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sábado, 15 de março de 2025

Fim de 'A Obra ao Negro'

    Aquele momento em que terminas um romance que te acompanhou anos.

   Foram quase dez. Diria que foi um arrastar de tempo para a leitura quanto o foi para a génese do romance (a bem da verdade nem tanto, já que este ocupou mais de trinta anos de escrita - entre 1934 e 1968 -, segundo a autora).
    Por isso, entre as várias reflexões lidas, a que mais me chamou a atenção, pela oportunidade e pela identidade, foi aquela do protagonista Zenão, no final do seu percurso, a assumir, perante o seu mestre, que

  "O homem é uma empresa que tem contra si o tempo, a necessidade, a sorte, a imbecil e sempre crescente primazia do número (...) Os homens hão de matar o homem."

   Nunca nada tão pertinente e coincidente com os tempos hodiernos, apesar de a réplica ser de personagem antiga, feita de traços que, em muito, relembram o pensamento de Erasmo de Roterdão, Leonardo Da Vinci, Paracelso, Copérnico, Giordano Bruno - homens perseguidos que marcaram a Humanidade e que, desde o final da Idade Média até ao Renascimento, sublinharam um sentido de liberdade, de saber e de espírito crítico que só alguns outros, livres, isentos e descomprometidos do poder ou do lugar que ocupam, poderiam compreender. Diria que são homens demasiado avançados para o tempo em que viveram.
    Num imaginário de ideal humanista, Zenão, um clérigo tornado filósofo, médico e alquimista, partilha muito do seu conhecimento num percurso de vida errante, com as suas atividades científicas, as suas publicações, bem como o seu espírito crítico a desafiarem o poder da Igreja. Sob nome falso, desenvolve o que o preconceito, o ocultismo e os poderes legitimados do tempo não permitiram. Nas conquistas que faz e no reconhecimento que tem, perde a possibilidade de prosseguir, por efeito colateral de um escândalo, a ponto de ser preso, julgado pela Inquisição e condenado à fogueira.
     Nas três partes da obra romanesca (A vida errante; A vida imóvel; A prisão), Marguerite Yourcenar constrói Zenão (Sebastião Théus) como homem curioso, inteligente; ser que procura, mas não pode apresentar a verdade que domina entre os seus contemporâneos; filósofo que assume a liberdade (se esta existir, quando alguém se encontra natural ou contextualmente condicionado) de decidir o momento e o local do fim (enquanto porta a abrir-se para a inconsciência, afastada dessa consciência marcada por ostracismos, injustiças e perseguições). 

     Segundo tratados alquímicos, A Obra ao Negro é expressão para a fase de separação e dissolução, que era, diz-se, a parte mais difícil da Grande Obra. Com o romance, resulta em título para também indiciar experiências audaciosas, encaradas por muitos como excessivas sobre a própria matéria, as provações do espírito quando o propósito é o de livrar o mundo de rotinas estéreis, de ideias feitas e repetidamente inúteis, com o intuito de se alcançar o bem comum.

sábado, 1 de janeiro de 2022

Primeiro filme do ano com uma das Brontë

     O ano 2022 entrou e foi tempo para relembrar a obra-prima de Charlotte Brontë.

   Na lista da Netflix figurava o título Jane Eyre - homónimo do romance da literatura romântica inglesa (vitoriana) na linha da narrativa pessoal, isto é, da evolução de uma personagem chamada Jane Eyre. Foi esta a escolha para abrir o ano em modo cinema televisivo.
   Pode mesmo falar-se, a partir da narrativa em que o filme se baseia, de uma busca de "personal fulfillment" no percurso de uma personagem desde os seis aos vinte / trinta anos. A obra assenta na estrutura básica de uma viagem, referenciando cinco espaços perfeitamente distintos da zona de Yorkshire, a corresponder a fases distintas da vida da protagonista: Gateshead (criança), Lowood (menina e adolescente), Thornfield (jovem precetora da protegida de Rochester, Adele Varens), Marsh ou Moor End (mulher em processo de resolução) e Ferndean (mulher assumidamente adulta, autónoma).
    A representação fílmica, numa versão de 2011, reflete esse percurso de afirmação da narrativa em primeira pessoa. Provam-no os grandes planos iniciais focados em Jane, num enredo protagonizado por Mia Wasikowska (Jane Eyre) e Michael Fassbender (Edward Rochester):

Trailer da versão fílmica de 2011, realizada por Cary Joji Fukunaga

    Sem a natural obediência à obra de Brontë (nalguns dos seus pormenores) - conforme à expressão própria de cada uma das peças de arte -, não deixa de se rever na produção fílmica a afirmação do feminino que Jane Eyre simboliza face ao mundo e poder dominador masculinos, de Edward Rochester (que cai do cavalo; se vê impedido de se regenerar, de recompor a sua felicidade com um segundo casamento; acaba cego, depois de ver a sua casa destruída), do Sr. Brocklehurst (encarado na sua frigidez, no diabolismo punitivo, na orientação religiosa do metodismo) ou de St. John (a quem Jane muito quer apenas como irmão e, por isso, o recusa, quando ela é pedida em casamento). Confronta-se razão (o mundo realista do comportamento e das convenções sociais) com o sentimento (o mundo sentimental da consciência passional). Explora-se a dimensão do romance gótico (na apresentação da 'red room', em Gateshead; no aparecimento progressivo de Rochester, no primeiro encontro em Thornfield; a existência de Bertha Mason, no sótão; os incêndios e a destruição de Thornfield). Recria-se a imagética da cor e dos elementos naturais da água, do fogo e do ar.

     Termina o filme com a recuperação da relação Jane-Rochester; a obra, com uma afirmação associada à fé e ao espírito de St. John (a expressão da espiritualidade romântica). Sem o romantismo oitocentista, também é preciso ter fé que este ano venha a ser melhor do que o anterior. No início, entre a fé e a esperança - é o que nos resta  considerar para o caminho a fazer.

domingo, 31 de outubro de 2021

A ver se não caio... na perdição.

       Catorze anos depois, regresso à apresentação de um livro.

      Convite feito quando só havia título. Imediatamente aceite. Não podia ser de outra forma. Nem de profecia se tratava; apenas de confiança e amizade.
     Aconteceu ontem, com a publicação do novo romance do Manuel Maria. Dia 30 de outubro, ou melhor, 30 do 10, para se começar a compreender melhor a presença de tanto múltiplo de cinco: um título com cinco palavras (começado com "Quinto..."), vinte e cinco capítulos, cinco anos a separar a referência a uma carta de Vieira datada de 1658 (a abrir a história) e a citação de uma outra de 1663 (no final da narrativa), o quinto romance do autor... no ano de 2021 (cuja soma dos algarismos também dá cinco). A não ser coincidência, nem sei que diga! 
      Segundo o Tarot, é número de espiritualidade, de comunicação e comunhão, de evocação e descida do sagrado sobre o material; um aviso espiritual que deve encontrar eco no plano físico; um apelo para a libertação da matéria. Eis o mito do Quinto Império e o protagonismo de Vieira.

Da esquerda para a direita: o editor, o apresentador, o autor e o representante da Junta de Freguesia
 - Auditório Horácio Marçal, em Paranhos (Foto DG)

       Quinto império - Profecia de Perdição é romance para ler em tempos como os da atualidade, onde os valores de tolerância e respeito pela diferença, conquista de liberdade, fraternidade, afirmação de vontade e de amor, luta pelo bem são para firmar, no garante da própria dignificação humana.
        No exemplo que o protagonista dá e no percurso que faz, há as duas faces da moeda: a do ideal pelo qual pugna, mais a da negação a que o votam, na traição que perversamente constroem. De um lado, António Vieira; do outro, os que supostamente estariam consigo na cor, no pensamento e na missão, mas cuja fé foi mais movida por interesses e jogos de poder bem diferentes. No desconcerto e nas intrigas mundana(i)s destes últimos, resistiu o ideário congregador do autor da História do Futuro, feito da comunicação e comunhão que muitos não quiseram entender e destas se distanciaram.
       Nas caras e nas  máscaras descobre-se a utopia pretendida, apenas seguida pelos que têm espírito livre e convicção de princípios. Os que se regem pela vontade.
      Personagens de bem cruzam-se no(s) mar(es) da vida, sem  esquecer que nele(s) há ondas revoltas e naufrágios; tempestades a colocar em risco império(s) de humanidade. Entre o Brasil e Portugal, no seio de um tempo que convive com o sagrado e o profano, com a frivolidade e a afetação do teatro da vida, Vieira vive a defesa de um sonho que parece não ser o da sua terra nem o dos seus superiores:

   Quem havia de crer que em uma colónia chamada de portu-gueses se visse a Igreja sem obediência, as censuras sem temor, o sacerdócio sem respeito, e as pessoas e lugares sagrados sem imuni-dade? Quem havia de crer que houvessem de arrancar violentamente de seus claustros aos religiosos, e levá-los presos entre beleguins e espadas nuas pelas ruas públicas, e tê-los aferrolhados, e com guardas, até os desterrarem? Quem havia de crer que com a mesma violência e afronta lançassem de suas cristandades aos pregadores do Evangelho, com escândalo nunca imaginado dos antigos cristãos, sem pejo dos novamente convertidos, e à vista dos gentios atónitos e pasmados? Quem havia de crer que até aos mesmos párocos não perdoassem, e que chegassem aos despojos de suas igrejas, com interdito total do culto divino e uso de seus ministérios: as igrejas ermas, os batistérios fechados, os sacrários sem sacramento enfim, o mesmo Cristo privado de seus altares, e Deus de seus sacrifícios? Isto é o que lá se viu então: e que será hoje o que se vê, e o que se não vê. Não falo dos autores e executores destes sacrilégios, tantas vezes, e por tantos títulos excomungados, porque lá lhes ficam papas que os absolvam. Mas que será dos pobres e miseráveis Índios, que são a presa e os despojos de toda esta guerra? Que será dos cristãos? Que será dos catecúmenos? Que será dos gentios? Que será dos pais, das mulheres, dos filhos, e de todo o sexo e idade? Os vivos e sãos sem doutrina, os enfermos sem sacramentos, os mortos sem sufrágios nem sepultura, e tanto género de almas em extrema necessidade sem nenhum remédio? (cap. X, pág. 59)

     Perante tanto desconcerto, a saída e a salvação têm de ser reafirmadas - e aí cabe falar da felicidade, da utopia, do ideal a atingir (libertos do enleio que a terra cria).
    Nas linhas do romance cosem-se expectativas e frustrações, libertação e prisão, castigo e perdão - porque no jogo da vida há sorte e azar, felicidade(s) e tristeza(s), ilusões e desilusões que só o tempo pode curar (seja no sentido de corrigir seja no de conservar - com o "sal da terra", talvez, para usar uma expressão do nosso orador seiscentista).

     Desafio(s) - o que Vieira quis assumir, enfrentar, confrontar; o que o autor construiu na obra que quis criar e me deu a honra de apresentar.

domingo, 17 de outubro de 2021

E vão cinco... (e uns quantos mais deles!)

      Número a propósito do que está para vir (esperemos que seja mais profecia e menos perdição).

   Segundo o Tarot, nas cartas dos arcanos maiores, o cinco corresponde à figura de 'O Papa'. O simbolismo do número, na decomposição de um 4+1, sugere uma ação unitária que dirige as forças materiais; com 2+2+1, uma mediação entre duas fecundidades (a Papisa, na repetição do gérmen, sem esquecer a unidade); com 2+3, uma conjugação de energias (as da Papisa e da Imperatriz, respetivamente), combinando a fecundação de ciclos, de forças mentais associadas à comunicação e comunhão. É uma carta espiritual que evoca a descida do sagrado sobre o material; um aviso espiritual que deve encontrar eco no plano físico; um apelo para a libertação da matéria.
      Talvez um pouco de tudo isto venha a ser Quinto Império: Profecia de Perdição:

Convite para o lançamento público do romance de Manuel Maria

       Mais uma história que deu em livro, diria, parafraseando, grosso modo, um outro título do escritor (com tempo / modo verbal distintos). 
      E quanto à apresentação, acrescento que isso serão 'Contas de um outro Rosário'!
     Por ora, mais não escrevo para que fique algo para dizer proximamente (dia 30 de outubro, pelas 15:30, no Auditório Horácio Marçal - Paranhos), aquando da apresentação deste romance - o quinto do autor (e com cinco palavras no título), que tem tanto de histórico como de ficcional. 

Estudo da capa e contracapa do romance

     Assim o construiu Manuel Maria: como narrativa que recupera Pre. António Vieira da sua senda histórico-biográfica para uma dimensão nova, a de um universo em que a personagem se cruza com Adão e Eva, sem que estas últimas sejam necessariamente bíblicas.

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Uma releitura de 'O Carteiro de Pablo Neruda'

       Termino o mês com um recomeço... de leitura.

     Refiro-me à releitura de uma obra que li há já muitos anos, depois de, muitos mais ainda, ter assistido a um filme que apreciei bastante. O título do filme era homónimo da obra (O Carteiro de Pablo Neruda), mas as semelhanças são poucas no que ao enredo diz respeito. Entre pormenores aqui e além bem distintivos (o nome do protagonista, a localização temporal e espacial, a relação familiar Rosa-Beatriz, o percurso de Pablo Neruda, o contexto político representado), o final do livro nada tem a ver com o do filme realizado por Michael Radford (com mortes bem distintas).
      Uma outra adaptação cinematográfica pode ser encontrada na realização de Antonio Skármeta - uma versão mais fiel à obra e ao contexto chileno representado. Curiosamente, esta versão cinéfila acontece em Portugal (entre a zona da Figueira da Foz e Mira), aquando do exílio do autor por terras lusas. 

Versão fílmica apresentada na Alemanha em 1984 (a partir do roteiro de Antonio Skármeta)

        Desta feita, apoiando-me mais no livro e menos nos filmes, o prólogo chamou-me mais a atenção, destacando-se o anúncio da linha progressiva da intriga (do entusiasmo à profunda depressão), da "geografia erótica do poeta" (e não só), da identificação do herói, do tempo gasto na produção escrita (catorze anos), da fronteira de ficção e de realidade (tanto no contexto político representado como nas personagens construídas). São janelas e portas de entrada na leitura do designado ora romance ora novela, segundo classificação do próprio António Skármeta, escritor agraciado com prémios literários de renome (Prémio Internacional de Literatura Bocaccio e o Prémio Nacional de Literatura do Chile).
         De resto, foi a oportunidade de relembrar o há muito conhecido incipit da obra:

    Em Junho de 1969 dois motivos tão afortunados como triviais levaram Mário Jiménez a mudar de ofício. Primeiro, o seu desamor pelas lides da pesca que o arrancavam da cama antes do amanhecer, e quase sempre quando sonhava com amores audaciosos, protagonizados por heroínas tão abrasadoras como as que via no écran do cinematógrafo de San Antonio. Este talante, juntamente com a sua consequente simpatia pelas constipações, reais ou fingidas, com que se escusava em média todos os dias a preparar os apetrechos do bote do seu pai, permitia-lhe retouçar debaixo das nutridas mantas chilenas, aperfeiçoando os seus oníricos idílios, até o pescador José Jiménez voltar do mar, encharcado e faminto, e ele aliviava o seu complexo de culpa preparando-lhe um almoço de estaladiço pão, sediciosas saladas de tomate com cebola, mais salsa e coentros, e uma dramática aspirina que engolia quando o sarcasmo do seu progenitor o penetrava até aos ossos:
      - Arranja trabalho. - Era a concisa e feroz frase com que o homem concluía um olhar acusador, que podia durar até dez minutos, e que de qualquer modo nunca durou menos de cinco.
       - Sim, pai - respondia Mario, limpando as narinas com a manga do colete.
     Se este motivo foi o trivial, o afortunado foi a posse de uma alegre bicicleta marca Legnano, valendo-se da qual Mário trocava todos os dias o diminuto horizonte da calheta dos pescadores pelo quase mínimo porto de San Antonio, mas que em comparação com o seu casario o impressionava como faustoso e babilónico. A simples contemplação dos cartazes do cinema com mulheres de bocas turbulentas e duríssimos parentes de havanos mastigados entre dentes impecáveis, deixava-o num transe do qual só saía após duas horas de celulóide, para pedalar desconsolado de volta à sua rotina, às vezes sob uma chuva marítima que lhe inspirava épicas constipações.

      Ao longo de O carteiro de Pablo Neruda, cruzam-se os sonhos e as expectativas de Mario Jiménez com a descoberta do poder das palavras, das metáforas e da poesia, para quem delas precisa. Acresce a aprendizagem e a conquista da amizade (com Pablo Neruda) e do amor (por Beatriz). A par destes ingredientes, há também o retrato político da década de 70 no Chile, assim como a recriação da vida política e poética de Pablo Neruda, o Nobel da Literatura no ano de 1971.
    Entre a luta contra um confinamento ou determinismo social a que o protagonista parecia votado e a afirmação do sentido poético da vida, respira-se nas páginas da narrativa a vontade da libertação, que aparece ameaçada no final do livro (com o golpe militar e a revolta política; a deslocação do poeta até à janela para ver o mar agitado; a doença e morte de Neruda; o controlo e a "prisão" de Mario).

    Uma obra que apela ao sentimento, à ousadia e ao humor, à plasticidade da língua (entre os registos mais coloquiais, familiares e os poéticos), à consciência política que (pode) traz(er) o perigo de uma agitação coletiva.

sexta-feira, 20 de março de 2020

Sinto-me engolido pelo "Sétimo Reino"

       Não sei bem porquê, tenho andado a recuperar muito do que li com Dan Brown.

      Desta vez, relembro Origem (2017), cuja leitura concluí há cerca de dois anos. Recordo desde logo a epígrafe do livro: "Temos de estar dispostos a abandonar a vida que tínhamos planeado para podermos ter a vida que nos espera" (Joseph Campbell). Atendendo às mudanças drásticas dos últimos dias, até parece ajustar-se a um reconhecimento das mudanças que se impunham e ninguém cumpria. Talvez, hoje, se diga que é mais a constatação de que nada somos, quais "fracos humanos" submissos às forças (mais ou menos ocultas) do universo.
       Uma destas parece ser a do "sétimo reino", que se impõe, nomeadamente no contexto de trabalho à distância a que muitos estão votados (e cada vez mais eu).
       Edmond Kirsch, personagem fulcral da narrativa mencionada, assim o explicita na fase final do livro:

     "De acordo com a simulação de Edmond, a raça humana seria engolida por uma nova espécie ao longo das décadas seguintes. E o mais assustador é que aquela espécie já se encontrava a viver na Terra, desenvolvendo-se silenciosamente.
      - Obviamente - continuou a voz de Edmond -, não podia divulgar esta informação enquanto não pudesse identificar esta nova espécie. De modo que me embrenhei nos dados. Depois de incontáveis simulações, fui capaz de identificar o misterioso recém-chegado.
     O ecrã refrescou com um diagrama simples que Langdon reconheceu da escola primária, a classificação taxonómica dos seres vivos, dividida em "Seis Reinos": Animalia, Plantae, Protista, Eubacteria, Archaebacteria, Fungi.
     - Depois de ter identificadoo este florescente novo organismo, percebi que tinha formas demasiado diversas para ser denominado em espécie. Em termos taxonómicos, era demasiado amplo para ser denominado uma ordem ou mesmo um filo. - Edmond olhou diretamente para a câmara - compreendi que o nosso planeta era agora habitado por algo muito maior. Algo que só poderia ser considerado como um novo reino.
       De súbito, Langdon percebeu o que Edmond estava a descrever.
        O Sétimo Reino.
        (...)
        Era um reino formado por espécies não vivas.
    Estas espécies desprovidas de vida evoluíam praticamente da mesma forma que as vivas - tornando-se gradualmente mais complexas, adaptando-se e propagando-se para novos ambientes, algumas sobrevivendo, outras extinguindo-se. Um exemplo perfeito de modificação adaptativa darwiniana, estas novas criaturas tinham-se desenvolvido a uma velocidade estonteante e formavam agora um reino totalmente novo, o Sétimo Reino, que ocupava o seu lugar ao lado do Animalia e dos restantes.
       Recebera já o nome de
Technium."
in op. cit., Bertrand Editora, 2017, pp. 489-490

    É neste mundo de inteligência artificial que me vejo absorvido. Entre mim e os outros só as máquinas (computadores, telemóveis,...) parecem fazer ponte. Eu que estaria mais para um dos seis reinos vejo-me no sétimo, numa dependência que não me agrada; como se o mundo não existisse lá fora. Vejo-o pelo que o universo tecnológico me dá a ver.
       Não pode ser.  
    Não quero que as janelas e varandas da casa deem lugar às janelas de um programa, de um aparelho confinado a duas placas retangulares e a um teclado. O mundo redondo que está lá fora não se enquadra com as linhas geométricas do Sétimo Reino. Este não me dá o ar nem o céu, nem o molhado da água do mar. Nem me dá as pessoas, no que delas possa cheirar e tocar.
       Tudo por causa de um vírus que ameaçadoramente suga a vida a milhares e que teima em deixar-nos cada vez em maior recolhimento, isolamento, quase clausura.

      Não sei qual é a vida que nos espera. Ficar sentados à espera do que esta nos possa trazer é algo que ainda se vai procurando contrariar. Quanto mais não seja, alimenta-se a esperança de que outros e melhores dias virão - o espírito humano tem de ultrapassar os limites da crise.

sábado, 14 de março de 2020

Já vi ou li isto algures…

      E agora que alguma da nossa vida fica como suspensa, revisita-se uma leitura.

     Chega aquele momento em que te lembras de ter lido uma passagem de um livro de ficção tão cheio de realidade! Na altura, era tudo tão carregado de referências históricas, culturais e científicas que chegava a duvidar se haveria presente ou futuro para reconfirmar o que acabava de ler:
Capa do romance Inferno
de Dan Bown (2013)
     "Langdon tentou afastar da sua mente as imagens da peste, mas não conseguiu. Sempre quisera saber como fora aquela cidade [Veneza] incrível no seu auge... antes de a peste a ter enfraquecida o suficiente para poder ser conquistada pelos otomanos e depois por Napoleão... quando Veneza reinara gloriosamente como o centro comercial da Europa. Dizia-se que não havia cidade mais bonita no mundo, que a riqueza e a cultura da sua população não tinham precedentes.
      Ironicamente foi o gosto da população por luxos estrangeiros que levou à sua queda - a peste mortal viajara da China para Veneza nas ratazanas transportadas nos navios comerciais. A mesma peste que dizimou uns abismais dois terços da população da China chegou à Europa e rapidamente matou um em cada três - jovens e velhos, ricos e pobres.
       Langdon lera descrições da vida em Veneza durante os surtos da peste. Com pouca ou nenhuma terra seca onde enterrar os mortos, os cadáveres inchados flutuavam nos canais, com algumas áreas tão densamente cheias de corpos que os trabalhadores tinham de os empurrar para o mar. Não havia orações que conseguissem diminuir a ira da peste. Quando as autoridades municipais perceberam que eram as ratazanas que estavam a causar a doença, já era demasiado tarde, mas Veneza ainda decretou que todos os navios recém-chegados tinham de ancorar no mar durante quarenta dias antes de serem autorizados a descarregar. Até hoje o número quarenta - quaranta em italiano - serve como lembrete sombrio das origens da palavra quarentena."
in Inferno, Bertrand Editora 2013, pág. 360

     O passado veste-se de presente e inquieta. O excerto é tão oportuno e coincidente com o que se vive hoje! É como se o Covid-19 fosse mais um exemplo da peste que veio dos finais da Idade Média, onde não faltam as máscaras - podiam ser as do Carnaval de Veneza, que, afinal, tudo tiveram a ver com a Peste Negra:
Máscara veneziana
      Langdon explicou rapidamente que, no seu mundo de símbolos, a única forma de máscara com um bico comprido era quase sinónimo de Peste Negra -  a peste mortífera que grassou na Europa no século XIV, matando um terço da população em algumas regiões. A maior parte das pessoas acreditava que a designação da peste como "negra" era uma referência ao enegrecimento da carne das vítimas por causa da gangrena e das hemorragias subepidérmicas, mas na verdade a palavra negra era uma referência ao profundo terror que a pandemia espalhou entre a população.
       - Essa máscara com um bico comprido - disse Langdon - era usada pelos médicos que tratavam a doença na época medieval, a fim de manter a pestilência longe das suas narinas enquanto cuidavam das pessoas infetadas. Hoje em dia, só são usadas durante o Carnaval de Veneza... uma lembrança sinistra de um período sombrio na história da Itália."
idem, pág. 63

     Não vou dizer que a obra Inferno, de Dan Brown, foi premonitória face ao tempo presente; mas que há coincidências demasiadas da contemporaneidade com a época histórica mencionada... isso é inegável.

sábado, 7 de março de 2020

Cinco Palavras de António Vieira

     Título de um novo romance de Manuel Maria, um livro à guarda do tempo na ânsia de o poder ler.

    Fossem cinco as palavras! São muitas mais, impressas em páginas que, à semelhança de outras publicações já produzidas e a julgar por outras histórias que já deram livros (também eles com títulos de cinco palavras), merecem leitura atenta.
    Um amigo lança um romance, uma amiga apresenta-o, outros amigos assistem e um rosto impõe-se aos olhos de todos e muitos mais, bem presentes, de todas as idades. Muitos vão reparando na capa, folheando o que o autor sublinha ser uma obra de ficção, com a seiva da História, da Literatura e da(s) Humanidade(s) e de uma personalidade, tão nacional como do mundo, colocada no centro da narrativa.
     Com a chancela da editora "Lugar da Palavra", a Biblioteca da Escola Secundária de Gondomar foi o ponto de encontro para sorrisos, afetos e saberes partilhados, numa fraternidade também construída com palavras ditas e escritas (tais como as do missionário jesuíta que é dado a ler).
      Padre António Vieira, orador e prosador, revive nas linhas agora escritas e expostas a um público leitor que precisa de conhecer mais do homem, do tempo e da visão do mundo seiscentista, para nele perscrutar um ideólogo do "novo mundo", um profeta, um fundador de mitos futuros feitos de fraternidade, de uma espiritualidade e de uma união de povos, etnias e línguas (das mais eruditas às vulgares). Trata-se de um pensador na vanguarda de um tempo no qual os ladrões já se multiplicavam; a cor da pele distinguia colonizadores de colonizados ou determinava a condição de dono e a de escravo; as línguas eram também confrontadas com preconceitos (como os da língua de cultura e erudição face aos linguarejares índios e negros).
     O "Pai Grande" (Payassu) foi dos primeiros a reconhecer a diferença, a tolerância nos homens e no que os define; a defender um sentido de miscigenação dos idiomas, numa legitimação tanto do culto "pulcro" como dos registos comuns do "belo" ou do "bonito", para não falar das sonoridades escutadas em todas as cores da ação missionária. A aproximação fazia-se, então, a um Quinto Império (com um Papa "angelicus" e um imperador cristão), abraçando judeus, cristãos, muçulmanos numa espécie de paraíso, a construir em vida entre os homens e não a doutrinar como prémio a alcançar depois da morte (atualidade tão inquestionável).
      Se o Homem é a língua que usa, na composição caleidoscópica de Vieira - orador, escritor, pensador, humanista, diplomata, político, "influencer" de um tempo pleno de teatralidade na vida ou de vida tão feita de teatro -, firmaram-se a multiplicidade e a multimodalidade do Português, que também é voz, face, gesto, grafia e "História de Futuro".  

     "Não é tudo isto verdade?" Eis as cinco palavras que Manuel Maria relembra, reproduz, repete, reforça para a (re)descoberta de um homem e de uma obra de tempos. Outros certamente virão (mas estes serão... Contas de um outro rosário). Ainda bem!

domingo, 1 de março de 2020

Amor de Perdição (versão compacta)

       O filme é antigo (1943), a preto e branco, mas ainda com a cor e o tom cómicos da atualidade.

      A versão fílmica aqui apresentada é um compacto para dar a conhecer a intriga geral de uma história que, enquanto narrativa a ser lida no ensino secundário (11º ano), está mais desarticulada nas orientações programáticas da disciplina de Português do que qualquer outra forma de encontrar algum fio condutor para a obra camiliana dos programas de Português - Secundário.
     O melhor é sempre ler o livro na íntegra. A ter que dar alguns textos soltos, ao menos que se perceba em que sequência da ação narrativa se encontra o excerto a abordar.
     Apresentar a estrutura global da obra, por exemplo, é sempre um ponto de referência para qualquer localização do segmento a ler:

Slide 1: a estrutura global da obra Amor de Perdição
(Powerpoint acerca da narrativa camiliana) 

Slide 2: o título e subtítulo da obra camiliana
(Powerpoint acerca da narrativa camiliana) 

      A estratégia de ver o filme (numa das suas versões, na íntegra ou em compacto) permitirá enquadrar a leitura de qualquer excerto narrativo na intriga, na consideração do que acontece antes / depois do texto lido. Vai neste sentido o compacto proposto.

Compacto fílmico de Amor de Perdição 
(na versão cinematográfica de 1943)

        Entre os vários aspetos que possam ser focados no visionamento, sugerem-se os seguintes:
     a) a evolução do comportamento no protagonista Simão;
     b) a construção romântica do par Simão - Teresa;
    c) o discurso epistolográfico na construção da intriga (qual carta, de quem, para quem, qual propósito comunicativo, que referências deíticas associadas à sua produção escrita); 
     d) o(s) sentido(s) de vida representado(s) no percurso dos protagonistas;
     e) força(s) opositora(s) na vivência dos protagonistas.

      Relacionar o que foi visto com a leitura de uma ou duas das cartas dos protagonistas na relação amorosa (Simão-Teresa) é uma extensão natural da proposta c), tomando o género e formato textual como marca relevante da incidência romântica da obra.

       Mais do que romântica, diria mesmo ultrarromântica - num excesso que resulta em paródia, se for considerada a dimensão interartística que resulta do visionamento de uma versão cinéfila dos anos vinte do século passado

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

No dia seguinte...

      Depois do momento ontem vivido na conferência-concerto multimédia "O Violino de Auschwitz", folheei O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984).

    Perante um tempo com o qual não se identifica ideologicamente, o narrador do romance saramaguiano relembra a estátua de Camões e como esta não tem um, mas os dois "olhos cegos", fechados perante uma realidade histórica que não merece contemplação - nem a portuguesa nem a europeia:

       Se estas são mágoas de uma pessoa, a Portugal, como um todo, não faltam alegrias. Agora se festejaram duas datas, a primeira que foi do aparecimento do professor António de Oliveira Salazar na vida pública, há oito anos, parece que ainda foi ontem, como o tempo passa, para salvar o seu e o nosso país do abismo, para o restaurar, para lhe impor uma nova doutrina, fé, entusiasmo e confiança no futuro, são palavras do periódico, e a outra data que também diz respeito ao mesmo senhor professor, sucesso de mais íntima alegria, sua e nossa, que foi ter completado, logo no dia a seguir, quarenta e sete anos de idade, nasceu no ano em que Hitler veio ao mundo e com pouca diferença de dias, vejam lá o que são coincidências, dois importantes homens públicos. E vamos ter a Festa Nacional do Trabalho, com um desfile de milhares de trabalhadores em Barcelos, todos de braço estendido, à romana, ficou-lhes o gesto dos tempos em que Braga se chamava Bracara Augusta, e um cento de carros ornamentados mostrando cenas da labuta campestre, ele as vindimas, ele a pisa, ele a sacha, ele a escamisada, ele a debulha, e a olaria a fazer galos e apitos, a bordadeira com os bilros, o pescador com a rede e o remo, o moleiro com o burro e o saco da farinha, a fiandeira com o fuso e a roca, com esta faz dez carros e ainda hão-de portugueses, um deles, ainda assim, ilustrou a notícia com uma fotografia da praça, onde se viam, espalhados, alguns corpos, e uma carroça que ali parecia incongruente, não se chegava a saber se era carroça de levar ou de trazer, se nela tinham sido transportados os touros ou os minotauros. O resto soube-o Ricardo Reis por Lídia, que o soubera pelo irmão, que o soubera não se sabe por quem, talvez um recado que veio do futuro, quando enfim todas as coisas puderem saber-se. Lídia já não chora, diz, Foram mortos dois mil, e tem os olhos secos, mas os lábios tremem-lhe, as maçãs do rosto são labaredas. (...)
      Os dias seguintes são pródigos em notícias, como se o comício do Campo Pequeno tivesse feito redobrar o movimento do mundo, em geral damos o nome de acontecimentos históricos a estes episódios. Um grupo de financeiros norte-americanos comunicou ao general Franco estar pronto a conceder os fundos necessários à revolução nacionalista espanhola, isto há-de ter sido ideia e influência de John D. Rockefeller, nem tudo seria conveniente esconder-lhe, deu o New York Times a informação do levantamento militar em Espanha com todas as cautelas para não ferir o coração debilitado da ancião, mas há coisas que não podem ser evitadas, sob pena de males maiores. Para os lados da Floresta Negra, os bispos alemães anunciaram que a igreja católica e o Reich iriam combater ombro com ombro contra o inimigo comum, e Mussolini, para não ficar atrás de tão belicosas demonstrações, deu aviso ao mundo de que poderá mobilizar em pouco tempo oito milhões de homens, muitos deles ainda quentes da vitória sobre esse outro inimigo da civilização ocidental, a Etiópia. Mas, regressando ao ninho nosso paterno, já não é só sucederem-se as listas de voluntários para a Mocidade, contam-se também por milhares os inscritos na Legião Portuguesa, que este nome terá, e o subsecretário das Corporações lavrou um despacho em que louva, nos termos mais expressivos, as direcções dos sindicatos nacionais pela patriótica iniciativa do comício, crisol onde se acadinharam os corações nacionalistas, agora nada poderá travar o passo do Estado Novo.
(segmento XIV do romance)

      Na ironia de que se compõe o discurso narrativo, há todo um contexto que se revê no ano da morte do heterónimo pessoano (1936), enquanto pano de fundo para o "ovo da serpente", gerador de uma política agressiva, de um autoritarismo que se difunde no continente europeu, lançado numa espécie de labririnto ou teia composta pela guerra civil espanhola, pela ocupação de territórios pela Alemanha nazi, pelo fim da guerra da Itália contra a Etiópia e pela constituição de milícias fascistas em Portugal (com Salazar e a Legião Portuguesa).

       Ecos de um tempo em que, ao contrário do que Ricardo Reis afirma numa das suas odes, "Sábio [não] é o que se contenta com o espetáculo do mundo!"

domingo, 20 de janeiro de 2019

Pelo andar da carruagem

       Pelo jeito que a coisa vai...

     Expressões sinónimas, por certo; mas com o termo "carruagem" há uma identidade da primeira com este blogue que a segunda expressão não tem. 
      Por mais impressiva que seja a situação, deve ser o resultado de uma visita ao Museu Nacional dos Coches (em Belém), depois de ter visto tanta carruagem, coche, berlinda, coupé, sege, liteira, cadeirinha, vitória, phaeton, landau, clarence, charabã, milords, caleça, carrinha, mala-posta... uma vasta coleção de viaturas hipomóveis usada em cortejos de gala ou eventos sociais relacionados com a arte da cavalaria e jogos equestres.
     Muitos foram os exemplares observados neste novo edifício aberto ao público há cerca de três anos, segundo o projeto arquitetado pelo brasileiro Paulo Mendes da Rocha (prémio Pritzker em 2006) em parceria com o arquiteto português Ricardo Bak Gordon.
      Enquanto a guia explicava, apaixonadamente, as características de cada um dos coches expostos e a evolução ocorrida nos transportes ao longo dos séculos, surgia a indicação do significado original da expressão "Pelo andar da carruagem": à medida que a carruagem se aproximava, os observadores locais deduziam acerca da importância, da posição ou da origem social de quem ia dentro dessa carruagem. Seja pelos materiais de construção seja pela quantidade de cavalos que a puxavam, a carruagem era um indicador de quem nela se transportava (rei, rainha, príncipes, nobre, patriarca,...).

Dos sécs. XVI ao XVIII - coches para todo o gosto (Foto VO)

      O acervo museológico contempla dos coches mais antigos do mundo, como o de Filipe II (III de Espanha) ao fundo da foto, aquando da sua viagem de Madrid para Lisboa, em 1619. A designação do transporte ('kocsi' ou 'koci') está relacionada com a cidade húngara de Kotze, origem da construção dos primeiros modelos, posteriormente exportados para Itália, bem como para todas as cortes europeias.
     O nome do Mâgnimo associa-se a vários modelos aparatosos, um dos quais no primeiro plano da foto supra à direita (Coche da Coroa). Este meio de transporte, embora destinado à realeza e às classes aristocratas, teve os seus exemplares mais faustosos usados em momentos solenes da corte, como casamentos reais, batismos de príncipes, aclamação de novos monarcas, embaixadas ao estrangeiro, deslocação de altos dignitários eclesiásticos, receção de soberanos ou figuras de alto prestígio no estrangeiro. Alguns serviram mesmo para um evento singular.

     Coche dos Oceanos - ao centro da foto, 
ladeado à esquerda pelo Coche do Embaixador 
e à direita pelo Coche da Coroação de Lisboa (Foto VO)

    O Coche dos Oceanos é uma das coqueluches do museu, pela espetacularidade ostentatória e faustosa joanina. Restaurado pela Fundação Ricardo Espírito Santo, é um dos três coches do conjunto de quinze que compunham a embaixada enviada por D. João V ao Papa Clemente XI, em Roma (um pouco à imitação do que D. Manuel I fizera ao Papa Leão X, em 1514). A oito de julho de 1716, D. Rodrigo Anes de Sá e Menezes (Marquês de Fontes) fez a sua entrada pública em Roma, antecedido de um magnífico cortejo que espantou não só a população romana como os reis da Europa, que não se atreveram, nos anos seguintes, a repetir o feito. O próprio D. João V mandou que os três coches, construídos em Itália, viessem de barco para Portugal, de forma a que os olhos reais pudessem confirmar a magnificência dos veículos tão comentada em Roma.

Coche da Mesa ou da Troca das Princesas (Foto VO)

    Também dos tempos joaninos é o Coche da Mesa ou o da célebre troca das princesas, junto à fronteira do Caia, a 19 de Janeiro 1729 (de Portugal saía, para Espanha, a princesa Maria Bárbara de Bragança, filha de D. João V, para casar com o príncipe D. Fernando, futuro rei Fernando VI, de Espanha; chegava a Portugal a princesa Mariana Vitoria, filha de Filipe V, para casar com aquele que viria a ser o nosso rei D. José I) - episódio de que se faz uma narração caricatural no segmento XXII de Memorial do Convento, de José Saramago (MC, 17ª ed., Lisboa, Ed. Caminho):

     «Porém, ainda se encontram famílias felizes. A real de Espanha é uma. A de Portugal é outra. Casam-se filhos daquela com filhos desta, da banda deles vem Mariana Vitória, da banda nossa vai Maria Bárbara, os noivos são o José de cá e o Fernando de lá, respetivamente, como se costuma dizer. Não são combinações do pé para a mão, os casamentos estão feitos desde mil setecentos e vinte e cinco. Maria Bárbara tem dezassete anos feitos, cara de lua cheia, bexigosa como foi dito, mas é uma boa rapariga, musical a quanto pode chegar uma princesa, pelo menos não caíram em cesto roto as lições do seu mestre Domenico Scarlatti, que com ela seguirá para Madrid, donde não volta. […] virá Mariana Vitória, uma garotinha de onze anos, que, apesar de pouca idade, já tem uma dolorosa experiência de vida, basta dizer que esteve para casar-se com Luís XV de França e foi por ele repudiada, palavra que parece excessiva e nada diplomática, mas que outra se há de usar se uma criança, na tenra idade de quatro anos, vai viver para a corte francesa a fim de se educar para o dito casamento, e dois anos depois é mandada para casa porque de repente deu a febre ao prometido, ou aos interesses de quem o orientava, de ter rapidamente herdeiros a coroa, necessidade que a pobrezinha, por inabilitação fisiológica, não poderia satisfazer antes de decorridos uns oito anos. Veio devolvida a coitada, magrinha e delicada, um pisco a comer, com o mal inventado pretexto de visitar os pais, rei Filipe, rainha Isabel, e pronto, ficou em Madrid, à espera de que lhe arranjassem noivo menos apressado, calhou ser o nosso José, agora com quinze anos, a fazer.» (pág. 297)
...


     «... quando D. João V atravessou o rio, no dia oito de Janeiro, para principiar a sua grande viagem, havia em Aldegalega, à sua espera, para cima de duzentas viaturas, entre estufas, caleças, seges de campo, galeras, carromatos, andas, uns que tinham vindo de Paris, outros feitos de propósito em Lisboa para a ocasião, sem falar nos coches reais, com as douradas frescas, os veludos renovados, as borlas e sanefas penteadas. Da real cavalariça, só em bestas, eram quase duas mil, não se incluindo nelas os cavalos da guarda do corpo e os dos regimentos da tropa que acompanham o cortejo. (...) João Elvas só vê cavalos, gente e viaturas, não sabe quem está dentro ou quem vai fora, mas a nós não nos custa nada imaginar que ao lado dele se foi sentar um fidalgo caridoso e amigo de bem~fazer, que os há e como esse fidalgo é daqueles que tudo sabem de corte e cargo ouçamo-lo com atenção, Olha, João Elvas, depois do tenente e dos trombetas e atabaleiros que já passaram, (...) vem agora o aposentador da corte com os seus subalternos, é ele quem tem a responsabilidade dos cómodos, aqueles seis a cavalo são correios de gabinete, levam e trazem as informações e as ordens, agora passa a berlinda com os confessores do rei, do príncipe e do infante, (...) depois aparece a berlinda com os moços do guarda-roupa (...) e outra vez não te espantes com essas duas berlindas cheias de clérigos e padres da Companhia de Jesus (...), aí tens a berlinda do estribeiro-mor, as três que vêm atrás são do corregedor da corte e dos fidalgos da casa de el-rei, segue-se a estufa do estribeiro-mor, depois os coches dos camaristas dos infantes, e agora atenção, agora é que começa a valer a pena, estes coches e estufas vazios que passam são os coches e estufas de respeito das reais pessoas, a seguir, a cavalo aparece o estribeiro-mor, enfim, chegou o momento, põe o joelho em terra, João Elvas, que estão passando el-rei e o príncipe D. José, e o infante D. António (...), e agora podes-te levantar, já passaram, já lá vão, iam também seis moços de estribeira, a cavalo, estas quatro estufas, aqui, levam a câmara de sua majestade, depois vem a sege do cirurgião (...), daí para trás é que já não há muito que ver, seis seges de reserva, sete cavalos de mão, a guarda de cavalaria com o seu capitão, e mais vinte e cinco seges que são do barbeiro de el-rei, dos copeiros, dos moços de câmara, dos arquitectos, dos capelães, dos médicos, dos boticários, dos oficiais de secretaria, dos reposteiros, dos alfaiates, das lavadeiras, do cozinheiro-mor, e do menor, e mais e mais, duas galeras que levam o guarda-roupa de el-rei e do príncipe, e, a fechar, vinte e seis cavalos de mão (...)» (pág. 300-303)

...

     «Caía a noite quando as primeiras viaturas da comitiva de D. Maria Ana começaram a entrar em Vendas Novas, mais parecendo um exército em debandada do que um cortejo real. As cavalgaduras, derreadas, mal podiam arrastar as berlindas e os coches, algumas iam-se abaixo das mãos e morriam ali mesmo, presas aos arreios. (...) Foi uma noite de grande desastre. Quisera a rainha seguir para Évora nessa mesma madrugada, mas foi-lhe representado o perigo da empresa, além de virem atrasadas muitas carruagens, o que resultaria em prejuízo da dignidade do cortejo.» (pág. 306-7)

    Depois, com o século XIX, são tantas as variedades de transporte urbano (basta lembrar a diversidade representada nos romances queirosianos, cruzando as ruas lisboetas) que uma ala do museu é praticamente ocupada com os modelos que a aristocracia, os burgueses e classe média mostravam à sociedade. Fico-me pela malaposta (dos inícios do século XIX), a poder dizer que é o transporte público mais remoto, dado o limite de transporte de dezasseis pessoas, entre a primeira e a segunda classes. Ao povo, restava-lhe o tejadilho, junto com as malas do correio (sem cinto de segurança e sem seguro, não obstante as quedas frequentes no trajeto).

     Num quatro rodas, com motor a gasóleo e muitos cavalos, fez-se o regresso a casa em cerca de quatro horas (saber que há pouco mais de um século, sem a hipótese do comboio, a viagem Lisboa-Porto ocupava mais de dia e meio).

domingo, 4 de novembro de 2018

Barcelona medieval e 'A Catedral do Mar'

    Uma série Netflix a não perder (2017). O livro do barcelonês Ildefonso Falcones (2016) é encontro a marcar.

     "La Catedral del Mar" - 'pela Virgem' e 'Às armas'. É com estes dois lemas que se retrata a sociedade catalã do século XIV. A partir de uma pesquisa e investigação aprofundadas, o autor apresenta uma visão da prosperidade e da força da cidade nos tempos medievais. Com a história de fuga do servo Bernat (que salva o filho das mãos tiranas e brutas do senhor feudal que possuíra a esposa e faria da criança mais um escravo às suas ordens), fica a conhecer-se a vida e a singularidade de uma Barcelona encarada como espaço urbano cosmopolita, habitada por escravos, artesãos, judeus, nobres, mais a realeza que se impõe a Castela e a Mérida.
     Um bairro humilde de pescadores (Bairro de La Ribera) afirma-se pela construção popular, coletiva e colaborativa do maior templo mariano do tempo: a catedral de Santa Maria do Mar. A gloriosa edificação faz-se a par da história de Arnau (Aitor Luna), uma criança tornada adulto e cidadão que conquista a condição de homem livre. Enquanto estivador,  bastaixo (carregador de pedras), soldado e cambista, a evolução do filho de Bernat não deixa de criar invejas, forças que preconceituosamente o forçam a ver-se como servo, como fugitivo indigente cuja nobreza de carácter só no final da narrativa dará lugar ao nobre e aristocrata definitivamente reconhecido em termos sociais. 

Trailer oficial da série 'A Catedral do Mar' (2017)

   Conspirações torpes e vis, injustas expõem-no a múltiplos perigos, como a chantagem da mulher que amou e de quem teve de se separar (por ser casada); a peste negra que lhe levaria a primeira mulher e os amigos; a perversão e o ciúme interesseiro da princesa (Elionor) com quem viria a casar, por decisão de um rei que viu nesse matrimónio a oportunidade de se libertar de uma dívida enorme ao então bem-sucedido cambista; a depravação e a imoralidade de uma Inquisição, que mostrou o que de mais degradante, maquiavélico e demoníaco havia na instituição da Igreja.
     Entre a a discriminação e segregação sociais, os interesses e jogos políticos, a intolerância religiosa e o materialismo reinantes, o amor virá a resistir e a triunfar, com Arnau Estanyol a assumir a sua paixão por Mar (Michelle Jenner), uma jovem protegida que cresceu, ficou mulher e acabou sua esposa, e mãe do filho que transporta para futuro o sinal da paternidade (sinal junto ao olho direito).
    Baseado no romance histórico de Falcones, o enredo da vida de Arnau Estanyol é complexo, narrado desde as dificuldades da infância à condição de bastaixo e ao sucesso adulto do cambista. Na ausência de uma mãe (Francesca) que só vem a conhecer na pior fase da sua vida adulta, o protagonista tem na Virgem Maria a mãe celeste a quem recorre nas adversidades, aquela que o acompanhará desde os mais tenros anos, bem como ao irmão adotivo que também marcará o seu percurso. Fecha a série (com oito episódios) com a inauguração e a sagração da catedral, com Arnau, Mar e o filho num núcleo familiar com expectativas de futuro (ao contrário de um início que colocou Bernat, Francesca e Arnau em rota de fuga e dispersão).

      Na linha das séries "Os Pilares da Terra" (2010) ou "Um Mundo Sem Fim" (2012), baseadas nos romances homónimos de Ken Follett, "A Catedral do Mar" é uma produção de Ana Rubio, num projeto da 'Diagonal Televisió', em coprodução com a Televisão da Catalunha.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

História que deu vida

       Tudo por causa da História que daria um Livro, de Manuel Maria.

      Um encontro intrigante (uma personagem com um passado por desvendar e uma realidade tão fictícia quanto aproximada ao vivido em Moçambique) conduz José António para a (re)descoberta de alguns dos enigmas que a guerra, a experiência de alfarrabista e a vivência de homem comum propõem à vida.
    Cruzam-se neste enredo pensamentos literários e filosóficos, além de toda uma gama de conhecimentos a convocar futebol, política, arte plástica, ensino, coordenadas de tempo e de espaço em muito coincidentes com o real que alguns leitores possam (re)ver no dia-a-dia que foi ou mesmo naquele que ainda é (ou pode ser). Enquanto um desses leitores, vejo a ficção entretecida com uma realidade conhecida, esbatendo-se uma fronteira muito ténue a anunciar essa terra de todo o mundo e ninguém, uma "nowhere land" de muitos (se não for de todos) conhecida.
      Revisto o Portugal dos finais do século XX / inícios do XXI, cabem nele a consciência do que foram os tempos de guerra colonial em Moçambique; os jogos político-estratégicos do regime ditatorial; os dilemas de quem cumpria um dever nem sempre reconhecido no poder que o impunha.
     Cronotopicamente plural, o romance propõe uma rede de personagens e de relações que convergem maioritariamente para um local de convívio e alimento: A Cozinha do Martinho. À mesa (e no jogo) se vê a educação, diz o povo. Há quem nela também faça grandes negócios e nela ponha as cartas. Em A Cozinha do Martinho, à mesa surgem (re)encontros, resoluções, reuniões e (re)equilíbrios de situações narrativas, numa reconfiguração simbólica da generosidade do próprio santo que dá nome ao restaurante; ao chefe do espaço e à festividade celebrada no capítulo final.
      Concluída a leitura e fechado o romance, tenho a impressão de já me ter cruzado com alguns dos espaços e algumas das personagens, embora ela tenha sempre de ser matizada, particularmente nos humanos, por traços fictivos de um José António, de uma Silvana (Sissi), de um Manuel Maria e de um Sr. Laurindo que (con)vivem nas páginas de um livro. E, de novo, nos confins da ficção ou da realidade, há uma espécie de limbo a alimentar dúvidas: pode o Man(u)el Maria de carne e osso que conheci ser o professor de ensino secundário (que também o foi, é e será) lido no papel? Pode qualquer semelhança da obra com a realidade não ser apenas mera coincidência, dando-me a ler um Sr. Laurindo que recupero das minhas memórias e revejo no próprio dia de apresentação do romance? É José António um múltiplo de Manuel Maria? É a carta do primeiro (que, não existindo, foi sendo) aquela que o segundo, pelo ato criativo de escrita, produziu com efeitos de real, a ponto de aparecer reproduzida num manual de Português (que existiu, sem dúvida)? E fico-me pelas figuras masculinas, porque de algumas femininas não diria menos.
      É nesta espécie de "mise en abîme" - de uma História que daria um Livro a evocar Checa é pior que Turra; de um José António tão familiar(izado) no espelho de Manuel Maria; de uma ficção a gerar uma outra, ainda que tão aproximada do real nas contextualizações epocais evocadas - que o romance se impõe.
     A fechar, há um "happy end" de uma história que, no ponto de arranque, "nunca encaixou na cabeça" de José António; que, na fase de resolução, Silvana reconheceu como enigmaticamente fantástica; que Carlos Vladimiro, no fim, confessadamente apresentou como desvelamento de identidade. Tudo acabou por dar em livro... e em vida com oportunidade de felicidade.
     Em suma, e similarmente às palavras do Chefe Martinho quando se refere à comida do seu restaurante, digo desta obra que "temos coisinha boa!"

     Renovado agradecimento ao Man(u)el pela dedicatória, pelo convite formulado para assistir à apresentação pública do livro, pela evocação de vivências e projetos que nos aproxima(ra)m e pelos momentos de leitura proporcionados. Nem penosos nem penalizadores, meu caro. Uma obra "maningue" interessante!

domingo, 4 de março de 2018

Um condicional muito factual

    A propósito de História que daria um Livro... e deu mesmo!

    Foi ontem divulgada mais uma publicação do escritor e amigo Manuel Maria - uma produção, uma apresentação que ganhou nota de foro pessoal, não só pelo convite amigo que me foi endereçado (e permitiu o reencontro com pessoas de bem) mas também pelo facto de me ter, surpreendentemente, deparado com um romance que me foi dedicado.
    Abri-o. Sorri com a leitura das primeiras linhas, antevendo um José António tão feito de Manuel Maria quanto marcado pelo azul (quer pela nobreza de caráter quer pelo amor ao Futebol Clube do Porto). Será o reencontro com uma personagem que conheço desde a leitura de Checa é Pior que Turra (1996).
    Relembrado de como uma carta deste romance foi transcrita nas páginas de um manual de Português de que fui coautor, o capítulo VII da História que daria um Livro sublinha precisamente esse dado, num diálogo entre as personagens Estela e Silvana (Sissi):

   "- Procuro um livro. É sobre a guerra colonial. Vem aí o aniversário do Tito e gostaria que as filhas lho oferecessem. Tenho a certeza de que iria gostar. Apesar do divórcio, a sua relação com as miúdas continua a ser exemplar.
    - Ainda bem.
    - Acho que é o mínimo que nos resta.
    - E que livro é?
    - Chamou-me a atenção, porque tem uma carta de Natal reproduzida no manual de Português da mais nova.
    - Da Luna...
    - Sim.
   Abriu a pasta e retirou um manual de 10º ano, Das Palavras aos Actos, Edições ASA. Tinha uma marcador na página 152. Em fundo cinza, uma citação da obra a ocupar quase toda a página; no canto superior direito, um mapa do continente africano, com a localização exata de Moçambique, além da Península Ibérica, a norte, com o retângulo de Portugal. À margem, à esquerda, uma miniatura, a preto e branco, da capa do romance Checa é Pior que Turra.
    - Conheces? - Perguntou Estela.
   - Não. Não tenho ideia de o ter visto cá, mas deixa que chame o Zé António, que está no primeiro andar a arrumar uns livros. Pode ser que ele conheça."

      Conhecerá ele, por certo, a carta que escreveu, publicada num manual que cita um livro escrito por Manuel Maria. Como este último terá chegado à carta de José António, diria que são "contas de um outro rosário".

    Resta-me agradecer ao Man(u)el que tenha feito registar neste seu novo livro, quase vinte anos passados, um pedaço das nossas vidas, de projetos comuns, perdurados numa narrativa que certamente irei ler com a atenção que merece e com o desafiante sentido de como a ficção pode inspirar-se numa realidade que ultrapassa a(s) sua(s) fronteira(s).

quarta-feira, 5 de julho de 2017

"Mulher de Deus, Amante do Rei"

        Assim pode ser resumida a apresentação de Madre Paula.

     Iniciou-se hoje a exibição de uma série televisiva de produção nacional inspirada no livro de Patrícia Müller e dedicada àquela que ficou conhecida como a amante mais conhecida do rei D. João V: Madre Paula de Odivelas (Paula Teresa da Silva). 

Trailer da série televisiva (RTP1)

       No erotismo das cenas de abertura está lançado o mote para o profano e o sagrado conviverem em plena ambiência de época barroca, quando os contrastes se afirmavam pela conciliação. Nesta ordem de raciocínio, também se explica como Paula acaba por estar livre na prisão que o convento representa.
     Tendo entrado como noviça no Mosteiro de S. Dinis de Odivelas (à semelhança da irmã mais velha e em conformidade com decisão paternal, pelos fracos recursos familiares de que dispunha), Paula viria a professar a fé católica, em 1718, já com o pensamento no rei. Dos amores vividos com o Conde de Vimioso à predileção real, foi um exemplo das sóror que o soberano absolutista visitou na sua aproximação às esposas de Deus (privilégio que o representante divino na terra concedia a si próprio). Dela, teve o Magnânimo vários filhos, entre os quais D. José de Bragança (nascido em 1720) - um dos conhecidos "meninos de Palhavã", que viria a tornar-se inquisidor-mor. Bela e jovem, passou a ser a amante favorita do rei e tornou-se Madre do Convento, usufruindo de todas as atenções do monarca, que lhe deu condições de vida muito luxuosas, típicas dos devaneios extraconjugais do "rei do ouro" (também conhecido na História como o "freirático").
      A vida sumptuosa que levou, mesmo após a morte de D. João V, afastam esta figura feminina do percurso religioso e devoto a que apenas parece ter-se dedicado no final da vida, não sem os luxos nem os aposentos ofertados pelo rei. Falecida aos 67 anos, acabou por ser sepultada na Casa do Capítulo do Convento de Odivelas.

Representação de Madre Paula de Odivelas,
numa teatralização da figura da "Madre de Deus"
(Escola Portuguesa, séc. XVIII)

   José Saramago, em Memorial do Convento, refere-se a Madre Paula como a "…flor de claustro perfumada de incenso, carne gloriosa…", numa imagem clara a essa condição típica a que as mulheres menos abastadas do séc. XVIII acabavam por se entregar como forma de sobrevivência natural na sociedade.