento e ventoso como condição necessária e virtuosa: "Janeiro geoso, fevereiro nevado, março frio e ventoso, abril chuvoso e maio pardo fazem o ano abundoso".
     Como nem tudo é frio, vento, chuva ou neve, pense-se no calor, na primavera e no sol, que dizem fazer bem à pele (na dose certa). Certo é que, na moderação, "Guarda do calor o que guardas do frio", até porque "Quem não anda por frio e por Sol não faz seu prol". Não é de espantar, por isso, o conselho de proteção: "Usa sempre cobertor, faça frio ou calor".

    À falta de outro calor, viva-se o que de mais humano há e brinde-se com as malgas da sopa (é sempre uma forma de celebrar convívio, amizade e de tornar os corações bem mais quentes, fazendo esquecer algumas agruras da vida ou outros corações que não aquecem).

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Uma questão de "*perar" (porque 'quem *pera sempre alcança' ou '*despera')

     Estará a acontecer mais um caso de evolução da língua?

    A frequência de uso do verbo '*tar' é tão comum na oralidade que já foi aqui, mais do que uma vez, denunciada pelas evidências do escrito - bem reveladoras de falha na consciência morfológica (deformação na consciência da base da palavra) e fortes implicações com a sintaxe (confundindo o verbo copulativo ou o auxiliar 'estar' com o verbo principal ou o auxiliar 'ter').
     Hoje, à semelhança de outros dias, a interação foi fantástica, a julgar pela reprodução do diálogo:

     - Ó professor, *pere.
     - Se faz favor, é bonito e eu gosto.
     - *Pere, se faz favor.
    - Não *pero nada, porque não sei o que é isso de *perar. Verbo tão estranho! Eu *pero, tu *peras, ele *pera, nós *peramos, vós *perais, eles *peram! (a gargalhada começa a ser geral). E se fosse no imperfeito do conjuntivo? Se eu *perasse, se tu *perasses, se ele *perasse, se nós *perássemos, se vós * perásseis, se eles *perassem! (mais gargalhada). Ai, e o pretérito perfeito composto! Eu tenho *perado, tu tens *perado, ele *tem perado... (continuam a gargalhar, até que o olhar sério e a pergunta mudam o registo, aind mantendo a brincadeira) Como seria o futuro?
      - Eu *perarei, tu *perarás, ele *perará... (responde uma)
      - Muito bem! E o condicional?
     - Esse é o tempo das Marias (coitados dos Manéis desta vida!): eu *peraria, tu *perarias, ele *peraria...
     - Bem, isto está a soar-me a peras a mais!
     - É cada fruta, professor!
     - Tens razão, é melhor parar, antes que façamos uma salada muito pouco variada e indigesta!

     Para terminar o momento, lá foi o reparo:

      - Espere, por favor, caríssimo X!

     E lá veio a resposta que daria outra conjugação:
     
      -   *Tá bem, professor.

      Alguns, mas só alguns, riram-se, bem cientes de que eu já não "*tava" a ficar muito bem.

     Quando abordar os processos de evolução fonológica, vou pensar se não será melhor começar já a abordar a aférese dos sons na sílaba inicial de 'EStar' e 'ESperar'. Quase me apetece dizer, em variação paremiológica, 'Quem *pera tem *perança' ou, então 'Quem *pera *despera'.

segunda-feira, 12 de abril de 2021

Uma farsa vicentina muito atual

     Numa intemporalidade que se impõe, com mais semelhanças do que coincidências.

    Hoje fala-se da emancipação da mulher, de jogos de interesse, de violência doméstica, de máscaras sociais - um tempo contemporâneo que não deixa de viver as heranças de outros séculos, e que Gil Vicente também experienciou no seu.
      
Representação do texto dramático quinhentista vicentino pela Spotlight Produções 
(encenação de João Ascenso)

   Persiste a deceção, quando se opta por ideais, ilusões que, a todo o tempo, caem. Descobrem-se os pretensiosos. Denunciam-se os desajustados, os ingénuos e os inocentes que não veem o mal que está à frente. Fazem-se também aprendizagens, mas o que de mais criticável existe (não se olhar a meios para atingir os fins) não deixa de alimentar a farsa que o comportamento social e humano ainda tem.
     Lida ou visionada a representação da obra, cedo se descobre quem representa o quê, para não referir outras linhas temáticas tão comuns no dramaturgo quinhentista: a crítica ao clero, o casamento como negócio, os subalternos oprimidos, o confronto do profano e do sagrado, o preconceito para com os judeus.
     Além do "Mais quero asno que me leve que cavalo que me derrube", a prova de que as aparências enganam faz sentido para quem se deixa viver nelas, nos ideais ou nas ilusões com que se engana; ou, então, para quem mascara uma vivência que só um "cego" não consegue ver. De tudo isto é feita a Farsa de Inês Pereira (1523), um texto a chegar aos 500 anos com um sentido bem presente.

      Assim se revê a obra vicentina tão atual que chega a parecer que nada mudou na metade de um milénio.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

História de um agente entre a gente

     Em tempos de confinamento, nem sempre as paredes aguentam comigo.

    Poupo-as, por uns instantes, ora dando uma caminhada no meio de ninguém (e em horas de pouco movimento) ora indo de carro ver o mar. Estaciono, mantenho-me dentro, fazendo dele uma casa móvel e abrindo os vidros para um mundo maior. Leio ou trabalho; vou vendo o mar, contemplando algumas gaivotas passageiras, observando nuvens deslizantes a acinzentar o céu ou o torná-lo aqui e além manchado de flocos cotonosos.
    Por vezes, passa um camião carregando um painel publicitário, no qual se lê o convite para todos ficarem em casa, a bem de muitos. Um altifalante complementa a mensagem estampada no painel: "Fique em casa. É tempo de confinamento, por causa do Covid-19. Fique em casa, pela sua saúde e pela de todos". Compassadamente, circulam ainda agentes policiais, a pé ou de carro, dissuadindo aqueles que pretendem chegar ao areal interdito ou correr pelos passadiços bloqueados, fitados com uma cruz impeditiva de circulação. Mesmo os que, como eu, estão fechados no habitáculo do automóvel não estão livres de abordagem persuasiva da autoridade.
    Aconteceu-me hoje que, estando a trabalhar com o computador, fui abeirado, com o distanciamento social devido, por um agente que, simpaticamente, me perguntou se estava tudo bem e se pretendia ficar naquele local (aprazível) por muito tempo. Pelo suspiro que soltei e pelo meu ar de desagrado, de saturação face à previsível sugestão de voltar para as minhas paredes, o polícia apercebeu-se da minha necessidade de respirar outros ares e, com toda a compreensão, justificou a sua atuação: sensibilizar para os cuidados a ter e para evitar que muita gente se concentrasse junto ao mar (evitando os ajuntamentos críticos). Agradeci a atitude e o serviço que estava a ser cumprido. E talvez por isso, de seguida, veio a concessão: assim que concluísse o trabalho e fizesse uma possível caminhada solitária, solicitava o recolhimento a casa. Voltei a agradecer, pelo cuidado e pela compreensão, ao que assentiu que tínhamos ambos de ser compreensivos e reconhecidos nas palavras e nos bons atos.
     Apreciei bastante a postura e o exercício compassivo da autoridade. Solicitei apenas uns minutos mais. Respondeu que não havia problema, desde que não infringisse as interdições visíveis a todos na praia. Sosseguei-o quanto a isso, pois não pretendia sair da "minha concha". Disse-me, então, para eu estar à vontade e, por fim, acrescentou que "Se todos cumprirmos, quando contermos o vírus, vamos poder mais rapidamente aproveitar a vida em conjunto". A ideia era perfeita, mas o "contermos"...
    O futuro do conjuntivo do verbo 'conter', na primeira pessoa do plural, é 'contivermos', senhor agente - isto foi o que pensei; o que gostava de ter dito. No entanto, achei por bem fazer igualmente uma concessão. Valorizei mais a atitude do que a correção do discurso. Eu podia ter concordado, repetindo a mensagem com a forma correta, como normalmente o faço em situações análogas ("Sim, se CONTIVERMOS o vírus, vamos todos ser mais felizes"). Não o fiz, porém, atendendo à qualidade da interação, na qual uma falha gramatical não comprometeu o interesse nem o foco da comunicação.

       Lá diz o provérbio que "No melhor pano cai a nódoa" - acidentes que acontecem a todos os que também usam "boas palavras" (mesmo que estas não sejam as gramaticalmente mais corretas).

terça-feira, 2 de julho de 2019

"Isto não vai lá com Oficinas de Escrita"!!!!!!!!!

        E agora que ando a dinamizar formações sobre o tema, só me faltava ouvir esta!

    A opinião é de António Carlos Cortez, que, no programa Prós e Contras (RTP1) sobre a 'Revolução Digital na Educação', profere, por duas vezes, que as oficinas de escrita não são a solução para os problemas no ato redacional dos alunos.
        Revejam-se os momentos:

Montagem de excertos do programa 'Prós e Contras' 
(RTP1 - emissão 01.07.19)

      No meio de tanto posicionamento crítico sobre a era digital na educação - a maior parte dele a ser subscrito por mim no que à "esquizofrenia" da supremacia  tecnológica diz respeito -, o tópico da oficina de escrita tocou-me ('Quem não se sente não é filho de boa gente, dizem') e critico (reconhecendo que 'Quem critica os defeitos é porque ainda não viu as virtudes', se as houver). Discordo que 'isto não vá lá' com oficinas de escrita, se estas resultarem de projetos estruturados; de dinâmicas faseadas, progressivas e moldadas pelos pressupostos da pedagogia da escrita; de oportunidades de instrumentação sistemática da escrita (com explicitação e consciencialização de técnicas redacionais).
     Só parcialmente compreendo a ideia, no caso de o conceito de 'oficina de escrita' ser redutoramente perspetivado no âmbito da escrita lúdica e recreativa. Podendo esta última constituir uma oportunidade de indução e exposição à escrita, não é garantidamente suficiente para a aprendizagem deste domínio fundamental às disciplinas que nela se apoiam e dela fazem depender a avaliação - isto é, quase todas.
         A aprendizagem da escrita faz-se, sim e também, com oficinas de escrita, quando estas são dinamizadas na consciência da aplicação de instrumentais e de processos que a escrita requer e uma pedagogia da escrita preconiza. Planificar uma sequência de aulas que visa o ensino de mecanismos de escrita (passando pela planificação, textualização e revisão, na progressão e na retoma sucessiva das etapas); orientar o ato de escrever segundo metodologias que permitam passar de focos a nível macro (planificação, gestão de informação, conhecimentos de mundo e universos de referência, domínio lexical, coerência) para focos a nível micro (sequencialização e textualização a nível de ortografia, pontuação, sintaxe); fasear procedimentos que, uma vez revistos e consciencializados, permitam integração e articulação em desempenhos mais consistentes, não sei por que razão não pode este percurso ser designado de 'oficina de escrita' (prefiro às cozinhas, de Cassany, ou aos estaleiros, de Jolibert), quando tal significa colocar os alunos em trabalho orientado, continuado, progressivo, integrado e partilhado com os professores.
        Diria mesmo que desta forma ou trabalhando a escrita com alguns pressupostos oficinais se criam condições de ensino-aprendizagem desejáveis, porque motivacionais e capazes de implicar professores e alunos em ação / atividade conjunta, na explicitação e na consciencialização de técnicas conducentes a desempenhos mais consistentes.

        Em suma, com oficinas de escrita ou escrita com alguma oficina constroem-se oportunidades estratégicas de ensino-aprendizagem participados e implicados em percursos de maior sucesso (porque de maior condução para desempenhos crescentemente autónomos). Interessa ensinar e aprender a escrever.
  

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

A morte tornada comédia

       Pode lá ser?! No absurdo, a morte transforma-se na maior comédia.

       A vivência dolorosa de quem vê partir os seus nunca é desejada, por mais preparado que se esteja para tal. Outros dizem que falar dela, da morte, é bom sinal e que até a afasta do nosso circuito (quanto mais não seja por sermos nós a falar dela) - como diz o provérbio "Morte anunciada, vida acrescentada". Certo, certo é o facto de que "A morte não escolhe idades" ou o de que "A certeza da vida é a morte" (a dita inexorabilidade da morte, tão à Ricardo Reis). 
    Televisiva ou criticamente, há um tratamento do tema no mínimo inusitado. Basta ler as mais recentes legendas ou notas de rodapé associadas a dois canais da nossa praça:

Correio da Manhã TV - em versão de filme de terror?

Se em dois mortos morrem oitocentas pessoas, 
quantas mortes serão necessárias para dizimar a população nacional?
(Verdadeiro problema matemático!)

      Chega-se ao absurdo, de tão ridículo, ou ao riso, por tamanha tradução do uso humorístico ou indevido da língua. Mais na segunda imagem, diga-se; na primeira, há sempre a manipulação do que foi difundido, numa brincadeira de quem corta a legenda emitida ("Dois mortos em fuga de gás") e quer fazer passar o registo do ridículo face ao noticiado (que, não raras vezes, se põe a jeito para tal).
    Não sendo filme de terror (com a fuga dos mortos), por um lado, nem proporcionalidade ou raciocínio matemáticos (duas mortes para oitocentas pessoas vai ser a crise para armadores e serviços fúnebres), por outro, há registos jornalísticos que são ou podem revelar-se um autêntico susto (de morte) - ou, então, uma comédia sem fim.

       Caso para dizer que, em ambos os casos, é de 'morrer a rir' (salvo seja!).

domingo, 14 de outubro de 2018

Não há três sem quatro

     A contar pelas versões do filme, já não chega dizer que não há duas sem três.

    2018 é o ano para o 'remake' em terceira versão de "A Star is Born", depois do original datado de 1937. Mais de oito décadas passadas, Janet Gaynor dá lugar a Lady Gaga (depois de Judy Garland e Barbra Streisand). Um tanto de musical com um outro tanto de romantismo são ingredientes para misturar e derivar numa receita a ver na tela.

Trailer Oficial de 'A Star Is Born' (remake de 2018)

     A história consabida do músico, em final de carreira, que estimula e vê ascender artisticamente a mulher amada é o pano de fundo melodramático comum para um enredo quase secular, desta feita composto também pelo protagonismo que a música dá a ouvir na banda sonora. Os planos de 'backstage' de alguns dos concertos ou os preparativos para os shows conjugam-se nesse propósito de representar o percurso regressivo de Jack(son) e a ascensão de Ally (essa 'aliada' que se afirmou e se singularizou como estrela). Se a versão de 1976, com o par Barbra Streisand-Kris Kristofferson, tornou Evergreen melodia oscarizada, o mesmo se prenuncia com muitas das canções agora interpretadas pela dupla Lady Gaga-Bradley Cooper. 
      Talvez o dueto de "Shallow" seja um dos casos a considerar:

Montagem imagem-música (VO) para "Shallow" de 'A Star Is Born' (2008)

      SHALLOW

Tell me something, girl
Are you happy in this modern world?
Or do you need more?
Is there something else you’re searching for?

I’m falling
In all the good times
I find myself longing for change
And in the bad times I fear myself

Tell me something, boy
Aren’t you tired trying to fill that void?
Or do you need more?
Ain’t it hard keeping it so hardcore?

I’m off the deep end, watch as I dive in
I’ll never meet the ground
Crash through the surface
Where they can’t hurt us
We’re far from the shallow now

In the sha-ha- sha-ha-ha -llow,
In the sha-ha- sha-ha-ha- llow,
In the sha-ha- sha-ha-llow,
We’re far from the shallow now


    Também a cantiga final da película - "I'll never love again", numa homenagem a Jack(son) Maine (Bradley Cooper) e na interpretação de Ally Maine (Lady Gaga) - cumpre a marca de um fecho arrasador, para uma narrativa emocionalmente crescente, com a dupla romântica a afirmar-se para lá do que a morte possa impor. Uma breve analepse final traduz essa declaração de amor de Jack, num sentimento que se vê ameaçado pela doença, por um ciúme mitigado de incapacidade e perda progressivas, por jogos de interesse colaterais, por (pres)supostas experiências ou representações que o passado não deixa(ou) apagar.
     A música aproximou Jack de Ally (mesmo quando a necessidade do álcool parecia ser maior); pela música ambos sofreram, vivendo (na composição e na voz) numa entrega que nem sempre se revelou harmoniosa, mas fez vingar o que os uniu. O sonho, tornado real,  revelou-se duro, intenso, sofrido, com a "luz" a incandescer o que de mais doloroso e irónico a vida (também) tem.

      Assim nasce(u) uma estrela, dando brilho também a uma outra que a morte não conseguiu apagar.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Oferta tão (pouco) generosa!

      Tão generosa quanto escusada!

      Convenhamos: não a oferta, mas o texto que a anuncia.
     Depois de atualizar a conta e receber a box UMA em casa, a NOS decidiu ofertar-me uns canais premium e um pack de karaoke. É verdade que quem canta seus males espanta, mas a empresa começou a mensagem muito mal.
      Logo a abrir o registo, três atropelos na escrita:

Excerto de uma mensagem que, na primeira linha, dá logo má imagem

    Um 'ç' antes de 'e' (Como é possível? Não é o único caso!), uma maiúscula sem sentido (por não iniciar frase nem dar conta de nome próprio) e uma junção gráfica do que devia estar separado (a falta de espaço é um mal geral, mas, na língua, dá aglutinações inusitadas). Erro, lapso ou engano é, em qualquer dos casos, uma absoluta inconveniência (que rima com incompetência) para uma empresa que se diz pautar pela qualidade. Da língua não é, por certo.

     No meio disto, apetece-me denunciar o contrato e ir para a concorrência. E das ofertas, diria que quem oferece em termos errados dá aos clientes brindes muito escusados (não há em toda uma empresa alguém com visão capaz de detetar a má imagem em que se coloca?!).


domingo, 28 de janeiro de 2018

Cores de um fim de domingo

       Na rapidez com que passa o fim de semana. 

    Do pouco tempo que houve para respirar em dois dias de merecido descanso (que devia ser sem trabalho), ficou um breve momento em que o colorido do fim de dia se mesclou com a depressão de que amanhã se regressa à azáfama (na qual já me deixo ir mais na onda do que no controlo do tanto que há para fazer):

Quadro natural, num fim de domingo junto ao mar... a trabalhar (Foto VO)

     O escuro anunciado da noite está para o pensamento depressivo de que segunda-feira está já aí;  as restantes cores estão para o dia de sol que findou, porque não há bem (por mais relativo que seja) que sempre dure.

      Espero que o resto do provérbio se cumpra: nem mal (também relativo que seja) que não se acabe (resta focar na sexta à noite que está para chegar).

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Grassa não tem graça

     Podia ser jogo de palavras, mas é mais do que isso. É constatação de vocabulário a dominar.

    Quando dizia hoje, numa aula, que "Grassa nos nossos dias o discurso da desgraça", uma aluna comentava que não percebia a frase; perguntava mesmo qual era a piada. Pedi esclarecimento para a questão formulada e a reação foi imediata: "Não há graça nenhuma na desgraça, pois não?"
     A oralidade tem destas coisas: representar uma palavra a partir do que se ouve e se (re)conhece, mesmo que tal não seja o que alguém diz. Confundir "grassa" com "graça" não é nada engraçado, mas, por vezes, até pode dar para rir. Contudo, o silêncio na turma era geral (fosse pelo reparo ao professor fosse porque ninguém percebia a "piada"). A forma verbal do verbo 'grassar' (alastrar, desenvolver, propagar) não foi sequer entendida, por ser frequentemente desconhecida por quem reduz ao máximo o léxico que usa (tão restrito quanto o verbo 'meter' dar para tudo, mesmo quando tal não é possível).
     Na homofonia dos termos, tornou-se previsível a reação discente, além de se constituir como uma oportunidade para se explicar a diferença das palavras, repondo uma coerência no enunciado dito que não foi (re)construída por quem o escutou.
      São vários os exemplos a que podia aqui recorrer (alguns dos quais foram já mencionados em apontamentos anteriores). O seguinte vem muito a propósito:

Exemplos homofónicos para toda a gente ver
     
     A escrita é bem mais facilitadora na distinção; a oralidade convoca uma semelhança sonora a todo o tempo causadora de problemas ortográficos. A falha na leitura é fator impeditivo de boas práticas de escrita e, também, na aquisição de vocabulário, é certo, embora muitos outros possam ser acrescentados. Grassa por aí uma multiplicidade de razões que, não tendo graça, muito tem a ver com a limitação lexical dos nossos jovens. 

     Mais vale cair em graça do que ser engraçado, diz o povo! Talvez o diga porque grassa por aí muita coisa sem graça nenhuma ou sem interesse absolutamente nenhum, mas que muitos julgam mais engraçada ou interessante do que o que realmente é (nada se aprendendo com ela).

domingo, 26 de março de 2017

Pensamento do dia (com frio e chuva)

     E para hoje,...

     ... nada como passear pelo Facebook e encontrar a imagem seguinte na página "O Sexo e a Idade":


     Concordo com o conteúdo.
     Quanto à forma, resta-me responder à letra:


     Não é embirração, mas a impressão de que, amanhã, vou voltar ao mesmo (isto porque 'água mole em pedra dura muito dá e pouco fura'). 

     Parece que a única coisa que mudou hoje foi mesmo a hora, para tornar a luz dos dias mais longa.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Provérbios...!

      São tão cultural e experiencialmente relativos quanto, às vezes, se desdizerem no que significam.

     Que o diga o "Quem espera...", a dar tanto para o "... sempre alcança" (na visão positiva) como para o "... desespera" (na versão negativa).
      Hoje apetece-me desconstruir o que a tradição impôs. Houve já quem dissesse / escrevesse que "Deus escreve torto em / por linhas direitas" (que heresia, santo Deus!) ou que "As mulheres não se medem aos palmos" (a bem de que não seja sempre o homem a representar a humanidade). Eu, por exemplo, já escrevi que "Mais vale mal acompanhado" (por razões óbvias)!
     Um pouco à semelhança de Chico Buarque, talvez o "Bom Conselho" esteja em ir contra a corrente que a nada conduz:

Chico Buarque, "Bom Conselho (1972)

BOM CONSELHO

Ouça um bom conselho 
Que eu lhe dou de graça 
Inútil dormir, que a dor não passa 
Espere sentado 
Ou você se cansa 
Está provado, quem espera nunca alcança 

Venha, meu amigo 
Deixe esse regaço 
Brinque com meu fogo, Venha se queimar 
Faça como eu digo 
Faça como eu faço 
Aja duas vezes antes de pensar 

Corro atrás do tempo 
Vim de não sei onde 
Devagar é que não se vai longe 
Eu semeio o vento 
Na minha cidade 
Vou pra rua e bebo a tempestade

      Inconformismo, cansaço, desilusão, alguma noção de perda de tempo (que não traz felicidade a ninguém) e alguma desistência, para ainda poder agir em função daquilo em que se acredita - e não do que a "ditadura da democracia" quer. Eis alguns motivos para que o silêncio se instale (ainda que este último às vezes signifique mais do que muitos discursos ou palavras, tornados ocos). Por isso é que (perdoe-me o graffiter!) tenho de reformular o provérbio:

Graffiti nas ruas de Alfama (Lisboa)

       Quem cala não deixa de querer mudar (e, por isso, nem sempre consente). E, assim, se vai construindo uma revolução silenciosa, nem que seja a de recriar a própria língua (afastando-a da sua zona de conforto ou de rotineira comunicação).

   Tenho dito, escrito e, quiçá, passado das palavras aos atos (silenciosos, antes que sejam silenciados)!

sábado, 14 de maio de 2016

Desconcerto(s) do(s) tempo(s)

     Camões tratou o tema do desconcerto do mundo na sua poesia. E lá teria as suas razões para o fazer.

      Talvez muito pouco tenha mudado desde aí, no que ao tema diz respeito.
     Continuam os "bons" a passar "grandes tormentos"; os outros a viver um mar de contentamentos. Nada de extraordinário, por certo, pois, na cadência da vida, sempre houve quem quis marcar um ritmo - desarmónico - e compor sinfonias - patéticas, por certo, porque a destempo, sem sentido e causadoras de algum sofrimento (para os ouvidos, e não só). Para mim, a música é outra, sempre mais voltada para o prazer melodioso que a cantiga do tempo me possa dar.
   Escreve o nosso poeta quinhentista que "Correm turvas as águas deste rio", metaforicamente sugerindo o curso da própria vida. E eis senão quando, ao ler o verso "Passou o verão, passou o ardente estio", uma nota explicativa de um manual de Português aponta para o significado de "estio" como sendo a primavera!!!!! Querem ver que a época estival passou a ser primaveril?! Espantoso!
  Muito recentemente, num programa televisivo, também houve quem quisesse mudar o sentido e a forma da palavra, paronimicamente associando 'estio' a 'estilo' e recriando um provérbio - que deixava de ser 'Dezembro frio, calor no estio' para passar a ter mais... estilo (* "Dezembro frio, calor no estilo"). Ora, agora, confronto-me com o manual a assumir que 'estio' é primavera. Consultando um dicionário (o Dicionário de Português da Priberam, por exemplo), lê-se que se trata da estação do ano intermédia à primavera e ao outono; noutro (Dicionário Online de Português), refere-se o verão, o tempo quente e seco ou, figurativamente, a idade madura (o estio da vida); um outro ainda (Infopédia - Dicionários Porto Editora), indica-se o verão e o calor. Fico-me pelos mais imediatamente acessíveis, sem desconsiderar a aprendizagem que há muitos anos recebi (na denominada 'escola primária', dos meus tempos). Ainda, assim, perante o insólito, fui confirmar o já sabido. É sempre preferível a deixar-me levar por certezas infundadas. Conclusão: era melhor que não se fizessem notas explicativas aos textos, quando particularmente elas induzem em erro e, portanto, nada esclarecem.
    Voltando ao citado texto camoniano, "Tem o tempo sua ordem já sabida; /o mundo, não". Concordo com o poeta quanto ao mundo. Do tempo, nem sei que diga, ainda que Camões não devesse saber que há quem queira, nestes tempos, ensinar a desordem do próprio tempo. Lá (não) terá (as suas) razão (ões) para tal!

       Em tempos de primavera a anunciar um estio, ora com dias de sol ora com a ameaçadora chuva, nem a primeira parece já o que foi; nem o segundo já querem que o seja.