Mostrar mensagens com a etiqueta Filme próprio. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Filme próprio. Mostrar todas as mensagens

domingo, 26 de outubro de 2025

E depois da quarta...

       ... vem a quinta dimensão.

       Altura, largura, profundidade, tempo - quatro são. Qual é a quinta de que se fala?
      Talvez uma outra mais ou a fusão de todas. Alguma que permita ultrapassar as anteriores e vá bem além do que qualquer outra força permita (visibilizar). O conceito de dimensões adicionais aparece mencionado em diversas obras de Óscar Wilde, Marcel Proust e HG Wells; configura-se em Picasso e noutros artistas modernistas, que representam dimensões alternativas, múltiplas, transcendentes.
     Eis que me surge um poema com esse título, na segunda parte de um livro intitulado Ousadias (2025), com poesia e fotografia, da autoria de Adriana Carmezim e Cristina Pinto
        Na estruturação da obra, depois de 'ousadias lua' vem o 'sol ousadias', com notas de cor e palavras de esperança, tal como a noite se faz dia:

A ousadia de pôr voz no escrito e de tornar visível um livro, pelo título, já ousado (montagem VO)

    Adriana Carmezim traz regeneração, um solstício que deixa de ser inverniço e frio e passa artisticamente a um tempo diferente, salvífico, com ritmo poético expectante, confiante. Ecos de uma nova fase de vida, mais promissora, risonha, própria de quem vê luz, seja no fundo do túnel seja no caminho que passa a ser cumprido mais positivamente. O lunar dá lugar ao solar - ampliando-se o toque de luz.

         Lidos os versos silenciosamente, deu-se-lhes voz, como se o canto trouxesse às palavras escritas um efeito metamorfoseador, transfigurador. Recriador. Uma outra dimensão - a que permite acreditar em melhores tempos.

sábado, 31 de maio de 2025

Pediram-me para ler...

       ... e não me fiz rogado.

     Aquando da apresentação de VINTE SONETOS e outros poemas, de Manuel Maria, no Auditório da Biblioteca Municipal de Gondomar, durante a tarde de hoje, li dois dos textos poéticos compilados na obra. Tinham-me pedido um, mas, como ando um insubordinado e insubmisso, decidi abusar e dobrei a parada.
     Contrariei, inclusive, a ordem do título, iniciando pelo único dístico presente na secção (segunda) intitulada "outros poemas". Enquanto leitor de Sophia, relembrei o facto de os poemas mais curtos da nossa poeta apresentarem uma profundidade de pensamento evidente, uma sabedoria que nos toca com as palavras mais singelas - lições de vida traduzidas em cerca de dois a quatro versos. Fica, portanto, provado que a escolha não teve nada a ver com preguiça minha, mas com um capital de leitura que, de uma forma ou outra, se vai cruzando com outras oportunidades trazidas pelo próprio ato de ler.
      Também disso o Manuel Maria é capaz, pelo que, ao folhear o livro, na página 33, encontrei o texto
 
Vídeo e áudio do poema "Há tantas coisas tristes...", de Manuel Maria (maio 2025)

     A seleção reflete, por um lado, a tónica de um sentimento emergente de um mundo que nos vai deixando sinais fortes dos perigos e das ameaças que, longe ou perto, nos colocam em aviso constante e na razão da crescente consciência de que nenhuma guerra dignifica o ser humano; por outro lado, assume uma estratégia, na qual o fingimento recobre uma forma de sobrevivência, enquanto ingrediente necessário à vida e ao ato criativo, fictivo, poético, recuperando Pessoa e a génese criadora de quem "chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente" (como se lê em "Autopsicografia"). A nota de negatividade presente ao longo dos catorze versos decassilábicos, não pela forma, mas pelo conteúdo, é típica de um Manuel Laranjeira, que me persegue (n)a vida e que, na polaridade negativa, não deixa de a representar como húmus a alimentar e a valorizar o seu contrário, num caminho de idealização a fazer, a perseguir, a cumprir.
      Por extensão, e numa relação intratextual com a obra hoje dada a ler (desta feita com a parte correspondente aos "Vinte Sonetos"), reencontro novas e coincidentes dissonâncias, em versos a espelhar um sujeito poético atormentado, revoltado, caraterizado por uma disforia exógena a dominá-lo endogenamente (pág. 27):

Poema "Ingratidão" de Manuel Maria (vídeo e áudio por Vítor Oliveira)

      Eis as palavras, os versos de um sujeito poético que o Manuel Maria compôs à imagem e semelhança de um estado de espírito que vive instantes, que tem momentos feitos de opostos complementares, que busca identidades e que encontra palavras num exercício de escrita dominador: ao mesmo tempo "(a minha) cruz" e também "a luz". Na dualidade da dor rimada com amor, resulta uma tensão declarada na expressão poética, visível também ora na forma perfeita e convencionada do soneto italianizante ora na liberdade versificatória moderna (ambas usadas na publicação hoje publicitada), orientadas para Amor - Tempo - Arte. 

Obra poética de Manuel Maria, dedicada "A todos os que, na leitura e na escrita, se sentem com alma de poeta".

    Estas são as linhas com que, acronimicamente, o sujeito poético (também o poeta,... também o Manel) se ATA(m): na multiconfiguração e plurivalência do Amor; na inexorável, mas profícua passagem do Tempo; na exploração e na entrega à Arte (da palavra alada).

      De novo, relembrando Sophia e "Epidauro 62", ecoam versos: "Oiço a voz subir os últimos degraus / Oiço a palavra alada impessoal / Que reconheço por não ser já minha". A apresentação feita por Ana Maria Cardoso e a estratégia feliz da leitura a várias vozes amigas resultaram, sobretudo, em "partilha poética", em leituras e interpretações de muitos, conduzidas por esse fio de Ariadne a permitir o (re)encontro com a escrita e a leitura, num coro pintado de vozes, tons e cores a matizar uma co-autoria polifónica a diferentes tempos.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

No mês mais pequen(in)o

     Depois de um janeiro que parecia não mais acabar...

     Chega o mês mais pequeno (ainda que este ano seja maior, por ser bissexto). 
    Com os dias a crescer (só falta sair do malfadado horário de inverno, que torna o fim de tarde mais rapidamente escuro), a primavera a aproximar, anuncia-se uma liberdade natural que um dia de sol faz mais apetecida.
     Olhando o mar, inspirando-se num sentido de liberdade que a imensidão marinha também traduz, Sophia faz-se evocada na sua familiar Granja:

Da purificação do mês à pureza poética - com Sophia de Mello Breyner Andresen

     Um sentido de libertação, concentrado em sete versos, convoca tempo mais quente, horas mais claras e vida mais luminosa.

        Fevereiro, traz o calor que nem janeiro nem o fogueiro dão. 
        

quarta-feira, 28 de junho de 2023

Mont Saint-Michel

      Qual peregrino, em terras gaulesas, mais precisamente na Normandia.

      Em local fortemente marcado pela espiritualidade, a abadia do Mont Saint-Michel é um exemplo de arquitetura medieval excecional, prova de edificação prolongada ao longo dos tempos (dos séculos XI e XII à construção do claustro e refeitório dos séculos XIII ao XVI).
     A muralha do século XIV configura uma fortificação que, outrora, protegia a ilha das marés e, durante a Guerra dos Cem Anos, das incursões inglesas que atravessavam o canal da Mancha - daí também representar um forte símbolo de identidade nacional.

Vídeo com apontamentos fotográficos do passeio escolar do AEML (Vídeo VO)

    Aclamado local de peregrinação, juntamente com Roma e o Caminho de São Tiago, o Mont Saint-Michel foi percurso das romagens mais significativas do oeste medieval, a ponto de ser considerado uma das mais importantes cidades-santuário europeias.
    Crê-se que os mil e trezentos anos de história do local iniciaram em 708, quando Aubert, bispo de Avranches, mandou construir no monte Tombe um santuário em honra de São Miguel Arcanjo (Saint-Michel).

   Hoje o monumento beneditino recebeu mais um admirador - inclusive da caixinha de bolachas salgadas comprada na Grande Rue. Motivo para regressar um outro dia?

terça-feira, 28 de março de 2023

Uma dramatização de 'Uma História do João Ratão'

     Depois da apresentação do livro, projetou-se a representação, hoje levada a cabo.

     Leu-se, releu-se e tornou-se mais presente (isto é, representou-se). Assim foi, com a presença das autoras Maria Clara Miguel e Maria Dolores Garrido:

Uma dramatização de uma obra que foi apresentada há dois meses na EB de Guetim.

       Em pouco tempo se fez muito, numa das iniciativas que animaram a Semana da Leitura numa das escolas do AEML.
    Educadoras, professoras e alunos(as) motivados e animados recriaram um texto que, da tradição, ganhou temáticas novas pela escrita das autoras (um ato I com explicação para o João Ratão ser glutão; um ato II conforme a tradição; um ato III que reforça a lição); se concretizou em ato de representação, dando continuidade à expressão artística e dramática, em sede de inovação.

     Nas palavras de uma das autoras, "foi uma manhã muito bonita". E a alegria de todos aconteceu. Isto é escola.

sexta-feira, 24 de março de 2023

Ilha, terra / céu, luz e mar...

      Depois do cansaço do dia, só o café trouxe a energia que já não tinha.

     No desconcerto do momento, olhando as ondas e o cinzentão do final de tarde, peguei numa caneta e rabisquei o canto de uma folha impressa, já usada, mas ainda com espaços para rascunhar ideias, soltas, vagas, à espera de um sentido que não tenho de ser eu a dar.

Palavras, imagens e sons com alguma poesia (texto e filme VO)

LIBERDADE E CLARIDADE

Há quem se perca e se prenda na ilha.

Cada porto é chegada a nova terra.
Cada ilha se faz terra para novo mar.
O céu está além, para as estrelas.
Nem sempre se dão a ver; estão lá.
Dissipada a névoa, fugidas as nuvens,
limpo o céu, aquelas brilham, ainda.

Presença de luz invisível no vazio
Da escuridão instalada, cá na terra,
Sem sol nem claridade. Só dor.

Há que fugir da ilha. Banhar no mar.

     Sem bagagem, lancei-me na viagem. Não sei onde vou dar ou parar.

     Tempo de caminhar rumo à luz.

quinta-feira, 19 de maio de 2022

Rumo ao mar

      Comemorando o Dia da Escola Azul.

     Ficam uns versinhos para a ocasião, quando céu e mar se tornaram mais azuis, na humanidade de um cordão com olhos postos no horizonte:

      Saíram da escola e das salas de aula,
      animados com uma bandeira na mão.
      Desceram a cidade, foram até ao mar,
      com vontade de formar um cordão.
 
Apontamentos de um dia frente ao mar em cordão humano (montagem vídeo - VO)

     Assim se resume a celebração do Dia Escola Azul, levada a cabo pelo Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira, em parceria com o programa Escola Azul (Ministério do Mar), a Estação Náutica de Espinho e a Câmara Municipal. 
     O propósito de formar um cordão humano pelo Oceano permitiu juntar alunos, professores, famílias, entidades parceiras da comunidade local - uma rede que se pretende coesa no ato de educar e no propósito de alertar para o que mais nos tem de aproximar para haver futuro
   Ver o mar e sensibilizar para a importância da preservação ambiental e dos ecossistemas marítimos, enquanto património da humanidade e do bem comum, foram objetivos conseguidos, num dia que, abrilhantado pelo sol e pelo calor, convidou a população a juntar-se, a dar mão a uma causa conjunta.

     Porque o mar é origem de vida, este foi dia vivo, tomado dessa energia que torna o espírito livre e  dedicado a movimentos de preservação e sustentabilidade ambiental.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Leonardo

      Começou bem o ano televisivo, com uma série sobre um grande para a Humanidade!

    O título disse tudo: "Leonardo". Sim, o que nasceu em Florença, em Vinci (comuna italiana, na Toscana). Daí, Leonardo Da Vinci. 

Leonardo (centro), Caterina (esquerda) e o investigador da polícia (direita) - imagem representativa da série

    Em duas semanas foi exibida, na RTP1, uma série datada de 2021, com realização em países europeus como a Itália, o Reino Unido, a França, a Alemanha, a Espanha, bem como nos Estados Unidos da América. Enquanto figura das mais importantes no Alto Renascimento (nas áreas das artes e das ciências), Da Vinci foi apresentado com algumas fragilidades e pontos críticos no seu percurso biográfico; foram identificadas as suas influências, as suas invenções, sem esquecer o relevo de muitas das suas obras-primas. Encarado como o próprio arquétipo do Homem do Renascimento, foi retratado como polímata, dotado de talentos diversos e obcecado pela perfeição.

Encontro pessoal com a estátua de Leonardo da Vinci, em Milão

      Na representação desta figura, o ator Aidan Turner deu corpo a um protagonista histórico, numa intriga criada por Frank Spotnitz e Steve Thompson. 

Trailer oficial da série televisiva exibida na RTP1

     O ponto de partida foi localizado na cidade de Milão, em 1506, quando Leonardo da Vinci foi preso por ser falsamente acusado de envenenar Caterina de Cremona. Entre intrigas palacianas e detetivescas, houve toda uma analepse para recuperar a juventude (quando aprendiz no estúdio de Andrea del Verrocchio, onde conheceu Caterina) e a infância (quando abandonado pelo pai); refez-se todo um percurso de vida, pautado por descobertas, desistências, frustrações e conquistas, ganhos e perdas, amores e desamores, rivalidades, enganos e desenganos, com a entrega fiel ao que escolheu como família, paixão e projeto de vida.

   Na contracena, Matilda De Angelis (Caterina), Alessandro Sperduti (Tommaso Marsini, o companheiro de artes) e Carlos Cuevas (o amante Salai) enquadraram a vivência marcante desse artista e cientista, explorando a dimensão emotiva, pintada de várias tonalidades, na genialidade do autor de "Mona Lisa (ou Gioconda)" e "A Última Ceia".

quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Cantigas... com música (pois está claro!)

      É o que pode ser feito para não se ficar pela letra.

     Quando tanto se fala de cantigas de amor e de amigo e se fica pela letra (poema), nada como apresentar algumas propostas cantadas, para que a noção da poesia enquanto texto e música seja validada.
   Com um breve registo fílmico, compõe-se a exemplificação de quatro trechos musicais, com sonoridades medievas:

Quatro cantigas da lírica trovadoresca (de amor e de amigo)

     Solicita-se a audição na base de algumas pré-questões:
     (i) identificação da cantiga (pelo verso inicial) e do autor;
     (ii) classificação quanto ao género;
     (iii) indicação sumária do assunto tratado;
   (iv) caracterização da melodia escutada (recorrendo a adjetivos sugestivos, a construções do tipo 'Esta música parece-me X', ou outra);
   (v) sentimentos vivenciados pelos alunos aquando da audição e devida justificação.

     Tomadas as notas devidas, conduz-se o resultado para a construção de uma apreciação crítica (isto depois de se ter exemplificado este género textual, com a leitura de um exemplo e a sistematização dos aspetos mais relevantes).
      Passa-se do modelo à planificação de um texto a produzir: um parágrafo com a descrição objetiva do objeto (a atividade de escuta das melodias abordadas em i-iii); outro com o comentário crítico (associado às tarefas iv-v); um final, numa espécie de balanço acerca da atividade dinamizada.
      Segue-se a textualização (a ocorrer na modalidade de oficina; a acontecer em tempo complementar, com a definição de um intervalo de tempo razoável para produção e posterior entrega).
       E assim se dinamiza um trabalho que pode ser intitulado "Notas medievais em pleno ano 2021" ou "Aura medieval em plena aula do século XXI".

        No mínimo, ouviram-se músicas para as tão faladas "cantigas", que vinham só com texto.

domingo, 24 de janeiro de 2021

Dia de eleições presidenciais

      Hoje há a possibilidade de desconfinar, para ir votar.

      Aproveitei a saída para arejar, enquanto o sol tímido contrariava o cinzento da manhã.
    Já que não posso aproveitar o momento por muito tempo, ficando a contemplar o mar, vou levá-lo comigo:

Visita ao mar da Granja (Filme VO)

       Inspirado no dia, saíram os versinhos seguintes:

       Toca a ir votar.
       Seis para escolher,
       outro para enganar.
       Cumprido o dever,
       fui visitar o mar.

       Regressado a casa, vou fazer do domingo o "dia do Senhor". Também é preciso descansar.

      Até o S. Pedro parece querer ajudar (não choveu, conforme os últimos dias). A abstenção, temos de a contrariar.

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Um compacto... à semelhança da vida poética

      Depois de um registo mais amplo, um compacto para uma atividade de escuta ativa.

    Tal como a vida do poeta (tanta poesia para tão curta vida), fica aqui um compacto do essencial da biobibliografia daquele que, na Geração de Orpheu, foi visto como o mestre dos mestres:

(montagem a partir da RTP-Ensina)

       De Cesário Verde se fez lembrança e motivo para avaliar oralidade (compreensão oral e léxico).

      Chegado o fim de semana, apetece-me dizer "Não quero nada. Deixa-me dormir!"

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Voou deste mundo? Voa com quem o lê.

         A notícia do dia veio inesperada!

       Já se sabia que se encontrava doente, infetado pelo Covid-19, pouco depois de ter participado, em Portugal, num evento literário. Entre informação e desinformação, deu-se conta do estado crítico, da melhoria, de como regrediu, voltou a melhorar... E, agora, a morte.
      A de qualquer humano tem de ser pesarosa, particularmente a que resulta da luta contra um vírus desconhecido e ameaçador, capaz de afetar subrepticiamente o mundo. A do chileno Luis Sepúlveda (1949-2020) é-o seguramente para quem o leu, lê ou tem vindo a ler.
    Escritor ecologista, que cronicou e contou histórias de quem esteve neste mundo (marginais ou não); de quem existiu enquanto houve luz; de quem alimentou sonhos ansiados em qualquer lugar da terra, do ar ou do mar. Escritor que produziu obra na apologia da vida, da dignidade humana, da justiça social, de exotismos que sublinham sentidos múltiplos de viagem, de amor e de guerra, de utopias e mistérios que se cruzam com o Ser Humano, para não dizer com o Ser Vivo. Escritor que viu na diferença o complemento necessário à união e ao projeto da vontade.
     Qual "gaivota", não pode lançar-se mais em novo voo, apanhado que foi por uma maré, uma "peste negra" que assolou a Humanidade.

Leitura de um excerto de 
História de uma Gaivota e do Gato que a ensinou a voar (2008)

    Outros, contudo, o farão voar, porque, como bem o escreveu em As Rosas de Atacama (no original, Historias Marginales, 2000), “As feridas dos heróis da literatura são rapidamente curadas com o bálsamo da leitura.”
      A morte será suplantada por qualquer leitor que recupere a sua obra e lhe dê vida.

    Há que voar, pois ainda há gatos que ensinem; há que aceitar que “Em todo o lado se vive e se morre – como diz o tango morir es una costumbre” (Patagónia Express, 1995).

terça-feira, 7 de abril de 2020

A praia, o mar, o céu, o sol... e um farol

      Um dia de sol espreita entre os que foram de chuva.

      Não há vírus que me prenda em casa. Confinado, sim, mas com rasgos de recusa e de liberdade. 
    A caminhada fez-se e foi marulhada. Os tempos são críticos; graves, agudos, alguns dirão, para uma sobrevivência que muitas centenas humanas já não conseguirão.
     A Aguda oferece aos fugazes visitantes um quadro marinho em movimento, com alguns batéis estacionados na praia; outros vogando nas ondas que invadem a orla, o areal, numa baía sem sossego. Um ou outro pescador mantém-se ao largo, assistindo impotente ao espetáculo hercúleo que a natureza lhe dá a ver.
       Um farol permanece no limite de um paredão (nome tão aumentado para força tão mais superior) continuamente banhado. De vez em quando, parece que sobre este circula um comboio a vapor, correndo, a fumo branco.

Pedaço de dia temperado de sol e de sal (Vídeo VO)

       Não há locomotiva, rodas ou carris. Apenas água a espelhar o céu e um ribombar forte que deixa sentir a pequenez de tudo diante da força do mar. Até aquela torre de luz apagada se sente minúscula, ameaçada e desorientada, sempre que a vaga surge, embate na barreira e termina num foguetear de névoa alva, salinadamente difusa, erguida ao céu, até ao salpicar e remolhar das pedras. 

       Tempo de maresia e de uma energia inspiradoras, incompatíveis, na força e na beleza, com a lembrança de um desgraçado vírus. Regresso a casa e revejo um momento que tempera a vida.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Revendo 'A Lista de Schindler'

     Foi dos filmes mais marcantes do final do século XX, obra-prima de Steven Spielberg.

    Já há um tempo andava com vontade de rever este filme. As interpretações de Liam Neeson (Oskar Schindler), Ben Kingsley (o contabilista judeu Itzhak Stern) e Ralph Fiennes (o comandante alemão Amon Goeth) são marcantes, bem como produção feita a preto e branco maioritariamente (só aqui e ali com uma nota de cor). No enredo, situado entre 1939 e 1945, revê-se a Polónia nazi, o genocídio dos judeus, a Checoslováquia da fábrica e do campo de concentração de Schlinder (Brünnlitz). Em mais de três horas, retratam-se, de forma mais ou menos ficcionada, episódios de vida de um Justo entre as Nações mais o périplo de um povo que, na II Grande Guerra, viveu mais uma etapa trágica na sua diáspora.

Compacto de A Lista de Schindler (1993)


    Inspirado no livro homónimo de Thomas Keneally, é seguramente um dos filmes da minha vida, desde que há mais de vinte e cinco anos ficaram imagens fortes como a da irritante criança loura que assiste ao desfile de judeus nas ruas polacas e grita "Goodbye, Jews!"; a do professor de História e Literatura que não é considerado "trabalhador essencial", mas acaba por o ser quando diz ser "polidor de metais"; a dos soldados alemães que discutem se a música tocada por um outro é da autoria de Bach ou de Mozart, enquanto ocorre o fuzilamento de vários judeus; a da criança vestida de vermelho, que se esconde do exército nazi, mas acaba junto de outros corpos; a do intolerável comandante Amon Goeth a fazer "tiro ao alvo" da sua varanda para alguns judeus que se encontram no campo de concentração de Płaszów; a de crianças que se escondem nas sanitas conspurcadas, na esperança da sobrevivência; a de uma outra criança insuportável a simular, com a mão, o corte de pescoço para as mulheres que chegam ao campo de Auschwitz-Birkenau; a do banho ameaçador das mulheres numa câmara que, em vez de água, bem podia ter sido de Zyclon B; a do comovente Schindler a chorar por não ter conseguido salvar mais judeus. O percurso deste povo é representado na pior das agonias.
     Mais significado ganha o filme quando, apesar da distância no tempo, se contacta com os locais nele retratados: a fábrica de Schindler e a judiaria, em Cracóvia; o campo de Auschwitz-Birkenau.

Praça Bohatérow Getta (ou dos Heróis do Gueto), no distrito de Podgorze, 
no gueto judaico de Cracóvia, com Monumento das Cadeiras, diz-se, pago por Roman Polanski
 (local onde eram selecionados os judeus para os campos de concentração) - Foto VO

Fachada da fábrica de Schindler, em Cracóvia - Foto VO

Janela à entrada da Fábrica de Schindler 
(com fotos e nomes dos trabalhadores judeus) - Foto VO 

Monumento Judeu junto ao bairro Kazimierz, onde este povo vivia na cidade, antes da II Guerra
(colocação de pedras como prática nas sepulturas judaicas, lembrando a época do Antigo Testamento) - Foto VO

Pórtico da Sinagoga Remuh, ao fundo do bairro Kazimierz
(nome a lembrar o rei Casimiro, fundador do espaço judaico na Baixa Idade Média) - Foto VO

    O bairro Kazimierz foi local da gravação cinematográfica, tendo-se, a partir desta última, conseguido a recuperação do espaço (dado o interesse turístico que o tem marcado). Quem por ele passeia não deixa de sentir o peso da História, os sinais da tragédia, o espírito de uma revolta contra quem pôde alguma vez defender o genocídio judeu, o holocausto.
      Na confluência de sentimentos, quando percorri estes locais, dizia para comigo que tinha de rever A Lista de Schindler. Entre a revolta do vivenciado com as políticas antissemitas e a admiração por um homem, no meio de outros iguais, dominou um sentido de compaixão e de gratidão muito forte. A cena final do filme (homenagem dos judeus salvos por Schindler junto à campa, em Jerusalém, no Monte Sião) é a representação maior da figura dessa gratidão, uma espécie de pacto ou princípio que, aliás, atravessa toda a película, ainda que numa multiplicidade de sentimentos bem difusos: o de Schindler para com Stern, no reconhecimento do trabalho deste; o de Amon para com Schindler, enquanto parceiros de negócios pautados por suborno e contrabando; o de Schindler para com uma judia, beijando-a num dos aniversários dele, quando lhe é ofertado um bolo; o dos judeus para com Schindler, à hora da rendição alemã incondicional, oferecendo-lhe um anel a partir de um dente de ouro fundido, a partir dos bens de muitos, e trabalhado à hora do final da guerra.
        Hoje o Ser Humano não pode deixar de estar, quase por ironia, agradecido a um partidário inicialmente nazi, o único que tem sepultura em território judeu, pelos mais de mil que ajudou a salvar.

      De oportunista interessado em ganhar dinheiro a herói tomado pela humanidade (sem escolha) ao salvar judeus, Oskar Schindler fica para a memória de muitos como um dos protagonistas da Sétima Arte, num filme que recebeu sete óscares, um deles o de Melhor Filme (1994). E foi tudo, na base inspiradora, tão real!

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Como se dúvidas houvesse

      As imagens são muito significativas da irracionalidade reinante nestes dias

      O que víamos há tempos em território americano chegou à Europa,... a Portugal,... a Matosinhos - corre o povo em cardume, direitinho ao anzol (que não vê), pensando no retalho de pano lindo que, vaidosamente, vai poder mostrar a todos:

Black Friday em Matosinhos (à moda de USA)

     Ainda há dias falava, nas aulas, sobre o Black Friday (que mais deve ser Black Days, já que nem de Friday nem de um só dia se trata), tudo a propósito de Vieira e do Sermão de Santo António. As semelhanças com a atualidade são inevitáveis, não fossem os peixes (seduzidos por um retalho de pano) metáfora dos homens (que se iludem com as falsas promoções).


     Outra coisa muito geral, que não tanto me desedifica, quanto me lastima em muitos de vós, é aquela tão notável ignorância e cegueira que em todas as viagens experimentam os que navegam para estas partes. Toma um homem do mar um anzol, ata-lhe um pedaço de pano cortado e aberto em duas ou três pontas, lança-o por um cabo delgado até tocar na água, e em o vendo o peixe, arremete cego a ele e fica preso e boqueando, até que, assim suspenso no ar, ou lançado no convés, acaba de morrer. Pode haver maior ignorância e mais rematada cegueira que esta? Enganados por um retalho de pano, perder a vida?!
     Dir-me-eis que o mesmo fazem os homens. Não vo-lo nego. Dá um exército batalha contra outro exército, metem-se os homens pelas pontas dos piques, dos chuços e das espadas, e porquê? Porque houve quem os engodou e lhes fez isca com dois retalhos de pano. A vaidade entre os vícios é o pescador mais astuto e que mais facilmente engana os homens. E que faz a vaidade? Põe por isca na ponta desses piques, desses chuços e dessas espadas dois retalhos de pano, ou branco, que se chama hábito de Malta, ou verde, que se chama de Avis, ou vermelho, que chama de Cristo e de Santiago; e os homens por chegarem a passar esse retalho de pano ao peito, não reparam em tragar e engolir o ferro. E depois disso que sucede? O mesmo que a vós. O que engoliu o ferro, ou ali, ou noutra ocasião ficou morto; e os mesmos retalhos de pano tornaram outra vez ao anzol para pescar outros.
     Por este exemplo vos concedo, peixes, que os homens fazem o mesmo que vós, posto que me parece que não foi este o fundamento da vossa resposta ou escusa, porque cá no Maranhão ainda que se derrame tanto sangue, não há exércitos, nem esta ambição de hábitos.
     Mas nem por isso vos negarei que também cá se deixam pescar os homens pelo mesmo engano, menos honrada e mais ignorantemente. Quem pesca as vidas a todos os homens do Maranhão, e com quê? Um homem do mar com uns retalhos de pano. Vem um mestre de navio de Portugal com quatro varreduras das lojas, com quatro panos e quatro sedas, que já se lhe passou a era e não têm gasto e que faz? Isca com aqueles trapos aos moradores da nossa terra: dá-lhes uma sacadela e dá-lhes outra, com que cada vez lhes sobe mais o preço; e os bonitos, ou os que o querem parecer, todos esfaimados aos trapos, e ali ficam engasgados e presos, com dívidas de um ano para outro ano, e de uma safra para outra safra, e lá vai a vida. Isto não é encarecimento. Todos a trabalhar toda a vida, ou na roça, ou na cana, ou no engenho, ou no tabacal; e este trabalho de toda a vida, quem o leva? Não o levam os coches, nem as liteiras, nem os cavalos, nem os escudeiros, nem os pajens, nem os lacaios, nem as tapeçarias, nem as pinturas, nem as baixelas, nem as jóias; pois em que se vai e despende toda a vida? No triste farrapo com que saem à rua, e para isso se matam todo o ano.
     Não é isto, meus peixes, grande loucura dos homens com que vos escusais? Claro está que sim; nem vós o podeis negar. Pois se é grande loucura esperdiçar a vida por dois retalhos de pano, quem tem obrigação de se vestir, vós, a quem Deus vestiu do pé até à cabeça, ou de peles de tão vistosas e apropriadas cores, ou de escamas prateadas e douradas, vestidos que nunca se rompem, nem gastam com o tempo, nem se variam ou podem variar com as modas; não é maior ignorância e maior cegueira deixarde-vos enganar ou deixarde-vos tomar pelo beiço com duas tirinhas de pano?
     Vede o vosso Santo António, que pouco o pôde enganar o mundo com essas vaidades. Sendo moço e nobre, deixou as galas de que aquela idade tanto se preza, trocou-as por uma loba de sarja e uma correia de cónego regrante; e depois que se viu assim vestido, parecendo-lhe que ainda era muito custosa aquela mortalha, trocou a sarja pelo burel e a correia pela corda. Com aquela corda e com aquele pano, pescou ele muitos, e só estes se não enganaram e foram sisudos.

Declamação e representação (adaptada) do sermão vieirino
por Marcelo Lafontana

       A atualidade e contemporaneidade da reflexão, com as devidas adaptações, impõem-se. Não se tratando de canibalismo puro, pouco falta. Talvez uma antropofagia social. Só porque há mais uns tostões, matam-se nas filas e nas multidões.

      O que foi escrito para o século XVII é visionário para os nossos tempos. Apetece dizer com Vieira que, ao Homem, parece ter sido dada a razão sem o uso; há animais que parecem ter mais o uso sem a razão. "Não é isto verdade? Ainda mal!"

terça-feira, 19 de novembro de 2019

"Do Porto / muito mais vivo que morto"

        No dia em que morre, celebra-se a música, a poesia, as artes.

      A herança de José Mário Branco é a do testemunho da qualidade musical e a da defesa dos valores democráticos e da liberdade. O compromisso com a música e a ideologia política é o exemplo de um homem para as gerações futuras, o de alguém que esteve preso por se ter engajado com um ideal de cultura e de política livres, contra um tempo de ditaduras e fascismos reinantes.
      Com o seu contributo e o de muitos outros companheiros de luta (Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Sérgio Godinho, entre outros), numa clandestinidade que ansiava pela mudança, lutou contra um regime, recorrendo às palavras do poeta Camões e a um refrão feito de (outras) "voltas" trocadas.

Filme com imagens de José Mário Branco (com poema camoniano)

       1942-2019, um percurso de 77 anos com essa amante que foi a música, que lhe deu muitas cantigas, algumas das quais encaradas como "uma arma contra a burguesia", um "alerta, às armas" ou a procura de "um mundo à justa medida".

       "Qual é a tua, ó meu?" Foste para longe, "P'ra muito longe / Onde nos vamos encontrar (/Com o que temos p'ra nos dar)". RIP.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Pelo centenário do nascimento

        À que foi à Grécia pela Granja,...
        
        À poeta que fez aliança com o mar, a praia, a rocha, o azul do céu e chegou ao tempo primordial e civilizacional da Antiguidade, fazendo rimar essa época com o espaço da justiça, com o canto poético em harmonia e refletida emoção, num feixe de luzes e numa paleta de claridades para a Humanidade.
      À arquiteta da palavra, do verso e da prosa que combinou a água e a luz com rochas, conchas, areais e maresias; a que fez da praia e do bosque um só palco para a escrita, qual anfiteatro com letras e sons em notas de paraíso e divindade à espera de serem desveladas.

"Mar Sonoro" de Sophia de Mello Breyner Andresen (Foto e filme VO)

     Sophia de Mello Breyner Andresen, aquela que, cem anos depois de ter nascido, continua prometida às ondas brancas e às florestas verdes, tendo na poesia a sua expressão maior de liberdade. Foi nela e por ela que atravessou "o deserto do mundo", viveu "em pleno vento", lutou "contra o abutre e a cobra" e cantou o amanhecer de abril. 
        Ansiou pelo tempo justo, de verdade e liberdade.

       ...não houve Cnossos, Delfos ou Creta que lhe dessem o berço, já que à vida veio por terras de Luso.

sábado, 19 de outubro de 2019

O Fantasma da Ópera em Concerto

       Coliseu do Porto recebe o musical que há cerca de trinta e três anos estreava em Londres.

      Um dos maiores clássicos do teatro musical esteve no Porto, numa das mais emblemáticas salas de espetáculo da cidade. O Fantasma da Ópera em Concerto, produzido por Armando Calado e encenado por Pedro Ribeiro, arrebatou as palmas do público, que praticamente encheu todo o espaço.


       A cada jogo de vozes e interpretação de sopranos e tenores, no melhor do musical, era inevitável o aplauso. A direção musical de António Vasalo (com a Orquestra Filarmónica das Beiras, o Coro Sinfónico do Porto e o Lisboa Cantat) foi o pano de fundo para uma encenação e representação pautadas por nomes tão sonantes quanto melodiosos (Sofia Escobar, no papel de Christine Daae; Fernando Fernandes ou FF, no de fantasma), a par de outros que se impuseram na mesma linha de qualidade dos primeiros (Bruno Almeida, também como fantasma; David Ripado e Filipe Moura, como Raoul; Lara Martins e Ana Cosme, como Carlotta).

"Think of me" - canção de 'O Fantasma da Ópera'
(interpretação de Sofia Escobar, pelo Natal de 2009, em Laúndos)

       Em dois atos compõe-se a história de um cantor e compositor que esconde a sua deformidade facial por trás de uma máscara. Escapou a uma vida presa numa jaula, como atração de circos e feiras, até ter encontrado refúgio nos subterrâneos da Opera Populaire de Paris. Aí se apaixona por Christine, uma bailarina que aspira a ser cantora. Acaba por o ser, graças à influência do seu "angel of the music" (o professor-anjo que, enquanto a jovem dorme, lhe canta canções na mente, sussurrando-lhe melodias ao longo do dia).
    A sua predileta aluna consegue os papéis principais no teatro, quando 'O Fantasma da Ópera' exige aos administradores do Opera Populaire que assim seja, sob a ameaça de ocorrerem alguns incidentes. Estes surgem sempre que o mestre é contrariado, acabando por conduzir a jovem para o lugar da solista e diva principal (Carlotta),  tornada vítima de alguns percalços. A par disso, sucede o amor de Christine e Raoul (um benfeitor do teatro), deixando o Fantasma louco de ciúmes.
     Todo o enredo começa num leilão em 1905, com a venda de objetos do Opera Populaire. Numa analepse, chega-se ao ano de 1881, a esse momento em que Carlotta ensaia a produção "Hannibal". O desfigurado génio da música conduz Christine ao papel principal, na ópera 'Il Muto'. O amor dela por Raoul é posto à prova no segundo ato, com a encenação de "Don Juan Triunfante" (ópera produzida pelo fantasma, para juntar a sua voz à da amada, ao mesmo tempo que no Opera se procura apanhar o autor das desgraças ou dos incidentes estratégicos vivenciados no teatro). Mestre e aluna confrontam-se e, perante a chantagem por ele criada para salvar Raoul, a discípula reconhece que pior do que a deformidade física é a da alma. Beijando o seu "angel", ela acaba por fugir com Raoul. 
     Dominado pela bondade e compaixão recebidas, o fantasma  deixa os amantes partirem em liberdade, desaparecendo assim que chega a multidão que vai no seu encalço.

Filme com o final musical do espetáculo (no Coliseu do Porto)

       O "anjo da música" esteve no Coliseu, sem incidentes, num espetáculo de qualidade sonora e de representação que parecia ser obra estrangeira. Não foi. Era bem portuguesa e com a qualidade que deixou o público de pé a aplaudir.

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Gente que não sabe!

        O título do programa televisivo é "Gente que não sabe estar".

        Ricardo Araújo Pereira brinda-nos, ao domingo à noite, com um programa televiviso de registo cómico, a fazer esquecer, por momentos, que o dia seguinte (hoje) é o de retoma do trabalho. (Bem haja o esquecimento provocado!)
        Ultimamente, em vésperas de eleições legislativas, têm sido entrevistadas figuras partidárias e/ou governativas que têm marcado o nosso panorama político. Desta feita, foi a vez de André Silva, porta-voz do PAN (Pessoas-Animais-Natureza) e deputado da Assembleia da República desde 2015. E quando tudo corria pelo melhor, num estilo bem hilariante, eis que se falou de erros, de touradas sem animais e surgiu o pior, o impensável:

Programa da TVI, emitido ontem na TVI (montagem fílmica)

        Tem sido uma constante esta falha da colocação do pronome, tanto na conjugação verbal no futuro como na do condicional. Típica e corretamente colocado entre a base verbal e a terminação (isto é, no meio da forma verbal), eis que há os que teimosa e erradamente o colocam no final do verbo. Até o Sr. Deputado! Precisava de treinar uns diálogos pronominalizados que eu cá conheço...

         Bem que podia ser "Gente que não sabe falar", a julgar pelo que o convidado diz (mal).

sábado, 3 de agosto de 2019

'O Rei Leão'... com reflexão de inclusão?

      O remake de 'O Rei Leão' (2019), dirigido por Jon Favreau, não faz esquecer a versão animada da Walt Disney de 1994.

      A expectativa era naturalmente grande. O resultado final é sempre condicionado pela experiência de quem viu o original (já com um quarto de século, dirigido por Roger Allers e Rob Minkoff, com as melodias de Elton John e Tim Rice). O impacto foi maior então; hoje, é sempre uma versão com um visualismo mais natural / real, numa sincronia de movimentos animais e vozes humanas que captam a atenção do espectador, para além da cor das paisagens, da mensagem da intriga e do registo de vitória e felicidade finais para o que é, e sempre será, uma metáfora do ciclo da vida.

       Trailers (montagem) do remake de Jon Favreau

      Sem o efeito total de surpresa, mantém-se algum do encanto da mensagem: um hino ou a apologia dos valores da vida (feliz). Os conflitos que esta propõe, a morte que a finda ou complementa, o confronto com os medos, a sede de poder, o oportunismo e a hipocrisia que marcam a humanidade estão bem representados nesta história. Nem tudo é o virtuosismo de Simba e Nala, Mufasa e Sarabi; nem só de Pumbas, Timons e Zazus se compõe a comédia e a atitude 'Akuna Matata' (diga-se, os problemas são para esquecer), que nos fazem experienciar instantes de felicidade. Há ainda cicatrizes (como a de Scar) e hienas (mais ou menos perversas e ameaçadoras) que complicam o ciclo da existência.
       No final da película, fica sempre a sensação de que estas últimas eram escusadas. Não se perde o ciclo da virtude (pelo menos, em termos da ficção), mas é caso para perguntar se vale a pena tanta perda e tanta dor decorrentes de forças malévolas como as de Shenzi e Scar, ou do egoísmo e distanciamento que outras hienas exploram de forma hilariante, mas não menos crítica. A lição do altruísmo, da amizade, da solidariedade, do amor e da família compagina-se com a do cinismo, do perigo, da falsidade e da traição, quase como se fossem duas faces de uma só moeda.
     Quando no fim se retoma o início (com a apresentação à comunidade do sucessor de Simba), prevê-se e prenuncia-se um futuro apaziguador, mais justo, mais integrador. A diversidade animal e o equilíbrio natural afirmam a legitimidade do rei, mas é bom lembrar que as hienas não deixam de existir. É certo que afastam "Scar", mas a barriga e o apetite delas não são facilmente saciados. 

       Não sei que inclusão poderão estas hienas ter, senão a da sombra (por mais que dê valor à luz) ou a do mal (por mais que sublinhe a necessidade e a vantagem do bem). Não as desejo, senão bem longe de mim.