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sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

"Não há guitarras nem cantar de amigo..."

      Não começa da melhor forma o ano, para a música portuguesa (e do mundo).

    Anunciada a morte de Carlos do Carmo, não se pode dizer que seja uma surpresa, dada toda a preparação da despedida artística em novembro passado, em concertos no Porto e em Lisboa. Feito o agradecimento público a quem o acompanhou como cantor, chegava o tempo de um afastamento e uma preparação para a hora que hoje se cumpriu. 58 anos de carreira sóbria, rigorosa e consolidada; 81 de idade são sinais de um percurso humano cuja previsibilidade pode ser confirmada, mas nunca desejada.
    Dizem que foi o renovador do fado. Fosse este último interpretado mais ou menos como canção, teve sempre a sonoridade rítmica, vocal e instrumental típica que identificou Carlos do Carmo como fadista de renome. Também com a sua ação persistente, em muito contribuiu para que o fado conquistasse a categoria de Património Cultural e Imaterial da Humanidade pela UNESCO (numa declaração aprovada em novembro de 2011, no VI Comité Intergovernamental, em Bali, na Indonésia).
    Aqui fica um registo do que foram as minhas primeiras memórias para esse grande intérprete nacional (e não só). Foi a experiência de um Festival da Canção Português, todo cantado por Carlos do Carmo. Algumas das cantigas concorrentes, não tendo vencido, acabaram por se tornar músicas para todo o tempo, em várias versões (o caso de "No Teu Poema", "Estrela da Tarde"). A vencedora, "Uma Flor de Verde Pinho", contava com a participação de Manuel Alegre (autor da letra) e José Niza (composição musical), versando já sentidos, símbolos e referências da cultura, história e literatura portuguesas (com as "flores de verde pino", de D. Dinis; os amores de Pedro e Inês; o "fogo amor" camoniano; o mar da diáspora nacional):

Versão de "Uma Flor de Verde Pinho" (no Festival RTP da Canção)

UMA FLOR DE VERDE PINHO

Eu podia chamar-te pátria minha 
Dar-te o mais lindo nome português 
Podia dar-te um nome de rainha 
Que este amor é de Pedro por Inês. 

Mas não há forma não há verso não há leito 
Para este fogo amor para este rio. 
Como dizer um coração fora do peito? 
Meu amor transbordou. E eu sem navio. 

Gostar de ti é um poema que não digo 
Que não há taça amor para este vinho 
Não há guitarras nem cantar de amigo 
Não há flor, não há flor de verde pinho. 

Não há barco nem trigo, não há trevo 
Não há palavras para dizer esta canção. 
Gostar de ti é um poema que não escrevo. 
Que há um rio sem leito. E eu sem coração.

       Assim se representou Portugal na Eurovisão, em Haia (Holanda), em 1976:

      Versão de "Uma Flor de Verde Pinho" (no Festival da Eurovisão, em Haia)

     Recentemente galardoado com o Grammy Latino de Carreira (2014), a Rádio Comercial prestou-lhe uma merecidíssima homenagem, convocando várias vozes nacionais de diferentes gerações para cantar um dos seus fados mais populares, dedicado à cidade que o viu nascer e morrer: "Lisboa, menina e moça".

      Homenagem a Carlos do Carmo (numa feliz iniciativa da Rádio Comercial)

     À hora da morte, sublinhados os valores profissionais e humanos, fica o sentido de uma grande perda coletiva perante um caminho artístico e humano bem cumpridos e largamente reconhecidos.
     

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Um dueto com "olhos de Deus"

        Uma versão musical que, em dueto, resulta numa peça singular.

        A letra de Pedro Abrunhosa e o canto de Ana Moura são combinação perfeita para um fado-canção que ganha também com a interpretação do compositor. Assim se apresentou televisivamente (na TVI, primeiro, na RTP-1, hoje, em "A Casa d'Amália") esta composição tão genuína nas sonoridades e no texto:

Versão em dueto de "Tens os olhos de Deus" 
(emissão televisiva da TVI)

TENS OS OLHOS DE DEUS

Tens os olhos de Deus
E os teus lábios nos meus
São duas pétalas vivas
E os abraços que dás
Rasgos de luz e de paz
Num céu de asas feridas
E eu preciso de mais
Preciso de mais

Dos teus olhos de Deus

Num perpétuo adeus
Azuis de sol e de lágrimas
Dizes: fica comigo
És o meu porto de abrigo
E a despedida uma lâmina
Não preciso de mais
Não preciso de mais

Embarca em mim

Que o tempo é curto
Lá vem a noite
Faz-te mais perto
Amarra assim
O vento ao corpo
Embarca em mim
Que o tempo é curto
Embarca em mim

Tens os olhos de Deus

E cada qual com os seus
Vê a lonjura que quer
E quando me tocas por dentro
De ti recolho o alento
Que cada beijo trouxer
E eu preciso de mais
Preciso de mais

Nos teus olhos de Deus

Habitam astros e céus
Foguetes rosa e carmim
Rodas na festa da aldeia
Palpitam sinos na veia
Cantam ao longe que sim
Não preciso de mais
Não preciso de mais

Vídeo oficial do original (no álbum "Moura", de 2015)

         O cruzamento com a boa música portuguesa tem acontecido a diferentes tempos, mas com zonas comuns de reconhecimento. A voz de Ana Moura tem sido uma das constantes.

          Do álbum "Moura" (o sexto, da fadista - 2015) vem o original. Cinco anos depois, está aí umas das composições, com novas interpretações.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Rumo ao Sul

    Soa a viagem. É fado numa das maiores vozes da atualidade.

    Foi na sequência do programa televisivo "Em Casa d' Amália" (RTP 1) - uma tertúlia dedicada ao grande nome nacional do fado - que tive a oportunidade de reencontrar a melodia em causa, na voz de Ana Moura.

Vídeo oficial de "Rumo ao Sul" (2009)

                     RUMO AO SUL


Estou na estrada de volta p'ra onde eu já não quero ir
No escritório esta tarde foi tudo p'ra me deprimir
A buzina apressada de um carro que me quer passar
Na portagem um rosto indiferente diz-me p'ra pagar

Rumo ao sul, sem amor, devagar
O meu sonho faz-se ao mar
Sem amor, rumo ao sul
O meu céu perdeu o azul

Volto as costas às luzes brilhantes da cidade-mãe
Sou a sombra impiedosa do apego a quem já não se tem
Sei que ao fim desta estrada há uma casa que suponho ter
E a vontade indomável que teima em me querer perder

     Editado no álbum "Leva-me aos fados" (2009), trata-se de uma composição do também fadista Jorge Fernando. É letra de desânimos e cansaços; também de perdas, de fugas e de liberdades a conquistar.

      Dois versos tão próximos de mim: "O meu sonho faz-se ao mar" e "O meu céu perdeu o azul".

sábado, 12 de maio de 2018

Quem me dera...

    Não se trata da expressão de um desejo pessoal; antes o refrão de uma canção.

   De tanto nos habituar a qualidade, a surpresa não deixa de chegar sempre que a voz se faz ouvir - é o caso de Mariza, tanto na expressão de poetas (inclusive, a de Pessoa) como na de outros escritores de cantigas, tão ao jeito de um Português nacional quanto ao de um idioma variado que se projeta no mundo. É o nosso Fado!

Vídeo oficial do fado "Quem me dera", voz de Mariza e letra de Matias Damásio

       QUEM ME DERA

Que mais tem de acontecer no mundo
Para inverter o teu coração pra mim
Que quantidade de lágrimas devo deixar cair
Que flor tem que nascer
Para ganhar o teu amor

Por esse amor meu Deus
Eu faço tudo
Declamo os poemas mais lindos do universo
A ver se te convenço
Que a minha alma nasceu para ti

Será preciso um milagre
Para que o meu coração se alegre
Juro: não vou desistir
Faça chuva faça sol
Porque eu preciso de ti para seguir

Quem me dera
Abraçar-te no outono, verão e primavera,
Quiçá viver além uma quimera
Herdar a sorte e ganhar teu coração

Será preciso uma tempestade
Para perceberes que o meu amor é de verdade
Te procuro nos outdoors da cidade, nas luzes dos faróis
Nos meros mortais como nós
O meu amor é puro... é tão grande e resistente como embondeiro
Por ti eu vou onde nunca iria
Por ti eu sou o que nunca seria

Eu preciso de um milagre
Para que o meu coração se alegre
Juro: não vou desistir
Faça chuva faça sol
Porque eu preciso de ti para viver

    À qualidade interpretativa juntam-se a letra, a composição musical, as imprevisíveis harmonias que tocam quem ouve. Matias Damásio escreveu, Mariza canta e nós escutamos, embalados entre sonhos, quimeras, utopias, esperanças face à vida e ao amor que alimentem / alimentam a nossa existência. 

     Não sei se estranha, porque, comigo, entranhou logo, assim que foi escutada.

terça-feira, 19 de abril de 2016

Misturas!

    Muitos significados tem a palavra, das misturas mais pacíficas às mais críticas.

    Por ora, uso-a para caracterizar uma reação natural a quem ouve 'O amor é assim', dos HMB com a participação de Carminho. Isto de juntar uma voz do fado com o vocalista Héber Marques (mais Joel Silva, na bateria; Daniel Lima, nos teclados; Fred Martinho, na guitarra, e Joel Xavier, no baixo) como ritmo do soul e do R&B é significativamente inédito:

Vídeo de 'Got Talent - Portugal', na RTP1 (emitido a 20 de março de 2016)

     O AMOR É ASSIM

Eu não sei se algum dia eu vou mudar
Mas eu sei que por ti posso tentar
Até me entreguei e foi de uma vez
Num gesto um pouco louco
Sem pensar em razões nem porquês

O amor é assim
Pelo menos p'ra mim
Deixa-me do avesso
Tropeço, levanto e volto p'ra ti

Eu não perco a esperança
Espero a bonança
E nela avança o mesmo amor
E o tempo é companheiro é bom parceiro
E até já nos sabe a cor
E as voltas que embora nos tracem e eu lá sei
Leva-nos para onde for
Insiste, persiste, não sabes o fim
Mas assim é

Mas será que é mesmo assim?
Dizem que o amor é assim
Há tempo para descobrir

Mas só quero o teu bem
(Quero o teu bem)
E que eu seja o teu bem
(Que eu seja o teu bem)
E tudo nos vá bem
(vá bem, vá bem)
Não quero ficar sem ti

O amor é assim
Pelo menos p'ra mim
Deixa-me do avesso
Tropeço, levanto e volto p'ra ti

Caio e levanto qual é o espanto?

O amor é assim
Assim é o amor

    O facto é que resulta e muito bem. Há cerca de dois meses que já ouço a composição na rádio e, de cada vez, lá elevo o som para ouvir melhor. Uma batida nusical com uma combinação de vozes fantásticas.

     Os puristas do fado talvez não apreciem esta junção; por mim, ficou uma boa canção. Por isso, "Misturas!" é razão para uma boa reação e continuada audição, em balanço de dança e animação.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Fuga à vida ou vida à morte?

      104 anos depois, mantém-se a questão.

    Nome de referência local e nacional, Manuel Laranjeira é hoje lembrado pela morte que escolheu ao final de quase 35 anos de vida.
   Nascido no concelho de Vila da Feira (Mozelos) e oriundo de uma família pobre, Manuel Laranjeira teve um percurso de vida a tentar contrariar algum determinismo sociológico. Mais de três décadas de vida singraram-no à condição de médico, de intelectual ligado à escrita, à intervenção artística, social e política de então. Era o tempo entre a Geração de 70 (à data de nascimento) e os anos 20 do século seguinte, num Portugal saído da I Guerra Mundial (marcado pela crise constante em que vinha a sobreviver).
    Numa convergência de fatores (desde motivos mais contextuais a razões de carácter mais pessoal), não contrariou um pessimismo tão crítico para o país como fatal para uma visão da vida conjugada num misticismo e numa perspetivação estética, feitos de valores que tanto marcam o seu tempo como estão aquém e além dele.
  Disso mesmo trata a letra do "Fado Rezende (Ao morrer os olhos dizem)", recentemente identificada como produção de Manuel (Fernandes) Laranjeira. Investigações de Anjos de Carvalho, realizadas na década de 90 do século XX no âmbito do fado de Coimbra, e a publicação das quadras no livro Comigo. Versos dum Solitário (1912) atestam-no.
    Às palavras do escritor espinhense juntou-se a música do compositor Alexandre Rezende:

Vídeo de um espetáculo no Café de Santa Cruz (Coimbra)

 Ao morrer, os olhos dizem:
- «Pára, Morte, e espera aí!
Vida não vás tão depressa
Que eu inda te não vivi...»

E a Vida passa e a Morte
É que responde em vez dela:
- «Mas que culpa tem a vida
De que não saibam vivê-la?

    Um fado (ao estilo e registo da academia de Coimbra) para uma letra cujo autor ficou por largos anos incógnito. Quase como se fosse o fatum a negar-lhe a existência da obra, e talvez da vida. Ainda assim,  esta última acabou por ser determinada pelo próprio ser que, de alguma forma, traçou, por antecipação, o seu fim.

     Quem pode avaliar se alguém soube ou não viver a vida? Miguel de Unamuno, no prefácio das Cartas de Manuel Laranjeira, considerou que, ao seu amigo (que via mais como um "sentidor" do que pensador), "Matou-o a vida" e que, "ao matar-se, deu vida à morte!"

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Um filme deliciosamente português

      Depois de uma experiência fílmica dececionante, chegou o (inesperado) inverso.

    Assumo que, à partida, não entrei na sala de cinema com grandes expectativas. A companhia era excelente, mas o filme não me dizia muito, a julgar pelo trailer e pelo que se anunciava em termos temáticos: a angustiante perda (na e da vida) e o peso estagnante da solidão superados pelo encontro de uma idosa de 73 anos com um jovem de 18, com tudo o que de mais insólito se previa na relação.


     "Os Gatos Não Têm Vertigens", realizado por António-Pedro de Vasconcelos, aborda a força de uma amizade que salva vidas: a de um jovem com dificuldades, e desamparado na vida, mais a de uma triste viúva, que bruscamente perdeu a sua fonte de energia. Ambos enfrentam o dia-a-dia numa sociedade onde parece não haver tempo para nada e onde o dinheiro se tornou regra de ouro ou condição básica de sobrevivência. Uma nota de esperança surge quando, um pouco à semelhança de David Copperfield (de Charles Dickens), o espectador depara com um jovem que não se resigna e, depois de uma infância e adolescência difíceis, acaba por vencer na vida pela escrita, graças à ajuda recebida de um outro alguém que lhe deu de comer, o acolheu, o "leu", num encontro improvável e inesperado.
     Com argumento de Tiago Santos, as personagens Jó (João Jesus) e Rosa (Maria do Céu Guerra) precisam apenas de um terraço para construir um universo de afetos, capaz de ultrapassar o desencanto do rapaz e a história triste de quem acabou de perder subitamente o companheiro (Joaquim, interpretado por Nicolau Breyner) de uma vida, de uma existência pautada de lutas e resistências várias. Nas diferenças de cada personagem, há uma base comum: a clandestinidade do amor, que vai ser conjuntamente descoberta e cimentada pelos comportamentos, pelas confidências, pelos compromissos, pela linguagem e pela cumplicidade cómica (tantas vezes reproduzida num "És tão disparatado!"). Dela, também, Ana Moura dará conta, musicalmente, enquanto voz do tema principal da banda sonora:

Fado-canção "Clandestinos do Amor", da banda sonora do filme 
(interpretado por Ana Moura e escrito por António-Pedro de Vasconcelos)

CLANDESTINOS DO AMOR

Vivemos sempre sem pedir licença
cantávamos cantigas proibidas
Vencemos os apelos da descrença
que não deixaram mágoas nem feridas

Clandestinos do Amor, sábios e loucos
vivemos de promessas ao luar
Das noites que souberam sempre a pouco
sem saber o que havia para jantar

Mas enquanto olhares para mim eu sou eterna
estou viva enquanto ouvir a tua voz
Contigo não há frio nem inverno
e a música que ouvimos vem de nós

Vivemos sem saber o que era o perigo
de beijos e de cravos encarnados
Do calor do vinho e dos amigos
daquilo que para os outros é pecado

Tu sabias que eu vinha ter contigo
pegaste-me na mão para dançar
Como se acordasse um sonho antigo
nem a morte nos pode separar

Nós somos um instante no infinito
fragmento à deriva no Universo
O que somos não é para ser dito
o que sente não cabe num só verso

Enquanto olhares para mim eu sou eterna
estou viva enquanto ouvir a tua voz
Contigo não há frio nem inverno
e a música que ouvimos vem de nós


     Trata-se de uma bela película, a dar conta do desprendimento que uma idosa divertida (no espírito e na vida vivida) pode assumir, para se revelar e se sentir útil junto de um jovem marginalizado. Curiosamente, num filme com interpretações de grandes atores (Maria do Céu Guerra, Nicolau Breyner, Fernanda Serrano, Ricardo Carriço), há a revelação de um jovem ator (João Jesus) que se impõe entre os veteranos com a qualidade da continuidade. Todos jogam para uma história em que os jovens (gatos) arriscam, desafiam, "não têm vertigens"; também alguns idosos não as sentem, ora porque dão de comer "aos gatos" (no terraço) ora porque também procuram ter tempo, ter projetos, ser úteis ao mundo - depois do tanto por que lutaram e viveram.
     No cómico de situações e de linguagens apresentado, o espectador sai do filme com o bem-estar e a sensação de que o mundo pode ser melhor, porque feito de humanidade, de afetos e de possibilidades decorrentes de encontros felizes.

    Porque os bons são premiados e os maus da fita denunciados; porque pode haver justiça (nem que seja apenas na ficção); porque pode haver felicidade independentemente da idade e dos caminhos que nos fazem cruzar com tristezas e/ou com aparentes alegrias..., há filmes que, na seriedade do enredo, não perdem a leveza que nos faz sentir bem. Este é um deles.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Verão... com 'Chuva'

    Até podia ser a condição do dia; é mais um dia na condição da chuva.

    Da janela, vejo as poças de água que se formaram na noite. A chuva voltou para molhar o verão.
    O ar cheira a fresco; está lavado o chão. Sujo só o céu, com as nuvens que ameaçam a luz do dia com borrões de um cinza que só o sol consegue fazer esquecer.
     Vem, então, a lembrança... de uma canção... na letra e no som.

"Chuva", fado de Jorge Fernando, interpretado por Mariza

            CHUVA

As coisas vulgares que há na vida
Não deixam saudades
Só as lembranças que doem
Ou fazem sorrir

Há gente que fica na história
da história da gente
e outras de quem nem o nome
lembramos ouvir

São emoções que dão vida
à saudade que trago
Aquelas que tive contigo
e acabei por perder

Há dias que marcam a alma
e a vida da gente
e aquele em que tu me deixaste
não posso esquecer

A chuva molhava-me o rosto
Gelado e cansado
As ruas que a cidade tinha
Já eu percorrera

Ai... meu choro de moça perdida
gritava à cidade
que o fogo do amor sob a chuva
há instantes morrera

A chuva ouviu e calou
meu segredo à cidade
E eis que ela bate no vidro
Trazendo a saudade 


   Numa composição (letra e música) de Jorge Fernando, a voz de Mariza compõe o choro que surge numa cidade cujo mar lembra o salgado.

   Do choro do tempo ao choro da alma, a luz do dia fica claramente ofuscada, na ânsia de um clima melhor ("Há dias que marcam a alma!"), para condizer, no mínimo, com o verão já entrado no calendário.

domingo, 27 de novembro de 2011

Mais um português do e no mundo

       Declarado hoje, pela UNESCO, em Bali (Indonésia), como Património Imaterial da Humanidade, o fado é mais um exemplo do contributo idiossincrásico português; uma marca da voz, da música e das vivências humanas para o mundo.

    No VI Comité Intergovernamental da UNESCO, afirmou-se mais um sinal português composto de universalidade, pelo cruzamento com outras culturas; pelo romantismo que traz das suas origens ao sentir que faz da vida uma realidade sempre única, sensível, singular.
   A consagração da música, de um legado cultural, de um registo emotivo distribuído no tempo (e no espaço) cumpriu-se, depois de já a ter aqui mencionado.
     O nosso fado é do mundo.
     Vida, voz - poesia, som e fado do mundo.


      Não sei se é 'fatum' nacional viver tanto quanto o necessário para alimentar este género musical; porém, se nele se afirma algum do nosso papel no mundo, que se cultive a música, a poesia, a voz capazes de projetar o que há de mais tradicional e marinheiro ao mais corrido, vadio, boémio e brejeiro, para não falar do acadé-mico (que não foi contemplado, por ser indicador de uma outra candidatura a património mundial: a da universidade de Coimbra) e inovador no que a vida propõe de mais intenso.
O Fado
Quadro de José Malhoa
(1910)

      Canção da vida, da emoção, de perdas e ganhos,da alegria e da sua intensa negação, nela há prisão e libertação - solidão, saudade, nostalgia, ciúme; mágoas passadas e do presente; inspiração para a esperança e o futuro.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

É fado!

   Em tempos de candidatura do fado a património imaterial da UNESCO, apresentada pela Câmara Municipal de Lisboa em 2010, muito se discute a origem dele.

    Quanto à origem da palavra, fado tem a força do destino (do latim 'fatum'); quando à composição musical, diz o povo que vem dos cânticos dos Mouros, dos que se ficaram na Mouraria. 
    A sonoridade da dolência e da melancolia parece não ter registo musical anterior ao século XVIII, o que faz deste saber popular um dado a comprovar.Todavia, quem ouve um cântico muçulmano - na plangência, no trinar, no torneado sonoro e na intensidade agudamente sofrida da voz que se arrasta na melodia - não pode deixar de sentir a aproximação a um passado, a uma herança que pode (na influência recebida e no 'melting pot' histórico e cultural de que também somos feitos) ter alimentado uma plataforma para a novidade e a criatividade de um género musical tão português.
    Esta foi a sensação com que fiquei depois de ouvir um fado cantado por Raquel Tavares (grande voz portuguesa), acabado de chegar de Marrocos, onde me cruzei com alguns registos desses cânticos.
    A beleza deste fado (na letra de Eduardo Olímpio, na música de Paco Bandeira, na interpretação de Raquel Tavares) é inegável.

Fado de Eduardo Olímpio e Paco Bandeira, para a voz de Raquel Tavares

FALA DA MULHER SOZINHA
(no álbum Bairro, de 2008)

Já estou farta de estar só
Acompanhada de nada
Já estou louca de ser rua
Tão corrida tão pisada
Já estou prenhe de amizade
Tão barriga de saudade

Ai eu ainda um dia irei rasgar a solidão
E nela entrelaçar
O olhar de uma canção
Chegar ao cume, ao cimo, ao alto
Mais longe e mais além
Mas a saber que sou alguém

Na cidade sou loucura
Sou begónia sou ciúme
E eu que sonhava ser rua
Caminho atalho lonjura
Não tenho assento na festa
Sou a migalha que resta.


   Cântico ao sabor da voz sofrida, saudosa da mulher, qual cantiga de amigo que, na tese arábica, via nas 'hardjas' muçulmanas uma das suas fontes culturais comuns, de raiz indo-europeia.

domingo, 1 de agosto de 2010

Poesia, voz e fado

   Para lembrar que "Há palavras que nos beijam".
  
    Nos versos de Alexandre O'Neill combinam-se os sons e a voz que Mariza faz chegar aos nossos ouvidos, na composição musical de Mário Pacheco. Assim se casa poesia, voz e fado.


          Há palavras que nos beijam

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.


De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.


(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)


Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Alexandre O'Neill, in No Reino da Dinamarca (1958)

      A mesma composição surge com um outro casamento vocálico e rítmico, que pode ser encontrado neste fado de Cristina Branco:


      Em cinco quadras de verso livre, alguns a rimar e outros nem por isso, ressalta uma linguagem acessível na apologia das palavras, das que são portadoras dos sinais de afetividade e felicidade; das que não dão lugar ao desgosto; das que materializam "O nome de quem se ama" (independentemente do suporte).
        Entre a expressão do bem e o sentido de liberdade, surgem as palavras positivas, como se de amor, de poesia e de magia se tratasse. E na confluência destes há cor, sensações que libertam / valorizam o Homem.

       Mais uma razão para se passar "Das palavras aos actos" (que, feitos de palavras que nos beijam, são menos moralistas e mais afectivos).

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Povo, Pessoa e Fado

   Palavras de um poeta na voz de uma fadista.

   No cenário mítico de Belém, um dos sinais dessa Lisboa (pre)destinada ao "Quinto Império".


Há uma música do Povo,
Nem sei dizer se é um Fado
Que ouvindo-a há um ritmo novo
No ser que tenho guardado

Ouvindo-a sou quem seria
Se desejar fosse ser
É uma simples melodia
Das que se aprendem a viver

Mas é tão consoladora
A vaga e triste canção
Que a minha alma já não chora
Nem eu tenho coração

Sou uma emoção estrangeira,
Um erro de sonho ido
Canto de qualquer maneira
E acabo com um sentido!


                                                              Fernando Pessoa

   O tópico da música, pela harmonia e pela fluidez que sugerem, é para Pessoa um traço do universo idealizado, da inconsciência (pretendida) liberta dos sentidos. É a entrada para o plano do "sou quem seria / se desejar fosse ser". Porém, como ser não é desejar, é existir, a música é ouvida (captada pela dimensão física dos sentidos) e processa a transformação no ser: caminha da existência e consciência limitadoras para a essência, a alma inconsciente e libertadora. O coração, o sentimento, a emoção dão lugar à intelectualização do sentir ("uma emoção estrangeira") - não a emoção vivida, mas uma outra, imaginada, feita do "sentir com a imaginação". E, assim, o fingimento poético se afirma -  na construção de uma alternativa ao real.

   Silêncio: porque se cantou e orquestrou o fado, com voz alada, sobre um terraço virado para o Tejo (e sobre esse "outra coisa ainda. /Essa cousa é que é linda!", como o diria Pessoa em 'Isto').

quarta-feira, 18 de março de 2009

Poesia, Som e Voz(es) em Pessoa(s)

    Entre o terreno do sensível e as alturas do inteligível, entre o sentido da pluralidade colectiva e a singular unicidade, constrói-se a diversidade na unidade.

      Imaginário(s), espaço(s), voz(es) e Pessoa(s).

Interpretação do poema pessoano "Do vale à montanha" por Mariza (Cavaleiro monge)

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por casas, por prados,
Por quinta e por fonte,
Caminhais aliados.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por penhascos pretos,
Atrás e defronte,
Caminhais secretos.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por plainos desertos
Sem ter horizontes,
Caminhais libertos.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por ínvios caminhos,
Por rios sem ponte,
Caminhais sozinhos.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por quanto é sem fim,
Sem ninguém que o conte,
Caminhais em mim.

24-10-1932
Fernando Pessoa, in Poesias de Fernando Pessoa
Edições Ática

      A elevação, a ascensão que se faz do sopé, do vale à montanha; a figuração do múltiplo da montanha na unidade do monte; a visão do coletivo no singular são percursos que Pessoa poetizou. Caminhou no sentido de uma espiritualidade de que o cavaleiro monge é símbolo; percorreu caminhos que não existem (senão na imaginação por ele sentida), que têm um sentido e o seu contrário. Dir-se-ia tratar-se de um percurso iniciático, no qual os obstáculos são provas para a superação e a transcendência necessárias à condição absoluta de felicidade.
    E, assim, cavaleiro e cavalo de sombra (que de real nada tem) "caminham" aliados, secretos, libertos, sozinhos, em mim. Esta a progressão das estrofes, sublinhando-se a dimensão de uma inconsciência que o eu-poético quer em si (enquanto sinónimo de idealização e de plenitude que mais parecem fruto de um "sentir com a imaginação"), até como forma de apagar o enleio da consciência, da realidade.
    Este é um poema com as linhas mestras da teoria de um fingimento artístico (sinónimo de criação), onde cabem o único e o múltiplo, a unidade e a diversidade, a realidade e a espiritualidade, a consciência e a inconsciência pessoanos.

     A conjugação perfeita da poesia, da voz, do espaço, da imagem - para um imaginário da espiritualidade.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Poesia, Som e Fado

      Há poesia que não é para ler...


      É som para escutar...
      Música para embalar
      E vida para compreender.


       Sentidos.
      Estas as palavras e a música de Custódio Castelo e Jorge Fernando, numa voz tão singular quanto o que é cantado.

Adeus ó minha gente
Vou fazer-me à dura estrada
Minh'alma ardentemente
Quer erguer-se e está prostrada;
Longe está meu horizonte
Uma luz resta-me ao longe
Qual fogueira em alto monte

Adeus ó minha gente

A quem vejo arrependidos
As mãos que me negaram

Já mas deram como amigos;
Mas dentro de mim arde

Um sossego abrasador
Do Alentejo em fim de tarde

Adeus ó minha gente

Venham ver-me à despedida
Nasci no lado errado

No lado errado da vida;
Partindo fico ausente

Nem memória vou guardar
Ai adeus ó minha gente


    As ausências, os desencontros da e na vida sempre foram expressão para um 'fatum' que só os portugueses conseguem interpretar musicalmente - daí a poesia, o som e o fado, para não falar da vida.