Espera . Procura . Encontros, Desencontros e Reencontros . Passagem com muitas Viagens . Angústias e Alegrias . Saberes e Vivências . Partilhas e Confidências . Amizades sem fim
Fui convidado a ler, numa turma de 10º ano, um texto sobre o natal... tempo de nascer...
A proposta da Biblioteca AEML consistia num breve momento de leitura em todas as turmas, enquanto dinâmica enquadrada na feira do livro, mais a abordagem temática do natal e do nascer.
Ao final de uma primeira experiência, veio a segunda e, porque não há duas sem três, lá chegou mais uma.
Inscreveram-se as turmas que quiseram receber o(a) leitor(a). Eis que lhes surge o diretor... para ler.
Levei comigo o livro (Quinze Poetas Portugueses do Século XX, com seleção e prefácio de Gastão Cruz), apresentei o autor (Jorge de Sena), pedi que me dissessem se o poema trazido tinha alguma coisa a ver com o natal, o nascer; mas, acima de tudo, quis que partilhassem comigo a leitura a fazer.
Ensaiado um esquema de animação (escrita a palavra "BRILHA" no quadro; lida em voz alta e em coro, marcando a força, a vontade e a luminosidade que importa ter neste mundo; combinado o momento em que a diriam), foi só oralizar o texto:
"Uma Pequenina Luz", de Jorge de Sena, in Fidelidade (1958), com voz e vídeo de VO
No final, depois de partilharmos a voz na leitura, pronunciaram-se sobre a (in)adequação da escolha; refletiram sobre o que "nasceu" no momento viv(enc)i(a)do; explicaram aproximações e afastamentos de opiniões; concluíram que, no ato de ler, é possível a união, o gosto da emoção, o (re)nascimento do que vale na vida.
Tiveram cinco minutos (talvez dez) de, espero, luz com a poesia.
Também eu vivi a luz, o calor, o gosto de estar na sala de aula, com todos eles. Esqueci dores, agruras, urgências, sufocos e senti que todos merecemos experienciar momentos destes mais vezes.
O inverno é certo; o frio, previsível; chuva, neve ou sol, venha o que Deus quiser.
Tudo o resto, se não for de(o) bem, é escusado.
Do título ao texto
Composições natalinas ou natalícias, tanto faz!
Nasça a esperança de dias e noites melhores, para que a Humanidade acredite mais em si e no que de bom neles possa fazer. Com harmonia (rimada com alegria), compaixão (combinada com gratidão), caridade (concordada com generosidade), paz (dela seja o mundo capaz).
As mesas estavam primorosamente decoradas, à espera dos convivas. Há cinquenta anos estava um edifício em construção, ainda com a designação de "Liceu Nacional de Espinho"; hoje, num edifício requalificado entre 2008-2011, há um patrono a marcar presença na Escola Básica e Secundária Dr. Manuel Laranjeira:
Laranjeira no Natal de 2024 do AEML (composição fotográfica VO)
Rumo aos 50 anos de um tempo e de um espaço a celebrar (mais as pessoas que os viveram), o aroma do fruto (laranja) vem compor o paladar de um licor que tem na árvore (laranjeira) origem, estendendo-se, por jogo evocativo, ao patrono (Laranjeira). Da natureza ao nome próprio, há como que uma transmutação alquímica, sugerindo a criação do elixir da vida ou da imortalidade. Laranjeira, por lembrança e evocação, ganha vida eterna ou prolongada.
Se, na língua portuguesa, "alquimia" vem do latim alkimia, por sua vez proveniente do árabe al-kimiya (significando "a química"), não será de esquecer que, no grego antigo, khemeía significava "fusão de líquidos".
Nada como ver no licor de laranja o adocicado sabor que Laranjeira, na vida, não deixou de acidular.
Há gestos a dar cor à vida e a alimentar o espírito de Natal. E não só!
São gestos de generosidade que só aumentam a gratidão que sempre terei para quem me acompanha no dia-a-dia (pode quase dizer-se da abertura ao fecho dele).
Marcam a sua presença também agora na minha mesa da sala, bem mais bonita, pelo recheio de cores e sabores da amizade e do carinho sentidos:
Uma mesa muito bem "arranjada" (Foto VO)
A todos eles (... sabem bem quem são...) um Natal muito feliz, com umas melhores entradas no novo ano. Mais um para estarmos juntos.
Desde sempre, até lá e depois da(s) festa(s), o contínuo reconhecimento e agradecimento pelo bem que fazem a muitos. E a mim, particularmente.
Nas assonâncias e dissonâncias da língua, nas lógicas analógicas do pensamento, nas afinidades e nos contrastes poéticos inspirados nas regularidades e irregularidades da vida, escrevo:
Votos natalícios (Foto e texto VO)
Cumpra-se o que é preciso para lidar com os dias imprecisos e tenha-se a certeza do melhor que se faz para os tempos incertos.
De noite ou de dia, o Natal na cidade traz um pouco de alegria.
Mesmo quando o cinzento no clima dos dias se impõe, parece haver sempre um apontamento a dar cor e animação:
Montagem de fotografias com sinais natalícios de Espinho (VO)
A semelhança de outros apontamentos, chegou mais este para mostrar como foi decorar a festividade nas ruas e praças, com a magia natalícia. Não vi o Pai Natal, mas pode ser que ainda deixe qualquer coisinha na bota cá de casa.
Só faltou a paz mundial que a época prenuncia, mas os homens renunciam.
O brilho da noite faz-se de colorido luminoso, como se o maravilhoso do natal apagasse o tempo de guerra que se vive e a crise sentida dentro e fora de portas.
Montagem de fotografias com sinais natalícios de Espinho (VO)
APONTAMENTOS DA CIDADE
A cidade está aí,
com as estrelas que nos guiam;
as renas soltas, livres dos trenós;
um presépio em cascata;
árvores sobreviventes a brilhar,
como se fossem pinheiros;
um banco em jardim de luz,
à espera de quem nele se sente;
uma onda iluminada
em rua que chega a praça;
quadrados em desalinho
à espera de quem neles alinhe.
Está para vir o Pai Natal,
em qualquer cor,
para que neles se vejam todos
os que são feitos de amor.
Virá o inverno, depois deste outono chuvoso e frio que se faz sentir nos últimos dias. O ciclo cumprir-se-á em primavera e verão. Veremos como o Homem lidará com o espaço e o tempo sem esquecer as pessoas que o fazem.
Que a cidade saiba resplandecer no calor da humanidade.
Repete-se, sempre que é possível juntar amigos, ainda que à distância desejada para o bem de todos.
A vontade dos abraços é grande, os sorrisos e as gargalhadas estão mais contidos, mas escapam sempre aqueles ou aquelas que aquecem o momento.
O convívio é controlado, mas o instante das trocas de prendas é sempre o mais confuso, por causa do entusiasmo de dar e receber - trocar na vontade do que se fez, do que se comprou, do que se escolheu para o(s) outro(s) que faz(em) parte de nós. É como se revivêssemos esse tempo genuíno da infância e da ânsia de descobrir o que está dentro do embrulho. Rasga-se o papel, abrem-se os sacos, revela-se o que é, agradece-se e promete-se que, no próximo ano, vamos repetir tudo bem juntos (o que já é impensável não acontecer).
Veio a "Prenda natalícia", como muito mar (que rima com amar - esse sal de vida a temperar a amizade). O verdadeiro natal é estar(mos) junto(s) e dar o que saiba a mar:
Um natal tão típico no atípico que foi - montagem de fotos (VO)
Com Covid, sem Covid, não interessa. Desde que aconteça! (A trabalheira que me deu ir à praia, apanhar conchas e substituir aqueles típicos papeluchos a indicar 'De:...' e 'Para:...'! Que me perdoe o comércio destes tempos, mas gosto mais, é mais natural e também gratuito. Escreve-se o nome dos amigos e sempre se dá uma prenda com um pouco de praia, de mar, a lembrar verão, nestes dias de inverno).
Já lá vão três dias; mas Natal é quando o Homem quiser (na companhia daqueles com quem queremos conviver)!
Aquele momento em que estás a chegar a casa e parece que estás no estrangeiro!
Não fugi por causa da sexta-feira 13 (não sou parascavedecatriafóbico). Em mais um dia de trabalho, no regresso a casa, deparo-me, numa rotunda à entrada da cidade, com um técnico a arranjar as luzes de... Xmas!
Uma rotunda "Xmas" entre as muitas que deixaram de ter "Feliz Natal" - (Foto VO)
Lá se vai o Natal (feliz) e o Ano Novo (próspero). Digamos que, assim, o vocabulário fica muito mais internacional e sempre dá aquele toque de ser mais "chique" (porque no e do estrangeiro é que é bom)!
Lembro-me, então, dessa figura ridícula e exibicionista que é a personagem Dâmaso Salcede, de Os Maias (1888). Nela depositou Eça de Queirós toda uma súmula de vícios - da mesquinhez, à mentira, à desfaçatez, ao provincianismo que a todo o momento faz "estalar o verniz". Tem como preocupação fulcral na vida o "chique a valer"! Arvora-se em galante e apreciador de tudo o que é requintadamente parisiense (ou francês). Não tem morada; tem 'adresse' (à Paris, bien sûre):
Representação de Dâmaso Salcede (cartoon)
"Pois eu assim que posso, é direitinho para Paris! Aquilo é que é terra! Isto aqui é um chiqueiro... Eu, em não indo lá todos os anos, (...) até começo a andar doente. Aquele Boulevarzinho, hem!... Ai, eu gozo aquilo!... E sei gozar, sei gozar, que eu conheço aquilo a palmo... Tenho até um tio em Paris. (...) É um homem de barbas brancas... Era irmão de minha mãe, chama-se Guimarães. Mas em Paris chamam-lhe Mr. de Guimaran..."
(cap. VI, Os Maias)
Agora o novo-riquismo e os vícios nacionais do primeiro quartel do século XXI são mais para o inglês (ora o "british" ora o do "uncle Sam"). Não é Paris, mas será a terra de Sua Majestade ou os "eStates".
Há por aí uns Dâmasos mais anglicistas que também acham a sua língua um "chiqueiro", a troco de um "Xmas" iluminado com as cores de um internacionalismo balofo! Tudo tão inchado, enchido e postiço! (E logo eu, que tenho uma costela anglófona).
Talvez pelas compras, pelos presentes, pelas filas nas lojas, pela azáfama dos preparativos do jantar ou da ceia. A iluminada reunião far-se-á, contudo, na noite escura que chegará. Com mais ou menos embrulho, saco ou laçarote colorido, os fumos das cozeduras mais os cheiros das frituras e doçuras estão para aparecer e animar as casas, cujas janelas embaciadas piscam à luz dos pinheiros enfeitados ou dos candeeiros da rua acesos.
Hoje, com os votos de boas festas, dou a saber que me cruzei com o Pai Natal:
(Re)Encontro com o Pai Natal,
pelas ruas de Espinho (Foto VO)
Cruzei-me com o velho Pai Natal
numa concorrida rua de Espinho.
No vermelho e branco do mural,
faltava o verde tom do azevinho;
não o da esperança, tão especial,
adocicada de calor e de carinho,
no seio de família una, tão igual
à que de Nazaré a Belém fez caminho.
Assim (re)nasce o menino, afinal:
a todo o tempo, com pão e vinho, festeja-se, em espírito fraternal, a vinda de novo ciclo, tão alvinho quanto o inverno queira dar sinal.
Não vi as renas, não trazia prendas para ninguém, piscava-me o olho e fazia-se pintado de um pensamento a lembrar presença e família.
Preparando a noite da consoada, sejam a presença e a família razões para ela ser mais celebrada. BOM NATAL!
Aquele momento em que te pedem para fazer troca de prendas na aula.
Dizem que é a magia do tempo, a forma de sedimentar laços... talvez um modo de construir memórias para lá destes dias. Surge, então, aquele instante no qual se dá expressão ao nascimento de algo mais importante do que as caixas, os laços, os papéis coloridos que envolvem um objeto mais ou menos igual a muitos outros vendidos ou comprados numa loja qualquer:
Encontro com o Pai Natal - I (Foto VO)
Encontro com o Pai Natal - II (Foto VO)
Com agradecimento à IC, IS, BR e LR
Chegou-me às mãos e aos olhos, em múltiplos sorrisos, um postal num envelope dourado, com uma mensagem que só nós entendemos. Foi uma belíssima prenda de natal! Daquelas que são nossas, que têm a marca de vivências cúmplices, que se fazem com aulas e fora delas.
Com o agradecimento especial àquelas a quem "martelo" todos os dias (bem..., na verdade, só alguns) para que me deem o que têm de melhor. E não é que o deram!
Pelo que tenha de bom e pelo que faça lembrar do que não é / tem.
Repete-se um tempo que, entre a exceção e os excessos, pouco tem tido do muito que devia mais ser. Daí ser época a conjugar encantamento, magia e luz com tristeza, desilusão e perda. Assim persiste e resiste uma festividade que, no brilho, no regalo e no conforto, muito tem do lúrido real da pobreza, da solidão e do abandono. Entre o canto e o desencanto, o deus menino tudo isto espelha, tanto no nascimento como na morte.
Um presépio em Espinho, com os espinhos da vida (Composição fotográfica VO)
Esteve sempre nas mãos do Homem a hipótese de tudo ser diferente. Assim se manterá para futuro tal condição. Bom seria que neste Natal nascessem sinais da esperança, para que, cada vez mais, a luz permanentemente encandeasse o que de pior o mundo tem.
Ainda assim, como dizem a música de Assis Valente (desde 1933) e a voz de Bethânia (desde 2008, com o CD "Natal Bem Brasileiro") em toada do Brasil, "Anoiteceu".
Vídeo com a versão, cantada por Maria Bethânia, de "Boas Festas"
BOAS FESTAS
Anoiteceu, o Sino Gemeu
A Gente Ficou Feliz a Rezar
Papai Noel, Vê Se Você Tem
A Felicidade Pra Você Me Dar
Eu Pensei Que Todo Mundo
Fosse Filho De Papai Noel
Bem Assim Felicidade Eu Pensei
Que Fosse Uma Brincadeira De Papel
Já Faz Tempo Que Pedi
Mas o Meu Papai Noel Não Vem
Com Certeza Já Morreu Ou Então
Felicidade É Brinquedo Que Não Tem.
Com música, até parece que "Papai Noel" ainda vem (não da Lapónia, mas das terras de Vera Cruz).
Pelos vistos, a tradição já não é o que era, no que ao clima diz respeito. Quanto à época festiva, parece-se cada vez mais com o que não devia ser - fruto dos tempos, que talvez possam mudar quando se der menos importância ao que nada vale. As corridas desenfreadas, as compras que nem sempre trazem felicidade e os excessos que dão em indisposições... Desencantos persistentes.
Desejo o regresso às origens e ao (re)nascimento de um tempo mais virtuoso, tal como o poeta:
Presépio exterior, frente à Capela da Nossa Senhora da Ajuda - Espinho
(Clicar na imagem para ler o poema, de Miguel Torga) - Foto VO
Com paz, sossego, descanso e com sol, assim recomendo este dia de natal: mais primaveril, de luz e azul (porque junto ao mar). Um natal mais natural e menos desigual.
No meio de tantos votos, mensagens e motivos de Natal, rendi-me à partilha de um pequeno filme com o boneco de neve Olaf (de Frozen), para que a quadra não passe em branco - por mais branco que o frio cenário do evento convoque:
Funny Frozen Xmas
(in https://www.youtube.com/watch?v=jwrHom-Wepw)
Com a nota de algum cómico, formulo, portanto, os votos de um Natal feliz para todos os que passeiem nesta carruagem e nela encontrem algum calor e espaço / tempo de viagem nesta vida.
..., talvez seja melhor rir, para alguma alegria mostrar.
Vendo os que correm atrás da(s) última(s) compra(s), são também visíveis os que não saem à rua nem vão atrás dela(s); os que não correm porque permanecem deitados sobre um cartão (talvez de uma caixa de encomendas desses bens que outros compram numa loja qualquer), na melhor das hipóteses sob um cobertor, a esconder o frio, a fome e a vergonha.
Então recordo a voz de Paulo de Carvalho, a música de Fernando Tordo e os versos de Ary dos Santos:
Vídeo de Fernando Filipe, para uma versão de "(Natal) Quando o Homem Quiser"
QUANDO UM HOMEM QUISER
Tu que dormes à noite na calçada do relento
numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
és meu irmão, amigo, és meu irmão
E tu que dormes só no pesadelo do ciúme
numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
e sofres o Natal da solidão sem um queixume
és meu irmão, amigo, és meu irmão
Natal é em Dezembro
mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
é quando um homem quiser
Natal é quando nasce
uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto
que há no ventre da mulher
Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
tu que inventas bonecas e comboios de luar
e mentes ao teu filho por não os poderes comprar
és meu irmão, amigo, és meu irmão
E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
és meu irmão, amigo, és meu irmão
Ary dos Santos, in As Palavras das Cantigas
([1989] 1995)
Outras versões (e outras vozes) noutros tempos... e permanece o natal que já antes existia:
Versão do projeto musical 'Rua da Saudade'
(Gentes da Gente, numa montagem de César Azeitona)