sábado, 20 de abril de 2013

Terrorismo linguístico

     Mudam-se os tempos, a língua compõe-se de mudanças (como viva que é) e já não se escreve nem se conjuga como outrora (por mais que esse outrora tenha muito a ver com o presente e essas mudanças estejam mais para usos errados).

    Houve já oportunidade de referir como a construção pronominal do futuro é um dos casos críticos da língua portuguesa, a par do condicional.
    Recupero esse dado, ao ter deparado com um apontamento noticioso (no jornal Expresso online) e a forma de escrita que não dignifica um jornal considerado de referência:


    A propósito das trágicas explosões ocorridas em Boston, há jornalistas que devem achar que o tratamento temático do terrorismo se deve compatibilizar com ataques sérios e graves à língua com que comunicam (conforme se lê no último período). 
    Pode atualmente não haver consciência de a conjugação do futuro e do condicional ter sido um claro caso histórico de composição, no período final do império romano: eram o resultado de uma perifrástica constituída pela forma verbal de um infinitivo mais as terminações, respetivamente, do presente e do imperfeito do verbo habere. Uma marca que hoje persiste dessa antiga composição é precisamente a possibilidade de colocação de pronomes em mesóclise (isto é, entre a forma infinitiva do verbo e a sua terminação).
   Dir-se-á (ei-lo em ação), portanto, que estamos perante um caso antigo de sintaxe transformado em morfologia, pois 'falar' no futuro será o resultado de falar (h)ei, (h)ás, (h)á, (h)emos, (h)eis, (h)ão; no condicional, falar (hav)ia, (hav)ias, (hav)ia, (hav)íamos, (hav)íeis, (hav)iam
   Assim se explica, também, a comum terminação do futuro na terceira pessoa do plural; a acentuação aguda do 'á', 'ás' frequente e erradamente confundida com casos de contração.

   Ter-se-á encaminhado o suspeito para a zona de uma rua; encaminhou-se, por certo, o autor do apontamento jornalístico para o erro. Disto deverão saber os homens e as mulheres de letras (acrescentaria, os de boa formação), nomeadamente os jornalistas em causa (no pressuposto de que o sejam, desde o redator às suas chefias, para não falar daqueles que dão a cara pela sua direção).

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