Espera . Procura . Encontros, Desencontros e Reencontros . Passagem com muitas Viagens . Angústias e Alegrias . Saberes e Vivências . Partilhas e Confidências . Amizades sem fim
Já havia comentado esta leitura que certo jogador ("joga com a dor") e treinador ("treina a dor") de futebol (aqui, sim, é 'foot' e 'ball') faz com algumas palavras, segmentando o que não é segmentável.
A campanha da NOS recuperou o senhor (um pouco mais velho) com o mesmo jogo inconsistente (de palavras que não o são) - uma teoria em que só o "mister" Abel Xavier conhece, parece um "master", vende, expande (com os ganhos publicitários), sem ensinar ninguém.
Com anúncios destes pouco se aprende, linguisticamente falando (Foto VO)
Não é dor no que joga nem no que treina ou vende.
Para quem entender que se trata de criatividade, é, por certo, de fraca qualidade.
Em suma, não se atende nem se entende as dores que possam estar a ser criadas.
Em publicidade tudo vale, independentemente dos valores pedagógicos (que não são garantidamente considerados). Esta é a verdade. Quando um aluno assumir que um jogador é palavra composta, agradeçam à NOS.
Foi a vez de ouvir um "Porto Sentido", essa canção-hino de Carlos Tê e Rui Veloso (surgida no álbum Rui Veloso, de 1986), numa versão diferente, com várias vozes nacionais. Uma homenagem (mais do que merecida) da Rádio Comercial, ao jeito do que já fez para Carlos do Carmo, agora pelos quarenta anos de carreira de Rui Veloso, esse "Chico Fininho do rock português, cantor e intérprete de mão cheia que também é Manuel Gaudêncio (conforme o ditam os nomes do meio).
Versão de 'Porto Sentido', em homenagem aos 40 anos de carreira de Rui Veloso
É dessa letra-hino, cantada por populares 'de cor e salteado', que se faz esta versão tão nacional e tão emotiva. O 'Porto Sentido' - tanto na leitura da cidade que sente orgulho (pelo que é) como na do "milhafre ferido na asa" - é a expressão de uma invicta, de uma resistente, de uma urbe que "se estende até ao mar" e se faz mundo, apesar dessa posição segunda a que foi votada.
PORTO SENTIDO
Quem vem e atravessa o rio Junto à serra do Pilar vê um velho casario que se estende até ao mar
Quem te vê ao vir da ponte és cascata são-joanina erigida sobre um monte no meio da neblina.
Por ruelas e calçadas da Ribeira até à Foz por pedras sujas e gastas e lampiões tristes e sós.
E esse teu ar grave e sério num rosto de cantaria que nos oculta o mistério dessa luz bela e sombria
Ver-te assim abandonado nesse timbre pardacento nesse teu jeito fechado de quem mói um sentimento
E é sempre a primeira vez em cada regresso a casa rever-te nessa altivez de milhafre ferido na asa
Assim se projeta a "capital do Nuórte", com cantores nacionais (de vários géneros e registos) dando-lhe voz.
Uma "artista" fecha a versão: a mãe do cantor, a Srª. D. Emília Gaudêncio, que se "anuncia", com os seus 97 anos, no Coliseu.
Não começa da melhor forma o ano, para a música portuguesa (e do mundo).
Anunciada a morte de Carlos do Carmo, não se pode dizer que seja uma surpresa, dada toda a preparação da despedida artística em novembro passado, em concertos no Porto e em Lisboa. Feito o agradecimento público a quem o acompanhou como cantor, chegava o tempo de um afastamento e uma preparação para a hora que hoje se cumpriu. 58 anos de carreira sóbria, rigorosa e consolidada; 81 de idade são sinais de um percurso humano cuja previsibilidade pode ser confirmada, mas nunca desejada.
Dizem que foi o renovador do fado. Fosse este último interpretado mais ou menos como canção, teve sempre a sonoridade rítmica, vocal e instrumental típica que identificou Carlos do Carmo como fadista de renome. Também com a sua ação persistente, em muito contribuiu para que o fado conquistasse a categoria de Património Cultural e Imaterial da Humanidade pela UNESCO (numa declaração aprovada em novembro de 2011, no VI Comité Intergovernamental, em Bali, na Indonésia).
Aqui fica um registo do que foram as minhas primeiras memórias para esse grande intérprete nacional (e não só). Foi a experiência de um Festival da Canção Português, todo cantado por Carlos do Carmo. Algumas das cantigas concorrentes, não tendo vencido, acabaram por se tornar músicas para todo o tempo, em várias versões (o caso de "No Teu Poema", "Estrela da Tarde"). A vencedora, "Uma Flor de Verde Pinho", contava com a participação de Manuel Alegre (autor da letra) e José Niza (composição musical), versando já sentidos, símbolos e referências da cultura, história e literatura portuguesas (com as "flores de verde pino", de D. Dinis; os amores de Pedro e Inês; o "fogo amor" camoniano; o mar da diáspora nacional):
Versão de "Uma Flor de Verde Pinho" (no Festival RTP da Canção)
UMA FLOR DE VERDE PINHO
Eu podia chamar-te pátria minha
Dar-te o mais lindo nome português
Podia dar-te um nome de rainha
Que este amor é de Pedro por Inês.
Mas não há forma não há verso não há leito
Para este fogo amor para este rio.
Como dizer um coração fora do peito?
Meu amor transbordou. E eu sem navio.
Gostar de ti é um poema que não digo
Que não há taça amor para este vinho
Não há guitarras nem cantar de amigo
Não há flor, não há flor de verde pinho.
Não há barco nem trigo, não há trevo
Não há palavras para dizer esta canção.
Gostar de ti é um poema que não escrevo.
Que há um rio sem leito. E eu sem coração.
Assim se representou Portugal na Eurovisão, em Haia (Holanda), em 1976:
Versão de "Uma Flor de Verde Pinho" (no Festival da Eurovisão, em Haia)
Recentemente galardoado com o Grammy Latino de Carreira (2014), a Rádio Comercial prestou-lhe uma merecidíssima homenagem, convocando várias vozes nacionais de diferentes gerações para cantar um dos seus fados mais populares, dedicado à cidade que o viu nascer e morrer: "Lisboa, menina e moça".
Homenagem a Carlos do Carmo (numa feliz iniciativa da Rádio Comercial)
À hora da morte, sublinhados os valores profissionais e humanos, fica o sentido de uma grande perda coletiva perante um caminho artístico e humano bem cumpridos e largamente reconhecidos.
O jogo do Senhor Américo / Apontamentos Europa América tem efeito cómico, numa crítica a um auxiliar de estudo a que muitos estudantes recorrem para, em vez de ler uma obra, poderem saber qualquer coisa (mesmo qualquer coisa) sobre esta. Não é louvável a escolha e Ricardo Araújo Pereira (RAP) sabe-o bem. Denunciou-o numa rubrica transmitida pela Rádio Comercial, há cerca de seis anos, intitulada "Mixórdia de Temáticas" - uma concorrenciazita bem humorada, com o contributo e o registo do Senhor Américo (mais económico e acessível do que os próprios resumos). Ainda por cima, tudo feito a propósito do romance queirosiano Os Maias:
Montagem fílmica baseada em registos da 'Mixórdia de Temáticas' (2012)
Um apontamento que até pode dispor bem, mas que não serve o propósito do estudo, por certo. A nota de humor visa aqueles estudantes que, não gostando de ler obras literárias, também não perdem tempo com os resumos destas. E, assim, um clássico da Literatura Portuguesa é reinventado num uso de língua tão informal que, entre o dó e o riso, pouco tem de auxiliar.
Para quem conhece o romance, é possível entender o cómico, na perspetivação crítica fundamentada; para quem ainda não o leu, o (sor)riso fica-se pelo absurdo, pelo insólito, pelos comentários paralelos - humor superficial.
De novo, o interesse de ler o romance queirosiano impõe-se, quanto mais não seja para que se descodifique o humor convenientemente, no que tem de propósito e também de inusitado.
Uma rubrica radiofónica com alguma comédia e linguística à mistura.
Depois de tanta gente a dizer o verbo 'tar', em vez de 'estar', só me faltava ter o genérico de uma rubrica das Manhãs da Rádio Comercial a pedir ou a aconselhar "Não tejas medo' (ainda por cima sem a preposição 'com'). Por amor da santa (seja esta lá qual for)!
Ainda assim, lá vou ouvindo o "sábio" Amílcar (personagem interpretada por Bruno Nogueira, em modo de alentejano com grandes reflexões para a vida), não vá ele passar alguma mensagem tomada de sensatez e muita prudência
Segue-se um excerto da reflexão de hoje, entre o geográfico e a consciência morfológica:
Excerto de 'Não Tejas Medo' (Rádio Comercial)
Na comédia, fazem algum sentido a reflexão e o jogo acerca destes adjetivos relacionais outrora designados de gentílicos ou pátrios. Linguisticamente, numa perspetiva morfológica e/ou lexical, há pontos bem dissonantes na análise.
Não se pense que 'espanhol' é formado na língua portuguesa, a partir de Espanha (é proveniente da reconstituição latina *hispaniōlu-, diminutivo de hispānu-, «hispano»), ou que 'rissóis' poderia alguma vez derivar de 'Rússia'.
Dos suecos, diga-se que a origem etimológica se encontra na forma antiga 'suécio', numa adaptação vernácula entrada no português em pleno século XVI, entretanto reduzida, conforme atestado no século XIX. Nada a ver, portanto, com o sufixo '-eco', cujo uso, no português, se associa a derivação com sentido pejorativo (como em 'jornaleco' ou 'senhoreca').
Morfológica é a formação de 'marroquino', derivada de Marrocos e da sufixação com 'ino' (à semelhança de Argel > argelino, Tunis > tunisino, Alpes > alpino). Marreco tem origem tão obscura que, seja referência ornitológica seja sinónimo de corcunda ou matreiro, parece indecomponível. Que base derivante seria 'marr-' para se lhe acrescentar '-eco'? Há generalizações que, na certa ou na maior das probabilidades, dão erro morfológico.
Soaria insultuoso tratar o suíço (popularmente formado a partir de 'Suíça') por suíno (proveniente do latim suīnu-, e da origem etimológica sue-, «porco»), por mais que qualquer um deles seja base, sem sufixação na língua portuguesa (quando muito, o 'suíno' tê-la-á no latim).
Em suma, entre o que há de morfológico e o que à Morfologia não diz respeito, instala-se o cómico. Por mim, não acho é mesmo piada nenhuma ao "tejas". Como diz a letra da canção, "Sem alegria, eu confesso: tenho medo que tu me digas um dia «Meu amor, não tejas medo»".
O comentário que possa fazer não é novo, mas é de relembrar o que já foi aqui uma vez escrito o seguinte: a conjugação do futuro e do condicional, na língua portuguesa, resulta de um claro caso histórico-linguístico de composição, quando no período final do império romano se recorria a uma perifrástica constituída pela forma verbal de um infinitivo mais as terminações, respetivamente, do presente e do imperfeito do verbo latino habere. Uma marca que hoje persiste dessa antiga composição é precisamente a colocação de pronomes em mesóclise (isto é, no meio da forma verbal, entre a forma infinitiva do verbo e a sua terminação). Dir-se-á ou escrever-se-á (ei-lo em ação), portanto, com o pronome no meio da forma verbal, enquanto caso antigo de sintaxe transformado em morfologia - 'falar' no futuro é o resultado de falar + (h)ei, (h)ás, (h)á, (h)emos, (h)eis, (h)ão; no condicional, falar + (hav)ia, (hav)ias,(hav)ia, (hav)íamos, (hav)íeis, (hav)iam. Assim se explica, também, a comum terminação do futuro na terceira pessoa do plural (em 'ão'); a acentuação aguda do 'á', 'ás' frequente e erradamente confundida com casos de contração.
Reproduzo a imagem do registo feito na minha página de Facebook, pois, como antevia e avisava o meu colega, a situação pode acabar por posteriormente ser objeto de correção. Antes assim!
Na sequência da comemoração do Dia da Língua Portuguesa e da Cultura, há dois dias, fica para memória futura a canção da Rádio Comercial.
Numa versão da cantiga dos D.A.M.A ("Às vezes") e com a colaboração de Vasco Palmeirim, chegou aos ouvintes "Às Vezes (Escuto e Observo Erros de Português)" - uma ideia criativa para lembrar que não se deve maltratar o Português. Assim se ouviu uma letra útil em registo paródico naquele que foi o dia promovido pela Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) para a celebração do idioma que a une e a justifica:
E porque a rir se dizem grandes verdades, fica uma combinação interessante do "top" dos erros que grassam por aí na escrita e na fala do idioma de Camões. Muitos são os exemplos comuns às chamadas de atenção formuladas nas aulas de Português.
Outros casos poderiam ter sido considerados. Por exemplo, o verbo 'METER' em tudo quanto é sítio, sem que tal seja possível. Lembro-me também, por exemplo, de ainda há poucos dias ter alertado, por mais de uma vez e para grande espanto de alguns alunos, que a expressão "ter A VER com" nada tem a ver com o verbo HAVER. Normalmente, a primeira aparece mal grafada, até por os falantes tenderem a produzir mal a respetiva realização sonora (abrindo o som [a], o que não deveria acontecer).
Seja esta letra de canção decorada como muitas outras e haverá a esperança de que alguns destes erros não sejam mais cometidos.
É com este título que acordo no fim de semana, a propósito do evento Escritarias.
Fundado em 2007 na cidade de Penafiel, este sucesso cultural tem vindo a afirmar-se anualmente pelos discursos artísticos promovidos fora dos circuitos habituais associados à homenagem de autores da cultura, literatura e da língua portuguesa. Nomes como Urbano Tavares Rodrigues, José Saramago, Agustina Bessa-Luís, Mia Couto e António Lobo Antunes juntam-se ao de Mário de Carvalho, este ano o indicado como autor inspirador de um grande número de iniciativas pela cidade.
A par dos grandes nomes literários, outros surgem como o do jornalista Mário Galego, premiado com a reportagem radiofónica "Ser Português" (Antena 1). A este propósito fica aqui o registo do que pode bem ser objeto de trabalho didático, em termos da compreensão oral (para escuta ativa) e/ou de eventual integração noutras dinâmicas de trabalho relativos ao ensino da língua (na sua relação com o escrito, por exemplo).
Em cerca de doze minutos, resume-se o percurso realizado pelos repórteres Rita Colaço e Mário Galego, durante o mês de junho, desde o Gerês até Vila Real de Santo António - sem deixar de passar pelos Açores e pela Madeira.
Um caminho para a descoberta, tanto da inovação como da tradição, do que compõe esta condição de "Ser Português".
Um contributo para a nossa identidade cultural e, daí, um bom documento para utilizar nas aulas de língua, de literatura e de cultura.