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terça-feira, 7 de maio de 2013

Um cortejo de pesar

     Hoje foi a tarde do tradicional cortejo da Queima das Fitas do Porto.

   No meio da sensibilidade que a condição de luto impõe, a FADEUP (mais conhecida por FCDEF pelos estudantes) participou no evento, sabendo marcar presença e honrar a ausência física de um dos seus: Marlon Correia. Não estando, esteve sempre lá. 
   O momento foi emotivo, pelos silêncios, pelas palmas e pelos recatados olhares; com a cidade a saber reagir à fatídica e pesarosa realidade, dividida entre a circunstância festiva que se vivia e o sentido respeito pela memória de quem nela não se encontrava; com as diferentes faculdades a mostrarem-se solidárias, nas mais diversas formas de expressão de uma compungida saudade.


     Chegado o carro da FADEUP junto da tribuna, silenciaram-se os gritos, os motores, a animação. Poucos puderam resistir à lágrima que teimava em sair; muitos fizeram chegar ao céu o lamento, o pesar, a dor por uma vida que, na terra, se perdeu, não sem antes deixar uma mensagem que alguém leu:

Foto de Tiago Rodrigues Lopes (publicada no Jornal de Notícias, na edição do dia 08.05.2013)

     No fim, cumprido o percurso, partilhada a mágoa, deram-se os abraços sem o riso e a alegria que tantos reconhecem que um estudante da FADEUP oferecia e, se pudesse ser correspondido em presença, merecia.

    Entre o sol que apareceu e a chuva que caiu, compôs-se a tradição com a festa que Marlon por certo gostaria de ter vivido, se não tivesse havido alguém que insana e brutalmente o impediu.

sexta-feira, 22 de março de 2013

A um pequeno GRANDE HOMEM e ENORME PROFESSOR

     Há nomes tão grandes que não desmerecem as pessoas exemplares que os têm, por mais pequenas que nos surjam aos olhos.

     Lembro-me, enquanto estudante do ensino secundário, que era dos nomes mais citados sempre que se pretendia referenciar ou desenvolver algum trabalho sobre literatura. A História da Literatura Portuguesa era, então, título consabidamente conhecido entre os jovens que se orientavam para os cursos de Letras (como eram então conhecidos, na década de oitenta do século passado). Não quer isto dizer que os de Ciências o desconhecessem, mas havia já um sentido de identidade que os alunos dos cursos humanísticos assumiam na frequência com que ouviam falar tanto de António José Saraiva como de Óscar Lopes.
    Quando, em 1984, entrei para o curso de Línguas e Literaturas Modernas na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, voltei a deparar-me com o nome do Professor Doutor Óscar Lopes no momento de inscrição nos horários de Introdução aos Estudos Linguísticos. Ganhava aí a consciência da extensão maior de saber num homem: do historiador de literatura para o linguista. Copiava então um nome que já respeitava e que imaginava na grandiosidade física proporcional à imponência do saber. Verificado o horário da disciplina, mais o local, apresentei-me no anfiteatro pequeno da faculdade, então localizada na Rua do Campo Alegre, num edifício junto ao Jardim Botânico. A curiosidade era imensa: se a compatibilidade horária com outras cadeiras do plano de estudos de Português-Inglês me fez assistir e frequentar as aulas da Professora Fernanda Irene Fonseca (circunstância de que não me arrependo em absoluto), não pude deixar de me infiltrar num grupo que iria trabalhar com quem, à partida, eu gostaria de ter ficado mais tempo e mais perto.
     Recordo-me das primeiras linhas de apontamentos que tentei tirar, depois do espanto de ter visto entrar e ficar à minha frente um professor de pequena estatura, aspeto franzino, semblante aquilino e trato afável. Explicou a todos os presentes que tinha ido almoçar muito rapidamente à Alicantina e acabara por gizar, num pequeno e fino guardanapo de papel (entretanto retirado, e desdobrado, do bolso do sobretudo),  os tópicos para o tema de que ia falar: sinais e linguagem. E, para tal, nada melhor do que convocar experiências e conhecimentos de mundo.
    Tentei tirar apontamentos, sim,... tentei. Mas o assombro do que foi essa aula estava mais para apreciar o que ouvia do que para me perder na escrita. Cheguei mesmo a listar as ciências e/ou áreas de saber que foram evocadas naquela sessão de 120 minutos:  astrologia e astronomia, biologia, ciências náuticas, física, química, economia, geografia, sociologia, filosofia, medicina, música, pintura, arquitetura... Entre a angústia de pensar que era melhor registar o que ouvia (para não perder) e o prazer de escutar, de acompanhar os raciocínios e a argumentação produzidos, fiquei-me pela segunda.
    Repeti a experiência por mais cinco / seis lições, com o mesmo fascínio e, reconheço, a vontade de poder dominar só uma pequeníssima parte de todo aquele saber, conjugado com naturalidade e humildade capazes de motivar qualquer público.
     Nesta grandeza, explica-se como era possível encontrar o Professor caminhando no passeio da Avenida da Boavista, junto à parede das casas, sem qualquer nota de protagonismo e como que humildemente procurando proteção e generosamente oferecendo o espaço restante aos que com ele se cruzavam.
     Anos mais tarde, em maio de 1996, quis o destino que fizesse parte de uma comissão organizadora de homenagem a Óscar Lopes - o 1º encontro de professores de português (a língua mãe e a paixão de aprender), promovido pela Areal Editores no Salão Nobre da Câmara Municipal de Matosinhos. Dava eu aulas, nessa altura, na Escola EB2,3 de S. Pedro da Cova. Assim que o Professor o soube, pediu-me que ensinasse e fizesse o melhor que pudesse por aquelas gentes de que tanto se lembrava e estimava. Assim o quis fazer, por não poder ser por menos - nessa altura, Vasco Graça Moura, que nunca tinha sido aluno direto de Óscar Lopes e todavia sempre se sentira como se o tivesse, chamou-lhe "o Professor dos Professores" (expressão de correção e rigor).
      Com Óscar Lopes ficou-me uma máxima: "O sentir liberta-se quando o pensar está bem arrumado" [in Gramática Simbólica do Português (um esboço), Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1971]. Também, um princípio pedagógico-didático: "O aluno não precisa de saber exactamente para onde vai, mas o professor precisa; e, se o souber, descobrirá muito mais facilmente qual o modo mais adequado de interrogar, de estimular problemas interpretativos, e qual a melhor altura para inculcar as peças de raciocínio simbólico, e para, pouco a pouco, as articular com vantagens correlativas no domínio da precisão racional e no do apuramento da sensibilidade" (idem, pág. 8).
    Transcrevo aqui algumas das sábias palavras que ouvi há quase vinte anos e que (re)leio hoje na pertinência e no ajustamento de qualquer tempo:

      "Eu chamo a esta disciplina [falando do Português] uma superdisciplina, porque, no fundo, deveria coroar todo o ensino, ou toda a comunicação. É na língua materna que tende a confluir tudo o que se aprende, e por isso esta é, por excelência, a disciplina em que há sempre algo de novo, em que o professor, com a integridade dos seus dons, ultrapassa de longe o próprio programa. É preciso estar atento ao novo que se exprime literariamente, incluindo o mundo que se traduz em qualquer língua estrangeira (...). Por outro lado, a nossa gramática escolar tem de condizer com a mais exacta das nossas disciplinas, a matemática, que assenta não no algarismo (o algarismo decimal veio do Oriente, no século XII, com os Árabes - os Árabes! -, e só nos familiarizámos com esse sistema de numeração no século XVIII), mas nas operações mentais, que se realizam em qualquer das sete ou oito mil línguas do mundo. É indispensável que o professor de língua materna e o professor de cálculo formal (ou matemático) se compreendam um ao outro, porque, de contrário, somos nós que não nos entendemos, impotentes, perante uma grande manifestação de esquizofrenia real que já não pode vencer-se".
(Excerto da alocução do Professor Óscar Lopes,
no 1º encontro de professores de português - homenagem a Óscar Lopes,
2-3 de maio de 1996)

      Um Professor que teve a paixão de ensinar, pela paixão que teve com e pelas causas justas.
      RIP


domingo, 11 de julho de 2010

Ai que é já depois de amanhã!

       Não sei porquê, mas tenho a sensação de que vou fazer exame. Oxalá não reprove!

     No 1º Encontro 'A Linguística na Formação de Professores de Português' estava numa posição mais cómoda: a de espectador!
    Agora, vou ser espectador e comunicador. Espero que o seja com alguma "consciência". Impõe-se.
   Pretendo começar por dar conta de uma conversa que veio ao meu encontro no melhor dos momentos (Uma amiga dirá: nada é por acaso. E tem razão!).
    Aqui vai um pouquinho da comunicação:

    "... começo por partilhar um episódio recentemente experienciado.
    O local é uma feira do livro-outlet em Espinho. Aí captei uma conversa de dois interlocutores que se pronunciavam sobre o interesse da leitura e as vantagens desta para o melhor conhecimento da língua. Disfarçadamente procurei acompanhar o que era dito. Simulei o meu interesse por algumas páginas de livros avulsos, quando eram os ouvidos a deixarem-se levar por uma reflexão que me despertou a atenção pelo tema e pela preparação da comunicação para este encontro (que, então, se avizinhava). Mencionados alguns erros comuns na utilização da língua - como os familiares ‘bem-vindo (adjectivo, interjeição) / benvindo (nome)’, ‘traz (verbo) / trás (preposição)’, ‘comesse / come-se’, ‘adesão / aderência’), evoluiu-se para a discussão de estratégias na resolução de outros casos críticos. Um dos elementos dizia que, na escrita, tendia a substituir a palavra ‘ansioso’ por ‘perturbado’, por não conseguir «conscientemente» distinguir se na primeira devia grafar ‘s’ ou ‘c’; o outro lamentava que muitos dos nossos jovens separassem (cito) “os ‘mos’ dos verbos”, quando ele tinha aprendido uma regra fácil para evitar esse erro tantas vezes cometido: «Olhe, nada mais fácil que colocar o ‘nós’ antes do verbo, para saber que não devo separar o ‘mos’».

     Isto de contar conversas alheias não está a parecer comportamento lá muito virtuoso. Enfim!

    Tenho mais dois dias ...

sábado, 16 de maio de 2009

Porque não há duas sem três...

     No Auditório Cardeal de Medeiros da Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa, houve oportunidade para partilhar mais uma reflexão sobre o ensino da gramática.



     Bastantes professores de Português, todos na ânsia de saber algo sobre os novos programas do ensino básico, na partilha de reflexões sobre formas e modos de ensinar, de avaliar. Muitos abordam os comunicadores nos espaços ditos de intervalo: algumas angústias, algumas dúvidas, algumas dificuldades. Traçar caminhos, ultrapassar angústias, orientar para uma formação contínua responsável e séria, constatar a necessidade de pesquisar, de estudar, de saber mais.
    À lógica de experiências e comunicações já apresentadas, regista-se e recorda-se o que foi uma síntese do meu contributo, desta feita mais prolongado no tempo de comunicação. Destaque para tópicos de conversa centrados:
a) nos novos programas e na adopção de manuais escolares;
b) no Dicionário Terminológico (entendimento, funcionalidade, aplicação ao ensino);
c) em práticas de escrita e de ensino da gramática (articulação, gestão temporal, avaliação de desempenho e algumas evidências na progressão e evolução de competências dos alunos).

     Um (re)encontro sempre atento às necessidades docentes e a partilha de convicções, crenças, pistas de trabalho acerca do que o presente anuncia como futuro, não obstante alguns imponderáveis no trajecto e a consciência de que muitas questões colocadas se centram em tópicos que não podem ser tomados como novos.