segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Mais um de Marguerite Yourcenar

        Entre um histórico e um autobiográfico com muito que se lhe diga.

Edição lida, em tradução de Maria Lamas     
    É considerada uma das obras maiores da literatura do século XX, pela erudição da autora, pelo conteúdo da obra, pela grandiosidade humana, humanista e humanizadora da personagem central - um homem que foi grande no seu tempo (séculos I e II), a ponto de Yourcenar o retratar (nos apontamentos dedicados a Grace Frick, partilhados com o leitor no final do romance) da seguinte forma: "Se este homem não tivesse mantido a paz do mundo e renovado a economia do império, as suas felicidades e os seus infortúnios pessoais interessar-me-iam menos".
      Publicado em 1951, o romance Memórias de Adriano dá-se a ler num registo confessional e no formato de uma longa carta autobiográfica (ainda que imaginada e mediada pelas pesquisas da autora) cujo destinatário é o jovem Marco Aurélio. Será este o sucessor escolhido ("neto") para o império romano, preparado e acompanhado pelo fiel Antonino ("pai"). A narrativa cumpre um balanço da vida de Publius Aelius Hadrianus, desde as suas origens, à ascensão ao poder, aos seus amores, à sua visão do mundo. Contrariamente a outros imperadores assumidamente conquistadores, este revela-se um líder mais orientado para a paz, focado na manutenção das fronteiras do império e não propriamente na sua expansão. Tendo viajado largamente pelo território, na expressão de um domínio atento e empenhado em compreender os povos dominados, procurou manter um equilíbrio que não se identifica com a dominação brutal das conquistas expansionistas; antes com a afirmação da dimensão humana, espiritual e cultural.
       Enquanto obra a versar a consciência da doença e da morte, a reflexão sobre a passagem do tempo, a progressiva degradação do físico, as fragilidades e inseguranças da existência humana, bem como tudo o que de verdadeiro se deixa com a morte, estão assim assumidos os temas que pautam a intemporalidade e universalidade da obra, num exercício de inteligência da personagem (da autora ou de qualquer outro ser humano pensante) que reflete sobre si mesma num tempo em que a liberdade de pensamento não deixou de existir. A escritora belga chega a reconhecer, nos seus apontamentos, o interesse por uma vida e um tempo inspiradores: "Este século II interessam-me porque foi, durante muito tempo, o dos últimos homens livres. Pelo que nos diz respeito, estamos talvez já muito distantes desse tempo". Era o tempo em que já não se acreditava propriamente nos deuses romanos, com o Cristianismo ainda por se afirmar, a despertar apenas curiosidade - ou seja, um tempo de entremeio, de transição, com alguns sinais de liberdade necessários à descoberta e à construção da humanidade.  
Uma das grandes obras assumidas por Adriano (montagem e foto VO)
      O livro encontra-se organizado em seis par-tes, acompanhadas de apontamentos finais e de uma nota explicativa quanto à génese da escrita, distinguindo-se o que é facto e o que é ficcional na construção (da) históri(c)a. “Ani-mula vagula blandula” (Alminha errante, deli-cada) retrata o limiar entre a vida e a morte (“…eu começo a avistar o perfil da minha morte.”), expressando-   -se a tentativa de viver um dia após outro, sem medo nem agonia - a constatação da matéria de que o Homem é feito, perante as limitações que progressivamente o assolam; “Varius multiplex multiformis” (Diverso, múltiplo, multiforme) evidencia as origens (avô feiticeiro, pai, educação e formação na cultura e sociedade gregas, paixões, visão política, morte de Trajano e sucessão de Adriano ao poder); “Tellus stabilita” (Terra estabilizada) expõe o clima de instabilidade social e as medidas necessárias para a resolução (assassinato de quatro cônsules conspiradores, rejeição do título de “Pai da Pátria”, a proibição dos banhos mistos, fundição da baixela de ouro maciço e a sua introdução nos cofres do Estado, diminuição da quantidade de escravos da casa imperial, uso público da toga, visão do feminino, previsões para um futuro longínquo, sendo de destacar ideias tão atuais como: “Duvido que toda a filosofia do mundo consiga suprimir a escravatura: o mais que poderá suceder é mudarem-lhe o nome”; “Uma parte dos nossos males provém de haver demasiados homens excessivamente ricos ou desesperadamente pobres”); “Saeculum aureum” (Idade de ouro) é capítulo central do romance, no qual se dá conta da relação com o amado jovem grego Antínoo, a paixão do imperador, cuja morte trágica o marca de forma profunda, mostrando-se aí a sensibilidade de uma personalidade angustiadamente apaixonada, sofrida com a perda incompreendida; “Disciplina augusta” faz várias referências a Antínoo e à forma a perpetuar a sua lembrança no tempo, à revolução dos judeus e como esta foi abolida (Judeia cortada do mapa, passando a designar-se Palestina), à nomeação de Antonino como sucessor e Marco Aurélio como seu "neto"; “Patientia” (Paciência) consciencializa acerca da falta de forças para prosseguir, do desespero, da conformação face ao fim inexorável (tendo vivido de forma intensa e fervorosa e tendo conhecido vários aspetos do mundo terreno: o amor, a amizade, a fidelidade, a alegria…).
Outra das grandes obras de Adriano em Roma (montagem e foto VO)
    Uma narrativa fundada na recons-trução / recriação da verdade da História (ou, como diria Yourcenar: "Sucede com essa verdade o mesmo que com todas as outras: enganamo-nos mais ou menos") e uma autobio-grafia que poderá ter existido (mas não passa da máscara de um Narciso que se espelha na água bebida das fontes inspiradoras da autora) - este é um romance que propõe uma reflexão sobre os ideais e os limites de governação, sobre os sentidos de responsabilidade desse poder, sobre o alcance da ação humana e de como tudo é encarado não necessariamente pela perspetiva da glória ou da glorificação, mas pelo exercício frágil, submetido aos erros e aos enganos, com lugar à questionação e interrogações próprias da existência e da condição humanas. Desta forma, também se desafia a versão oficial da História, aproximando-a, quem sabe, de um real mais autêntico (porque do humano comum).
       Palavras finais: "Procuremos entrar na morte de olhos abertos..."

    Apaga-se, assim, a dimensão da personagem histórica para dar lugar ao indivíduo comum, dominado por uma sabedoria intemporal, transformando a história numa reflexão universal, misturada com erudição e humanidade. Fosse Zenão (ou Sebastião Théus), evocaria liberdade; é Adriano, tomo-o no poder da vida pela filantropia, pela cultura e pela humanidade.