segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Um filme deliciosamente português

      Depois de uma experiência fílmica dececionante, chegou o (inesperado) inverso.

    Assumo que, à partida, não entrei na sala de cinema com grandes expectativas. A companhia era excelente, mas o filme não me dizia muito, a julgar pelo trailer e pelo que se anunciava em termos temáticos: a angustiante perda (na e da vida) e o peso estagnante da solidão superados pelo encontro de uma idosa de 73 anos com um jovem de 18, com tudo o que de mais insólito se previa na relação.


     "Os Gatos Não Têm Vertigens", realizado por António-Pedro de Vasconcelos, aborda a força de uma amizade que salva vidas: a de um jovem com dificuldades, e desamparado na vida, mais a de uma triste viúva, que bruscamente perdeu a sua fonte de energia. Ambos enfrentam o dia-a-dia numa sociedade onde parece não haver tempo para nada e onde o dinheiro se tornou regra de ouro ou condição básica de sobrevivência. Uma nota de esperança surge quando, um pouco à semelhança de David Copperfield (de Charles Dickens), o espectador depara com um jovem que não se resigna e, depois de uma infância e adolescência difíceis, acaba por vencer na vida pela escrita, graças à ajuda recebida de um outro alguém que lhe deu de comer, o acolheu, o "leu", num encontro improvável e inesperado.
     Com argumento de Tiago Santos, as personagens Jó (João Jesus) e Rosa (Maria do Céu Guerra) precisam apenas de um terraço para construir um universo de afetos, capaz de ultrapassar o desencanto do rapaz e a história triste de quem acabou de perder subitamente o companheiro (Joaquim, interpretado por Nicolau Breyner) de uma vida, de uma existência pautada de lutas e resistências várias. Nas diferenças de cada personagem, há uma base comum: a clandestinidade do amor, que vai ser conjuntamente descoberta e cimentada pelos comportamentos, pelas confidências, pelos compromissos, pela linguagem e pela cumplicidade cómica (tantas vezes reproduzida num "És tão disparatado!"). Dela, também, Ana Moura dará conta, musicalmente, enquanto voz do tema principal da banda sonora: 
      
Fado-canção "Clandestinos do Amor", da banda sonora do filme, interpretado por Ana Moura e escrito por António-Pedro de Vasconcelos.

CLANDESTINOS DO AMOR

Vivemos sempre sem pedir licença
cantávamos cantigas proibidas
Vencemos os apelos da descrença
que não deixaram mágoas nem feridas

Clandestinos do Amor, sábios e loucos
vivemos de promessas ao luar
Das noites que souberam sempre a pouco
sem saber o que havia para jantar

Mas enquanto olhares para mim eu sou eterna
estou viva enquanto ouvir a tua voz
Contigo não há frio nem inverno
e a música que ouvimos vem de nós

Vivemos sem saber o que era o perigo
de beijos e de cravos encarnados
Do calor do vinho e dos amigos
daquilo que para os outros é pecado

Tu sabias que eu vinha ter contigo
pegaste-me na mão para dançar
Como se acordasse um sonho antigo
nem a morte nos pode separar

Nós somos um instante no infinito
fragmento à deriva no Universo
O que somos não é para ser dito
o que sente não cabe num só verso

Enquanto olhares para mim eu sou eterna
estou viva enquanto ouvir a tua voz
Contigo não há frio nem inverno
e a música que ouvimos vem de nós


     Trata-se de uma bela película, a dar conta do desprendimento que uma idosa divertida (no espírito e na vida vivida) pode assumir, para se revelar e se sentir útil junto de um jovem marginalizado. Curiosamente, num filme com interpretações de grandes atores (Maria do Céu Guerra, Nicolau Breyner, Fernanda Serrano, Ricardo Carriço), há a revelação de um jovem ator (João Jesus) que se impõe entre os veteranos com a qualidade da continuidade. Todos jogam para uma história em que os jovens (gatos) arriscam, desafiam, "não têm vertigens"; também alguns idosos não as sentem, ora porque dão de comer "aos gatos" (no terraço) ora porque também procuram ter tempo, ter projetos, ser úteis ao mundo - depois do tanto por que lutaram e viveram.
     No cómico de situações e de linguagens apresentado, o espectador sai do filme com o bem-estar e a sensação de que o mundo pode ser melhor, porque feito de humanidade, de afetos e de possibilidades decorrentes de encontros felizes.

    Porque os bons são premiados e os maus da fita denunciados; porque pode haver justiça (nem que seja apenas na ficção); porque pode haver felicidade independentemente da idade e dos caminhos que nos fazem cruzar com tristezas e/ou com aparentes alegrias..., há filmes que, na seriedade do enredo, não perdem a leveza que nos faz sentir bem. Este é um deles.